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Resenhas
Fascínio
e complexidade do jornalismo brasileiro
Por
Rogério de Vasconcelos Faria Tavares*
Em
"Jornalismo Brasileiro", o professor José Marques
de Melo reúne textos que retratam a sua visão
autorizada sobre a produção periodística
do Brasil. Lançada pela Editora Sulina, de Porto Alegre,
a obra está dividida em cinco partes. Na primeira, que
tem o mesmo nome do livro, o mestre de São Bernardo analisa
a bibliografia nativa sobre Jornalismo.
Ela
se caracteriza, a seu ver, por três vertentes: a história
factual dos sistemas informativos, o memorialismo de seus protagonistas
e a recuperação profissional/didática das
experiências peculiares a processos específicos.
Na segunda, "Itinerários", Marques recupera
a trajetória de personalidades expoentes da imprensa
nacional, tais como Hipólito da Costa, Rui Barbosa, Werneck
Sodré, Freitas Nobre, Walter Sampaio e Octávio
Frias. Em seguida, em "Evidências", seleciona
aspectos específicos do ofício jornalístico
e os submete à análise rigorosa. Na quarta parte,
intitulada "Polêmicas", aborda temas instigantes
referentes à discussão sobre mídia no Brasil
de hoje.
Finalmente,
em "Jornalismo de Referência", o titular da
Cátedra Umesp/Unesco de Comunicação enceta
uma valiosa reflexão sobre o papel dos jornais que integram
a chamada "grande imprensa" brasileira.
Ainda
na apresentação da obra, o autor define o perfil
do livro: escreve tratar-se de um conjunto de trabalhos circunstanciais,
como ensaios, artigos, palestras, comentários ou resenhas
produzidos nos últimos dez anos. Reconhece que alguns
textos são apenas esboços que carecem de maior
nitidez, mas diz preferir antecipar hipóteses que publicar
tardiamente, por excesso de zelo intelectual. Também
nesse momento introdutório, Marques revela a gênese
do Jornalismo Brasileiro, produto da confluência de padrões
importados durante o século XIX, principalmente franceses
e norte-americanos.
Logo
depois, traça o panorama histórico que conduziu
à modernização da imprensa no Brasil, processo
que teve como componentes o clima político-democrático
do pós-guerra e as inovações tecnológicas
da conjuntura desenvolvimentista, além da abertura das
fronteiras nacionais à cultura transnacional. Para o
autor, não obstante a sintonia que estabelece com as
tendências internacionais da produção de
notícias, o jornalismo brasileiro tem uma fisionomia
singular, evidente não somente nos gêneros cultivados
pelos seus produtores mas também na forma de organização
do trabalho dos jornalistas dentro da empresa.
Na
primeira parte do livro, já referida, Marques de Melo
defende uma ação investigativa articulada, para
registrar a história imediata do jornalismo praticado
no Brasil. Fiel à sua natureza e à sua vocação
de pesquisador do campo da comunicação, o autor
propõe uma comparação do jornalismo que
se pratica hoje com o típico de outros períodos
históricos, o que possibilitaria, segundo ele, uma melhor
compreensão da originalidade cultural do produto brasileiro,
gerado com as contribuições dos padrões
modernos, importados dos centros hegemônicos, e das tradições
do modo essencialmente brasileiro de produzir e difundir notícias.
Suas
afirmações sobre o jornalismo brasileiro vêm
sucedidas por menções a análises de natureza
histórica semelhantes, levadas a cabo por Barbosa Lima
Sobrinho, Genival Rabelo, Cláudio Mello e Souza, Ruth
Vianna e Carlos Eduardo Lins da Silva. O autor promove uma verdadeira
revisão da literatura sobre o processo de modernização
do jornalismo brasileiro. Para concluir, Marques de Melo escreve
que o jornalismo brasileiro manteve, nas últimas décadas
do século XX, uma personalidade própria, ampliando
suas relações com outras sociedades e culturas,
mas preservando modos singulares de expressão informativa
e de organização do trabalho jornalístico.
