|
Resenhas
Jornalismo
Brasileiro
Por
Paulo Sergio Pires
As
obras publicadas sobre jornalismo no Brasil têm enfocado
três ângulos: história factual dos sistemas
informativos, o memorialismo dos seus protagonistas e a recuperação
profissional/didática das experiências peculiares
a processos específicos. Mas há uma nova corrente
acadêmica que aborda a análise do discurso jornalístico
ou traça o perfil sócio-político de certas
situações, porém são fragmentadas
e descontínuas.
A
obra do professor-doutor José Marques de Melo pretende
investigar articuladamente a história recente do jornalismo
brasileiro em exercício. Também a compara com
outros períodos históricos para entender sua cultura
específica, com absorção de padrões
modernos importados dos grandes centros produtores.
No
entanto, o autor não abandona as tradições
tipicamente brasileiras na produção e difusão
de notícias.
Barbosa Lima Sobrinho, citado por Marques de Melo, foi o primeiro
autor no início do século XX a se preocupar com
a imprensa e a política. Sobrinho nota a superação
das estruturas arcaicas ligadas a interesses de partidos e do
governo, e observa criticamente a adoção de padrões
em conformidade com os da economia de mercado. Ou seja, harmonizando
os interesses de leitores, anunciantes e líderes políticos.
Essa
postura impede a participação estrangeira na propriedade
de empresas jornalísticas, inclusive no pós-guerra
na fase de grande desenvolvimento. Mas as técnicas modernas
do jornalismo não deixaram de ser importadas.
Apesar
da língua comum, o jornalismo português e brasileiro
têm identidades bem distintas. O jornalismo brasileiro
atual é produto de um conjunto de motivações
forâneas sem que isso signifique que não tenha
uma aparência sem forma produzida pela miscigenação
de padrões estrangeiros.
O
jornalismo brasileiro, em verdade, se estruturou criativamente
adotando seletivamente os modelos que se insinuaram ou se impuseram.
No jornalismo praticado na América do Sul nota-se a presença
insistente de tradições dos espanhóis,
modificados pela inserção de técnicas norte-americanas.
No
caso do Brasil, o jornalismo morfologicamente está distante
de padrões portugueses, mas também não
se trata de cópia dos modelos franceses e norte-americano,
apesar desse último ser uma das grandes forças
de inspiração. A pesquisa sobre fenômenos
jornalísticos no Brasil tem início na segunda
metade do século XIX. A preocupação inicial
era os processos noticiosos.
Aqui
a imprensa teve início a partir da chegada da corte de
D. João VI em 1808. De fato, os primeiros jornais são
controlados pela censura real, voltando-se apenas à reprodução
de informações e documentos do governo. Após
as tropas napoleônicas serem expulsas, revolucionários
de Portugal derrubaram a censura prévia e os precursores
de nossa independência, de acordo com Marques de Melo,
passam a editar jornais sem pedir consentimento das autoridades.
É
no segundo reinado, porém que a imprensa vive seus melhores
momentos. Foram os holandeses, de fato, que introduziram a imprensa,
contrariando os portugueses que a proibira e a reprimira. Mas
os impressos eram produzidos em oficinas européias.
O primeiro jornal independente é o Correio Braziliense
de Hipólito José da Costa.
Em
1908, Alfredo Carvalho publicou a monografia "Gênese
e progresso da imprensa periódica no Brasil. É
uma fonte fundamental para historiadores, entre eles Max Freiuss,
autor de um dos primeiros state of art da pesquisa histórica
sobre jornalismo editado em 1922.
A rigor, os primeiros estudos não tratam o jornalismo
como objeto definido. Eles tratam da imprensa e dos seus produtos,
e secundariamente dos processos sócio-políticos
que dão identidade característica da comunicação
de atualidades.
Barbosa
Lima Sobrinho é o primeiro autor a mudar essa situação
com seu O Problema da Imprensa. Através da experiência
de jornalista, da metodologia de análise da ciência
jurídica, e da história, ele traçou um
perfil do desenvolvimento do jornalismo na sociedade industrial
e dos impasses enfrentados no Brasil. O trabalho é uma
análise multidisciplinar do fenômeno jornalístico
na sociedade brasileira, feito a partir do debate de um projeto
de lei de imprensa.
O
texto é a base de uma nova disciplina acadêmica.
O jornalismo deixava de ser um simples ofício transmitido
pelas gerações sucessivas e passava a ser conhecimento
socialmente utilitário, produto de observação
sistemática e de reflexão e de produtores qualificados.
