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Resenhas


Jornalismo Brasileiro, de José Marques de Melo

Por Maria Teresa de Souza

A bibliografia brasileira do Jornalismo tem se caracterizado por três vertentes:

- a história factual dos sistemas informativos;
- o memorialismo dos seus protagonistas;
- a recuperação profissional / didática das experiências peculiares a processos específicos.

Uma corrente mais recente de estudos acadêmicos privilegia a análise do discurso jornalístico ou esboça o perfil sócio-político de determinadas conjunturas.

No início do século XX, Barbosa Lima Sobrinho registra a preocupação nacionalista dos legisladores brasileiros. O viés patriótico se converte na tradição dominante, impedindo até mesmo a participação de estrangeiros na propriedade de empresas jornalísticas. Profissionais como Danton Jobim e Alberto Dines buscaram estabelecer uma sintonia entre as práticas do Jornalismo nacional e as tendências nos centros europeus e americanos.

A retomada modernizadora se dá com a redemocratização do país, nos anos 80. Verifica-se que o Jornalismo Brasileiro manteve nas últimas décadas do século XX uma personalidade própria, ampliando suas relações com outras sociedades e culturas, mas preservando sua singularidade, conforme analisado por Carlos Eduardo Lins da Silva e Manuel Chaparro.

A identidade do jornalismo brasileiro constitui o cerne das investigações de Marques de Melo na atual fase de maturidade acadêmica.

ITINERÁRIOS
Conhecimento Jornalístico

A pesquisa sobre os fenômenos jornalísticos no Brasil remonta à Segunda metade do século XIX. Seu enfoque inicial são os meios de difusão (a tecnologia de impressão de livros, jornais e revistas).

A história do Jornalismo Brasileiro começa a ser resgatada no Segundo Reinado, quando o regime do imperador Pedro II garante ao País seu melhor período de liberdade de imprensa.

Os primeiros estudos buscam averiguar quem foram os pioneiros na implantação da tipografia no Brasil e, mais tarde, reconstituir a história da imprensa (com a preocupação classificatória dos títulos). Barbosa Lima Sobrinho será o primeiro a analisar o fenômeno jornalístico na sociedade brasileira.

Nesse processo, foram importantes: a obra de Gilberto Freire (apontando metodologias comparativas), os grupos de estudo nas nascentes Faculdades de Jornalismo nos anos 40; a criação de periódicos acadêmicos e núcleos de pesquisa dedicados às ciências da comunicação, nos anos 50; a publicação, na mesma época, dos Cadernos de Jornalismo pelo Jornal do Brasil; a Criação do Departamento de Jornalismo da USP, na década de 60, que forma os primeiros doutores em Jornalismo; experiências acadêmicas em várias universidades nos anos 90 (UFSC, PUC-MG, UnB, Faculdade Cásper Líbero, Universidade Metodista etc).

O surgimento de vários núcleos de pesquisa em diversas cidades e regiões do País converte a pesquisa brasileira sobre jornalismo em atividade promissora. O lugar onde se dá a convergência desses estudos é a INTERCOM - Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação, que acolhe os mais importantes projetos em desenvolvimento nas universidades brasileiras.

Hipólito da Costa, precursor

Hipólito José da Costa fundou o primeiro jornal brasileiro, o Correio Braziliense, em Londres, em junho de 1808, e foi reconhecido como fundador do Jornalismo Brasileiro por projeto de lei aprovado no governo de Fernando Henrique Cardoso. O Correio Braziliense é considerado o jornal mais antigo do País, por sua natureza independente e seu caráter noticioso.

Até então, A Gazeta do Rio de Janeiro, um órgão oficialista lançado em setembro de 1808 pelo frei Tibúrcio José da Rocha era considerado o pioneiro pelo fato de ter sido impressa no Brasil. A questão ainda é controversa para os historiadores.

O Correio Braziliense era um órgão político pelo qual Hipólito da Costa se preocupou em divulgar informações científicas e novas idéias geradas na Europa e Estados Unidos. A serviço da Coroa Portuguesa, antes ainda de fundar o jornal ele empreendeu uma viagem pelos Estados Unidos com o objetivo de fazer um levantamento de novas práticas agrícolas, plantas, inventos e obras de infra-estrutura. Esses relatos feitos para o governo português estão repletos de marcas do relato jornalístico, que Hipólito da Costa desenvolveria anos depois no Correio Braziliense. Essa atividade faz de Hipólito da Costa o precursor do Jornalismo Científico no Brasil.

