Nos
intestinos da mídia
A prática dos
observadores
na internet
Por
Rogério Christofoletti*
Resumo
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Experiências
de monitoramento da mídia, como a do site Observatório
da Imprensa, vêm se disseminando no Brasil e no exterior.
Os baixos custos e a facilidade de publicação
dos conteúdos têm sido fatores determinantes para
que a internet se converta no ambiente privilegiado dessas discussões.
Por sua vez, a observação da cobertura midiática
de certos temas ajuda a perceber e a compreender os mecanismos
nem sempre evidentes de formação de opinião,
os vícios e os valores que permeiam as estratégias
das empresas jornalísticas e os próprios procedimentos
dos jornalistas envolvidos.
As
práticas de análise e crítica dos media
watchers visam, entre outros objetivos, contribuir para o aperfeiçoamento
dos meios de comunicação. Mas como isso vem se
dando? Este artigo analisa dez sites desta natureza - quatro
nacionais e seis de outros países -, apontando seu funcionamento
e os resultados que podem auxiliar para a consolidação
de uma cultura de consumo crítico da mídia.
"Nos
últimos quinze anos, à medida que se acelerava
a globalização liberal, este 'quarto poder'
se viu esvaziado de sentido, perdendo, pouco a pouco, sua
função fundamental de contrapoder." Ignácio
Ramonet - O Quinto Poder
Já
é quase um cacoete repetir que a imprensa é o
Quarto Poder, e por essa razão fiscaliza os outros três.
Assim, jornalistas e empresas jornalísticas deveriam
zelar pelos valores que sustentam a democracia, que incentivam
a justiça e que alimentam a liberdade.
Informar,
denunciar, averiguar, comparar, questionar seriam as atividades
mais imediatas dos meios de comunicação na tentativa
de satisfação de sua missão. Segundo Marcus
Ianoni, a noção de Quarto Poder tem dupla face:
é uma instância de fiscalização de
poderes e é um poder que influencia os demais poderes,
"de modo a veicular aspirações da sociedade
civil. O Quarto Poder surge como uma instância de debates
dos setores articulados de cidadania, de expressão de
sua opinião" (2003). A sua dimensão é
política, reforça.
O
crescimento do alcance, da incidência e da presença
da mídia no tecido social e mesmo na vida contemporânea
tem provocado intrincados debates acerca dos limites para os
poderes exercidos pelos meios de comunicação.
O Quarto Poder, que tanto fiscaliza, carece de fiscais, de avaliação,
de controles. É cada vez mais preciso um Quinto Poder,
frisa Ramonet (2003), para se opor ao concentracionismo, à
pasteurização do noticiário, às
estratégias de unificação do pensamento.
Basta,
simplesmente, criar um "quinto poder". Um "quinto
poder" que nos permita opor uma força cidadã
à nova coalizão dos senhores dominantes. Um
"quinto poder" cuja função seria a
de denunciar o superpoder dos grandes meios de comunicação,
dos grandes grupos da mídia, cúmplices e difusores
da globalização liberal. (idem)
Em
latitudes brasileiras, Ianoni enxerga nesse Quinto Poder um
conjunto de atividades como a luta pelo direito de antena, pela
legalização de emissoras de rádio e TV
comunitárias, entre outras.
Trata-se
de combinar iniciativas que, por dentro ou por fora do sistema
de comunicação dominante e por dentro ou por
fora do marco político-institucional em que opera a
mídia, caminhem no sentido da ampliação
da democracia e do desenvolvimento de contrahegemonia e caminhos
alternativos de atuação comunicacional. (op.
cit.)
Otimista
com o curso das realizações recentes e do fôlego
retomado nos anos 90 no país, o autor vê condições
de prosperidade desse complexo na vigência de um governo
vindo da esquerda, o de Lula. Ianoni mede os passos e não
se ufana, mas também não descarta as conquistas
acumuladas. Um Quinto Poder já existe, não se
sabe para onde vai e nem se ele vinga. Mas é um fato
da realidade, pondera.
Em
outra geografia, também se questiona a força e
a penetração dos meios na vida social contemporânea.
