O
menino-aranha:
Uma
história de notícia
Por
Marconi
Oliveira da Silva*
Resumo
Este
artigo analisa a história de uma
criança/notícia - É
a história de Tiago João da
Silva que escalava prédios para roubar
e que, por isso, foi presa várias
vezes e realizou inúmeras fugas das
instituições de ressocialização.
Durante 9 anos, jornais, rádios e
televisões alimentaram as fantasias
dos leitores com as peripécias de
Tiago João da Silva até a
sua morte por assassinato. A notícia
só é cerrada com a eliminação
do que foi denominado menino-aranha.
O estudo é dividido em três
partes: I - A notícia se relaciona
com as violações do mundo
institucional. O mundo objetivo é
o mundo institucional. A história
de cada indivíduo está intimamente
ligada às instituições;
II - que é rematada com sua morte
e enterro solitário; III - Apresentação
de quatro hipóteses ou pressupostos
para tentar explicar a importância
dessa narrativa jornalística.
Palavras-chave
[Instituições
/ Notícia / Criança / Abstração
/ Realidade]
Não
desprezando as teorias e conceitos em moda
sobre valores-notícia e critérios
de noticiabilidade dos fatos, o jornalismo
existe para narrar as violações
do mundo institucional. Na narrativa jornalística
estão implícitos e quase sempre
explícitos todos os elementos interativos
e iterativos dos fatos institucionais,
assim como os atos de fala, os personagens
e os objetos que os compõem.
O jornalismo, no entanto, no momento mesmo
em que realça a transgressão
no mundo institucional objetivo, reforça
e corrobora seus valores e sua aparente
estabilidade. Em outros termos, o jornalismo
está sempre reproduzindo discursivamente
as estruturas e formas de controle social
inerentes às instituições
sob o aspecto da desagregação
de indivíduos do convívio
social.
Arnold
Gehler (1984:97-101) lembra que na criação
de instituições são
estabelecidas relações mútuas
e formas de comportamento tipificadas ou
figuradas que estereotipam moldes para regimes
legislativos, familiares e governamentais.
Com isso, as instituições
tornam possível a regulamentação
e segurança recíproca do comportamento.
Diz ainda que cada cultura seleciona determinados
comportamentos entre muitos e os
"erige
em modelos de comportamento socialmente
sancionados, que são compromissos
para todos os membros do grupo. Esses
modelos de comportamento, ou instituições,
aliviam o indivíduo da sobrecarga
de decisões e orientam-no através
das impressões e estímulos
que inundam seu ser aberto ao mundo. Esta
é, pode-se dizer, a lei de nossa
vida: estreitamento das possibilidades,
mas apoio mútuo; desencargo para
ter mais liberdade de movimentação,
mas dentro de uma estrutura limitada."
(Cf. Gehler, 1984: 96).
Assim,
o homem, como um ser aberto para o mundo,
tem uma identidade e é livre ao se
reconhecer dentro de um contexto e ao aceitar
a ordem, a direção e a estabilidade
das instituições. Mas como
o homem é um ser instável
entre a violência (Hobbes) e o ethos
da reciprocidade, as instituições
surgem, por um lado, como "empresas"
com tarefas nas áreas vitais como
alimentação e procriação
que exigem colaboração constante
e ordenada e, por outro lado, apresentam-se
como forças e formas estabilizadoras
de decisões e comportamentos futuros.
Esse
desencargo aumenta a produtividade da ação
e do convívio humano, pois instituições,
como o casamento, a família, o trabalho,
o direito, as ciências, a escola,
a igreja etc., trazem no seu interior formas
de conduta que "causam um automático
'já estar entendido'". Gehler
(1984:101) chega a dizer que "o homem
não sabe o que ele é; por
isso, não pode realizar-se de maneira
direta, tem que deixar que as instituições
o conduzam a si mesmo". Assim, por
um lado, os objetivos de vida do indivíduo
são tratados coletivamente nessas
instituições, e, por outro
lado, os homens orientam seus sentimentos
e atuações pela lógica
das regulamentações institucionais
evitando desgastes emocionais nas decisões
básicas.
Do
nascimento à morte o sujeito é
conduzido pelas instituições.
Só o surgimento de uma disfunção
ou inadequação entre indivíduos
e instituições, dependendo
da maior ou menor extensão ou do
grau de intensidade, provocará um
fato institucional com possibilidade de
tornar-se fato noticioso / jornalístico.
