A
"loucura" nos jornais:
Um estudo da categorização
Por Letícia
Adriana Pires Teixeira e
Maria de Fátima Medina Lucena*
Resumo
O
objetivo deste estudo foi verificar
como é que a mídia impressa
cearense categoriza a loucura na década
de 90. Fizemos a categorização
da loucura sobre a teoria dos protótipos
e constatamos que a impressa utiliza
mais termos técnicos como sinônimos
do que os termos do senso comum. Os
principais vocábulos utilizados
para denominar a loucura foram: depressão,
neurose, distúrbio mental,
síndrome do pânico, ansiedade,
esquizofrenia, retardo mental, doença
mental, loucura, doença do
sistema nervoso, problema mental,
doença psicológica,
estresse, enfermidade psicológica,
psicose maníaco-depressiva,
problema psicológico, transtorno
do pânico e transtorno mental.
|

Francis
Bacon, "Auto-retrato" (1971),
Óleo sobre tela. (Reprodução). |
Palavras-chave
[Loucura
/ Mídia impressa cearense / Teoria
dos Protótipos]
Introdução
Apesar
de as pesquisas lingüísticas
cada vez mais trabalharem com temas ligados
a questões sociais e políticas,
há ainda grandes lacunas acerca da
relação da linguagem, do poder
e da discriminação em uma
sociedade.
Este
trabalho tem por objetivo analisar o discurso
jornalístico na mídia imprensa
cearense, a fim de categorizar léxicos
usados como sinônimos de loucura.
Esse seria, então, o primeiro passo
de uma caminhada para questionar como e
por que a loucura vem sendo construída
modernamente como uma doença que
não mais necessita de um isolamento
social.
Com
isso, também se abrirão os
questionamentos acerca da prática
discursiva da imprensa com o intuito de
refletir sobre o processo de discursivização
da própria instituição
jornalística.
É
bom ressaltar a esse respeito o trabalho
de Nogueira (2000), citando Mariani (1999)
que estuda o processo histórico e
jurídico da formação
do discurso jornalístico brasileiro,
enfatizando a heterogeneidade constitutiva
dos discursos institucionais. Para ela "a
compreensão do funcionamento de um
discurso institucional não permanece
restrito a uma convulsão mecânica
entre a que se diz e um lugar institucional
correspondente, nem a uma concepção
fixista da instituição, impedindo
uma leitura crítica da sua forma
de existência histórica".
Thompson
(1995) mostra-nos que o discurso da imprensa
sempre esteve ligado com o exercício
do poder político. Nesse contexto
a "comunicação é
uma forma de ação" (2002),
assim, Austin é lembrado por Thompson
quando mostra que pronunciar uma expressão
é realizar uma ação
e não apenas descrever ou narrar
um estado de coisas. Dentro do processo
comunicação e pertinente dizer
que as informações são
manipuladas a partir de ações
de outros indivíduos.
As
instituições podem ser vistas
como determinados conjuntos de regras,
recursos e relações com
certo grau de durabilidade no tempo e
alguma extensão no espaço,
e que se mantêm unidas com o propósito
de alcançar alguns objetivos globais.
As instituições definem
a configuração dos campos
de interação pré-existentes
e, ao mesmo tempo, criam novas posições
dentro deles, bem como novos conjuntos
de trajetórias de vida para os
indivíduos que os ocupam. (Thompson,
2004). [1]
O
desenvolvimento da imprensa nos séculos
XVII, XVIII e XIX foi marcado pelo controle
do estado eclesiástico ao processo
de informação e, principalmente,
ao acesso do homem comum ao conhecimento.
A história da imprensa data de 618
na China com o lançamento do pão
que divulgava as notícias da corte
e circulou por mais de mil anos. Já
na Roma Antiga nascem os graffiti
que anunciavam nos muros as vendas e locações,
a perda de objetos e os espetáculos.
A
Acta Diurna informava sobre as questões
do estado, acontecimentos do dia, guerras
e jogos. Num entanto foi durante a Idade
Média que se registra um período
de regressão no processo de informação.
Agora a comunicação passa
a ser realizada pela palavra falada. É
dessa época os rapsodos e jograis
que com suas poesias e cantigas, as gestas,
que eram a crônica popular da época.
Os livros são feitos artesanalmente,
à mão e tendo um único
exemplar.
