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Resenhas


Jornalismo Brasileiro

Por Paulo Sergio Pires

As obras publicadas sobre jornalismo no Brasil têm enfocado três ângulos: história factual dos sistemas informativos, o memorialismo dos seus protagonistas e a recuperação profissional/didática das experiências peculiares a processos específicos. Mas há uma nova corrente acadêmica que aborda a análise do discurso jornalístico ou traça o perfil sócio-político de certas situações, porém são fragmentadas e descontínuas.

A obra do professor-doutor José Marques de Melo pretende investigar articuladamente a história recente do jornalismo brasileiro em exercício. Também a compara com outros períodos históricos para entender sua cultura específica, com absorção de padrões modernos importados dos grandes centros produtores.

No entanto, o autor não abandona as tradições tipicamente brasileiras na produção e difusão de notícias.
Barbosa Lima Sobrinho, citado por Marques de Melo, foi o primeiro autor no início do século XX a se preocupar com a imprensa e a política. Sobrinho nota a superação das estruturas arcaicas ligadas a interesses de partidos e do governo, e observa criticamente a adoção de padrões em conformidade com os da economia de mercado. Ou seja, harmonizando os interesses de leitores, anunciantes e líderes políticos.

Essa postura impede a participação estrangeira na propriedade de empresas jornalísticas, inclusive no pós-guerra na fase de grande desenvolvimento. Mas as técnicas modernas do jornalismo não deixaram de ser importadas.

Apesar da língua comum, o jornalismo português e brasileiro têm identidades bem distintas. O jornalismo brasileiro atual é produto de um conjunto de motivações forâneas sem que isso signifique que não tenha uma aparência sem forma produzida pela miscigenação de padrões estrangeiros.

O jornalismo brasileiro, em verdade, se estruturou criativamente adotando seletivamente os modelos que se insinuaram ou se impuseram. No jornalismo praticado na América do Sul nota-se a presença insistente de tradições dos espanhóis, modificados pela inserção de técnicas norte-americanas.

No caso do Brasil, o jornalismo morfologicamente está distante de padrões portugueses, mas também não se trata de cópia dos modelos franceses e norte-americano, apesar desse último ser uma das grandes forças de inspiração. A pesquisa sobre fenômenos jornalísticos no Brasil tem início na segunda metade do século XIX. A preocupação inicial era os processos noticiosos.

Aqui a imprensa teve início a partir da chegada da corte de D. João VI em 1808. De fato, os primeiros jornais são controlados pela censura real, voltando-se apenas à reprodução de informações e documentos do governo. Após as tropas napoleônicas serem expulsas, revolucionários de Portugal derrubaram a censura prévia e os precursores de nossa independência, de acordo com Marques de Melo, passam a editar jornais sem pedir consentimento das autoridades.

É no segundo reinado, porém que a imprensa vive seus melhores momentos. Foram os holandeses, de fato, que introduziram a imprensa, contrariando os portugueses que a proibira e a reprimira. Mas os impressos eram produzidos em oficinas européias.
O primeiro jornal independente é o Correio Braziliense de Hipólito José da Costa.

Em 1908, Alfredo Carvalho publicou a monografia "Gênese e progresso da imprensa periódica no Brasil. É uma fonte fundamental para historiadores, entre eles Max Freiuss, autor de um dos primeiros state of art da pesquisa histórica sobre jornalismo editado em 1922.
A rigor, os primeiros estudos não tratam o jornalismo como objeto definido. Eles tratam da imprensa e dos seus produtos, e secundariamente dos processos sócio-políticos que dão identidade característica da comunicação de atualidades.

Barbosa Lima Sobrinho é o primeiro autor a mudar essa situação com seu O Problema da Imprensa. Através da experiência de jornalista, da metodologia de análise da ciência jurídica, e da história, ele traçou um perfil do desenvolvimento do jornalismo na sociedade industrial e dos impasses enfrentados no Brasil. O trabalho é uma análise multidisciplinar do fenômeno jornalístico na sociedade brasileira, feito a partir do debate de um projeto de lei de imprensa.