Dentro
do que se concebe como ethos das instituições
as autonomias dentro de esferas sem relação
com o todo, enfraquece o sentido da existência
individual, por que fora ou marginal do
sentido superior dado pelas instituições,
restando aos indivíduos, nesse contexto,
voltar ao seio da esfera privada ou familiar
onde deverá encontrar convívio
de mútua tolerância.
As
instâncias culturais, segundo Gehler
(1984:165), oferecem a esses indivíduos
a satisfação de sua autovaloração,
como os jornais, as revistas, as emissoras
de rádio de televisão que
"realizam uma considerável mobilidade
nessas esferas culturais em que o aspecto
substitutivo e quase de paródia desse
treinamento expressa bem o caráter
desviado". Enfim, o ethos das instituições
significa "a submissão às
limitações de toda ordem em
que se refletem as leis das coisas, do mesmo
modo que as experiências de sua colaboração
e uso. Cada uma das virtudes de competência
institucional deixa-se compreender a partir
de seu objetivo". Portanto, "o
caminho para a dignidade aberto a cada um,
seria deixar-se consumir pelas instituições:
em suma: servir e dever."
Os
mecanismos e processos sociais produzem
o sujeito que só pode ser compreendido
dentro do contexto social em que foi formado.
E sua relação com os outros
se realiza não apenas entre um sujeito
poder coexistir com um outro, porque o outro
não reflete imediatamente suas próprias
ações, mas também essa
relação se efetua entre os
outros e eu, entre eu e eu mesmo, como uma
dobradiça, e a garantia disso é
que pertencermos ao mesmo mundo. Na concepção
de Merleau-Ponty (2003:124), pode se entender
por instituição
"os
acontecimentos de uma experiência
dotada de dimensões duráveis,
em relação à qual
toda uma série de outras experiências
terão sentido, formarão
uma continuidade pensável ou uma
história, - ou ainda os acontecimentos
que depositam em mim um sentido, não
a título de sobrevivência
e de resíduo, mas como apelo a
uma continuidade, exigência de um
futuro".
A
continuidade e a historicidade fazem das
instituições uma realidade
objetiva. Isto é, elas possuem realidade
própria que o indivíduo desde
o nascimento se defronta como diante de
um fato exterior e coercitivo. Esta realidade
objetiva, como o casamento, escola, família,
profissão, é um modelo impessoal
e já existente ao qual todos devem
se encaixar.
Mesmo
os desenvolvimentos humanos, digamos biológicos,
tais como a puberdade, que são impregnados
de conflitos, são mediados pelas
instituições. Mesmo assim,
podemos perceber dois fenômenos bastante
distintos que são a história
pessoal e a história pública.
O jornalismo vai se posicionar entre esses
dois modos de atividade e vai transformar
os fatos que se destacaram na afirmação
ou negação das condutas e
realizações institucionais
em notícias, reportagens e sentimentos.
A
história pessoal de cada um de nós
começa a delinear-se pela socialização
que consiste em a criança aceitar
o mundo como o seu mundo. Como isso se processa
é explicado por Berger e Luckmann
(2004:77-98) e que resumimos a seguir: Toda
atividade humana que se torna hábito
precede uma institucionalização,
que por sua vez refletem tipificações
que são partilhadas e acessíveis
a todos os membros do grupo social. No passo
seguinte cria-se uma historicidade e um
controle de ações padronizadas
previamente definidas de conduta. Nas fases
iniciais de socialização a
criança não distingue bem
a objetividade dos fenômenos naturais
e a objetividade dos fenômenos sociais.
Como
os pais, pelo menos teoricamente, já
são socializados, eles aumentam essa
objetividade na socialização
dos filhos.No entanto, no decorrer da formação
infantil, a nova geração pode
recusar a socialização, então
a saída é a sanção.
"As crianças devem aprender
a comportar-se e, uma vez que tenha aprendido,
precisam ser mantidas na linha".
A
partir daí, os indivíduos
executam ações separadas institucionalizadas
no contexto de sua biografia / história
pessoal. E qualquer desvio radical da ordem
institucional toma caráter de um
afastamento da realidade. "Este desvio
pode ser designado como depravação
moral, doença mental ou simplesmente
ignorância crassa". A alienação
da realidade ou o afastamento do mundo objetivo
institucional é o que vamos mostrar
narrando a história de uma notícia
chamada menino-aranha.
A
história de Tiago João da
Silva [1] é a história de
uma notícia que inicia em 1997 e
termina em 2005. É a história
de uma criança que cria fama e ganha
uma perífrase de menino-aranha
por escalar edifícios para roubar.
Torna-se famoso pelas inúmeras fugas
que realizou das várias instituições
de amparo à criança e adolescente.
