|
Resenhas
A
prática e o estudo do jornalismo no Brasil
Por
Márcio Sampa
Vez
por outra surgem publicações no mercado editorial
brasileiro que procuram narrar histórias do jornalismo.
É oportuno observar que a maioria dessas publicações
versam sobre empresários e seus impérios, sejam
brasileiros ou mais raramente norte-americanos.
É
o caso de títulos como "Chateau", sobre Assis
Chateaubriand, "Minha Razão de Viver", sobre
Samuel Wainer, ou ainda "O Reino e o Poder", que narra
a história do jornal norte-americano The New York Times
Existem ainda algumas poucas obras que contam especificamente
a história do jornalismo brasileiro, como é o
caso do livro de Juarez Bahia.
Em
seu Jornalismo Brasileiro, José Marques de Melo procura
fincar uma bandeira diferenciada neste território. Uma
bandeira que deixe de lado a, por ele chamada, visão
forânea do jornalismo e procure um enfoque deste fenômeno
mais vinculado à realidade brasileira. Afinal, já
são praticamente dois séculos de história,
o que credencia essa prática a ter uma linguagem particular,
brasileira, não obstante as influências exógenas.
Melo
é uma das figuras que tem seu nome fortemente vinculado
à história do próprio pensamento jornalístico
brasileiro, como projeta o título de seu livro. Acadêmico
com mais de três décadas de estudos do campo jornalístico,
é referência inequívoca para o estudo do
tema, fato mais do que suficiente para credenciá-lo a
desenvolver o assunto. Porém, o próprio autor
deixa claro em sua obra que sua intenção não
é ser definitivo, mas sim contribuir para abrir novos
campos de discussão, novas perspecrtivas e, de quebra,
resumir toda sua experiência sobre o assunto.
Jornalismo
Brasileiro, que é uma compilação de ensaios,
palestras e artigos publicados por Marques Melo, ao longo de
anos, é um esforço para sistematizar uma linha
de pesquisa que acompanha o desenvolvimento da prática
jornalística brasileira, não só em seu
modus operandi, o que é relativamente comum de ser encontrado
em obras similares, mas principalmente no pensamento que serviu
e serve de suporte para a prática.
Com
o objetivo de tornar didática a exposição,
o livro está dividido em quatro partes distintas. Na
primeira, denominada Itinerários, Melo traça o
perfil intelectual e histórico de figuras basilares de
nosso jornalismo. A análise é aberta com o "tataravô"
de nossos jornalistas, Hipólito José da Costa.
Sempre
com o objetivo de investigar as motivações e concepções
intelectuais do "precurssor", como o denomina o autor,
temos aqui uma descrição bastante detalhada da
formação acadêmica e de uma importante viagem
que Hipólito da Costa fez aos Estados Unidos, ainda na
juventude, e onde demonstrará uma sensibilidade jornalística
para observar detalhes e descrevê-los de maneira objetiva.
Base fundamental para o trabalho que desenvolveria anos depois,
a partir da capital britânica.
Mesmo
com a riqueza de detalhes, principalmente sobre a viagem de
Hipólito da Costa aos EUA, Marques Melo peca ao não
explorar mais detidamente o fenômeno "Correio Braziliense",
um grande marco no jornalismo brasileiro. É claro que
existem outras obras que o fazem, como o trabalho de Sérgio
Góes de Paula, que compila textos publicados no jornal
em seu período mais efervescente. Mas não faria
mal se em sua reconstituição Melo abordasse um
pouco mais este período que, afinal, projetou Hipólito
da Costa para a história do Jornalismo brasileiro.
Outra análise digna de nota é o mapeamento feito
sobre os pensamentos e postura de Rui Barbosa.
Ainda
que Barbosa nunca tenha se definido como um jornalista, a investigação
de sua trajetória apresentada no livro demonstra a conduta
ética e paradigmática da importante personalidade
baiana. Fica claro neste momento que o autor procura, com acerto,
demonstrar que a ética de Rui Barbosa poderia servir
muito bem a muitos jornalistas contemporâneos, sendo esta
a sua maior contribuição para o campo jornalístico
nacional.
Após
breves análises sobre os papéis de figuras como
Freitas Nobre e Walter Sampaio, o autor se encaminha para o
encerramento desta primeira etapa. José Marques de Melo
exagera no romantismo ao afirmar que identifica em Otávio
Frias de Oliveira a figura do "Bandeirante Midiático"
e de que , entre outras coisas, sua publicaçào
é pautada pela superação do capitalismo
selvagem. É consenso entre os jornalistas que, apesar
do prestígio, a Folha de S.Paulo apresenta um dos piores
ambientes de trabalho para os profissionais, entre as publicações
de grande porte paulistanas.
O
que se traduz em regimes de trabalho quase desumanos e cobranças
humilhantes para muitos profissionais. Ressalte-se que esta
não é uma característica recente da empresa.
É
claro que o padrão "Folha" de jornalismo, enquanto
produto final, é reconhecido e respeitado como um marco,
mas novamente caímos na velha elocubração
sheakesperiana: os fins justificam os meios?
