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Resenhas
Um
mosaico provocativo e
construtivo do jornalismo brasileiro
Por
Lourdes Maria Alvarez Rivera*
O
ano de 2003 pode ser considerado como um ano de ouro em se tratando
de obras referenciais sobre o registro histórico da imprensa
do Brasil. Pela segunda vez no mesmo ano, o emérito professor,
pesquisador, escritor e doutor em Jornalismo, José Marques
de Melo, brinda não só o mundo acadêmico,
como o público em geral, com mais um livro em que aborda,
de forma simples na linguagem, porém, rica em conteúdo,
mais alguns capítulos sobre a história do Jornalismo
tupiniquim.
Desta
vez trata-se de "Jornalismo Brasileiro", publicado
em agosto pela Editora Sulina. Ainda cheirando à tinta,
o livro pode ser saboreado por qualquer uma das partes que o
integram. Além da Apresentação, em que
o autor justifica a reunião do conjunto de textos, ensaios,
palestras e resenhas escritas nos últimos dez anos que
resultou no livro, e convida os profissionais extra-muros acadêmicos
a compartilhar e discutir os temas ali apresentados, o leitor
poderá escolher se deseja iniciar sua viagem pelo Jornalismo
Brasileiro, por meio de "Itinerários", ou se
prefere descobrir "Evidências", ou ainda se
inteirar com "Polêmicas". Se preferir, pode
pular direto para o Jornalismo de Referência.
Pouco
importa. Cada uma das três partes em que se divide o livro,
subdivididas em capítulos, sacia a fome do saber acadêmico
ou ligo, em todos os níveis.
Se
o leitor optar por "Itinerários", que traça
um perfil histórico por meio da apresentação
da biografia dos ilustres do jornalismo nacional, terá
um encontro com Hipólito José da Costa, considerado
pai do Jornalismo brasileiro por sua trajetória à
frente do mensário Correio Braziliense entre 1808 e 1822,
jornal político pioneiro em publicar artigos científicos
geralmente de origem européia. Melo aborda as controvérsias
que ainda cercam a história inacabada de Hipólito
José da Costa e chama a atenção para os
primeiros relatos feitos pelo jornalista em suas viagens pelo
mundo, considerados os primeiros registros de um jornalismo
científico até, então, inimaginável
para a época.
Em
seguida o autor nos brinda com um emocionante relato sobre Rui
Barbosa, com a declarada intenção de lançar
a curiosa dúvida: Rui Barbosa foi jornalista combativo
porque era também político brilhante ou foi político
brilhante porque era jornalista combativo e preocupado com as
causas sociais desde os tempos do Movimento Abolicionista?
Caberá ao leitor a conclusão.
O
cearense Freitas Nobre também foi contemplado com referência
em Jornalismo Brasileiro, em que aparece por meio de sucinto,
porém, comovente perfil biográfico onde até
mesmo sua atuação como líder espírita
não foi omitida.
Marques
de Melo cita ainda outros dois ícones da imprensa nacional
contemporânea:Walter Sampaio, que chegou a ocupar o cargo
mais importante da empresa jornalística Rádio
e Tv Tupi de São Paulo, dos Diários Associados
de Assis Chateaubriand, e Octávio Frias, proprietário
do jornal Folha de São Paulo, já falecido, chamado
pelo mestre Marques de Melo "Bandeirante Midiático"
por sua luta intensa em defesa da liberdade de imprensa "viabilizando
uma organização jornalística moderna, plural
e independente" (p.100).
Em
"Caminhos Cruzados"Melo se auto-refencia relatando
suas experiências iniciáticas no mundo do jornalismo,
ainda jovem, em sua cidade natal no estado de Alagoas e, depois,
em Maceió, sob a influência do grande mentor Rui
Barbosa. Melo é modesto e cuidadoso na sua bordagem sobre
a trajetória profissional pessoal, sem porém,
esquecer de citar outros mestres que o influenciaram e seduziram,
conduzindo-o gradualmente, à trilha da pesquisa, como
foi o caso do professor Luiz Beltrão e outras figuras
ilustres da universidade Católica de Pernambuco onde
José Marques foi buscar embasamento teórico para
a prática que já dominava.
