Impressões
do Japão:
Relatos de dois professores-convidados
PARTE
1: Um diálogo cultural
Por Atílio
Avancini

Fig.
1: Portal
do restaurante Nagai Hama (Praia
Longa). Foto: A.
Avancini.
"Qualquer
que seja o processo desenvolvido e as
áreas exploradas pela pedagogia
e didática das línguas estrangeiras,
todos os esforços tendem sempre
a um só objetivo: melhor ensinar
para ajudar a melhor aprender". (R.
Richterich)
Em
Kyoto, durante um ano (2006-2007), desenvolvi
um trabalho pedagógico baseado na
"Cultura Brasileira e Comunicação"
no Departamento de Estudos Luso-Brasileiros
da Kyoto University of Foreign Studies,
Kyoto, Japão. Como professor-convidado,
estabelecido no Departamento de Jornalismo
e Editoração da Escola de
Comunicações e Artes da Universidade
de São Paulo, promovi o ensino da
Língua Portuguesa em seis disciplinas
de Graduação e uma de Pós-Graduação,
contando com o suporte metodológico
da Arte-Educação. Esta área
do pensar objetivou promover interações
relacionadas com a cultura, visando práticas
diversificadas e abertas ao pluralismo.
O
ensino no Japão se integrou às
múltiplas forças sócio-culturais
atuantes, que não só foram
influentes nas opções no que
diz respeito às condições
pragmáticas como também determinaram
comportamentos. Assim, o ensino-aprendizagem
se processou num contexto educacional determinado
por condições específicas
do lugar, refletindo aspectos emocionais
e intelectuais dessa comunidade, parte formadora
de sua identidade.
Neste
relato, faço breves considerações
sobre o ensino em sala de aula e o contato
fora da Universidade com a cultura japonesa.
Compartilhei um duplo deleite. O primeiro
foi dos estudantes japoneses em conhecer
o modo de vida ocidental, sobretudo o brasileiro,
visto como um povo descontraído,
alegre, criativo e original. O interesse
dos estudantes pelo Brasil veio dividido
pela insegurança da perda da identidade
japonesa: o contato da ilha-Japão
com estrangeiros sempre foi feito com muito
cuidado e receio. O segundo deleite foi
unicamente pessoal, diante do desafio de
residir na antiga capital Kyoto, envolta
pela atmosfera cultural e tradicional do
Japão.
De
certo modo, meu desejo de vivenciar o estilo
de vida nipônico veio acompanhado
pela busca de semelhanças e antagonismos
entre as identidades japonesa e brasileira.
Assim,
para enfrentar os desafios em sala de aula
e na vida cotidiana de Kyoto, lancei-me
aos princípios da Arte-Educação,
nas áreas da arte literária,
arte visual e arte musical. O caminho da
Socialização da Arte - ligado
às Ciências Humanas - foi decisivo
para que os alunos tomassem conhecimento
da Cultura Brasileira e da Língua
Portuguesa com criatividade e, simultaneamente,
suavizar sua própria identidade cultural.
Percebi também que para trabalhar
com os estudantes era necessário
conhecer o ambiente histórico de
Kyoto - capital do Japão, da Era
Heian (794) à Era Meiji (1868).
De
início, constatei algumas dificuldades
por parte dos estudantes como, por exemplo:
realizar análises de conteúdo,
fazer abstrações, perceber
metáforas, se expressarem espontaneamente.
Mas, uma vez no Oriente, aproveitei o estado
natural de concentração, ordem,
exatidão, resguardo e silêncio.
Assim, procurei lidar com alguns aspectos
da "educação mental"
propostos pela educadora francesa Mira Alfassa
(La Mère): "desenvolvimento
do poder de atenção; desenvolvimento
da capacidade de expansão; organização
das idéias em torno de uma idéia
central".
Para
encorajá-los a deixarem a passividade,
fazerem perguntas e se lançarem mais
abertamente, propus experimentos com três
autores da Arte Moderna Brasileira: a poesia
de Cecília Meireles, a pintura de
Tarsila do Amaral e a música de Tom
Jobim. Com ese "tesouro" pude
avançar cuidadosamente, evitando
a acomodação.
O
enfoque com a escritora Cecília Meireles
(1901-1964) foi baseado no livro "Ou
Isto ou Aquilo", escrito para o público
infantil e adulto. Assim, cada fragmento
poético - possuindo narrativa própria,
rima interna e traço cultural - foram
discutidos criativamente com os alunos.
Nesse âmbito, procurei ser conduzido
pela simplicidade e profundidade das ondas
poéticas de Meireles, convidando
os alunos a compartilhar tal vivência.
O
foco na pintora Tarsila do Amaral (1886-1973)
foi a partir de algumas de suas mais importantes
obras, que foram significativas na ruptura
estilística das Artes Plásticas
Brasileira. Imagens como "A Japonesa"
(1920), "A Negra" (1923), "São
Paulo" (1924), "A Família"
(1925), "Abaporu" (1928), "Antropofagia"
(1929), "Operários" (1933),
foram reproduzidas pelos alunos na busca
da similaridade - e não da cópia
- na tentativa de facilitar análises
estéticas e simbólicas das
obras. Foi também proposto um trabalho
escrito de pesquisa, tendo como ponto de
partida a vida e a obra de Tarsila do Amaral.
Chega
a ser natural a atração do
Japão pelo gênero musical Bossa
Nova.