Se a função do jornalismo é ser o vigilante
do governo, quem vigia os vigias, pergunta Virginia Whitehouse
(2001). De olho na atuação dos meios de comunicação
frente à democracia norte-americana, Whitehouse - que
já foi presidenta do Comitê Nacional de Educação
em Jornalismo da Sociedade de Jornalistas Profissionais - relaciona
quatro pontos de eclosão das críticas ao jornalismo
local: de fora da indústria, de dentro dela, dos conselhos
de imprensa e de organizações profissionais.
Organizações
como o Media Research Center e o Fair fazem parte do
primeiro grupo; revistas como a Columbia Journalism Review,
do segundo; conselhos como o de Minnesota, do terceiro; e associações,
como a American Society of Newspaper Editors, do quarto.
A conclusão a que chega a autora é que qualquer
que seja o ponto de disparo da crítica, "todos los
vigilantes contribuyen a la conversación actual sobre
lo que significa tener prensa libre en una sociedad libre".
E
é nesse ponto que reside uma tensão permanente
na sociedade: como incentivar uma imprensa vigilante, estimular
a crítica à mídia sem sufocá-la
e ainda manter as liberdades da própria imprensa e dos
seus críticos? Há diversas respostas para esta
questão, e, hoje, muitas delas têm sua interface
visível na internet sob a forma de websites de crítica
de mídia.
São
esses pontos de observação que mais fomentam,
atualmente, o debate acerca da qualidade dos produtos midiáticos
e dos valores morais que devem balizar a conduta ética
dos profissionais. São esses websites que não
só ateiam mais fogo nas fogueiras das vaidades jornalísticas,
mas também inflamam o cidadão comum a lançar
um olhar mais crítico para a até então
inquestionável mídia. Mas de que forma esses observatórios
vêm funcionando? Sob que metodologias e rotinas de trabalho?
Há articulação entre suas atividades? É
possível visualizar aí um Quinto Poder?
Na
tentativa de respostas a essas questões, foram avaliados
dez websites que se ocupam da crítica da mídia,
sendo quatro brasileiros e seis internacionais. A seleção
se apoiou em quatro critérios:
a)
era necessário contemplar experiências de observatórios
em diversos países, em pelo menos dois continentes;
b)
os websites deveriam ser já consagrados, referências
no assunto;
c)
o rol de escolhidos deveria abranger críticos conservadores
e liberais, em vários setores do espectro ideológico;
d)
era preciso monitorar experiências acadêmicas, profissionais
e de outras camadas organizadas da sociedade. [1]
Seguindo
esses parâmetros, chegou-se à lista dos selecionados
para a observação.
Do
Brasil: Observatório da Imprensa, Canal da Imprensa,
S.O.S. Imprensa e Observatório Brasileiro de Mídia.
Do
exterior: Observatório
Global de Médios da Venezuela, Observatoire Français
des Médias, Accuracy In Media, Media Watch, Fair e
Palestine Media Watch (EUA).
Foram
levadas em consideração as informações
difundidas nos websites acerca de suas funções
e tais dados foram confrontados com o que se percebeu em dois
meses de navegação (de janeiro a fevereiro de
2005).
Evidentemente,
o período de monitoramento é curto, mas ele é
necessário apenas para identificar se houve desvio ou
não das funções autoatribuídas.
Observatório
da Imprensa:
http://www.observatoriodaimprensa.com.br
Foi
o primeiro media watcher da internet brasileira. Embora
tenha surgido num ambiente acadêmico, [2] em
2001, passou a ser um projeto de uma organização
sem fins lucrativos, o Instituto para o Desenvolvimento
do Jornalismo (Projor). O Observatório se define
como "entidade civil, não-governamental, não-corporativa
e não -partidária
que pretende acompanhar, junto com outras organizações
da sociedade civil, o desempenho da mídia brasileira".
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Para isso, funciona como um fórum permanente que reúne
o público usuário na discussão sobre os
veículos de comunicação, além dos
profissionais e demais interessados na área.
Nesse
ambiente, circulam artigos opinativos, comentários, análises,
queixas, denúncias e debates.