O texto é a base de uma nova disciplina acadêmica. O jornalismo deixava de ser um simples ofício transmitido pelas gerações sucessivas e passava a ser conhecimento socialmente utilitário, produto de observação sistemática e de reflexão e de produtores qualificados.
O trabalho de Luiz Beltrão e sua equipe surgia décadas depois no Instituto de Ciências da Informação da Universidade Católica de Pernambuco. O estudioso lança o primeiro periódico acadêmico nacional de ciências da comunicação, a revista Comunicação & Problemas.

Do Recife, Beltrão se desloca para a Universidade de Brasília onde dirige a faculdade de comunicação, idealizada por Pompeu de Souza, criando o primeiro núcleo regular de pesquisa em comunicação, nos anos 60.
Outros movimentos, dentro e fora das universidades, fortalecem as pesquisas de comunicação.

O Jornal do Brasil cria a publicação Cadernos de Jornalismo, dirigida por Alberto Dines. Os textos divulgam pesquisas jornalísticas feitas nos EUA e Europa, além de estimular a reflexão crítica dos jornalistas da própria empresa. O modelo JB de jornalismo se reproduz em todo o Brasil através da revista. Tanto profissionais quanto estudantes a adotam.

No final dos anos 60, a USP cria a Escola de Comunicações e Artes (ECA), com professores que futuramente se espalhariam por outras universidades, como também, seus paradigmas. Nos anos 70 e 80, os principais cursos de jornalismo no Brasil tomaram o padrão USP como fonte de referência pedagógica e científica.

Só nos anos 90 surgem outros centros para competir com a hegemonia da USP, entre eles, a Famecos-PUC e UFSC. A primeira se notabiliza pelas demandas de mercado de trabalho, mantendo relações estreitas com ele. A segunda é mais voltada aos estudos do sindicalismo jornalístico. A PUC-MG enfatizou inicialmente o jornalismo comunitário e hoje se dirigiu à crítica do jornalismo industrial.

A Faculdade de Comunicação da Universidade Católica de Santos combina os procedimentos hegemônicos no mercado de trabalho com as metodologias peculiares aos movimentos sociais das periferias das cidades. A Universidade de Brasília teve uma crise institucional no regime militar.

Recentemente, enfatizou o jornalismo político, com o apoio de jornalistas de destaque como Carlos Chagas. A Faculdade de Comunicação Social "Cásper Líbero" também ressurgiu depois de período de decadência nas décadas de 70 e 80. Nos últimos anos houve incorporação de professores atuantes no mercado e os veículos laboratoriais foram reformulados.

Um caso emblemático foi o da Unicamp, com o Labjor. Sua meta é diagnosticar os fenômenos informativos, formando jornalistas pós-graduados. As pesquisas são na direção da difusão científica na mídia brasileira.

Por seu lado, a Universidade Metodista de São Paulo também tem tido destaque neste panorama. Sua marca é o jornal semanário editado pelos estudantes e professores do curso de jornalismo para servir a comunidade local. Detém ainda, um programa de estudos de pós-graduação inicialmente orientado para os estudos dos fenômenos do jornalismo não hegemônico e mídia alternativa.

Hipólito José da Costa - O fundador do jornalismo brasileiro é Hipólito José da Costa por seu trabalho como editor no mensário Correio Braziliense (1808-1822). O jornal era uma publicação essencialmente política que abriu espaço para a informação científica. Geralmente, divulgava fatos e idéias gerados na Europa, importantes no Brasil. Hipóilto José da Costa fez registros da área de ciência e tecnologia nos EUA, que puderam ser aplicados no Brasil-colônia.

Além de pioneiro no jornalismo geral, foi precursor da divulgação científica no Brasil. Mas o país só teria imprensa periódica no início do século XIX, quando a corte portuguesa se transferiu para o Rio de Janeiro. O primeiro jornal em língua portuguesa na América foi a Gazeta do Rio de Janeiro, editada pelo Frei Tibúrcio José da Rocha. Trata-se de jornal oficialista que sofre censura estatal. Hipólito José da Costa tem, porém, a láurea de ser o fundador do primeiro jornal brasileiro, pela sua natureza independente e caráter noticioso.

