Fronteiras
do jornalismo no espaço midiático:
A real dimensão da função
ideológica da informação jornalística
Por
Dennis Oliveira*
Resumo
Grande
parte das obras dedicadas às teorias da comunicação
trata a atividade jornalística como qualquer outra
dentro do espaço midiático.
Normalmente,
os estudos sociológicos da comunicação
discutem as influências ideológicas, as construções
de consensos, entre outros. Partem de alguns pressupostos
incorretos, particularmente quando se trata do Brasil.
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Reprodução

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O
primeiro deles é ignorar que o jornalismo, embora seja
uma modalidade da comunicação de massas, tem uma
singularidade dada pela sua origem histórica particular
que é anterior a configuração dos meios
de comunicação massivos ou mesmo da chamada indústria
cultural.
O
segundo é ignorar que o sistema de comunicação
de massas não é somente jornalismo, aliás,
o jornalismo ocupa uma parte pequena neste sistema. E, finalmente,
temos a apresentação da terceira incompreensão
comum nas críticas ao jornalismo.
Até
que ponto o jornalismo propriamente dito é o principal
construtor dos consensos ideológicos na sociedade? Assim,
colocada as questões neste ponto, gostaríamos
de apontar uma preocupação necessária para
se discutir jornalismo na sociedade contemporânea: a definição
do que é jornalismo, a demarcação de fronteiras
dentro deste cipoal de mensagens massivas transmitidas pelos
meios de comunicação e, a partir disto, qual é
a verdadeira dimensão ideológica do jornalismo.
Palavras-chave
Jornalismo
/ Mídia / Esfera Oública / Cultura de Massas
1.
Introdução
Grande
parte das obras dedicadas às teorias da comunicação
trata a atividade jornalística como qualquer outra dentro
do espaço midiático.
Normalmente,
os estudos sociológicos da comunicação
discutem as influências ideológicas, as construções
de consensos, entre outros.
Partem
de alguns pressupostos incorretos, particularmente quando se
trata do Brasil.
O
primeiro deles é ignorar que o jornalismo, embora seja
uma modalidade da comunicação de massas, tem uma
singularidade dada pela sua origem histórica particular
que é anterior a configuração dos meios
de comunicação massivos ou mesmo da chamada indústria
cultural. O jornalismo da forma como conhecemos hoje surge dentro
do projeto iluminista, dentro da proposição de
se constituir uma esfera pública independente do Estado.
Por isto, a atividade jornalística, nos seus primórdios,
teve um caráter revolucionário, de denúncia,
de esclarecimento, de formação de idéias
e fomentadora do debate público.
O
direito à liberdade de expressão é um dos
valores mais importantes na construção da sociedade
democrática moderna. Ciro Marcondes Filho (2001) chama
este jornalismo de jornalismo da ilustração. A
atividade nada tinha de mercantil - eram iniciativas que partiam
de personalidades ou agrupamentos interessados em intervir no
debate público com suas idéias (transformadoras
ou conservadoras) seja no aspecto da política institucional,
seja no campo da estética artística.
É
evidente que esta forma de jornalismo foi sendo modificada radicalmente
ao longo dos tempos. O jornalismo deixou de ser uma atividade
com caráter militante para se transformar em um empreendimento
comercial. E tal mercantilização se acentua quando
ele se articula dentro de um espaço maior, que é
o sistema de comunicação de massas. E aí
temos o segundo pressuposto incorreto nas críticas ao
jornalismo.
O
sistema de comunicação de massas não é
somente jornalismo, aliás, o jornalismo ocupa uma parte
pequena neste sistema. Esta é a segunda imprecisão
das teorias da comunicação ao analisar o fenômeno
do jornalismo, particularmente do seu papel construtor de visões
ideológicas.
Ao
observarmos as mídias contemporâneas - televisão,
rádio, meios impressos, internet - veremos que o jornalismo
é uma parte ínfima. O que predomina são
produtos de entretenimento (shows, variedades, ficção,
entre outros) e publicidade e propaganda. Portanto, o jornalismo
ocupa uma parte minoritária neste arcabouço maior
que é o sistema de comunicação massivo.
