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Monografias


A trajetória profissional e
acadêmica de Gaudêncio Torquato

Por Maria Teresa de Souza

Introdução

Os estudos sobre o Jornalismo ganharam força nas últimas décadas no Brasil, sobretudo nos anos 90 e neste início de século. Não é preciso um levantamento estatístico para constatar isso. Basta ler as seções culturais dos jornais e revistas para verificar que, quase todo mês, ou mesmo a cada semana, há um lançamento de livro sobre os meios de comunicação ou seus profissionais, muitos deles originários de teses de mestrado ou doutorado. Nos anos precedentes, os estudos sobre o tema eram escassos.

Na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), a disciplina de pós-graduação Pensamento Jornalístico Brasileiro, ministrada pelo professor José Marques de Mello e a professora Ruth Vianna, concentra sua abordagem no resgate dos grandes nomes da atividade jornalística no Brasil. São personalidades como Rui Barbosa, Danton Jobim e Hipólito José da Costa, que estabeleceram as bases éticas da profissão e se empenharam na sua modernização, como também acadêmicos que formaram gerações de jornalistas hoje atuantes nos principais órgãos de comunicação do País.

No segundo semestre de 2003, a disciplina deu ênfase no pensamento uspiano, com destaque para doze professores presentes no processo de criação e desenvolvimento nos anos 60 e 70 da Escola de Comunicações e Artes, inicialmente denominada Escola de Comunicações Culturais (ECC). A ECA foi pioneira na criação dos cursos de pós-graduação em jornalismo no País e seus professores se tornaram uma referência no ensino nessa área.

Foi estudada na disciplina a trajetória acadêmica e profissional de José Marques de Melo, Flávio Galvão, Gaudêncio Torquato, Thomas Farkas, José Freitas Nobre, Francisco Morel, Juarez Bahia, Antonio Costela, Gileno Marcelino, Hélio Deslandes, Alfredo Weissflog e Cremilda Medina. Esta monografia enfocará a carreira do professor Gaudêncio Torquato.

Objetivo

A meta deste estudo é mostrar a contribuição do professor Gaudêncio Torquato para o pensamento uspiano, o jornalismo brasileiro, a reflexão sobre a formação cultural e profissional do jornalista e seu campo de atuação no mercado de trabalho.

Justificativa

Com sua trajetória profissional e acadêmica mutante, Gaudêncio Torquato abriu caminho no estudo do jornalismo empresarial e rompeu tabus na ECA no ensino dessa especialização, contribuindo para o pensamento uspiano.

Metodologia e bibliografia

Esta monografia foi elaborada com base em análise das atas do Departamento de Jornalismo da ECA no fim dos anos 60 e primeiros anos dos 70 - etapa crucial para o desenvolvimento da escola, da qual Gaudêncio Torquato tomou parte. O estudo incorpora ainda livros de Gaudêncio Torquato (ver Bibliografia) em diferentes fases de sua carreira, material publicado por ele em jornais e em sites na Internet e entrevista com ele, enfocando sua trajetória profissional e acadêmica.

Histórico

Francisco Gaudêncio Torquato do Rêgo nasceu em 1945, em Luís Gomes, pequena cidade no sudoeste do Estado do Rio Grande do Norte, na divisa com a Paraíba. Sua numerosa família (o pai casou-se duas vezes e teve 21 filhos) sempre teve forte envolvimento com a atividade político-partidária, característica que teria um papel importante numa das "guinadas" profissionais de Torquato Gaudêncio, nos anos 80, quando passou a desenvolver campanhas eleitorais, a princípio no Nordeste - onde estavam suas raízes familiares e sua formação política.

Ele começou a exercer a atividade de repórter aos 17 anos, em 1962, como colaborador de jornais e revistas no Recife, ao mesmo tempo em que iniciava os estudos de nível superior em Comunicação Social, na Pontifícia Universidade Católica da cidade. Nos anos 60, os cursos de jornalismo eram poucos no Brasil e o profissional se graduava mais freqüentemente em outras áreas, como Direito, predominantemente, e se formava no dia a dia da redação.

O trabalho nas redações não se pautava pela organização e burocratização dos jornais e revistas de hoje. Os esquemas de produção não eram tão rígidos. De 1962 a 1966, Gaudêncio Torquato exerce a profissão em várias das principais publicações do Nordeste e Brasil. Como o tempo de permanência nas redações era menor, era comum o jornalista conciliar dois ou até mais empregos, mesmo em jornais diários.

Quando Gaudêncio Torquato trabalhava na sucursal do Jornal do Brasil, era também correspondente do Correio da Manhã, ambos cariocas. Depois, passa a repórter do tradicional Jornal do Commercio, Folha de S.Paulo e Correio da Manhã (todos ao mesmo tempo).