E assim, a cada ano, a cada mês esse
itinerário se repetiu. Mas, ao completar
18 anos foi assassinado. No seu enterro
estavam o seu pai, três assistentes
sociais e quatro curiosos. menino-aranha
morreu como viveu: só.
1997
/ 9 anos

Imagem
1. A única imagem conhecida pelos
leitores é esta silhueta que
tenta evocar o gesto de escalar prédios
como um "menino-aranha".
(Foto: Beto Figueiroa /JC Imagem). |
|
|
Tiago
nasceu no dia 3 de dezembro de 1988. Portanto,
tinha 9 anos quando em agosto de 1997, a
polícia registrou sua primeira ação:
escalou o edifício Ticiana, na Madalena,
zona oeste do Recife, de onde levou dinheiro
e celulares. Começou assim a saga
de Tiago João da Silva. E vieram
mais edifícios escalados e mais roubos
no bairro de Piedade em Jaboatão
dos Guararapes, Região Metropolitana
do Recife.
Nasceu,
neste momento, a fama e a notoriedade do
personagem menino-aranha Ao completar
10 nos tentou roubar a casa de um militar,
mas foi detido e levado ao Conselho Tutelar
de onde fugiu no mesmo dia. No final de
dezembro, a tentativa de roubar eletrodomésticos
da casa de uma promotora de Justiça
no bairro de Candeias em Jaboatão
dos Guararapes, novamente foi preso e encaminhado
ao abrigo da Fundação de Amparo
a criança e adolescente (Fundac)
na cidade Vitória de Santo Antão,
zona da mata do Estado de Pernambuco.
Após
três dias preso, executou sua 5ª
fuga do abrigo [2], porém foi recapturado
no mesmo dia. Sua vida já estava
delineada por roubos, prisões e fugas.
Até a morte.
1998
/ 10 anos
No
ano seguinte (1998), TJS, que é assim
nomeado como exige o Estatuto da Criança
e do Adolescente por ser menor de 18 anos,
já é conhecido pelos pernambucanos
como menino-aranha, continuou a escalar
prédios (edifícios Sobrado
de Boa Vigem, Ipê, Costa do Mar e
outros) e a roubar os apartamentos. Preso
foi levado agora para Diretoria da Polícia
da Criança e do Adolescente (DPCA).
[3] Em algumas de suas ações
estava acompanhado do irmão mais
novo AJS, 10 anos, que não subia
nos prédios e ficava aguardando embaixo.
Quando foram presos, cheiravam cola de sapateiro
e levavam R$ 7 nos bolsos. Ficaram apenas
3 horas no Conselho Tutelar e fugiram. No
final de dezembro, era o irmão mais
velho MJS, 13 anos, que estava com ele quando
foi, mais uma vez, preso.
TJS
era franzino e conversava pouco. Respondia
às perguntas balançando a
cabeça e olhando em outra direção.
Não pára de roer unha. O pai,
o amolador Antônio da Silva, 54 anos,
chorava quando fala do filho: "É
muita humilhação. Só
queria que um juiz prendesse ele e só
deixasse sair com 18 anos". Segundo
o pai, TJS começou a dar trabalho
após a morte da mãe, há
sete anos. Já nas palavras do José
Rufino, conselheiro tutelar, TJS quase sempre
se comportava bem quando vinha para o Conselho
Tutelar, mas às vezes ficava muito
nervoso e já chegou a atirar pedras
nas pessoas.
Acrescentou
que TJS estava gostando de ser notícia
e se sentia um herói.
Essa
notoriedade aumentou depois que ele se especializou
em fugir de abrigos e instituições
destinadas à proteção
de criança em situação
de risco. O juiz Luiz Carlos temia "que
tanta popularidade terminasse por decretar
a sentença de morte desse garoto.
Alguma medida precisava ser tomada, antes
que ele aparecesse morto em algum terreno
baldio".
No
entanto, o juiz Bartolomeu Bueno tinha uma
posição diferente quando sentenciava:
"Esse menino-aranha não
pode ser considerado inimputável.
Ele
tem potencial de periculosidade real e subjetivo
que precisa ser considerado". A promotora
Laíse Queiroz apareceu com uma terceira
posição sobre TJS, quando
afirmava que o problema estava na ausência
de políticas preventivas que conseguissem
evitar realidades tão cruéis
como a do menino-aranha. "A
sociedade falhou por não ter conseguido
garantir a esta criança condições
mínimas de sobrevivência. Esse
garoto foi adotado pelas ruas e seus atos
são conseqüência desse
abandono".