No
século XVI surge na Itália
as fogli d'avvisi que eram publicações
noticiosas, totalmente, dedicada ao comércio
marítimo. Mas, em quase toda a Europa
já circulavam panfletos noticiosos
que eram vendidos na feira com temas os
mais variados. Gutenberg cria os tipos móveis,
feitos de metal que através de punções,
matrizes e molde caracterizam a tipografia
e revoluciona a impressão de texto.
Mas, seu invento fica refém da Igreja
que o faz copiar a bíblia. Por volta
de 1583 passa a ser impressa a primeira
folha periódica dentro nos moldes
tipográficos, a "Relatio
Histórica", com periodicidade
semanal. A partir de então a Veneza,
Alemanha e Paises Baixos lançam jornais
com periodicidade regular.
Mas
é, em meados do século XVII
e século XVIII, com advento das universidades,
agora fora do domínio da igreja,
que aparecem os primeiros jornais diários.
Na Espanha surge a gazeta oficial em 1624,
atualmente com o nome de Boletim oficial
do Estado. No ano de 1702 aparece o primeiro
jornal diário, Daily Courant,
inglês e que serviu com modelo para
outras publicações como o
francês "Le Journal de Paris"
datado de 1777, em seguida vem o inglês
The Times (1785) e o "Gazeta
de México" (1722).
É
no início do século XVIII
que começa a luta pela liberdade
de imprensa.
Marcada
pela alfabetização crescente
através da educação
pública que se torna obrigatória
ou indispensável e afetada pela idéias
da Revolução Francesa e Revolução
Industrial. Dentro da concepção
de liberdade de expressão muitas
publicações passam a aprofundar
a informação em busca da realidade.
No
Brasil é com a vinda da família
real em 1808 que tem início os primeiros
exemplares, porém, produzido pelo
jornalista Hipólito José da
Costa, em Londres onde morava refugiado
do processo da Inquisição
aberto contra ele em Portugal, e enviava
ao Brasil o Correio Brasiliense difundindo
as idéias liberais e um governo baseado
na constituição.
Século
XVIII, na Europa as idéia eram efervescente
sobre liberdade, democracia, justiça
direitos igualitários. Vivia-se o
resultado do pensamento iluminista período
em que foi considerado o "século
das luzes". Iluminado pela razão
a humanidade saia do obscurantismo e entrava
para o conhecimento maior da ciência
e ao respeito à humanidade. Naquela
época os jornais já denunciavam
os maus tratamentos aos loucos. Segundo
Foucault, apesar de se falar tanto em liberdade
os "insensatos" são esquecidos
presos com criminosos como é o caso
no Hospital de Bicêtre.
Cita
Foucault (História da Loucura, 1999)
tendo como fonte de informação
a Gazette Nationale de 12.12.1789.
Bicêtre
seguramente tem criminosos, salteadores,
homens ferozes... mas também, deve-se
convir, uma multidão de vítimas
do poder arbitrário, da tirania
das famílias, do despotismo paterno...
As celas ocultam homens, nossos irmãos
e nossos semelhantes, aos quais se recusa
o ar e que só vêem a luz
através de estreitas frestas.
Com
todo esse discurso sobre a imprensa, verificamos
que há sempre uma rede de poder nas
relações sociais e midiáticas.
Pesquisar sobre a categorização
da loucura na mídia imprensa cearense
é entrar em um mundo bastante complexo,
principalmente quando conhecemos a influência
dos valores sócio-culturais que estigmatizam
qualquer atitude relativa aos portadores
de transtornos mentais a ponto de retirá-los
até do convívio familiar e
de sua comunidade.
Há
um abandono, e conseqüentemente, o
banimento e uma prática excludente,
pois o contexto sócio-econômico
não perdoa os "loucos"
e os tem como uma ameaça à
sociedade. Sociedade essa que, desde sempre,
tem utilizado punições para
quem apresenta comportamentos inadaptáveis
aos limites da liberdade burguesa, eximindo-se,
inclusive, de qualquer culpa sobre os problemas
de saúde mental e colocando somente
ao indivíduo as razões de
seu desajuste.
A
reclusão de pessoas com transtornos
mentais em asilos, hospícios e posteriormente
em manicômios representa a situação
ideal que a sociedade burguesa estabeleceu
para os indivíduos classificados
como loucos. Esse tipo de tratamento impõe
aos inclusos uma ruptura com a sua história
de vida, bem como atua na negação
da cidadania.