Rui Barbosa, o polemista

A atividade jornalística de Rui Barbosa era desenvolvida como suporte para suas iniciativas parlamentares ou jurídicas. Sua intervenção, na imprensa diária, se caracteriza como um jornalismo de combate e se inicia em 1869-1869 nos jornais acadêmicos paulistas comprometidos com o abolicionismo. Depois, ele viria a trabalhar na redação de jornais baianos e cariocas e chegou a desempenhar cargos de direção. Mas essa foi uma atividade intermitente, que ele nunca encarou como prioritária nem como fonte de renda. Sua meta era a política.

Jornal, para Rui Barbosa,, era um instrumento para expressão de suas idéias, promoção de campanhas cívicas ou políticas, tribuna para a defesa de suas idéias. Um de seus mais importantes escritos sobre o papel da imprensa foi o texto de uma conferência, escrito em 1920: A Imprensa e o Dever da Verdade, no qual destaca o papel de vigilância, para isso necessitando de liberdade e responsabilidade. Foi um árduo defensor do federalismo e da democracia e um combatente feroz das oligarquias e da interferência dos militares na vida política.

No prefácio das Obras Completas de Rui Barbosa, Marques de Melo destaca duas virtudes de seu Jornalismo: a capacidade de argumentação, fascinando o leitor pela retórica da sedução e do convencimento, e a atitude civilizada com que desenvolveu suas campanhas e combates.

Werneck Sodré, historiador

A contribuição de Nelson Werneck Sodré à historiografia nacional deve ser contabilizada não apenas pela quantidade e variedade de estudos publicados, mas principalmente pela linha interpretativa que adotou, ou seja, o materialismo dialético.

Ele publicou em 1966 o clássico História da Imprensa no Brasil, a mais completa obra sobre o desenvolvimento da imprensa em nosso país, analisando-a desde a etapa colonial e o império, adentrando o período republicano, até a década de 50. A obra foi a primeira que teceu um panorama abrangente da imprensa no País.

Também inovou contextualizando os episódios da sua história, explicando-os segundo as categorias típicas da análise marxista. O livro logo se tornou leitura básica das primeiras faculdades de jornalismo. A periodização estabelecida por Sodré para o desenvolvimento da imprensa brasileira artesanal e industrial continua vigente. Só agora vislumbramos uma terceira fase: a imprensa digital.

Freitas Nobre, jurisconsulto

José Freitas Nobre perfilou uma carreira multifacetada, como jornalista, advogado, sindicalista, político e acadêmico. Elegeu-se três vezes presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo. Vereador do Partido Socialista Brasileiro, foi cassado pelo regime militar e só retornaria à política pelo então MDB, como vereador e depois deputado federal. Na década de 60 dá início à carreira de professor universitário na Cásper Líbero e na ECA-USP (da qual seria excluído no regime militar).

Doutora-se na França com uma tese sobre as implicações jurídicas do jornalismo em tempo de mídia eletrônica. Destacou-se pelos estudos sobre legislação e mídia.

Walter Sampaio, inovador

Jornalista, professor, empresário e educador. Já havia exercido funções de prestígio nos principais órgãos de rádio e televisão quando decidiu cursar jornalismo na ECA-USP, diplomando-se em 1970. Foi pioneiro ao lançar um manual didático sobre o jornalismo audiovisual no Rádio, TV e Cinema), adotado em universidades de todo o País. Foi professor da ECA-USP. Teve passagem marcante pela TV Cultura, onde formou uma equipe integrada por jovens jornalistas que lançou formatos inovadores no telejornalismo.

Octávio Frias, empreendedor

Octávio Frias de Oliveira é um empresário da comunicação que se notabilizou pela luta em defesa da liberdade de imprensa, viabilizando uma organização jornalística moderna, plural e independente. Traçou por conta própria sua trajetória profissional, optando pela iniciativa privada como espaço de atuação pública. Três aspectos sobressaem na sua conduta empresarial.

- jornalismo clivado pela cidadania assentado principalmente nas aspirações das camadas médias da população;
- superação do capitalismo selvagem na indústria midiática, desenvolvendo projetos em cooperação com outras empresas;
- fortalecimento da internacionalização comunicacional, projetando o Brasil no mercado de mídia digitalizada.

