|
Resenhas
Jornalismo
Brasileiro, de José Marques de Melo
Por
Maria Teresa de Souza
A
bibliografia brasileira do Jornalismo tem se caracterizado por
três vertentes:
-
a história factual dos sistemas informativos;
- o memorialismo dos seus protagonistas;
- a recuperação profissional / didática
das experiências peculiares a processos específicos.
Uma
corrente mais recente de estudos acadêmicos privilegia
a análise do discurso jornalístico ou esboça
o perfil sócio-político de determinadas conjunturas.
No
início do século XX, Barbosa Lima Sobrinho registra
a preocupação nacionalista dos legisladores brasileiros.
O viés patriótico se converte na tradição
dominante, impedindo até mesmo a participação
de estrangeiros na propriedade de empresas jornalísticas.
Profissionais como Danton Jobim e Alberto Dines buscaram estabelecer
uma sintonia entre as práticas do Jornalismo nacional
e as tendências nos centros europeus e americanos.
A
retomada modernizadora se dá com a redemocratização
do país, nos anos 80. Verifica-se que o Jornalismo Brasileiro
manteve nas últimas décadas do século XX
uma personalidade própria, ampliando suas relações
com outras sociedades e culturas, mas preservando sua singularidade,
conforme analisado por Carlos Eduardo Lins da Silva e Manuel
Chaparro.
A
identidade do jornalismo brasileiro constitui o cerne das investigações
de Marques de Melo na atual fase de maturidade acadêmica.
ITINERÁRIOS
Conhecimento Jornalístico
A
pesquisa sobre os fenômenos jornalísticos no Brasil
remonta à Segunda metade do século XIX. Seu enfoque
inicial são os meios de difusão (a tecnologia
de impressão de livros, jornais e revistas).
A
história do Jornalismo Brasileiro começa a ser
resgatada no Segundo Reinado, quando o regime do imperador Pedro
II garante ao País seu melhor período de liberdade
de imprensa.
Os
primeiros estudos buscam averiguar quem foram os pioneiros na
implantação da tipografia no Brasil e, mais tarde,
reconstituir a história da imprensa (com a preocupação
classificatória dos títulos). Barbosa Lima Sobrinho
será o primeiro a analisar o fenômeno jornalístico
na sociedade brasileira.
Nesse
processo, foram importantes: a obra de Gilberto Freire (apontando
metodologias comparativas), os grupos de estudo nas nascentes
Faculdades de Jornalismo nos anos 40; a criação
de periódicos acadêmicos e núcleos de pesquisa
dedicados às ciências da comunicação,
nos anos 50; a publicação, na mesma época,
dos Cadernos de Jornalismo pelo Jornal do Brasil; a Criação
do Departamento de Jornalismo da USP, na década de 60,
que forma os primeiros doutores em Jornalismo; experiências
acadêmicas em várias universidades nos anos 90
(UFSC, PUC-MG, UnB, Faculdade Cásper Líbero, Universidade
Metodista etc).
O
surgimento de vários núcleos de pesquisa em diversas
cidades e regiões do País converte a pesquisa
brasileira sobre jornalismo em atividade promissora. O lugar
onde se dá a convergência desses estudos é
a INTERCOM - Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares
da Comunicação, que acolhe os mais importantes
projetos em desenvolvimento nas universidades brasileiras.
Hipólito
da Costa, precursor
Hipólito
José da Costa fundou o primeiro jornal brasileiro, o
Correio Braziliense, em Londres, em junho de 1808, e foi reconhecido
como fundador do Jornalismo Brasileiro por projeto de lei aprovado
no governo de Fernando Henrique Cardoso. O Correio Braziliense
é considerado o jornal mais antigo do País, por
sua natureza independente e seu caráter noticioso.
Até
então, A Gazeta do Rio de Janeiro, um órgão
oficialista lançado em setembro de 1808 pelo frei Tibúrcio
José da Rocha era considerado o pioneiro pelo fato de
ter sido impressa no Brasil. A questão ainda é
controversa para os historiadores.