É
necessário até lembrar que
os loucos foram os ícones da campanha
publicitária de Hitler para persuadir
os alemães a verem os doentes mentais
como mal social.
Hoje
já existe, porém uma mudança
de postura na compreensão da loucura
que contesta o isolamento do doente mental.
Todavia a exclusão desse doente dos
direitos à cidadania ainda situa-se
na sociedade que institui a razão
como conceito fundamental para o homem.
Como isso, até mesmo no léxico
o louco é estigmatizado. Termos como
"desmiolado", "desmemoriado",
"irracional", "descontrolado
emocional", "desequilibrado",
"insano", "alienado",
"doido", "demente",
"insensato", "inconveniente";
"esquisito", "excêntrico",
são vocábulos usados para
denominá-los e rotulá-los
como "pessoas sem razão".
Portanto, o léxico usado para denominar
a loucura é formado de morfemas de
negação: "des",
"sem", "i", "e"
e tantos outros.
Diante
disso, aumentou a vontade de realizar uma
pesquisa que verificasse a categorização
da doença e a relação
de poder da imprensa. Partimos, então,
dos seguintes questionamentos: será
que a imprensa cearense considera os loucos
como "irracionais" e "incapazes"
de manterem um convívio social? Que
léxicos utiliza para categorizá-los
como loucos? Qual a relação
desses léxicos com a exclusão
social?
Existem
diferenças significativas entre as
escalas de prototipicidade propostas pela
imprensa cearense para categorização
da doença mental? Existindo, quais
são elas? Esses questionamentos nos
conduziram a formulação da
hipótese: Há diferenças
significativas entre as escalas de prototipicidade
propostas pela imprensa cearense para a
categorização da doença
mental no início da década
de 90 e no final.
Considerações
teóricas
Como
a medicina orgânica. A medicina
mental tentou, inicialmente, decifrar
a essência da doença no agrupamento
coerente dos sinais que a indicam. Constituiu
uma sistematologia na qual são
realçadas as correlações
constantes, ou somente freqüentes,
entre tal tipo de doença e tal
manifestação mórbida:
a alucinação auditiva, sintoma
de uma estrutura delirante; a confusão
mental, sinal de tal forma demente. Constituiu,
analisadas as próprias formas da
doença, descritas as fases de sua
evolução, e restituídas
as variantes que ela pode apresentar:
haverá as doenças agudas
e as crônicas, as alternâncias
de sintomas, e sua evolução
no decorrer da doença. Foucault
(1994:09)
Toda
história da categorização
da loucura tem de ser pensada como uma série
de substituições de nomenclatura
para nomenclatura, de forma para forma como
reflexo, talvez, das relações
sócio-culturais e históricas
de um povo. Conforme a época, conforme
os grupos sociais ou contexto, vê-se
surgir ora uma forma ora outra para denominá-la.
A
verdade é que até hoje, apesar
das tentativas, não há uma
uniformização dessa categorização
nem unanimidade no uso de termos sinônimos.
Isso talvez porque o termo loucura seja
amplamente difundido como um sinônimo
quase perfeito para doença mental.
E isso acontece, apesar de especialistas
e não-especialistas saberem que esses
termos nem sempre representam um desequilíbrio
psico-orgânico, podendo inclusive
ser um estado que qualquer ser humano dito
normal poderá se encontrar. Em outras
palavras, qual pessoa pode ser chamada de
"louca", mas nem todos podem ser
considerados "doentes mentais".
A
dificuldade maior em estabelecer uma terminologia
universal consiste certamente em verificar
quais os traços característicos
mais salientes em uma pessoa com desequilíbrio
psico-orgânico que não sejam
salientes ou que não apareçam
em uma pessoa "normal". Esse padrão
de normalidade é um tanto complexo
e difícil de ser delimitado, uma
vez que o limite entre a sanidade e a doença
mental, algumas vezes, se nos apresenta
bastante tênue. O que seria um homem
"normal"?
Não
se pode negar que outras doenças,
como por exemplo, câncer, tuberculose,
lepra, AIDS, têm diagnósticos
mais precisos e fáceis de serem mostrados
através de uma prova material, como
por exemplo, exames laboratoriais. No caso
da doença mental, não tem
sido fácil estabelecer as tão
"solicitadas provas concretas, materiais",
que mostrem a divisão entre pessoas
com transtorno mentais e pessoas normais.
