Fórum
Série
"Correspondentes de Guerra"
Não tem cobertura
jornalística de guerra no Brasil
Categoria profissional do jornalista correspondente internacional
de guerra: subsídios para uma classificação
do gênero informativo no Brasil, Portugal e Espanha
Depoimento
de Cristiana
Mesquita a Ruth Vianna*
A
longa e emocionante entrevista que publicamos abaixo faz parte
de uma série de entrevistas que realizamos para a pesquisa
de pós-doutorado que desenvolvemos no Departamento de
Jornalismo e Editoração, no Núcleo de Jornalismo
Comparado, da ECA-USP, sob a orientação do Prof.
Emérito José Marques de Melo. Este trabalho será
publicado, oportunamente, em livro específico para este
fim.
Já
entrevistamos correspondentes internacionais de guerra como
Josep Lluis Nicolas (Barcelona, 1996, da TV-3 Catalunya), quando
iniciou nosso interesse pelo tema. Nicolas havia coberto todas
as guerras dos últimos vinte anos, sendo as suas últimas
Bósnia e Kosovo. Aqui no Brasil falamos com o veterano
de guerra Luiz Edegard de Andrade (maio de 2004, Rio de Janeiro,
ex-diretor de Jornalismo da Rede Globo e atual comentarista
de telejornais da TVE do RJ, que esteve no Vietña cobrindo
a guerra) e autor do recente livro publicado Bao Chi Bao
Chi, sobre a Guerra no Vietña; vários correspondentes
internacionais da ACE-SP, tais como a presidenta da Associação
dos Correspondentes Estrangeiros em SP, a jornalista peruana
Verônica Goyzueta, e o jornalista argentino Carlos Turdera
entre outros. A ACE-SP vem nos dando apoio como fonte desta
nossa pesquisa, disponibilizando vários materiais sobre
o assunto.
Ainda,
várias obras e sites sobre correspondentes de guerra
vem sendo pesquisadas por nós. Indicamos as obras Guerra
e imprensa: Um olhar crítico da cobertura da Guerra do
Iraque, com prefácio de Heródoto Barbeiro,
organizado pela ACE-SP e lançado pela Summus Editorial,
São Paulo, 2003. Também as obras de Gore Vidal,
principalmente Sonhando a Guerra: Sangue por petróleo
e a Junta Cheney Bush, com prefácio de Luiz Fernando
Veríssimo, cuja edição é da Editora
Nova Fronteira, 2002. A obra de Luis Edegard de Andrade Bao
Chi Bao Chi, sobre a Guerra no Vietña é uma
obra prima que retoma a importância de se pesquisar a
fundo o papel e a função do correspondente de
guerra em nosso país (Ver www.editoras.com/objetiva/442-9.htm).
Figuras
como José Hamilton Ribeiro e Joel Silveira, Juarez Bahia,
entre outros também fazem parte dessa investigação,
que serão pouco a pouco colocadas à disposição
do público leitor.
Em
cobertura de guerra (...) agora, pelo menos a gente aprendeu
com isso, né...? Fonte oficial da Casa Branca (...) jamais...
Leia
abaixo o depoimento de Cristiana Mesquita (Correspondente internacional
de guerra da Associated Press) à jornalista Ruth Vianna
como parte de sua pesquisa de Pós-Doutorado (NJC/CJE/ECA/USP)
sobre a Categoria profissional do jornalista correspondente
de guerra e seu papel nos telejornais brasileiros, portugueses
e espanhóis na construção do drama humano,
através do uso de palavras, imagens e sons, sob a direção
do Prof. Emérito Dr. José Marques de Melo.
Cristiana
Mesquita, a única jornalista brasileira que esteve
no front da Guerra do Iraque, 46 anos, de família
sergipana, mas se considera baiana, do Rio de Janeiro... enfim...
brasileira e cidadã do mundo. Viveu em Londres desde
os seus 18 anos de idade, quando foi para lá acompanhar
o marido, o jornalista Antonio Brasil que foi trabalhar na Central
de Correspondentes da Rede Globo, de Londres.
Ex-bailarina
clássica, estudou balé em Moscou aos 14 anos de
idade; mas em umas de suas férias se encantou com a vida
dos jovens londrinos (pintou o cabelo de azul, ouviu muito rock...
e muito mais...) e, depois acabou voltando para o Rio de Janeiro,
retomando os palcos de balé, tendo como sua mestradisciplinadora
a professora ucraniana Eugenia Feodorova que ensinava na supertradicional
companhia de balé do RJ, Fundação Brasileira
de Balé.
Foi
ai que conheceu um cinegrafista da Rede Globo que foi fazer
uma cobertura de dança na qual participava, o jornalista
Antonio Brasil, que após um amor a primeira vista tornou-se
seu marido pouco tempo depois; casaram-se e foram viver em Londres,
onde Brasil foi trabalhar. Mesquita tentou continuar na dança
mas os trabalhos que apareciam nesta área eram todos
fora da Inglaterra.
Passou
então a sair e fazer matérias com o Antonio Brasil
e a repórter Sandra Passarinho - sua guru até
hoje -, conforme nos conta. Ai foi-se encantando pelo
trabalho e passou a fazer alguns bicos free-lancer
para uns correspondentes escandinavos, já realizando
alguns trabalhos mais sérios. Em 1983, trabalhou algum
tempo para a Globo do Rio. Foi contratada pela Worldwide Television
News (WTN), que não existe mais.
Nestas idas e vindas de Cristiana Mesquita pelo mundo afora
cobrindo guerras, a jornalista tem em seu currículo nove
vezes para a Bósnia, correspondente ao período
de 1992 a 1995; em 1995 cobertura de guerra em Kosovo , que
segundo ela foi um golpe de misericórdia:
lá estavam apenas 25 jornalistas, de tão louco
que era estar ali naquele momento [1]; depois de Kosovo
diretamente para o Haiti e; em outubro de 2001 continuou sendo
a única jornalista brasileira de TV a chegar e a cobrir
a guerra no Afeganistão quando os Estados Unidos atacaram
e; depois em 2003 continuou sendo a única jornalista
brasileira de TV a cobrir a guerra dos EUA versus Iraque no
front, como jornalista embbeded (embutida) nas Tropas
Americanas.
Mudanças
enquanto pessoa
Em
tantas guerras cobertas Cristiana Mesquita tem muitas estórias
e história, que são contadas em várias
entrevistas pela correspondente internacional que tem já
mais de vinte anos cobrindo guerras, inclusive que perdeu a
mãe quando estava trabalhando no front, mas teve que
suportar dor tamanha por estar a muitos quilômetros de
distância, pois estava em Jabalsarad. Muitas destas estórias,
histórias e cenas, segundo a correspondente, provocaram
mudanças nela enquanto pessoa. Em entrevista ela recorda
cenas que jamais esquecerá:
(...)
em Mostar, na Bósnia (...) O grande orgulho da cidade
era que, apesar de tudo, a padaria funcionava e tinha pão
todo o dia. Para ilustrar isso tínhamos de sair de
manha com uma mulher para comprar pão. Podíamos
morrer no meio do caminho, mas era aquela coisa de se apegar
às rotinas para se manter são. Ela foi pegar
a sacola antes de sair, muito abatida, cabelo sujo, e, antes
de abrir a porta, abriu a bolsa, tirou um batom e passou.
Achei absolutamente genial. A sanidade e a civilidade estão
em pequenos atos. As coisas dela estavam quebradas lá
no canto, mas tem certas coisas que são sagradas. Para
ela, era o batonzinho. Tem certas coisas que têm de
ser sagradas e você tem que arranjar um jeito de faze-las
em qualquer situação [2].
Mantendo
a estabilidade psicológica
Uma
figura alegre, gentil, sutil sem deixar esconder atrás
de seus olhos azuis claros uma vivacidade contagiante, expressão
típica do profissional que sabe ter cumprido o seu papel
com eficiência e responsabilidade.
É
mãe de dois belos filhos, o Gabriel, 20 anos e a Julia
de 14 anos. E sempre que está em casa, fora front da
guerra tenta levar a vida mais rica e saudável que existe,
participando de toda a rotina dos filhos: reunião escolar,
shopping, deveres de casa, etc.
Sem
formação superior, não passou pelas escolas
ou faculdades de jornalismo. Começou na atividade por
pura vocação, servindo cafezinho lá para
os correspondentes em Londres, mas sempre dava um jeitinho de
ir dando a sua opinião e participando da rotina de trabalhos
dos correspondentes, que viviam em Londres nos anos 70. Acabou
saindo para fazer as reportagens junto com os correspondentes
e; logo em seguida; já saia sozinha e fazia as coberturas
se transformando em mais uma jornalista correspondente da sucursal
de Londres.
De
lá para cá, em seu vasto currículo é
a correspondente brasileira que mais cobriu as guerras. Esteve
em Saravejo; Iugoslávia; Bósnia; Irã; Kuait;
Afeganistão e, agora, no Iraque. Em maio de 2004, quando
a entrevistamos em sua residência no Jardim Botânico,
no Rio de Janeiro, tinha recém chegado do Iraque e já
estava de malas prontas... quer dizer com a mudança praticamente
empacotada, para mais uma missão: Chefiar o Bureau de
Correspondentes da AP em Buenos Aires, Argentina.
No
Brasil, porém, (Cristiana Mesquita) não pode trabalhar.
Falta-lhe o papel... (Antonio Brasil)
O
jornalista Antonio Brasil, marido da correspondente, com quem
esteve casada 23 anos e que ela faz questão que de dizer
que ainda são um casal, pois vivem uma vida de mais do
que eternos enamorados, mas de verdadeiros amigos e parceiros
profissionais, em 31 de outubro de 2001 escreveu uma matéria
instigante e afetuosa sobre Cristiana Mesquita no http://especiais.no.com.br
da revista/noticias/42793/1006048780000 , intitulada No
coração da guerra, na qual Brasil retoma a questão
da exigência do diploma para jornalista, uma vez que a
juíza Carla Abrantkoski, da 16a. Vara Federal em São
Paulo, decidiu que a exigência do diploma para jornalista
é inconstitucional, o que para o jornalista valeria
lembrar da história de Cristiana Mesquita, repórter
de televisão freelancer, 20 anos de profissão
e veterana de diversas guerras, do Kosovo ao Haiti, sendo
a única jornalista de TV brasileira que conseguiu
entrar no Afeganistão. No Brasil, porém, (Cristiana
Mesquita) não pode trabalhar. Falta-lhe o papel,
diz Antonio Brasil.
Em
tom candente, Antonio Brasil relata em qual cenário a
repórter correspondente internacional trabalha, sem ser
reconhecida oficialmente como jornalista em seu próprio
país, embora realize trabalhos jornalísticos da
maior relevância:
Aos
44 anos, Cristiana está morando num barraco feito de
barro dividido com alguns outros correspondentes estrangeiros
em Jamal al Sarad, a 70 quilômetros da capital, Cabul.
Além de muito próxima da linha de frente Taliba,
também está ao lado dos alvos militares de centenas
de jovens pilotos norte-americanos com seus caças maravilhosos
e bombas inteligentes. Como ela mesmo diz com seu jeito descontraídos
e resíduos de bom humor, considerando os inúmeros
erros, talvez as inteligências dessas bombas e de alguns
militares aliados estejam em dúvida [3].
Entre
as limitadas fontes do Pentágono e as declarações
fervorosas dos líderes Taliban, alguns jornalistas precisam
ir onde as notícias estão.
Continuando,
o jornalista Antonio Brasil diz Mas não existe
qualquer dúvida, mesmo para os mais desligados de que
não parece ser uma boa idéia estar tão
próximo desse tipo de notícia. Não seria
melhor só descrever as imagens produzidas por outros
jornalistas de qualquer outro lugar? Não para mim.
Alguém tem que fazer este trabalho e, por enquanto, também
acho que esse alguém é eu. Entre as limitadas
fontes do Pentágono e as declarações fervorosas
dos líderes Taliban, alguns jornalistas precisam ir onde
as notícias estão [4].
Brasil
conta ainda que centenas de jornalistas, de diversos países,
aguardam há semanas por uma oportunidade de chegar até
a linha de frente. Em pequenos aeroportos do Tajiquistao e Usbequistao,
ou mesmo da fronteira do Paquistão, estão dispostos
a esperar muito e a pagar fortunas por uma carona num dos poucos
helicópteros que se atrevem a desafiar o poderio aéreo
americano. É uma viagem difícil que deve ser conduzida
por pilotos experientes numa rota sinuosa e delicada por entre
cadeias de montanhas, onde o clima é imprevisível
[5].
Mas este não foi o caminho escolhido por Cristiana Mesquita
conforme ela já nos falara em entrevista, além
de ter a obrigação de acompanhar duas toneladas
de equipamentos que servem a todas as televisões do mundo
(...) [6] seguiu por terra. Brasil relembra que
foram quatro dias e três noites atravessando em
dois caminhões uma trilha utilizada apenas por contrabandistas,
mulas; e velhos guerrilheiros mujahedins. Talvez explique porque
tão poucos jornalistas brasileiros conseguiram entrar
em território afegão quanto mais chegar à
linha de frente [7], relata o jornalista.
O
jornalista conta também que Cristiana Mesquita foi
contratada pela APTV, a agência internacional de notícias
para televisão da Associated Press para fazer o impossível:
levantar um posto avançado para muitos jornalistas de
todo o mundo que precisam, mesmo que seja por alguns minutos,
experimentar e transmitir os horrores da guerra. Todo esse trabalho
para fornecer as imagens e informações da guerra
vista de todos os ângulos e por todas as suas vítimas
[8].
O
fato é que somente depois de todo este esforço
pessoal e profissional é que Cristiana Mesquita sendo
a única jornalista brasileira a estar cobrindo a guerra
efetivamente no Afeganistão, no front dos acontecimentos
é que a Rede Globo de Televisão resolveu convidá-la
e contratá-la para estar transmitindo diretamente do
Afeganistão para os telejornais da Rede Globo e da GloboNews:
No
Brasil, seu rosto congelado numa foto improvisada de última
hora está freqüentando os telejornais da Globo
e da GloboNews. Cristiana se tornou nossos únicos olhos
e nossa única voz diretamente do Afeganistão,
enfatiza Antonio Brasil [9].
Naquele
momento, Brasil realizou uma entrevista direta com Cristiana
Mesquita para publicação on-line, de Cabul por
telefone via satélite, na qual a correspondente internacional
falava das dificuldades de seu trabalho arriscado, mas principalmente
da pior dificuldade que era não poder trabalhar como
jornalista em seu próprio país (Brasil) por não
possuir o diploma de jornalista, embora já ter exercido
mais de vinte anos de jornalismo freelancer para várias
televisões de diversos países, mas não
pode trabalhar como jornalista no Brasil.
Nesta
entrevista, dada em tempo real, através de cabos telefônico
e satélite, Cristiana Mesquita dizia (...) aqui
no vale do Pashtan, no Afeganistão, estou trabalhando
com velhos companheiros de outras guerras. Gente de diversos
países que como eu precisam trabalhar para viver (...)
Estou numa pequena cidade chamada Jabal al Sarad que fica a
aproximadamente 70 quilômetros ao norte de Cabul, próximo
das linhas de frente das forças da Aliança do
Norte (...) Fiz provavelmente a pior viagem da minha vida (...)
Parecia um cenário bíblico. Além dos perigos
de emboscadas e minas terrestres, eram desertos desolados e
montanhas com mais de 4.000 metros de altura e temperaturas
abaixo de zero durante a noite e calor durante o dia.
[10].
Cristiana
Mesquita tentava descrever o mais fiel possível tudo
o que ocorria com ela e sua equipe lá em Jabal al Sarad
para o jornalista Antonio Brasil:
Alugamos
uma casa e instalamos nossos equipamentos para a transmissão
de televisao. Acordo às 7h30 sempre mas não
tenho hora para dormir. Temos aqui equipes de diversos países
como os EUA, Japão, Itália, Espanha e tantos
outros e, com as diferenças de fusos horários,
geramos matérias e transmissões ao vivo o tempo
todo. Costumo sair pela manha para saber o que está
acontecendo e assistir aos briefings diários da Aliança
do Norte. Na medida do possível, gravamos os bombardeios
americanos e visitamos os locais atingidos. Também
produzimos matérias para os nossos clientes da APTN.
Falo regularmente com nossa central em Londres com o telefone
via satélite. (...) As condições de vida
são sempre muito precárias. Mas, ainda assim,
elas são bem melhores do que as condições
dos afegãos... A maioria nunca viu um dia de paz nos
últimos 30 anos... [11].
Da sua base, no escritório em Londres, Criatiana Mesquita
passou a viajar o mundo, assim ela é sergipana, baiana,
carioca, londrina, latino-americana, de Bósnia; depois
Saravejo; Iugoslávia; Afeganistão; Kosovo; Haiti;
Iraque... Cristina Mesquita é não importa
a nacionalidade é simplesmente, repórter,
jornalista, cidadã do mundo.
A
sua longa experiência é notória, mas nem
por isto deixa de ser um ser humano apaixonado pela vida, pelo
que faz, com garra, energia... não deixa de ser mãe
e a emoção de ser mãe... Mesmo tendo visto
e vivido de perto as atrocidades de cada uma dessas guerras;
não deixa de se emocionar, de ter vínculos de
afetividade pelo ser humano, principalmente com a população
de cada país onde esteve, dos refugiados.