Em homenagem a essa trajetória, a Faculdades Integradas Alcântara Machado criaram a Cátedra de Jornalismo Octávio Frias de Oliveira cujo objetivo é ser um elo de ligação entre universidade e empresa.

Caminhos Cruzados

A trajetória jornalística de José Marques de Mello começa em 1959 em Maceió, Alagoas. Morador da pequena Santana do Ipanema, Marques de Melo era assíduo devorador dos livros da biblioteca local e se encantou com a conferência de Rui Barbosa intitulada A Imprensa e o dever da verdade. O texto evidenciou sua vocação para o jornalismo. Começou fazendo o jornal da escola e da União dos Estudantes Secundaristas de Alagoas, até propor trabalhar como correspondente no interior para a Gazeta de Alagoas, jornal que se modernizava. Relatava episódios de Santana do Ipanema.

Alguns criaram polêmicas na comunidade. Colaborou no Jornal de Alagoas e depois foi estudar jornalismo na Universidade Católica de Pernambuco, sem deixar de lado a atividade profissional em jornais regionais. Engajou-se na implantação do Última Hora - Nordeste, desmantelado pelo golpe de 1964.

É depois dessa experiência abortada que seus caminhos se cruzam com o Jornal do Commercio. Iniciou a carreira como repórter free lancer. Uma de suas reportagens, escrita em 1964, sobre o desmonte das ferrovias deficitárias, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo de 1963.

Apesar do bom desempenho como repórter, Marques de Melo era fascinado pela atividade de pesquisa, pela qual optou. Criou um departamento de pesquisa no Instituto de Ciências da Informação da Universidade Católica de Pernambuco, onde fora contratado como professor. O Jornal do Commercio foi um dos primeiros clientes do instituto, com uma pesquisa sobre as demandas de seu público leitor. Os primeiros projetos de pesquisa de Marques de Melo, em sua mudança para São Paulo, foram orientados para respaldar decisões editoriais da Editora Abril e Folha de São Paulo e outras empresas midiáticas.

EVIDÊNCIAS
Jornalismo Esportivo

A mídia e o esporte se entrecruzam quando o segundo se converte em conteúdo do primeiro. Ou melhor, quando o esporte supera o âmbito do lazer individual ou grupal e se torna uma atividade coletiva, perfilando o universo do lazer de massas. Esse fenômeno híbrido pode ser denominado esporte midiático, embora seja mais conhecido pelo rótulo de comunicação esportiva.

O esporte midiático assimila e reproduz a "cultura dos praticantes" (exercícios físicos) e a "cultura dos espectadores" (os aficionados). Na comunicação de massa, o jornalismo esportivo tem conteúdos de informação, persuasão, instrução e diversão. Três pesquisas elaboradas por Marques de Melo, nos anos 60 e 90 mostram que o esporte se constitui em temática relevante nos jornais diários, suscitando maior interesse nos micro-regionais ou locais do que nos metropolitanos ou de prestígio nacional/regional.

Radiojornalismo

O pioneirismo das transmissões radiofônicas é disputado pelo Rio de Janeiro e Pernambuco. Não obstante o rádio brasileiro tenha dado seus primeiros passos nas primeiras décadas do século XX, seu desenvolvimento como meio de comunicação de massa só se daria nos anos 40, quando o Brasil faz sua alavancagem industrial.

É nessa conjuntura que se converte em veículo jornalístico. Até então, os locutores liam as notícias dos jornais. O Repórter Esso, que permanece no ar de 1941 a 1968, ocupa espaço especial de informador coletivo para todo o território nacional. Era fonte privilegiada de atualidades e modelador da opinião pública.

Telejornalismo

Ao discorrer sobre o desconforto didático de profissionais gabaritados, com sólida experiência profissional, mas que só sabem ensinar fazendo, Marques de Melo dá um exemplo oposto; o do jornalista Nivaldo Marangoni. Profissional de prestígio na Rede Globo, ele optou pela carreira de docente. Inscreveu-se no mestrado e, dessa maneira, ampliou o referencial prático assimilado na empresa com as lições teóricas. O resultado prático foi o livro Televisão: fácil de ver, difícil de fazer, o qual contém ensinamentos úteis para os ingressantes no telejornalismo.

Mulher jornalista

Um fenômeno mundial do jornalismo: a profissão está se tornando majoritariamente feminina. No Brasil, as mulheres são maioria nos cursos de Jornalismo. A porta de entrada da mulher no mercado de trabalho foi a universidade. Com a reserva de mercado de trabalho para os diplomados, a mulher beneficiou-se enormemente, passando a ocupar espaços de homens que seguiam para outras carreiras.

