Linguagem,
identidade e ideologia:
A "velhice" no discurso
jornalístico
Por Claudiana
Nogueira de Alencar*
Introdução
O mundo moderno está enfrentando
o constante desafio do aumento expressivo
da população mundial
de idade avançada. Várias
pesquisas constatam uma aceleração
do envelhecimento populacional e estimativas
da Organização Mundial
de Saúde (OMS) prenunciam que
no ano 2050 os idosos serão
um quarto da população.
|

"Study of an old man in profile"
(1630),
Rembrandt van Rijn,
Statens Museum for Kunst
|
Esse aumento acentuado no número de
idosos tem gerado um grande interesse por
parte da sociedade, dos poderes públicos
e também da academia, pela necessidade
de se buscarem as causas determinantes das
atuais condições de saúde
e de vida dos idosos e de se conhecerem as
múltiplas facetas que envolvem o processo
de envelhecimento. Temas como velho, velhice
e envelhecimento, anteriormente vistos com
desdém, passam a se fazer presentes
em numerosas matérias jornalísticas
através de discursos que apresentam
uma atitude prática e ideológica
da mídia com relação
à velhice.
Diante
desse quadro, este trabalho pretende investigar
a operacionalização (legitimação,
dissimulação, naturalização
etc.) de ideologias no discurso jornalístico
sobre a velhice, a partir da utilização
de um programa de estudos lingüísticos
críticos, cuja ênfase está
na inter-relação entre linguagem,
poder e ideologia. A abordagem a que me
refiro e que utilizarei como arcabouço
teórico-metodológico deste
trabalho é a chamada Critical
Language Study - CLS, elaborada por
Norman Fairclough, da Universidade de Lancaster.
Percebendo
a imprensa como uma instituição
social (Cf. Mariani, 1999) decidi estudar
o discurso do jornal a Folha de S.Paulo,
que considerado como instituição,
será visto como ocupando uma posição
social, portanto, anunciando e reproduzindo
sentidos deste lugar. O discurso jornalístico
sobre a velhice será considerado,
pois, como uma prática discursiva
daquele jornal, constituindo-se em uma prática
social.
Meu
intuito foi indagar quais são os
sentidos da velhice e do envelhecimento
construídos no discurso jornalístico
e, como esses sentidos vêm sendo sedimentados
historicamente, na apresentação
da velhice como um problema social.
Discurso:
constituindo identificações
e relações sociais
Na
introdução de sua obra Discourse
and Social Change (1992), Fairclough
afirma utilizar em seu programa de estudos,
métodos de análise da linguagem
desenvolvidos na Lingüística
e em outros estudos da linguagem, do social
e do político, para atingir ao que
ele se propõe: o desenvolvimento
de uma adequada teoria social da linguagem.
Para esse intento, faz-se necessário
entender o conceito de discurso nessa abordagem
crítica. O termo, por ser largamente
usado por vários teóricos
e em várias disciplinas, pode provocar
contradições em tais definições
formuladas.
Em
Lingüística, encontra-se a definição
de discurso como amostra extensa do diálogo
falado, em contraste com o texto escrito.
No entanto, tal definição
vem sendo ampliada, comumente, para referir-se
a "discurso" como amostragem externa
da linguagem escrita ou falada. Nesse sentido
'discurso' preserva a ênfase nos caracteres
formais da linguagem, alargando-se para
uma compreensão mais interativa da
linguagem, em que é levado em conta
o processo de produção e interpretação
da fala e da escrita, bem como o contexto
situacional de uso lingüístico.
O texto seria, então, o produto desse
processo. Outra concepção
de discurso é a que considera os
diferentes tipos de linguagem usados em
diferentes situações sociais,
como por exemplo, o discurso jornalístico
que é o nosso caso em estudo.
Fairclough
combina a noção de discurso
nesse sentido de texto-interação
de orientação lingüística
com a concepção de discurso
num sentido mais teórico-social presente
no trabalho de Michel Foucault - A Arqueologia
do Saber (1997) que estrutura áreas
de conhecimento e prática social
- e no trabalho de John B. Thompson (1990)
_ cuja ênfase está nos particulares
caminhos de uso da linguagem e outras formas
simbólicas. Discurso, portanto, não
apenas reflete ou representa as relações
e as entidades sociais, ele constrói
e constitui tais entidades e relações,
constituindo assim, os sujeitos sociais
(Cf. Fairclough, 1992).