Em
todos esses anos, TJS quase não foi
ouvido e nunca entrevistado pelos repórteres,
mesmo assim algumas de suas declarações,
dadas enquanto estava sob custódia
do Estado, foram publicadas ainda em 1998.
Na sua primeira declaração,
TJS eliminou qualquer dúvida quanto
ao inicio de sua carreira e declarou que
invade apartamentos desde os 9 anos. Todavia,
a polícia não acreditou nisso
e mandou fazer um exame da arcada dentária
dele. TJS gostava de alardear suas façanhas
e parecia sentir prazer com isso. Ele contava
que no início era preso porque perdia
a hora da invasão e os moradores
já estavam acordando. "Geralmente
subo nos prédios por volta das 4
horas da madrugada. Nesse horário,
todo mundo está dormindo.
Para
subir no edifício uso o pára-raios
e aproveito para entrar quando vejo uma
janela aberta e, depois, saio pela porta
da frente, descendo pelo elevador. Nessa
hora, o porteiro está sempre cochilando.
Acrescentou que tem coragem de matar, mas
nunca matou ninguém. E deixou claro
o que quer e qual a sua posição
no mundo: Não quero sair das ruas,
não quero parar de roubar e não
quero estudar. Gosto de brinquedos e se
pudesse ganhar um presente de natal queria
uma bicicleta".
1999
/ 11 anos
No
início de janeiro TJS tentou roubar
uma casa da Imbiribeira - bairro do Recife,
mas foi preso e levado para o Batalhão
Dias Cardoso, no bairro de San Martin, e
no dia seguinte reconduzido para o Centro
de Ressocialização Santa Luzia,
no bairro da Iputinga. Ali, ele passou 11
meses e por ter demonstrado bom comportamento
foi enviado, de volta, à sua família.
Fugiu dias depois. TJS estava quase diariamente
na mídia. Já havia comentário
do tipo só tem jeito matando.
O
magistrado Eduardo Guilliod Maranhão
moderava quando dizia que "ele ainda
não tem condições de
escolher o que é melhor para sua
vida". Por outro lado, a imprensa tentava
ressaltar os sinais de recuperação
de TJS em relação ao início
da internação, como a participação
no campeonato de natação,
onde ganhou três medalhas. Recebia
acompanhamento psicológico e costumava
ir, de ônibus, a consultas médicas
fora do centro, acompanhado apenas de um
educador.
2000
/ 12 anos
Agora
(18 de janeiro) TJS voltou a freqüentar
a Pracinha de Boa Viagem. Foi encontrado
dormindo pelos moradores de rua, que chamaram
a polícia.
Ao
seu lado, foi localizado um tubo de cola.
Em setembro assaltou edifícios em
Piedade e Casa Forte. E como sempre acontece,
foi preso e deve "sofrer nova medida
sócio-educativa". Ficou no Casarão
de Semi-Liberdade, no bairro da Várzea,
onde deveria comparecer par dormir todas
as noites, obrigatoriamente. Mas fugiu e
estava desaparecido.
2001
/ 13 anos
TJS
ficou detido na Fundac na cidade de Abreu
e Lima. Passou por um tratamento de desintoxicação
no Centro Eulâmpio Cordeiro, no bairro
do Cordeiro.
2002
/ 14 anos
Quando
saiu do Centro Eulâmpio Cordeiro,
passou a viver nas ruas, dormindo em Peixinhos,
Olinda, onde era alimentado por uma moradora.
Foi preso quando tentava arrombar, com um
canivete, um veículo para roubar
o toca-fitas, no estacionamento do Conjunto
Residencial João Paulo II, em Cajueiro,
zona norte da capital. Com ele se encontrava
um rapaz chamado "Pirro", de maior
idade.
Novamente,
foi recapturado quando se encontrava na
garagem do Ed. Vivenda das Orquídeas,
no bairro da Torre. TJS estava agora roubando
residências e automóveis. "Parei
de escalar prédios. Roubo, agora,
apenas casas que costumo entrar à
noite, quando as pessoas dormem. Muitas
vezes entrei pelo basculante. Outras vezes
passei pela varanda. Levava as bolsas para
a sala e fugia sem ninguém me ver.
Só
fui preso dessa vez porque os seguranças
viram a gente tentando tirar o toca-fitas.
TJS contou ainda que deixou de cheirar cola
e passou a fumar maconha. Diz que mora com
o pai, mas de vez em quando vai para a rua
porque em casa "é ruim".