O trabalho de Luiz Beltrão e sua equipe surgia décadas
depois no Instituto de Ciências da Informação
da Universidade Católica de Pernambuco. O estudioso lança
o primeiro periódico acadêmico nacional de ciências
da comunicação, a revista Comunicação
& Problemas.
Do
Recife, Beltrão se desloca para a Universidade de Brasília
onde dirige a faculdade de comunicação, idealizada
por Pompeu de Souza, criando o primeiro núcleo regular
de pesquisa em comunicação, nos anos 60.
Outros movimentos, dentro e fora das universidades, fortalecem
as pesquisas de comunicação.
O
Jornal do Brasil cria a publicação Cadernos de
Jornalismo, dirigida por Alberto Dines. Os textos divulgam pesquisas
jornalísticas feitas nos EUA e Europa, além de
estimular a reflexão crítica dos jornalistas da
própria empresa. O modelo JB de jornalismo se reproduz
em todo o Brasil através da revista. Tanto profissionais
quanto estudantes a adotam.
No
final dos anos 60, a USP cria a Escola de Comunicações
e Artes (ECA), com professores que futuramente se espalhariam
por outras universidades, como também, seus paradigmas.
Nos anos 70 e 80, os principais cursos de jornalismo no Brasil
tomaram o padrão USP como fonte de referência pedagógica
e científica.
Só
nos anos 90 surgem outros centros para competir com a hegemonia
da USP, entre eles, a Famecos-PUC e UFSC. A primeira se notabiliza
pelas demandas de mercado de trabalho, mantendo relações
estreitas com ele. A segunda é mais voltada aos estudos
do sindicalismo jornalístico. A PUC-MG enfatizou inicialmente
o jornalismo comunitário e hoje se dirigiu à crítica
do jornalismo industrial.
A
Faculdade de Comunicação da Universidade Católica
de Santos combina os procedimentos hegemônicos no mercado
de trabalho com as metodologias peculiares aos movimentos sociais
das periferias das cidades. A Universidade de Brasília
teve uma crise institucional no regime militar.
Recentemente, enfatizou o jornalismo político, com o
apoio de jornalistas de destaque como Carlos Chagas. A Faculdade
de Comunicação Social "Cásper Líbero"
também ressurgiu depois de período de decadência
nas décadas de 70 e 80. Nos últimos anos houve
incorporação de professores atuantes no mercado
e os veículos laboratoriais foram reformulados.
Um
caso emblemático foi o da Unicamp, com o Labjor. Sua
meta é diagnosticar os fenômenos informativos,
formando jornalistas pós-graduados. As pesquisas são
na direção da difusão científica
na mídia brasileira.
Por
seu lado, a Universidade Metodista de São Paulo também
tem tido destaque neste panorama. Sua marca é o jornal
semanário editado pelos estudantes e professores do curso
de jornalismo para servir a comunidade local. Detém ainda,
um programa de estudos de pós-graduação
inicialmente orientado para os estudos dos fenômenos do
jornalismo não hegemônico e mídia alternativa.
Hipólito
José da Costa - O fundador do jornalismo brasileiro é
Hipólito José da Costa por seu trabalho como editor
no mensário Correio Braziliense (1808-1822). O jornal
era uma publicação essencialmente política
que abriu espaço para a informação científica.
Geralmente, divulgava fatos e idéias gerados na Europa,
importantes no Brasil. Hipóilto José da Costa
fez registros da área de ciência e tecnologia nos
EUA, que puderam ser aplicados no Brasil-colônia.
Além
de pioneiro no jornalismo geral, foi precursor da divulgação
científica no Brasil. Mas o país só teria
imprensa periódica no início do século
XIX, quando a corte portuguesa se transferiu para o Rio de Janeiro.
O primeiro jornal em língua portuguesa na América
foi a Gazeta do Rio de Janeiro, editada pelo Frei Tibúrcio
José da Rocha. Trata-se de jornal oficialista que sofre
censura estatal. Hipólito José da Costa tem, porém,
a láurea de ser o fundador do primeiro jornal brasileiro,
pela sua natureza independente e caráter noticioso.
Era
publicado em Londres e enviado clandestinamente ao Brasil. Há
uma controvérsia, por essa razão, de quem seria
o pioneiro. Hipólito José da Costa é tido
por biógrafos como mais brasileiro dos nossos jornalistas.