Ele
finaliza: "O jornalismo é um fenômeno universal,
mas suas raízes são européias. Entender
as manifestações que floresceram nos territórios
onde essa inovação cultural se deu pela ação
dos colonizadores implica em resgatar os traços originais
que permaneceram e vislumbraram as transformações
determinadas por contingências históricas. Por
isso, no caso brasileiro, não é suficiente fazer
remissões àqueles modelos que nos trouxeram os
colonizadores lusitanos,mas torna-se imprescindível perceber
as determinações que configuraram o padrão
transplantado e descobrir os atravessamentos gerados pelas influências
conjunturais, inevitáveis na trajetória dos povos
e das culturas que giram em torno dos pólos hegemônicos
do poder internacional." (p.16)
Para
introduzir a parte do livro que descreve as trajetórias
comunicacionais de personalidades relevantes da imprensa brasileira,
Marques de Melo, antes, discorre sobre a pesquisa dos fenômenos
jornalísticos no Brasil, que remonta à segunda
metade do século XIX. Ele descreve o trabalho dos precursores,
os que atuaram ainda sob o Segundo Reinado. Nesse momento, faz
referência aos estudos pioneiros sobre a implantação
da tipografia no país. Cita Alfredo de Carvalho, autor
da publicação "Gênese e Progressos
da Imprensa Periódica no Brasil", obra decisiva
para toda uma geração de pesquisadores.
Entre
os pioneiros, situados em etapa posterior à dos precursores,
Marques de Melo destaca como marco histórico a obra fundamental
de Barbosa Lima Sobrinho: "O problema da Imprensa",
editada em 1923. Com ela, o jornalismo deixava de ser simples
ofício para converter-se em práxis, ou seja, em
conhecimento socialmente utilitário, produto da observação
sistemática e da reflexão crítica de produtores
qualificados. É também desse período "Casa
Grande e Senzala", de Gilberto Freyre, que recorreu à
imprensa como fonte de informações para elaborar
um retrato da sociedade brasileira da época.
As
contribuições pioneiras acima mencionadas encontrariam
ambiente ainda mais fértil, segundo Marques, nas nascentes
escolas de Jornalismo, incorporadas à universidade brasileira
no final dos anos quarenta, quando houve a formação
de grupos de estudiosos responsáveis pelas primeiras
obras que analisaram sistematicamente fenômenos do jornalismo
contemporâneo.
Os
inovadores são classificados por Marques de Melo como
os pesquisadores de fora do eixo Rio São Paulo, liderados
pelo professor Luiz Beltrão, da Universidade Católica
de Pernambuco e da revista "Comunicações
e Problemas", primeiro periódico acadêmico
nacional dedicado às ciências da comunicação.
A fundação do "Cadernos de Jornalismo",
publicado pelo Jornal do Brasil e dirigido por Alberto Dines,
e a abertura da Escola de Comunicações e Artes
da Universidade de São Paulo são os outros dois
momentos cruciais selecionados pelo autor para descrever esse
período histórico.
Os
renovadores são os que, já nos anos noventa, disputam
o que o professor Marques chama de hegemonia uspiana. São
instituições universitárias como a PUC
do Rio Grande do Sul, a Universidade Federal de Santa Catarina,
a PUC de Minas Gerais, a UNB, a Unicamp e a Universidade Metodista
de São Paulo, que, no julgamento do autor, tem ocupado
lugar de destaque no panorama da pesquisa comunicacional brasileira.
Entre
as tendências emergentes, há a de núcleos
de pesquisa de outras regiões brasileiras, que despontam
como produtores potenciais de novo conhecimento jornalístico
ou como formadores de novas equipes profissionais, academicamente
embasadas. O professor Marques conclui essa etapa de sua obra
assinalando que o século vinte e um começa, no
Brasil, com o número impressionante de cento e vinte
e oito cursos de Jornalismo, o que gera, entre outras conseqüências,
uma incrível pluralidade de linhas de pesquisa e de opções
didático pedagógicas.
