Monografias
A jornalista-mulher
brasileira do século XXI
Por
Viktor Chagas*
Introdução
"Acho
que hoje a visão que os jovens têm do jornalismo
é mais glamurizada ainda. Quando converso com estudantes,
sou até cruel. Explico como é a profissão:
trabalhar muito, comer mal, não ter vida pessoal,
não ter fim de semana [...]. Então, eu digo:
'Se você quer ser jornalista porque quer ser famoso,
desiste. Vai ser outra coisa na vida.'" (PADRÃO,
Ana Paula apud GIL, 2003:108).
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Diante
de um conselho como esse, um estudante certamente determinado
perguntaria "Por que se há de ser outra coisa na
vida?". Há que se constatar uma certa contradição
nas palavras de Ana Paula Padrão, ainda que isso não
desmereça o valor de seu depoimento. A imagem que se
tem do jornalista brasileiro, não só a que ela
percebe em contato com o jovem estudante que pretende seguir
carreira, é a de um profissional "glamurizado".
Quando
se comenta sobre o campo profissional, diante do senso comum,
parece haver uma tal preferência pela influência
do âncora da Rede Globo, do "apresentador" do
Jornal Nacional, ou o que o valha. Os estudantes, não
raro, costumam ouvir (e mesmo falar) que têm um futuro
brilhante pela frente, e grandes chances de serem "William
Bonneres" ou "Fátimas Bernardes". [1]
E, se esse caráter é, então, negado por
uma das (tidas) representantes desse mundo "glamurizado",
ou se está tratando de uma recomendação
"paternalista", ou de um conselho "irônico".
Tem-se
que é uma recomendação paternalista a partir
do momento em que se pretende que uma profissional respeitada
e acreditada, como ela, não vá desaconselhar quem
possa vir a se interessar pela profissão. Por outro lado,
pode-se soar como ironia o fato de que uma jornalista "estrelizada"
recomende que não se olhe a profissão com este
intuito.
De
uma forma ou de outra, no entanto, sua asserção
não deixa de estar correta, no sentido em que o jornalismo,
originalmente, não pressupõe a celebrização
ou o glamour. E, ambos, nesse caso, são conseqüência
de um processo de mercantilização dos meios de
comunicação e desvalorização da
imprensa como serviço público.
Diante
desse panorama, este estudo irá buscar a constituição
de uma imagem, ou representação dominante, do
profissional jornalista na primeira década do século
XXI, em continuidade à proposta de Senra, em seu Imagens
do jornalista (1997:13-35). Desta vez, porém, estarão
concentrados os esforços na análise do discurso
de matérias em revistas, acerca do perfil de jornalistas
contemporâneos. O presente trabalho irá propôr,
portanto, um recorte temporal e categorizado sobre estes perfis,
e terá selecionado quatro objetos principais de estudo,
a saber: os perfis A bela da noite e A incrível história
da garota do fantástico; e, A apaixonada Fátima
Bernardes e Sem fazer pose. Primeiro e segundo pares serão
analisados comparativamente ao longo dessa apresentação,
e ambos trarão correspondências entre si, a começar
pela metodologia adotada para seleção das matérias.
A
bela da noite e Sem fazer pose foram publicados na revista Marie
Claire, ao passo que A incrível história da garota
do fantástico e A apaixonada Fátima Bernardes
foram publicados na revista Quem. Tanto Sem fazer pose, quanto
A apaixonada Fátima Bernardes perfilam a atual co-apresentadora
do Jornal Nacional, e esta correlação será
aproveitada no decorrer desta análise.
A opção por analisar apenas dois veículos,
as revistas Quem e Marie Claire, não desmerece a tentativa
de enxergar uma identidade do profissional, presente, então,
nas características apresentadas pelas quatro matérias.
Quem,
como Marie Claire, é uma revista de variedades, não
se nega, mas ambas mantêm perfis editoriais distintos
o suficiente para que se revelem coincidências denunciadoras
disto a que chamamos "identidade do jornalista".
Essa
identidade a que perseguimos, portanto, não estará
evidente a priori no discurso tratado, mas implícita
e velada, na medida em que funciona como uma ideologia. A "propagandeação"
dos valores que devem constar de uma identidade ou cultura jornalística
não apenas, então, são provenientes do
veículo ou do perfilado, mas também são
produzidas por e para um determinado público-alvo, isto
é, esses aspectos são inabalavelmente admitidos
como "verdades". E, nesse sentido, serão encontrados
aspectos comuns em revistas de quaisquer gêneros - profissionais
(voltadas para o campo midiático), de variedades, eróticas,
de comportamento ou mesmo semanários. Portanto, a restrição
que aqui é feita à categoria das revistas de variedades
não deve ser encarada como uma limitação
deste universo, mas um apuro metodológico.
Em
se tratando de jornalistas de uma mesma empresa (que representam
e são apresentadas por veículos dessa empresa),
este estudo tentará avaliar com brevidade uma provável
política editorial "apreendida 'por osmose'; [...]
o jornalista acaba por ser 'socializado' na política
editorial da organização através de uma
sucessão subtil de recompensa e de punição"
(BREED, 1955 apud TRAQUINA, 1993).
É
de se ressaltar, ainda, o interesse em avaliar apenas matérias
de jornalistas-mulheres, uma vez que a imagem da jornalista-mulher
é, ela própria, infinitamente mais presente na
contemporaneidade que até algum tempo. Ainda que não
devamos nos deter sobre esta caracterização, deve-se
compreender, para início de conversa, que a imagem clássica
do jornalista até meados da década de 50 era a
do jornalista-homem, boêmio, de aspecto quase noir.