Diante
disto, temos a apresentação da terceira incompreensão
comum nas críticas ao jornalismo. Até que ponto
o jornalismo propriamente dito é o principal construtor
dos consensos ideológicos na sociedade? Se, conforme
vimos no item anterior, o jornalismo ocupa uma parte ínfima
do discurso midiático, é necessário relativizar
este papel. Outros discursos midiáticos têm muito
mais força no sentido de construir consensos ideológicos
que o jornalismo, embora não descartamos o papel deste.
No caso particular do Brasil, vários estudos demonstram
que as telenovelas têm muito mais influência no
agendamento dos debates públicos que os veículos
jornalísticos. [1]
2.
O que é jornalismo
Colocada
as questões neste ponto, gostaríamos de apontar
uma preocupação necessária para se discutir
jornalismo na sociedade contemporânea: a definição
do que é jornalismo, a demarcação de fronteiras
dentro deste cipoal de mensagens massivas transmitidas pelos
meios de comunicação.
A
primeira questão que se coloca é que o jornalismo
se referencia na veracidade das informações. (KUCINSKY,
2001 e 2005) Este é o seu ponto de partida o que o distingue
radicalmente de outros produtos midiáticos, como as ficções,
os shows, a publicidade e propaganda. A legitimidade do discurso
jornalístico se centra no fato dele se referenciar na
verdade. No caso de uma obra ficcional, isto não acontece:
o autor da obra tem a liberdade de criar situações,
personagens, tramas, assuntos, etc. Não há nenhuma
exigência de fidelidade ao real.
Entretanto,
o fato de se referenciar na veracidade das informações
não faz do produto jornalístico uma reprodução
exata da realidade. Aliás, consideramos isto impossível,
pois pelo fato de ser um relato, necessariamente trata-se de
uma versão, de um ponto de vista, de um olhar. O jornalismo
é, então, uma reconstrução da realidade
tendo como ponto de partida a veracidade das informações
obtidas.
Isto
dá ao jornalismo caracterizações específicas
do campo ético, estético e metodológico.
O jornalismo se funda por pressupostos deontológicos
específicos, por uma estética discursiva particular
e por métodos de construção do seu discurso
também particulares. São estes fundamentos que
distinguem a atividade jornalística das demais produções
midiáticas e construir uma crítica teórica
ao jornalismo deve partir destes fundamentos particulares. Não
adianta cobrar do jornalismo algo que está fora dos seus
propósitos como atividade social.
Comecemos
pelo fim, pelos procedimentos metodológicos. O jornalismo
tem uma forma particular de reconstrução da realidade.
Por ser uma reconstrução da realidade, o jornalismo
não é e nem nunca poderá ser uma atividade
neutra ou imparcial. Estes valores presentes em vários
manuais de redação ou códigos de ética
inferem uma visão positivista de percepção
da realidade. Parte do pressuposto da possibilidade de que uma
reconstrução discursiva da realidade pode ser
cópia fiel e exata da realidade. Por que isto é
impossível?
Primeiramente,
porque o jornalismo é uma atividade de constante seleção
e combinação. A primeira seleção
que se observa é na escolha do que merece ser noticiado
ou não (a chamada "pauta"). Nem tudo o que
acontece no dia será noticiado, isto seria impossível.
Há uma seleção dos acontecimentos no período
que serão transformados em fatos noticiosos.
É
o chamado critério de noticiabilidade. Em geral, coloca-se
que o critério de noticiabilidade se move pelo que se
conhece como relevância pública.
Mas
este é também um conceito amplo, pois parte do
pressuposto que os jornais têm o poder de determinar quais
são os assuntos são ou não de relevância
pública. E ignora que, muitas vezes, no processo de elaboração
das pautas, interesses particulares atuam. Por exemplo, jornais
vinculados a grupos políticos ou econômicos tendem
a agendar suas edições a partir dos interesses
particulares destes grupos.
Outro problema que se coloca atualmente também são
as chamadas assessorias de imprensa.
Os
jornais não são mais instituições
que vão à busca das notícias, mas atratores
de informações. A sociedade se mediatizou e os
vários grupos de interesse se articulam para atuar no
ágora jornalístico, através, principalmente,
a ação das assessorias de imprensa. É evidente
que nesta disputa, o jogo é desigual. Os grupos mais
poderosos exercem mais influência nos órgãos
jornalísticos que outros e acabam vendo refletir esta
hegemonia nas escolhas das pautas.