Esteve em missão nos EUA onde em viagens relatava inúmeros
fatos, especialmente científicos. Também narrou
fatos pitorescos ou singulares. Marques de Melo em seu livro
evidencia o protagonismo de Hipólito da Costa como precursor
do jornalismo científico no Brasil.
Rui
Barbosa - Na história política brasileira, como
tantos outros, Rui Barbosa teve presença marcante. E
sua atuação na vida pública teve como instrumental
importante a expressão jornalística. Em sua biografia
esta faceta foi pouco explorada. Após a derrota como
candidato à presidência, em 1910, Rui Barbosa volta
a cena política escrevendo artigos contundentes contra
o governo do Marechal Hermes da Fonseca.
Segundo biógrafos, a atuação de Rui Barbosa
na imprensa foi marcante e brilhante.
Em
1868-69, ele inicia seus trabalhos em jornais acadêmicos
comprometidos com o abolicionismo, especialmente o Radical Paulistano,
no qual foi o redator principal. Em 1873, em Salvador, se integra
à redação do órgão do Partido
Liberal, o Diário da Bahia. Seu apogeu, porém,
foi no Rio de Janeiro colaborando como Diário de Notícias
(1889 e 1911-1912), Jornal do Brasil (1892) e a Imprensa (1898-1901).
De
fato, foi uma atividade intermitente, com finalidade maior:
a política. Hermes Lima, escreveu que nas mãos
de Rui, o jornal transformava-se em tribuna, em ariete. Já
Barbosa Lima Sobrinho constatava que o interesse do jornalista
era ter nas colunas, a tribuna que precisava para defender pontos-de-vista,
quando lhe recusavam espaço, como ocorreu certa vez ao
criticar a intervenção do governo central na Bahia.
Rui
Barbosa teve altos e baixos no desempenho político através
da imprensa. Sua fase mais importante foi no Diário de
Notícias em 1889, próximo à Proclamação
da República. O êxito de suas manifestações
jornalísticas dependia sempre da popularidade de suas
bandeiras na sociedade, tais como: abolicionismo, eleição
direta, federalismo, civilismo, constitucionalismo e pacifismo.
Werneck
Sodré - autor de uma ampla obra sobre história
do Brasil, Nelson Werneck Sodré é autor do clássico
História da Imprensa no Brasil. A obra foi produzida
segundo categorias típicas da análise marxista,
tais como: modos de produção econômica,
classes sociais, relações de poder etc. O livro
foi alvo de polêmica inicialmente, mas depois se firmou
como uma importante obra de referência.
Freitas
Nobre - trabalhando como repórter na imprensa paulista,
o jovem nordestino Freitas Nobre dedica-se a biografias históricas,
escrevendo livros sobre um poeta, um abolicionista, um jurista
e um missionário. Se formou em direito pela faculdade
do Largo São Francisco, mas sua paixão maior continuou
sendo o jornalismo.
Em
1950, publicou o livro História da Imprensa de São
Paulo. Foi professor de História do Jornalismo e Legislação
de imprensa na faculdade Cásper Líbero. Foi ainda
três vezes presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais
do Estado de São Paulo e presidente da Federação
Nacional dos Jornalistas.
Na
política se elegeu vereador em São Paulo pelo
Partido Socialista Brasileiro, e chegou ao cargo de vice-prefeito.
Mais tarde, foi deputado federal e ocupou a vice-presidência
da câmara. Fez doutorado na Sorbonne em Direito da Informação
e tornou-se professor da ECA-USP, dando aulas para graduação
e pós-graduação.
Walter
Sampaio - diferentemente dos colegas do curso de jornalismo,
Walter Sampaio já detinha um currículo denso como
jornalista profissional. Fora diretor de jornalismo da Rádio
e TV Tupi, além de ocupar funções importantes
em empresas de rádio e televisão como Bandeirantes
e Excelcior. Sua presença como aluno inclusive inibiu
jornalistas de rádio e TV a lecionar para um estudante
de tamanha envergadura.
Marques
de Melo teve de ser seu professor nesta cadeira sustentado com
a teoria adquirida de professores estrangeiros. Sampaio acabou
monitor da turma e dessa experiência publicou o livro
Jornalismo Audiovisual, Rádio, TV e Cinema.
João
Guilherme de Oliveira - ao propor ao Conselho Federal de Educação
a criação da FIAM, o educador João Guilherme
de Oliveira pretendia criar um modelo universitário alternativo,
capaz de reunir ensino, pesquisa e extensão sem o compromisso
de manter atividades em todas as áreas do conhecimento.