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A
figura da jornalista-mulher surge com impacto maior quando
da revolução-liberação sexual
e dos movimentos feministas de fins da década de
1960 e início da de 1970.
A
partir daí, e, sobretudo, durante a década
de 80, surge também a idéia de um jornalismo
plástico, dito "estrelizado", em que
se dá mais atenção à imagem
do jornalista que à notícia propriamente
dita.
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Com
isso, "tanto jornalistas se transformaram em estrelas em
reação ao anonimato quanto estrelas trouxeram
seu 'brilho' para as redações, transformando-se
em jornalistas" (SENRA, 1997:26).[2] E, portanto,
com esse processo, ganha papel de destaque a mulher, que transmite,
ou irradia de si, não só a beleza que lhe vale
como artifício para conquistar a "audiência",
mas também a sofisticação, a credibilidade
e o sentimento de que há um certo quê de democracia
no cotidiano do jornalismo.
1.
A representação do jornalismo em cena
Na
banca de jornal
O Rio faz pose
Num close todo especial
(Mario Chagas)
A busca por ícones no jornalismo contemporâneo
reflete, indubitavelmente, a procura pela credibilidade máxima.
Um veículo midiático que se preze deve estabelecer
com seu público-alvo uma relação de confiança,
como a proposta por Giddens, em que a rede social é interlaçada
por atores que desejam confiar no Outro. Os meios de comunicação
perseguem este motivo de credibilidade porque sabem que a relação
entre eles e o seu público é frágil, de
certo modo, instável.
Assim,
segundo Lazarfeld (apud TRAQUINA, 2001), "se a mensagem
midiática entra em conflito com as normas do grupo, a
mensagem será rejeitada; [...] as pessoas consomem as
mensagens midiáticas de forma seletiva". E, então,
os meios de comunicação irão buscar na
figura-forte, no âncora, no locutor, no apresentador,
no editor-chefe (que redige os editoriais) etc., uma imagem
de transparência, de verdade, e, sobretudo, uma marca
pessoal, que o distinga de um sem-número de outros âncoras,
locutores, apresentadores, editores-chefe... Essa marca pessoal
que passa a ser valorizada é o que Senra denomina de
"expressão 'pessoal'" (1997:26) ou "sua
'transformação em imagem'" (ibid.:id.).
A expressão pessoal que distingue e caracteriza um jornalista
é exatamente o que o torna "glamurizado", porquanto
ele passa a ser visto como um "estilo", um way of
life. Senão, que outra justificativa teríamos
para os tantos almejantes a "William Bonneres", estudantes
de jornalismo ou não? Mas Bird e Dardenne se apóiam
em outro aspecto: o valor do discurso criado pela notícia
jornalística. Um discurso com apelo mítico-narrativo,
pois está embasado no que o jornalista passa como "verdade",
e na autoridade transmitida por ele para tanto.
O jornalista, portanto, assumiria um papel de "contador
de estórias" ou "fabricante de mitos",
em que teria o poder de definir o caráter dos personagens,
cooptando por categorias como o herói, o vilão,
a vítima, o traidor. Contudo, ainda diante dessa posição
quase divina, o jornalista não deve ser tomado como tal,
e, a partir daí, entra em cena o esforço de humanizá-lo,
torná-lo uma pessoa ordinária, comum, que bebe
e festeja com os amigos, é mãe de três filhos,
separou-se da mulher, etc.
O
que, aqui, tentaremos interpretar é a representação
desta imagem do jornalista, através dos elementos que
pudermos identificar como próprios de uma cultura jornalística,
definida e elaborada, por sua vez, por meio de uma teoria do
jornalismo. Conquanto não possamos contar com um conjunto
teórico fechado e imutável sobre o assunto, o
presente estudo irá se deter nos usos da rotina jornalística,
em que se prevê que o leitor absorva o contexto geral,
isto é, o que possa vir a mudar no campo das possibilidades,
mas jamais que o leitor irá absorver os detalhes.
O
jornalista sabe concretamente que, para o leitor, a estrutura
organizacional da notícia é mais importante que
o conteúdo informacional, porque, no fim das contas,
a informação desaparece. E, no momento em que
ele, o jornalista, é tratado em uma matéria (em
um perfil), estamos admitindo a hipótese de que, o que
restará para o "leitor", após a absorção
do texto noticioso, é precisamente a imagem contextual
do caráter e da identidade do profissional retratado,
[3] ou seja, uma série de "representações
mentais, integrais e duradouras a respeito dos profissionais
que a elas se dedicam" (SENRA, 1997:13).
2.
O sofisticado e o indefectível
De acordo com Stella Senra (1997:24), tendo sido delineados
os campos do saber jornalístico por um analista nos anos
1980, são compreendidas três funções
distintas para o jornalismo àquela época, que
ora se alternavam em predominância sobre as demais. O
jornalismo como arte, como serviço público, e
como técnica. A cada um deles, porém, identificamos
o momento em que seus aspectos se sobrepõem aos outros.
O
jornalismo-arte pressupõe de grande apuro estético,
e passa a encarar o leitor como público. O jornalismo-missão
trata-o com a nobreza de um serviço público dirigido
à conquista da dignidade e bom exercício da cidadania.
O jornalismo-técnica, em contrapartida, apresenta um
profissional que segue padrões estilísticos rígidos
e apresenta dados acentuadamente quantitativos.
Estas
três funções do jornalismo, que se complementam,
portanto, traduzem os três olhares que se alternam sobre
a identidade do jornalista.