Artigo Científico

Em sua tese sobre a Comunicação Científica, Maria das Graças Targino observa que o artigo ocupa lugar hegemônico. Trata-se de uma forma de expressão legitimada pela comunidade acadêmica individual, unidade de referência para aferir a produtividade individual e o reconhecimento coletivo dos produtores de ciência e tecnologia. Ele não se confunde com o artigo jornalístico, pois tem uma estrutura mais rígida, correspondendo às etapas da pesquisa científica e buscando convencer o leitor pelas evidências observadas a partir de hipóteses.

Targino conclui que o artigo científico é majoritariamente de autoria coletiva, escrito em português publicado em periódicos com os quais o cientista vê maior afinidade temática; 71% dos cientistas assinam periódicos científicos; os pesquisadores brasileiros recorrem a eles pela necessidade de atualização profissional.

Entrevista jornalística

Dentre os formatos jornalísticos que integram o gênero informativo, no âmbito da mídia impressa, a entrevista é o único que reúne a um só tempo intenção dialógica e função mediadora. Em sua tese de livre docência na ECA-USP, Marques de Melo constatou que a entrevista adquire formato autônomo quando se converte em relato que privilegia um ou mais protagonistas do acontecer, possibilitando-lhes um contato direto com a coletividade. O estudo serviu como ponto de partida para uma pesquisa empírica, em 1985, com alunos da pós-graduação da ECA-USP sobre gêneros jornalísticos.

A entrevista resgata o diálogo no universo monológico dos meios massivos. No entanto, sua maior virtude como formato jornalístico do gênero informativo é sua capacidade de resgate da voz das ruas.O entrevistador, mais do que testemunha das novidades, é um mediador social. Marques de Melo cita duas grandes jornalistas-entrevistadores com técnicas distintas: a italiana Oriana Falacci, que busca a aproximação com o entrevistado, mas mantém uma situação de confronto, e a boliviana Fátima Molina. Esta, embora também procure a aproximação, impõe-se com suavidade.

POLÊMICAS

Exclusão midiática

Dois fatores são decisivos para o fenômeno da comunicação de massa: a ampliação das oportunidades educacionais, multiplicando o contingente de leitores e a elevação do poder aquisitivo, permitindo aos trabalhadores da indústria o consumo de bens simbólicos. O pano de fundo é a pujança a democracia representativa.

Com o rádio e a TV, as camadas mais pobres passaram a te acesso a informações, produtos culturais e o lazer que esses veículos proporcionam. O impacto dos veículos sonoros e audiovisuais é, portanto, enorme nas sociedades periféricas. A televisão é o veículo que monopoliza a atenção dos consumidores. Pesquisas mostram que o hábito de ver TV está associado ao tempo que as pessoas permanecem em casa. As crianças permanecem mais tempo diante do aparelho, seguidas das mulheres. As classes Ce D, por terem menor oportunidade de lazer, vêem mais TV.

Numa análise sobre o tempo dedicado à TV e à leitura, é possível afirmar que a leitura impressa se beneficia muito do prévio contato que os consumidores culturais tiveram com as versões audiovisuais. Principalmente nas sociedades em que a maioria da população não foi cativada para o prazer estético da leitura literária ou o desafio reflexivo da leitura científica.

Cultura do silêncio

A imprensa alternou profundamente a marcha das civilizações ao instaurar a cidadania, criando as condições indispensáveis para o surgimento das sociedades democráticas.

O sociólogo canadense Marshall McLuhan aponta três efeitos da cultura tipográfica: individualismo (cidadania), nacionalismo (Estados independentes) e espírito de crítica (opinião pública).

É no bojo das democracias construídas pela Revolução Norte-Americana e Revolução Francesa que a liberdade de imprensa ganha legitimidade política. O Brasil permaneceu no regime de censura prévia até 1820, quando a Revolução do Porto estabelece a liberdade de impressão. No século XX houve instantes dramáticos para a imprensa, como o período do Estado Novo e o ciclo militar pós-1964 que perdurou até a Constituição de 1988.