Seu projeto enfrentou naturais resistências, mas o desfecho
acabou positivo com apoio de notáveis da USP e da política.
O núcleo básico era interdisciplinar e constituído
pelas faculdades de Letras, Estudos Sociais e Comunicação
Social.
Esta
última atuou como vanguarda do novo sistema. Contudo,
problemas acadêmicos e financeiros o obrigou a vendê-la
ao professor Edevaldo Alves da Silva. Em comemoração
aos avanços e conquistas da faculdade, foi instalada
a cátedra de jornalismo Otávio Frias Filho, em
homenagem ao grande empresário da comunicação.
José
Marques de Melo - um dos maiores nomes da pesquisa no jornalismo,
José Marques de Melo, iniciou sua carreira na imprensa
num jornal estudantil, a Tribuna Secundarista. Interessado em
seu desenvolvimento profissional, conquistou a seguir o posto
de correspondente do interior do jornal A Gazeta de Alagoas,
de grande circulação. Também colaborou
no semanário Página dos Municípios do Jornal
de Alagoas. Em 1961, fez parte das primeira turma do curso de
Jornalismo da Universidade Católica de Pernambuco.
Ali
aprofundou seu acervo humanístico orientado por grandes
mestres eruditos. Na área profissional se engajou no
projeto de implantação do jornal Última
Hora Nordeste. Nesta redação teve contato com
o paradigma do jornalismo moderno, ágil, vibrante e combativo.
Mas a experiência durou pouco com o desmantelamento do
jornal após o golpe de 1964.
Também
atuou no governo estadual, experiência que serviu para
entender que jornalismo independente e engajamento político
são inconciliáveis. A partir daí sua opção
foi pelo jornalismo. A seguir seus caminhos cruzaram com o do
Jornal do Commercio onde começou atuando como repórter
free-lance. Uma de suas reportagens foi vencedora do Prêmio
Esso de Jornalismo de 1965.
A
matéria tratava do desmonte das ferrovias deficitárias
no governo Castelo Branco. Marques de Melo ainda contribuíra
com outros jornais da família Pessoa de Queiroz, entre
os quais, o Diário da Noite. Àquela altura, sua
carreira também abraçara a pesquisa, tendo sido
bolsista do CIESPAL-UNESCO, no Equador. Ao retornar foi contratado
como professor do curso de jornalismo da Universidade Católica
de Pernambuco.
Logo
a seguir, criou um departamento de pesquisa -ICINFORM. Um dos
primeiros clientes foi o Jornal do Commercio, que comprou pesquisa
sobre hábitos de leitura do jornal e sua imagem na comunidade.
Marques de Melo entendeu que tinha mais inclinação
para a pesquisa científica do que para reportagem.
Já
em São Paulo, tornou-se pesquisador do Instituto de Estudos
Sociais e Econômicos. Muitos dos seus trabalhos na academia
foram orientados para respaldar decisões editoriais na
revista Realidade e no jornal Folha de São Paulo, entre
outros. Foi e tem sido colaborador de inúmeros jornais
e revistas.
Uma das suas grandes obras foi a co-fundação da
ECA.
Marques de Mello, no livro em questão, faz algumas análises
do jornalismo esportivo, do radiojornalismo e telejornalismo
e de seus respectivos momentos conjunturais. Trata também
do papel da mulher jornalista e de como as faculdades de comunicação
as ajudaram a adentrar neste "novo" mercado. O autor
destaca, neste livro, a importância do artigo científico
nas atividades de ensino e pesquisa do docente universitário
brasileiro na pós-graduação.
Segundo
Marques de Melo, é o gênero comunicacional no qual
os cientistas difundem novo conhecimento de maior predomínio.
É legitimado pela comunidade acadêmica mundial,
constituindo unidade de referência para aferir produtividade
individual e o reconhecimento coletivo dos produtores de ciência
e tecnologia.
Neste
livro Marques de Melo trata ainda da entrevista jornalística,
o único gênero informativo, de acordo com ele,
que reúne simultaneamente a intenção dialógica
e função mediadora. Conforme ele observa, a entrevista
restaura o diálogo no universo monológico dos
meios massivos. Acolhe múltiplas vozes, orquestrando
a diversidade simbólica. Introduz discrepâncias
analíticas, fermentando o sadio pluralismo ideológico.