Em
nosso estudo, embora tracemos um perfil próprio de revistas
de variedades, iremos, contudo, encontrar marcações
das demais visões no decorrer do discurso tanto do perfilado,
quanto do "perfilando". Assim, quando Ana Paula Padrão
explica que não se deve ter essa visão "glamurizada"
do jornalismo, ela está, de certo modo, contrapondo a
predominância da técnica em relação
à arte.
A
escolha dos textos de revista, em detrimento do texto de jornal,
pressupõe que a análise encontre maior liberdade
na linguagem. O fato de as revistas de variedades terem uma
procura maior por parte de mulheres que de homens, também,
pode se apresentar como um facilitador em nossa leitura, uma
vez que tratamos especificamente de jornalistas-mulheres. Mas,
há que se ressaltar, que o universo de Quem e de Marie
Claire se distinguem profundamente na questão da busca
pela identificação de seus leitores, ou suas leitoras.
Em
Marie Claire, o nome da publicação já sugere
um refinamento, mas seu título é o mesmo em todo
o mundo, o que nos dá a idéia de um mercado global.
Apenas pela análise de seu título, já se
pode também perceber que a revista é, de certa
forma, humanizada (MIRA, 2001:50), ela possui um nome de mulher,
uma identidade feminina e a trata intimamente. É uma
revista dirigida, sobretudo, à mulher sofisticada que
aprecia a moda e o glamour, mas que se reconhece como uma mulher
simples, com qualidades e defeitos.
Quem,
por outro lado, não se "define" pelo título.
É, de fato, uma revista de variedades sem enfoque de
gênero, apenas de status. "Quem faz diferença",
"quem domina", "quem é quem".
Sua
política segue uma linha editorial semelhante à
de Caras, em que são retratados ricos e famosos, personalidades
e celebridades, seres indefectíveis. Quem enfoca os personagens
que Edgar Morin (apud MIRA, 2001:208) classifica de "olimpianos",
meio-humanos, meio-deuses, acima dos mortais em riqueza, beleza
e fama. O peculiar dessa categorização, no entanto,
fica por conta dos estudos de jornalistas perfilados. Se um
jornalista sai detrás dos "bastidores" para
figurar entre os "olimpianos", ele se reconhece como
"estrela", no sentido de que, um jornalista não
pode ser notícia sem que haja outro jornalista para cobri-lo,
então, naquele instante, ele se despe de sua carapaça
profissional para encarnar a de "celebridade".
3.
Pose espontânea
Prosseguindo a jornada a que se propõe este estudo, deparamo-nos
com uma Fátima Bernardes "sem fazer pose".
O Sem fazer pose que dita o título do perfil nos remete
à idéia de uma modelo, e, portanto, condiz com
o discurso original da revista em que é publicada a matéria
(Marie Claire). Ali, está implícito que a jornalista
não é uma modelo, é uma mulher comum, do
dia-a-dia, que age espontaneamente e é livre. Todavia,
logo em seguida, a imagem que ocupa a página inteira
da revista, traz uma Fátima Bernardes em pose e sorriso
de modelo, fotografada de perfil, para, então, dar a
idéia de que é exatamente isso o que a matéria
é: um perfil da apresentadora, que irá revelar
suas necessidades e vicissitudes. É uma imagem com alto
contraste que evidencia o rosto de Fátima, a aproxima
do leitor.
O
rosto, aliás, é enquadrado no canto superior esquerdo,
talvez para equilibrar a foto, e não colocar todo o peso
do assunto principal ao lado direito, que seria o mais forte.
Os olhos de Fátima para o leitor enfatizam a proximidade
do "diálogo" leitor-perfilado. Ênfase
que é novamente testada quando a jornalista que assina
a matéria (Lina de Albuquerque) indaga: "Estrela
ou mulher normal?". A pergunta, do modo como é feita,
já recebe uma carga tendenciosa: "mulher normal,
é claro", ou, no caso, "normalíssima",
como a própria apresentadora se define.
Ainda
assim, a matéria faz questão de evidenciar o outro
lado da questão. Ela menciona a "quantidade de fãs",
o "tempo de exposição na TV" e a longa
e bem sucedida carreira da perfilada. O lugar-comum não
perde sua majestade: Fátima "aparece mais na TV
do que qualquer protagonista de novela", é como
se a função de ambas encontrasse algum paralelo.
E, entretanto, a virada acontece quando a matéria passa
a citar a infância da apresentadora, como se um dia ela
já houvesse sido uma menina pobre, e que, agora, depois
de muito esforço, conseguiu subir na vida. O bairro do
Méier é apresentado como subúrbio, sem
contudo ser esclarecido o fato de que seus moradores pertencem,
em sua maioria, às classes média e média
alta.
Em
seguida, há menção ao sonho de que se tornasse
bailarina. Um retrato típico de uma menina de subúrbio
da sua geração. Ora, tanto quanto as meninas hoje
sonham em ser modelos e atrizes, há bem pouco tempo,
a grande aspiração delas seria o balé.
Fátima
Bernardes (à dir.) é uma mulher tão
comum, tão simples, que sua entrevista ganha ares
de bate-papo entre comadres. Em determinado momento, a
jornalista que redigiu o texto opta por deixar a expressão
de Fátima, trazendo o vocativo que chama pela intimidade.
"Menina, o mundo veio abaixo". O assunto: seus
cabelos. O penteado da apresentadora, por sinal, era um
dos ganchos da matéria, e Fátima descreve
como foi difícil contornar o interesse do público
na época em que havia adotado um novo corte.