Esteve
embutida nas Tropas Americanas para cobrir a guerra do Iraque,
mas nem por isto deixou de ter uma visão crítica,
tendo como princípio à ética em cada um
dos trabalhos realizados. Cristiana Mesquita, ou simplesmente
Tilt, como é carinhosamente chamada no meio jornalístico
nos conta um pouco de todas estas suas experiências. O
maior sonho da repórter é ainda poder cobrir um
desfile de modas nos palcos de Paris e Milão.
Pela
WTN, cobrindo as Guerrilhas de El Salvador e Nicarágua
Na WTN realizava todo tipo de reportagens: de esporte, a economia,
a política, mas que não tinham nenhuma visibilidade
pública, até que realizou uma reportagem especial
sobre um grupo de missionários norte-americanos, de mau
caráter, como diz, chamado New Tribles Mission, especialistas
em ir a lugares completamente remotos para evangelizar as pessoas
[12], conforme publicou a TPM (Revistatpm.com.br).
Fazia isto com uma tribo no Pará conta: uma tribo
do Pará que nunca tinha tido contado com o homem branco
[13].
A
matéria teve uma repercussão ótima. Após
este êxito jornalístico Cristiana Mesquita passou
a realizar trabalhos mais duros (hards), como costuma brincar:
cobriu as Guerrilhas em El Salvador e na Nicarágua. Segundo
ela, fazia contato com os guerrilheiros, passava a noite
no meio do mato, nas trincheiras [14]. Mas, ainda, este
não era o perigo maior.
Cristiana
iria cobrir trabalhos mais arriscados como as ditaduras no Chile
e na Argentina. Após estas experiências todas,
quando estourou a Guerra na Bósnia foi enviada para lá,
uma vez que existiam poucos jornalistas com toda esta bagagem
profissional de cobertura jornalística de riscos [15].
Vivendo
na cidade mulçumana de Srebrenica
Em 1992, quando do começo do cerco a Saravejo, Cristiana
Mesquita foi enviada a Belgrado, Iugoslávia, onde ficaria
administrando o escritório da Agência, mas para
ela já que estava lá - no lugar dos acontecimentos
-, era muito difícil ficar só no escritório.
Em entrevistas ela conta como a coisa estava feia
e começa, então, sair por dentro da Bósnia
e realizar matérias [16]. Realiza importantes reportagens
na pequena cidade mulçumana de Srebrenica. Segundo ela,
o exército sérvio cercava a cidade havia
oito meses, nada entrava ou saia de lá. Os civis estavam
passando fome, e o local estava sendo bombardeado diariamente
[17].
Mesquita
conta que um caminhão da ONU estava tentando entrar com
roupas, comida e medicamento e ela decide entrar junto
[18], sendo este o seu grande desafio.
Na Bósnia Mesquita trabalhava com dois cinegrafistas
sérvios, o que era complicado, pois se os mulçumanos
os descobrissem eles morreriam. Cristiana diz que não
teve dúvidas, após uma longa conversa com os dois
falsifiquei as carteiras de trabalho deles, coloquei como
italianos e fomos [19]. O sucesso deste trabalho após
realizar excelentes matérias rendeu a Cristiana Mesquita
aumento de salário e mais oito viagens para Bósnia.
Nesta suas coberturas de guerra em todos estes países
Mesquita viveu muitas situações de perigo. Uma
delas foi em Mostar (Bósnia), em 1993.
Mesquita
conta que:
A
cidade estava dividida e sendo bombardeada com cerca de 300
impactos de artilharia por dia, fogo pesado. Resolvemos sair
de manha para ver onde estava a linha de frente, se tinha
avançado ou recuado. Quando chegamos, começou
o bombardeio. Eu e o cinegrafista corremos com o equipamento
pesado sem saber para onde ir, até que um oficial mulçumano
me pegou pela camisa e me jogou no porão. O cinegrafista
veio atrás e nós ficamos ali umas cinco horas.
Era um abrigo do exército, então eles traziam
os feridos. Tinha cheiro de sangue, de urina, de medo. É
uma dessas situações na qual ou você se
ocupa, ou enlouquece [20].
Não
estava ali para lutar e curar, mas para observar, o que, se
você pensar, é a coisa mais inútil que se
pode fazer numa guerra.
Para
não morrer louca naquele local sórdido, Cristiana
conta que para passar, inclusive o medo, ela passou a se ocupar
com os soldados que iam sendo trazidos, alguns muitos
feridos [21]. Cristiana se recorda que eles choram,
chamam pela mãe, seguram em você, que tem que acompanhar
todo aquele sofrimento e quieta. Isso dá uma tremenda
sensação de impotência. Não estava
ali para lutar e curar, mas para observar, o que, se você
pensar, é a coisa mais inútil que se pode fazer
numa guerra. Então procurava me ocupar. Limpava ferida,
conversava com os caras, trocava gaze de olho [22].
O
barulhinho da bicicleta... isso virou um pesadelo recorrente...
Quanto
ao cinegrafista, entrou em estado de choque: bebemos uma
garrafa de Jack Daniels naquele porão e o único
movimento que ele fazia era levantar a garrafa até a
boca. Não falava nem olhava para nada [23]. Parado
os bombardeios eles foram em direção ao
carro, correndo em ziguezigue, por causa de uns franco-atiradores.
De repente ele parou e colocou a câmara no ombro. Ouvi
o barulho das rodas de uma bicicleta, em que vinha um velhinho.
Eu falava: - Pára, pára!. Quando o senhor
cruzou a rua, foi atingido. O atirador que estava me perseguindo
desde que sai do porão atirou no velho para me atrair.
Sabendo disso, não pude fazer nada e o velhinho morreu
na minha frente. Isso virou um pesadelo recorrente, o barulhinho
da bicicleta [24].
Cristiana
Mesquita e sua equipe viveram em Vitez, na Bósnia Central
por mais de dois meses, esperando as tropas croatas avançarem,
sobreviveram a bombardeios nesta casa.
Em
Saravejo vi cenas horríveis
Em
Saravejo se juntaram à equipe da WTN a equipe da agência
de noticias Reuters. Cristiana enfrentou péssimas condições
de transporte até chegar a Saravejo, segundo ela era
um verdadeiro evento chegar a Saravejo: tinha que pegar um vôo
militar na ONU em Zegreb, na Croácia, cuja condição
para entrar no avião era ter capacete e colete à
prova de balas. Ai você se sentava no chão, espremida
em meio a toneladas de equipamentos, fazendo força com
o pé para que eles não despencassem na sua cabeça.
Uma hora e meia e muito frio, por causa da despressurização.
Como se não bastasse, o passageiro ainda eram recebidos
a tiros, dados pelos sérvios [25], relembra.
Um
dos acontecimentos mais horríveis presenciados pela jornalista
Cristiana Mesquita em Saravejo, a pior guerra que cobriu por
ser uma guerra civil, foi o dia em que explodiram o mercado,
que segundo ela era a única coisa que tinha sobrado
da vida social da cidade [26]. Ela conta que ele foi
totalmente bombardeado numa hora de muito movimento.
Chegamos
lá em seguida e foi difícil ver o desespero das
pessoas. Além disso, tínhamos que fazer plantões
em determinados pontos onde era só deixar a câmera
ligada que, mais cedo ou mais tarde, alguém morria na
frente da lente. Este tipo de trabalho era horrível (...)
[27].
A
saída foi ir pelo Tadjiquistão
Em outubro de 2001 quando os Estados Unidos atacaram o Afeganistão
Cristiana Mesquita ao invés de entrar pelo Paquistão
como fez a maioria dos jornalistas, ao saber que ninguém
conseguiria passar por lá, resolveu ir pelo Tadjiquistao.
Ela nos diz que sabia exatamente aonde queria chegar: em
Jabalsarad, o último enclave da Aliança do Norte
antes de Cabul, a 70 quilômetros da capital afegã
[28]. Mas nem tudo foi tão simples assim: antes
de sair, olhando no mapa, parecia factível pegar um jipe
e andar 250 quilômetros, mas a situação
era completamente diferente. Foram quatro dias para fazer o
trajeto em um caminhão russo, onde colocamos o equipamento,
e dois Toyotas velhíssimos. Quase não dormimos
por causa do frio, ficamos sem comer, fazendo xixi na moita
[29].
Em Jabalsarad, Cristiana Mesquita e sua equipe alugaram a casa
de uma família muito pobre e viveram lá por mais
ou menos um mês e quando Cabul caiu, se mudaram para lá,
acompanhando de perto a entrada das tropas da Aliança
do Norte na cidade.Mas tudo isto não foi uma operação
fácil de se realizar, Cristiana Mesquita conta que:
Assim
que cheguei, dei meia-volta. Tinha de voltar a Jabal para
transmitir o material. Mandei os cinegrafistas entrarem e
continuarem gravando. Não tínhamos mais dinheiro
e o pessoal que alugou a casa para a gente começou
a suspeitar disso. Disse a eles que ficaria lá como
garantia, mas, quando eles deram uma trégua, me mandei
de volta para Cabul, de carona com um velhinho. Entrei vestida
de homem e assim fiquei três dias, sem poder nem trocar
de calcinha. Depois a empresa mandou dinheiro, eu voltei lá
e paguei todo o mundo [30].
Padrão
da Rede Globo: Cristiana,
você tem um blazer?
Em
Cabul, Mesquita e sua equipe trabalhou três dias seguidos
e mais de 20 horas por dia. A equipe chamou a atenção
de toda a população que iam todos atrás
da equipe olhar o trabalho que eles faziam, isto é, a
cobertura jornalística, dificultando os trabalhos. Para
Mesquita o aprendizado que se tira disto é que é
difícil observar quando você está sendo
observado [31].
Apesar
de todas estas dificuldades Cristina Mesquita acabou entrando
ao vivo diariamente nos telejornais da Rede Globo como sendo
a única jornalista brasileira emitir desde o local dos
acontecimentos. A jornalista conta como isto aconteceu:
Mandei
um e-mail para o Carlos Henrique Schröder, diretor de
jornalismo da Rede Globo, antes de ir para o Afeganistão,
dizendo que, se precisasse, estaria lá. Tinha certeza
que eles mandariam uma equipe e me ofereci para dar um apoio
logístico. Quando liguei falei: Cheguei,
ele disse Chegou aonde?, No Afeganistão?
'Como você entrou?, perguntou ele... não
disse que vinha?. Os caras da Globo estavam tentando
entrar pelo Paquistão e não conseguiram. Ai
ele me pediu para entrar em audiotapes (telefone e foto na
tela) no Jornal Nacional [32].
Nem
é preciso dizer que a emoção da repórter
foi muito grande, uma vez que fazia vinte anos que ela não
aparecia ao ar em um canal brasileiro de televisão. A
partir daquele momento, passou a dar ibope as matérias
da jornalista e a Rede Globo passou a pedir mais matérias
para Cristiana Mesquita, mas a jornalista não tinha tempo
suficiente para atender tal solicitação e também
se sentia muito despreparada visualmente, isto é cabelo
certinho, roupas bonitinhas e adequadas, etc para atender ao
padrão global. Mas, enfim pediram para ela entrar ao
vivo e Cristiana achou que podia fazer ao vivo. No entanto ela
conta que:
um
pouquinho antes da entrada da noticia ao vivo na Rede Globo,
telefonou uma das editoras de Londres e perguntou: Cristiana,
você tem um blazer? Cai na gargalhada e respondi:
Não tenho blazer, nem batom, meu cabelo não
é lavado há mais de uma semana, está
uma pasta, e vocês ainda têm tempo de desistir!
Mas foi assim mesmo (...) [33].
Na
opinião de Cristina Mesquita o padrão da
Rede Globo de jornalismo tem uma razão muito lógica
de ser para os repórteres estarem sempre certinhos. Isto
é: o telespectador escuta o que eles estão falando
em vez de ficar reparando que o cabelo está esquisito
ou a blusa não combina. Este padrão tem uma razão,
mas a Globo levou isto ao extremo. A jornalista lembra
que na CBN tem gente bonita, feia, magra, gorda. Na Rede
Globo não (....) [34].
Interesse
dos Estados Unidos no Iraque
Criticamente na opinião da correspondente Cristiana Mesquita
é obvio que os Estados Unidos têm interesses
econômicos na região do Iraque [35]. O
Iraque é o maior produtor de petróleo do mundo
e isso não é descartado pelos EUA em hipótese
alguma. Se fosse Saddam Hussein em um país miserável
na África, a situação seria outra. Por
outro lado, não existe lugar para pessoas como Saddam
Hussein no mundo. Não acredito que uma guerra seja a
maneira mais apropriada para se livrar dele. Mas acho que ela
é inevitável (...) Os iraquianos são péssimos
soldados (...) o que me preocupa é como vai ficar a geopolítica
daquela área depois [36], afirmou em entrevista
publicada pela TPM (Revistatpm.com.Br).
O
Brasil precisa cumprir o seu papel de dar acesso à informação
Mesquita
demonstra claramente que no Brasil atualmente não se
faz cobertura de guerra como já se fez no passado. Os
correspondentes brasileiros no exterior estão trabalhando
de forma muito estrangulada pelo próprio veículo
que ou não quer gastar dinheiro ou que não se
interessa em dar matérias que podem não resultar
em ibope.
Demonstra
também que a função e o status do profissional
repórter no Brasil perdeu espaço e importância
e que é necessário resgatar esta função
e importância. O Brasil para cumprir adequadamente o seu
papel de dar acesso à informação de forma
democrática, é necessário resgatar a cultura
do correspondente internacional, pois os demais países
têm esta atividade bastante atuante por entenderem que
o direito à informação é fundamental
para a verdadeira liberdade de expressão.
Mesquita
destaca ainda que os importantes correspondentes de guerra que
o Brasil teve foram Joel Silveira e Luis Edegard de Andrade,
este último cobrindo o Vietñan no local dos acontecimentos
para a Revista Realidade.
Cobrir
guerra... É noticia... É primeira página...
Em
entrevista para a publicação on-line Fazendo Media,
de Niterói, Rio de Janeiro a Victor Ribeiro Cristiana
Mesquita apresenta argumentos significativos da importância
de se manter um jornalismo eficiente de correspondentes internacionais
na guerra. Ao ser perguntada pelo jornalista Por que cobrir
guerra?, Mesquita responde com outra pergunta: Por
que não cobrir? [36], no entanto ela afirma que
É um evento jornalístico importante e não
é para qualquer pessoa, porque envolve interesses, tem
um preparo, mas que certamente todo o jornalista deve ter, pelo
menos, curiosidade de cobrir.É notícia. É
primeira página. É da maior importância
que exista esta cobertura para as pessoas saberem o que está
acontecendo [37].
Sobre
a dificuldade na operação da notícia quando
existe uma situação como a do Marcos Uchoa (correspondente
da TV Globo), que cobriu a guerra do Iraque estando no Kuait,
questionada pelo jornalista Victor Ribeiro (Fazendo Media),
a correspondente Cristiana Mesquita deixou claro que pode ser
muito frustrante. Segundo ela, ela estava com o
jornalista Uchoa na mesma época, no Kuait: ele
estava sozinho, com um cinegrafista no Kuait, ficou completamente
à mercê das informações que recebia
de segunda mão, ou seja: o que ele via na CNN ou recebia
através das agências (de notícias)
[38].
Um
lugar como o Iraque tem notícia todo dia...
Cristiana
Mesquita foi categórica ao afirmar para o Fazendo Media
que ela não via nenhum mérito em se cobrir a guerra
do Iraque e ficar três ou quatro dias para passar no Jornal
Nacional. Ou você vai para fazer um grande especial,
ou você mantém regularmente um sistema em que você
esteja regularmente lá [39].
Para
a correspondente, conforme sua entrevista para a Fazendo Media,
um lugar como o Iraque tem notícia todo dia
[39a]. Mesquita não é favorável ao que
vem ocorrendo hoje em dia com a cobertura internacional realizada
pela televisão brasileira. Afirmou ainda que é
necessária mais seriedade na cobertura internacional
e, também de guerra:
Se
você quer fazer uma cobertura internacional séria,
você não pode deixar de ter regularmente no Iraque.
De um tempo para cá a televisão brasileira deixou
de fazer cobertura internacional. As televisões têm
contratos com as agências , recebem todas as imagens
e aquelas que têm correspondentes, saem e fazem uma
passagem (trecho da matéria de TV em que o repórter
aparece) por lá [40].
É
preciso cobrir os fatos desde o local dos acontecimentos, caso
contrário é tudo muito pobre...
A
cobertura Internacional na TV brasileira, segundo a correspondente
Mesquita, está muito pobre. Ela exemplifica que ao
assistir ao Jornal Nacional vi três notícias internacionais
importantes, cobertas assim: Patrícia Poeta falando
sobre o Iraque, de Nova Iorque; o Luiz Fernando Silva Pinto,
também sobre o Iraque de Washington; depois vem o Luiz
Carlos Azenha, também de Nova Iorque. Eu acho isso
um recurso muito pobre. Não vejo razão para isto,
porque quando você aparece é como se estivesse
assinando a matéria [41].
Para
a correspondente, este tipo de atitude não é correta
e nem profissional, pois É como pegar o Jornal
do Brasil ou o Globo, que publicam matérias da Reuters
e da AP e, ao invés de colocar o nome da agência
em cima, como eles fazem, um jornalista qualquer assumisse o
crédito [42]. Cristiana disse ainda à Fazendo
Media que para cobrir uma guerra, você tem uma estrutura
que as televisões brasileiras nunca se preparam para
ter. Você tem todo um equipamento próprio, treinamentos
especiais. Não sei qual é o esquema deles (os
repórteres brasileiros), mas alguns editores argumentam
que não há interesse em notícia internacional.
(...) Não há interesse porque é malfeito.