A
análise crítica do discurso
de Fairclough apresenta-se, pois, num modelo
tridimensional. Ele diz: "um evento
discursivo é visto como sendo simultaneamente
um pedaço de texto, uma instância
de prática discursiva e uma instância
de prática social" (Cf. Fairclough,
1992:04).
Aqui,
devemos distinguir três aspectos da
construção de efeitos do discurso.
Em primeiro lugar que o discurso contribui
para constituir as "identidades sociais"
e os sujeitos - tidos como uma posição,
um efeito do discurso. Em segundo lugar,
as relações sociais são
construídas no e pelo
discurso. E terceiro, que o discurso contribui
para a construção de sistemas
de conhecimentos e crenças. A esse
respeito, vejamos as manchetes:
Um
mundo mais grisalho
Proporção
de idosos vai superar a de jovens no mundo
em 2050. (Folha de S.Paulo; 20/09/1999:
caderno especial: 3).
Último
asilo
Os
internos desses abrigos, particulares ou
filantrópicos passam o tempo de forma
superficial (Folha de S.Paulo; 20/09/1999:
caderno especial: 12).
Aqui,
percebe-se que o discurso da imprensa vem
reproduzir sentidos para a velhice, considerando-a
como uma categoria antropológica,
ao supor o envelhecimento físico
ou a idade legal com uma delimitação
de grupos sociais estabelecida em posição-sujeito
para uma população de mais
idade que passa a ser designada socialmente
como velhos - que ao mesmo tempo em que
é considerada por mecanismos de classificação
(idade cronológica, condições
físicas e mentais) e separação,
também passa a ser negada a partir
do fato de que é tomado como objeto
de atenção por parte de profissionais
como demógrafos, gerontólogos,
psicólogos, enfim os "experts".
A
utilização da expressão
proporção de idosos
(texto 1) e da nominalização
os internos nos permite questionar
que critérios se usa para classificar
e separar seres humanos; afinal de contas,
os internos quem são?
As
relações sociais serão
estabelecidas na base do discurso dos que
têm competência para falar do
velho - que assume a posição
de pacientes, vítimas sociais. A
partir dos recortes das categorias de idade,
que aqui naturalizam a ideologia de que
a velhice é algo biológico
e universal, o termo "grisalho"
(texto 1) indica a associação
direta da velhice com o aspecto físico
biológico, apresentando aspectos
relativamente culturais como universais,
característicos da natureza humana.
Em
"um mundo mais grisalho" - a metonímia
dá uma pista para identificar uma
das proposições implícitas
(Cf. Fairclough, 1985) no discurso da Folha
de S.Paulo sobre a velhice: "a
velhice é uma categoria natural".
A esse respeito, a antropóloga Guita
Grin Debert diz que:
"cada
cultura tende a elaborar grades de idades
específicas. A pesquisa antropológica
demonstra, assim, que a idade não
é um dado da natureza, não
é um princípio naturalmente
constitutivo de grupos sociais, nem um
fator explicativo dos comportamentos humanos.
Essa demonstração exige
um rompimento com os pressupostos da psicologia
do desenvolvimento que concebe o curso
da vida como uma seqüência
unilinear de etapas evolutivas em que
cada etapa, apesar das particularidades
sociais e culturais, seriam estágios
pelos quais todos os indivíduos
passam e, portanto, teriam um caráter
universal" (Debert, 1998:09).
Uma
outra proposição implícita
que analiso numa perspectiva crítica
é a que apresenta a velhice como
um problema social, a partir da apresentação
de dados alarmantes do crescimento da população
de mais idade. O terceiro aspecto referente
aos efeitos de sentido que apontam para
a construção de um sistema
de conhecimentos e crenças, faz com
que compreendamos que a constituição
da velhice como um problema social se dá
através da linguagem, por meio de
discursos dominantes que conquistam a atenção
pública, tornando visível
uma situação particular para
legitimá-lo, no esforço de
promovê-lo e inseri-lo nos campos
das preocupações da atualidade.
Perceber
tais construções discursivas
como formas de pressão e expressão
que ocultam "o jogo de redefinição
dos poderes ligados a grupos sociais em
diferentes momentos dos ciclos da vida"
(Cf. Debert, 1998:11), mostram a necessidade
de considerar o discurso jornalístico
sobre a velhice como uma prática
discursiva.