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Mas,
assim como ela sabe se vestir elegantemente e jamais apareceria
"no jornal de frente única, embora possa sair assim
na rua", também consegue ser bem educada, a ponto
de aceitar as intromissões em sua vida particular.
Nesse
ponto, percebemos que se Fátima possui uma vida particular
distinta de sua vida pública, ela é, de fato,
uma "estrela", posto que assume com certo orgulho
e legitimidade a constância dos autógrafos e fotos
com fãs. E, se se admite como tal, está, portanto,
desmentindo o que havia antes posto em pauta. Não é
"normalíssima", é uma estrela. Está
acima do bem e do mal.
Isso
é o que fica subentendido, apesar de o esforço
da matéria ir em sentido contrário. Na verdade,
não são as pessoas que invadem a sua vida particular
("Não me sinto invadida"), mas ela que invade
a vida privada de seus espectadores ("estou dentro da casa
das pessoas").
A
informação principal do perfil, no entanto, diz
respeito à "ginástica", ao enorme sacrifício
para conciliar os papéis de mãe, esposa dedicada,
profissional bem sucedida e estrela. Assim, sem fazer pose,
mas já fazendo ("O elogio que mais gosto de ouvir
[...] é que sou exatamente do jeito que a pessoa imaginava."),
o perfil procura aproximar a "estrela" Fátima
Bernardes das pessoas comuns, especialmente, do público-alvo
da revista: as mulheres sofisticadas, bem sucedidas e "batalhadoras".
Por isso, ela aparece em close na capa da revista, com um fundo
de motivos avermelhados e uma roupa devidamente elegante. Fátima
Bernardes é exatamente como elas, as leitoras. Fátima
Bernardes é uma Marie Claire.
4.
Espontaneidade posada
O título de A apaixonada Fátima Bernardes leva
a perfilada exatamente para o lado oposto do que foi apontado
na matéria anterior. O adjetivo, nesse caso, contribui
para distanciar a personagem, ela é uma mulher "apaixonada",
"sonhadora", "idealizadora", "distante".
Até porque sua descrição se aproxima, em
verdade, do imaginário fantasioso de toda mulher, ela
vive um conto de fadas. É "bem casada", tem
um marido "lindo" e famoso de quem "volta e meia
ganha um mimo", é mãe de "três
filhos gêmeos", "faz ginástica com personal
trainer", "capricha na alimentação",
"hidrata a pele", cuida dos cabelos, e é bem
sucedida em sua profissão. Seu ápice se dá
quando subjuga os homens no que eles fazem de "melhor",
comentar futebol. Por sua atuação, por ter se
saído muito bem no terreno dos homens, ela foi eleita
"musa da Copa de 2002".
Não
há qualquer ponto que possa se refletir em algo negativo,
em algum esforço. Mesmo para conciliar casa e trabalho
- e apenas casa e trabalho - não há grande dificuldade
("Não vejo nada de diferente entre a minha rotina
e a da minha empregada"). Na única pergunta que
gera um certo sentimento de "temor", Fátima
esclarece que receia morrer agora, porque alguém depende
dela, isto é, seus filhos. Ora, ela, então, é
uma mãe dedicada, com uma história familiar, e
que, aprendeu dos pais, a "importância da educação".
No fim da matéria (sua ascensão na vida e sua
trajetória de sucesso profissional são enfocados
apenas na última pergunta), ela reconhece que, por esse
motivo, seus pais são vencedores. E, aqui, ressaltamos,
os vencedores são eles, não ela. Eles é
que sofreram e venceram na vida. Ela já nasceu "perfeita".
Em
outro momento, Fátima revela que "A fama veio e
é boa" e que "isso [a superexposição]
faz parte". Ela, dessa vez, admite que a mudança
de penteado ter virado notícia é algo "muito
surpreendente" - antes, em outro contexto, ela havia dito
que tanto ela quanto o marido gostam de "fazer coisas para
surpreender" -, mas não inaceitável, ou incabível.
5.
Prestígio sem fama
"Ana
Paula Padrão gosta mesmo é de contar histórias
reais". Em A bela da noite, Marie Claire enfoca o caráter
da objetividade jornalística, é o jornalismo-técnico,
sem espaço para a espetacularização. Ela
é uma mulher "poderosa", sem deixar de ser
"apaixonada"; é sonhadora, mas tem um pé
no chão. Na imagem que toma a página inteira,
ela se debruça com um sorriso e um ar despojado, casual.
Sua inclinação para a esquerda equilibra a disposição
da foto, conferindo leveza e romantismo à imagem. A mesma
leveza que está expressa na capa da revista, em close-up,
e em tons claros, sem muito contraste.
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A
despeito da fotografia posada, novamente a matéria
faz menção logo de início a uma provável
"pose de apresentadora", da qual Ana Paula (à
esq.) se faz livre no momento em que é entrevistada.
Ora, ela abandona essa pose porque, de fato, sai da posição
de jornalista, e passa a ser notícia. Não
há, portanto, nada de surpreendente nessa atitude.
Mas o termo pose reforça a caracterização
da revista como uma publicação de moda.
Quem faz pose são as modelos.
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No
perfil, ela cita que sua vida "não é o glamour,
o reconhecimento público. O que me sustenta é
a minha história profissional". É uma nítida
descrição da profissional de sucesso. Seu reconhecimento
da fama como um fardo faz com que ela seja identificada como
uma "Celebridade por acaso", que se incomoda com a
fama (embora não se incomode e fique "até
envaidecida" em servir de modelo para outras mulheres),
e acha que o fato de o jornalista virar celebridade "cria
um peso que não é da profissão". Ela,
no entanto, rejeita a fama, e se orgulha do prestígio.