Além
do website, há uma versão em formato de programa
semanal exibido na TV aberta por meio de uma rede de emissoras
educativas. Na internet, a periodicidade de atualização
dos conteúdos vem se alterando, e em breve, o OI será
diário.
Segundo
avaliam Albuquerque, Ladeira e Silva (2002), o Observatório
da Imprensa assume uma "dupla condição
de arena - idealmente aberta à participação
de todos, considerados aprioristicamente como interlocutores
igualmente válidos - e de agente do debate - imbuído
de um papel normativo e, portanto, supostamente superior aos
demais interlocutores" (173). Assim, o OI não é
um local neutro, onde as opiniões gravitam sem hierarquia
ou prevalência; o OI também manifesta suas posturas,
organiza os conteúdos segundo uma lógica própria;
participa ativamente da discussão.
Canal
da Imprensa:
http://www.canaldaimprensa.com.br
Define-se
como uma revista eletrônica, surgida em 2002 no
Centro Universitário Adventista (Unasp), no interior
de São Paulo. É produzida por alunos dos
dois últimos anos do curso de Comunicação
Social - Jornalismo, e tem a supervisão do professor
Ruben Holdorf.
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A
revista eletrônica é quinzenal e temática
e sua linha editorial "orienta os articulistas a analisar
e criticar o papel da mídia brasileira e internacional".
É
composta por artigos divididos em seções fixas
que abordam não apenas os meios impressos. Segundo informa,
"suas abordagens não permitem o proselitismo religioso
nem a propaganda política", e o compromisso da publicação
é "lutar pelos direitos de expressão e consciência".
Muito
semelhante ao Observatório da Imprensa por seu enfoque
largo e por sua preocupação analítica,
também se pauta pela mídia nacional e pelos interesses
que a circundam. O que a diferencia do OI é a sua produção
num ambiente acadêmico, restrito a estudantes e professores
da instituição.
S.O.S.
Imprensa:
http://www.unb.br/fac/sos
Não
se trata propriamente um media watcher, mas atua paralelo,
na medida em que realiza um serviço de assesso-ramento
público ao usuário da mídia em casos
de erros e abusos.
Produzido
desde 1996 na Universidade de Brasília (UnB), o
projeto funciona como uma ouvidoria pública, voltada
para a "promoção de um melhor relacionamento
entre o cidadão e a mídia".
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O
website oferece clipping de notícias sobre a mídia,
publica artigos e relaciona mais de uma centena de casos de
erros e abusos na mídia nacional.
Projeto de extensão universitária, disponibiliza
um telefone que atende a população e orienta os
usuários do sistema, o Disque-Imprensa.
Observatório
Brasileiro de Mídia:
http://www.observatoriodemidia.org.br
Surgido
em setembro de 2004, é uma iniciativa do Núcleo
de Jornalismo Compa-rado da ECA-USP em parceria com a
ONG Observatório Social e o Media Watch
Global, motivada pelas discussões do Fórum
Social Mundial. Além de artigos e reportagens sobre
jornalismo, o website realiza pesquisas de olho na cobertura
midiática.
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A
única desenvolvida até agora enfocou as eleições
municipais em São Paulo, medindo e classificando as orientações
das matérias de cinco jornais diários com relação
aos candidatos (positiva, negativa ou neutra). Como diferencial
metodológico, o Observatório Brasileiro de
Mídia utiliza o "morfômetro", dispositivo
criado pelo professor José Coelho Sobrinho, que classifica
a posição da matéria na página dos
jornais, pontuando-a conforme o destaque.
O
website não tem atualização freqüente,
pois se sustenta nos conteúdos produzidos pela equipe
de alunos. O aspecto geral é marcadamente acadêmico.
Observatório
Global de Medios - Venezuela:
http://www.observatoriodemedios.org.ve
Surgida
a partir do chamado no 2º Fórum Social Mundial,
em Porto Alegre (2002), a divisão venezuelana de
um observatório mundial está apoiada numa
organização social sem fins lucrativos.
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Sua
principal função é "exercer, através
da análise rigorosa e responsável, a observação
permanente da informação proporcionada pelos meios
de comunicação" daquele país.