A
prática discursiva é constitutiva
dos aspectos arbitrários e criativos,
na medida em que contribuem para a reprodução
da sociedade e para a transformação
social (Cf. Fairclough, 1992). Por isso
é importante que a relação
entre discurso e estrutura social seja dialética,
levando em conta as determinações
sociais do discurso e a construção
do social no discurso.
A
perspectiva dialética, de acordo
com Fairclough, diferentemente da concepção
de prática discursiva em termos de
um modelo mecanicista que vê o evento
discursivo como uma mera instância
das estruturas discursivas, vê a prática
e o evento discursivo como contraditórios
e conflitantes.
A
prática jornalística como
pratica discursiva
No
início deste trabalho, já
me referi ao discurso do jornal A Folha
de S.Paulo como um discurso institucional.
Esta seção abrirá a
discussão acerca da prática
discursiva da imprensa com o intuito de,
na medida em que se propõe uma análise
do discurso jornalístico, refletir
sobre o processo de discursivização
da própria instituição
jornalística.
Vale
ressaltar a esse respeito, o trabalho de
Bethania Mariani (1999) que estuda o processo
histórico e jurídico da formação
do discurso jornalístico brasileiro
chamando a atenção para a
heterogeneidade constitutiva dos discursos
institucionais. Segundo ela "a compreensão
do funcionamento de um discurso institucional
não permanece restrita a uma correlação
mecânica entre o que se diz e um lugar
institucional correspondente, nem a uma
concepção fixista da instituição,
impedindo uma leitura crítica da
sua forma de existência histórica"
(Cf. Mariani, 1999:49).
Nesta
perspectiva, um discurso institucional passa
a existir a partir da historicidade que
o constitui e essa historicidade pode ser
vista como resultante de processos discursivos
que legitimaram e deram sentido às
instituições. Ou melhor, "o
que chamamos de instituições
é fruto de longos processos históricos
durante os quais ocorre a sedimentação
de determinados sentidos concomitantemente
à legitimação de práticas
ou condutas sociais. São práticas
discursivas que se legitimaram e institucionalizaram
ao mesmo tempo em que organizaram direções
de sentidos e formas de agir no todo social"
(Cf. Mariani, 1999:51).
No
que diz respeito ao processo histórico
de formação da imprensa, Thompson
vem mostrar que o desenvolvimento inicial
da imprensa e das publicações
sempre esteve interligado com o exercício
do poder político. As autoridades
responsáveis pelos aparatos administrativos
dos Estados-nações emergentes
restringiam ou suprimiam a publicação
de material supostamente herético
ou perigoso.
A
censura, que já funcionava na Idade
Média como atividade irregular dos
copistas, passa a ser regulamentada com
o advento da imprensa tornando-se sistemática
e secular (Cf. Thompson, 1995). Assim, o
desenvolvimento da imprensa nos séculos
XVII, XVIII e XIX foi marcado pelo controle
por parte das autoridades do Estado assumido
através da censura aberta, do estabelecimento
de impostos e subsídios vários.
Nesse contexto, surge a luta pela liberdade
de imprensa, juntamente com o nascer do
pensamento democrático liberal, que
se proponha a combater o poder repressivo
do Estado.
Inúmeros
pensadores liberais como John Stuart Mill
vão defender uma imprensa livre e
independente. A esse respeito relata Thompson
(1995: 324):
"Embora
os pontos de vista dos liberais ingleses
diferissem sob vários aspectos,
eles, geralmente, estavam concordes na
visão de que uma imprensa livre
e independente era uma salvaguarda vital
contra o uso despótico do poder
do estado. Uma imprensa livre e independente
desempenharia o papel de um vigilante
crítico: não apenas articularia
uma diversidade de opiniões e,
com isto, enriqueceria a espera do conhecimento
e do debate, mais também exporia
e criticaria as atividades aqueles que
governa e os princípios nos quais
baseiam sua decisões".
Foi
a partir dessa luta que no curso dos séculos
XVIII e XIX, foi incorporado nas constituições
de muitos países o princípio
da expressão livre dos pensamentos
e opiniões. Desse modo, a imprensa
enquanto instituição será
constituída das leis que instituem
sua liberdade, mas que funcionam como controle
regulador da própria liberdade que
defende. O discurso jornalístico
vai funcionar a partir dessas sanções
e, portanto como mantenedor das "relações
sociais jurídico-políticas"
através das circulações
de determinadas informações.