A
pauta é então o recorte do contexto mais amplo
feito pelo órgão de comunicação.
Na
continuidade da produção da notícia, as
escolhas continuam. A captação, feita pelo repórter,
também é um processo de escolha: escolha das fontes,
escolha das perguntas a serem feitas, escolha das fotos, escolha
das informações que serão articuladas na
matéria, entre outros.
Se
partirmos do pressuposto que todo fato está inserido
em uma teia de relações complexas, a retirada
do mesmo do contexto mais amplo para se transformar em uma notícia
particular dependerá de recortes que serão feitos
pelo jornalista. É ele que tem o poder de definir os
contornos deste recorte. Tais contornos definem o olhar que
o jornalista deitou sobre o assunto.
Este
poder que o jornalista tem na captação muitas
vezes é ignorado por muitos dos críticos do jornalismo.
A idéia de que o jornalismo reflete ipsis literis os
interesses do dono da empresa jornalística ou dos grupos
que a controlam ignora que o repórter tem também
um poder - é ele que vai entrar em contato com a realidade,
que vai captar as informações, que vai fazer o
recorte do acontecimento para enquadrá-lo no esquema
do discurso jornalístico. É evidente que este
repórter já sai com uma série de condicionantes
dada pelos seus superiores hierárquicos, mas é
ilusão achar que ele é uma mera máquina
de reprodução literal dos interesses do dono do
jornal.
Na
seqüência, o processo de seleção acontece
também na redação.
Escrever
uma notícia significa escolher as informações
que serão priorizadas ou destacadas em detrimento de
outras e até mesmo as que serão descartadas. Ao
relatar o fato, o jornalista vai enfatizar aqueles elementos
que considera os mais importantes e isto define o olhar ou angulação
que ele está dando à informação.
Se levarmos em conta ainda que o texto jornalístico tem
uma estrutura que coloca as informações mais importantes
no topo de matéria e as secundárias no final,
esta hierarquização fica muito mais evidente.
E,
finalmente, no processo de produção da informação
jornalística, a edição é totalmente
um momento de escolhas. Notícias são cortadas,
pautas caem, algumas vão para a capa ou para páginas
nobres, outras ganham um espaço secundário. Os
títulos e chamadas de capa direcionam a leitura das matérias.
Normalmente, esta fase é produzida sob controle das chefias
(por esta razão, é comum observar uma discrepância
na angulação dada pelos títulos e chamadas
de capa e o corpo da matéria - são pessoas diferentes
que fazem estas duas tarefas).
Percebemos
que todo o processo de produção jornalística
é uma reconstrução da realidade. Portanto,
não é possível nenhuma neutralidade. O
jornalismo é uma atividade de manipulação
da realidade. O conceito de manipulação aqui não
está colocado no sentido pejorativo, mas como uma atribuição
intrínseca ao jornalismo. Manipular está, aqui,
no sentido de reconstruir. Todo estes processos de seleção,
escolhas, combinações, descartes, hierarquizações,
adequação a uma estrutura discursiva, entre outros,
compõe este processo de manipulação que,
por conta da carga negativa que este termo recebeu em diversas
obras de análise do jornalismo, chamaremos de reconstrução
da realidade.
Considerar
este processo de reconstrução da realidade no
jornalismo como algo naturalmente negativo ou pernicioso implica
em duas questões problemáticas:
a)
primeiro, de que é possível constituir um relato
sobre um acontecimento que não seja uma reconstrução
da realidade - isto é, uma reprodução exata
do real, o que implica em uma concepção positivista;
b)
segundo, de que o jornalismo é, por si só, algo
negativo porque falseia a realidade como se outras atividades
que também se referenciam no real (como a ciência
e a arte) também não fossem reconstruções
da realidade - neste caso, todas as atividades discursivas humanas
seriam negativas, em outras palavras, a condição
humana seria algo negativo em si.
Acrescentamos
a esta questão da reconstrução da realidade
como atributo inerente à atividade jornalística
a questão da objetividade. Como já afirmamos,
o jornalismo se referencia na veracidade das informações,
portanto, a objetividade é um dos atributos centrais
do jornalismo.