Desse
modo, tomei a iniciativa de levar um violão
em sala de aula para tocar e cantar algumas
canções do músico Tom
Jobim (1927-1993), compostas nos anos sessenta:
"Garota de Ipanema", "Este
seu olhar", "Eu sei que vou te
amar", "Corcovado", "Desafinado",
"Samba de uma nota só",
"A Felicidade". Tom Jobim pode
ser considerado a expressão da alma
musical brasileira. E a aceitação
da Bossa Nova favoreceu um trabalho
de compreensão das letras, de discussão
sobre os "anos de ouro" da cidade
do Rio de Janeiro, de experimentos rítmicos
e de experiências bem sucedidas com
o coral formado por alunos em sala de aula.
Tive ainda o privilégio de fazer
a letra de duas canções de
Bossa Nova do músico e professor
Shiro Iyanaga: "Sonho primaveril"
e "Só em Kyoto".
Fora
dos domínios universitários,
minha troca com a gente de Kyoto processou-se
dentro do mesmo eixo: a possibilidade de
acesso ao conhecimento via arte. Pensando
num futuro livro de fotografias sobre o
Centenário da Imigração
Japonesa no Brasil, em 2008, aproveitei
os finais de semana e as férias escolares
para produzir Retratos e Fotografia de Rua
- flagrantes espontâneos de pessoas
no espaço público. Nesse sentido,
foi importante minha participação
no Laboratório de Fotografia em Preto
e Branco - Clube de Fotografia da Universidade
(Shashin-Bu) - para revelar e ampliar
fotos e expor trabalhos coletivos em galerias:
"Winter 2006" na University Gallery
e "Photogenic" na Gallery Petitor
884.
Meu
desejo de tirar boas fotos, deu energia
para ir adiante e chegar mais perto do homem
de Kyoto. Mais tarde, quando reflito calmamente
sobre algumas imagens, sinto que fui além
dos limites de minha experiência.
Eu sempre amei as cidades e seus cidadãos.
E fotografar foi deixar a teoria de lado
e partir em direção à
prática. Como refere-se Henri Cartier-Bresson:
"ver é um desfrute para o olho,
deixando os pensamentos conceituais em repouso".
Para
um fotógrafo, a homogênea paisagem
natural do Japão exerceu muito fascínio
e descoberta como, por exemplo, a intersecção
contrastante a cada estação
do ano. Em minhas saídas fotográficas
individuais, busquei luzes e sombras, brancos
e pretos, formas e linhas, texturas rugosas
e lisas. E também aproveitei para
promover duas saídas coletivas em
Tokyo - "Workshop de Fotojornalismo"
por mim ministrado -, contando com a presença
de 20 jornalistas do jornal International
Press.
Face
a face com a vida de Kyoto, procurei revelar
templos tombados, jardins secos, festas
populares e atividades culturais. Não
por acaso, senti também a necessidade
de escrever uma crônica mensal de
eventos ou fenômenos da natureza na
ordem em que eles se sucederam: Sakura/abril
(flor da cerejeira), Kodomo no Hi/5
de maio (dia da criança), Kamo
Kurabe-Uma/5 de maio (corridas de cavalos
em pares no templo Kamigamo), Aoi Matsuri/15
de maio (procissão com costumes aristocráticos
da Era Heian), Gion Matsuri/17 de
julho (festival popular com carros alegóricos),
Daimonji/16 de agosto (fogo para
as almas ancestrais retornarem aos seus
mundos), Zuiki Matsuri/de 1 a 5 de
outubro (templo portátil levado por
homens e decorado com produtos agrícolas
no templo Kitano Temmangu), Jidai Matsuri/22
de outubro (desfile apresentando a história
do Japão desde a Era Heian à
Era Meiji), Momiji/novembro (folha
momiji), Shogatsu/1 de janeiro (primeiro
dia do ano), Setsubun/3 de fevereiro
(grande fogueira no templo Yoshida para
trazer a boa sorte), Ume no Hana/fevereiro
(flor de ume).
As
considerações feitas neste
relato, embora pessoais, podem dar uma idéia
dos desafios que enfrenta um professor estrangeiro
no Japão. Em um ano de prática,
chego à conclusão de que para
uma aproximação comunicativa,
a Arte foi a chave para o exercício
do diálogo entre povos de culturas
tão díspares. A proposta de
abrir-se para o Outro, deve ser construída
a partir da conscientização
das raízes culturais de cada povo.
Saio
mais enriquecido dessa experiência
como fotógrafo e acadêmico,
além de me sentir mais realizado
como ser humano. Hoje, minha trajetória
pessoal possui mais amplitude. Agradeço
a atenção dada pelas Universidade
de São Paulo e Kyoto University of
Foreign Studies, afirmando que a realização
desses intercâmbios internacionais
são importantes para o desenvolvimento
do conhecimento científico no mundo
contemporâneo.
Afinal
o ser humano é um em qualquer parte
do planeta, independente de sua língua,
cultura, crença, raça ou classe
social.
Referências
bibliográficas
RICHTERICH,
R. Besoins langagiers et objectifs d'apprentissage.
Paris, Hachette, s/d.
LA
MÈRE. Éducation. Pondichéry:
Sri Aurobindo Ashram, 2005. p. 35.
CARTIER-BRESSON,
H. Henri Cartier-Bresson. Kyoto:
Kahitsukan/Kyoto Museum of Contemporary
Art, 1997. p. 48.
*Atílio
Avancini é fotógrafo e doutor
em Jornalismo pela Universidade de São
Paulo e professor de Fotojornalismo no Departamento
de Jornalismo e Editoração (ECA/USP).
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