O
website do Observatório Global de Médios
disponibiliza "documentos" (manifestos e artigos)
e "investigações" (análises e
levantamentos) sobre a realidade das comunicações
venezuelanas. Além disso, emite "Comunicados à
Opinião Pública", alertando para casos de
censura, denunciando restrições à liberdade
de imprensa e condenando manipulações na mídia.
O
website tem forte acento burocrático e chega a disponibilizar
a ata de fundação e balanços da gestão.
Distancia-se muito do Observatório da Imprensa, pois
assume um lugar institucional e político à semelhança
de uma organização não-governamental ou
entidade classista. Seus posicionamentos políticos são
sempre muito claros.
Observatoire
Français des Médias:
http://www.observatoire-medias.info
Também
foi criado a partir do Fórum Social Mundial, e
surgiu oficialmente em janeiro de 2003, em Paris. Conectado
ao Media Watch Global, objetiva "proteger
a sociedade contra os abusos e manipu-lações",
bem como "defende a informação com
bem pública e reivindica o direito dos cidadãos
de serem informados".
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O
espírito que move o website é o mesmo explicitado
por Ramonet, resgatar a dimensão de contra-poder que
a maioria dos meios de comunicação perdeu.
Os
conteúdos difundidos encaixam-se em oito rubricas que
vão das ações do próprio Observatório,
passando por análises da mídia francesa e mundial,
por enquetes, alertas e proposições. Também
tem forte orientação política e institucional,
mas oferece um diferencial: propõe-se a realizar reuniões
públicas para debater os temas analisados.
Accuracy
In Media:
http://www.aim.org
É
um dos media watchers mais tradicionais dos EUA, com forte
e declarado acento conservador. Bem estruturado, o website
traz relatórios cotidianos sobre o noticiário
norte-americano, diagnósticos especiais, seções
fixas e colunistas convidados.
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Zela
pela imparcialidade, equilíbrio e exatidão na
reportagem, e "ajuda os membros da mídia a serem
mais transparentes em suas ações". Como marca
de fantasia, o website usa a contração do seu
nome - Accuracy in Media, Exatidão na Mídia
-, fazendo um trocadilho: AIM, Alvo.
Media
Watch:
http://www.mediawatch.com
Com
o lema "Desafiando o racismo, o sexismo e a violência
na mídia por meio da educação e da
ação", está na ativa desde 1984.
Atua contra os estereótipos disseminados nos veículos
de comuni-cação, produzindo e distribuindo
materiais (artigos, pesquisas, áudios e vídeos)
que pretendem "ajudar a criar consumidores mais bem
informados sobre a mídia".
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Sua
atuação não é meramente a de um
dispositivo de crítica de mídia, mas também
pró-ativa na educação dos cidadãos
comuns para os veículos de comunicação.
Seu foco é a realidade norte-americana.
FAIR:
http://www.fair.org
A
Fairness and Accuracy in Reporting (Fair, em inglês,
Justo) surgiu em 1986, defendendo os preceitos da Primeira
Emenda da Constituição Norte-Americana que
garante a liberdade da imprensa e a não-interferência
ao seu trabalho. Posiciona-se como uma organização
anticensura, contrária à concentração
dos meios, liberal e progressista, opondo-se - portanto
- à Accuracy in Media.
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A
exemplo do Media Watch, trabalha para que o público
deixe de ser passivo diante das empresas jornalísticas
e de seus produtos. A FAIR edita uma revista bimestral,
a "Extra!" - uma referência na área -
e produz um programa semanal de rádio, o "CounterSpin"
(algo como o Contador de Rotações), além
de ter uma lista virtual que alcança 55 mil assinantes.
Palestine
Media Watch:
http://www.pmwatch.org
Trata-se
de um media watcher sem nenhum receio de afirmar sua parciali-dade.
Criado em outubro de 2000 "para promover a cobertura
justa e exata da ocupação israelense na
Palestina", este observatório se concentra
nos principais meios de comunicação norte-americanos.
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Tem
dois focos de ação: identificar e denunciar as
falhas na cobertura jornalística, e municiar a mídia
com materiais pró-palestinos.