Se fosse bem feito, as pessoas se interessariam [43],
enfatiza.
Dificilmente
um brasileiro se considera latino-americano
Em
nossa entrevista, Mesquita falou também de como se cobre
mal a América Latina, reafirmando estudos que já
realizamos anteriormente sobre o assunto. Segundo ela, seria
falta de interesse das empresas de comunicação,
que teria a obrigação de informar [44].
Não cobrir a América Latina pelo Brasil é
muito grave, pois acaba criando um distanciamento cultural
muito grande do Brasil com a América Latina (...) dificilmente
um brasileiro se considera latino-americano [45].
Ainda
falando para a Fazendo Media, Cristiana Mesquita chama a atenção
para o fato de que A sensação de latino-americanidade
no Brasil é muito rara. Os meios de comunicação,
pela sua própria falta de interesse, ainda não
conseguiram deixar claro que tudo que acontece na Venezuela,
na Argentina, na Bolívia, tem repercussões de
maior importância no Brasil [46]. Afirmou também
que:
Esse
é um continente em que a gente precisava conhecer ao
máximo uns aos outros, para até mesmo agir em
bloco, quando necessário. Existe uma miopia muito grnade
das empresas de comunicação, que acham que a
gente só quer saber o que está acontecendo em
Washington ou na Europa. É fácil dizer que o
Brasil adora coisa estrangeira, mas estrangeira do norte.
Falar espanhol, nem pensar: é cucaracho (...) Até
os próprios jornalistas querem Fulano de Tal, de Londres,
para o Jornal Nacional, não querem falar?
Fulano de Tal?, de Cochabamba, para o Jornal Nacional
(...) é um erro tremendo, porque da mesma forma como
eles são alijados por nós, eles também
não reconhecem o Brasil como parte da América
Latina (...) [47].
A
Bolívia vai estourar de novo...
Sobre
a recente guerra civil passada pela Bolívia,
a correspondente Cristiana Mesquita que já cobriu a região
e agora está montando uma central de correspondentes,
com sede na Argentina, mas que cobrirá também
o país boliviano deixou claro em sua entrevista para
a Fazendo Media que a Bolívia vai estourar novamente,
porque quando eles fizeram a formação do novo
governo, mais uma vez as principais etnias e grupos, como os
cocaleiros, quase não foram representados.
Então,
as razões que levaram ao levante do ano passado continuam
lá. Nada foi resolvido com relação ao escoamento
de gás, que não chegou a ser a razão,mas
foi quase que um lema. Vai estourar de novo e cada vez eles
se organizam mais. Cada vez os cocaleiros, os camponeses estão
mais organizados e eles são aimares (etnia indígena),
viu? Difícil de encarar [48].
A
guerra ainda não acabou
Voltando
á guerra dos EUA e o Iraque, Mesquita crê que a
Guerra no Iraque ainda não acabou. Bush errou feio e
a Cassa Branca faltou com a verdade nas intermináveis
e milhares de coletivas que os correspondentes estrangeiros
foram obrigados a participarem. A guerra do Iraque é
uma manipulação dos EUA. O Bin Laden e Saddam
Hussein e o Onze de setembro não têm ligação.
Questões econômicas, tomar posse dos poços
do petróleo e a sandice de Bush que quis vingar o Bush
pai foram os verdadeiros motivos deste horror. O Iraque não
tinha as armas químicas.
A
imprensa mundial, de certa forma, saiu prejudicada, mas todos
aprenderam a jamais confiar nas informações oficiais
da Casa Branca.
Cobriando
a guerra
Ruth
Vianna - Você é brasileira?
Cristana
Mesquita [foto] - Eu sou brasileira. Sou do Rio
de Janeiro.
|
Reprodução

|
Ruth
Vianna - Como você iniciou no jornalismo?
Cristiana
Mesquita - Eu estava morando em Londres e comecei a trabalhar
em uma empresa que agregava vários correspondentes internacionais,
a maioria da Escandinávia. Havia jornalistas da Dinamarca,
da Noruega e da Finlândia. Eu comecei primeiro fazendo
café, chá no caso de Londres, para levar para
os correspondentes e ficava olhando o trabalho deles.
Ruth
Vianna - O que quê você foi fazer em Londres?
Cristiana
Mesquita - Eu fui atrás do meu marido.
Ruth
Vianna - Mas quem que é o seu marido?
Cristiana
Mesquita - Eu sou casada com o Antonio Brasil. Na época,
ele estava trabalhando como correspondente da Rede Globo em
Londres. E eu comecei trabalhando lá como recepcionista,
fazendo cafezinho. Mas eu me metia tanto e dava tanto palpite
nas matérias que eles me chamaram para sair. Quando eles
saiam para fazer as reportagens, eu ia junto. Depois, no final,
eles ficavam no escritório e eu saia para fazer as reportagens.
Quando eu chegava, eles só colocavam a voz por cima.
Meu primeiro emprego fixo foi na Rede Globo, em Londres, onde
trabalhei três anos. Depois, decidi que não queria
mais ficar em Londres, que iria voltar ao Brasil.
Ruth
Vianna - Isso aconteceu em que ano?
Cristiana
Mesquita - Foi no final dos anos 70. Eu fiquei em Londres de
1976 a 1981.
Ruth
Vianna - O Antonio Brasil estava trabalhando como correspondente?
Cristiana
Mesquita - Exatamente. Quando resolvi voltar ao Brasil, trabalhei
um ano na Rede Globo do Rio de Janeiro. Na época, eu
estava em um departamento chamado Coordenação
de Produção do Jornalismo. Aí, recebi
a proposta de uma agência de notícias para televisão,
que existia naquela época, chamada WTN. Eles me chamaram
para montar um escritório para eles no Brasil. Eu aceitei
o convite e, com o Antonio Brasil, montei o escritório.
E aí a coisa foi evoluindo. Naquele ano foram feitas
só reportagens do Brasil. Depois, comecei a viajar fazendo
matérias por toda a América Latina. Aí
continuou evoluindo e foram feitas matérias na Bósnia.
Eu passei na Bósnia quase todo o período do final
de 1991 até 1995.
Ruth
Vianna - Você já falava inglês quando foi
a Londres?
Cristiana
Mesquita - Eu tinha aquele inglês de colégio.
Ruth
Vianna - Você não tem ascendência européia?
Cristiana
Mesquita - Não. Tenho ascendência baiana.
Ruth
Vianna - Baiana?
Cristiana
Mesquita - Sergipana, na verdade. E eu tinha pouco conhecimento
de outros idiomas. Eu falava francês e tinha um inglês
muito básico. Mas aprendi lá.
Correspondente...
internacional é o repórter da geral glorificado,
não é...
Ruth
Vianna - Como correspondente, qual a sua rotina de trabalho?
O que é ser um correspondente no exterior e cobrir para
a Rede Globo?
Cristiana
Mesquita - Correspondente internacional é o repórter
da geral glorificado. Se você imaginar um jornal, o cara
que trabalha na geral é aquele que sai de manhã
para fazer uma matéria de moda, depois emenda para fazer
uma outra coisa de economia à tarde e ainda pega uma
partida de futebol à noite. Esse é o trabalho
do correspondente. O correspondente é a antítese,
o oposto, do setorista.
Ruth
Vianna - Ele faz tudo?
Cristiana
Mesquita - Faz tudo. Faz favela, faz presidente, faz moda, faz
cultura. E eu acho que esse é o grande barato do jornalismo.
Eu sei que muitas das pessoas que estão começando
agora querem se especializar em uma área específica,
com em economia ou em esporte. Eu não quero me especializar
em nada. Eu quero que cada dia seja completamente diferente
do outro. Então, isso é um pouco o trabalho do
correspondente.
No
caso de trabalhar para uma emissora de televisão, você
sabe que a notícia tem de ter um certo gancho para o
Brasil. Se não houver um gancho, você tem que ver
a notícia internacional com um olhar brasileiro. Isso
tem de ser feito de uma maneira que as pessoas que estão
sentadas aqui achem aquilo importante, apesar de estar acontecendo
tão longe, com pessoas com nomes difíceis de pronunciar
e tudo mais. Você tem que trazer isso sempre para uma
perspectiva brasileira.
Ser
correspondente de agência: eu não sei quem
é meu público.
No
caso da agência já é diferente porque eu
não sei quem é meu público. Meu público
vai do Japão à Arábia Saudita, à
Coréia, à América Latina.
Com
isso, talvez você perca um pouco em criatividade na hora
de produzir as suas reportagens, mas, ao mesmo tempo, você
se torna muito mais específico. Você procura a
informação fundamental que tenha de passar da
história. O correspondente fica muito preso nos conceitos:
como, quando, o quê, onde e por quê, que a mim interessa.
Eu gosto disso. Eu gosto de passar a informação
e deixar as pessoas tirarem suas próprias conclusões.
Até porque o veículo exige. Se pegar um texto
de agência, você vai ver uma reportagem de agência
para televisão que segue a mesma linha.
Ruth
Vianna: - Aquele mesmo padrão...
Cristiana
Mesquita - O mesmo padrão.
Ruth
Vianna: - Você tinha quantos anos quando iniciou como
correspondente em Londres?
Cristiana
Mesquita - Dezoito.
Ruth
Vianna: - Quantas guerras você cobriu até hoje?
Cristiana
Mesquita Isso sem contar os conflitos na América
Central, como na Nicarágua e El Salvador, que chamo de
conflitos porque já peguei no final e eram mais escaramuças
e saídas com rebeldes que faziam uma troca de tiros na
floresta e na época não me tocaram como se eu
estivesse cobrindo uma guerra.
Dentro
daquele contexto da América Latina, os conflitos não
eram muito diferentes de uma manifestação de estudantes
no Chile, na época do Pinochet, ou dos perigos que os
jornalistas corriam para tentar fazer qualquer tipo de matéria
na Argentina, já bem no finalzinho das ditaduras. Eu
peguei toda essa fase de transição da democracia
na América Latina, que foi um período muito interessante
também do jornalismo.
Ruth
Vianna: - Por quê?
Cristiana
Mesquita - Porque eu estava morando em Londres há muito
tempo e voltei ao Brasil, à América Latina, em
um período histórico, fundamental, que foi o começo
das quedas das ditaduras. Ao mesmo tempo eu tinha que me educar
sobre a história, principalmente a história da
América Latina. Na escola, a gente já não
aprendia história do Brasil.
Já
havia esta deficiência. Era impressionante, mas aprendia-se
desde o Descobrimento até a Declaração
da República. Declarava-se a República em um ano
e no ano seguinte voltava tudo de novo. Eu acho que tudo a partir
daí estava mais ou menos censurado. Então, eu
tive que me educar para poder educar meus editores, explicar
para eles porque tal fato era importante e o que iria acontecer.
Porque
uma vez que você tirava os generais de óculos escuros
e medalhas eles não entendiam nada de América
Latina. Eles viam só a questão exótica
da América Latina. Aí era uma questão de
fazer matérias sobre a real condição social
do povo, de suas aspirações, e do surgimento de
partidos políticos, que foi uma festa. Esse foi um dos
períodos mais emocionantes da minha carreira, pelo tanto
que eu tive que aprender para poder acompanhar. E a gente saía
do Brasil. Eu me lembro que não cobri a eleição
do Collor porque estava cobrindo a eleição no
Chile e já era a queda do Pinochet. Daí, eu fui
para a primeira eleição livre na Argentina e depois
a Venezuela.
Ruth
Vianna: - Fora os conflitos latino-americanos, você passou
a trabalhar aonde?
Cristiana
Mesquita - Depois veio o período de Bósnia, na
primeira guerra servo-croata e a guerra da Bósnia, que
considero uma coisa só. Se você quiser ser bem
precisa, dividirá em duas coisas, mas, enfim, eu considero
uma só. Eu fiquei todo esse período na Bósnia.
Depois, voltei em 1998 para fazer o Kosovo, onde fiquei por
quatro meses, durante os bombardeios e tudo o mais. Depois fui
ao Afeganistão. E agora, finalmente, o Iraque.
Ruth
Vianna: - Entao você esteve no Iraque?
Cristiana
Mesquita - Sim.
Ruth
Vianna: - Você cobriu para a Globo?
Cristiana
Mesquita - Eu só cobri Londres. Naquele período,
é lógico que eu viajava, fazia matéria
na Espanha e tudo o mais. Mas não fiz nenhum trabalho
de guerra para a Globo nesse primeiro estágio. O que
aconteceu com a Globo é que quando eu estava no Afeganistão
eles não tinham ninguém lá. Eu estava na
época free-lance e não tinha ainda o contrato
com a AP. Então, consultei o pessoal da AP. Perguntei
se eles se incomodavam ou havia algum problema em trabalhar
para a Globo. Eles disseram que não, que a Globo sempre
foi um cliente muito importante, e que eu poderia fazer. E eu
fazia para os dois.
Ruth
Vianna: - Mas no Afeganistão, o Iraque não?
Cristiana
Mesquita - o Iraque, não.
Ruth
Vianna: - O Iraque você cobriu para a AP?
Cristiana
Mesquita - Para a AP.
Ruth
Vianna: - Qual a diferença entre cobrir para a Globo
e para a AP?
Cristiana
Mesquita - No fundo, não tem muita diferença porque
o tempo que podia dedicar e os instrumentos que tinha para fazer
alguma coisa para Globo, estando sozinha, eram tão poucos
que, no final das contas, eu dava uma repaginada no material
que já tinha produzido e investigado durante o dia e
soltava para a Globo.
Ruth
Vianna: - Qual é o dia-a-dia do correspondente no Afeganistão,
na Bósnia ou no Iraque?
Cristiana
Mesquita - Numa guerra!?
Ruth
Vianna: - É.
Cristiana
Mesquita O que você tem? Você fica no local
de combate. Você vai para o front. Mas você tem
duas maneiras de fazer isso. No Iraque, por exemplo, eu tive
uma experiência muito interessante. Eu vou te dar exemplos
porque, obviamente, cada guerra é uma guerra, cada situação
é uma situação diferente. No Iraque, eu
tive uma sorte muito grande porque fiz coisas muito diferentes.
Eu entrei no Iraque logo atrás das tropas.
Eu
não estava lá durante o bombardeio; mas assim
que as tropas americanas entraram em Bagdá, entrei atrás
pelo sul. Eu fiquei durante dois meses completamente móvel,
completamente solta e cobrindo toda parte do sul do Iraque,
que envolvia Basra, uma cidade importante. Nesse período,
eu estava com os Ingleses. Cobri Nassirya, Karbala e Najaf,
cidades sagradas. Cobri todos os rituais muçulmanos que
tinham sido proibidos, rituais xiitas proibidos durante a época
de Saddam Hussein e que aconteceram pela primeira vez após
muito tempo. Eu fiquei completamente solta. E éramos
apenas eu e o cinegrafista.
...Saíamos
gravando e transmitíamos do meio do deserto, se fosse
necessário, ou de qualquer cidadezinha microscópica...
Ruth
Vianna: - Era um cinegrafista brasileiro?
Cristiana
Mesquita - Não, o cinegrafista era egípcio. Era
ótimo porque falava a língua. Eu dirigia um jipe
blindado, aquele jipe americano militar, equipado com sistema
de transmissão ao vivo, por satélite. Uma tecnologia
super nova, mais ou menos inaugurada nessa guerra. Então,
nós chegávamos nos lugares, saíamos gravando
e transmitíamos do meio do deserto, se fosse necessário,
ou de qualquer cidadezinha microscópica. A gente tinha
autonomia para fazer transmissão. A gente também
podia entrar ao vivo em 15 minutos. Esse era o tempo que demorávamos,
para nos preparar e entrar ao vivo.
Ruth
Vianna - E as tropas não barravam vocês?
Cristiana
Mesquita - Não tivemos nenhum problema com os iraquianos.
Os americanos impuseram algumas restrições. Havia
lugares que queríamos entrar e não podíamos.
Por exemplo, eles têm uma base grande em Nassirya (Nazaria),
onde eu queria tentar fazer as entrevistas, mas era uma dificuldade
enorme. A gente passava horas do lado de fora da base. Eram
feitos mil telefonemas e mil bilhetinhos, que os soldados levavam
lá dentro e voltavam.
Ruth
Vianna: - Na base americana?
Cristiana
Mesquita Na base americana em Nassirya (Nazaria), uma
cidade importante do Iraque. Eu queria fazer uma matéria
sobre a cidade de Ur, uma das cidades mais antigas do Iraque,
uma das mais antigas do mundo e cidade de onde veio Abraão.
(Cidade de Ur [Haran], Mesopotânia). E essa cidade estava
dentro da base americana. Eles cercaram a cidade. Eu queria
fazer uma matéria justamente sobre isso.
Como
um monumento histórico dessa importância está
dentro de uma base e a gente não tem acesso? Então,
eles complicavam porque nessa época já tinham
um pânico de segurança muito grande. Mas foi muito
mais tranqüilo do que a minha última cobertura.
Agora, a situação ficou bem mais complicada. Digo
agora dezembro, janeiro e fevereiro. Na segunda vez que fui,
em julho, fiquei embutida com a 4ª Divisão de Infantaria,
em Tikrit. Então, já era outro tipo de trabalho.
Eu levava uma vida militar mesmo, de dormir nos dormitórios.
Nós estávamos acampados dentro de um dos palácios
de Saddam Hussein, que era onde estavam os militares americanos.
E eram dormitórios com 19 pessoas.
Ruth
Vianna: - Eram todos jornalistas?
Cristiana
Mesquita - Não! Soldados!
Ruth
Vianna: - E não tinha jornalistas?