O prestígio que traz "credibilidade" ao seu
nome. O prestígio que ela conquista com grande esforço
e "disciplina".
Já
ganhava dinheiro dando aulas aos 14 anos, mas "tinha outras
ambições". É, portanto, uma mulher
ambiciosa, no sentido de que luta por seus direitos, é
batalhadora, é guerreira. Mas, acima de tudo, não
deixa de ser mulher. E, nesse momento, cita, inclusive, a experiência
com o balé, na infância. Orgulha-se de um "casamento
estável", faz planos para ter filhos (retrato da
mulher bem sucedida que espera a hora certa e acaba sendo mãe
tarde), e é emotiva. Nas coberturas de guerra que faz
questão de ressaltar, lembra que "chorava muito,
muito" e que aquilo lhe dava "muita dor no coração".
Ela
"arriscava a pele para conseguir informações
exclusivas", e acha que "você já ajuda
se vai lá, faz o seu trabalho e põe aquilo no
ar", situação em que podemos notar o caráter
de responsabilidade de que o jornalismo é imbuído,
é a necessidade de trazer informações novas
e atuais, um "comprometimento com a verdade" (TRAQUINA,
2001:28). [4]
Ana
Paula Padrão aparenta, tanto na foto, quanto no fim da
matéria quanto o assunto é "cabelo",
um despojamento absoluto. Ela não usa mais do que uma
calça jeans nos fins de semana, não arruma o cabelo,
é naturalmente bonita.
É
bonita, alegre, pequena, delicada, tem "gestos largos e
sorriso fácil", isto é, é bela por
si mesma. O título A bela da noite sugere uma mulher
que se produz para sair à noite, que está dentro
da moda, mas Ana Paula Padrão é exatamente o oposto
disso. Não sai muito de casa, trabalha no Jornal da Globo
à noite, e é bonita sem fazer esforço.
O
fato de ser bonita sem se esforçar caracteriza uma mulher
"livre" dos ditames da moda. Ela é uma mulher
que se reconhece livre. Liberdade que diz ter adquirido desde
a adolescência, quando "ia a todos os lugares".
Um
dos pontos, porém, que mais chamam a atenção
no perfil é quando ela define a mulher como "aquela
que está sempre procurando alguma coisa nova, se impondo
um desafio, querendo o que não tem". A mulher, ela
diz, "Precisa ser feliz no trabalho, feliz com o marido,
com a casa, com as crianças, na relação
com os amigos...". Tem, portanto, de conciliar todos esses
"quereres" se quiser sentir-se realizada.
6.
Fama sem prestígio
O antetítulo já anuncia: "É A GLÓRIA".
Com letras capitulares, a frase conserva a ambigüidade
do lugar-comum. "É a Glória" ou "É
a glória"? De um jeito ou de outro, está
consolidado o caráter glorioso de ser Glória Maria:
a fantástica "garota do Fantástico",
"a jornalista mais charmosa da TV", "com seu
estilo espontâneo e aventureiro". A espontaneidade
e a sinceridade aparecem tanto como virtudes, quanto como aspectos
capazes de gerar problemas.
Essa
espontaneidade, a transparência e o mistério de
Glória são transmitidos nas imagens pelo seu vestido
branco. O modelo, que aparece na última foto sendo erguido
pela apresentadora, assemelha-se a um vestido de noiva e confere
sentido à matéria que explora o "marido secreto"
de Glória. Na foto que aparece na primeira página
do perfil, a repórter ocupa o eixo central da imagem,
com o rosto de perfil no centro. O cenário do Parque
Lage, com colunas e construções em estilo neoclássico,
remetem à "incrível história"
da manchete da matéria. Glória Maria aparece sempre
muito maquilada com o cabelo produzido, com jóias "da
designer Carla Amorim" [grifo do original] e trajando um
modelo "John Galliano". ("Tive o meu dia de Naomi
Campbell".) Uma mulher de estilo impecável.
Tratada
como a "Jornalista de TV mais popular do país",
e que "conquistou a credibilidade do público",
Glória Maria (à dir.) orgulha-se de não
fazer tipo e não ter frescura. O mote da matéria,
porém, é o casamento em segredo que ela
manteve ou mantém por cinco anos, sob o pretexto
de que estaria preservando a sua liberdade. Segredo e
mistério são termos recorrentes, mas perdem
para o par livre-liberdade, que aparece no texto, por
mais de 10 vezes, nas 5 páginas.
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Glória
Maria se define como "intensa" e diz que não
fala a idade porque não teve "tempo de contar o
meu tempo". O título da matéria faz referência
a sua idade, a sua vitalidade, e ao seu caráter "aventureiro"
quando reforça a palavra garota. Ela aparenta ter um
certo receio da morte, mas diz não ter medo de envelhecer,
embora confesse uma certa compulsão por pílulas
que prometem saúde e rejuvenescimento. É uma mulher,
acima de tudo, experimentada. E, dentro de suas experimentações,
reflete uma espécie de sincretismo multicultural. Cita
viagens a Saint-Tropez e Estocolmo, estuda Cabala e faz yoga,
gosta de bossa nova, jazz e feijoada. Admite a possibilidade
de ter filhos "daqui a cinco anos", e completa dizendo
que "Temos que fazer opções na vida".
Sobre
a fama e a sua popularidade, Glória Maria compreende
que tem motivos para o reconhecimento: "Estou na televisão
há muito tempo. Minha história não veio
do nada". E, como retrato da mulher batalhadora que venceu
na vida, ela relata a história de sua família,
relacionando-a com a escravidão e o seu início
de carreira durante a ditadura. Orgulha-se de ser negra, e exatamente
por esse motivo preza tanto a liberdade.