Traçado
o panorama histórico da pesquisa em comunicação
no Brasil, o autor passa a dedicar a sua atenção
a alguns nomes emblemáticos do jornalismo pátrio,
o primeiro dos quais é Hipólito José da
Costa, considerado, hoje, o fundador do Jornalismo Brasileiro
por sua atuação como editor do mensário
"Correio Braziliense". A controvérsia sobre
a sua primazia prevaleceu por mais de cinqüenta anos. O
Presidente Getúlio Vargas oficializou a comemoração
do Dia da Imprensa para a data de 10 de setembro de 1808, quando
circulou a primeira edição da "Gazeta do
Rio de Janeiro", editada pelo Frei Tibúrcio José
da Rocha.
Finalmente,
a partir do ano 2000, por decisão do Presidente Fernando
Henrique Cardoso, o Dia da Imprensa passou a ser celebrado em
1o de junho, quando primeiro circulou o jornal de Hipólito
José da Costa. Na opinião de Costa Rego, no entanto,
o primeiro jornalista brasileiro teria sido Tavares Bastos,
que militou na imprensa do Segundo Reinado, rompendo as amarras
partidárias ou governamentais que desfiguravam o tratamento
dado aos fatos naquela época.
Deixando
de lado essa controvérsia sobre o patrono do jornalismo
brasileiro, Marques de Melo passa a descrever a trajetória
intelectual de Hipólito José da Costa, com destaque
para seus relatos de viagem, divididos entre as Cartas de Ofício,
a Memória e o Diário de Viagem.
No
texto dedicado a Rui Barbosa, chamado de polemista, o autor
discute a natureza do jornalismo por ele praticado, valendo-se
de seus próprios depoimentos e recorrendo aos trabalhos
realizados por seus biógrafos. A atuação
de Rui na imprensa brasileira é classificada por Marques
de Melo como jornalismo de combate, por ser atividade desenvolvida
como suporte para suas iniciativas parlamentares ou jurídicas.
Marques também analisa minuciosamente a última
fase da incursão de Rui pelas páginas dos jornais,
ou seja, o conjunto de artigos publicados no Diário de
Notícias do Rio de Janeiro nos anos 1911-1912.
"Werneck
Sodré, historiador", é o título dado
por José Marques de Melo ao capítulo em que ele
escreve sobre Nelson Werneck Sodré. O destaque é
para a obra clássica do personagem retratado, "História
da Imprensa no Brasil", um dos mais completos volumes sobre
o desenvolvimento da imprensa no país, com uma análise
que vai desde a etapa colonial, passando pelo Império
e adentrando o período republicano, até a década
de cinqüenta.Marques registra que, antes desse livro, o
conhecimento histórico sobre a imprensa brasileira era
fragmentado, cobrindo períodos específicos ou
limitando-se a inventariar os jornais e revistas editados no
país.
Segundo
o titular da Cátedra Umesp/Unesco de Comunicação,
o livro de Sodré inovou metodologicamente, contextualizando
os episódios ligados ao cotidiano da imprensa e explicando-os
segundo categorias típicas da análise marxista:
modos de produção econômica, classes sociais
e relações de poder.
Marques
conclui seus comentários sobre Nelson Werneck Sodré
relacionando-o como um autor chave para a constituição
do pensamento comunicacional brasileiro.
Freitas
Nobre merece de José Marques de Melo perfil biográfico
apurado e afetivo, como é de se esperar de alguém
que conviveu de forma tão próxima e tão
continuada com o seu biografado. Advogado, sindicalista, político,
vice-prefeito de São Paulo, deputado federal, Freitas
Nobre é retratado como alguém que aliava habilidade
política à fertilidade intelectual.
Walter
Sampaio, chamado de inovador, foi professor da ECA/USP até
meados da década de 70. Profissional atuante no mercado
de rádio e televisão de São Paulo, teve
passagem marcante pela TV Cultura, onde formou equipe integrada
por jovens egressos das universidades, lançando formatos
jornalísticos originais,o que justifica a alcunha.
Já
Octávio Frias de Oliveira, publisher do jornal "Folha
de S.Paulo", é descrito como um verdadeiro "bandeirante
midiático", alguém empreendedor,cuja conduta
empresarial é caracterizada pela sedimentação
de um jornalismo cidadão, assentado nas aspirações
das camadas médias da população; pela superação
do capitalismo selvagem na indústria midiática,
desenvolvendo projetos cooperativos com empresas concorrentes,
sem contudo abandonar a competição mercadológica;
e pelo fortalecimento da internacionalização comunicacional,
viabilizando a projeção brasileira no mercado
regional de mídia digitalizada.