Cristiana
Mesquita Tinha jornalistas. No mesmo dormitório,
com a gente, tinha outro fotografo. Em outro dormitório
tinha um pessoal de outra empresa. Mas no nosso dormitório
tinha um fotógrafo, o meu cinegrafista e eu. O resto
eram soldados. E eu estou falando de soldado homem. Não
estou falando de soldado mulher. Foram quase um mês e
meio com eles, saindo à noite para fazer patrulha, para
entrar nas casas e para tentar capturar. Naquela época
a gente já estava achando que o Saddam Hussein estaria
naquela região. A idéia de estar embutia com eles
era que nós íamos a busca do Saddam. Eles achavam
isto ótimo.
Ruth
Vianna: - Por que era ótimo?
Cristiana
Mesquita - Tikrit era uma cidade onde as pessoas eram pró
Saddam. Então, eles, provavelmente, iriam encontrar os
insurgentes em Tikrit. Foi onde, finalmente, acharam o Saddam
mesmo, muito tempo depois. Depois de estar com esse pessoal,
fui para o norte, mais uma vez embutida, com o 101, de Infantaria,
ao norte de Mosul (a maior cidade ao norte do país),
que aí já era uma das piores condições
de vida possíveis.
A
gente dormia em uns bunkers que tinham pertencido ao Exército
iraquiano. A temperatura lá chegava a 50º (graus).
Você acordava às cinco horas da manhã e
já estava fazendo 45º (graus). O trabalho dessa
infantaria era diferente do da outra. O responsável da
Infantaria saia de jipe, enquanto que a gente saia a pé
para fazer as buscas. Foi quando eles capturaram os filhos do
Saddam.
Ruth
Vianna: - E vocês viram tudo isso?
Cristiana
Mesquita Sim.
Ruth
Vianna: - Mas eles mataram!!!
Cristiana
Mesquita - Mataram, sim...
Ruth
Vianna: - E vocês viram? Como é isso?
Cristiana
Mesquita - Foi um tiroteio. Você não olha muito.
Ruth
Vianna: - O que mais dói na guerra?
Cristiana
Mesquita O que quê mais dói na guerra?
Ruth
Vianna: - É...
Cristiana
Mesquita - Além do pé? (risadas)
...no
fundo eu acho que... é muito difícil você
encontrar inocentes numa guerra, a não ser nas mulheres
e as crianças, porque os homens, de uma maneira ou de
outra, eles se viram, e se aliam a um lado ou o outro, não
é? ...as reais... vítimas numa guerra são
sempre as mulheres, que têm que, que, que sobreviver...
Ruth
Vianna: - Além do pé... (risadas)
Cristiana
Mesquita Eu não sei o que dói mais na guerra.
A gente desenvolve uma série de mecanismos de defesa.
Então, por exemplo, o humor negro impera na guerra. A
gente tenta não levar as coisas muitas a sério.
Para mim, quer dizer, como mulher e como mãe, sempre
é a situação das mulheres e das crianças.
Na realidade, é a única coisa que me dói.
No fundo, eu acho muito difícil encontrar inocentes numa
guerra, a não ser nas mulheres e as crianças.
Os homens, de uma maneira ou de outra, se viram e se aliam a
um lado ou o outro.
As
reais vítimas numa guerra são sempre as mulheres,
que têm que sobreviver ainda mais num país muçulmano
onde é muito difícil uma mulher se mantiver quando
o marido é morto numa guerra, e com as crianças,
que estão ali com a juventude perdida. Então,
para mim essa é uma coisa sempre difícil de fazer.
Eu sofro em toda matéria que envolve refugiados. Se você
vai para um hospital onde vê crianças esperando
por prótese de perna porque perderam. No Afeganistão
isso tinha muito, muito, muito. Aí sim o coração
aperta. Você chora e acha que não vai conseguir
trabalhar no dia seguinte. Agora, de ver soldado atirando de
um lado e de insurgentes atirando do outro, e um matando o outro,
a minha única preocupação é que
nenhuma bala me atinja.
...procurar
proteção, que é sempre uma dificuldade,
porque nós trabalhamos em televisão, então
a gente mostra... tem que matar a cobra e mostrar o pau, eu
não posso me esconder e não ter imagem, não
é?
Ruth
Vianna: - Se eles vão se matar, como é possível
que uma bala não atinja vocês?
Cristiana
Mesquita Não, éh. (suspiro...). Olha. A
gente vai com o mesmo equipamento que um soldado iria. A gente
tem colete à prova de balas e um capacete, mas isso não
protege totalmente; dependendo do calibre da bala e da proximidade
do disparo, ele vai ultrapassar o colete também. Não
tem muito o quê fazer. O que a gente tenta é ser
esperto, não ficar na linha de fogo, enfim, procurar
proteção, que é sempre uma dificuldade
porque nós trabalhamos em televisão. Então,
tem que matar a cobra e mostrar o pau.
Eu
não posso me esconder e não ter imagem. Tanto
que a maioria do pessoal que morre em guerra é fotógrafo
e cinegrafista. Se eles querem a matéria, eles têm
que se expor. O cara que vai escrever dá uma olhadinha
de vez em quando e, depois, entrevista meia dúzia de
soldados e meia dúzia de civis e tem a matéria.
Pra gente, não. Se a gente não mostrar...
Quem
está matando jornalistas no Iraque não são
os iraquianos...
Ruth
Vianna: - Não adiantou nada...?
Cristiana
Mesquita Não adiantou nada. No Iraque, tinha uma
briga constante com o pessoal da minha empresa porque a minha
empresa é completamente paranóica com relação
à questão de segurança. Nós, graças
a Deus, não perdemos ninguém na guerra do Iraque.
Agora, é o que eu sempre digo: não adianta você
ter as preocupações do tipo nós vamos
ser emboscados, nós vamos ser seqüestrados
porque quem está matando jornalista no Iraque não
são os iraquianos.
Ruth
Vianna: - são os americanos...?
Cristiana
Mesquita - São os americanos e contra eles você
não tem como se proteger.
Ruth
Vianna: - Mas vocês estavam junto com eles?
Cristiana
Mesquita - Mas mesmo assim, mesmo assim, pois já aconteceu
que jornalistas...
Ruth
Vianna: - No caso do espanhol, o cinegrafista espanhol foi morto
por americanos?
Cristiana
Mesquita - Foi. O cinegrafista da Reuters, que estava
no hotel. Foi um tanque que atirou no cinegrafista da Reuters,
que morreu em julho e de quem eu estava praticamente do lado.
Ruth
Vianna: - Mas atirou sem querer ou como foi isso?
Cristiana
Mesquita - Não acredito que tenha nenhuma estratégia
para você fazer o jornalista de alvo. O que você
tem é um despreparo muito grande e um medo. Eles têm
medo de absolutamente tudo. Qualquer coisa que apareça
na frente deles, que eles acreditem que seja inesperado disparam
primeiro e perguntam depois.
...e
no entanto, convivendo com eles, eu não podia deixar
de sentir pena, porque você via que eram meninos, né,
e que choravam de noite, com saudade da mãe, com saudade
da, da namorada...
Ruth
Vianna: - Como você vê essa guerra? Essa guerra
tem um contexto econômico nos Estados Unidos porque tinham
milhões de desempregados e, no caso das fotografias (somente
agora mostradas pela imprensa. Fotografias com tortura e pornografia),
tinha pessoas despreparadas, os soldados norte-americanos eram
despreparados?
Cristiana
Mesquita O Exército americano é interessante
porque dizem que é o Exército mais bem treinado,
mais bem-equipado do mundo, mas eu acho que ficar por tanto
tempo estudando novas tecnologias, novos tipos de armamento
e levantando peso, fazendo exercício e que eu não
acredito que não tenham nenhum tipo de preparação
psicológica séria para esses meninos. Quer dizer,
eu sou antimilitarista ao extremo e, no entanto, convivendo
com eles, eu não podia deixar de sentir pena porque se
via que eram meninos e que
choravam de noite com saudade da mãe, com saudade da
namorada.
Comparados
com a gente, com os jornalistas que estavam lá, a gente
olhava... e... Nós jornalistas pensávamos: tudo
isso que você está passando a gente já viu
dez vezes. Agora, para muitos deles, era a primeira vez que
estavam saindo dos Estados Unidos. Então, você
imagina todo o contexto de um país com uma cultura completamente
diferente, um pessoal que está atirando para matar e
eles sem nenhum tipo de preparo psicológico.
Ruth
Vianna: - Como é que você, como jornalista define
o ataque de 11 de setembro, depois o conflito do Afeganistão
e o Iraque agora; tanto de um lado quanto do outro, tanto do
Bush quanto de Saddam Hussein?
Cristiana
Mesquita - Todo mundo sabe onde estava no dia 11 de setembro.
Vai ser uma daquelas datas que ninguém esquece o que
estava fazendo.
Ruth
Vianna: - É, essa é aquela data...
Cristiana
Mesquita - É daquelas datas para marcar para sempre.
Eu estava no sul do Brasil, eu estava free-lance naquela época,
estava fazendo um documentário para a FAO sobre agricultura
quando eu soube da história. A primeira coisa que me
ocorreu, é terrível dizer isso, fud ...,
desculpa. Sei que não posso dizer uma expressão
dessas, mas, fud..., entende. Todos os projetos
que eu estavam engatilhando para fazer depois desse documentário
vão por água abaixo. Tenho certeza que só
se vai fazer uma coisa sobre o onze de setembro e na mesma hora,
eu sabia e disse: os EUA vão atrás do Afeganistão.
Porque
o onze de setembro tinha todas as características de
um ataque da Al Qaeda, a Al Qaeda estava
totalmente infiltrado no Afeganistão. Isso a gente sabia,
onde que estavam os campos de prisioneiros. Na época
eu falei: tomara que vá para o Afeganistão
porque não é possível que alguém
não tenha tomado uma atitude com relação
ao Taliban. Mas ao mesmo tempo se apresenta mais
daquelas incongruências da política externa americana,
de ter apoiado um grupo que hoje em dia está no poder
e cometendo as maiores atrocidades quando lhe foi conveniente
e depois ir atrás dessa maneira. Então, a guerra
do Afeganistão, para mim, fez algum sentido nesse ponto.
Era a hora de acabar com o Taliban.
Ruth
Vianna: - Você é contra o Taliban?
Cristiana
Mesquita - Eu era contra o Taliban.
Ruth
Vianna: - E agora?
Cristiana
Mesquita - Continuo contra o Taliban. Eu não
sou contra o Afeganistão. Eu estava o tempo todo com
o pessoal da Aliança do Norte, que, para
mim, fazia muito mais sentido. Mas os Estados Unidos sempre
se recusou a apoiar a Aliança do Norte.
Ruth
Vianna: - Quem é a Aliança do Norte?
Cristiana
Mesquita A Aliança do Norte era um
dissidente, é um pessoal que assumiu. Eram os antigos
Mujahedins que assumiram o poder logo depois da
expulsão dos soviéticos e que foram enxotados
pelos talibans, fundamentalistas, e que ficaram com uma pequena
parte do norte do Afeganistão. Inclusive a capital Cabul
estava nas mãos dos talibans. A Aliança
do Norte sempre pediu a ajuda dos Estados Unidos e da
comunidade internacional para eliminar o Taliban e todo o resto.
Ninguém quer saber.
Está
num país perdido, no fim do mundo, ninguém quer
saber. Então, acho que a queda do Taliban
foi uma boa coisa. Não sei quanto tempo vai durar já
que eles já estão colocando as manguinhas de fora
aí novamente. Mas eu acho que foi uma boa coisa. Não
acho que você bombardear um país (risada) seja
jamais uma boa coisa, mas eu não sou mais hippie,
eu não tenho mais dezessete anos, eu não sou mais
inocente de achar que você pode resolver algumas coisas
sem guerra. Então, se você colocar de uma maneira
geral, e eu passei bastante tempo no Afeganistão, entre
o que está agora e o que estava antes, está melhor...
(...) eu não tenho mais dezessete anos, eu não
sou mais inocente de achar que você pode resolver algumas
coisas sem guerra...
Ruth
Vianna: - Você passou quanto tempo mesmo, lá?
Cristiana
Mesquita - No Afeganistão
...eles
estavam estrangulados, pelo Taliban, você
vai ter que lembrar que era um pessoal que proibia empinar pipa,
não é. Se você for partir para a área
rural do Afeganistão, que é a grande parte, e
é uma, uma comunidade..., - é uma viagem no Afeganistão,
uma volta ao tempo, você...-, é uma comunidade
de pastores, perdidos, no meio do nada...
Ruth
Vianna: - É...
Cristiana
Mesquita - Eu fui três vezes.
Ruth
Vianna: - E aí você foi e ficou quatro meses?
Cristiana
Mesquita - Exatamente. Então é bom que você
meio que acompanha. Você vai e volta, você acompanha...
Ruth
Vianna: - E quando falava com a população, você
percebia qual era a ansiedade da população? O
que eles sentiam? Eles queriam aquela guerra ou eles não
queriam?
Cristiana
Mesquita - Como em toda população de todo país,
você tem alguns que sabem o que está acontecendo
e alguns que não sabem o que está acontecendo,
obviamente. Então, se você está falando
com o pessoal da parte da Aliança do Norte,
que é o pessoal com aspirações políticas,
ou mesmo com os militares, obviamente, eles estavam aplaudindo
aquilo. Se você falar com a população em
geral que vivia em Cabul, eles já não agüentavam
mais.
Eles estavam completamente estrangulados pelo Taliban.
Você vai ter que lembrar que é um pessoal que proibia
empinar pipa. Se você for partir para a área
rural do Afeganistão, que é a grande parte e é
uma comunidade...uma viagem no Afeganistão é uma
volta ao tempo...é uma comunidade de pastores perdidos
no meio do nada, esse pessoal nem sabia porque que estava caindo
bomba na cabeça deles. Ao mesmo tempo...quer dizer...era
assim... ôpa, mais uma vez porque aquele país
está em guerra há muitos anos.
Ruth
Vianna: - Eles são povos guerreiros, né?
Cristiana
Mesquita - Eles são povos guerreiros. Mas quem
é que está bombardeando a gente dessa vez?
Ruth
Vianna: - Esta é a pergunta...
Critiana
Mesquita - Porque ainda mais com o Taliban eles
não tinham acesso à televisão, não
tinham acesso à rádio, não tinham jornal,
não tinham mais nada, não tinham como saber o
que estava acontecendo. A maioria da população
rural do Afeganistão não tinha nem ouvido falar
do 11 de setembro, do ano de setembro de 2001.
Ruth
Vianna: - E o Bin Laden, como que você o definiria. O
que você acha que é lenda e o que você acha
que é verdade?
Cristiana
Mesquita - É muito difícil saber o que é
lenda e o que é verdade. Ele, obviamente, é uma
pessoa que tem seus objetivos muito claros e que tem alianças
muito fortes, que a gente ainda não sabe quem são
essas pessoas que apóiam o Bin Laden. A gente tem alguma
idéia. Mas que ele tem alianças muito fortes,
tem; senão ele já teria sido pego, quer dizer,
uma pessoa que pode se movimentar com uma certa facilidade,
que ele tem um apoio, e esse apoio é internacional, que
provenha do mundo árabe. Então, obviamente não
é um maluco qualquer.
A
Arábia Saudita é o país mais duas caras
que existe na face da terra, porque, mesmo esses nossos preconceitos
todos com relação aos xiitas, com relação
a Sadam Husseim, essas coisas todas, têm uma, uma fonte,
vem tudo... da Arábia Saudita.
Ruth
Vianna: - Ele não foi, inicialmente, amigo da família
do Bush?
Cristiana
Mesquita Pessoalmente, não. A família,
sim. Na verdade, a única coisa que é difícil
de engolir ou de entender dentro do Golfo é a Arábia
Saudita. A Arábia Saudita é o país mais
duas caras que existe na face da Terra porque mesmo esses nossos
preconceitos todos com relação aos xiitas, com
relação a Saddam Hussein, essas coisas todas,
tem uma fonte, vem tudo da Arábia Saudita, que é
o pior tipo de muçulmano que existe, que é o Al
Rabi? Que é de onde vem o Bin Laden, que é de
onde vem o Taliban, que é de onde vem...
Enfim, essa cadeia de terrorismo internacional não é
xiita, não é palestina, é o Al Rabi. E
esse pessoal é financiado por alguém. E, obviamente,
quando o Osama bin Laden foi para o Afeganistão lutar
contra a ocupação soviética, ele teve apoio
dos Estados Unidos porque eles apoiavam o Diabo que fosse...
Ruth
Vianna: E ele esteve então contra a ex União Soviética...?
Cristiana
Mesquita - Contra a União Soviética...
Ruth
Vianna: - Mas ele rompeu com os EUA?
Cristiana
Mesquita - Ele rompeu com os Estados Unidos durante a guerra
do Golfo porque ele não aceitou, como Al Rabi que é,
que houvesse presença dos infiéis, de tropas estrangeiras,
no solo sagrado da Arábia Saudita. E aí ele Estados
Unidos...
Ruth
Vianna: - E o Bush, como você o definiria nessa guerra?
Ele queria o quê?
Cristiana
Mesquita - Como eu posso... definir o Bush é complicado.
Essa guerra tem um lado... é... difícil dizer
isso porque você vai ver que você tem um lado de
infantilidade. Eu acho... muita gente diz isso...
Aí...,
vem a crítica à imprensa. A imprensa não
conseguiu deixar claro, pra opinião pública americana,
que aquilo era uma sandice, que em nenhum momento uma aliança
entre Osama bin Laden e Saddam Husseim era possível,
porque são dois opostos...