O
Correio Braziliense era um órgão político
pelo qual Hipólito da Costa se preocupou em divulgar
informações científicas e novas idéias
geradas na Europa e Estados Unidos. A serviço da Coroa
Portuguesa, antes ainda de fundar o jornal ele empreendeu uma
viagem pelos Estados Unidos com o objetivo de fazer um levantamento
de novas práticas agrícolas, plantas, inventos
e obras de infra-estrutura. Esses relatos feitos para o governo
português estão repletos de marcas do relato jornalístico,
que Hipólito da Costa desenvolveria anos depois no Correio
Braziliense. Essa atividade faz de Hipólito da Costa
o precursor do Jornalismo Científico no Brasil.
Rui
Barbosa, o polemista
A
atividade jornalística de Rui Barbosa era desenvolvida
como suporte para suas iniciativas parlamentares ou jurídicas.
Sua intervenção, na imprensa diária, se
caracteriza como um jornalismo de combate e se inicia em 1869-1869
nos jornais acadêmicos paulistas comprometidos com o abolicionismo.
Depois, ele viria a trabalhar na redação de jornais
baianos e cariocas e chegou a desempenhar cargos de direção.
Mas essa foi uma atividade intermitente, que ele nunca encarou
como prioritária nem como fonte de renda. Sua meta era
a política.
Jornal,
para Rui Barbosa,, era um instrumento para expressão
de suas idéias, promoção de campanhas cívicas
ou políticas, tribuna para a defesa de suas idéias.
Um de seus mais importantes escritos sobre o papel da imprensa
foi o texto de uma conferência, escrito em 1920: A Imprensa
e o Dever da Verdade, no qual destaca o papel de vigilância,
para isso necessitando de liberdade e responsabilidade. Foi
um árduo defensor do federalismo e da democracia e um
combatente feroz das oligarquias e da interferência dos
militares na vida política.
No
prefácio das Obras Completas de Rui Barbosa, Marques
de Melo destaca duas virtudes de seu Jornalismo: a capacidade
de argumentação, fascinando o leitor pela retórica
da sedução e do convencimento, e a atitude civilizada
com que desenvolveu suas campanhas e combates.
Werneck
Sodré, historiador
A
contribuição de Nelson Werneck Sodré à
historiografia nacional deve ser contabilizada não apenas
pela quantidade e variedade de estudos publicados, mas principalmente
pela linha interpretativa que adotou, ou seja, o materialismo
dialético.
Ele
publicou em 1966 o clássico História da Imprensa
no Brasil, a mais completa obra sobre o desenvolvimento da imprensa
em nosso país, analisando-a desde a etapa colonial e
o império, adentrando o período republicano, até
a década de 50. A obra foi a primeira que teceu um panorama
abrangente da imprensa no País.
Também
inovou contextualizando os episódios da sua história,
explicando-os segundo as categorias típicas da análise
marxista. O livro logo se tornou leitura básica das primeiras
faculdades de jornalismo. A periodização estabelecida
por Sodré para o desenvolvimento da imprensa brasileira
artesanal e industrial continua vigente. Só agora vislumbramos
uma terceira fase: a imprensa digital.
Freitas
Nobre, jurisconsulto
José
Freitas Nobre perfilou uma carreira multifacetada, como jornalista,
advogado, sindicalista, político e acadêmico. Elegeu-se
três vezes presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais
do Estado de São Paulo. Vereador do Partido Socialista
Brasileiro, foi cassado pelo regime militar e só retornaria
à política pelo então MDB, como vereador
e depois deputado federal. Na década de 60 dá
início à carreira de professor universitário
na Cásper Líbero e na ECA-USP (da qual seria excluído
no regime militar).
Doutora-se
na França com uma tese sobre as implicações
jurídicas do jornalismo em tempo de mídia eletrônica.
Destacou-se pelos estudos sobre legislação e mídia.