Era publicado em Londres e enviado clandestinamente ao Brasil. Há uma controvérsia, por essa razão, de quem seria o pioneiro. Hipólito José da Costa é tido por biógrafos como mais brasileiro dos nossos jornalistas. Esteve em missão nos EUA onde em viagens relatava inúmeros fatos, especialmente científicos. Também narrou fatos pitorescos ou singulares. Marques de Melo em seu livro evidencia o protagonismo de Hipólito da Costa como precursor do jornalismo científico no Brasil.

Rui Barbosa - Na história política brasileira, como tantos outros, Rui Barbosa teve presença marcante. E sua atuação na vida pública teve como instrumental importante a expressão jornalística. Em sua biografia esta faceta foi pouco explorada. Após a derrota como candidato à presidência, em 1910, Rui Barbosa volta a cena política escrevendo artigos contundentes contra o governo do Marechal Hermes da Fonseca.
Segundo biógrafos, a atuação de Rui Barbosa na imprensa foi marcante e brilhante.

Em 1868-69, ele inicia seus trabalhos em jornais acadêmicos comprometidos com o abolicionismo, especialmente o Radical Paulistano, no qual foi o redator principal. Em 1873, em Salvador, se integra à redação do órgão do Partido Liberal, o Diário da Bahia. Seu apogeu, porém, foi no Rio de Janeiro colaborando como Diário de Notícias (1889 e 1911-1912), Jornal do Brasil (1892) e a Imprensa (1898-1901).

De fato, foi uma atividade intermitente, com finalidade maior: a política. Hermes Lima, escreveu que nas mãos de Rui, o jornal transformava-se em tribuna, em ariete. Já Barbosa Lima Sobrinho constatava que o interesse do jornalista era ter nas colunas, a tribuna que precisava para defender pontos-de-vista, quando lhe recusavam espaço, como ocorreu certa vez ao criticar a intervenção do governo central na Bahia.

Rui Barbosa teve altos e baixos no desempenho político através da imprensa. Sua fase mais importante foi no Diário de Notícias em 1889, próximo à Proclamação da República. O êxito de suas manifestações jornalísticas dependia sempre da popularidade de suas bandeiras na sociedade, tais como: abolicionismo, eleição direta, federalismo, civilismo, constitucionalismo e pacifismo.

Werneck Sodré - autor de uma ampla obra sobre história do Brasil, Nelson Werneck Sodré é autor do clássico História da Imprensa no Brasil. A obra foi produzida segundo categorias típicas da análise marxista, tais como: modos de produção econômica, classes sociais, relações de poder etc. O livro foi alvo de polêmica inicialmente, mas depois se firmou como uma importante obra de referência.

Freitas Nobre - trabalhando como repórter na imprensa paulista, o jovem nordestino Freitas Nobre dedica-se a biografias históricas, escrevendo livros sobre um poeta, um abolicionista, um jurista e um missionário. Se formou em direito pela faculdade do Largo São Francisco, mas sua paixão maior continuou sendo o jornalismo.

Em 1950, publicou o livro História da Imprensa de São Paulo. Foi professor de História do Jornalismo e Legislação de imprensa na faculdade Cásper Líbero. Foi ainda três vezes presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo e presidente da Federação Nacional dos Jornalistas.

Na política se elegeu vereador em São Paulo pelo Partido Socialista Brasileiro, e chegou ao cargo de vice-prefeito. Mais tarde, foi deputado federal e ocupou a vice-presidência da câmara. Fez doutorado na Sorbonne em Direito da Informação e tornou-se professor da ECA-USP, dando aulas para graduação e pós-graduação.

Walter Sampaio - diferentemente dos colegas do curso de jornalismo, Walter Sampaio já detinha um currículo denso como jornalista profissional. Fora diretor de jornalismo da Rádio e TV Tupi, além de ocupar funções importantes em empresas de rádio e televisão como Bandeirantes e Excelcior. Sua presença como aluno inclusive inibiu jornalistas de rádio e TV a lecionar para um estudante de tamanha envergadura.

Marques de Melo teve de ser seu professor nesta cadeira sustentado com a teoria adquirida de professores estrangeiros. Sampaio acabou monitor da turma e dessa experiência publicou o livro Jornalismo Audiovisual, Rádio, TV e Cinema.