7.
Os cabelos do jornal nacional
Conquanto avaliem as características de uma mesma pessoa,
Sem fazer pose e A apaixonada Fátima Bernardes traçam
um perfil com semelhanças e diferenças a serem
avaliadas.
Na
matéria de Marie Claire, o enfoque recai primordialmente
sobre a carreira, a fama (e o lidar com ela no dia-a-dia) da
apresentadora. Em termos de linguagem, a revista adota um texto
mais elaborado em relação à outra. Em Marie
Claire, há apenas um foto, e está completamente
dissociada do texto, o que sugere uma leitura menos leve (embora
não tanto densa).
Em
Quem, entretanto, a matéria acaba se detendo em aspectos
da vida privada, que revelem detalhes íntimos da pessoa
pública. Ou seja, de acordo com Mira (2001:209), "essa
penetração da informação pelo imaginário
faz com que a vida privada dos ídolos seja consumida
como se fosse uma narrativa".
Ambos
os perfis, porém, trazem menções à
infância da apresentadora no Méier, à cobertura
de 42 dias durante a Copa do Mundo, e à polêmica
gerada pela mudança em seus cabelos (o alisamento japonês).
Isto equivale a dizer que esses fatores são reforçados
nos dois gêneros de revista, e, portanto, constituem um
passo importante para nossa análise em particular.
Por
ter a apresentadora nascido em um bairro de subúrbio,
sua história de vida traduz um certo aspecto vitorioso
no campo profissional. O jornalista, em seu caso, é,
antes de tudo, um profissional vencedor. Ele deve lutar contra
uma série de obstáculos porque sua dedicação
ao jornalismo indicam uma vocação a ser seguida.
Um talento natural que não deve ser desperdiçado.
No
caso de Quem, a revista aponta para as dificuldades que foram
vencidas: Fátima é uma mulher de sucesso. Para
Marie Claire, ela largou tudo para abraçar a profissão:
ela é uma mulher determinada.
Com
relação à experiência como repórter
durante o Campeonato Mundial de Futebol, em 2002, a revista
Quem enfatiza o lado pessoal. A apresentadora deixou os filhos
e o marido sós, viajou e ficou longe de casa. Em Marie
Claire, a cobertura aparece como uma espécie de prêmio
ou reconhecimento ao seu trabalho, ela foi "elogiada por
gente de todo tipo".
O
episódio da mudança de penteado é explorado
por Marie Claire como uma invasão de privacidade, uma
"interferência em sua vida", mas Quem prefere
ressaltar a questão da "espetacularização",
da jornalista que vira notícia. O ponto principal que
distinguirá as duas abordagens, contudo, se refere exatamente
a esta idéia. Na revista Marie Claire, a jornalista é
encarada como aquela que fala para 40 milhões de brasileiros,
ela entra na casa das pessoas, invade os lares. Em Quem, por
outro lado, são os leitores que invadem a vida particular
de Fátima, querem saber o que ela faz, qual a sua rotina
e como são as suas escapadas.
8.
Musas globais
Embora no perfil de Ana Paula Padrão o destaque para
a fama seja inteiramente negativo e no de Glória Maria
o contrário, as duas matérias se aproximam no
motivo de tal alcance nacional: a credibilidade das jornalistas.
Credibilidade é uma palavra-chave nos dois textos. Por
ela, em busca dela, Ana Paula e Glória ultrapassaram
todas as barreiras, venceram todos os obstáculos, os
percalços da vida.
A
bela da noite reforça a infância em Brasília
de Ana Paula Padrão, Brasília é vista como
uma "cidade que não existia". Isso a caracteriza
como diferente, a jornalista teve de conquistar seu espaço,
mesmo vindo daquela cidade. Glória Maria, em contrapartida,
tem uma história de sofrimento na família. Ela
luta contra o racismo, a escravidão, a segregação
etc. e é uma mulher vencedora, que carrega uma "incrível
história". Nesse ponto, as duas matérias
se assemelham, mas podemos dizer que há um pequeno diferencial
se tratarmos da abordagem do termo história.
Em
Marie Claire, Ana Paula Padrão conta "histórias
reais", ela é a narradora, ela relata e registra
os fatos. Em Quem, Glória Maria tem uma história
"incrível". Ela é personagem, ela vivencia.
É a "estrelização" plena da imagem
do jornalista, de que tratávamos anteriormente. Glória
Maria não é a jornalista, mas a celebridade.
Para
Marie Claire, a fama surge para Ana Paula Padrão como
um fardo, mas em Quem, Glória Maria a admite como uma
conseqüência natural de seu esforço. As duas
visões se distinguem também com relação
ao trabalho. A apresentadora do Jornal da Globo conta que teve
(com muito custo) de aprender a relaxar em seu tempo livre.
Glória Maria, por outro lado, afirma que gosta de descansar,
e a abordagem da revista se detém, muito mais, sobre
as suas atividades de tempo livre do que sobre o seu trabalho.
Ana Paula Padrão narra as obrigações do
jornalista, Glória Maria os prazeres da profissão.
A idéia que temos é de que a primeira prefere
o prestígio, e a última, a glória. Uma
almeja o reconhecimento profissional, a outra, a fama.