Objetividade
aqui é considerada como uma categoria relacionada a forma
de relação entre o sujeito cognoscente e o objeto
conhecido. A objetividade é uma característica
da forma de observação. Ter a realidade concreta
como ponto de referência é o que define a objetividade
jornalística. É esta objetividade que distingue
o jornalismo das outras narrativas midiáticas.
3.
Objetividade e reconstrução: elementos contraditórios?
Entramos
em uma aparente contradição: o jornalismo é,
ao mesmo tempo, uma atividade centrada na objetividade e na
reconstrução. Esta aparente contradição
acontece porque acostumou-se associar objetividade a neutralidade,
imparcialidade ou isenção. São conceitos
distintos. Perseu Abramo mostra que enquanto a categoria objetividade
está ligada a relação sujeito/objeto, portanto
é um critério metodológico e epistemológico,
as demais são categorias comportamentais, no sentido
adjetivo.
"Há
diferenças fundamentais entre a objetividade e os demais
conceitos. Neutralidade, imparcialidade, isenção,
honestidade, etc. são palavras que se situam no campo
de ação. Dizem respeito aos critérios
do fazer, do agir, do ser. Referem-se mais adequadamente a
categorias de comportamento moral. Os próprios conceitos
têm caráter moralista e moralizante e, quando
conjugados aos seus antônimos, formam pares que tendem
a um ajuizamento do tipo bom/mau, certo/errado, etc."
(ABRAMO, 2003: p. 37/38)
Entendemos
aqui objetividade na sua dimensão substantiva e que,
necessariamente, não se define por uma possibilidade
absoluta, de negação do seu contrário (a
subjetividade).
Por
ser uma categoria relacional - relação sujeito/objeto
- a objetividade não nega a dimensão da subjetividade
(sujeito). Esta discussão é fundamental porque
tiramos a categoria objetividade do seu aspecto moral. Ao associar
diretamente objetividade com neutralidade ou imparcialidade,
ou concluímos que a objetividade é impossível,
conforme afirma Clóvis Rossi (O que é jornalismo?)
ou mesmo o Manual de Redação e Estilo da Folha
de S. Paulo ou ainda que é possível retratar fielmente
a realidade.
O
próprio Rossi, de forma ingênua, diz que o jornalista
só pode ser objetivo caso ele participe do acidente de
trânsito que vai motivar a notícia. Como ele vivenciou
aquele evento, ele teria condições de ser objetivo.
Em outras palavras, para Rossi, a intermediação
pela linguagem impede a objetividade. Porém, na sua perspectiva,
esquece que mesmo o que participa do evento, tem um olhar sobre
aquele evento que pode ser distinto de outros.
Novamente,
recorremos a Abramo (2003) que afirma que:
"...o
conceito de objetividade (...) situa-se em outro campo (...):
o campo do conhecimento. A objetividade é uma categoria
gnosiológica, epistemológica, mais que deontológica
ou ontológica. A objetividade tem a ver com a relação
que se estabelece entre o sujeito observador e o objeto observável
(...) no momento do conhecimento. A objetividade não
é um apanágio nem do sujeito nem do objeto,
mas da relação entre um e outro, do diálogo
entre sujeito e objeto; é uma característica,
portanto, da observação, do conhecimento, do
pensamento" (p. 39)
Abramo
ainda afirma que o primeiro passo para se propor a um jornalismo
centrado na objetividade metodológica consiste em assumir
a possibilidade concreta de se buscar esta objetividade e se
aproximar ao máximo dela. Segundo ele, os requisitos
para tal são: conhecimento dos limites e das condições
da capacidade humana de apreender e capturar o real, disposição
de se alcançar esta objetividade e, por último,
não se prender às aparências e procurar
envolver totalmente o objeto da observação (o
que não significa prender-se aos aspectos meramente quantificáveis
do objeto mas o máximo possível das suas inter-relações).
No
jornalismo esportivo, particularmente o futebol, por exemplo,
esta questão é freqüentemente observada.
