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Resenhas


Jornalismo brasileiro: composição multi-cultural
e a diversidade cultural brasileira

Por Carsten Bruder

O que é o Jornalismo Brasileiro? Uma pergunta que talvez seja difícil de formular sua resposta, como é a própria questão da identidade brasileira. Os motivos que levam a essa dificuldade são numerosos mesmo assim existe há algumas décadas uma tendência mais persistente de chegar a conclusão desta questão.

Um dos motivos para esta situação é o fato de que a pesquisa sobre este assunto só foi intensificada no Brasil nas últimas décadas. Mesmo assim foram estabelecidos alguns parâmetros importantes, os quais caracterizam bem o fenômeno do jornalismo no Brasil.

O jornalista e cientista Prof. José Marques de Mello optou em sua obra "Jornalismo Brasileiro" por explicar e comentar este fenômeno de maneira interessante.

Marques de Mello colocou à disposição do leitor algumas experiências importantes de sua própria vida profissional. São mais de quatro décadas de trabalho e experiências no jornalismo prático e acadêmico, quatro décadas estas em que o jornalista viveu períodos instáveis devido a processos políticos, econômicos e sociais.

A história dos "caminhos cruzados" como é chamado o capítulo que fala sobre a sua carreira, começa no final dos anos 50 quando o Brasil vive uma fase de grande movimentação econômica.

O país abria as portas para o capital estrangeiro e a nova capital Brasília começava a sua construção tendo como arquiteto Oscar Niemayer, neste mesmo período no fim dos anos 50, o Brasil vive momento histórico no futebol, ao conquistar o titulo de Campeão Mundial de Futebol na Suécia, na arte popular vivíamos uma grande fase de criação com o inicio do movimento da bossa nova no Rio de Janeiro, saindo da pequena cidade de Santana de Ipanema, interior de Alagoas, o autor dos seus primeiros passos no jornalismo ao escrever num "Jornal do Colégio Batista Alagoano", local comum onde os jornalistas começavam suas carreiras.

Romance investigativo

Nada muito fora do contexto normal até então, mas a partir deste momento a historia do autor confunde-se com um romance investigativo.

Por que investigativo? Porque o autor e o protagonista ao mesmo tempo, seguem uma busca permanente de sua própria identidade profissional, enfrentando desafios, ultrapassando limites, recuando em sua estratégia, sofrendo fortes pressões e perseguições, mas no final encontrando o seu objetivo.

Pensando na própria definição da identidade do jornalismo brasileiro, reconhecemos uma forte semelhança com a identidade do autor.

Quais são as semelhanças? Em primeiro lugar na história do jornalismo brasileiro encontramos várias influências. Antes da Segunda Guerra foram, principalmente, influências do velho continente que caracterizaram a formação do estilo do "Jornalismo Brasileiro", os Holandeses e depois os Portugueses, e principalmente os franceses contribuíram na construção de um paradigma nacional.

O autor enfatiza que esta influência, principalmente nos colonizadores portugueses, é inferior à influência espanhola nos países vizinhos.

A mesma análise também é utilizada em relação a influência Norte América na pós guerra

"(...) Segue muitos dos seus exemplos, às vezes tenta copiá-los acriticamente, quase sempre os adapta às suas características e conveniências mas em qualquer circunstância, resulta num produto diferente do modelo. (...) "

O Brasil é um caso diferente, comenta o economista Rüdiger Dornbusch, isso não vale só para a identidade do jornalismo como para o processo de socialização do país, um país influenciado por várias culturas, idéias e conseqüentemente vários valores.

Essa composição multi-cultural dificulta de um lado a definição de um modelo único, mas abre espaços para a definição de uma idéia mais diversa.

Jornalismo brasileiro: composição multi-cultural e a diversidade
cultural brasileira

Uma idéia que ganha mais destaque ainda quando se leva em consideração o atual debate sobre a globalização da comunicação. Uma das principais preocupações dentro deste debate é a conservação da diversidade cultural, incluindo a comunicação e, mais especificamente, o jornalismo. A evolução tecnológica nesta área, que traz mudanças graves na estrutura dela, facilitará as possibilidades na comunicação global no futuro. No outro lado, pode danificar, no mesmo tempo, exatamente esta diversidade cultural que faz parte da característica de cada país ou de cada região.

Mais por isto é importante conhecer as suas próprias raízes ou, neste caso "a cara" do seu entendimento, o seu conceito de jornalismo. Neste conteúdo, o autor Marques de Melo cita dois cientistas importantes na busca para uma definição da identidade brasileira: Gilberto Freire e Darcy Ribeiro. Ambos conseguiram desenhar um perfil do povo brasileiro de uma maneira complexa.