É
desse modo que o discurso jornalístico
produz em sua prática discursiva
a ilusão da neutralidade e da verdade
na idéia de que o jornal é
imparcial, pois nele "os fatos falam
por si" (Cf. Mariani, 1999). No entanto,
não apenas a historicidade que silenciada
emerge para desmistificar a objetividade
do discurso jornalístico ameaça
o sonho da imparcialidade na prática
discursiva da imprensa.
Também
se pode perceber que o aumento desenfreado
das indústrias da mídia transformou-as
no século XX "em organizações
econômicas de grande escala, dirigidas
para a produção e difusão
da circulação em massa de
bens simbólicos, e foram, cada vez
mais, integrando-se em conglomerados de
comunicações transnacionais
diversificados" (Cf. Thompson, 1999:
327).
Desse
modo, podemos entender que muito embora
se veja atualmente a independência
das instituições jornalísticas
diante do Estado_ o que caracteriza a democracia
_ essa independência e, sua conseqüente
imparcialidade, vê-se ameaçada
pelo processo altamente competitivo e crescentemente
global de acumulação do capital,
um processo que resultou num declínio
constante no número de jornais e
numa concentração de recursos
nas mãos de grandes empresários
da multimídia.
Portanto,
essas relações econômicas,
relações de dependências
causadas pelo crescimento desenfreado das
organizações da mídia
no campo privado, funcionam de modo a reger
o discurso jornalístico mantendo
determinadas ordens de discurso e, por conseguinte,
determinadas ordens sociais.
Por
essa linha de raciocínio, podemos
considerar a neutralidade e a objetividade
jornalísticas como efeito de sentido
que escondem os controles externo e interno
da prática jornalística. Vale
ressaltar, no que diz respeito à
questão da informatividade jornalística,
as normas técnicas de redação
presentes nos manuais de jornalismo que
enfatizam a escolha precisa do léxico,
eximindo-se de qualquer tendência
à subjetividade. Conforme Mariani
(1999:52):
"É
interessante notar que escrito por profissionais
de imprensa ou por teóricas da
comunicação, essas normas
técnicas de comunicação
constroem o mito da informação
jornalística com base em outro
mito: o da comunicação lingüística.
Responsabilizando o jornalista pelo relato
mais ou menos fidedigno dos fatos, nesses
manuais o que se está enfatizando
é o "poder dizer", uma
onipotência do sujeito com relação
à linguagem. Informar e opinar,
desse ponto de vista dicotomizado, resultam
da capacidade (ou interesse) do responsável
pela notícia em manipular a linguagem".
Desse
modo, a concepção de linguagem
predominante no discurso jornalístico
é a da linguagem como instrumento
de comunicação construindo
visão de um sujeito logocêntrico,
um sujeito senhor de si mesmo e autor de
suas falas.
Velhice
e migração de sentidos no
discurso jornalístico
Na
história das sociedades, a velhice
sempre foi associada à idéia
de declínio. Tal idéia aparece
ora associada a um pessimismo realista,
ora a um pessimismo idealista. Em vários
períodos da história e em
vários setores da sociedade ela aparece,
portanto, como extremamente desfavorecida.
Tanto entre nobres, quanto entre os camponeses,
a força física prevalecia,
os fracos não tinham lugar (Cf. Beauvoir,
1990).
Em
sua obra Memória e sociedade:
lembrança de velhos (1987), Ecléa
Bosi refere-se à sociedade industrial
como maléfica à velhice uma
vez que, a divisão de classes, criando
uma série de rupturas nas relações
entre os homens e nas relações
dos homens com a natureza, arranca todo
o sentimento de continuidade do nosso trabalho.
Constatando
a opressão da velhice na sociedade
contemporânea, a análise de
Bosi vai sendo delineada a partir da denúncia
à associação da velhice
com a idéia de ineficiência,
incompetência. Perdendo a força
de trabalho o velho já não
é produtor nem reprodutor. Não
participa da produção, não
faz nada: deve ser tutelado como menor.
Para Ecléa Bosi tais idéias
são absorvidas da classe dominante
na sociedade capitalista: "Quando
se vive o primado da mercadoria sobre o
homem, a idade engendra desvalorização".