Walter
Sampaio, inovador
Jornalista,
professor, empresário e educador. Já havia exercido
funções de prestígio nos principais órgãos
de rádio e televisão quando decidiu cursar jornalismo
na ECA-USP, diplomando-se em 1970. Foi pioneiro ao lançar
um manual didático sobre o jornalismo audiovisual no
Rádio, TV e Cinema), adotado em universidades de todo
o País. Foi professor da ECA-USP. Teve passagem marcante
pela TV Cultura, onde formou uma equipe integrada por jovens
jornalistas que lançou formatos inovadores no telejornalismo.
Octávio
Frias, empreendedor
Octávio
Frias de Oliveira é um empresário da comunicação
que se notabilizou pela luta em defesa da liberdade de imprensa,
viabilizando uma organização jornalística
moderna, plural e independente. Traçou por conta própria
sua trajetória profissional, optando pela iniciativa
privada como espaço de atuação pública.
Três aspectos sobressaem na sua conduta empresarial.
-
jornalismo clivado pela cidadania assentado principalmente nas
aspirações das camadas médias da população;
- superação do capitalismo selvagem na indústria
midiática, desenvolvendo projetos em cooperação
com outras empresas;
- fortalecimento da internacionalização comunicacional,
projetando o Brasil no mercado de mídia digitalizada.
Em
homenagem a essa trajetória, a Faculdades Integradas
Alcântara Machado criaram a Cátedra de Jornalismo
Octávio Frias de Oliveira cujo objetivo é ser
um elo de ligação entre universidade e empresa.
Caminhos
Cruzados
A
trajetória jornalística de José Marques
de Mello começa em 1959 em Maceió, Alagoas. Morador
da pequena Santana do Ipanema, Marques de Melo era assíduo
devorador dos livros da biblioteca local e se encantou com a
conferência de Rui Barbosa intitulada A Imprensa e o dever
da verdade. O texto evidenciou sua vocação para
o jornalismo. Começou fazendo o jornal da escola e da
União dos Estudantes Secundaristas de Alagoas, até
propor trabalhar como correspondente no interior para a Gazeta
de Alagoas, jornal que se modernizava. Relatava episódios
de Santana do Ipanema.
Alguns
criaram polêmicas na comunidade. Colaborou no Jornal de
Alagoas e depois foi estudar jornalismo na Universidade Católica
de Pernambuco, sem deixar de lado a atividade profissional em
jornais regionais. Engajou-se na implantação do
Última Hora - Nordeste, desmantelado pelo golpe de 1964.
É
depois dessa experiência abortada que seus caminhos se
cruzam com o Jornal do Commercio. Iniciou a carreira como repórter
free lancer. Uma de suas reportagens, escrita em 1964, sobre
o desmonte das ferrovias deficitárias, ganhou o Prêmio
Esso de Jornalismo de 1963.
Apesar
do bom desempenho como repórter, Marques de Melo era
fascinado pela atividade de pesquisa, pela qual optou. Criou
um departamento de pesquisa no Instituto de Ciências da
Informação da Universidade Católica de
Pernambuco, onde fora contratado como professor. O Jornal do
Commercio foi um dos primeiros clientes do instituto, com uma
pesquisa sobre as demandas de seu público leitor. Os
primeiros projetos de pesquisa de Marques de Melo, em sua mudança
para São Paulo, foram orientados para respaldar decisões
editoriais da Editora Abril e Folha de São Paulo e outras
empresas midiáticas.
EVIDÊNCIAS
Jornalismo Esportivo
A
mídia e o esporte se entrecruzam quando o segundo se
converte em conteúdo do primeiro. Ou melhor, quando o
esporte supera o âmbito do lazer individual ou grupal
e se torna uma atividade coletiva, perfilando o universo do
lazer de massas. Esse fenômeno híbrido pode ser
denominado esporte midiático, embora seja mais conhecido
pelo rótulo de comunicação esportiva.
O
esporte midiático assimila e reproduz a "cultura
dos praticantes" (exercícios físicos) e a
"cultura dos espectadores" (os aficionados). Na comunicação
de massa, o jornalismo esportivo tem conteúdos de informação,
persuasão, instrução e diversão.