Destaque com a reportagem

Em 1966, Gaudêncio Torquato ganha o Prêmio Esso de Jornalismo na categoria Científica, por uma série de reportagens sobre a doença da barriga d'água. Também se destaca pela produção de uma série de reportagens especiais sobre o Nordeste, para a Folha de S.Paulo. Essa intensa atividade profissional e a notoriedade conquistada com seus artigos foram a ponta de lança para sua ida para São Paulo, onde terá início uma nova fase de sua carreira.

A mudança se dá num momento em que o cenário político do País se torna crescentemente sufocante. Gaudêncio Torquato cobria a área social e o campo, marcado por conflitos agrários reprimidos duramente pela ditadura militar estabelecida em 1964. Esse ambiente pesado torna mais conveniente a partida para São Paulo.

Em razão do sucesso editorial dos cadernos especiais sobre o Nordeste, ele é convidado pela Folha de S. Paulo, para participar da elaboração do projeto de suplementos especiais regionais do jornal, em 1967, ao lado de Manuel Chaparro - cuja tese na pós-graduação Gaudêncio Torquato iria depois orientar na ECA - e Calazans Fernandes.

A equipe em São Paulo coordena o trabalho de cerca de 150 repórteres de todo o Brasil na produção de grandes reportagens sobre problemas sociais do País. Depois se seguem outros projetos especiais, como a série de reportagens sobre a Grande São Paulo - O Desafio no ano 2000.

Retorno à universidade

A experiência no planejamento, redação e produção de grandes reportagens leva Gaudêncio Torquato às portas da universidade. Interessado no debate e pesquisa sobre jornalismo, ele é convidado a dar aulas na Faculdade de Jornalismo Cásper Líbero e passa a integrar seu corpo docente em 1968, ministrando cursos sobre Jornalismo Interpretativo e Comparado. Em 1968, ingressa como professor assistente na ECA, a convite do professor José Marques de Melo, então diretor da escola.

Nas atas do Departamento de Jornalismo da ECA, no período de 1968 a 1972, a primeira menção ao nome dele se dá no registro de uma atividade de intercâmbio cultural com a Faculdade de Jornalismo Cásper Líbero, em São Paulo, em 1968. Já no ano seguinte, Gaudêncio Torquato é citado como professor instrutor de Marques de Mello.

Ele ministra a disciplina Técnica de Jornal e Periódico I, subdividida em Teoria e Metodologia do Jornalismo e Jornalismo Informativo e Interpretativo. O curso era voltado para a elaboração pelos alunos de um jornal piloto quinzenal.

Ainda em 1969, Gaudêncio Torquato publica os textos Jornais Precisam Ter mais Notícias em Profundidade, pelos Cadernos de Jornalismo e Comunicação, da Editora Guanabara, e Imprensa Brasileira Contemporânea - Estudo Analítico, pela Editora Correio do Livro.

Entra para o corpo docente da ECC. Em 1970, ano em que a ECC passa a ser denominada Escola de Comunicações e Artes-ECA, Gaudêncio Torquato assume cursos regulares do Departamento de Jornalismo: as disciplinas Jornalismo Informativo e Interpretativo e Introdução ao Jornalismo. É também orientador da Agência Universitária de Notícias (a AU).

Também dá aulas de Técnica de Jornal, Teoria e Metodologia do Jornalismo, Jornalismo Informativo. Desenvolve estudos e experiências sobre técnicas jornalísticas e jornal laboratório, e mantém sua atividade de professor na Cásper Líbero.

Nessa época as pesquisas sobre jornalismo dão seus primeiros passos e Gaudêncio Torquato se engaja nesse movimento de estudos da atividade. Ele defende sua tese de doutorado em 1972 e seu tema é o Jornalismo Interpretativo, tendo como orientador o professor Rolando Morel Pinto, livre-docente da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.

Nesse período, o Ministério da Educação pressiona as universidades a formarem mestres e doutores. É interessante observar que, por ser o curso da ECA um recém-nascido na USP, sem ter ainda graduado sua primeira turma de alunos, a maioria dos seus primeiros doutorandos tiveram como orientadores livre-docentes de outras unidades.

Comunicação empresarial

Em 1970, desfaz-se o projeto de suplementos especiais regionais da Folha de S. Paulo e Gaudêncio Torquato deixa o jornal. Funda, então, com outros profissionais do jornalismo, uma assessoria para produção de jornais e revistas empresariais. É o momento em que a sua opção pela área empresarial começa a firmar-se.

A empresa lança os Cadernos Proal - especializados em debates sobre jornalismo empresarial e comunicação em geral. Gaudêncio Torquato se empenha também em levar a nova especialização para a universidade e enfrenta a resistência de acadêmicos que não aceitam a incorporação dessa disciplina, por não considerarem genuinamente jornalismo a produção de jornais e revistas empresariais.