Protestando
contra a parcialidade da maioria dos jornalistas dos Estados
Unidos quando o assunto é o conflito no Oriente Médio,
o Palestine Media Watch tenta equilibrar o noticiário
oferecendo entrevistas, fontes, informações do
lado mais combatido na mídia. É a parcialidade
como antídoto da parcialidade. Além da análise
dos meios, o website ainda disponibiliza dicas para o cidadão
descobrir se a imprensa está ou não manipulando
as informações.
Crítica
de mídia e práticas cidadãs
As
experiências rapidamente analisadas aqui permitem ter
uma visão de parte dos esforços empreendidos mundialmente
para uma maior responsabilização de empresas e
profissionais envolvidos no processo comunicativo e para uma
efetiva transparência dos procedimentos e funcionamentos
da mídia contemporânea. Tais experiências
possibilitam também a disseminação de um
comportamento atento no consumo das informações,
criando assim camadas de público mais críticas.
Com isso, tornam-se mais concretas as condições
para se ter consumidores menos passivos, menos inertes.
Embora
o acesso à internet ainda seja restrito, os websites
analisados compõem um feixe de um sistema ainda em formação
de leitura crítica e de discussão permanente sobre
as práticas jornalísticas. Valores como "liberdade
de imprensa", "exatidão", "correção",
"equilíbrio", "imparcialidade", "objetividade"
e "verdade" circulam com força e velocidade
nas arenas da internet. A validade de cada um desses valores
entra em confronto permanente com a sua vigência nos produtos
midiáticos. As posturas dos profissionais e as conduções
dos noticiários pelas empresas também são
questionadas, o que reforça a disposição
desses observadores de passarem a limpo o jornalismo e suas
práticas decorrentes.
Com
base na amostragem apresentada aqui, o que se percebe é
que, pelo menos no Brasil, dois públicos são muito
focados pelos media watchers: um formado pelos próprios
profissionais do jornalismo e outro, mais acadêmico. O
Canal da Imprensa e o Observatório Brasileiro
de Mídia voltam-se mais para a comunidade de professores,
pesquisadores e alunos, que - em breve - tornar-se-ão
profissionais de mercado. A atuação desses dois
experimentos é claramente formadora e didática,
escolha coerente com as origens dos projetos e suas instituições
promotoras, duas universidades.
Embora
também esteja acolhido por uma instituição
de ensino superior, a Universidade de Brasília, o S.O.S.
Imprensa não demonstra preocupação
excessiva com o público acadêmico, e volta-se a
algo mais geral.
Postando-se
como uma ouvidoria pública, a iniciativa não abdica
de seu papel formador, mas prioriza o caráter de serviço
para a comunidade. O Observatório da Imprensa
não se define como um serviço e sua estrutura
mais se assemelham às de uma arena de debates, de discussões.
Embora se volte para a população em geral, entre
os participantes, há uma imensa maioria de profissionais
envolvidos com a produção e difusão informativa.
Os
observadores da mídia nacional se diferenciam dos de
outras geografias, principalmente dos norte-americanos, já
muito experientes nesse ramo. Isso pode se dever ao pouco tempo
acumulado pelas iniciativas brasileiras ou ainda por características
da realidade política e midiática locais. Enquanto
os norte-americanos parecem operar mais para o atacado, os brasileiros
reúnem forças no varejo, em nichos específicos.
Um
outro aspecto dos media watchers dos Estados Unidos é
a sua aceitação pelo grande público. Tanto
é que alguns dos websites e publicações
paralelas - como Accuracy In Media, Media Watch e FAIR
- são referências na discussão política
daquele país, sendo completamente absorvidas e sedimentadas
pelos consumidores de informação.
Por
lá, conseguiu-se estabelecer as bases para um cenário
de discussão ampla e democrática dos meios. É
verdade que ajudam a compor esse quadro a tradição
republicana de alternância de poder (nunca interrompida),
o sistema jurídico (que defende a liberdade de imprensa
e inibe o oligopólio) e o imaginário político
popular (que tem na liberdade o seu maior valor de fundo).
No
Brasil, se não por essas condições, outras
poderiam balizar a constituição e implementação
de um sistema efetivo de crítica de mídia3.