Três pesquisas elaboradas por Marques de Melo, nos anos
60 e 90 mostram que o esporte se constitui em temática
relevante nos jornais diários, suscitando maior interesse
nos micro-regionais ou locais do que nos metropolitanos ou de
prestígio nacional/regional.
Radiojornalismo
O
pioneirismo das transmissões radiofônicas é
disputado pelo Rio de Janeiro e Pernambuco. Não obstante
o rádio brasileiro tenha dado seus primeiros passos nas
primeiras décadas do século XX, seu desenvolvimento
como meio de comunicação de massa só se
daria nos anos 40, quando o Brasil faz sua alavancagem industrial.
É
nessa conjuntura que se converte em veículo jornalístico.
Até então, os locutores liam as notícias
dos jornais. O Repórter Esso, que permanece no ar de
1941 a 1968, ocupa espaço especial de informador coletivo
para todo o território nacional. Era fonte privilegiada
de atualidades e modelador da opinião pública.
Telejornalismo
Ao
discorrer sobre o desconforto didático de profissionais
gabaritados, com sólida experiência profissional,
mas que só sabem ensinar fazendo, Marques de Melo dá
um exemplo oposto; o do jornalista Nivaldo Marangoni. Profissional
de prestígio na Rede Globo, ele optou pela carreira de
docente. Inscreveu-se no mestrado e, dessa maneira, ampliou
o referencial prático assimilado na empresa com as lições
teóricas. O resultado prático foi o livro Televisão:
fácil de ver, difícil de fazer, o qual contém
ensinamentos úteis para os ingressantes no telejornalismo.
Mulher
jornalista
Um
fenômeno mundial do jornalismo: a profissão está
se tornando majoritariamente feminina. No Brasil, as mulheres
são maioria nos cursos de Jornalismo. A porta de entrada
da mulher no mercado de trabalho foi a universidade. Com a reserva
de mercado de trabalho para os diplomados, a mulher beneficiou-se
enormemente, passando a ocupar espaços de homens que
seguiam para outras carreiras.
Artigo
Científico
Em
sua tese sobre a Comunicação Científica,
Maria das Graças Targino observa que o artigo ocupa lugar
hegemônico. Trata-se de uma forma de expressão
legitimada pela comunidade acadêmica individual, unidade
de referência para aferir a produtividade individual e
o reconhecimento coletivo dos produtores de ciência e
tecnologia. Ele não se confunde com o artigo jornalístico,
pois tem uma estrutura mais rígida, correspondendo às
etapas da pesquisa científica e buscando convencer o
leitor pelas evidências observadas a partir de hipóteses.
Targino
conclui que o artigo científico é majoritariamente
de autoria coletiva, escrito em português publicado em
periódicos com os quais o cientista vê maior afinidade
temática; 71% dos cientistas assinam periódicos
científicos; os pesquisadores brasileiros recorrem a
eles pela necessidade de atualização profissional.
Entrevista
jornalística
Dentre
os formatos jornalísticos que integram o gênero
informativo, no âmbito da mídia impressa, a entrevista
é o único que reúne a um só tempo
intenção dialógica e função
mediadora. Em sua tese de livre docência na ECA-USP, Marques
de Melo constatou que a entrevista adquire formato autônomo
quando se converte em relato que privilegia um ou mais protagonistas
do acontecer, possibilitando-lhes um contato direto com a coletividade.
O estudo serviu como ponto de partida para uma pesquisa empírica,
em 1985, com alunos da pós-graduação da
ECA-USP sobre gêneros jornalísticos.
A
entrevista resgata o diálogo no universo monológico
dos meios massivos. No entanto, sua maior virtude como formato
jornalístico do gênero informativo é sua
capacidade de resgate da voz das ruas.O entrevistador, mais
do que testemunha das novidades, é um mediador social.