Com
a desenvoltura típica dos professores experimentados
e dos pesquisadores sagazes, José Marques de Melo passeia
por temas diversos na parte do livro chamada "Evidências".
O leitor tira grande proveito da visão arguta e da análise
rigorosa do autor sobre aspectos variados da atividade jornalística.
Em "Jornalismo Esportivo", por exemplo, Marques parte
das definições etimológicas dos vocábulos
mídia, esporte e lazer para construir a definição
do que é o jornalismo esportivo. Como conseqüência
de sólido raciocínio, ele conclui que mídia
e esporte se entrecruzam quando o segundo se converte em conteúdo
da primeira. Quando o esporte supera o âmbito do lazer
individual ou grupal e se torna uma atividade coletiva, passa
a pertencer ao universo de lazer das massas, fenômeno,
pois, de interesse da mídia.
No
texto sobre Radiojornalismo, as primeiras linhas são
dedicadas à reconstituição histórica
do surgimento do rádio no Brasil, objeto de disputa entre
Pernambuco e Rio de Janeiro. Citando João Baptista Borges
Pereira, Marques descreve a conjuntura em que o rádio
se converte em veículo propriamente jornalístico,
difundindo notícias de modo instantâneo. O aparecimento
do jornalismo no rádio é considerado tardio, e
o autor busca as razões para isso. Sua explicação
é a de que o problema estava na estrutura precária
das emissoras radiofônicas pioneiras, cujos proprietários
não fizeram investimentos em tecnologia e recursos humanos.
Os anunciantes, então, deixavam de canalizar suas verbas
para o veículo emergente. Com o tempo, porém,
o rádio se converte em mídia massiva, em contraste
com o porte elitista da imprensa diária.
Sobre
Telejornalismo, o professor José Marques de Melo é
sucinto. Prefere comentar o trabalho de Nivaldo Marangoni, jornalista
televisivo que conquistou reconhecimento profissional na Rede
Globo, optando, porém, pelo trabalho docente em universidades
paulistas.
Já
o texto sobre a mulher jornalista registra um fenômeno
sociológico de grande importância e poderosa repercussão
na área do jornalismo. O professor Marques constata que,
agora, o jornalismo é uma profissão majoritariamente
feminina. Escreve tratar-se de algo mundial, marcado não
apenas pela conquista dos postos de trabalho nas redações
dos jornais, revistas e outras mídias pelas mulheres,
mas também pela capacidade e competência delas
nos cargos de chefia e posições de liderança
no âmbito das organizações midiáticas.
Marques
informa que a porta de entrada da mulher no mercado de trabalho
jornalístico foi a escola de jornalismo. Atualmente,
mais da metade das vagas dos cursos de jornalismo são
ocupadas por mulheres. O autor faz referência a isso para
recordar-se de que, quando começou o curso de jornalismo
em Pernambuco, nos idos de 1961, havia já mulheres em
sua turma, algumas das quais galgaram postos elevados na profissão.
Quando
trata da questão do artigo científico, José
Marques de Melo o posiciona em lugar hegemônico entre
os gêneros comunicacionais através dos quais os
cientistas difundem o conhecimento novo ou discutem as tendências
de cada disciplina. Para ele, o artigo científico é
uma forma de expressão legitimada pela comunidade acadêmica
mundial, constituindo unidade de referência para aferir
a produtividade individual e o reconhecimento coletivo dos produtores
de Ciência e Tecnologia. Marques de Melo aponta deficiências
na literatura brasileira sobre esse objeto de estudo.
Ele
observa que a maioria dos manuais de metodologia do trabalho
científico privilegia os gêneros de comunicação
primária, ou seja, aquela destinada aos próprios
pares. Mais adiante, Marques promove necessária distinção
entre o artigo científico e o artigo jornalístico.
Para ele, o primeiro tem estrutura rígida, correspondendo
às etapas da pesquisa científica e buscando convencer
o leitor pelas evidências observadas a partir de hipóteses
previamente definidas. O segundo se caracteriza pelo estilo
argumentativo, geralmente escrito com a intenção
de persuadir o interlocutor no terreno ideológico.