João Guilherme de Oliveira - ao propor ao Conselho Federal de Educação a criação da FIAM, o educador João Guilherme de Oliveira pretendia criar um modelo universitário alternativo, capaz de reunir ensino, pesquisa e extensão sem o compromisso de manter atividades em todas as áreas do conhecimento. Seu projeto enfrentou naturais resistências, mas o desfecho acabou positivo com apoio de notáveis da USP e da política. O núcleo básico era interdisciplinar e constituído pelas faculdades de Letras, Estudos Sociais e Comunicação Social.

Esta última atuou como vanguarda do novo sistema. Contudo, problemas acadêmicos e financeiros o obrigou a vendê-la ao professor Edevaldo Alves da Silva. Em comemoração aos avanços e conquistas da faculdade, foi instalada a cátedra de jornalismo Otávio Frias Filho, em homenagem ao grande empresário da comunicação.

José Marques de Melo - um dos maiores nomes da pesquisa no jornalismo, José Marques de Melo, iniciou sua carreira na imprensa num jornal estudantil, a Tribuna Secundarista. Interessado em seu desenvolvimento profissional, conquistou a seguir o posto de correspondente do interior do jornal A Gazeta de Alagoas, de grande circulação. Também colaborou no semanário Página dos Municípios do Jornal de Alagoas. Em 1961, fez parte das primeira turma do curso de Jornalismo da Universidade Católica de Pernambuco.

Ali aprofundou seu acervo humanístico orientado por grandes mestres eruditos. Na área profissional se engajou no projeto de implantação do jornal Última Hora Nordeste. Nesta redação teve contato com o paradigma do jornalismo moderno, ágil, vibrante e combativo. Mas a experiência durou pouco com o desmantelamento do jornal após o golpe de 1964.

Também atuou no governo estadual, experiência que serviu para entender que jornalismo independente e engajamento político são inconciliáveis. A partir daí sua opção foi pelo jornalismo. A seguir seus caminhos cruzaram com o do Jornal do Commercio onde começou atuando como repórter free-lance. Uma de suas reportagens foi vencedora do Prêmio Esso de Jornalismo de 1965.

A matéria tratava do desmonte das ferrovias deficitárias no governo Castelo Branco. Marques de Melo ainda contribuíra com outros jornais da família Pessoa de Queiroz, entre os quais, o Diário da Noite. Àquela altura, sua carreira também abraçara a pesquisa, tendo sido bolsista do CIESPAL-UNESCO, no Equador. Ao retornar foi contratado como professor do curso de jornalismo da Universidade Católica de Pernambuco.

Logo a seguir, criou um departamento de pesquisa -ICINFORM. Um dos primeiros clientes foi o Jornal do Commercio, que comprou pesquisa sobre hábitos de leitura do jornal e sua imagem na comunidade. Marques de Melo entendeu que tinha mais inclinação para a pesquisa científica do que para reportagem.

Já em São Paulo, tornou-se pesquisador do Instituto de Estudos Sociais e Econômicos. Muitos dos seus trabalhos na academia foram orientados para respaldar decisões editoriais na revista Realidade e no jornal Folha de São Paulo, entre outros. Foi e tem sido colaborador de inúmeros jornais e revistas.

Uma das suas grandes obras foi a co-fundação da ECA.
Marques de Mello, no livro em questão, faz algumas análises do jornalismo esportivo, do radiojornalismo e telejornalismo e de seus respectivos momentos conjunturais. Trata também do papel da mulher jornalista e de como as faculdades de comunicação as ajudaram a adentrar neste "novo" mercado. O autor destaca, neste livro, a importância do artigo científico nas atividades de ensino e pesquisa do docente universitário brasileiro na pós-graduação.

Segundo Marques de Melo, é o gênero comunicacional no qual os cientistas difundem novo conhecimento de maior predomínio. É legitimado pela comunidade acadêmica mundial, constituindo unidade de referência para aferir produtividade individual e o reconhecimento coletivo dos produtores de ciência e tecnologia.

Neste livro Marques de Melo trata ainda da entrevista jornalística, o único gênero informativo, de acordo com ele, que reúne simultaneamente a intenção dialógica e função mediadora. Conforme ele observa, a entrevista restaura o diálogo no universo monológico dos meios massivos. Acolhe múltiplas vozes, orquestrando a diversidade simbólica. Introduz discrepâncias analíticas, fermentando o sadio pluralismo ideológico.