A
partir dos últimos 30 anos, a imprensa
começa a publicar matérias
construindo enunciados que denunciam determinadas
questões (de ordem demográfica,
fisiológica, psicológica,
econômica etc.) referentes à
velhice, para construí-la discursivamente
como um problema social. Vejamos o fragmento
de matéria abaixo:
Mais
velhos
O
Brasil tem 13,5 milhões de idosos
(8,65% da população); em 2050,
terá 56 milhões (24% da população
prevista). Em busca de uma velhice melhor,
pessoas com mais de 60 anos enfrentam preconceito,
solidão e falta de perspectiva (Folha
de S.Paulo, 26/ 09/1999).
Ora,
se a velhice se torna um problema é
preciso nomear "pessoas competentes"
para tratar desse problema, ou melhor, para
ensinar o velho a tratar de si mesmo, de
modo a aprender a sustentar-se em meio à
sociedade capitalista selvagem que o silencia,
o segrega e o marginaliza.
Surgem,
então, os gerontólogos e a
Gerontologia. A esse respeito, diz Debert:
"diferentemente de outras categorias,
os velhos não dispõem de meios
sociais nem de instrumentos de acesso à
expressão pública. Os representantes
que se colocam como porta-vozes das pessoas
idosas são, atualmente, 'experts',
cuja competência é oficialmente
reconhecida pela referência a uma
especialidade científica, a Gerontologia"
(Cf. Debert, 1998:23).
O
discurso da imprensa, situado em uma ordem
do discurso, relaciona-se dialogicamente
com o discurso da gerontologia para legitimá-lo,
construindo a imagem do velho como vítima
e nomeando as posições de
sujeito indicadas para reintegrá-lo
e ajudá-lo a resgatar sua função
social. Essa relação dialógica
vai deslocando os sentidos de velhice como
doença e declínio para o sentido
de velhice como fase de realização
pessoal.
O
discurso da Folha de S.Paulo, como
um discurso institucional, direciona esse
deslocamento de sentidos da velhice, que
passa cada vez mais a assumir o sentido
de rejuvenescimento. Esse deslocamento desvia
a responsabilidade do Estado pelo idoso
para jogá-la sobre o próprio
idoso, ou seja, num quadro de mudanças
neoliberais em que o Estado se torna cada
vez mais parco em todos os gastos sociais,
é instituído um discurso de
privatização da velhice,
em matérias que explicitam o culto
ao corpo, a partir de cuidados de preventivos
com a saúde, o estímulo para
a reinserção do velho no mercado
de trabalho como público alvo de
publicidade, a mudança na idade estipulada
para aposentadoria, as universidades da
terceira idade etc.
Portanto,
o sentido para a velhice direcionado por
elementos de uma ordem do discurso que a
associam ao declínio e a incompetência
vai ser substituído por sentidos
construídos a partir de um discurso
neoliberal, que torna a velhice sinônimo
de poder, de rejuvenescimento e competência.
Como
podemos ver no trecho abaixo:
Idade
não é páreo para os
executivos
Qual
é o melhor momento para se aposentar?
Dependendo da empresa, essa pergunta tem
uma resposta diferente. Na Xerox,
por exemplo, é quando o executivo
completa 60 anos. A IBM e a Autolatina,
por sua vez, também têm programas
com esse sentido. Porém, ao invés
de vestirem o pijama e o chinelo, é
cada vez mais comum os executivos que se
"aposentam" não pararem.
Enquanto para as empresas eles chegaram
na reta final, esse grupo tem provado que
sua disposição está
apenas no começo. Experientes, na
faixa dos 50 a 60 anos, esses executivos
aproveitam o seu know-how para montar
seu próprio negócio ou ir
trabalhar em outra empresa. Por ironia,
em geral as agendas ficam ainda mais sobrecarregadas
(Folha de S.Paulo, 03/01/1990).
O
deslocamento de sentidos para a velhice
vai ser percebido também no vocabulário
utilizado pela imprensa, que exclui as designações
velhos e velhice, ao substituí-las
por outras designações que
funcionam como eufemismo, silenciando aspectos
negativos relacionados à velhice.
A esse respeito, justifica-se o próprio
jornal, pela escolha do vocabulário,
com o surgimento do termo terceira idade:
A
própria palavra "velho"
é um estigma para quem estar por
aqui depois dos 65 e passando muito bem.
(Folha de S.Paulo, Especial. 26/09/1999).