Para Ivan Porto, presidente da Fundac, o
problema de TJS é emocional. "Em
outras oportunidades em que ele esteve na
Fundac foi submetido a um exame psiquiátrico
e o especialista verificou graves problemas
emocionais. Ele começou a assaltar
depois que a mãe morreu e o pai alcoólatra
não estaria sabendo cuidar dele.
Enquanto o menino não tiver acompanhamento
de um especialista não irá
se recuperar".
2003
/ 15 anos
Carta
de um leitor do Diário de Pernambuco:
O menino-aranha, face às suas
proezas em escalar edifícios e praticar
roubos, já integra o folclore da
nossa cidade.[...] Esse entre e sai do DPCA
faz parte do processo de ressocialização,
ou é por conta de suas inúmeras
fugas? Por que, então, não
deixar esse garoto vinte e quatro horas
sob guarda daquele órgão,
para tentar soerguê-lo com um trabalho
mais efetivo, já que pelos seus atos,
ele demonstra ser um perigo para nossa sociedade.
(09.07.2003 - Luiz Guimarães Gomes
de Sá).
2004
/ 16 anos
(Não
encontramos nenhum registro nos jornais
locais).
2005
/ 17 anos

|
|
Imagem
2. Tiago João da Silva só
teve sua foto publicada depois do
dia 03 de dezembro de 2005 quando
completou 18 anos, quinze dias antes
de ser assassinado. (Foto: Andréa
Rego Barros / Folha de Pernambuco).
|
A
invasão de quatro apartamentos em
edifício no bairro de Boa Viagem
fez a polícia acreditar que o autor
seria o menino-aranha, já
que ele fugiu no início de maio da
Fundac que fica no bairro de Casa Amarela
e por causa de denúncias anônimas
que afirmavam ter visto o TJS no bairro
de Prazeres, Jaboatão dos Guararapes,
no grande Recife. Ressalve-se que até
esse momento a polícia nem os jornais
dispunham de foto do menino-aranha.
Contudo,
em meados de maio, ele foi encontrado embaixo
da cama do quarto de serviço abraçado
com um aparelho de DVD, do apartamento 402
de um edifício na beira-mar de Piedade.
Ele tinha escalado e invadido o prédio
por volta das 1h30 da madrugada. Preso,
foi enviado para a delegacia da GPCA e depois
encaminhado para a Fundac de onde fugiu
aproveitando uma rebelião que aconteceu
no final do mês de novembro, e foi
se esconder na casa de uma tia.
No
limiar de completar 18 anos, entre 1 e 5
de dezembro, TJS escalou mais um edifício
na zona sul do Recife. O delegado Luiz Andrey
quis provar que o roubo se deu depois do
dia 3 e sendo assim, já com 18 anos,
Tiago João da Silva, cometeu não
um ato infracional, mas um crime. O certo
é que desta vez Tiago não
foi preso.
Dias
depois, deu entrada, com duas perfurações
de bala, no Hospital da Restauração
(HR), o principal Pronto Socorro da região
metropolitana do Recife, com o nome falso
de Rafael da Silva. Tiago disse que teve
uma desavença com traficantes da
favela do Veloso, no bairro de Boa Viagem,
e na troca de tiros foi baleado na mão
direita e na barriga. Acrescentou que foi
comprar pedras de crack quando foi
baleado pelo traficante por causa de uma
rixa. No dia 9 de dezembro, Tiago foi recapturado
pela polícia no hospital e levado
para GPCA. Depois foi apresentado à
Vara da Infância e Juventude para
ser encaminhado a Fundac no Cabo de Santo
Agostinho, grande Recife.
18
de dezembro - Última fuga
Nove
dias após ser capturado, vamos encontrar
Tiago internado no setor de traumatologia
do HR, enfermeira 601, para se submeter
a uma cirurgia. A operação
precisava ser autorizada por um responsável
e a Fundac localizou o pai de Tiago. João
Antonio da Silva, o pai, foi levado ao HR
para liberar a cirurgia, mas não
pode decidir pelo filho porque chegou completamente
bêbado ao hospital. Tiago estava achando
que os médicos iam amputar a mão
dele e não queria passar pela cirurgia
da mão.
O
pai não teve condição
nenhuma de ajudar o filho.O certo é
que na noite do dia 18, um dos policiais
da vigilância faltou e o outro, durante
a madrugada, algemou Tiago na maca e foi
ao banheiro. Quando voltou o paciente não
estava mais lá. O agente deu por
falta de Tiago à 00h30 do domingo,
mas só registrou a fuga dele no plantão
da delegacia de Santo Amaro, às 10h22.
Foi a 39ª fuga de Tiago João
da Silva e também a última.
