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Resenhas


A consolidação da imprensa no Brasil

Por Maria do Socorro F. Veloso*

Em sua última reflexão sobre a imprensa brasileira, datada de 1920 e intitulada A imprensa e o dever da verdade, Rui Barbosa escreveu: "Um país de imprensa degenerada ou degenerescente é, portanto, um país cego (...), um país de idéias falsas e sentimentos pervertidos, um país que, explorado na sua consciência, não poderá lutar com os vícios, que lhe exploram as instituições".

Por sua lucidez e atualidade, o discurso daquele que foi um dos maiores parlamentares e juristas do País deve ser sempre lembrado pelos profissionais de imprensa. E esta é uma das propostas contidas na obra Jornalismo brasileiro, de autoria do jornalista e professor José Marques de Melo. As reflexões de Rui Barbosa têm presença marcante não só no livro, mas também na trajetória profissional de Marques de Melo, servindo, segundo este, como "um antídoto para neutralizar as resistências que se antepunham à revelação de fatos e opiniões inconvenientes aos que se julgam detentores da verdade (...)" (p.66)

Empenhado em apresentar Rui Barbosa às novas gerações, o professor enumera, ao final do capítulo dedicado ao polemista baiano, duas virtudes de seu jornalismo: "Uma delas é a capacidade de argumentação, fascinando o leitor pela retórica da sedução e do convencimento. A outra é a atitude civilizada com que desenvolveu suas campanhas e combates, recusando a violência verbal, evitando os apelos emocionais, numa postura ética que traduzia coragem e paixão, mas conferia pleno respeito humano ao interlocutor". (p.81)

Lançado no primeiro semestre de 2003, Jornalismo brasileiro resulta de artigos, conferências, depoimentos e resenhas produzidos pelo autor nos últimos dez anos.

É uma obra de amplitude, que busca reconstituir parcela considerável da história de nossa imprensa, ao mesmo tempo em que radiografa a realidade presente, expõe controvérsias e sinaliza rumos não só para a prática jornalística, como também para as pesquisas acadêmicas referentes a essa prática.

Ao enumerar as contribuições de autores brasileiros aos esforços de investigação sistemática da história de nossa imprensa, José Marques de Melo lembra que, a despeito "das desilusões existentes, verifica-se que o Jornalismo Brasileiro manteve, nas últimas décadas do século XX, uma personalidade própria, ampliando suas relações com outras sociedades e culturas, mas preservando modos singulares de expressão e de organização do trabalho jornalístico" (p.15)

Uma das controvérsias citadas no livro é a que opõe Hipólito José da Costa e Frei Tibúrcio José da Rocha na disputa pelo título de fundador do jornalismo brasileiro. Ao explicitar as razões da disputa, o professor Marques de Melo prefere deixar de lado a polêmica, optando por enumerar evidências destinadas a comprovar que Hipólito José da Costa foi precursor do jornalismo científico no Brasil.

Apontado por Barbosa Lima Sobrinho como "o mais brasileiro dos nossos jornalistas", Hipólito da Costa realizou sua primeira incursão como repórter aos 24 anos, em outubro de 1798. Na ocasião, foi enviado pelo governo português aos Estados Unidos com a missão de estudar o plantio de culturas como o tabaco, o algodão e a cana. As impressões da viagem, que só terminou no final de 1800, ficaram registradas em cartas e memórias de viagem - estas, transformadas no livro Diário de minha viagem à Filadélfia, e cuja feição, segundo Marques de Melo, "assemelha-se contemporaneamente a um livro-reportagem, onde o repórter faz anotações sobre cenários e personagens, aduzindo impressões contextuais". (p.36 e 37)

Durante a viagem, Hipólito José da Costa observou com atenção, cultivou fontes de informação, consultou documentos, dissipou dúvidas e registrou com rigor o conjunto das informações obtidas - "marcas do relato jornalístico típico" (p.53). Por essas e outras iniciativas similares, o fundador do Correio Braziliense é apontado pelo autor como "primeiro divulgador científico brasileiro" (p.34).