Nessa
capítulo, impressiona e cativa especialmente o relato
que o fundador da escola de Comunicações e artes
da Universidade de São Paulo faz do seu encontro com
Gregório de Bezerra, quando este regressa do exílio
forçado pelo regime militar.
Quando
o leitor adentar pelo mundo das "Evidências",
vai deparar-se com artigos e ensaios mornos, porém, enriquecedores
do conhecimento teórico sobre temas como Jornalismo esportivo,
Rádio e telejornalismo e Entrevista Jornalística.
Neste último, o autor revela discretamente, e só
aí o leitor terá acesso à essa informação,
que o "Perfil Intelectual do Autor", publicado no
final da obra à página 223 é, na verdade,
de autoria da jornalista boliviana Fátima Molina, a quem
Melo tece observações e comentários elogiosos
e apresenta como exemplo de uma boa entrevistadora.
Depois
desse pequeno "intervalo" o leitor toma fôlego
para penetrar em "Polêmicas", parte do livro
em que, como o próprio nome sugere, Marques de Melo reservou
e concentrou todo seu tom provocativo e, de maneira magistral,
encadeia e entrelaça temas diversos mantendo um único
fio condutor. Ele avisa, inclusive, no início do livro
e pede dispensáveis desculpas, que o leitor poderá
ter a sensação de já ter lido esse ou aquele
tema nos capítulos subsequentes.
É
que Melo, seguidamente, chama a atenção do leitor
- que provavelmente ele espera seja um futuro pesquisador, quem
sabe algum portador do vírus transmitido pela mosca azul
da pesquisa, como ele bem-humoradamente costuma se referir aos
iniciados no mundo acadêmico - para uma questão
crucial: o distanciamento dos meios midiáticos das camadas
mais populares da população ou, em outras palavras
a elitização dos meios de comunicação.
Seguidas
oportunidades o leitor vai estar frente a frente com bem colocadas
expressões que exploram esse assunto: acesso à
informação versus exclusão comunicacional.
Quando
melo fala de meios midiáticos não deixa de fora
a internet, mas leva a crer que o que de fato o preocupa é
a diminuição das tiragem dos jornais impressos
diários nos últimos anos, apesar do crescimento
da população, apesar do aumento da escolarização
e da elevação da renda e conseqüente capacidade
de consumo das camadas médias da população.
Melo,
provoca, instiga. Mexe com os brios de todas as esferas da sociedade
quando fala sobre distribuição de renda, quando
fala sobre déficit cultural - que só poderia ser
minorado com o barateamento dos livros, das revistas e dos jornais
- e, principalmente, quando questiona a Universidade e o seu
papel, comparando a Comunicação a setores do conhecimento
aplicado como a engenharia ou a medicina:
"Ou tem utilidade, ou não serve pra nada. Quer dizer,
nós devemos trabalhar com o conhecimento básico
produzido pelas disciplinas conexas como a história,
a sociologia, a economia. Mas o nosso campo, das ciências
da comunicação, é de conhecimento aplicado.
Ou a gente tem capacidade de gerar novos produtos, novos formatos,
ou vai continuar imutável ou até mesmo regredindo",
(p. 160) alerta o titular da Cátedra da Unesco de Comunicação
para o Desenvolvimento Regional e detentor de diversas distinções
honoríficas nacionais e internacionais.
Entretanto,
Marques de Melo deixou para o final, o mais provocativo e, talvez,
mais construtivo texto. Intitulado "Crise de Identidade",
Melo discorre sobre o perigo de os estudos sobre Jornalismo
desaparecerem; sobre o desânimo e o pessimismo da classe
de profissionais descritos pelos jornalistas Martinez Albertos
(espanhol), William A Hachten (norte-americano) e Juremir Machado
Silva (brasileiro); e os desafios que lança, notadamente
aos novos pesquisadores quando afirma:
"O jornalismo é, portanto, a principal forma de
conhecimento que permite aos cidadãos de qualquer sociedade
acompanhar, participar e influir na história do seu tempo".
A
semente está lançada. Resta saber se o solo está
preparado para a semeadura.
*Lourdes
Maria Alvarez Rivera é jornalista, mestranda em Jornalismo
Comparado pela Escola de Comunicações e Artes
da USP, com especialização em Teoria da Comunicação
pela Faculdade Cásper Líbero.
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