Marques de Melo cita duas grandes jornalistas-entrevistadores
com técnicas distintas: a italiana Oriana Falacci, que
busca a aproximação com o entrevistado, mas mantém
uma situação de confronto, e a boliviana Fátima
Molina. Esta, embora também procure a aproximação,
impõe-se com suavidade.
POLÊMICAS
Exclusão
midiática
Dois
fatores são decisivos para o fenômeno da comunicação
de massa: a ampliação das oportunidades educacionais,
multiplicando o contingente de leitores e a elevação
do poder aquisitivo, permitindo aos trabalhadores da indústria
o consumo de bens simbólicos. O pano de fundo é
a pujança a democracia representativa.
Com
o rádio e a TV, as camadas mais pobres passaram a te
acesso a informações, produtos culturais e o lazer
que esses veículos proporcionam. O impacto dos veículos
sonoros e audiovisuais é, portanto, enorme nas sociedades
periféricas. A televisão é o veículo
que monopoliza a atenção dos consumidores. Pesquisas
mostram que o hábito de ver TV está associado
ao tempo que as pessoas permanecem em casa. As crianças
permanecem mais tempo diante do aparelho, seguidas das mulheres.
As classes Ce D, por terem menor oportunidade de lazer, vêem
mais TV.
Numa
análise sobre o tempo dedicado à TV e à
leitura, é possível afirmar que a leitura impressa
se beneficia muito do prévio contato que os consumidores
culturais tiveram com as versões audiovisuais. Principalmente
nas sociedades em que a maioria da população não
foi cativada para o prazer estético da leitura literária
ou o desafio reflexivo da leitura científica.
Cultura
do silêncio
A
imprensa alternou profundamente a marcha das civilizações
ao instaurar a cidadania, criando as condições
indispensáveis para o surgimento das sociedades democráticas.
O
sociólogo canadense Marshall McLuhan aponta três
efeitos da cultura tipográfica: individualismo (cidadania),
nacionalismo (Estados independentes) e espírito de crítica
(opinião pública).
É
no bojo das democracias construídas pela Revolução
Norte-Americana e Revolução Francesa que a liberdade
de imprensa ganha legitimidade política. O Brasil permaneceu
no regime de censura prévia até 1820, quando a
Revolução do Porto estabelece a liberdade de impressão.
No século XX houve instantes dramáticos para a
imprensa, como o período do Estado Novo e o ciclo militar
pós-1964 que perdurou até a Constituição
de 1988.
No
entanto, a liberdade de imprensa no Brasil constitui um privilégio
das elites. Persiste a cultura do silêncio. A maioria
da população brasileira, hoje, permanece muda,
pela inibição cultural e pela carência educacional
a que foi condenada pelas elites. A crise nacional da leitura
de jornais expressa esse abismo. Enquanto a população
cresceu mais de 200% de 1950 a 2000, a tiragem diária
de jornais aumentou apenas 40%. O número de usuários
da Internet não ultrapassa o patamar dos 10 milhões
de habitantes, que correspondem aproximadamente àqueles
que têm o hábito de ler jornais.
A
exclusão comunicacional constitui sério risco
para a estabilidade democrática e naturalmente, a governabilidade.
Brecha
digital
A
Exclusão digital é uma mera projeção
da exclusão cultural e tem origem na exclusão
sócio-econômica. Nesse contexto, a tarefa dos jornalistas
é a de produzir conteúdos de boa qualidade, conteúdos
sintonizados com as demandas dos excluídos. Não
adianta ficarmos na disponibilização de dados,
equipamentos, tecnologias. Urge incrementar os processos cognitivos
em toda a população.
A
sociedade da informação tem atuado como instrumento
que amplia o distanciamento entre classes e povos. No Brasil,
a muralha digital pode ser exemplificada com a Internet: da
população, apenas 7% são de usuários.
Aqui está o mapa da exclusão. Para construir a
sociedade do conhecimento no Brasil, em primeiro lugar é
preciso saldar a dívida social. Vinculada a ela está
a dívida educacional, o déficit das telecomunicações
e o déficit cultural.