Ruth
Vianna: - ...mas para quem viveu tudo isso não é
infantilidade (sorriso)...
Cristiana
Mesquita - Pois é, mas muita gente diz isso com muita
tranqüilidade, mas eu não consigo dizer isso porque,
mal ou bem, é o presidente americano e ele não
decide nada sozinho. Então, é muito fácil
às pessoas comentarem: ah, porque ele estava com
aquela coisa engasgada com o pai, o pai não conseguiu,
então ele ia conseguir. Ele pegou o que ele achava
que era um gancho, que era o onze de setembro, para reaproveitar.
Eu
vou me livrar do Saddam Hussein, que se recusa a play
ball, que se recusa a jogar com a gente; vou ficar com
aquele petróleo todo para mim; vou dar trabalho ao pessoal
que apoiou desde o início a minha campanha, que é
a indústria armamentista americana; vou faturar milhões;
o meu esquema de petróleo vai ficar muito bem; e todo
mundo vai cair na minha esparrela de que o Saddam Hussein pode
ter tido alguma coisa a ver com o onze de setembro.
Aí
vem a crítica à imprensa. A imprensa não
conseguiu deixar claro, para opinião pública americana
que aquilo era uma sandice, que em nenhum momento uma aliança
entre Osama bin Laden e Saddam Hussein era possível,
porque são dois opostos, entende? O Saddam Hussein é
tudo que o Bin Laden odeia. Era um cara ocidentalizado, secular,
enfim, que não tinha nenhum elemento político
ou ideológico com o Osama bin Laden. Você pode
até dizer que o Saddam Hussein apoiava abertamente, isso
todo mundo sabia, os movimentos palestinos, que há muitos
anos só atuam dentro da área deles.
Você
não pode mais chamar aquilo de terrorismo internacional.
É uma luta lá. Isso ele fazia abertamente. Ele
dava dinheiro para famílias dos... e dos mártires
e tudo o mais. Mas ligados ao onze de setembro não tinha
o menor cabimento. O que o Bush não fez e achava que
fazia, ele devia ter conversado com o pai dele e saber porque
que o pai dele não invadiu o Iraque naquela época...
O
Bush acreditava que ele ia chegar no Iraque ... que ia comprar
a população iraquiana com McDonalds...
Ruth
Vianna: - ...porque é um espaço... uma população
com uma tradição cultural quase que impenetrável?
Cristiana
Mesquita - Exatamente, porque você invade e você
faz o quê com um país que tem 65% da população
xiita? Ele não foi por causa disso. Pensou assim:eu
faço o quê; vou até lá, vou invadir
para o Iraque virar outro Irã? Eles nunca vão
fazer isso. O Bush acreditava que ia chegar, ia fazer todos
os incentivos que, enfim, ia comprar a população
iraquiana com McDonalds e não mais sei o
que, mas quando ele começou a encontrar resistência
e viu em que estado estava a infra-estrutura do país,
depois daquele período todo de embargo econômico,
viu que tinha entrado numa grandessíssima roubada. Agora
não tem outro jeito, vai ter que meter mais tropa lá,
até a coisa acalmar, se é que algum dia ela vai
acalmar... né...
Ruth
Vianna: - Então... a sua posição sobre
o Bush na guerra do Iraque...
Cristiana
Mesquita - Errou, fragorosamente, e ele invadiu o Iraque pelos
motivos errados. Se o Bush pai tivesse invadido na época
em que o Iraque invadiu o Kuait, você até podia
entender. Foi um país que invadiu o outro. Não
vai ficar assim. Mas ele parou.
Ruth
Vianna: - São dois motivos, então, que você
está me falando. Ele falava que tinha armamento químico.
Era uma desculpa. A questão mesmo era o petróleo
e vingar o Bush pai?
Cristiana
Mesquita Armamento químico e ligação
com o onze de setembro foram as desculpas que ele deu para o
público. Essas foram às desculpas que ele deu
para o público, que eles tinham armamentos de destruição
em massa e de que o Saddam Hussein estaria de alguma maneira
envolvido com os atentados de onze de setembro.
Você
tem que se lembrar que naquela época os jornalistas trabalhavam
no Iraque num sistema de censura como poucas vezes se viu...
Ruth
Vianna: - Você acha que a imprensa não deixou isso
claro?
...agora,
pelo menos a gente aprendeu com isso, né... fonte oficial
da Casa Branca... jamais...
Cristiana
Mesquita - Eu acho que não, não o suficiente,
não o suficiente...
Ruth
Vianna: - E por que você acha isso?
Cristiana
Mesquita - Porque a Casa Branca falava com tamanha convicção
e as dificuldades de investigar o Iraque, naquela época,
eram muito grandes. Você tem que lembrar que naquela época
os jornalistas trabalhavam no Iraque num sistema de censura
como poucas vezes se viu. Você não dava um passo
para fora do hotel sem uma pessoa do Ministério da Informação
do seu lado. Então, as dificuldades de investigar in-loco
qual era a real situação do Iraque enganaram a
imprensa. Então você achava talvez.
Talvez a Casa Branca esteja com a razão. Talvez eles
tenham mesmo isso. Então, quando você não
pode chegar lá e verificar com seus próprios olhos,
você especula e aceita a especulação de
quem você acha que sabe mais. Nesse caso, a Inteligência,
enfim, a CIA, e todos esses monstros sagrados que a gente achava
que eram competentíssimos e que hoje a gente vê
que eram um bando de amadores quase. Porque o trabalho que eles
fizeram no Iraque foi o de amador. Agora, pelo menos, a gente
aprendeu com isso. Fonte oficial da Casa Branca, jamais.
Ruth
Vianna: - E com relação às fontes, essas
que não são as oficiais...que tipo de outra fonte
que você utiliza?
Cristiana
Mesquita - Todas que eu puder, todas que eu puder angariar...
Ruth
Vianna: - Você falava com quem?
Cristiana
Mesquita - No Iraque, minhas fontes? Eu tenho gente que era
ex-membro do partido Baath, eu tenho altos oficiais do Exército
iraquiano, eu tenho pessoal que já era dissidente na
época do Saddam Hussein, eu tenho meus contatos em Fallujah
com os insurgentes e tenho contato com os militares americanos.
Então, cada notícia eu tenho que passar por toda
essa gente e tentar tirar alguma coisa que se assemelhe pelo
menos à verdade porque há muito que eu descobri
que a verdade é uma coisa muito fluída.
É
muito difícil em uma guerra, principalmente onde tantos
interesses estão em jogo, você chegar e dizer:
esta é a verdade absoluta. Essa arrogância eu já
deixei para trás há muito tempo. E isso é
o que a gente acredita que está acontecendo nesse momento.
É o melhor que eu posso fazer.
Não
tem cobertura de guerra no Brasil...
Ruth
Vianna: - Como que você analisaria a cobertura das guerras
feita pelo Brasil? Poucas emissoras de televisão, jornal
estiveram no local dos acontecimentos.
Cristiana
Mesquita - Não tem cobertura de guerra no Brasil...
Ruth
Vianna: - Colocaram poucos jornalistas. A Folha de S.Paulo foi
o único?
Cristiana
Mesquita O jornalismo internacional como toda a imprensa
brasileira estão tão falidos que a única
empresa que mandou alguém foi a Folha de S. Paulo, por
iniciativa do próprio repórter que batalhou. Ele
foi para o Iraque. Um dia antes de começar o bombardeio
ele saiu do Iraque. O que o Sérgio Ávila disse
é que acabou o dinheiro. Tudo no Iraque é feito
em cash. A gente viaja com uma mala de dinheiro porque a única
maneira de você cobrir uma coisa é com dinheiro.
Então, por questões de segurança, por questões
financeiras, ele teve que sair. Voltou depois. Ficou mais duas
semanas e foi embora.
A
outra empresa foi a Globo, que mandou o Uchôa. O Uchôa
ficou no Kuait o tempo todo. Depois que as tropas
tomaram, ele fez uma viagem. Ele foi do Kuait até
a Jordânia, passando por Bagdá, fez umas poucas
matérias e foi embora. A outra ida para Bagdá
foi Willian Waack, que foi. É um grande jornalista. Como
ele foi parar em Bagdá? Ele recebeu um convite do Governo
do Líbano, que estava querendo estimular o turismo no
Líbano. Então, mandou a passagem e a estadia para
o Willian ir para o Líbano. Ele aproveitou, já
que estava pertinho, deu uma escapada para Bagdá, fez
três matérias e voltou. Então, não
tem jornalismo internacional nem cobertura de guerra no Brasil...
Ruth
Vianna: - E isso nos outros países não acontece,
eles mandam mesmo correspondentes. Eles fazem uma cobertura
mais séria?
Cristiana
Mesquita - Claro que mandam. Tem escritório. Claro, você
não cobre um evento como o Iraque eventualmente. Todo
mundo montou um esquema, todo mundo já tem casa, todo
mundo já está funcionando lá.
Ruth
Vianna: - ...antes até mesmo de tudo acontecer?
Cristiana
Mesquita - ...pois é, antes, durante e vai continuar,
vai continuar...
Ruth
Vianna: - E o que é necessário para que isso mude?
Porque o Brasil não faz isso?
Cristiana
Mesquita - ...Investimento...
Ruth
Vianna: - ...ou, politicamente, para eles isto não é
viável?
Cristiana
Mesquita - Eu não sei politicamente o quê. Essa
é uma filosofia da televisão brasileira, quer
dizer, quando a gente fala de televisão brasileira é
muito engraçado porque a gente acaba falando de Globo
mesmo. Uma vez conversando com uma pessoa na Rede Globo, que
era um chefe grande e naquela época eu estava passando
a maior parte do tempo na Bósnia, eu disse: gente, vocês
não vão mandar ninguém para a Bósnia?
Ele respondeu:ah, não Cristiana; Tite, como
me chamam, o negócio é o seguinte: a gente tem
um aparelhinho aqui que cada vez que entra a matéria
da Bósnia, no medidor, a audiência cai.
Eu
falei: sabe o que isso está parecendo, está parecendo
aquela propaganda que tinha antiga do Tostines: é
mais fresquinho porque vende mais, ou vende mais porque é
mais fresquinho?. Não é a guerra da Bósnia
que não interessa para o brasileiro; é o fato
de que não tem nenhum brasileiro cobrindo a guerra da
Bósnia; o que você está colocando no ar
é um material frio de agência que vocês colocam
assim meio que enlatado, assim uma coisa meio sem
pé nem cabeça, e as pessoas não têm
o menor interesse naquilo; agora, coloca um bom repórter
lá, coloca pessoas fazendo boas imagens, com um bom texto,
e as pessoas vão ver. Então ele falou: ah, mas
isso não tem interesse dentro do que está acontecendo
no Brasil; as notícias do Brasil são mais importantes.
o
negócio é o seguinte, a gente tem um aparelhinho
aqui, que cada vez que entra a matéria da Bósnia,
no medidor, a audiência cai...
Ruth
Vianna: - Seria... mas há que se olhar lá fora
também, até por uma questão de saúde
democrática?
Cristiana
Mesquita - Claro que as notícias do Brasil são
mais importantes, mas, por, pelo amor de Deus, vocês são
uma concessão pública, e é muito perigoso
um país viver olhando para o próprio umbigo. Esse
conhecimento internacional é fundamental para o nosso
crescimento, para o nosso entendimento de que mundo a gente
está. Não é mais uma coisa isolada. Aí
depois eu vi que eu tava dando murro em ponta de faca. Aí
disseram que é muito caro. É caro e o tipo de
pessoa que você vai colocar lá é muito rara.
É um profissional muito dedicado, que tem uma história
de vida, um tipo de personalidade, enfim, não pode ser
qualquer profissional.
Ruth
Vianna: - Qual que era seu relacionamento com a equipe estrangeira,
os colegas estrangeiros, e como que eles se portavam? São
profissionais muito mais preparados intelectualmente?
Cristiana
Mesquita - Todo o nosso pessoal é uma torre de
Babel. Todo mundo é estrangeiro. Você ouve
todos os sotaques.
Ruth
Vianna: - Sotaques possíveis... e inimagináveis,
com culturas diferentes...
Cristiana
Mesquita - Possíveis e inimagináveis, muito bem.
Ruth
Vianna: - E eles ajudavam uns aos outros?
Cristiana
Mesquita - Agência é a coisa mais competitiva que
existe no mundo. Nada se compara com a competição
entre agências. Entre a AP e a Reuters, por exemplo, a
gente quando se encontra para jantar ou para tomar um drink,
a gente tem que fazer escondido do nosso escritório porque
a gente não pode nem se falar. Não é bem
visto que a gente se fale. E dentro existe uma competição
muito forte. Agora, a gente tem plena noção de
que numa guerra a gente só pode contar um com o outro.
Então,
na hora que um jornalista é ferido ou que está
numa situação difícil, a única pessoa
que ele pode contar é com o outro jornalista. Não
vai ser soldado, não vai ser civil, não vai ser
a Cruz Vermelha, não vai ter ninguém que vai até
lá te tirar daquela situação. Vai ser um
colega. Então, nesse sentido se criam laços muito
fortes. Dentro da própria empresa, então, é
impressionante.
Você
é colocada para trabalhar em situações
limites, em condições de vida muito difíceis,
que se uma coisa grave acontecer, como a morte de um jornalista
na primeira semana, você se torna irmão de sangue
de outros jornalistas para o resto da vida porque é o
tipo de relacionamento que você acaba tendo até
pela própria situação, pelas condições
do lugar...
Ruth
Vianna: - Então, Cristiana, me fala um pouquinho também
dessa linguagem. Você me falou que teve de estudar história
e geografia para ser correspondente de guerra de televisão.
Como é esse aspecto da linguagem também utilizada
para a comunicação na TV ... os jargões
da guerra?
Cristiana
Mesquita - A nossa língua, quer dizer, a língua
entre todos os correspondentes acaba sendo o inglês, obviamente.
Eu trabalhava muito próximo a eles. Às vezes,
nós saíamos e todos fazíamos a mesma matéria.
Muitas vezes, eu me sentava para vê-los transmitindo.
Via como o japonês e como o italiano, por exemplo, mandavam
a mesma matéria que eu fiz durante o dia. Era muito engraçado
porque aí eu via as características culturais
de cada público.
As
ênfases em determinados aspectos da matéria mudavam
de acordo com o approach de cada correspondente,
dependendo da sua região. Quer dizer, às vezes
uma espanhola cobria a matéria de uma certa maneira e
os japoneses já cobriam de outra completamente diferente.
Entre os americanos e os ingleses há uma diferença
vastíssima. O Inglês prefere pegar uma matéria
e destrinchá-la.
Eu
sempre digo que do menor denominador comum, os ingleses fazem
uma coisa um pouco mais compacta e muito mais sólida
em termos de informação. O americano já
gosta de uma pirotecnia maior. Ele entrevista cinco pessoas
e põem uma matéria de dois minutos, cada um com
sound muito pequeno, só com palavras-chaves. Quer dizer,
você vê aí todas as mudanças de linguagem
de acordo com o que cada um tem de sua cultura de televisão.
Ruth
Vianna: - Então, a tecnologia que vocês utilizavam
eram iguais em termos de potência, mas em termos de conteúdo,
de formato muda bastante?
Cristiana
Mesquita - Praticamente, são mais ou menos iguais os
equipamentos tecnológicos.
Ruth
Vianna: - Mas à parte de conteúdo...
Cristiana
Mesquita - muda radicalmente...
Ruth
Vianna: - Por causa da cultura?
Cristiana
Mesquita - Por causa da cultura e do meio também, obviamente.
Alguns faziam uns programas maiores, alguns tinham mais espaço
nos seus telejornais e outros tinham menos.
Ruth
Vianna: - O brasileiro segue a escola norte-americana?
Os
europeus buscam dar mais conteúdo... você tem a
obsessão pela objetividade...
Cristiana
Mesquita - Totalmente...
Ruth
Vianna: - Totalmente. Então, isso se assemelhava. Os
europeus procuram valorizar mais o conteúdo?
Cristiana
Mesquita É. Dentro dos europeus há uma
diferença. Tem aquela coisa da obsessão da objetividade
da BBC. Os franceses já tinham um outro ritmo. Era ritmo
de edição mais lenta. Era um texto mais rebuscado
e uma busca de análise. Então, é aquilo
que a gente chamava no meio de matérias chatas
dos franceses.
Ruth
Vianna: - Era mais interessante ou dava até vontade de
dormir?
Cristiana
Mesquita - Os italianos também tem variações,
dependendo se era a televisão do Berlusconi ou se era
a RAI. Além disso, há diferenças ideológicas
dos próprios jornalistas. O jornalista não é
um robô. Ele coloca, mesmo que subliminarmente, suas próprias
visões, seu próprio modo de ver e sentir os acontecimentos.
Ruth
Vianna: - E você coloca também a sua própria
visão de mundo?
Cristiana
Mesquita Eu coloco o tempo todo a minha própria
visão de mundo. Não tem jeito. Eu posso tentar
ser o mais objetiva possível, mas quando coloco que sou
mulher, sou latino-americana, sou mãe a minha matéria
sempre sai diferente porque às vezes sou substituída.
Vem outra pessoa e eu fico lendo e digo: nossa,
é óbvio que mudou o correspondente. O texto muda
completamente. E a minha própria visão sobre o
país é diferente, é a minha. Foi o que
eu procurei saber, o que eu estudei. Então, você
tem variações nesse ritmo. Primeiro, qual o país.
Depois, qual o veículo e qual a linha desse veículo.