É
necessário reforçar as iniciativas existentes
e lançar novos experimentos, quebrando a resistência
das empresas e dos próprios profissionais (que teimam
em se esquivar da autocrítica) e alargando os horizontes
do público em geral. Processo a médio e longo
prazo, a consolidação de um sistema permanente
que avalie os meios de comunicação é também
mais uma viga no edifício da democratização
das relações no país.
Em
comparação com os semelhantes estrangeiros, os
observadores nacionais diferenciam-se por não adotarem
dois outros perfis encontrados: não assumem postura institucionalizada
(como é o caso do Observatório Global de Médios
da Venezuela e do Observatoire Français des Médias)
e não definem claramente as ideologias que os orientam
(como os anteriores e mesmo o Palestine Media Watch).
Ao
não se institucionalizar, os media watchers brasileiros
ganham mais agilidade e operacionalidade, escapando da burocratização
e dos ranços paquidérmicos dessas gestões.
Ao
não declararem suas filiações ideológicas,
os observadores locais permitem a circulação mais
livre de diversas tendências políticas em suas
arenas, e desviam-se do partidarismo/sectarismo, transbordantes
no Accuracy In Media, por exemplo. Ganha-se com leveza,
versatilidade, pluralidade, diversidade.
É
verdade, no entanto, que tais experiências formam um feixe
apenas de um sistema ainda em formação, conforme
já foi dito. Mesmo assim, os esforços são
válidos e precisam concentrar energia, investimento e
tempo em ações mais eficientes e rápidas
na conversão do público passivo em comunidades
ativas. É preciso estar no interior do furacão
para poder sorvê-lo melhor. É necessário
que o cidadão comum se coloque nos intestinos da mídia
para que ele mesmo não seja tragado e digerido por ela.
Referências
Bibliográficas
ALBUQUERQUE,
Afonso de; LADEIRA, João Damasceno Martins; SILVA, Marco
Antonio Roxo da. Media criticism no Brasil: o Observatório
da Imprensa. Revista
Brasileira de Ciências da Comunicação. SP:
Volume XXV, nº 2, julho-dezembro de 2002.
CHRISTOFOLETTI,
Rogério. Dez impasses para uma efetiva crítica
de mídia no Brasil.
IN: Anais do 26º Congresso Brasileiro de Ciências
da Comunicação. Intercom, Belo
Horizonte, 2003.
IANONI,
Marcus. Sobre o Quarto e o Quinto poderes. Revista Communicare.
Vol. 3.
Número 2. 2º semestre de 2003.
RAMONET,
Ignácio. O quinto poder. Le Monde Diplomatique. Nº
45, outubro de 2003.
WHITEHOUSE,
Virginia. Quién vigila a los médios? Disponível
em
http://www.saladeprensa.org.
Nº. 32, junho de 2001, Ano III, Vol. 2. Acessado em 20
de
março de 2005.
Notas
[1]
Coordeno o projeto MONITOR DE MÍDIA na Univali, website
que acompanha a imprensa catarinense de forma semelhante às
demais experiências aqui relatadas. Surgido em 2001, o
serviço bem poderia fazer parte do rol analisado neste
artigo, mas por razões óbvias, decidi pela sua
não inclusão.
[2]
Engendrado no Laboratório de Estudos Avançados
em Jornalismo (Labjor) da Universidade de Campinas em 1996.
[3]
Apontei com detalhes dez empecilhos para a criação
de uma verdadeira crítica de mídia no Brasil no
Núcleo de Pesquisa em Jornalismo da Intercom no seu 26º
Congresso Brasileiro em 2003, em Belo Horizonte (MG). Ver CHRISTOFOLETTI
(2003).
*Rogério
Christofoletti é Doutor em Ciências da Comunicação
pela UNIVALI, em Santa Catarina. E-mail: rogério.christofoletti@uol.com.br.
**Trabalho
apresentado durante o IX Colóquio Internacional sobre
a Escola Latino-Americana de Comunicação (CELACOM
2005), realizado de 9 a 11 de Maio de 2005 no Campus Rudge Ramos
da Universidade Metodista de São Paulo (UMESP).
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