O
mestre de São Bernardo complementa dizendo que, na verdade,
os cientistas recorrem aos dois formatos para se comunicar.
Usam o artigo científico para disseminar informações
entre os seus pares e o artigo jornalístico com a intenção
de emitir opiniões para veículos de circulação
geral. Uma importante observação do autor diz
respeito aos cientistas pertencentes ao segmento das Humanidades
que, de acordo com ele, são hábeis no manejo utilitário
dos dois formatos, preferindo dirigir-se à elite intelectual
através do tipo de artigo denominado ensaio.
No
último texto desse segmento do livro, José Marques
de Melo escreve sobre a entrevista jornalística, formato
jornalístico que, para ele, é o único no
âmbito da mídia impressa que reúne a um
só tempo a intenção dialógica e
a função mediadora. Relembrando sua tese de livre
docência defendida na USP, Marques localiza a singularidade
da entrevista jornalística no diálogo com os protagonistas
dos fatos. Ele escreve que a entrevista adquire formato autônomo
quando se converte em relato que privilegia um ou mais protagonistas
do acontecer, possibilitando-lhes um contato direto com a coletividade.
Prosseguindo
em sua reflexão sobre a entrevista, Marques de Melo diz
que a maior virtude da entrevista como formato jornalístico
do gênero informativo é a sua capacidade de resgate
da voz das ruas. Mais adiante, caracteriza bem a atividade de
entrevistar: "Se, por um lado, a entrevista é suporte
de trabalho para os repórteres atuantes nos bastidores
da notícia, que a usam como estratégia de acercamento
aos protagonistas, na tentativa de conhecer suas versões
sobre os acontecimentos, por outro lado, esse relato jornalístico
somente converte-se em gênero/formato com identidade própria
quando viabiliza a conversação entre jornalistas
e fontes. O entrevistador representa o consumidor midiático
em sua ânsia de fazer perguntas às pessoas que
transitam nos cenários noticiosos. E seu êxito,
nessa tarefa complexa, depende basicamente da capacidade empática,
ou seja, fazer as perguntas que os cidadãos tinham o
desejo de esboçar.
Marques
prossegue dizendo que, mais do que testemunha das novidades,
o entrevistador é um mediador social. É alguém
permanentemente sintonizado com as demandas coletivas, buscando
descobrir personagens, não necessariamente pertencentes
ao olimpo moderno, com as quais as pessoas comuns gostariam
de dialogar. Ele representa o leitor/radiouvinte/telespectador
nesse ato tão simples. Fazendo as perguntas certas no
momento adequado. Calando quando necessário, para potencializar
a voz do protagonista escolhido. Discordando eventualmente para
instaurar um clima de controvérsia que induz à
reflexão crítica.
Na
parte seguinte de "Jornalismo Brasileiro", "Polêmicas",
José Marques de Melo aborda temas que suscitam opiniões
divergentes. Em "Exclusão midiática",
após historiar o processo de formação dos
meios de comunicação de massa, o autor elabora
reflexão sobre o papel central que eles desempenham hoje.
Faz referência à ação das mídias
nos países em desenvolvimento e destaca a televisão
como educador coletivo. Finalmente, chega ao tema que dá
nome ao texto e registra como o domínio do código
alfabético amplia as fronteiras da abstração
e municia o indivíduo para comportar-se empaticamente
e até para a melhor leitura das mensagens áudio
visuais. Uma vez que um grande contingente populacional está
fora do benefício proporcionado pelo acesso à
escola, menores são as chances de participação
na sociedade e de intervenção no cotidiano.
A
"Cultura do Silêncio" é um texto sobre
história da imprensa e censura.Marques começa
dizendo que a imprensa figura na história da humanidade
como uma inovação que alterou profundamente a
marcha civilizatória. Ela instaurou a cidadania, criando
as condições indispensáveis para a emergência
das sociedades democráticas. Nesse sentido, ele conclui,
é que o direito de informar e de receber informação
constitui o fermento da cidadania, o oxigênio que nutre
a vida democrática.