Não
existem provas laboratoriais. Isso é
um fato, pois a única forma de diferenciar
a sanidade da loucura é através
da fala, da conversação, do
discurso do paciente e do discurso de seus
familiares. Assim, não se pode negar
que a doença mental, para uma pessoa
especialista nessa área, é
diagnosticas muito subjetivamente e de forma
bastante diferente das outras doenças
que têm como critério de classificação
a causa da patologia.
Na
psiquiatria e na psicologia, as causas das
doenças mentais nem sempre são
conhecidas, apesar de existirem várias
hipóteses sobre essas causas e sobre
a etiologia das doenças mentais.
Desse modo, alguns critérios têm
sido utilizados para determinar os distúrbios
mentais que passam, então, a ser
diferenciados pela manifestação
maior de determinados sintomas padronizados
pela medicina ao longo dos anos.
Novaes
(1996:25) mostra-nos que ao tomar para si
os procedimentos da Psicologia, a Psiquiatria
coloca um indivíduo-padrão,
uma espécie de protótipo,
na posição de parâmetro
definidor da doença:
Um
indivíduo de fabricação
imaginada na Psicologia e a serviço
de um discurso que interessa à
Psiquiatria. Dessa forma, institui-se
uma relação entre indivíduos-padrão
normais e indivíduos-padrão
loucos, a qual se constitui, por sua vez,
pela relação de fala e escuta
entre médico e paciente. Uma relação
de fala e escuta que se caracteriza pela
aplicação ou não
de certos procedimentos que definam a
diferença. O procedimento principal
recai na aplicação do rótulo
distúrbio mental ou desarranjo
do pensamento e/ou da cognição.
Esse
rótulo-chave "distúrbio-mental"
tem várias maneiras de ser descrito
na literatura. Para uns é a "desordem
do pensamento e do processo cognitivo";
como por exemplo, a não fluência
das idéias manifestadas na perseverança
das palavras e no bloqueio das sentenças,
que caracterizam muito bem um doente mental.
Mas
o que é então essa loucura?
É uma doença única
ou um conjunto de doenças ou não
é uma doença? Essas questões
são abordadas pela própria
psiquiatria que prefere adotar os termos
distúrbios mentais ou doença
mental por achar que loucura é um
termo muito abrangente, complexo e pouco
técnico; um termo que não
garante certo estatuto de cientificidade
ao reconhecimento dos sintomas das doenças
mentais.
Há,
na realidade, uma tendência contemporânea
de universalizar os conhecimentos em todas
as áreas da medicina, buscando-se,
assim, esclarecer conceitos, terapias e
curas de doenças. Isso acontece,
fundamentalmente, para facilitar a troca
de experiências e informações,
a fim de se encontrar uma melhor Classificação
Internacional de Doenças (CID).
As
doenças mentais, desde o século
passado, vêm sendo catalogadas em
grandes grupos que atualmente ainda são
aceitos num esquema bem tradicional e são
distribuídos em cinco grupos: neuroses,
psicoses, psicopatias, retardo mental e
demências. Contudo, na tentativa de
uma melhor sistematização
e de uma melhor comunicação
em comunidades diferentes a CID-10 substituiu
a CID-9 após uma reunião de
psiquiatras representantes de quase todos
os países do mundo, ficando assim
distribuídos os transtornos mentais
em:
-
Transtornos mentais orgânicos, incluindo
os sintomáticos;
- Transtornos
mentais e de comportamento decorrentes
do uso de substâncias psicoativas;
- Esquizofrenia,
transtorno esquizofrênico e delirantes
transtornos do humor (afetivos);
- Transtornos
neuróticos, relacionados ao estresse
e sematoformes;
- Síndromes
comportamentais associados a perturbações
fisiológicas e fatores físicos;
- Transtornos
de personalidade e de comportamento em
adultos;
- Transtornos
do desenvolvimento psicológico;
- Transtornos
emocionais e de comportamento com início
usualmente ocorrendo na infância
e adolescência;
- Transtorno
mental não especificado.
Diante
dessas colocações, resolvemos
trabalhar com as teorias dos conceitos que
surgiram da necessidade de hipotetizar como
se dá a organização
simples do conhecimento. E, ao fazermos
isso, entramos em questões também
complexas: a diversidade, a gama e a individualidade
do conhecimento humano. E o que seria, pois,
esse conhecimento? Essa também não
é uma questão fácil
de responder.