Ao
mesmo tempo em que se coloca num lugar de
significação, que dá
voz ao discurso de autoridade dos gerontólogos,
o discurso jornalístico sobre a velhice
mantém a defesa dos idosos mais fragilizados,
sem, contudo deixar de situá-los
numa posição de menosprezo
diante dos que representam essa fase da
vida como seres ativos, participantes, felizes
por usufruírem um momento próprio
para a realização pessoal.
A
partir dessas considerações,
pude perceber que no discurso jornalístico
da Folha de S.Paulo, a utilização
de designações apresentadas
como sinônimos para velho e
velhice provoca uma migração
de sentidos, esvaziando (em termos de sinonímia
lexical) as propriedades que marcavam o
sentido histórico negativo da velhice
como declínio, incapacidade, sofrimento.
A utilização de termos como
sinônimos na prática discursiva
da Folha vêm provocar um novo
sentido para os referentes velho
e velhice que seria o sentido da
não-velhice, ou seja, a negação
das propriedades lexicais que marcavam os
seus sentidos anteriores.
Posso
concluir que nesse processo migratório
de sentidos. (1) que se da através
da operacionalização de ideologias,
os termos (como terceira idade e pessoas
de terceira de idade, por exemplo) que representariam
sinônimos para velhice e velho
se constituem em antônimos desses
termos.
A
concepção de designação
e referência tomada neste trabalho
é a concepção elaborada
por Eduardo Guimarães (1995:74) que
apresenta a relação de designação
como uma "relação instável
entre a linguagem e o objeto, pois o cruzamento
de discursos não é estável,
é, ao contrário, exposto à
diferença". Para ele:
"O
objeto é uma exterioridade produzida
pela linguagem, mas não se reduz
ao que se fala dela, pois é objetivada
pelo confronto de discursos. Em que sentido
isto se dá? No sentido em que o
objeto é constituído por
uma relação de discursos.
A sua materialidade é este confronto"
(Cf. Guimarães, 1995:74).
No
estudo das designações para
a velhice, percebe-se que no confronto entre
vários discursos (discurso neoliberal,
discurso gerontológico etc.) opera-se
a materialidade do objeto velhice - que
no espaço interdiscursivo vem a ser
substituído pelo termo terceira
idade.
Para
designar a velhice, portanto, será
constituída em todas as matérias
publicadas na última década
pela Folha uma série de sinônimos
e paráfrases para os termos velho
e velhice. A seguir, trago o quadro
dos termos apresentados nas matérias
como referência a velho e velhice:
Velho(s):
-
mais velhos |
-
os mais velhos |
-
velhos |
-
velho ativo |
-
idosos |
-
o senhor / a senhora |
-
vovô/ vovós |
-
vovó das vovós |
-
vovô caseiro |
-
vovôs surfistas |
-
grisalhos turbinados |
-
alguns de terceira idade |
-
pessoas de terceira idade |
-
pessoas de meia idade |
-
pessoas de 40 anos |
-
a pessoa aos 50 anos |
-
pessoas de mais de 60 anos |
-
adultos com mais de 50 anos |
-
quem tem mais de 50 anos |
-
população com mais de
65 anos |
-
acima de 65 anos |
-
clientes com 60 anos de idade |
-
mulheres entre 40 e 80 anos |
-
um casal de 70 anos |
-
maiores de 40 anos |
-
maiores de 50 anos |
-
maiores de 60 anos |
-
maior de 60 |
Tabela 1.
Sinônimos
e paráfrases para o termo velho.
Velhice:
-
idade avançada |
-
terceira idade |
-
processo de envelhecimento |
-
na faixa dos 60 anos |
-
após os 50 anos |
-
aquele estágio da vida |
Tabela
2.
Sinônimos
e paráfrases para o termo velhice.
Nas
designações encontradas para
a velhice, observei a freqüência
com que se utiliza o termo terceira idade
e quase ausência do termo velhice
e velho, este último aparecendo
tão somente e, com bastante freqüência,
acompanhando de um elemento modificador,
por exemplo, nas designações,
mais velhos e velho ativo.
Entendendo
a ordem do discurso sobre a velhice como
uma configuração de vários
elementos discursivos que projetam uma velhice
capaz e competente, podemos compreender
o emprego do modificador como operando um
deslocamento de sentido através do
eufemismo. O eufemismo funciona nas matérias
produzindo um sentido para a velhice divergente
do sentido histórico que a associa
ao declínio e à decadência.