Recorrendo
à história, o autor recorda que a batalha pela
liberdade de imprensa só alcançaria repercussão
em meados do século XVII. No bojo das Revoluções
Americana e Francesa, ela ganha legitimidade política
e enseja modelos que se reproduziriam em várias partes
do mundo.
No
caso brasileiro, Marques de Melo relata o modelo de censura
prévia, que vigorou até 1820, quando a Revolução
do Porto estabeleceu na metrópole lusitana a liberdade
de impressão. O modelo de liberdade de imprensa adotado
no Brasil teve, durante os séculos XIX e XX, forte influência
francesa, traduzindo-se pela existência de legislação
ordinária destinada a punir a posteriori os excessos
cometidos pelos transgressores eventuais. Somente a Constituição
de 1988 adotaria o modelo norte-americano, com o estabelecimento
de cláusula proibindo a aprovação de leis
ordinárias destinadas a implantar censura prévia
por parte do Estado.
O
autor é da opinião de que o Brasil inicia o novo
século vivendo um dos mais vigorosos estágios
de liberdade de imprensa, ainda que isso se constitua em privilégio
das elites nacionais. Para José Marques de Melo, grande
parte do povo brasileiro ainda vive à margem dessa liberdade
constitucional. O professor emérito da USP afirma que
vivemos uma situação caracterizada pela exclusão
comunicacional, daí o título do texto. Relembrando
o educador Paulo Freire, o autor escreve que, sem dominar o
código alfabético, sem saber ler, contar e escrever,
a maioria de nossa população permaneceu quase
muda, pela carência educacional e pela inibição
cultural a que foi condenada pelas elites dirigentes.
A
exclusão comunicacional, para Marques, constitui sério
risco para a estabilidade democrática e naturalmente
para a governabilidade.
O
assunto da exclusão é novamente focalizado no
artigo seguinte, "Brecha digital", texto em que o
autor expõe o seu pensamento de que a exclusão
digital é mera projeção da exclusão
cultural e tem seu fundamento na exclusão sócio-econômica.
Em
"Gueto Acadêmico", Marques de Melo compõe
histórico dos programas universitários de formação
de comunicadores na América Latina, destacando as primeiras
experiências ocorridas no Brasil e na Argentina e, depois,
as ações empreendidas pela UNESCO, via CIESPAL.
O texto culmina com uma reflexão sobre o perfil dos novos
jornalistas e os projetos inovadores desenvolvidos por algumas
universidades brasileiras, como forma de quebrar o gueto anunciado
no título.
"Descompasso
histórico" é sobre as relações
nem sempre harmoniosas entre as empresas jornalísticas
e as Universidades. Como saídas possíveis para
as freqüentes crises de relacionamento entre escolas e
mercado, o autor sugere basicamente a negociação
de soluções de interesse público, o reforço
do perfil profissionalizante do curso, uma interação
dinâmica com a pós graduação e a
restauração do estágio em jornalismo para
os estudantes.
Por
fim, em "Crise de Identidade", Marques de Melo expõe
o pensamento de três autores cujas obras oferecem reflexões
profundas sobre os impasses do jornalismo, a saber: o espanhol
Martinez Albertos (El ocaso del periodismo), o norte americano
William A. Hachten (The troubles of journalism) e o brasileiro
Juremir Machado da Silva (A miséria do Jornalismo Brasileiro:
as incertezas da mídia).
A
última parte do livro é dedicada ao chamado Jornalismo
de referência, conceito do cientista francês Jacques
Kayser, que o classificou com base nos critérios de territorialidade
(legitimidade internacional e credibilidade nacional) e política
editorial. A partir dessa metodologia, Marques de Melo analisa
os veículos que, ao longo da história brasileira,
puderam ser considerados de referência.
De
toda a leitura de "Jornalismo Brasileiro", fica o
aprendizado das lições de um mestre de escrita
clara e precisa, de estilo didático e agradável.
Fica,
igualmente, o fascínio pela complexidade e amplitude
do tema que, cada vez mais, comove a comunidade científica,
firmando-se como campo de pesquisa e atraindo interesse crescente.
*Rogério
de Vasconcelos Faria Tavares é pesquisador júnior da ECA/USP.
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