Por tratar de um fenômeno que move paixões e, no
caso particular do jogo de futebol, por ser este um tipo de
jogo em que a imprevisibilidade está muito mais presente
(ao contrário de outros esportes, onde os fatores técnicos
são quase que determinantes para a definição
da equipe vitoriosa), o jornalismo se prende a uma ação
pendular entre um opinionismo subjetivista e uma tentativa de
"objetivar" o jogo por meio de cifras, dados estatísticos
e outras quantificações (a maioria delas copiada
das transmissões esportivas dos jogos de basquete da
liga estadunidense NBA) que pouco dizem sobre o fenômeno.
A
objetividade e a manipulação como categorias inerentes
ao jornalismo definem sua singularidade a partir de uma visão
metodológica. Estas são as fronteiras metodológicas
e epistêmicas do jornalismo. A partir delas, podemos discutir
os seus pressupostos éticos.
A
discussão da ética no jornalismo, muitas vezes
- e de forma incorreta - se centra também na negação
ou absolutização das categorias epistêmicas.
Em outras palavras, a ética jornalística teria
de ser totalmente objetivo e não reconstrutor. Mais uma
vez o viés positivista vem a tona. E isto significa negar
a própria natureza do jornalismo. A objetividade e a
reconstrução como categorias típicas do
jornalismo não podem ser o centro da discussão
da ética. Elas são o ponto de partida.
Se
partimos do pressuposto que o jornalismo é um processo
de seleção ou de escolhas, desde a pauta até
a edição, a ética no jornalismo deve se
centrar nos critérios que norteiam estas seleções.
Quais são os critérios que selecionam os assuntos
que merecem ser noticiados, os que norteiam a seleção
das fontes, a angulação e a hierarquização
das matérias. Em outras palavras, a reconstrução
da realidade feita no jornalismo é movida por valores
- e é aí que entra a ética jornalística.
Uma
outra dimensão da ética jornalística está
na relação do jornalista com o fato -os procedimentos
metodológicos instituídos na relação
com o real também são movidos por critérios
éticos. Assim, a ética jornalística perpassa
todo o processo de sua produção.
Conforme
afirma Eugênio Bucci, a ética no jornalismo está
no próprio exercício da atividade, pouco se distinguindo
da técnica.
"Dar
voz aos dois lados de uma mesma história quando há
dois lados que nela se enfrentam, é uma exigência
ao mesmo tempo ética e técnica do jornalismo.
Procurar a verdade dos fatos é um imperativo ético
- e também o objetivo de toda a técnica jornalística."
(BUCCI, 2000: p. 50)
O
professor Salvador Alsius, da Universidade Pompeo Fabri, de
Barcelona, também vai nesta direção. No
seu texto "Ética no jornalismo? Invoque-se a qualidade",
ele propõe um "thesauro" deontológico
do jornalismo baseado em quatro princípios: princípio
da veracidade, princípio da justiça, princípio
da liberdade e o princípio da responsabilidade.
"Em
primeiro lugar, o princípio da veracidade, que se subdivide
em rigor informativo (precisão e exatidão, escolha,
citação e confiabilidade das fontes, contextualização
e aprofundamento da informação, difamação);
neutralidade valorativa (separação entre informação
e opinião, seleção de notícias,
critérios de inclusão e formas de apresentação);
procedimentos discursivos (obtenção de material
como imagens e gravações, titulação
e estruturas textuais, seleção e ordenação
de imagem e som, gêneros informativos, elementos espúrios,
gráficos e música); recreações
e enredos (elementos de ficção e encenação,
realimentação com a presença de fontes);
procedimentos equivocados para a obtenção da
informação (anonimato e disfarces, câmaras
ocultas e gravações clandestinas); plágio.
Em segundo lugar, trataria do princípio de justiça,
que se subdivide em imparcialidade (inclusão de diferentes
pontos de vista, direito de resposta, quotas políticas),
tratamento de grupos sociais desfavorecidos, presunção
de inocência. O princípio de liberdade seria
o terceiro ponto, subdividido em: condicionamentos externos
(controle do poder político, controles comerciais e
outras formas de controle); relações com as
fontes (coleta de informações, condições
impostas, direito das fontes, segredo profissional) e conflito
de interesses (interesse empresarial e interesses particulares
dos jornalistas). Finalmente, o quarto item do Thesaurus deontológico
abordaria o princípio de responsabilidade, que se ramifica
em: primazia da vida e da segurança das pessoas (prioridade
à ajuda humanitária, segurança nacional,
cobertura do terrorismo); privacidade (invasão da intimidade,
proteção aos menores, direito à própria
imagem) e matérias de sensibilidade social especial
(contrárias ao incentivo à violência e
outras condutas anti-sociais)." (ALSIUS, 2003)
As
definições de Alsius sintetizam esta inter-relação
entre aspectos éticos e técnicos do jornalismo.