O
conhecimento está definido como produto
da aprendizagem humana que se organiza/estrutura
numa memória duradoura e dinâmica
em que são percebidos os objetos
através da generalização
de propriedades similares e da abstração
de propriedades comuns a vários objetos
para a formação de classe
ou categoria. Dessa maneira, o conhecimento
pode ser considerado em termos de seu formato
de representação - análogo
ou proporcional - ou sobre a forma em que
ele está organizado. Parece, então,
claro que as teorias dos conceitos surgiram
a partir da necessidade de hipotetizar como
se organiza o conhecimento e como se agrupam
conceitos como instâncias ou membros
de uma classe.
Para
que os objetos sejam agrupados juntos conceitualmente
é preciso verificar formas diferenciadas
de percebê-los. Pontos de vistas que
avaliam de formas diferentes a inclusão
de um determinado objeto em uma classe ou
em outra.
Um
das teorias que busca estudar essas questões
é a tradicional de conceitos que
vê os conceitos como sendo definíveis
em termos de atributos que são imprescindíveis
individualmente e suficientes em conjunto.
Nessa
teoria, um conceito poderá ser caracterizado
por um conjunto de atributos intencionais
que definem o que é preciso para
ser um membro do conceito. Esses atributos
são necessários em conjunto
e individualmente, limitando, portanto,
com clareza, a separação e
os membros e os não-membros de uma
categoria. Outro aspecto relevante nessa
teoria é que um conceito subordinado
deve conter todos os atributos de seu concito
supra-ordenado. Esse conceito subordinado
terá mais atributos em comum com
seu supra-ordenado imediato do que com seu
supra-ordenado mais distante.
A
teoria de atributos foi colocada em questão
quando os conceitos estudados passaram a
se relacionar às categorias mais
naturais que envolviam elementos do cotidiano.
Dessa forma, houve um aperfeiçoamento
da teoria do atributo de definição,
realçando a noção de
rede hierárquica e acrescentando
a consideração de que alguns
conceitos ficam isentos de carregarem os
atributos de seus supra-ordenados.
Com
as limitações da teoria de
atributos e com a idéia falha de
que todos os atributos seriam igualmente
relevantes para o conceito, surgiram outras
versões que passaram a considerar
os conceitos em duas fases de análise:
uma fase que confronta todos os atributos
(de definição e características)
dos conceitos comparados e outros apenas
os atributos de definição.
Mesmo
assim, criticas continuaram sendo lançadas
a essa nova abordagem. Wittgenstein fala-nos
que é defensor de que alguns conceitos
simplesmente parecem não ter nenhum
atributo que os definam. Para Wittgenstein,
alguns membros de uma categoria carregam
entre si "semelhanças da família"
e não um conjunto de atributos essenciais
e auto-suficientes que os entrelaçam.
O que conduz à conclusão de
que, entre os membros mais típicos
e os menos típicos de uma categoria,
há conceitos que não são
nitidamente delineados como pertencentes
a tal categoria.
Representando,
então, essa abordagem crítica,
temos a teoria dos protótipos ou
de atributos característicos em que
as categorias são organizadas em
torno de protótipos centrais.
Na
teoria dos protótipos, existem quatro
hipóteses que têm sido propostas
para explicar o fenômeno da prototipicidade
como resultado da estrutura fisiológica
do aparato perceptual e tem como base experimental
as pesquisas realizadas a partir da categorização
de cores; a hipótese referencial
que estabelece a prototipicidade como sendo
resultado do fato que algumas instâncias
de uma categoria partilham mais atributos
de que outras instâncias possuidoras
dos membros periféricos que partilham
em número reduzido de atributos como
os membros centrais; para a hipótese
estatística, o membro mais experienciado
de uma categoria é o protótipo;
já a riqueza conceptual de cada categoria
através da incorporação
de "nuances" relacionadas em um
conceito singular.
É
válido salientar que os modelos de
categorização podem ter abordagens
sobre protótipos ou sobre exemplares.
A primeira abordagem, como podemos verificar
nas linhas anteriores, é de natureza
probabilística em que a representação
de um conceito refletirá a tendência
central dos atributos mais representativos,
melhores exemplares, compartilhados pelos
membros de uma categoria. Os itens a serem
categorizados serão incluídos
ou excluídos da categoria ou com
base na similaridade ou com base na ausência
de similaridade.