E, por fim, o próprio correspondente.
A
internet é interessante pela variedade de informações,
mas não é o meio de maior credibilidade...
Ruth
Vianna: - Em termos de veículos, quem fez o melhor trabalho
jornalístico em termos de cobertura: a internet ou a
televisão? A internet teve algum papel significativo
na cobertura dos acontecimentos?
A
televisão espanhola fez um excelente trabalho... já
a CNN enfiou os pés pelas mãos...
Cristiana
Mesquita- Eu não sei. Eu acho a internet maravilhosa,
mas não sou nem louca de só olhar a Internet porque
você senta na internet e escreve o que quiser. Você
não é responsável pelo que está
escrevendo.
Numa
televisão ou num jornal você tem que saber seu
dever de casa porque senão o bicho pega. Então,
a internet é interessante por essa variedade de informações,
mas não é o meio de maior credibilidade. Eu acho
que alguns tiveram bastante credibilidade. Eu acho que a televisão
espanhola fez um bom trabalho.
A
imprensa espanhola, os jornais espanhóis são muito
bons. Os jornais ingleses fizeram um bom trabalho. A BBC, de
uma maneira geral, fez um bom trabalho. A CNN enfiou os pés
pelas mãos várias vezes. Os networks americanos
também. Mas num cômputo geral eu acho que você
acusar a imprensa, como se tentou fazer aqui várias vezes,
não é o mais acertado.
Acusar
a imprensa de incompetência e de ser tendenciosa, parece-me
agora uma maneira muito fácil de julgar.
Ruth
Vianna: - Julgar, simplesmente?
Cristiana
Mesquita - De julgar todos esses contextos. Eu estou acompanhando
agora a história do The New York Times, na matéria
sobre o Lula, que incluiu as medidas do presidente Lula, e agora
o New York Times é imprensa marrom e aquelas coisas todas.
A própria crítica do governo Lula com relação
à imprensa virou joga pedra na Geni! Se o negócio
está ruim, a culpa é da imprensa. Pedra na Geni.
Não estou dizendo que nós somos infalíveis,
não. Longe disso! Mas, enfim, tem que começar
a olhar em volta e ver também qual é a nossa própria
responsabilidade.
Ruth
Vianna: - Vocês não têm a fórmula,
você já falou isso: o correspondente que vai cobrir
guerra é uma pessoa especial. Você não tem
uma escola que forme esta pessoa, não tem faculdade que
forme o correspondente. É uma rotina totalmente diferente
da rotina de um jornalista que trabalhe na sala de redação
na editoria internacional. Então, como ser um bom correspondente
internacional e que cubra guerra?
Cristiana
Mesquita - Os correspondentes de guerra têm um background
os mais variados que se possa imaginar. Tem gente que vem de
outras áreas, que começou a fazer jornalismo em
guerra porque sentia uma enorme atração. Alguns
eram ex-militares e que convivendo com a imprensa apaixonaram-se
e viram que era uma maneira de continuar tendo a vida emocionante
que tinham.
Na
verdade, eu acho que a nossa vida é muito mais emocionante
que a deles. Alguns se tornaram jornalistas porque na maior
parte do mundo não têm as mesmas exigências
que tem no Brasil, de diploma de comunicação.
É mais um tipo de pessoa. Mas eu acho que faz muita falta.
Você
tem que aprender a ser jornalista... porque jornalista todo
mundo é. Jornalista não é profissão,
jornalismo é atividade, não é? Jornalista
todo mundo pode ser...
Ruth
Vianna: - Isso vai exigir que repense o estudo de jornalismo
no próprio Brasil, da própria cultura do Brasil.
O que você acha que seria necessário para modificar
isso, que as escolas de comunicação, o governo
e os meios de comunicação precisariam fazer?
Cristiana
Mesquita É inocente, mas eu sempre achei que se
a minha vida tivesse sido diferente e eu tivesse optado por
aprender a fazer jornalismo de uma maneira acadêmica,
eu jamais teria feito isso no Brasil. Eu acho que o ideal seria
você fazer um curso de qualquer tipo de formação,
de psicologia, de economia, de história, de filosofia
ou o que quer que seja e depois fazer um curso de pós-graduação
ou de especialização em jornalismo porque jornalista
todo mundo é. Jornalista não é profissão.
Jornalismo é atividade. Jornalista todo mundo pode ser.
Eu
estou com um filho fazendo faculdade de jornalismo e está
pensando em mudar para desenho, mas ao mesmo tempo ele adora
escrever. Eu falei para ele fazer o que quiser. Se fosse jornalista
mesmo, se ele quisesse falar, se quisesse contar a notícia
ninguém iria pará-lo porque é um negócio
que ele precisa fazer. Quando eu era garota, na escola o pessoal
dizia que tinha um segredo e pedia para eu jurar que não
contaria a ninguém. Eu falava para que não me
contassem porque se batesse aqui, sairia ali na mesma hora.
Aliás, pedia para não me contar nada porque não
existe off the record para mim. Ou é on
the Record ou não fala, no call.
Ruth
Vianna: - Então é melhor não falar?
Cristiana
Mesquita - Não fala. Então, apesar de conhecer
pouco, eu acho a formação da parte acadêmica
totalmente inútil para esse tipo de trabalho. Ninguém
numa faculdade de comunicação aprende como se
faz para ser correspondente de guerra. Dentro dos meios de comunicação,
sim, você pode treinar uma pessoa. Não seria um
treinamento específico, algo que você faria numa
sala de aula ou mesmo dentro de uma redação, mas,
dependendo do tipo de matéria, essa pessoa faria. Em
vez de comprar material do National Geographic para o Globo
Repórter, seria maravilhoso pegar um jovem repórter
e um cinegrafista e mandá-los ficar um mês no Nordeste.
Falar
para ele ver o que consegue levantar no Nordeste de informação,
ver o que tem de interessante para fazer. Esse é o treinamento.
A gente chega num lugar que a gente nunca esteve antes na vida,
onde a gente não fala a língua e no mesmo dia
já está mandando matéria. Esse não
é um treinamento que se pode ter em lugar nenhum. Só
se aprende fazendo. Não precisa, necessariamente, pegar
o pobre infeliz que acabou de sair do seu curso de comunicação.
Eu até sou contra. Se você for ver hoje em dia,
vai ver que a média de idade do correspondente de guerra
é de pelo menos 40 anos. Eu tenho 46 anos e, comparada
com meus colegas, ainda sou uma menina. E você vai criando
um calo.
Ruth
Vianna: - Uma experiência...
Cristiana
Mesquita É uma experiência que te leva a
poder fazer certos tipos de matérias. Agora, você
pode pegar por repórter, não vou nem dizer o que
está começando, e dizer que acabou a mordomia.
E dizer que ele não sairá com um carro com ar
condicionado, não terá uma equipe de produção
levantando a pauta, irá para lá de Quixeramobim,
ficará lá um mês e terá de mandar
cinco matérias. Porque do jeito que a coisa está,
hoje eles mandam o pessoal para correspondente internacional
meio como um prêmio.
Ruth
Vianna: - Você se comportou?
Cristiana
Mesquita - Pois é. Você foi tão legal, você
está aqui com a gente há tanto tempo e vai ser
um prêmio.Você vai trabalhar no nosso escritório
em Londres. Nem todo grande jornalista no Brasil é um
bom correspondente internacional.
Ruth
Vianna: - É preciso ter outro idioma, conhecimentos culturais
de diversos países...
Até
essa palavra repórter... eles não gostam mais,
é correspondente... é editor... é não
sei o quê... que quê tem de errado com o repórter?!?!,
né?
Cristiana
Mesquita - Muitos não têm outro idioma...
Ruth
Vianna: - A família impede...
Cristiana
Mesquita - Exatamente. E o cara tem outro padrão de vida,
outra maneira de ver a coisa. Então, espera aí.
Na época que eu comecei, em Londres, quando a Sandra
Passarinho era correspondente, o caixa da TV Globo para viagem
era de US$ 2.000,00. Quando a Sandra queria fazer a matéria,
ela dormia no carro porque não tinha dinheiro para pagar
o hotel. Mas ninguém a impedia de fazer a matéria.
Mas
a Sandra tinha 22 anos quando foi para lá. Você
manda um cara como o Caco Barcelos, uma pessoa maravilhosa,
um tremendo repórter, e acha que ele vai dormir em carro?
É claro que não. Ele vai para Paris e volta. A
Globo também não está disposta a gastar
dinheiro, quer dizer, é o tipo de repórter que
não... Até da palavra repórter eles não
gostam mais. É correspondente, é editor ou não
sei o que. O que tem de errado com o repórter?!?!
...eu
nunca vou ficar rica, eu nunca vou ficar famosa, porque... eu
sou... repórter.
Ruth
Vianna: - Então, como correspondente de guerra, você
se considera uma repórter?
Cristiana
Mesquita - Eu sou repórter. Eu sou repórter. Meu
trabalho é na rua. Eu nunca vou ficar rica, nunca vou
ficar famosa porque eu sou repórter. Eu não tenho
a menor ambição de apresentar um telejornal na
minha vida. Não tenho a maior ambição.
Ruth
Vianna: - Então, qual é o papel desse repórter
correspondente de guerra com essas características que
você está falando para a sociedade? Como é
que ele deve falar para sociedade, para o receptor?
Cristiana
Mesquita É um profissional da maior importância.
Ele será uma pessoa com toda a carga de cultura brasileira
que será colocada em outro contexto. E ele terá
a condição de informar e explicar o mundo para
os brasileiros. Então, essa pessoa é da maior
importância.
Ruth
Vianna: - Isso já ocorreu alguma vez no Brasil, pegando
o caso do José Hamilton Ribeiro, ou não?
Cristiana
Mesquita - José Hamilton? José Hamilton chegou
ao Vietnã, foi alvejado no dia seguinte e voltou para
a Europa...
Ruth
Vianna: - Voltou e não cobriu nada?
Cristiana
Mesquita Não. Quem cobriu foi o Luiz Edgar. O
Luiz Edgar ficou um tempo. Eu tenho certeza que o que ele escreveu
para a Realidade, para o Cruzeiro ou para não sei qual
revista foi de maior impacto.
Ruth
Vianna: - E as pessoas liam com maior interesse...
Cristiana
Mesquita - Liam com maior interesse... Eu não trabalhava
para um órgão brasileiro há muitos anos
quando fui ao Afeganistão. Eu me lembro que falei assim:
Afeganistão é um lugar que a maioria dos brasileiros
não sabe nem onde fica no mapa e como eu vou fazer? Eu
me lembro que quando falava com o Bom Dia Brasil, contava da
dificuldade que tinha para conseguir água para tomar
banho, por exemplo, e foi isso que marcou as pessoas.
Não dava para fazer isso no Jornal Nacional porque, obviamente,
o Jornal Nacional tem outro tipo de formato, mais seco e mais
informativo. Quando eu voltei ao Brasil, um dia uma mulher me
encontrou e falou: eu rezei tanto por você!
Eu trouxe as dificuldades enfrentadas no Afeganistão
para a casa de uma pessoa no Rio de Janeiro ou na Bahia, ou
onde quer que seja. Aquela situação que fica um
pouco mais próxima e faz um pouco mais de sentido para
o telespectador.
Ruth
Vianna: - Você poderia fazer uma analogia entre todas
as guerras que você cobriu até hoje? O que há
de diferente entre a guerra na Bósnia, no Afeganistão
e no Iraque?
Cristiana
Mesquita - Cada uma é completamente diferente.
Ruth
Vianna: - De que forma é diferente?
Cristiana
Mesquita - Eu sempre digo que, pior que tenha sido o Iraque
e por mais grave que tenha sido o Afeganistão, nada se
compara a Sarajevo.
Então,
a mulher saía para catar lenha, você ia atrás
prá pegar lenha, prá tentar se aquecer um pouco
de noite, ali esquentando a mão, ela não tinha
comida você não tinha comida...
Ruth
Vianna: - Sarajevo... claro...!
Eu
tinha um negócio em Sarajevo que eu não... eu
não usava o meu colete, eu ficava envergonhadíssima
de usar o meu colete...
Cristiana
Mesquita - Sarajevo, muito especificamente porque você
está falando de uma guerra civil, que é de uma
violência impressionante porque não existem regras.
Por mais loucas que sejam, as regras de uma guerra estão
lá. Você acaba, mais ou menos, entendendo como
a coisa funciona ali. Em uma guerra civil, não. Não
tem cálculo. Você colocava o pé para fora
do hotel e tudo poderia acontecer. Você passava muito
tempo em uma cidade sitiada e você passava a ser cidadão
daquela cidade. Você também estava passando por
tudo que a pessoa que estava do seu lado estava vivendo e passando.
Então,
a mulher saía para catar lenha, você ia atrás
para pegar lenha, para tentar se aquecer um pouco de noite.
Ela não tinha comida e você também não.
Nós até tínhamos uma situação
um pouco melhor que a deles. A empresa mandava, regularmente,
comida. Mas aí você já é parte da
população de Sarajevo. Então, quando chegava
comida a gente saía distribuindo. Repartíamos
porque não iríamos comer sozinhos. Eu não
usava meu colete em Sarajevo. Eu ficava envergonhadíssima
de usar meu colete.
Ruth
Vianna: O outro vai ficar levando bala e você...
Cristiana
Mesquita - Pois é. Por que ele vai morrer e eu não?
Isso é muito complicado para a cabeça. Pelo tempo
e pelas dificuldades que passa lá, você começa
a se sentir parte daquilo. Mais uma vez, no meu caso, eu tive
sorte porque eu me recusei a ficar o tempo todo em Sarajevo.
Então, eu ficava alguns períodos em Sarajevo.
Depois, ia para o sul da Bósnia. Depois, viajava para
Belgrado. Eu fiquei cobrindo todos os aspectos da guerra. Então,
eu acho que consegui, de uma maneira geral, ser bastante objetiva
com relação à situação, principalmente,
à situação de Sarajevo. Mas ficou famoso
o fato de alguns jornalistas passarem tanto tempo lá.
Era aquela coisa do Ary Barroso que quando havia jogo do Flamengo
dizia: nós estamos perdendo de 2 a 0.
Ruth
Vianna: - Você conseguiu estabelecer laços de afetividade
com a população, tem isso ainda hoje presente
na sua vida, por exemplo, alguém?
Cristiana
Mesquita - Eu? Meus melhores amigos no mundo estão todos
em alguma parte da ex-Iugoslávia. São laços
muito fortes.
Ruth
Vianna: - Mas da população, não jornalistas?
Cristiana
Mesquita - Da população. Você acaba se envolvendo.
Você vai para alguns lugares que não têm
hotel. Você acaba ficando em casas de família e
tudo mais...
Ruth
Vianna: - Você tem quantos filhos?
Cristiana
Mesquita - Eu tenho dois filhos: um menino e uma menina.
Ruth
Vianna: - E você ainda está casada com o Antonio
Brasil?
Cristiana
Mesquita Estou, exatamente.
Ruth
Vianna: - Mas me diz uma coisa, como é você, mulher,
saindo para a guerra, não a jornalista, mas a mãe
de dois filhos? E os seus filhos, como eles aceitam esta situação?
Cristiana
Mesquita - É muito maluco, né? Não sei
como é que eles aceitam. Até que eles são
bem normais levando-se em consideração as coisas
que já passaram na vida. Desde o início, eu deixei
bem claro para eles que não fazia isso pelo dinheiro.
É muito difícil explicar para uma criança
porque você está se ausentando.
Ruth
Vianna: - E ainda mais para ir cobrir uma guerra?
Cristiana
Mesquita - Quer dizer, a coisa da guerra foi um entendimento
que veio para eles depois. A primeira importância é:
porque a mãe está se ausentando? Então,
os conceitos de que estou fazendo isso pela minha carreira e
por dinheiro eram completamente alienígenas para os meus
filhos. Então, eu sempre dizia que estava saindo porque
gostava. Eu vou fazer uma coisa que gosto. Esse era um conceito
que eles entendiam imediatamente.
Ruth
Vianna: - Bem... mas... não é tarefa fácil...
Cristiana
Mesquita - Eles imaginavam: ah, mamãe está
fora porque ela está brincando. Era mais ou menos
isso. Com o tempo, obviamente, eles começaram a ter um
entendimento maior do que era exatamente o meu trabalho. Eu
não sei como eles viram isso. Eu não sei. Isso
você vai ter que perguntar para eles.
Ruth
Vianna: - Para eles?
Cristiana
Mesquita - Para eles. A experiência de ser mãe
é de tal maneira enriquecedora que eu ainda acho que
foi a melhor coisa que fiz na vida. São poucas, muito
pouco as mulheres que cobrem a guerra. Das mulheres que cobrem
guerra, são menos as que têm filhos. Eu pessoalmente
não conheço ninguém. A Cristiane Amapur
teve filho há pouco tempo. Das outras, quase nenhumas
delas têm filhos.
E
imediatamente ela coloca assim: olha, eu já estou
num nível acima de vocês porque sei como é;
eu entendo o que aquela mãe está passando, eu
sinto em cada pedacinho do meu corpo o que ela está passando;
o que não faz sentido para vocês, faz todo sentido
para mim. Então, eu acho que é difícil.
A gente sofre, morre de saudade e fica preocupada, mas é
de tal forma enriquecedora a experiência da maternidade
que eu acho que só foi positivo. Eu acho que eu sou a
melhor repórter por ser mãe e sou a melhor correspondente
de guerra também por ser mãe.
Ruth
Vianna: - Bom, aí também tem de perguntar o que
seus filhos acham...Mas fala um pouquinho sobre as agências.