No entanto, a liberdade de imprensa no Brasil constitui um privilégio das elites. Persiste a cultura do silêncio. A maioria da população brasileira, hoje, permanece muda, pela inibição cultural e pela carência educacional a que foi condenada pelas elites. A crise nacional da leitura de jornais expressa esse abismo. Enquanto a população cresceu mais de 200% de 1950 a 2000, a tiragem diária de jornais aumentou apenas 40%. O número de usuários da Internet não ultrapassa o patamar dos 10 milhões de habitantes, que correspondem aproximadamente àqueles que têm o hábito de ler jornais.

A exclusão comunicacional constitui sério risco para a estabilidade democrática e naturalmente, a governabilidade.

Brecha digital

A Exclusão digital é uma mera projeção da exclusão cultural e tem origem na exclusão sócio-econômica. Nesse contexto, a tarefa dos jornalistas é a de produzir conteúdos de boa qualidade, conteúdos sintonizados com as demandas dos excluídos. Não adianta ficarmos na disponibilização de dados, equipamentos, tecnologias. Urge incrementar os processos cognitivos em toda a população.

A sociedade da informação tem atuado como instrumento que amplia o distanciamento entre classes e povos. No Brasil, a muralha digital pode ser exemplificada com a Internet: da população, apenas 7% são de usuários. Aqui está o mapa da exclusão. Para construir a sociedade do conhecimento no Brasil, em primeiro lugar é preciso saldar a dívida social. Vinculada a ela está a dívida educacional, o déficit das telecomunicações e o déficit cultural.

Gueto acadêmico

Os programas universitários de formação de comunicadores desenvolvem-se na América Latina paralelamente ao processo de industrialização. São cursos projetados com vocação profissionalizante, mas que se afastam desse objetivo, contaminados pelo ambiente livresco e discursivo das universidades. As exceções são os cursos iniciados no Brasil e na Venezuela.

No Brasil, o primeiro curso de Jornalismo, o da Cásper Líbero, já nasceu por iniciativa de uma poderosa empresa do setor que facultava o acesso dos estudantes à sua infra-estrutura produtiva.

O Ciespal - Centro Internacional de Estudos Superiores de Periodismo para a América Latina - cumpriu um papel importante, modernizador e multiplicador, disseminando conceitos1 e instrumentos de ação. Mas o Ciespal cometeu o equívoco de transformar as pioneiras escolas de jornalismo em faculdades de ciências da informação, propondo um modelo curricular polivalente que conflitava com as tendências industriais de especialização profissional. Com isso, as escolas se distanciaram do mercado de trabalho.

O aspecto diferenciador da educação brasileira está no requisito de que as faculdades tenham laboratórios e equipamentos para treinamento dos estudantes e editem jornais e boletins.

A exigência de diploma para o exercício da profissão criou uma reserva de mercado que levou à expansão dos cursos nos anos 80 e 90 em todo o País. Mas permanece a deficiência fundamental da nova geração de jornalistas do Brasil: o embasamento humanístico e científico que habilita o profissional a entender a sociedade e a registrar os seus movimentos cotidianos.

Descompasso histórico

As tensões entre a Universidade e o Jornalismo decorrem do descompasso entre a lentidão da vida universitária (cujo rigor cognitivo pressupõe maturidade analítica) e o ritmo veloz da atividade noticiosa ( cujo desafio permanente é o de converter-se em espelho da vida cotidiana).

Como as empresas necessitavam de recursos humanos capacitados, criaram-se nos EUA no início do século XX dois modelos de escolas de jornalismo: o da Universidade do Missouri, que se ancorou no pragmatismo pedagógico (aprender fazendo). Mantinha um jornal que abastecia a comunidade local de notícias e buscava auto-sustentação financeira.

A Universidade de Columbia, em Nova York, tinha a intenção de formar jornalistas especializados, capacitando graduados em outro curso universitário, os quais recebiam o título de Mestre. Nos EUA, o passaporte para a profissão pode ser, então, o bacharelado ou o mestrado.

No Brasil, antes da criação de escolas de jornalismo, as faculdades de Direito foram as primeiras a oferecer disciplinas voltadas para a retórica verbal e a argumentação jornalística. Depois, as universidades católicas organizaram cursos intensivos ou colóquios filosóficos centrados na ética. Em 1947 foi criado o primeiro curso de formação profissional, o da Faculdade Cásper Líbero, mas somente nos anos 60 as empresas começam a recrutar formandos das universidades para estágios.

Mas, com a supressão da autonomia dos cursos de jornalismo, então transformados em apêndices da Comunicação Social, o próprio Jornalismo perdeu identidade. O fosso entre universidade e empresas persistiu e o jornalismo brasileiro padece de uma crônica endemia.