Reúne protagonistas antagônico, explorando a riqueza do confronto dialético. O autor, porém, salienta que a escolha de fontes geralmente se volta para membros da cultura hegemônica e quase nunca os das classes subalternas.

A exclusão midiática foi outro aspecto abordado por José Marques de Melo. Apesar do desenvolvimento dos meios de comunicação de massa, Melo destaca que nos países emergentes há elevados índices de analfabetismo e escolaridade incompleta, o que acelera a distância entre massas urbanas e conhecimento sistematizado. Mas os meios eletrônicos proporcionam o saber ao redor, são a janela para o mundo. Além disso, oferece lazer a baixo custo.

Sob a liderança da TV, os meios de comunicação de massa desempenham papel decisivo na formação da população brasileira. Eles atuam como verdadeiramente educadores coletivos. Esse papel tem melhorado nos últimos anos, em conseqüência de planos econômicos como o Real. Eliminando o imposto inflacionário, uma parcela da sociedade conquistou o direito à poupança. Os novos consumidores priorizam o universo do lazer massivo, provocando aumento da venda de televisores.

Esse fator influiu no nivelamento por baixo dos padrões de TV aberta, considerando que a parcela privilegiada da audiência se refugiu na TV por assinatura. A economia de escala também barateou o preço unitário das mercadorias culturais, democratizando o seu consumo tais como, livros, fascículos, revistas especializadas, CD-roms etc. O audiovisual, inclusive, proporcionou o aumento de leitura de meios impressos por classes mais humildes.

A liberdade de imprensa no Brasil foi analisada por José Marques de Melo na obra num pequeno balanço. O texto dispõe que no período monárquico houve uma grande luta na cidadania para consolidação do regime democrático em território nacional. Segundo ele, houve momentos de pleno exercício da liberdade de imprensa com intervalos em que a censura do governo foi imposta.

Hoje, há liberdade de informação garantida pelo Estado, mas a imprensa ainda é privilégio das elites nacionais. Grande parte da população permanece à margem dessa liberdade constitucional não alcançando cidadania plena, portanto.

O analfabetismo é um dos fatores mais fortes dessa situação, além da carência educacional e inibição cultural. A exclusão digital é outro aspecto analisado por Marques de Melo. Conforme argumenta, trata-se de uma mera exclusão cultural e tem seu fundamento na exclusão sócio-econômica. Ela começa na imprensa e persiste na internet. A exclusão, porém, não é um problema comunicacional, mas um problema de natureza sócio-econômico e político. Este teórico do jornalismo defende que se não se fizer conteúdo para as necessidades dos excluídos, apenas para as elites, haverá retrocesso histórico.

O pesquisador considera que é preciso criar competência cognitiva em todos cidadãos. Defende que enquanto não tivermos acesso universal aos bens culturais, não vamos resolver o problema da exclusão digital. Quem não tem acesso ao livro, jornal, revista, cinema, não vai ter interesse de usar a internet para o deleite cultural, o crescimento intelectual.

Sobre as condições dos programas de formação de comunicadores na América Latina, Marques de Melo faz uma ampla análise, passando pelos programas latino-americanos até chegar no caso brasileiro. Aborda a relação empresa x formandos e dos estudos do jornalismo na universidade brasileira.

O autor vai mais a fundo e penetra na crise de identidade do jornalismo nos novos tempos da cibermídia. Inclusive cita autores que professam a morte da imprensa, do jornalismo. Fala da perda da credibilidade, prestígio e reconhecimento público. Questiona o conflito entre o lucro fácil das corporações capitalistas com o micro corporativismo dos jornalistas profissionais. Citando Hachtem, Marques de Melo apregoa que o jornalismo contemporâneo pode superar impasses mesclando técnica e ética.

Marques de Melo faz um amplo apanhado das histórias de alguns dos principais jornais do Brasil e suas respectivas contribuições à imprensa nacional. Desenvolve uma análise da superfície editorial e das temáticas tratadas. O perfil editorial dos 4 jornais de referência do Brasil foi objeto de estudos da Cátedra Unesco de Comunicação da Universidade Metodista de São Paulo.