Parece,
portanto, claro que o sistema de categorização
humano inclui não apenas relações
hierárquicas de natureza estritamente
taxionômica, mas também agrupamentos
de itens que se congrega por outras relações
que não somente as que se baseiam
em critérios científicos,
por co-ocorrência de atributos ou
funções. Os comportamentos
de categorização parecem ser
motivados por duas principais abordagens:
uma prototípica e uma abordagem esquemática.
A
primeira baseia-se na co-ocorrência
de atributos entre o item a ser categorizado
e o(s) membro(s) mais representativo(s)
da categoria enquanto que a segunda, em
instanciações que não
possuem, necessariamente, características
comuns aos protótipos da categoria,
mas que são motivados pelo conhecimento
de mundo do indivíduo e pelo seu
contexto de vida.
Por
fim, a fonte originária dos protótipos
não parte de uma única hipótese,
mas emerge da profusão dos vários
caminhos percorridos na tentativa de elucidar
a questão da prototipicidade.
Metodologia
A
pesquisa está sendo desenvolvida
em três momentos interligados: no
primeiro, fizemos o levantamento e a seleção
teórica sobre a loucura e sobre a
categorização. Para se saber
que sinônimos desse vocábulo
são técnicos e quais são
de uso do senso comum. Foi importante também
descrever o que determina a Classificação
Internacional de Doenças (CID).
No
terceiro momento, foram realizadas consultas
nos arquivos dos Jornais "Diário
do Nordeste" e "O Povo
" da década de 90. Levando
em consideração as publicações
referentes à Loucura, Doença
Mental e Reforma Psiquiátrica, fizemos
a análise das matérias impressas
que tivessem referências sobre esse
termo. Dessa forma, em um terceiro momento,
analisamos as matérias jornalísticas
que abordam a "loucura", seguindo
as etapas:
- Verificação
da conceituação de loucura;
- Categorização
dos nomes que melhor representam à
loucura e/ ou os doentes mentais nesses
jornais;
- Organização
de uma lista de dez exemplares utilizados
como sinônimos de loucura;
- Após
essa organização, selecionamos
os sinônimos recorrentes na década
de 90 nesses dois jornais.
Análise
e discussão dos dados
Ao
analisar os Jornais "O Povo"
e o "Diário do Nordeste",
constatamos que os termos mais usados foram
os técnicos, isso talvez, deve-se
ao fato de eles terem sido mencionados pelos
movimentos em prol da Reforma Psiquiátrica,
na década de 90. Essa reforma foi
divulgada na mídia Impressa Cearense,
e em suas matérias havia uma maior
participação de especialistas.
Inferimos que eles devem ter influenciado
o discurso da imprensa local.
De
acordo com nossa Pesquisa e também
levando em consideração a
Classificação Internacional
de Doenças (CID) foram encontrados
os termos relacionados à Loucura:
transtornos mentais orgânicos, incluindo
os sintomáticos; transtornos mentais,
e de comportamento decorrentes do uso de
substâncias psicoativas; esquizofrenia;
transtornos esquizofrênicos e delirantes;
transtornos do humor (afetivos); transtornos
neuróticos, relacionados ao estresse
e sematoformes; Síndromes comportamentais
associados a perturbações
fisiológicas e fatores físicos;
transtornos de personalidade e de comportamento
em adultos; Retardo mental; Transtornos
do Desenvolvimento psicológico; Transtornos
emocionais e de comportamento com início
usualmente ocorrendo na infância e
adolescência; Transtorno mental não
especificado.
A
dificuldade maior em estabelecer uma terminologia
universal consiste certamente em verificar
quais os traços característicos
mais salientes em uma pessoa com desequilíbrio
psíquico orgânico. Esse padrão
de normalidade é um tanto complexo
e difícil de ser delimitado, uma
vez que o limite entre a sanidade e a doença
mental nos apresenta bastante tênue.
Vejamos,
pois, o quadro comparativo de vocábulos
usados como sinônimos de loucura nos
jornais pesquisados ou como sinônimos
de pessoas loucas. Resolvemos ampliar a
pesquisa para os léxicos do campo
semântico de loucura, por acharmos
que assim teríamos uma abordagem
mais representativa dessa temática:
Quadro
I - Expressões mais usadas na década
de 90.