Os cuidados éticos sinalizam para um rigor nos procedimentos
éticos no jornalismo, o que aponta para a idéia
de que um jornalismo de qualidade necessariamente é ético
e um jornalismo anti-ético é, necessariamente,
um mau jornalismo.
Para
exemplificar isto, citamos o episódio do correspondente
do jornal "New York Times", Larry Rother, a respeito
da matéria publicada em 9 de maio de 2004 em que denuncia
que o presidente da República Luiz Inácio Lula
da Silva bebe muito e tal fato se transformou em uma preocupação
nacional. O caso gerou uma grande celeuma, principalmente após
a medida tomada pelo governo brasileiro - depois revogada -
de cancelar o visto de trabalho do correspondente, o que equivaleria
a sua expulsão do país.
Mas
vamos analisar o caso do ponto de vista da ética e da
técnica jornalísticas.
Como
ele chegou a conclusão que Lula bebe além a conta?
Por meio de informações de um político
de oposição (o falecido ex-governador do Rio de
Janeiro, Leonel Brizola) que é conhecido por declarações
bombásticas; do colunista Diogo Mainardi, colunista da
revista Veja, um dos periódicos que mais fazem campanha
sistemática contra o governo Lula, e também conhecido
pelo seu destempero (em certa ocasião, em um debate na
televisão, chamou o ex-lutador de boxe Maguila de "macaco",
uma das caracterizações mais racistas utilizadas
contra os afro-descendentes); e de um outro "colunista"
Cláudio Humberto que foi, nada mais, nada menos, que
secretário do ex-presidente conservador Fernando Collor,
cassado por corrupção.
Enfim,
todas as fontes citadas estão não só colocadas
em um espectro políticoideológico de oposição
ao governo, como também são conhecidas pelo seu
caráter histriônico e, portanto, não mediriam
palavras para difamar a imagem do presidente. São pessoas,
cujo histórico demonstra, não tem limites para
criticar os seus oponentes, indo para o campo pessoal. O próprio
Cláudio Humberto, quando da separação conjugal
da prefeita de São Paulo Marta Suplicy do senador Eduardo
Suplicy, publicou matérias pagas em vários jornais
brasileiros recheadas de conteúdo machista e ofensivas
aos dois políticos do Partido dos Trabalhadores.
Um
outro aspecto importante: as declarações destas
fontes foram retiradas de outros artigos e não obtidas
por meio de alguma entrevista concedida ao jornalista. É
a prática condenável que chamamos no jornalismo
de "cozido". Declarações retiradas do
contexto em que foram produzidas constroem outros sentidos que
não são, necessariamente, aqueles que o declarante
queria expor quando deu a declaração.
E
o "outro lado" foi ouvido? Segundo Rohter, os porta-vozes
do governo(não
diz quais) se negam a comentar o assunto e, segundo ele, "um
breve e-mail" mandado para os mesmos pedindo que comentassem
isto, foi respondido que a acusação era de má-fé.
Agora,
quanto a segunda tese de que a suposta "bebedeira"
de Lula é um problema nacional. Para defender esta idéia,
o jornalista faz referência ao ex-presidente Jânio
Quadros. Segundo Rohter, o alcoolismo do ex-presidente o fez
renunciar intempestivamente e isto levou o país a sofrer
uma ditadura militar durante mais de 20 anos. Nenhum historiador
sério relaciona o golpe militar de 1964 com a renúncia
de Jânio Quadros ou mesmo o seu suposto alcoolismo. Esta
é uma das mais originais teses de que se conhece sobre
as causas do golpe de 1964.