O livro Jornalismo brasileiro é dividido em três partes principais: Itinerários, Evidências e Polêmicas. Na primeira, o autor recupera as raízes históricas da nossa imprensa (Hipólito da Costa, Rui Barbosa) e destaca contributos de nomes como Nelson Werneck Sodré, Freitas Nobre e Octavio Frias. Esta parte da obra é encerrada com um depoimento de tom autobiográfico, no qual o autor cita passagens de sua carreira profissional.

Em Evidências, José Marques de Melo recorre a pesquisas acadêmicas para abordar temas como jornalismo esportivo, radiojornalismo, telejornalismo, o papel da mulher nas redações e artigo científico. Aqui, vale destacar o debate que o autor propõe sobre as técnicas de entrevista jornalística.

A entrevista como mediação social

Objeto de sua tese de livre docência sobre gêneros do jornalismo, a entrevista é considerada por Marques de Melo como um formato do gênero informativo cuja maior virtude "é a sua capacidade de resgate da voz das ruas". (p.131)

Para o autor, enquanto a nota, a notícia e a reportagem se caracterizam pela "natureza mediadora, consistindo em relatos construídos a partir da observação dos acontecimentos pelo repórter (ainda que usando entrevistas como recurso para coleta de dados), a entrevista somente adquire formato autônomo quando se converte em relato que privilegia um ou mais protagonistas do acontecer, possibilitando-lhe um contacto direto com a coletividade" (p.129). A especificidade da entrevista jornalística reside, como observa Melo, no diálogo com os protagonistas dos fatos - e não apenas com as fontes.

Ao tratar a entrevista como uma ferramenta de trabalho do jornalista que adquire status de gênero informativo quando viabiliza a "conversação entre jornalistas e fontes" (p. 132), José Marques de Melo enfatiza o trabalho de profissionais como Oriana Fallaci, considerada por ele a melhor entrevistadora do jornalismo contemporâneo.

Como mediador social, o entrevistador deve, nas palavras de Melo, fazer as perguntas no momento adequado, calar quando necessário (a fim de potencializar a voz do protagonista) e eventualmente discordar do que é dito, "para instaurar um clima de controvérsia que induz à reflexão crítica" (p.132). Foi com essa postura de "confronto", mas respeitando o que está sendo dito, que Oriana Fallaci obteve o reconhecimento de seus interlocutores.

A ousadia na busca pela melhor informação possível é, de fato, marca registrada da jornalista italiana. A edição de novembro de 1968 da célebre revista Realidade traz, em 12 páginas, depoimento de Oriana sobre manifestação estudantil na Cidade do México que terminou em confronto com a polícia.

Detalhe: a jornalista produziu a reportagem-depoimento a partir de uma cama de hospital, para onde foi levada com três estilhaços de bala no corpo - um dos quais na espinha. (1) Oriana foi uma das vítimas da truculência policial naquele dia. Mas sobreviveu e experimentou o auge de sua carreira nos anos seguintes, produzindo reportagens com as técnicas do new journalism.

Exclusão midiática

Na última parte de Jornalismo brasileiro, sob a rubrica Polêmicas, José Marques de Melo faz uma interessante abordagem sobre o que denomina "exclusão midiática", apontando obstáculos à manutenção da habilidade da leitura entre as novas gerações, mas sem ignorar a atração que as obras audiovisuais, difundidas pela mídia eletrônica, exercem sobre a sociedade.

"Trata-se, antes de tudo, de reconhecer a inegável contingência do avanço tecnológico, com o qual é preciso conviver de forma inexorável, e que, por outro lado, tem sido responsável pelo incremento da leitura online, ou seja, a leitura exercitada nas telas dos computadores pelas minorias que tiveram o privilégio da boa educação e da concentração de renda". (p.143)

Marques de Melo também propõe um debate sobre a liberdade de imprensa, lembrando que esta só privilegia a elite nacional, enquanto grandes contingentes da população permanecem à margem de seus benefícios, deixando de usufruir "tanto da prerrogativa da livre expressão quanto do direito de ter acesso à informação que os habilita à plena cidadania e conseqüentemente à participação integral na vida democrática". (p.147)