Nota-se
que a designação velho
ativo parece referir a alguém
de idade avançada que não
carrega os caracteres negativos comumente
associados a essa faixa etária.
Ao
mesmo tempo em que se denuncia a inconveniência
do emprego do termo velho para referir-se
às pessoas que com o passar da idade
continuam atuantes e rejuvenescidas (ver
texto 5), o emprego das designações
para a velhice na Folha de S.Paulo
aponta para a legitimação
da ideologia que considera o velho como
alguém incapaz. Na designação
velho ativo poderíamos ainda
ler: velho, porém, ativo.
A
designação mais velhos
escrita em letras chamativas nas matérias
especiais publicadas pela Folha sobre
a velhice traz a idéia de uma aparente
neutralidade. O uso do grau comparativo
nessa designação permite percebê-la
como uma construção do tipo
X é mais velho que Y, sem que
sejam demarcados os elementos (X, Y) que
são comparados. Tal construção
produz um efeito de sentido que nega as
características que compõem
e marcam a construção sociocultural
das fronteiras estabelecidas entre as faixas
etárias.
Afinal,
quem são os "mais velhos"?
Eles são mais velhos do que
você, do que eu? De quem eles se distanciam
em idade? A partir de elementos discursivos
que apregoam uma velhice positiva posso
perceber a escolha da designação
mais velhos como o uso do politicamente
correto para referir-se à velhice.
Embora
a Folha de S.Paulo se apresente como
um jornal com um projeto político-editorial
próprio e mesmo que, através
de um corpo editorial de escritores-jornalistas,
pretenda atingir uma espécie de homogeneidade
em sua prática discursiva, não
podemos deixar de considerar seu discurso
como um todo heterogêneo que é
atravessado por outros tantos discursos
que com ele se articulam dialogicamente,
portanto, marcado por contradição
ideológica.
Desse
modo, a designação mais
velhos pode se situar tanto numa formação
discursiva que denuncia a situação
do velho na sociedade capitalista, quanto
em outra que propõe uma velhice positiva.
A designação mais velhos,
portanto, corrobora o discurso da velhice
como um problema social: um discurso contraditório
gerado entre as duas formações
discursivas já citadas.
Esse
discurso propõe que os problemas
referentes à velhice sejam solucionados
não pelo Estado, mas pelo próprio
idoso, que resgatando sua cidadania não
se tornará um indesejado, mas alguém
que pode cuidar de si e contribuir com a
sociedade. Esse seria o papel dos profissionais
que trabalham com a velhice (geriatras,
gerontólogos, terapeutas-ocupacionais,
etc.): ajudar os velhos a gerir a própria
velhice, criando inclusive uma nova designação
para ela, a terceira idade.
Desse
modo, a designação mais
velhos permite a paráfrase: as
pessoas de terceira idade não
são velhas, são apenas mais
velhas que as pessoas jovens. Mas se
a terceira idade desmente a velhice, de
que referente estamos tratando?
A
resposta está na compreensão
de que a construção dos objetos
"velho" e "velhice"
e, portanto, sua materialidade se configura
a partir de uma ordem do discurso em que
se digladiam elementos de caráter
político-ideológico.
Como
condição dessa materialidade_
vista a partir de sentidos construídos
no espaço discursivo, a serviço
de poderes específicos_ observamos
o atual contexto econômico em que
surge um novo ramo de negócios: o
ramo da terceira idade. Como exemplo, cito
o complexo industrial da beleza - as clínicas
de estética, as indústrias
de cosméticos - para o qual a velhice
existe como algo a ser combatido e esse
combate sustenta um lucrativo mercado de
consumo.
Num
quadro econômico atual em que se torna
hegemônica a cultura de consumo, a
manutenção da capacidade,
de vitalidade e da juventude durante o avançar
da idade se constitui no elemento de uma
ordem do discurso em que se situa o discurso
jornalístico. Esse elemento discursivo
(entendido como uma formação
discursiva) que propõe uma velhice
positiva conduz a direção
argumentativa do discurso da Folha de
S.Paulo a construir o perfil de um novo
consumidor apresentado nos textos como pessoas
que não se sentem velhas: pessoas
vaidosas, preocupadas com a saúde,
com tempo e dinheiro disponível e
que representam um mercado interessante
para investimentos [as pessoas que estão
na terceira idade].