O primeiro com a sua obra inédita Casa Grande & Senzala que foi lançada em 1933. O outro concluiu uma série de pesquisas que terminaram na década passada e foram publicadas na obra O Povo Brasileiro. A riqueza destas obras possibilitou uma continuação da pesquisa na área do jornalismo.

Pioneiros

Marques de Melo mostra também a evolução na área da pesquisa do jornalismo desde o seu início. Foram inovadores como Barbosa Lima Sobrinho, Danton Jobim, Luiz Beltrão, Alberto Dines e o próprio autor do "Jornalismo Brasileiro" que abriram novos espaços na pesquisa brasileira.

Apesar do Brasil ser um país novo a historia do jornalismo começa a menos de dois séculos atrás, a pesquisa deste fenômeno começa cedo; já no inicio do século passado os primeiros trabalhos analisam a mídia contemporânea (Jornais), limitando-se ao produto.

A analise multidisciplinar do Jornalismo Brasileiro publicado por Barbosa Lima Sobrinho em 1923, é considerada uma marca importante. A partir deste momento é estabelecido um paradigma dos processos sócio políticos que dão fisionomia

"(...) a partir de processos sócio políticos que dão fisionomia peculiar a comunicação de atualidades. (...)"

E finalmente no final dos anos 40 começa a construção e formatação das faculdades de jornalismo no Brasil. A partir deste momento começa a busca de uma padronização profissional e o resgate do acervo histórico do passado que seque até os dias de hoje. Um ponto importante e que se mostrou em várias obras científicas que não há muito de novo na área de comunicação, muitos fatos, idéias e teorias já foram formados no passado.

Um exemplo: a teoria "da Espiral do Silêncio" desenvolvido pela cientista alemã Elisabeth Noelle-Neumann seque uma teoria do francês Toqueville, existem casos similares no Brasil. O autor afirma que de fato não foram desenvolvidas muitas novidades na área das teorias de comunicação nas últimas décadas. Isso não significa um volume pequeno das pesquisas. Principalmente nas três décadas passadas registraram-se número crescente.

Obra em três partes

José Marques de Melo divide a sua obra basicamente em três partes:

A primeira parte sob o título "Itinerários" fala sobre alguns dos principais pensadores do jornalismo brasileiro. Eles são apresentados de forma cronológica. Do primeiro, Hipólito da Costa, fundador do jornalismo brasileiro, até Octavio Frias. No final deste complexo o Marques de Melo fecha esta parte com a já citada história da sua própria carreira.

O que chama a atenção nesta primeira parte é a forma com a qual o autor apresenta cada um dos protagonistas. Ele afirma, por exemplo, a sua admiração pelo Rui Barbosa, um dos mais citados pensadores do jornalismo brasileiro até hoje. Marques de Melo relembra os seus primeiros passos no jornalismo e a resistência dos seus colegas mais velhos em relação ao seu trabalho.

Descreveu como buscou a sua motivação profissional através da obra do jornalista baiano. E, finalmente, que grande parte da sua formação ética é contribuição dele, destacando que a expressão jornalística é um privilégio de ninguém. Isso num contexto em que a democracia no mundo era uma criança.

O capítulo em que o autor fala sobre Rui Barbosa parece um capítulo-chave entre os demais pensadores do jornalismo brasileiro. A própria história brasileira justifica esta importância da liberdade de expressão, informação e opinião na formação da opinião pública.

Situações que o autor não só no início da sua carreira jornalística, mas principalmente na época do regime militar, onde uma opinião manifestada poderia custar um preço muito caro. Mesmo assim, surgiram durante muitos regimes totalitários, personagens como Rui Barbosa que tinham a coragem de falar contra o "discurso oficial". Isto é uma característica básica na busca de uma convivência aberta e democrática dentro de uma sociedade.

Mistura de papeis

Em relação a mistura dos papeis do jornalista e do político o autor cita uma outra situação importante da sua vida: Ele conta a sua participação no governo Miguel Arraes na metade dos anos sessenta e a sua conclusão que

"(...) o exercício de jornalismo independente e o engajamento político
são inconselháveis (...)"

foram de uma certa maneira fundamental para o rumo profissional de Marques de Melo.

A atualidade que Marques de Melo atribui a obra do Rui Barbosa pode-se ligar as novas tendências da monopolização da formação da opinião pública. No caso de hoje trata-se provavelmente mais de motivos econômicos do que políticos. O resultado, no fundo, seria o mesmo: um processo anti-democrático.

A segunda parte da obra fala sobre alguns "genros" particulares do jornalismo. O destaque dessa parte está no capítulo que trata da entrevista jornalística. . Marques de Melo denuncia neste capítulo uma das marcas de um jornalismo infectado pelo sensacionalismo, comercialismo ou ideologismo.

Um das suas principais cobranças ao jornalismo contemporâneo é a volta para padrões éticos de jornalismo. Ou seja, competência técnica e retidão ética como atitude profissional e característica frente aos entrevistados. Marques de Melo cita como exemplo o caso da jornalista peruana Fátima Molina que tinha entrevistado o próprio autor em 1996.