Entre as saídas possíveis está a reconquista da identidade dos cursos. É preciso reforçar o perfil profissionalizante do currículo da graduação e resgatar a interdisciplinaridade com as outras áreas do saber (filosofia, artes, ciências). Também é urgente restaurar o estágio nas empresas, abrir espaço para programas de pós-graduação no âmbito do jornalismo especializado e preparar os jovens para compreender o jornalismo como um negócio (sem perder o caráter de serviço público).

Crise de identidade

A pesquisa dos fenômenos jornalísticos adquire intensidade nesta conjuntura de transição milenar. Evidência disso é o aparecimento de novos livros e revistas acadêmicas, novos cursos de pós-graduação, como o da Universidade Federal de Santa Catarina. Mas o desencanto e o pessimismo que marcam o início deste milênio também é visível nos estudos sobre as perspectivas da profissão. Três obras dos EUA, Europa e Brasil ilustram esse panorama.

Em El Ocaso del Periodismo, o jornalista espanhol Martinez Albertos constrói sua argumentação com base no determinismo tecnológico que avassala a produção jornalística contemporânea. Sua tese principal é que "a galáxia Marconi está derrotando em todas as frentes a galáxia Gutenberg". Ele preconiza a morte do meio impresso, da mensagem e do jornalismo, ou seja, dos produtores de notícias.

Já o jornalista norte-americano William Hatchem, em As Encrencas do Jornalismo, tem como preocupação principal os desvios mercadológicos, sobretudo a tendência de guiar-se pelos impulsos do mercado consumidor.

O jornalista brasileiro Juremir Machado da Silva, autor de A Miséria do Jornalismo - as Incertezas da Mídia, enfoca o conflito entre os empresários da mídia e os jornalistas, insolúvel, a seu ver, por culpa dos jornalistas, que padecem da dupla idiotice, tecnológica e ideológica: fazem o jogo dos patrões imaginando atuar contra eles.

Nos três diagnósticos perpassam o saudosismo, elitismo e ceticismo.
Restabelecer nos jornalistas o imaginário que os situa como agentes do interesse público, mediadores sociais ou educadores coletivos é uma missão irrenunciável da universidade.

Jornalismo de referência

O cientista francês Jacques Kayser organizou um arcabouço conceitual capaz de definir e compreender o jornalismo de referência. Ele agrupou o jornalismo diário segundo dois critérios:

- Territorialidade - jornais dotados de legitimidade internacional e jornais possuidores de credibilidade nacional;
- Política editorial - jornais oficiais jornais comerciais, jornais autônomos.

O pesquisador americano John C, Merrill o denomina de jornalismo de elite e o divide em: jornalismo de prestígio e jornalismo de qualidade.

Em seu estudo comparado de 17 grandes diários (1953), Kayser inclui apenas uma obra de referência brasileira, o jornal O Estado de S.Paulo pela importância da superfície impressa e seu conteúdo informativo. No inventário de Merrill (1970), o Estado também é mencionado como líder em prestígio e consistência informativa, mas ele destaca também como jornais de referência nacionais o Jornal do Brasil, O Jornal, Correio da Manhã e O Globo.

Jorge Fernández e seus colaboradores no CIESPAL confirmaram a liderança do Estado, em pesquisa de 1967 e citaram também como obra de referência o Correio da Manhã.

Num balanço com base nas obras de Juarez Bahia e Nelson Werneck Sodré, pode-se esboçar a seguinte periodização dos jornais de referência nacionais:

- Século XIX: Diário de Pernambuco e Jornal do Commercio; O País, Gazeta de Notícias e Jornal do Brasil; Correio Paulistano e A Província de São Paulo;
- Século XX: Jornal do Brasil e O Estado de S.Paulo, na virada do século. Correio da Manhã, Diário Carioca e Última Hora (nas décadas de 40 a 60); Jornal do Brasil, O Globo, Folha de S.Paulo e O Estado de S.Paulo;
- Século XXI: Jornal do Brasil, O Globo, Folha de São Paulo e O Estado de S.Paulo.

Um perfil editorial dos 4 jornais de referência do Brasil no fim do século passado e no limiar do novo milênio foi traçado pela Cátedra Unesco de Comunicação da Universidade Metodista de São Paulo, em 1996 e 2000, com um estudo comparativo do conteúdo jornalístico, gêneros jornalísticos e temáticas informativas desses diários.

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