Reúne
protagonistas antagônico, explorando a riqueza do confronto
dialético. O autor, porém, salienta que a escolha
de fontes geralmente se volta para membros da cultura hegemônica
e quase nunca os das classes subalternas.
A
exclusão midiática foi outro aspecto abordado
por José Marques de Melo. Apesar do desenvolvimento dos
meios de comunicação de massa, Melo destaca que
nos países emergentes há elevados índices
de analfabetismo e escolaridade incompleta, o que acelera a
distância entre massas urbanas e conhecimento sistematizado.
Mas os meios eletrônicos proporcionam o saber ao redor,
são a janela para o mundo. Além disso, oferece
lazer a baixo custo.
Sob
a liderança da TV, os meios de comunicação
de massa desempenham papel decisivo na formação
da população brasileira. Eles atuam como verdadeiramente
educadores coletivos. Esse papel tem melhorado nos últimos
anos, em conseqüência de planos econômicos
como o Real. Eliminando o imposto inflacionário, uma
parcela da sociedade conquistou o direito à poupança.
Os novos consumidores priorizam o universo do lazer massivo,
provocando aumento da venda de televisores.
Esse
fator influiu no nivelamento por baixo dos padrões de
TV aberta, considerando que a parcela privilegiada da audiência
se refugiu na TV por assinatura. A economia de escala também
barateou o preço unitário das mercadorias culturais,
democratizando o seu consumo tais como, livros, fascículos,
revistas especializadas, CD-roms etc. O audiovisual, inclusive,
proporcionou o aumento de leitura de meios impressos por classes
mais humildes.
A
liberdade de imprensa no Brasil foi analisada por José
Marques de Melo na obra num pequeno balanço. O texto
dispõe que no período monárquico houve
uma grande luta na cidadania para consolidação
do regime democrático em território nacional.
Segundo ele, houve momentos de pleno exercício da liberdade
de imprensa com intervalos em que a censura do governo foi imposta.
Hoje,
há liberdade de informação garantida pelo
Estado, mas a imprensa ainda é privilégio das
elites nacionais. Grande parte da população permanece
à margem dessa liberdade constitucional não alcançando
cidadania plena, portanto.
O
analfabetismo é um dos fatores mais fortes dessa situação,
além da carência educacional e inibição
cultural. A exclusão digital é outro aspecto analisado
por Marques de Melo. Conforme argumenta, trata-se de uma mera
exclusão cultural e tem seu fundamento na exclusão
sócio-econômica. Ela começa na imprensa
e persiste na internet. A exclusão, porém, não
é um problema comunicacional, mas um problema de natureza
sócio-econômico e político. Este teórico
do jornalismo defende que se não se fizer conteúdo
para as necessidades dos excluídos, apenas para as elites,
haverá retrocesso histórico.
O
pesquisador considera que é preciso criar competência
cognitiva em todos cidadãos. Defende que enquanto não
tivermos acesso universal aos bens culturais, não vamos
resolver o problema da exclusão digital. Quem não
tem acesso ao livro, jornal, revista, cinema, não vai
ter interesse de usar a internet para o deleite cultural, o
crescimento intelectual.
Sobre
as condições dos programas de formação
de comunicadores na América Latina, Marques de Melo faz
uma ampla análise, passando pelos programas latino-americanos
até chegar no caso brasileiro. Aborda a relação
empresa x formandos e dos estudos do jornalismo na universidade
brasileira.
O
autor vai mais a fundo e penetra na crise de identidade do jornalismo
nos novos tempos da cibermídia. Inclusive cita autores
que professam a morte da imprensa, do jornalismo. Fala da perda
da credibilidade, prestígio e reconhecimento público.
Questiona o conflito entre o lucro fácil das corporações
capitalistas com o micro corporativismo dos jornalistas profissionais.
Citando Hachtem, Marques de Melo apregoa que o jornalismo contemporâneo
pode superar impasses mesclando técnica e ética.
Marques
de Melo faz um amplo apanhado das histórias de alguns
dos principais jornais do Brasil e suas respectivas contribuições
à imprensa nacional. Desenvolve uma análise da
superfície editorial e das temáticas tratadas.
O perfil editorial dos 4 jornais de referência do Brasil
foi objeto de estudos da Cátedra Unesco de Comunicação
da Universidade Metodista de São Paulo.