Ainda
assim, as duas são mulheres completamente independentes
(Glória não avisa que não os homens não
encontrarão nela "aquela mulher submissa, cozinhando
para o marido"), livres e intensas. As duas são
mulheres emotivas, sensíveis e apaixonadas. Ambas buscam
o amor perfeito, embora de modos diferentes. Ana Paula enfoca
o casamento estável e feliz; Glória, o relacionamento
livre, aberto e feliz. Nenhuma das duas tem filhos, e ambas
admitem a possibilidade para um futuro breve. É uma "opção",
como afirma a apresentadora do Fantástico. Uma opção
que caracteriza a "típica" mulher de classe
média, que trabalha fora e adia os planos de ser mãe
para não atrapalhar a carreira. Carreira, aliás,
que é ressaltada como longa e brilhante.
Tanto
Marie Claire, quanto Quem fazem menções ao jornalista-celebridade
e remetem ao mundo do glamour e das modelos. Marie Claire, uma
revista de moda, caracteriza Ana Paula Padrão com a "pose
de apresentadora de jornal".
Glória
Maria, no fim da matéria, alude à top model Naomi
Campbell. Portanto, para Marie Claire, o jornalista encarna
um personagem enquanto trabalha; ao passo que, para Quem, o
jornalista vivencia esse personagem em suas horas livres. Por
isso, Ana Paula Padrão é vista como uma mulher
com uma beleza natural, em suas folgas, ela não se arruma,
não se maquila etc. Glória Maria, por sua vez,
aparece inteiramente "produzida".
As
duas jornalistas são mulheres fortes. Ana Paula Padrão
é caracterizada como "poderosa", Glória
Maria assume que as pessoas "não dizem não"
a ela. Elas são mulheres realizadas, que venceram todos
os desafios da vida.
9.
Quando o narrador vira narrativa
A abordagem diferente entre as duas revistas de variedades aponta
preferências, definições e perspectivas
distantes para os dois gêneros, mas as similaridades que
são encontradas entre ambas, reforçam a idéia
de um ponto comum, um traço de proximidade entre a identidade
do jornalista brasileiro contemporâneo. Um jornalista
que produz e reproduz conhecimento, que não é
bem senso comum, nem tanto saber científico.
O
que distingue uma matéria jornalística de um relato
científico, de um texto didático ou de um relatório
policial é o fato de que se dirige a pessoas que não
tem [sic] obrigação de ler aquilo. Em conseqüência,
procura de alguma forma aliciar as pessoas para que se interessem
por aquela informação, através de técnicas
narrativas e dramáticas. Isto não é um
mal em si, o uso destas técnicas se justifica amplamente
pela eficácia comunicativa e cognitiva que proporcionam.
O problema é quando passam a ser utilizadas em função
de objetivos que não os cognitivos, como a luta comercial
por audiência e o esforço político de persuasão.
(MEDITSCH, 1997)
Essa conversão do "cotidiano" em sensacional
é o que, então, definimos como espetacularização
da sociedade. No entanto, quando o jornalista é quem
passa a ser o alvo desta espetacularização, temos
a clara idéia de que o jornalismo é um campo "estrelizado".
Por esse motivo, Serge Daney (apud SENRA, 1997) propõe
a adoção de clones no lugar de apresentadores
de telejornais, porquanto a imagem, a plástica, a estética
passa, contemporaneamente, a ser a função-mor,
e não a informação em si.
Nos
quatro perfis analisados, fica clara a figura da jornalista-mulher
no Brasil do século XXI. É uma mulher intensa,
independente, e que procura desafios.
Ela
transmite um certo mistério, mas firma com o público,
sobretudo, uma relação de confiança, de
credibilidade. São poderosas, têm carreiras longas,
estáveis e bem sucedidas. Casamentos ou relacionamentos
felizes. A maternidade é uma opção. (Ana
Paula Padrão e Glória Maria não têm
filhos, Fátima Bernardes fez tratamento para fertilização.)
Todas mantêm opiniões fortes e decisivas, traduzindo
uma noção "construtivista da notícia",
em que a versão dos fatos, e mais importante que o seu
recorte, sua apresentação.
A
linguagem das revistas, de maneira geral, é de intimidade
com o leitor ou a leitora, característica própria
do gênero de variedades. Pode-se dizer que é um
texto transparente, e leve, em que não há publicidade
direta, mas propaganda de um "estilo de vida", uma
visão sofisticada. Marie Claire reforça a visão
glamurosa, através do esforço e da realização
pessoal e profissional.
Quem
enfoca o glamour pelos ares de bon vivant. Os textos de Quem
trazem um excesso de fotos, fazendo com que o texto, por vezes,
perca espaço para a imagem. Os perfis de Marie Claire
dissociam texto e imagem, colocando-as em página inteira,
quase separadas da parte escrita. O design de ambas, contudo,
é bastante leve, o que não confere uma densidade,
ou um peso maior ao texto. Marie Claire e Quem pertencem à
mesma editora. Assim, como as três repórteres perfiladas:
Fátima Bernardes, Ana Paula Padrão e Glória
Maria.
Em
Quem, tanto Glória Maria, quanto Fátima Bernardes
são interpeladas sobre sua relação com
a superexposição na mídia. Elas são,
inegavelmente, "celebridades", seres "olimpianos",
sem pontos negativos, apenas aspectos vitoriosos e de sucesso.
O único temor é o da morte. Fátima Bernardes
tem receio da morte por causa de seus filhos. Glória
Maria não tem medo de envelhecer, mas diz que evita pensar
na chegada da hora final. A morte, aqui, então, representa
a única inevitabilidade para esses "seres perfeitos",
"divinos", "olímpicos". Elas são,
desde já, "estrelas", "musas", "divas".