Marques de Melo concluirá esta primeira parte do livro
com um importante depoimento auto-biográfico.
Na
segunda etapa de Jornalismo Brasileiro temos uma compilação
de uma série de textos em que o autor observa e analisa,
a partir de trabalhos acadêmicos ou livros produzidos
por outros autores, uma série de características
atinentes à carreira jornalística, como o Jornalismo
Esportivo, o Radiojornalismo ou o Telejornalismo. Merece destaque
o capítulo Entrevista Jornalística, texto que
fecha este bloco.
Apresentando
uma leitura bastante acurada sobre as técnicas de entrevista,
mas não se atendo somente a elas, Melo busca, como de
hábito, a alma do processo, a prespectiva humana que
deve animá-lo. Para isso, narra o interessante caso da
jornalista boliviana Fátima Molina, que sabe dosar uma
conduta em que permite ao entrevistado escapar do tema principal
da entrevista, reconduzindo-o ao eixo central de maneira elegante
e perspicaz.
Nos
seis capítulos que compõem este bloco, ficam claras
as intenções didáticas do autor, que são
plenamente atingidas com a exposição das virtudes
e defeitos que a opção por esta ou aquela conduta
profissional pode trazer ao resultado final do trabalho jornalístico.
A
terceira parte do livro (Polêmicas) é a mais excitante,
talvez pela própira intenção enunciada
pelo título do bloco. No capítulo "Brecha
Digital", Melo estabelece uma analogia muito semelhante
à de Eugênio Bucci em seu "Sobre a Ética
no Jornalismo"4. Para Bucci, a ética no jornalismo
(ou a falta dela) teria por base a estruturação
da sociedade civil, sendo o comportamento do jornalista um reflexo
desta mesma sociedade.
Marques
de Melo, ao falar sobre a distância que separa a mídia
de grande parte da população brasileira, estabelece
uma relação semelhante. O fosso social faria da
mídia, e particularmente a nova mídia digital,
um luxo para uma camada proporcionalmente bem pequena da população
brasileira, as chamadas classes A e B.
O
alerta de Melo é importante na medida em que se compreenda
a mídia como uma força importante de representação
da sociedade civil organizada dentro do Estado democrático
de direito. Uma discussão sempre pertinente quando se
trata particularmente do jornalismo, ainda mais dentro de uma
sociedade com características tão complexas como
a brasileira e onde as práticas democráticas ainda
não se encontram devidamente consolidadas.
Nos
três últimos capítulos deste bloco o leitor
encontrará uma crítica ao ethos acadêmico,
vigente em terras brasileiras, quando o assunto são os
estudos do jornalismo como ciência. Melo defende a idéia
de que esses estudos não devem se encastelar em um "gueto
acadêmico", criando um maniqueismo improdutivo, comprometendo
a formação dos futuros jornalistas, que tenderiam
a se tornarem bons críticos de mídia e maus profissionais
de imprensa.
Ele
defende a idéia de que este é o momento de se
adequar os estudos sobre o tema com a emergente Sociedade do
Conhecimento, criando-se as condições adequadas
para que o Jornalismo contribua de maneira decisiva para esta
nova maneira de se perceber e interagir com o mundo.
Finalmente,
no quarto e último bloco, o autor faz uma leitura das
maneiras de se produzir jornalismo. Agrupada em um único
capítulo, esta etapa do livro destina- se a fazer uma
análise quantitativa e qualitativa dos principais periódicos
editados no País, suas transformações nos
últimos tempos e possíveis tendências.
Para
Melo, este é um estudo que deveria ser sistemático,
tanto na comparação entre os veículos nacionais,
como na confrontação com as tendências alienígenas,
particularmente do mundo lusófono.
Como
o próprio autor propõe na apresentação,
a idéia da obra é a antecipação
de hipóteses e não a defesa de idéias absolutas.
Talvez aí resida o maior mérito do livro de José
Marques de Melo, a proposição de temas que isoladamente
ou em conjunto ensejam longas análises e discussões
sobre a história, a prática e o estudo do Jornalismo
no Brasil.
Um
tema relevante não só pela emergência da
Sociedade do Conhecimento, como propõe o autor, mas pelos
perigos e riscos que a acefalia da Sociedade da Informação
(sua forma quase antitética) oferece neste admirável
mundo novo da tecnologia, da velocidade dos fatos e das mudanças
de valores.
Morais, Fernando - Chatô, o Rei do Brasil - São
Paulo, Cia. Das Letras, 2003.
Wainer,
Samuel - Minha Razão de Viver - Rio de Janeiro, Record,
1998.
Talese,
Gay - O Reino e o Poder - São Paulo, Cia. Das Letras,
2003.
Bahia,
Juarez - História da Imprensa Brasileira - São
Paulo, Ática, 1990.
Paula,
Sérgio Góes (Org.) - Hipólito José
da Costa - São Paulo, Ed.34, 2000.
Bucci,
Eugênio - Sobre Ética na Imprensa - São
Paulo, Cia. Das Letras, 2000.
Voltar
|