Numa sintética trajetória histórica, Melo citou O Estado de S.Paulo, que começou a circular na capital paulistana sobe o título de A Província de São Paulo, no dia 4 de janeiro de 1875. A denominação foi alterada em 1889, depois da Proclamação da República, causa defendida pelo jornal.

O veículo foi constituído no início como associação comanditária, e em 1902, tornou-se propriedade da família Mesquita, quando Júlio Mesquita assume seu comando, passando-o às gerações sucessivas. Trata-se da principal unidade de um conglomerado midiático, do qual fazem parte o vespertino Jornal da Tarde, a Agência Estado, a Rádio Eldorado, um parque gráfico e a editora Listas Telefônicas.

O Jornal do Brasil, por seu lado, surgiu no mesmo século que O Estado. Fundado em 1891 por ilustres varões do Império, entre eles Joaquim Nabuco, converteu-se em sociedade anônima com a proclamação da República. Rui Barbosa foi um dos nomes de destaque em sua história.

A partir de 1919 passou ao controle da família Pereira Carneiro, que fez um saneamento financeiro, buscando o suporte dos anúncios classificados. Nos anos 60, se tornou o mais arrojado diário do país, sob a liderança de Jânio de Freitas e Alberto Dines. Tornou-se um centro de formação profissional e de experimentação jornalística, que foi reproduzida em todo o país. Inclusive, foi o primeiro jornal brasileiro a ingressar no ramo digital, publicando diariamente uma edição on line. Hoje sobrevive com grandes dificuldades financeiras.

Já a empresa Folha de S. Paulo nasceu em 1921. O primeiro título se chamava Folha da Noite. Tempos depois criaram-se novas edições, a Folha da Tarde e Folha da Manhã. A fusão dos três títulos geraria, em 1960, a Folha de S. Paulo. Sua consolidação jornalística se dá como conseqüência do trabalho de profissionais competentes como José Reis e José Nabatino Ramos. Seu legado é transferido para o consórcio Frias-Caldeira, que assume o comando da empresa em 1962.

Mas desde 1992, a propriedade está em mãos exclusivas da família Frias de Oliveira.
Sob o comando da segunda geração, o jornal protagonizou um ampla revolução tecnológica, gerencial e editorial, passando a liderar um moderno complexo midiático, do qual fazem parte, a Agência Folha, editora Publifolha, gráfica Ipiranga, além de consórcios com empresas similares no portal UOL e no jornal Valor Econômico.

O último dos analisados, o jornal O Globo fundado, em 1925, por Irineu Marinho, surgiu como um vespertino ousado, inovando padrões na imprensa carioca. Atuava com independência em relação ao governo e ao mercado. A morte prematura do fundador levaria ao comando o jovem herdeiro Roberto Marinho. Para dar continuidade ao trabalho do pai, ele teve apoio de profissionais experientes e co-fundadores da empresa como por exemplo Euclides Matos e Herbert Moses.

Apenas na década de 60, o jornal se converteria em matutino, ganhando credibilidade através de seu quadro de eminentes repórteres e redatores. Seu prestígio nacional foi crescendo na esteira da decadência dos concorrentes, e ao mesmo tempo fortalecendo as Organizações Roberto Marinho.

A empresa investiu pesadamente no setor televisivo, assumindo a hegemonia desse negócio midiático no Brasil. O Globo faz parte de um conglomerado, comandado hoje pela terceira geração da Família Marinho. Sua unidade líder é a Rede Globo de Televisão, compondo sua estrutura ainda a rede de rádio Globo, o jornal popular Extra, a Rio-Gráfica, a Editora Globo e gravadora Som Livre, além da Fundação Roberto Marinho.

Em São Paulo, incorporou recentemente o Diário Popular, passando a adotar o título o Diário de São Paulo, de alguma maneira reproduzindo o formato testado na edição carioca de O Globo. Também estabeleceu parceria com a empresa midiática de propriedade da família Frias de Oliveira, para lançar o diário Valor Econômico, que aspira a liderança nacional do jornalismo especializado em economia e negócios.

Marques de Melo finaliza seu livro advertindo que o quadro esboçado deve ser visto como ponto de partida para compreensão da imprensa brasileira de referência nacional. Sua intenção, é levantar dados para motivar outros pesquisadores a avançar nos estudos comparativos e provocar reflexões.

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