Você já falou que elas são muito competitivas,
mas a questão das agências de notícias no
caso de passar informação para o Brasil e para
a América Latina. Como isso acontece?
...em
toda parte do mundo, em tudo, em tudo, eles dizem que o trabalho
de agência é o trabalho sujo do jornalismo, é
o operariado, nada pode ser mais baixo, em jornalismo, que o
trabalho do repórter de agência, ele é o
primeiro a chegar no lugar ele é o último a sair...
Cristiana
Mesquita Eu acho que as agências de notícias
são um mal necessário. Se não fossem as
agências de notícias, você abriria as páginas
internacionais dos jornais brasileiros e ia ter várias
páginas em branco. O trabalho de uma agência de
notícias dentro da imprensa brasileira cai de proporção
terrivelmente. Como eles não têm seus próprios
correspondentes e eles dependem muito do trabalho das agências,
o trabalho da agência fica ridículo, fica sem nenhum
tipo de análise e sem nada porque não é
essa a função dela. A função dela
é complementar o trabalho de um correspondente.
É
de você colocar a notinha e a informação.
O trabalho de análise deve ser feito pela editoria internacional,
baseada nas informações e em tudo. Eles dizem
que o trabalho de agência é o trabalho sujo do
jornalismo. É o operariado. Nada pode ser mais baixo
em jornalismo que o trabalho do repórter de agência.
Ele é o primeiro a chegar no lugar e o último
a sair. E
le
trabalha feito um louco porque ele tem que mandar a informação.
É um ambiente de total paranóia. Na nossa redação,
no Iraque, você vai ver que é uma coisa de louco.
As
pessoas não tiram o olho do computador e o telefone do
ouvido. O pessoal que está fazendo a cobertura de rua
passa a informação pelo rádio o tempo todo.
E aquilo saindo, sendo quase que regurgitado, o tempo todo porque
essa é a função das agências. Ele
é o primeiro a chegar no lugar e o primeiro a dar a informação.
Todos os outros se baseiam nas agências. Fulano disse
que isso está acontecendo em tal lugar; então
eu vou lá ver o que é.
Ruth
Vianna: - Agora, a sua base... o seu local de trabalho? Como
é o seu dia-a-dia, você fica aqui no Brasil?
Cristiana
Mesquita - Bom, até segunda-feira que vem, depois eu
vou te contar o que muda na segunda-feira que vem, eu tenho
um contrato com a AP pelo qual eu trabalho 125 dias por ano.
Apenas quatro pessoas em toda a AP têm esse contrato.
Alguns têm menos que 125 e outros têm mais que 125.
Nós somos o que eles chamam de staff ou grupo especial.
São
quatro correspondentes, produtores ou repórteres (como
você quiser chamar) muito experientes, e que dão
esse contrato para a gente não trabalhar para mais nenhum
outro veículo e que eles usam para deslocar. Então,
por exemplo, eu não faço nada no Rio de Janeiro
e raramente faço no Brasil porque eles têm o próprio
escritório aqui. Eu só sou deslocada para matérias
importantes.
Isso
muda na segunda-feira, porque eu acabei de ser eh..., eh...,
contratada, definitivamente, por eles (Agência de Notícias),
como chefe do Bureau de Buenos Aires...
Ruth
Vianna: - Você mora aqui?
Cristiana
Mesquita - Eu moro aqui...
Ruth
Vianna: - Mas poderia estar morando em qualquer outro lugar...
Cristiana
Mesquita - Poderia estar morando em qualquer outro lugar. Eu,
por opção, estou morando aqui. Isso muda na segunda-feira
porque eu acabei de ser contratada definitivamente por eles
como chefe do Bureau de Buenos Aires.
Ruth
Vianna: - Quando que você vai para Buenos Aires?
Cristiana
Mesquita - Eu estou indo para Buenos Aires. Eu estou indo para
Buenos Aires porque a minha paixão, na verdade, sempre
foi América Latina.
Ruth
Vianna: - Você vai ser a coordenadora?
Cristiana
Mesquita - Vou ser a chefe do Bureau de Buenos Aires, que é
o Bureau regional. A gente lá está dividindo a
América Latina. A gente tem um outro cara no México
que fará a parte do Caribe, da Venezuela e não
sei mais onde, e eu vou pegar da Colômbia para baixo.
Esse será meu território.
Ruth
Vianna: - Com quantas pessoas você vai trabalhar em Buenos
Aires?
Cristiana
Mesquita Não tem muitas, não. Nós
somos seis pessoas em Buenos Aires. Mas a gente tem os nossos
escritórios no Chile e na Colômbia, nós
temos um free-lance na Bolívia. A gente tem um jornalista
em cada país da América do Sul. Isso não
significa que eu vou deixar de cobrir o Iraque, não.
Ruth
Vianna: - Ah, era minha próxima pergunta...
Cristiana
Mesquita Não!
Ruth
Vianna: - Porque a guerra não acabou. Não é
mesmo?
Cristiana
Mesquita - Não, não acabou.
A
gente cobre rigorosamente tudo, o que cada veículo vai
utilizar... A forma que eles utilizam este material aí
já é outra história, né...?
Ruth
Vianna: - Não acabou. E aí?
Cristiana
Mesquita - Eu só vou fazer de uma maneira um pouco mais
parcimoniosa do que eu tenho feito até agora porque eles
continuam tendo falta de gente experiente para determinados
momentos e para determinadas matérias. Então,
faz parte do meu contrato. Sempre que for necessário,
eu vou ter que me deslocar para o Iraque ou para qualquer outro
lugar fora da América Latina, mas eu vou priorizar a
cobertura da América Latina. Se você for falar
da cobertura da imprensa brasileira na América Latina,
eu diria que é péssima. É quase inexistente.
Ruth
Vianna: - Quando estive estagiando, em 1997, na TV 3
Catalunya, em Barcelona e nas demais emissoras de TV espanholas,
como Antena 3; Telecinco e Radiotelevisíon Espanñola
acompanhei durante um certo período as editorias de Internacional
e verifiquei que as informações sobre o Brasil
eram raras ou quando não. eram as piores possíveis
sobre o Brasil: favela, menino de rua, prostituição
ou, caso contrário, matérias sob temas considerados
exóticos: samba, carnaval, praias, futebol e modelos
brasileiros.
Claramente
percebia-se que havia um filtro sobre as matérias recebidas
e emitidas sobre o Brasil e os demais países latino-americanos
e, já em relação às matérias
que iam das agências de notícias sobre os demais
países europeus para a América Latina, estas informações
eram mais volumosos, mas também eram filtradas, sendo
enviadas somente as matérias de interesse político
e econômico a ser difundida no Brasil e América
latina. Quem escolhe a matéria para ser enviada para
os países da América Latina?
Cristiana
Mesquita - Na AP eu nunca senti nenhum tipo de filtro. Tem a
dificuldade, mais uma vez da agência, de quem é
seu público alvo. A gente não tem público
alvo. A gente tem os clientes alvo.
Ruth
Vianan: - Quem são os clientes-alvo das agências
de noticias?
Cristiana
Mesquita - Os nossos grandes clientes da parte de televisão
são a Televisa, do México, a Globo, no Brasil,
são os canais de língua espanhola nos Estados
Unidos, como Telemundo e aqueles outros que têm lá.
Esses seriam nosso cliente alvo. E, obviamente, cada um desses
clientes tem um interesse num determinado tipo de matéria.
Agora, a gente cobre rigorosamente tudo. O que cada veículo
vai utilizar já é outra história.
...no
Jornal Nacional é um negócio que não tem
nem pé nem cabeça...
Ruth
Vianna: - Por exemplo, a matéria que vocês enviaram
para a Globo, a Globo modifica?
Crisstiana
Mesquita Claro. Ela embrulha muito e faz como se fosse
dela. Por exemplo, você tem uma matéria de morte
ou o pau está comendo no Afeganistão. Então,
o cara sai do escritório dele em Londres depois de ver
todas as imagens que as agências mandaram e de ler o texto
das agências. Ele faz uma cabeça, faz um stand
up e edita a matéria. Uma matéria de dois minutos
e meio ou de três minutos passa a ter um minuto e meio,
sem contar ou contando com a cabeça do repórter.
E essa matéria entra no Jornal Nacional. É um
negócio que não tem pé nem cabeça.
Ruth
Vianna - Fica um texto gravado em cima...
Cristiana
Mesquita Exatamente. Não tem pé nem cabeça.
Além disso, eu tenho certas dúvidas. Se você
trabalhasse para um jornal, seria o mesmo que você pegar
uma matéria de agência e em vez de colocar que
a matéria é da AP ou da Reuters assinasse como
sendo sua a matéria porque você fez a tradução
para o português. Mas você fez apenas uma cabeça
de uma matéria.
Ruth
Vianna: - Agora, a questão da ética e a questão
também de segurança do trabalho que você
faz. O seu trabalho é manipulado e não tem nenhuma
segurança...
Cristiana
Mesquita - Nós temos associações e nós
discutimos muitíssimo a ética e os procedimentos
de trabalho e de apuração. A gente não
discute pauta. Vamos falar sobre isso e sobre aquilo a gente
não vai falar. A Associated Press, por exemplo. Quem
são os donos da Associated Press? São todos os
jornais dos Estados Unidos. Então, não tem uma
figura chave que diga para gente: olha, isso aqui vocês
podem fazer e isso vocês não podem. Se cada
um dos nossos donos fosse dar opinião do tipo de matéria
que a gente faz, a gente, ficaria louco. ..
Já
houve uma época em que eu achava isso muito frustrante,
que eu..., eu, eu tinha vontade de sair junto pelo satélite...
ir lá, na, na... na emissora, e dizer assim... não
isso aqui não é para você editar dessa maneira,
você tem que colocar no jornal com essa ênfase...
Ruth
Vianna: - aí eles chegam aqui e utilizam o trabalho de
vocês da forma que eles acham melhor?
Cristiana
Mesquita - Pois é. A gente faz e manda. Às vezes,
com o material que chega em Nova York, que é a nossa
sede da parte de texto, o editor diz que a informação
está mal-apurada, que não faz sentido e que o
material só será distribuído se forem levantados
mais dados. Então é óbvio que a gente tem
uma editoria. Não é uma coisa que a gente atira
para tudo quanto é lado. Tem uma linha, tem uma pessoa
que fica em cima e diz que tal material não será
colocado enquanto o correspondente não disser porque
deu tal informação ou onde se baseou para ter
a informação. Isso porque vem a questão
da credibilidade da agência. Às vezes a gente erra,
às vezes Nova York erra e às vezes todo mundo
erra.
Mas,
de uma maneira geral, eles são bastante críticos.
Agora, o nosso controle da matéria vai até Nova
York, no caso do texto, ou até Londres, no caso da imagem.
Depois disso o que a gente pode fazer? Cada um vai usar aquela
imagem da maneira que bem lhe convier.
Ruth
Vianna: - E vocês não se sentem prejudicados, por
conta disso?
Cristiana
Mesquita - Já houve uma época em que eu achava
isso muito frustrante, que eu tinha vontade de sair junto pelo
satélite, ir à emissora e dizer: não,
isso aqui não é para você editar dessa maneira;
você tem que colocar no jornal com essa ênfase.
Hoje em dia a questão ética do jornalismo se tornou
uma coisa tão complexa que eu já fico feliz de
poder despachar uma matéria com a consciência tranqüila.
Eu
apurei e editei da melhor forma que pude. Como as pessoas vão
usar desta forma equivocada... Hoje em dia a gente discute muito
sobre o que a gente pode botar ou o que a gente não pode
botar entre as imagens mais violentas ou mais sangrentas.
Ruth
Vianna: - Como se dá isto? Qual a sua avaliação
a respeito?
Cristiana
Mesquita - Então, isso tem uma discussão interna
muito grande. Tinha gente dizendo que era uma barbaridade a
gente transmitir certas coisas e tinha gente dizendo que transmitiria
sim porque aconteceu.
Ruth
Vianna - Eu li, eu vi, eu já ouvi, eu estava ali...
...dependendo
da sua linha... de programação, que tipo de jornal
você faz, para que tipo de gente você está
falando, porque é aquela tal história..., aqui
você fica chocada, talvez, com um miolo estourando...,
no Japão... não...
Cristiana
Mesquita - Eu vi, entende. Se eu pudesse ter cheiro na televisão
para eles sentirem também o cheiro que eu senti, eu botava.
Agora, obviamente, se você vai botar essa matéria
no ar como uma coisa bonitinha, pasteurizada, como no Jornal
Nacional, ela não vai entrar, entende. Os Japoneses vão
usar e você não.
Ruth
Vianna: - E aí a bomba estourando, caindo no meio da
parede, os miolos... tudo isto as emissoras de televisão
espanhola fazem questão de mostrar em horário
nobre. Na hora em que os espanhóis estão cenando
(comendo) e sem o menor constrangimento...
Cristiana
Mesquita - Exatamente... é...
Ruth
Vianna: - Quer dizer, você acha que isso é assim.
Deve-se enviar todo tipo de imagem?
Cristiana
Mesquita - Eu mando!
Ruth
Vianna: - Você manda?
Cristiana
Mesquita - Eu mando porque é o meu trabalho como repórter
lá mandar tudo que eu coloquei. Agora, eu entendo que
não posso ter o controle total da minha matéria.
Isso depende do horário que vai entrar, depende da linha,
depende da programação, depende do tipo de jornal
e depende do tipo de gente que assiste ao jornal. É aquela
tal história: aqui você fica chocada, talvez, com
um miolo estourando, mas esse choque não acontece no
Japão.
Ruth
Vianna: - Não. Em outros países como lá
na Espanha (conforme mencionei anteriormente) também
não há o mínimo de constrangimento. As
imagens são divulgadas nuas e cruas, por mais terríveis
que sejam...
Cristiana
Mesquita - No Japão não tem o menor problema.
Quer dizer, eu tenho respeito por morto. Eu acho que uma pessoa,
só porque ela morreu, não deve ser mostrada toda
aberta. Na hora de gravar, eu brigo muito com os cinegrafistas.
Eu não quero close. Eu quero uma coisa que
você consiga entender que ali tem uma pessoa morta, mas
eu não preciso saber os detalhes de que tripas saíram
e de que cérebro saiu. Isso eu não uso, mas eu
não deixo de mostrar a pessoa morta.
Ruth
Vianna: - Agora, as imagens que vocês colocam são
sempre as que você registrou, do seu cinegrafista, ou
vocês usam de outras fontes?
Cristiana
Mesquita Não, são usadas somente as nossas.
Ruth
Vianna: - De vocês?
Cristiana
Mesquita - Na maioria das vezes, eu estou presente do lado do
cinegrafista. Às vezes, não. Às vezes,
eles têm pessoas que saem por aí e a fita já
vem pronta, gravada, para mim. Eu aí tenho o trabalho
de levantar as informações pertinentes, editar
e transmitir.
...as
pessoas criticaram muito esse sistema de... jornalista embutido,
e realmente, se você só tem um jornalista no Iraque,
e ele está embutido, a cobertura que você vai fazer
é uma cobertura de merda, agora..., no caso da agência,
que tinha uma jornalista embutida, o outro com os iraquianos,
outro em Bagdá, outro circulando livremente, quando você
juntasse isso tudo você tinha uma cobertura...
Ruth
Vianna: - Há ética na guerra? A guerra tem uma
ética para o jornalista? O jornalista que cobre a guerra
tem uma ética a seguir ou não?
Cristiana
Mesquita Não. Quer dizer, depende da guerra. A
ética em uma guerra civil é uma e a ética
no Iraque é outra. Eu acho que ética, não.
A guerra tem regras.
Ruth
Vianna: - Você tinha que seguir algumas quando você
estava embutida na Infantaria norte-americana e não da
sua agência de notícias para quem você trabalha,
mas da tropa que você estava embutida?
Cristiana
Mesquita - Claro, claro. Se você estava embutida na tropa,
você fazia parte da tropa. É inevitável.
As pessoas criticaram muito esse sistema de jornalista embutido.
E, realmente, se você só tem um jornalista no Iraque
e ele está embutido, a cobertura que você vai fazer
é uma cobertura de merda. Agora, no caso da agência,
que tinha um jornalista embutido, o outro com os iraquianos,
outro em Bagdá, outro circulando livremente, quando você
juntasse isso tudo, você tinha uma cobertura mesmo.
Ruth
Vianna: - E vocês tinham tudo isso...?
Cristiana
Mesquita - Nós tínhamos isso o tempo todo. Quando
eu estava embutida, eu sabia que estava cobrindo um determinado
ângulo daquilo que eu estava fazendo. Não tinha
como escapar. Não tinha como dizer: eu estou aqui
embutida e estou saindo com vocês em patrulha, mas estou
aqui, na verdade, para saber como se sente o iraquiano que é
acordado de madrugada com as tropas entrando em sua casa.
Não tinha condição. Não podia sair
de um lado e ir para o outro lado. Eu tinha outras pessoas que
eu esperava que estivessem cobrindo o outro lado. E elas estavam
cobrindo o outro lado. Oitenta por cento da nossa equipe no
Iraque é iraquiana.
Porque
eles não vazaram antes, eles só vazaram essas
fotos agora..., que a gente sabia..., sabia... que elas existiam...
você imagina um, um..., quem é que era louco de
fazer uma alegação dessa, publicamente na imprensa
e...
Ruth
Vianna: - Por que essas fotos e esses vídeos da tortura
que estão saindo só agora não foram mostradas
antes?
Cristiana
Mesquita - Porque eles não vazaram antes. Eles só
vazaram essas fotos agora, mas a gente sabia que elas existiam.