O
uso da designação terceira
idade ao invés de velhice,
instala um sentido que apaga o sentido tradicional
da velhice como fase resignação
às perdas da beleza, da capacidade
físico-cognitiva. O silenciamento
desse sentido comum à cultura ocidental
posiciona e estabiliza, na ordem do discurso,
a promoção de uma velhice
ativa que rompa com as fronteiras cronológicas,
com estereótipos de uma fase monótona
e aproveite a vida através de um
novo estilo de aposentadoria.
A
materialidade da velhice é produzida
pela linguagem nos confrontos internos de
uma ordem do discurso. Ou melhor: o discurso
da Folha de S.Paulo, portanto, o
discurso jornalístico sobre a velhice,
situado no interdiscurso constitui sua materialidade
na relação dialógica
que estabelece com outros discursos.
Considerações
finais
Ao
fim da análise, posso considerar
que o sentido construído para a velhice
no discurso jornalístico é
o sentido da não-velhice, estabelecido
no processo sócio-histórico
e estabilizado em uma ordem do discurso
que delimita um raio de possibilidade para
a operacionalização da ideologia.
A
análise das matérias jornalísticas
nos permite ver o sentido da velhice como
fase de prazer e poder, que prepondera no
discurso da Folha de S.Paulo, como
resultado da intertextualidade, i.e., da
heterogeneidade discursiva em que se articulam
dialogicamente o discurso da velhice como
fase de decadência (fundação
discursiva capitalista) e o discurso da
velhice como fase de rejuvenescimento (fundação
discursiva neoliberal). A visibilidade da
velhice produzida no discurso jornalístico
se constitui a partir dessa articulação
em que vozes se confrontam e um discurso
se faz resposta a outro. Essa heterogeneidade
no discurso da Folha possibilita
a operacionalização de ideologias
neoliberais, conforme se vê a seguir:
- Legitimação:
através da utilização
de estatísticas econômicas
e demográficas, o discurso jornalístico
legitima o discurso dos especialistas
que apresentam o envelhecimento populacional
como um dado alarmante, justificando a
criação de um mercado de
previdência, em que grupos financeiros
possam concorrer para satisfazer as necessidades,
não apenas de ordem financeira,
mas social e cultural dos idosos.
- Dissimulação:
através do deslocamento de sentidos
de uma velhice decadente para uma velhice
rica em realizações pessoais,
constrói-se uma espécie
de coesão social unindo grupos
de mesmas faixas etárias, o que
resulta na exclusão dos que não
se enquadram nos padrões do grupo.
- Naturalização:
é interessante notar, no que diz
respeito à naturalização
de ideologias, que o discurso da velhice
positiva traz a proposição
implícita de que existe uma velhice
triste, inativa e decadente que deve ser
combatida. Essa velhice negada a partir
do apelo ao imaginário com a metáfora
da fonte da juventude se torna a única
medida de contraste entre os velhos vencidos
e as pessoas de terceira idade, entre
os que conseguiram vencer o tempo e as
dificuldades de várias ordens e
os que, por algum motivo, não conseguiram
deixar de ser velhos.
Portanto,
o discurso da Folha de S.Paulo
sobre a velhice, situado na ordem do discurso,
na medida em que propõe uma velhice
positiva, recupera através da memória
discursiva, o sentido da velhice abandonada
para em seguida eliminá-lo através
do argumento de que a adoção
de determinadas formas de consumo e estilos
de vida pode render os lucros de uma velhice
invejável.
Sem
dúvida, a manutenção
do sentido da velhice como fase de poder
e prazer construído historicamente
é também a manutenção
de ideologias que se tornam hegemônicas
e operam em nossa sociedade de modo a instituir
relações de poder. Relações
de sentido entre o velho e o não-velho.
Relações
de poder entre os velhos e os que detêm
o saber sobre eles. Práticas discursivas
cuja análise abre caminhos para outras
pesquisas.
Nota
[1]
O conceito de migração de
sentidos foi elaborado pela analista do
discurso Eni Orlandi e se encontra presente
na maior parte de seus trabalhos.
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de massa. Petrópolis: Vozes,
1995.
*Claudiana
Nogueira de Alencar é doutora em
lingüística pela Universidade
Estadual de Campinas (UNICAMP) e pela Universidade
de Birmingham (Inglaterra), professora de
Lingüística Aplicada da Universidade
Estadual do Ceará (UECE) e dos cursos
de Comunicação Social e Letras
da Faculdade Integrada da Grande Fortaleza
(FGF).
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