Às
3h foi visto numa gafieira. Às 4h30
o Plantão de Homicídios foi
informado que havia um corpo com 14 perfurações
de balas de pistolas calibre 380 e nove
milímetros numa praça em Boa
Viagem. Os tiros foram na cabeça,
no tórax e nas mãos. Meninos
de rua reconheceram o corpo como sendo de
Tiago. A delegada Ivonete Silva, do Núcleo
de Homicídios, contou que as características
do assassinato sinalizavam a vontade de
exterminá-lo.
"Queriam
acabar com a fama dele. Contamos seis tiros
numa mão", observou. Segundo
testemunhas, no momento do crime, Tiago
estava dormindo na praça junto com
uma mulher (namorada?). Dois homens, em
uma moto, teriam abordado-o e efetuado os
disparos. O corpo de Tiago João da
Silva foi levado às 7h para IML (Instituto
de Medicina Legal) do Recife e foi identificado
por uma assistente social da Fundac já
que nenhum parente compareceu ao IML.
20
de dezembro / Enterro solitário
Tiago
João da Silva, 18 anos, conhecido
como menino-aranha, foi enterrado,
ontem à tarde, numa cova rasa do
Cemitério de Santo Amaro, na área
central do Recife. Na morte, o mesmo abandono
que teve na vida. Não houve velório,
choro, reza e nem coroa de flores. Da
família, apenas o pai, João
Antônio da Silva, acompanhou o enterro.
No cortejo solitário, recebeu abraços
de alguns estranhos. Quando o caixão
chegou ao cemitério, por volta
das 13h, abriu o visor e fechou rapidamente
após olhar o rosto do filho. Um
pouco antes, ainda no Instituto de Medicina
Legal (IML), desabafou. "Estou aliviado.
O meu filho agora está guardado.
Antes, ele estava preso mas não
estava guardado. Estou sossegado."
(Jornal do Commercio - Caderno
Cidades, p. 03, 21.12.2005)
Um
paletó azul vestia o corpo já
sem vida de Tiago João da Silva,
18 anos. O anti-herói que escalou
como uma aranha dezenas de prédios
da Zona Sul do Recife desde a infância
morreu como muita fama, mas sem qualquer
admirador por perto. Na hora do seu enterro,
ontem, no Cemitério de Santo Amaro,
às 13h20, apenas o pai, o amolador
de tesouras João Antônio
da Silva, 62, três funcionários
da Fundac, uma amiga e quatro curiosos
que estavam no cemitério por acaso.
[...] Tiago ou "menino-aranha"
foi capa de jornal, noticiário
de televisão e muito comentado
entre as rodas da classe média
e alta, a quem tanto incomodou com suas
escaladas, mas não teve nem velório.
Mais ainda, não teve oração
para encomendar o corpo ou mesmo uma plaquinha
ou flores em cima da cova rasa, na qual
foi enterrado. (Diário de Pernambuco
- Caderno Vida Urbana, p. B10, 21.12.2005).

|
|
Imagem
3. O
pai, de chapéu, acompanha o
solitário enterro do filho.
(Foto: Miva Filho / Folha de Pernambuco).
|
De
forma bastante melancólica, Tiago
foi enterrado ontem, por volta das 13h30,
na quadra 36 do Cemitério de Santo
Amaro. Apenas o pai dele, João
Antônio da Silva, 62, três
assistentes sociais da Fundac e quatro
curiosos acompanharam o pequeno cortejo.
Quando estava perto da cova, João
Antônio abriu o caixão e
colocou um pequeno ramalhete de flores
dentro dele. Bastante emocionadas, as
assistentes sociais da Fundac acompanharam
o sepultamento de longe. (Folha de
Pernambuco, 21.12.2005).
Alguns
comentários de leitores na Folha
de Pernambuco Digital: Stock
- Esse foi tarde demais, deixaram ele viver
muito; Luiz Carlos - Graças
a Deus. Já que a polícia não
age, que assim seja o fim de todos os bandidos.
Isso
seria nossa redenção; Mauro
- Já vai tarde. A diretora da Fundac
que lamentou sua morte deveria ter levado
ele para sua casa e adotado o bichinho;
Sérgio - É uma alma
sebosa a menos... Joga o corpo dessa peste
no lixo e toca fogo; Leonardo Chopp
- Ainda bem que morreu, menos um para atormentar
a nossa vida.
O
que levaria jornais, rádios e televisões
manterem por longos 9 anos uma história
de um menino que escalava prédios
para roubar e fugia sempre quando preso?
Tentarei levantar algumas hipóteses
e pressupostos para chegar a uma compreensão
melhor do fenômeno.