ANO
|
DIÁRIO
DO NORDESTE |
O
POVO |
1990
|
Pessoas
com transtornos mentais orgânicos,
indivíduo com distúrbios
comportamentais, portador de insuficiência
mental. |
Transtornados,
doentes mentais, esquizofrênicos,
neuróticos.
|
1991
|
Pessoas
com crise de saúde mental, indivíduos
com distúrbios psíquicos. |
Demente,
portador de doença mental, doidos
e loucos. |
1992
|
Portadores
de doenças mentais, doentes mentais,
doidos e esquizofrênicos. |
Demente,
paciente, indivíduo com retardo
mental, doente mental. |
1993
|
Doentes
mentais, doente psíquico, fraco
da saúde mental. |
Doentes
mentais, pessoas com distúrbios
mentais, neuróticos. |
1994
|
Doentes
mentais, esquizofrênicos, loucos |
Doentes,
loucos, doidos, esquizofrênicos. |
1995
|
Indivíduo
com distúrbios mentais e comportamentais,
psicótico, louco, anormal. |
Enfermo,
deficiente mental, indivíduo
com retardo mental, esquizofrênico. |
1996
|
Doidos,
indivíduo com problemas mentais,
psicótico, esquizofrênicos. |
Louco,
anormal, doente mental, doido, esquizofrênico. |
1997
|
Doidos,
abilolados, fracos do juízo,
demente, tipo curioso, detento, anormal,
indivíduo com problemas mentais,
psicótico, paciente, doente mental,
deficiência mental.
|
Transtorno
mental, psicótico, esquizofrênico,
demente, louco, doente mental,
sujeito com problemas mentais, psicótico,
paciente, doente mental, deficiente
mental.
|
1999
|
Pacientes
mentais, doentes mentais, pessoas com
problemas psíquicos, transtorno
mental, esquizofrenia, problemas mentais,
doença mental, psicóticos,
portadores de deficiência mental. |
Esquizofrênicos,
doentes mentais, doença mental,
deficiência mental, problemas
de saúde mental.
|
Os
termos que caracterizaram a Loucura, nesses
anos, nos jornais pesquisados, foram: depressão,
neurose, distúrbio mental, síndrome
do pânico, ansiedade, esquizofrenia,
transtornos do desenvolvimento, retardo
mental, transtorno mental, doença
do sistema nervoso, problema mental, doença
psicológica, estresse, enfermidade
psicológica, psicose maníaco
depressiva, pânico, transtorno do
pânico, patologia social, fobia social
e expressão violenta do comportamento.
Conclusões
Os
conceitos e denominações originam-se
dos discursos, os quais mudam de acordo
com o processo histórico e social,
condicionados à Ideologia dominante.
Com o termo "loucura", podemos
perceber o curso histórico de transformações
em torno do conceito e da adequação
das práticas sociais às alterações
de seus significados. Dependendo do contexto
a Loucura está sendo tratada sob
diversos sinônimos, dentre eles os
mais usados, nos dois jornais pesquisados,
foram: esquizofrenia, doidos, psicóticos
e portadores de deficiência mental.
É válido acrescentarmos que
não houve uso dos termos mais modernos
da área médica: transtornos
mentais.
A
pesquisa constatou que há um predomínio
de termos técnicos que revelam a
relação entre a Linguagem
Jornalística, o poder e a ideologia
passados através de conhecimentos
científicos.
Nota
[1]
THOMPSON, J. B. A mídia e a modernidade:
uma teoria social da mídia. Petrópolis:
Vozes, 2004. 6ª ed., p. 21.
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uma teoria social da mídia. Petrópolis:
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L. Investigações filosóficas.
Petrópolis: Vozes, 1996.
*Letícia
Adriana Pires Teixeira é graduada
em Letras pela Universidade Federal do Ceará
(1987), especialista em Língua Portuguesa
pela Universidade Estadual do Ceará,
mestre em Lingüística pela Universidade
Federal do Ceará e professora assistente
da Universidade Estadual do Ceará
e da Faculdade Integrada do Ceará.
Maria de Fátima Medina Lucena é
graduada em Comunicação Social
pelo Universidade Estadual da Paraíba
(UEPb) (1980), mestre em Filosofia pela
Universidade Estadual do Ceará (2002),
jornalista e professora das Faculdades Integrada
do Ceará (FIC), Integrada da Grande
Fortaleza (FGF) e 7 de Setembro (FA7).
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