Numa
sintética trajetória histórica, Melo citou
O Estado de S.Paulo, que começou a circular na capital
paulistana sobe o título de A Província de São
Paulo, no dia 4 de janeiro de 1875. A denominação
foi alterada em 1889, depois da Proclamação da
República, causa defendida pelo jornal.
O
veículo foi constituído no início como
associação comanditária, e em 1902, tornou-se
propriedade da família Mesquita, quando Júlio
Mesquita assume seu comando, passando-o às gerações
sucessivas. Trata-se da principal unidade de um conglomerado
midiático, do qual fazem parte o vespertino Jornal da
Tarde, a Agência Estado, a Rádio Eldorado, um parque
gráfico e a editora Listas Telefônicas.
O
Jornal do Brasil, por seu lado, surgiu no mesmo século
que O Estado. Fundado em 1891 por ilustres varões do
Império, entre eles Joaquim Nabuco, converteu-se em sociedade
anônima com a proclamação da República.
Rui Barbosa foi um dos nomes de destaque em sua história.
A
partir de 1919 passou ao controle da família Pereira
Carneiro, que fez um saneamento financeiro, buscando o suporte
dos anúncios classificados. Nos anos 60, se tornou o
mais arrojado diário do país, sob a liderança
de Jânio de Freitas e Alberto Dines. Tornou-se um centro
de formação profissional e de experimentação
jornalística, que foi reproduzida em todo o país.
Inclusive, foi o primeiro jornal brasileiro a ingressar no ramo
digital, publicando diariamente uma edição on
line. Hoje sobrevive com grandes dificuldades financeiras.
Já
a empresa Folha de S. Paulo nasceu em 1921. O primeiro título
se chamava Folha da Noite. Tempos depois criaram-se novas edições,
a Folha da Tarde e Folha da Manhã. A fusão dos
três títulos geraria, em 1960, a Folha de S. Paulo.
Sua consolidação jornalística se dá
como conseqüência do trabalho de profissionais competentes
como José Reis e José Nabatino Ramos. Seu legado
é transferido para o consórcio Frias-Caldeira,
que assume o comando da empresa em 1962.
Mas
desde 1992, a propriedade está em mãos exclusivas
da família Frias de Oliveira.
Sob o comando da segunda geração, o jornal protagonizou
um ampla revolução tecnológica, gerencial
e editorial, passando a liderar um moderno complexo midiático,
do qual fazem parte, a Agência Folha, editora Publifolha,
gráfica Ipiranga, além de consórcios com
empresas similares no portal UOL e no jornal Valor Econômico.
O
último dos analisados, o jornal O Globo fundado, em 1925,
por Irineu Marinho, surgiu como um vespertino ousado, inovando
padrões na imprensa carioca. Atuava com independência
em relação ao governo e ao mercado. A morte prematura
do fundador levaria ao comando o jovem herdeiro Roberto Marinho.
Para dar continuidade ao trabalho do pai, ele teve apoio de
profissionais experientes e co-fundadores da empresa como por
exemplo Euclides Matos e Herbert Moses.
Apenas
na década de 60, o jornal se converteria em matutino,
ganhando credibilidade através de seu quadro de eminentes
repórteres e redatores. Seu prestígio nacional
foi crescendo na esteira da decadência dos concorrentes,
e ao mesmo tempo fortalecendo as Organizações
Roberto Marinho.
A
empresa investiu pesadamente no setor televisivo, assumindo
a hegemonia desse negócio midiático no Brasil.
O Globo faz parte de um conglomerado, comandado hoje pela terceira
geração da Família Marinho. Sua unidade
líder é a Rede Globo de Televisão, compondo
sua estrutura ainda a rede de rádio Globo, o jornal popular
Extra, a Rio-Gráfica, a Editora Globo e gravadora Som
Livre, além da Fundação Roberto Marinho.
Em
São Paulo, incorporou recentemente o Diário Popular,
passando a adotar o título o Diário de São
Paulo, de alguma maneira reproduzindo o formato testado na edição
carioca de O Globo. Também estabeleceu parceria com a
empresa midiática de propriedade da família Frias
de Oliveira, para lançar o diário Valor Econômico,
que aspira a liderança nacional do jornalismo especializado
em economia e negócios.
Marques
de Melo finaliza seu livro advertindo que o quadro esboçado
deve ser visto como ponto de partida para compreensão
da imprensa brasileira de referência nacional. Sua intenção,
é levantar dados para motivar outros pesquisadores a
avançar nos estudos comparativos e provocar reflexões.
Voltar
|