Na segunda parte do "Jornalismo Brasileiro" segue a sua maneira de propor os conceitos de jornalismo: ele mistura conceitos teóricos com exemplos vividos ao longo da sua carreira. Junto destes componentes ele coloca as suas conclusões e demandas ao jornalismo contemporâneo. Enquanto ele menciona na primeira parte da obra a coragem civil e a liberdade de expressão no processo democrático, na segunda parte ele fala sobre padrões técnicas e éticas dos jornalistas.

Polêmicas

Na terceira e última parte do livro encontram-se as perguntas que poderiam definir o destino do jornalismo. Sob o título "Polêmicas" ele fala sobre questões atuais, como a exclusão midiática que será um dos assuntos da reunião da UNESCO no final deste ano em Genebra.

Um dos destaques neste capítulo é a constatação de que somente uma minoria das pessoas possui hoje uma possibilidade de desfrutar a nova tecnologia na comunicação online, por exemplo. Um dos motivos mencionados neste capítulo é um grande déficit na capacitação das pessoas. Marques de Melo afirma que a questão de

"(...) ampliar a leitura das obras singulares da cultura alfabética
é muito mais um desafio político-econômico e sócio-psicológico
do que comunicacional. (...)"

No final deste capítulo fica uma pergunta aberta sobre o que se pode falar am relação no acesso as novas mídias de um novo elitismo. A resposta, certamente, virá num futuro bem próximo.

Hábito de leitura

Um outro aspecto importante é uma passagem deste texto onde Marques de Melo fala sobre as evoluções das mídias e a recepção dela pelas próprias pessoas. No Brasil registrou-se com a entrada da televisão um certo "impacto" com os seus precedentes (jornais, revistas etc.). Não existia um hábito de ler o jornal tão freqüente, como em outros países que tinham um costume mais tradicional nesta relação.

O reflexo desta característica cultural tinha conseqüências visíveis na qualidade dos novos produtos audiovisuais. A consciência intelectual e crítica foram bem superiores nos países que tinham um hábito de leitura maior do que nos outros países.

Uma circunstância que comprova que hábitos culturais tradicionais, neste caso a leitura, não perderam a sua importância dentro do processo comunicacional.
Isso apesar do surgimento de tecnologias cada vez mais novas e avançadas.

Isso é uma prova de que uma sociedade com um alto nível de educação e acesso para aos meios de comunicação tem maiores possibilidades na participação do processo democrático do que aquelas sociedades que não possuem estas ferramentas.

Fica a pergunta, no final deste capítulo, sobre a possível "elitização" em relação as novas mídias. Será que o Brasil que foi de certa maneira prejudicado no processo da entrada da televisão terá uma divisão maior ainda, dentro da sua própria sociedade, na era digital? Será que a maioria dos brasileiro ficará fora da citada "aldeia global" do McLuhan ?

Crise de identidade

Num outro capítulo desta terceira parte o autor acentua um pouco mais a questão do próprio jornalismo e as supostas crises que ele está vivendo. Em "Crise de Identidade" ele cita os jornalistas Martinez Albertos (França), William A. Hachten (EUA) e Juremir Machado da Silva (Brasil).

A polêmica mais importante em relação ao cenário brasileiro é do último autor. Ele denuncia uma incompatibilidade entre jornalismo e interesses econômicos:

"(...) O jornalismo não é compatível com a mentalidade
pós-moderna. (...)".

A tendência da entrada mais forte dos interesses comerciais na área de comunicação não é um fenômeno restrito ao caso brasileiro. Além disso, foi constatado na comissão MacBride no início dos anos oitenta. As tendências de monopolização das empresas de comunicação e a comercialização do conteúdo das informações concretizaram-se apesar das alertas e considerações da comissão.

Almas vendidas?

Os jornalistas venderam então as suas almas? Uma pergunta que não pode ser respondida de uma maneira fácil. Em primeiro lugar eles são empregados e dependem das decisões dos seus próprios empregadores. Como os produtos de comunicação tornam-se cada vez mais mercadorias, os jornalistas fazem parte dessa evolução. Parte de um processo de comunicação que eles podem influir até um certo ponto. A definição do rumo dos produtos cabe aos proprietários das empresas.

No outro lado os jornalistas cumprem o seu dever em função da formação da opinião pública. Eles justificam-se por esta tarefa. Se eles interpretam esta tarefa de uma outra maneira, ou seja, comercial, eles perderiam esta justificativa.

Da mesma forma como a questão da exclusão midiática este tema do livro do José Marques de Melo será um assunto fundamental para o futuro do jornalismo, que perderia o seu sentido se ele não podesse manter a sua autonomia e independência.

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