Gueto
acadêmico
Os
programas universitários de formação de
comunicadores desenvolvem-se na América Latina paralelamente
ao processo de industrialização. São cursos
projetados com vocação profissionalizante, mas
que se afastam desse objetivo, contaminados pelo ambiente livresco
e discursivo das universidades. As exceções são
os cursos iniciados no Brasil e na Venezuela.
No
Brasil, o primeiro curso de Jornalismo, o da Cásper Líbero,
já nasceu por iniciativa de uma poderosa empresa do setor
que facultava o acesso dos estudantes à sua infra-estrutura
produtiva.
O
Ciespal - Centro Internacional de Estudos Superiores de Periodismo
para a América Latina - cumpriu um papel importante,
modernizador e multiplicador, disseminando conceitos1 e instrumentos
de ação. Mas o Ciespal cometeu o equívoco
de transformar as pioneiras escolas de jornalismo em faculdades
de ciências da informação, propondo um modelo
curricular polivalente que conflitava com as tendências
industriais de especialização profissional. Com
isso, as escolas se distanciaram do mercado de trabalho.
O
aspecto diferenciador da educação brasileira está
no requisito de que as faculdades tenham laboratórios
e equipamentos para treinamento dos estudantes e editem jornais
e boletins.
A
exigência de diploma para o exercício da profissão
criou uma reserva de mercado que levou à expansão
dos cursos nos anos 80 e 90 em todo o País. Mas permanece
a deficiência fundamental da nova geração
de jornalistas do Brasil: o embasamento humanístico e
científico que habilita o profissional a entender a sociedade
e a registrar os seus movimentos cotidianos.
Descompasso
histórico
As
tensões entre a Universidade e o Jornalismo decorrem
do descompasso entre a lentidão da vida universitária
(cujo rigor cognitivo pressupõe maturidade analítica)
e o ritmo veloz da atividade noticiosa ( cujo desafio permanente
é o de converter-se em espelho da vida cotidiana).
Como
as empresas necessitavam de recursos humanos capacitados, criaram-se
nos EUA no início do século XX dois modelos de
escolas de jornalismo: o da Universidade do Missouri, que se
ancorou no pragmatismo pedagógico (aprender fazendo).
Mantinha um jornal que abastecia a comunidade local de notícias
e buscava auto-sustentação financeira.
A Universidade de Columbia, em Nova York, tinha a intenção
de formar jornalistas especializados, capacitando graduados
em outro curso universitário, os quais recebiam o título
de Mestre. Nos EUA, o passaporte para a profissão pode
ser, então, o bacharelado ou o mestrado.
No
Brasil, antes da criação de escolas de jornalismo,
as faculdades de Direito foram as primeiras a oferecer disciplinas
voltadas para a retórica verbal e a argumentação
jornalística. Depois, as universidades católicas
organizaram cursos intensivos ou colóquios filosóficos
centrados na ética. Em 1947 foi criado o primeiro curso
de formação profissional, o da Faculdade Cásper
Líbero, mas somente nos anos 60 as empresas começam
a recrutar formandos das universidades para estágios.
Mas,
com a supressão da autonomia dos cursos de jornalismo,
então transformados em apêndices da Comunicação
Social, o próprio Jornalismo perdeu identidade. O fosso
entre universidade e empresas persistiu e o jornalismo brasileiro
padece de uma crônica endemia.
Entre
as saídas possíveis está a reconquista
da identidade dos cursos. É preciso reforçar o
perfil profissionalizante do currículo da graduação
e resgatar a interdisciplinaridade com as outras áreas
do saber (filosofia, artes, ciências). Também é
urgente restaurar o estágio nas empresas, abrir espaço
para programas de pós-graduação no âmbito
do jornalismo especializado e preparar os jovens para compreender
o jornalismo como um negócio (sem perder o caráter
de serviço público).