O
exemplo dado mostra que o jornalista do New York Times cometeu
erros técnicos (ouviu apenas um lado, descontextualizou
declarações e apontou para conclusões do
ponto de vista histórico incorretas) e éticos
(critérios parciais na escolha das fontes, relevância
questionável quanto a própria pauta e não
concessão de espaço para a pessoa atingida pela
reportagem). O resultado disto é uma matéria jornalística
de péssima qualidade, posição, aliás,
unânime entre a maioria dos jornalistas brasileiros quando
da sua publicação (a unanimidade só não
aconteceu quando da decisão intempestiva do governo de
cancelar o visto do correspondente que de mau jornalista virou
uma vítima).
Aplicando
os conceitos de Alsius, Rother feriu os princípios da
veracidade (na escolha parcial das fontes) e de justiça
(não colocação de pontos de vista distintos
na mesma matéria). Não há ética
e qualidade na matéria de Rother.
4.
Considerações finais: jornalismo como atividade
liberal
Os
conceitos de veracidade, justiça, liberdade e responsabilidade
se articulam dentro de uma perspectiva de uma sociedade democrática-liberal.
O jornalismo nasceu junto com o liberalismo clássico
e incorpora os seus valores éticos. Neste sentido, a
discussão de qualidade e ética jornalísticas
tangenciam a recuperação de valores próprios
da sociedade democrática-liberal clássica entrando,
muitas vezes, em confrontação com a dinâmica
atual de incorporação à esfera econômica
dos valores próprios da esfera política. Por isto,
o jornalismo - e todo o seu arcabouço ético e
técnico - está intimamente vinculado à
própria sobrevivência e as formas que se estruturam
os princípios da sociedade liberal-democrática.
O
que fica como desafio para discutir neste momento é quais
são as perspectivas e possibilidades de se retomar tais
valores éticos e qualitativos do jornalismo dentro da
conjuntura neoliberal em que há esta incorporação
da esfera política pela esfera econômica.
Em
outras palavras, quando a esfera pública se transforma
meramente em mercado, a ética jornalística tem
a possibilidade de ser um espaço de crítica a
atual configuração societária ou é
uma discussão totalmente vazia de conteúdo.
Bibliografia
ABRAMO,
Perseu. Padrões de manipulação na grande
imprensa. S. Paulo: Perseu
Abramo, 2003.
ALSIUS,
Salvador. "Ética no jornalismo: invoque-se a qualidade"
(conferência proferida
no Congresso da Intercom de 2003 - Belo Horizonte) mimeo.
BUCCI,
Eugênio. Sobre ética e imprensa. São Paulo:
Cia das Letras, 2001.
KUCINSKY,
Bernardo. A síndrome da antena parabólica. S.
Paulo: Perseu Abramo,
2001.
___________________.
Jornalismo na era virtual: a crise da razão ética.
S. Paulo:
Perseu Abramo/Unesp, 2005.
LIMA,
Venício. Mídia: teoria e política. S. Paulo:
Perseu Abramo, 2000.
MARCONDES
FILHO, Ciro. A saga dos cães perdidos. S. Paulo: Hacker,
2000.
OLIVEIRA,
Dennis; MAIA, Marta Regina. Revista Veja: o temor como mecanismo
controlador da esfera pública. (trabalho apresentado
ao Colóquio de Teoria Crítica de
2004 - Piracicaba).
Notas
[1]
A este respeito, ver os estudos do grupo de Mídia e Política
da UnB, na qual os pesquisadores concluem que a telenovela é
o principal elemento fomentador do debate político no
Brasil. Estes pesquisadores criaram a interessante hipótese
do CR-P (Cenário de Representação Política),
onde a ficção televisiva seriada constrói.
[2]
Ver LIMA, Venício. Mídia: teoria e política.
S. Paulo: Perseu Abramo, 2000.
*Dennis
Oliveira é Doutor em Ciências da Comunicação,
Professor da Escola de Comunicações e Artes da
USP (SP) e Coordenador do curso de Jornalismo da Universidade
Metodista de Piracicaba - SP. E-mail: dennisoliveira@uol.com.br.
**Trabalho
apresentado durante o IX Colóquio Internacional sobre
a Escola Latino-Americana de Comunicação (CELACOM
2005), realizado de 9 a 11 de Maio de 2005 no Campus Rudge Ramos
da Universidade Metodista de São Paulo (UMESP).
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