[5]
Outra
curiosidade é que, nos dois perfis, Fátima Bernardes
e Glória Maria referem-se a si mesmas em terceira pessoa
por um momento. "A Fátima tem uma vida fora da TV
Globo", "Todo mundo acha que Glória Maria não
casou, que só ficou". Os dois instantes remetem
à vida particular das apresentadoras, há uma dissociação
entre a figura pública e a privada. Lembramos, então,
do famoso caso de Pelé, que trata a si próprio
como Edson ou Pelé, se respondendo sobre a sua vida pessoal
ou nos campos. No caso das apresentadoras, é interessante
notar que o jornalista, em seu discurso no cotidiano da profissão,
evita fugir da terceira pessoa.
Em
Quem, então, eles são colocados de fora, à
margem da profissão, ser jornalista é uma ocupação
como qualquer outra, fato é que eles são estrelas.
Eles
passam por um processo de "estrelização",
de "fetichização", passam a servir como
modelos para a sociedade, objetos de desejo, conquistam fãs,
tornam-se ídolos, ícones da vida social. E tudo
isso, porque ao narrar a história, interagem com ela,
tornam-se história também. [6]
Notas
[1]
Talvez mais do que há não muito tempo se procurava
dizer que estes estudantes seriam "Cids Moreiras".
E, nesse caso, deve-se entender que há uma provável
associação maior do apresentador Cid Moreira com
o papel do locutor de rádio, do que propriamente com
o do âncora. As imitações que ainda lhe
são feitas, ainda hoje, trazem esse cuidado, diferentemente
das que, por exemplo, são feitas sobre o estereótipo
de um "Sílvio Santos", um "Clodovil"
ou um "Lula", que, embora não sejam jornalistas,
são personagens típicos do imaginário brasileiro
e se firmam, sobretudo, pelo gestual.
[2]
Nesse ponto, Senra cita dois nomes masculinos para apresentar
ida e volta, o jornalista-artista Paulo Francis e o artista-jornalista
Arnaldo Jabor. Diríamos, contudo, dois outros respectivos
exemplos femininos ainda mais "estrelizados": a atriz,
outrora jornalista, Carolina Ferraz; e a jornalista, outrora
modelo, Fabiana Scaranzi.
[3]
Se a imagem do jornalista perfilado é captada por aproximações,
e registra, em verdade, tão-somente essas "representações
mentais duradouras", a figura do jornalista-forte, o âncora
ou o apresentador, ganha ainda mais peso na constituição
dessa categorização do profissional.
[4]
Ver ELIOTT, 1978 apud TRAQUINA, 2001:28. "[A] verdade era
a única responsabilidade da profissão do jornalismo,
um objetivo e uma confiança comparáveis à
responsabilidade da profissão médica pela saúde
ou a responsabilidade da profissão legal pela justiça".
[5]
Note-se que toda a etimologia dos termos utilizados confere
um ar de "divindade" às jornalistas. Estes
adjetivos são comumente empregados. Como no caso de Fátima
Bernardes, a "musa da Copa". As musas são filhas
de Zeus, as estrelas são figuras celestes, e as divas,
seres angelicais.
[6]
"É a mesma sensação de quem estava
na frente da TV quando os aviões colidiram com as torres
do World Trade Center", diz Ana Paula Padrão. "Só
você viu, os seus filhos não viram. Eles vão
ver o vídeo, vão viver as conseqüências,
mas não viram na hora em que aconteceu, como você
viu". E, note-se, você [grifo nosso] viu também
pela televisão, tanto quanto "seus filhos",
a diferença está no tempo presente. "Você"
participa da história, como o jornalista. Por isso, "você"
se sente e se torna história.
10.
Bibliografia
GIL,
Marisa Adan. A bela da noite. In: Marie Claire. Edição
153. Rio de Janeiro: Globo, 12.03.
ALBUQUERQUE,
Lina de. Sem fazer pose. In: Marie Claire. Edição
141. Rio de Janeiro: Globo, 12.02.
DOMINGUES,
Ana Paula. A incrível história da garota do Fantástico.
In: Quem. Rio de Janeiro: Globo, 10.10.03.
DOMINGOS,
Denise. A apaixonada Fátima Bernardes. In: Quem. Edição
128. Rio de Janeiro: Globo, 21.02.03.
MEDITSCH,
Eduardo. O jornalismo é uma forma de conhecimento? Conferência
feita nos Cursos da Arrábida. Universidade de Verão,
S.l.: 1997. Disponível em:
<http://bocc.ubi.pt/pag/meditsch-eduardo-jornalismo-conhecimento.html>
SENRA,
Stella. Imagens do jornalista. S.l.: 1997.
MIRA,
Maria Celeste. O leitor e a banca de revistas. São Paulo:
Olho d'água/FAPESP, 2001.
SODRÉ,
Muniz. A comunicação do grotesco. Petrópolis:
Vozes, 1988. 11a ed.
BIRD,
S. Elizabeth; DARDENNE, Robert W. Mito. registro e 'estórias':
explorando as qualidades narrativas das notícias. S.l.:
1993.
TRAQUINA,
Nelson. A redescoberta do poder do jornalismo: análise
da evolução da pesquisa sobre o conceito de agendamento
(agenda-setting). S.l.: 2001.
_______________.
As notícias. S.l.: 1993.
RODRIGUES,
Adriano Duarte. O acontecimento. S.l.: 1993.
BAHIA.
J. Categorias profissionais, formação e treinamento.
In: S.n. S.l.: 1990.
*Viktor
Chagas é escritor e
graduando em Comunicação Social/Jornalismo da
Faculdade de Comunicação Social (FCS) da Universidade
do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).
E-mail: viktor@contoaberto.org.
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