Crise
de identidade
A
pesquisa dos fenômenos jornalísticos adquire intensidade
nesta conjuntura de transição milenar. Evidência
disso é o aparecimento de novos livros e revistas acadêmicas,
novos cursos de pós-graduação, como o da
Universidade Federal de Santa Catarina. Mas o desencanto e o
pessimismo que marcam o início deste milênio também
é visível nos estudos sobre as perspectivas da
profissão. Três obras dos EUA, Europa e Brasil
ilustram esse panorama.
Em
El Ocaso del Periodismo, o jornalista espanhol Martinez Albertos
constrói sua argumentação com base no determinismo
tecnológico que avassala a produção jornalística
contemporânea. Sua tese principal é que "a
galáxia Marconi está derrotando em todas as frentes
a galáxia Gutenberg". Ele preconiza a morte do meio
impresso, da mensagem e do jornalismo, ou seja, dos produtores
de notícias.
Já
o jornalista norte-americano William Hatchem, em As Encrencas
do Jornalismo, tem como preocupação principal
os desvios mercadológicos, sobretudo a tendência
de guiar-se pelos impulsos do mercado consumidor.
O
jornalista brasileiro Juremir Machado da Silva, autor de A Miséria
do Jornalismo - as Incertezas da Mídia, enfoca o conflito
entre os empresários da mídia e os jornalistas,
insolúvel, a seu ver, por culpa dos jornalistas, que
padecem da dupla idiotice, tecnológica e ideológica:
fazem o jogo dos patrões imaginando atuar contra eles.
Nos
três diagnósticos perpassam o saudosismo, elitismo
e ceticismo.
Restabelecer nos jornalistas o imaginário que os situa
como agentes do interesse público, mediadores sociais
ou educadores coletivos é uma missão irrenunciável
da universidade.
Jornalismo
de referência
O
cientista francês Jacques Kayser organizou um arcabouço
conceitual capaz de definir e compreender o jornalismo de referência.
Ele agrupou o jornalismo diário segundo dois critérios:
-
Territorialidade - jornais dotados de legitimidade internacional
e jornais possuidores de credibilidade nacional;
- Política editorial - jornais oficiais jornais comerciais,
jornais autônomos.
O
pesquisador americano John C, Merrill o denomina de jornalismo
de elite e o divide em: jornalismo de prestígio e jornalismo
de qualidade.
Em
seu estudo comparado de 17 grandes diários (1953), Kayser
inclui apenas uma obra de referência brasileira, o jornal
O Estado de S.Paulo pela importância da superfície
impressa e seu conteúdo informativo. No inventário
de Merrill (1970), o Estado também é mencionado
como líder em prestígio e consistência informativa,
mas ele destaca também como jornais de referência
nacionais o Jornal do Brasil, O Jornal, Correio da Manhã
e O Globo.
Jorge
Fernández e seus colaboradores no CIESPAL confirmaram
a liderança do Estado, em pesquisa de 1967 e citaram
também como obra de referência o Correio da Manhã.
Num
balanço com base nas obras de Juarez Bahia e Nelson Werneck
Sodré, pode-se esboçar a seguinte periodização
dos jornais de referência nacionais:
-
Século XIX: Diário de Pernambuco e Jornal do Commercio;
O País, Gazeta de Notícias e Jornal do Brasil;
Correio Paulistano e A Província de São Paulo;
- Século XX: Jornal do Brasil e O Estado de S.Paulo,
na virada do século. Correio da Manhã, Diário
Carioca e Última Hora (nas décadas de 40 a 60);
Jornal do Brasil, O Globo, Folha de S.Paulo e O Estado de S.Paulo;
- Século XXI: Jornal do Brasil, O Globo, Folha de São
Paulo e O Estado de S.Paulo.
Um
perfil editorial dos 4 jornais de referência do Brasil
no fim do século passado e no limiar do novo milênio
foi traçado pela Cátedra Unesco de Comunicação
da Universidade Metodista de São Paulo, em 1996 e 2000,
com um estudo comparativo do conteúdo jornalístico,
gêneros jornalísticos e temáticas informativas
desses diários.
Voltar
|