Reportando-se à "cultura do silêncio" identificada por Paulo Freire, Melo chama atenção para outra face da liberdade de imprensa - ou para a ausência dela. Ao fazer isso, cria uma ponte com o capítulo anterior, sobre exclusão midiática: "Ainda que tenham acesso a informações rápidas, condensadas e simplificadas que fluem através da mídia eletrônica, os contingentes majoritários de nossa sociedade não assimilaram os conteúdos culturais que lhes permitissem apreender integralmente os sentidos disseminados pelos produtos da indústria cultural.

Encontram-se privados da liberdade de imprensa na medida em que não têm competência cognitiva". (p.149)

Melo retoma o assunto no capítulo seguinte, que trata da exclusão digital, e que, como observa, é um problema de ordem sócio-econômica e política, e não comunicacional. Segundo ele, se os comunicadores forem incapazes de produzir conteúdos de qualidade, sintonizados com as necessidades das camadas excluídas, e não apenas conteúdos voltados para a elite, o retrocesso histórico será inevitável.

O autor faz a seguinte proposição: "para passarmos da sociedade de informação à sociedade do conhecimento, temos um grande desafio que é criar competência cognitiva. Mas para criar competência cognitiva em todos os cidadãos, nós precisamos produzir conteúdos de boa qualidade. Essa é a principal responsabilidade daqueles que atuam nas indústrias de comunicação, que eu prefiro chamar de midiastas". (p.153)

O papel dos cursos de Jornalismo e suas relações com o mercado também são amplamente debatidos pelo autor nos capítulos finais do livro. Ele constata o fracasso da comunidade acadêmica na formulação de políticas democráticas de comunicação no período que sucedeu o fim dos regimes autoritários na América Latina, visto que as soluções propostas "não se coadunavam com as exigências modernas de sistemas informativos industriais e altamente informatizados".

Para José Marques de Melo, muitos dos comunicólogos oriundos daquele período se converteram "em profetas do caos" e estão refugiados "hoje nos cursos de pós-graduação, buscando influenciar (sem muito êxito) as novas gerações, querendo conquistar adesão para teses ultrapassadas". (p.165)

O autor de Jornalismo brasileiro critica o distanciamento da academia em relação às demandas empresariais e aponta uma deficiência fundamental da nova geração de jornalistas, que em sua opinião permanece insolúvel: "o embasamento humanístico e científico que habilita o profissional a entender a sociedade e a registrar na mídia os seus movimentos quotidianos" (p.169).

Com vistas à melhor capacitação do estudante de Jornalismo, Marques de Melo defende o reforço do perfil profissionalizante dos currículos de graduação, maior interação com a pós-graduação - a partir de programas voltados ao jornalismo especializado -, e a permissão para estágio nas empresas jornalísticas, entre outras medidas de caráter emergencial.

O professor defende a reconquista da identidade dos cursos de jornalismo, "superando a condição subalterna de 'habilitação' profissional" da Comunicação. (p.177)

Para ele, o maior desafio enfrentado hoje pelos cursos é o de preparar os jovens jornalistas para entender a imprensa não só como um serviço de caráter público, mas também como negócio - o que pressupõe formação científica especializada.

Jornalismo brasileiro, enfim, reitera e aprofunda linhas de pensamento que ajudaram a constituir o moderno estudo dos fenômenos comunicacionais, contribuindo para sistematizar pesquisas e reflexões conduzidas pelo professor José Marques de Melo na última década. A obra vem somar-se a duas outras lançadas pelo autor em 2003: Jornalismo opinativo (reedição, pela Editora Mantiqueira) e História social da imprensa (Editora da PUC-RS).

(1) FALLACI, Oriana. "Violência, sempre". Realidade, nº 32, novembro de 68. p. 204 a 224.

*Maria do Socorro Furtado Veloso é Jornalista profissional, Doutoranda em Comunicação pela ECA/USP, Mestre em Multimeios pela Unicamp e Docente de graduação e pós-graduação em Jornalismo.

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