1º
- Como se viu anteriormente, as instituições
existem para que o homem possa servi-las
e com isso construir sua própria
identidade que o habilita, no mundo institucional,
a coexistência com o outro. Ora, parece
ter havido, no caso em análise, um
indivíduo de nome Tiago, que recusou
os valores apresentados pela família,
principalmente depois da morte da mãe,
e não encontrou guarida em outras
instituições responsáveis
pela sua educação.
E
o final trágico dessa história
me faz supor que estamos convivendo e participando
da degeneração do tecido social
e até mesmo do apodrecimento das
instituições do Estado.
Logo, como um percurso inevitável,
Tiago foi "adotado pelas ruas",
isto é, apresenta a configuração
de um indivíduo que optou pela ruptura
adotando comportamento anti-social. Esse
seu modo de ser é explicado pr Searle
(1995:96) como um "status" que
não possui a função.
O status de menino-aranha
é puramente honorífico e carrega
uma honra negativa. Esse status negativo
da sua história pessoal, somado
a ausência ou inexistência das
instituições, realimentou
o interesse do leitor até que uma
das partes fosse eliminada.
2º
- Tiago João da Silva, ou melhor,
o menino-aranha, apareceu para a
sociedade com um modo de ser totalmente
diverso do que é esperado de uma
criança. E o que se espera de uma
criança? Merleau-Ponty, no curso
Filosofia e Linguagem que deu na
Sorbonne entre 1949-1952, (1990:97-118),
traça um quadro da criança
onde filósofos, pedagogos, historiadores
e antropólogos apresentam suas teorias.
Em resumo, é dito que a "criança
é o que acreditamos que ela seja,
o reflexo do que queremos que ela seja".
Ela
aparece como nossa propriedade, continuação
e encarregada de realizar nossas esperanças.
A criança é livre, mas não
tem o poder. A liberdade, portanto, não
tem sentido para ela, pois nenhuma autonomia
lhe é possível.
Ora,
Tiago, ao sair do ninho familiar, aparece
assumindo uma liberdade por conta de um
"poder" marginal que o afasta
de ser a esperança do adulto.
Outra
questão colocada diz respeito à
importância que tem a imagem especular
para a criança. Merleau-Ponty (1990:101)
explica o fascínio da imagem para
a criança:
"A
contemplação de sua imagem
tem para a criança algo de fascinante.
Ela experimenta o contraste entre a visão
do seu corpo tal como é visto de
fora, tal como o outro o vê, e a
imagem que ela própria tem do corpo
(o contraste entre eu como objeto e eu
como consciência vivida)".
A
recusa da socialização por
parte de Tiago é compensada pela
imagem especular de menino-aranha
que escala altos prédios sem ser
notado e que lhe traz fama e é objeto
de notícias. Mesmo sendo um menino
franzino de 1,60 m de altura, suas proezas
lhe conferem uma estatura simbólica
de herói ou anti-herói.
Na
sua imagem refletida nos jornais e televisão
ele se reconhece e sente uma correspondência
entre as mudanças observadas na sua
aparência visual e na sua auto-estima.
Em todo caso, diz Merleau-Ponty (1990:118):
"A imagem especular permite à
criança confirmar sua posição
no mundo, sua "paixão de ser
homem", "essa loucura pela qual
o homem se crê um homem"; ela
limita e suprime na criança o elemento
de superação de sua condição
humana." No entanto, na sua jornada
até a morte Tiago foi uma criança
segregada do mundo.
Os
poucos elos que o ligavam à família
e à sociedade não lhe trouxeram
apoio, apenas reafirmaram sua vida marginal.
O pai, que é um elemento dos mais
duráveis e dos mais fortes na vida
de uma criança, podia ajudá-lo
a posicionar-se no mundo, também
falhou. Sua identificação
com o pai não pode ser construída,
já que a paternidade é um
laço institucional criada pela vida
comum. E Tiago não teve essa vida
comum, nem João Antônio da
Silva, por ser alcoólatra, foi capaz
de lhe oferecer um caminho de uma realização
humana. A ressonância da história
de Tiago na emoção do leitor
é muito grande, evoca na memória
sentimentos relacionados à vida de
cada um como pai ou como filho ou ambos.
3º
-Seguindo o pensamento de Giambattista Vico
(séc. 18), expresso na obra Princípios
de (uma) ciência nova, o homem
cria as instituições e estas
retroagem sobre o homem que as criou. Por
conseguinte, só é possível
conhecer as instituições conhecendo
os homens e vice-versa. Em outros termos,
as decisões dos homens são
determinadas pelo sistema de instituições.