Ruth
Vianna: - Então, o que muda nessa guerra?
Cristiana
Mesquita - Agora, quem era louco de fazer uma alegação
dessas publicamente na imprensa sem ter como provar? Eu fui
a 500 mil coletivas e não tinha uma coletiva em que não
se perguntasse sobre a situação dos presos em
Abu Gharib.
...a
Cruz Vermelha ficou quieta, na realidade, a Cruz Vermelha ficou
quieta, ela teve coragem de abrir a boca agooora...
Ruth
Vianna: - ...dos horrores que a gente tem visto e ouvido, por
quê só agora?
Cristiana
Mesquita - A Cruz Vermelha ficou quieta. Na realidade, a Cruz
Vermelha ficou quieta. Ela teve coragem de abrir a boca agora.
Mas a Cruz Vermelha também deve ter visto a coisa por
um filtro. Eu imagino que tenha sido por algum tipo de filtro.
É muito fácil você enganar. Você mostra
três ou quatro presos de um lado por outro e não
todos os presos. Entende? Realmente é ruim, mas poderia
ser pior.
Ruth
Vianna: - Você não está pensando em publicar
suas histórias em livro? Têm alguns escritos dando
a sua versão?
Cristiana
Mesquita - Eu tenho. Eu escrevi alguns artigos, mas por amizade
do que qualquer outra coisa, com o Luis Edgar e com o Alberto
Dines para o Observatório da Imprensa. Eu costumo manter
um diário e até já ensaiei alguns capítulos
de um livro, mas eu sempre acho muito chato. Eu não leio
nada que os jornalistas escrevem. O Antonio coleciona livros
de outros jornalistas. Ele me diz: Olha aqui esse jornalista,
você tem que ler esse livro. Aí, respondo: eu
não. Eu acho que como eu não leio o trabalho
dos meus colegas, quem vai se interessar pelo meu.
Ruth
Vianna: - Eu estou te entrevistando, estou gravando e vou colocar
no meu texto...
Cristiana
Mesquita - Claro...
Ruth
Vianna: - ...mas você se importaria de fazer um texto
curtinho para mim?
Cristiana
Mesquita Não.
Ruth
Vianna: - Você faria um texto de cada guerra?
Cristiana
Mesquita De cada guerra? Claro. Não tem problema.
Ruth
Vianna: - Porque isso é bastante importante e vai fazer
parte de uma publicação.
Cristiana
Mesquita Claro. Não tem problema nenhum, não.
Ruth
Vianna: - E você tem fotos, tem imagem?
Cristiana
Mesquita - Tenho.
Ruth
Vianna: - De cada uma dessas guerras?
Cristiana
Mesquita - De boa parte delas.
Ruth
Vianna: - Você cederia só para eu analisar ou não?
Cristiana
Mesquita - Não, não vou lhe dar a imagem. Olha,
eu tenho... Quando eu era mais moça, na guerra da Bósnia,
eu ficava tão frustrada de mandar o material de agência,
assim, tão sequinho que eu pegava e editava tudo como
videoclipe. O pessoal ria e dizia que na verdade eu queria trabalhar
na MTV. Na Bósnia, o pessoal colocava o nome da empresa
no meu capacete eu trocava por MTV. Era ótimo porque
em todo lugar que eu chegava, as pessoas começavam a
rir na mesma hora.
E
perguntavam o que eu estava fazendo ali. Aí eu brincava
com os soldados e perguntava qual era banda de rock favorita
deles. Era ótimo para quebrar o gelo. Então, o
material da Bósnia eu meio que compilei algumas coisas
que achei mais contundentes. Agora, no Iraque, se você
também quiser, eu tenho um material vastíssimo.
Ruth
Vianna: - Porque eu tenho as fitas dos telejornais e seria interessante
para mim...
Cristiana
Mesquita - ...mas só vai vir imagem porque meu texto
é mandado por...
Ruth
Vianna: - Você não tem cópia desses textos?
Cristiana
Mesquita Tenho de alguns...
Ruth
Vianna: - Seria até como documento para poder comprovar.
O que me interessa é mostrar que aquilo que o repórter
fez e aquilo que foi veiculado...
Cristiana
Mesquita - Claro. Eu vejo, eu reúno isso para você.
Ruth
Vianna: - ...mas aí você vai embora para Buenos
Aires...
Cristiana
Mesquita - Não tem problema. Buenos Aires é pertinho.
Eu vou primeiro por 15 dias porque vou começar a procurar
apartamento e vou meio que tomar pé das coisas. Eu estou
contratando pessoas para lá também. Então,
tenho que fazer um monte de entrevistas. Depois, eu volto para
fazer minha mudança definitiva. Agora, eu tenho que ir
ao escritório da AP aqui do Rio antes de ir a Buenos
Aires porque tenho de tratar de uma série de coisas com
eles. E eles têm ilha de edição. Eu vou
levar meu material e posso fazer uma compilação
para você. Aí, eu vejo, inclusive, dentro dessa
compilação de imagens, aquilo que trata dos textos
dos arquivos deles que eu ainda consigo recuperar. Eu mesma
não mantenho arquivo.
Ruth
Vianna: - Porque dá para documentar e eu coloco artigos
e a entrevista...
Cristiana
Mesquita Tudo bem, legal.
...é,
mais uma vez frisar, que..., eh..., o trabalho de correspondente
de guerra não tem... o glamour que as pessoas imaginam,
não tem a importância que as pessoas..., ele é
um repórter, cobrindo uma história que é
importante, né?...
Ruth
Vianna: - Você poderia finalizar, dar uma síntese
ou finalizar com alguma coisa que eu não perguntei, que
passou despercebido. Até alguma pergunta de algo que
eu não tenha feito porque não tenho conhecimento
do que ocorre no dia-a-dia de um correspondente, que é
significante e que você queira que entre nessa entrevista.
Cristiana
Mesquita - Eu acho que o importante é, mais uma vez,
frisar que o trabalho de correspondente de guerra não
tem o glamour que as pessoas imaginam, não tem a importância
que as pessoas atribuem. Ele é um repórter cobrindo
uma história importante, mas poderia ser um repórter
da sua rua. Não faz muita diferença, quero dizer,
o importante é ele estar lá e você ter o
repórter por lá. Meu Deus, mais o quê? É
uma pena que no Brasil não tenha essa cultura da cobertura
internacional. Mas nós já tivemos grandes correspondentes
internacionais.
Ruth
Vianna: - Quem?
Cristiana
Mesquita - Nós já tivemos Joel Silveira, nós
já tivemos Luis Edgar de Andrade, nós já
tivemos Sandra Passarinho, que para mim é uma repórter
extremamente qualificada. Ela também é uma repórter
sem curso de comunicação, mas tem vastíssima
cultura, com línguas, que não tinha medo de enfrentar
nada, que não tinha nada a ver com o padrão Globo,
de carinhas e de não sei o quê. Era a verdadeira
repórter e que hoje em dia, enfim, está fazendo
trabalho de editoria porque não tem mais espaço
dentro da televisão brasileira para esse tipo de gente.
Eu acho que se perdeu muito.
Ruth
Vianna: - O jornalismo brasileiro certamente.
Eu
quero que ela venda sabão, eu quero que o pessoal pare
o que está fazendo, ali na hora do jantar, sente e veja
a matéria... de guerra... do Iraque, e depois sai e compra
sabão..., ta?, mas..., você dizer assim...não,
simplesmente não vou fazer porque isso daí não
vende sabão... é porque você está
fazendo mal feito...
Cristiana
Mesquita - É...
Ruth
Vianna: - Então, realmente, essa é uma questão
importante, o jornalismo hoje em dia, tanto de TV, quanto impresso...
deixou de ter maior expressividade?
Cristiana
Mesquita - Exatamente...
Ruth
Vianna: - talvez o rádio, não sei... mas pelas
pesquisas já realizadas ele continua o favorito de uma
porcentagem enorme de brasileiros, principalmente os de menor
renda econômica e escolaridade...
Cristiana
Mesquita - Eu não tenho nenhuma ilusão, quero
dizer, a principal tarefa do jornal ainda é vender jornal
e a principal tarefa da televisão ainda é vender
comercial para televisão. Então, eu acho que é
impossível você querer desvincular o lado comercial
do lado de informação, que é fundamental
para qualquer país civilizado, mas eu acho que você
pode fazer os dois.
E
eu acho que é isso que a imprensa brasileira está
esquecendo. Você pode fazer uma matéria internacional
que venda sabão porque é uma matéria bem
feita, bem trabalhada e bem colocada. Eu não tenho nada
contra o fato de que a matéria que eu estou fazendo no
Iraque vá vender sabão. Eu quero que venda sabão.
Ruth
Vianna: - Claro, com certeza... mas que seja um trabalho de
qualidade...
Cristiana
Mesquita - Eu quero que ela venda sabão. Eu quero que
o pessoal pare o que está fazendo ali, na hora do jantar,
sente, veja a matéria e depois saia para comprar sabão.
Mas dizer simplesmente que não vai fazer porque isso
daí não vende sabão é porque está
fazendo mal feito.
...os
conflitos na Bolívia, aquilo ali foi um negócio
enorme..., enorme, quer dizer, La Paz estava completamente isolada,
do resto do mundo, né?. Já estava faltando comida,
entende? É um levante campesino, de cocaleiro, entende,
em plena La Paz, de 2003...
Ruth
Vianna: - Você tem sido convidada para ir para as faculdades,
para os congressos e essas coisas todas?
Cristiana
Mesquita - Às vezes, coitados, convidam-me, mas eu já
furei tanto porque eu não tenho hora. Se me chamam para
cobrir tal acontecimento hoje, eu viajo no dia seguinte. Mas
eu fiz uma palestra agora em Nova York e o pessoal adorou, teve
muita repercussão. Eu tive que escrever sobre isso. Mandaram
entrevistas por e-mail, que eu tive de responder para vários
países da África. Tem alguma repercussão
até pelo fato de ser uma mulher e uma mulher do terceiro
mundo, que é um aspecto muito procurado.
Ruth
Vianna: - Eu sou da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul,
embora eu seja de São Paulo, e ali a gente está
pertinho da Bolívia, Paraguai... então poderíamos
levá-la para uma palestra...
Cristiana
Mesquita - Eu passei um mês na Bolívia, no ano
passado, durante os conflitos na Bolívia. Aquilo foi
um negócio enorme. La Paz estava completamente isolada
do resto do mundo. Já estava faltando comida. Havia um
levante campesino, de cocaleiro, em plena La Paz de 2003. Se
não fosse pelas nossas raízes históricas,
econômicas...Ali é coisa recente, da disputa de
gás da Bolívia. Mas ninguém se interessa
em saber mais nada sobre as pessoas do lugar.
Ruth
Vianna: - Nada... esta é uma carência da região...
Cristiana
Mesquita Nada. Ficaram interessados. Eu até mandei
uma matéria para a Globo, que eu nem fiz. Eu falei que
não iria fazer a matéria porque eu achava uma
coisa tão chinfrim, que eu não iria
fazer. Mas eu fiz a entrevista e mandei o material para eles.
A matéria era sobre alguns turistas brasileiros que ficaram
ali meio perdidos. Eu até acho interessante saber o que
os brasileiros em La Paz estão passando. Agora, pelo
amor de Deus, tem muito mais acontecendo.
Ruth
Vianna: - Mas não se interessam...
Cristiana
Mesquita - Nada.
Ruth
Vianna: - Vem cá, cadê sua filha e seu filho?
Cristiana
Mesquita Quando você quiser.
Ruth
Vianna: - O que você faz, Júlia, você está
estudando, fazendo o quê?
Júlia
Eu estou no primeiro ano do segundo grau...
Ruth
Vianna: - Ah, que legal, e vai ser jornalista também,
não?
Júlia
Não.
Ruth
Vianna: - O que você vai fazer?
Júlia
Não tenho a mínima idéia...
Ruth
Vianna: Como é para você quando a Cristiana
Mesquita, sua mãe, sai para ir cobrir guerras?
Júlia
Eu já estou acostumada. Eu nunca achei nada de
mais. Ela já esta nessa vida há tempo que a gente
já se acostumou.
Ruth
Vianna: E como você vê essas guerras?
Júlia
Eu não sei o que está acontecendo nesses
lugares e não tenho uma opinião formada. Eu aproveito
para saber mais e, provavelmente, eu sei mais desses conflitos
do que qualquer outra pessoa da minha idade ou, pelo menos,
da minha turma.
Ruth
Vianna Na sua escola, com os seus amigos... eles te perguntam
muito sobre a sua mãe lá na guerra?
Cristiana
Mesquita Tem uma história engraçada. Meu
filho estava no jardim de infância e eles inventavam de
fazer rodinha. A professora perguntava: e aí, como foi
seu fim de semana? E meu filho contava as histórias na
rodinha. Ao contrário de Júlia, ele era muito
falador. Um dia eu fui chamada à escola. Eu estranhei
porque eu achava meu filho tão alegrinho, tão
feliz. Ele tem uma imaginação fertilíssima.
Vive inventando histórias da senhora. Eu me lembro de
que quando eu era garota o que mais me apavorava era imaginar
se minha mãe morresse.
Eles
convivem com isso toda a vida deles. Então, eles se tornaram
pessoas muito mais independentes e muito mais fortes. Mas eu
não recomendo isso para todo mundo. Eu acho que, de uma
certa maneira, foi muito positivo na vida deles. E eu trago
essas coisas todas para casa. Eu conto. Eu fico até meio
chata porque fico impaciente e meio intolerante com os problemas
existenciais deles. O que? Tem dó do que? Do que você
está reclamando? Eu tento me policiar porque quando uma
unha está encravada, ela é a unha encravada mais
importante do mundo.
Notas
e referências bibliográficas
1
Vianna, Ruth. Entrevista de Cristiana Mesquita FITA Cassete
nº 01, maio de 2004, Jardim Botânico, Rio de Janeiro.
Ver também: BRASIL, Antonio. No coração
da guerra. In:
www.no.com.br/revista/noticia/42793/1006048/780000.
2
Idem.
3
Idem.
4
Idem.
5
Idem.
6
Idem.
7
Idem.
8
Idem.
9
Idem.
10
Idem.
11
Idem.
12
Vianna, Ruth. Entrevista de Cristiana Mesquita
FITA Cassete nº 01, maio de 2004, Jardim Botânico,
Rio de Janeiro. Ver também: Leão, Renata. Vida
dupla TPM (Trip para mulher) In:
www.revistatpm.com.br/19/vermelhas.home.htm.
13
Idem.
14
Idem.
15
Idem.
16
Idem.
17
Idem.
18
Idem.
19
Idem.
20
Idem.
21
Idem.
22
Idem.
23
Idem.
24
Idem.
25
Idem.
26
Idem.
27
Idem.
28
Idem.
29
Idem.
30
Idem.
31
Idem.
32
Idem.
33
Idem.
34
Idem.
35
Idem.
36
Vianna, Ruth. Entrevista de Cristiana Mesquita
FITA Cassete nº 01, maio de 2004, Jardim Botânico,
Rio de Janeiro. Ver também: Ribeiro, Victor. Fazendo
Media.
htpp://www.fazendomedia.com/fmoutros/entrevista0015.htm.
37
Idem.
38
Idem.
39
Idem.
40
Idem.
41
Idem.
42
Idem.
43
Idem.
44
Idem.
45
Idem.
46
Idem.
47
Idem.
48
Idem.
II
- Outras Fontes e referências pesquisadas
1
Franco, Bernardo Mello. A guerra vista de dentro. In
www.reator.org/imprensa/04titi.htm.
2
Mesquita, Cristiana. Situação de risco.
In http.//www.redeglobo.globo.com./cgi-bin/jornalhoje.
3
Observatório da Imprensa . In www.observatoriodaimprensa.com.br.
4
www.Educacional.com.br.
Iraque.htm. Enciclopédia Educacional.
5
Jornalista Luis Edegar de Andrade - Comentarista de Telejornal
da TVE Rio de Janeiro.
6
Marcelo, Rede. O patrimônio histórico iraquiano:
uma vítima esquecida. In Folha Online, 19/03/2003.
7
- ____________. Bagdá: um símbolo da história
corre risco. In Folha Online, 27/03/2003.
8
www.ace.jor.br - Associação
dos Correspondentes Estrangeiros de São Paulo.
9
www.smattos.comunicação.com.br/
www.sergiomattos.com.br.
10
Iraque Mapa dos recursos energéticos do
Iraque - Mapas.created with.: www.curious
.software.com/ www.profduilio.hpg.com.br. Fonte: CNN-TV.
11
BBC Mapas do Iraque In www.educacional.com.br.
A crise no Iraque em mapas.
12
- _________________ Bases iraquianas.
13
- _________________ Alcance dos mísseis.
14
- _________________ Base dos EUA.
15
- _________________ Regiões dissidentes.
16
- _________________ campos petróleo do Iraque.
17
- _________________ Bagdá.
17
- _________________ Supostos locais de fabricação
de armas.
18
Goyzueta, Verônica & Orgier, Thierry. A guerra
e imprensa. Um olhar crítico da cobertura da guerra do
Iraque. Summus Editorial, São `Paulo, 2003.
19
Vidal, Gore. Sonhando a Guerra. Sangue por petróleo
e a Junta Vheney-Bush.
*Entrevista
com Cristiana Mesquita, Correspondente de Guerra da ex Worldwide
Television News (WTN) e da AP/APTN, realizada por Ruth Viana,
Jardim Botânico, Rio de Janeiro, em maio de 2004.
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