O caráter das instituições
do homem determina assim a sua atividade
social. Os produtos conceituais não
são resultados dos indivíduos,
mas da sociedade como um todo. Assim, um
sistema dado será fecundo não
por episódios particulares, mas pelo
conjunto dos fatos de uma determinada época
histórica com seus costumes, religiões,
mitos e fábulas.
Ora,
adotando esses princípios de Vico,
poderei dizer que a história pessoal
de Tiago, na verdade, é a história
das instituições que lhe dizem
respeito: família, escola, proteção
do Estado etc. Portanto, o leitor estaria
interessado em saber que suas instituições
fracassaram e não apresentaram sinais
de recuperação porque os homens
refletem a realidade degenerativa da sociedade
e se acobertam sob um véu retórico.
Mas,
o dia-a-dia de violência e de desrespeito
aos direitos mais elementares do homem empurra
os leitores / cidadãos a adotarem
posturas opostas de ethos como a
pura e simples eliminação
de bandidos. Esse comportamento é
alimentado de forma indireta pela imprensa,
pelo menos no caso específico da
história de Tiago, quando em nove
anos de cobertura, um mesmo texto é
veiculado com pouquíssimas variações
e nenhuma contextualização.
4º
- Minha última constatação
ou pressuposto é que a mídia
apresentou e validou abstrações
da história pessoal de Tiago, o que
significou destruir a própria realidade.
Em nenhum dos 45 textos pesquisados foi
encontrado o que Adelmo Genro (1989:191)
postula como "um equilíbrio
entre a singularidade do fato, a particularidade
que o contextualiza e, com base nessa relação,
uma certa racionalidade intrínseca
que estabelece se significado universal".
O próprio fato da criação
da perífrase menino-aranha
levou a abstração para o grau
máximo de fantasia enfraquecendo
e debilitando o raciocínio.
E
o espanto, diz Vico (§ 35) "é
filho da ignorância; e quanto maior
o efeito admirado, tanto mais, proporcionalmente,
cresce o espanto". Então, tudo
fica na esfera dos sentidos e da emoção.
Durante todos esses 9 anos, foi a história
pessoal do menino-aranha e não
de Tiago João da Silva que prendeu
a atenção dos leitores e espectadores
e ajudou a criar uma insensibilidade diante
do sofrimento humano e a sugerir soluções
fora dos limites da moral institucional.
É como bradou Sergio mais acima:
É uma alma sebosa a menos... Joga
o corpo dessa peste no lixo e toca fogo.
Notas
[1]
A história de Tiago está baseada
nas notícias publicadas nos seguintes
endereços: Jornal do Commercio:
<www.jc.com.br>.
Diário de Pernambuco: <www.dpnet.com.br>.
Folha de Pernambuco: <www.folha.pe.com.br>.
[2]
Como os jornais não noticiaram todas
as suas fugas e prisões, a soma delas
é imprecisa; o que importa aqui é
ressaltar a total falta de controle das
instituições sobre o garoto.
[3]
O DPCA mudou para GPCA, sendo G de Gerência.
Referências
bibliográficas
BERGER,
P. L. & LUCKMANN, T. A Construção
social da realidade: tratado de sociologia
do conhecimento. Petrópolis:
Vozes, 2004. 24ª ed.
GEHLER,
A. Moral e hipermoral - uma ética
pluralista. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro,
1984.
GENRO
FILHO, A. O segredo da pirâmide:
para uma teoria marxista do jornalismo.
Porto Alegre: Ortiz, 1989. 2ª ed.
MERLEAU-PONTY,
M. Merleau-Ponty na Sorbonne: resumo
de cursos: 1949-1952: Filosofia e Linguagem.
Campinas, SP: Papirus, 1990.
_________________.
L'Institution La Passivité: Notes
de cours au Collège de France (1954-1955).
Paris: Éditions Belin, 2003.
SEARLE,
J. R. The Construction of Social Reality.
New York: The Free Press edition, 1995.
SILVA,
M. O. "Mundo institucional e jornalismo".
Anais do II Encontro Nacional da SBPjor,
Salvador, 2004.
VICO,
G. Princípios de (uma) Ciência
Nova: acerca da natureza comuns das nações.
São Paulo: Abril Cultural, 1984.
3ª ed.
*Marconi
Oliveira da Silva é Mestre em Filosofia
e Doutor em Lingüística pela
Universidade Federal de Pernambuco e Professor
Adjunto do Departamento de Comunicação
Social / Jornalismo da UFPE. E-mail: filomarc@uol.com.br.
Voltar.
|