É importante ressaltar o contexto político da época: ao mesmo tempo em que a ditadura militar estava no auge, se manifestando na repressão política e censura à imprensa, os meios universitários eram fortemente influenciados pelas correntes esquerdistas. Jornalismo empresarial seria algo como a capitulação ao imperialismo, nas palavras de Gaudêncio Torquato.

Ele continuou ministrando disciplinas de Jornalismo Interpretativo e a levar para as salas de aulas o debate sobre a grande reportagem, mas sua grande contribuição para a ECA foi a defesa do ensino no meio acadêmico do jornalismo empresarial e da comunicação empresarial. O que na época era tabu hoje é encarado pelas novas gerações como uma das alternativas de atuação profissional.

Afinal, a expansão do mercado de trabalho nos anos 90 foi mais forte no segmento de revistas especializadas e na comunicação empresarial. Foi um período de profissionalização dos departamentos de comunicação das organizações e fundação de dezenas de assessorias de imprensa. Atualmente, grande parte dos jornalistas formados atua em assessorias, departamentos de comunicação ou revistas empresariais.

O interesse pelo jornalismo empresarial leva Gaudêncio Torquato a organizar departamentos de comunicação de grandes empresas e, depois, a enveredar pelo segmento institucional, com o convite para trabalhar no governo José Sarney e participar da criação do Conselho de Comunicação, órgão destinado a discutir as políticas para o setor no país.

Marketing político

Com a abertura política em meados dos anos 80, Gaudêncio Torquato se volta para outro campo ainda embrionário no País: o marketing político. Não é uma guinada da água para o vinho porque sua família sempre esteve embrenhada na vida política no Nordeste e, por isso, mergulhar nas estratégias de uma campanha eleitoral era uma aventura por um mar conhecido.

Começa com a bem-sucedida campanha do empresário Tasso Jereissati para o governo do Ceará em 1986. A partir daí, seguem-se dezenas de outras, como as de João Faustino (RN), Freitas Nobre, Guilherme Afif Domingos e Mário Covas, desenvolvidas por intermédio de sua nova empresa, a GT Marketing e Comunicação.

Ciente de que se embrenha por uma área que engatinhava no Brasil, Torquato aproveita sua experiência como professor para imprimir um viés didático em seus livros, nos quais se evidencia a meta de orientar os profissionais da comunicação e marketing. Uma de suas primeiras obras, Marketing Político e Governamental - um roteiro para campanhas políticas e estratégias de comunicação (São Paulo, Summus, 1985), é dividida em três partes: O ABC do Marketing Político, Marketing para o Interior do País e Marketing Governamental.

Ao voltar-se para o marketing político e a comunicação empresarial, Gaudêncio Torquato afasta-se gradualmente do meio acadêmico, se aposenta na USP e deixa de dar aulas em outras faculdades. Mas se dedica a dar conferências, seminários, cursos e treinamentos sobre os temas que nortearam sua carreira profissional, com ênfase para questões de marketing político e comunicação empresarial. Publica artigos em 67 jornais de todo o país e é comentarista de política em rádios.

Conclusão

Na trajetória profissional e acadêmica de Gaudêncio Torquato é interessante observar o quanto o momento político do País influi nas mudanças de rumo de sua carreira e, ao mesmo tempo, como essas "guinadas" na realidade não são de fato "guinadas", termo que pressupõe uma alteração repentina e radical de rumo.

A passagem da fase de grandes reportagens para o jornalismo empresarial vinha sendo engendrada em cursos e estudos no meio acadêmico e se torna uma clara opção profissional com a fundação da Proal, que se dedica à publicação de jornais e revistas de empresas, mas também se empenha em aprofundar o debate sobre jornalismo, tanto o empresarial como o da grande imprensa, o da imprensa alternativa e da mídia eletrônica. É uma mudança gradual.

A passagem para a comunicação institucional e o marketing pessoal (do político) é a seqüência natural, na qual a redação de um jornal vai ficando cada vez mais distante. O vínculo ainda é mantido nos artigos publicados em jornais de todo o país, mas agora Gaudêncio Torquato é colaborador, articulista e não mais o repórter, o jornalista que cobre os eventos.

O rumo profissional de Gaudêncio Torquato revela um traço do perfil do aluno formado em Comunicação Social, embora na época de sua graduação os jornalistas fossem sobretudo autodidatas e se formassem basicamente no dia-a-dia da redações. O jornalista é sobretudo um "generalista', um profissional que tem de estar a par de tudo, ligado em todas as mudanças e bem informado sobre fatos e tendências.

Com sua formação acadêmica e nas redações, Gaudêncio Torquato passa de uma área para outra, numa clara demonstração de que a faculdade de jornalismo, e a prática profissional, não formam apenas jornalistas. É como um retorno ao começo do século 20, em que os estudantes iam cursar Direito e depois seguiam os caminhos mais variados. E uma comprovação de que a formação propiciada por um curso não deve ser uma camisa de força.

No caso de Gaudêncio Torquato, a opção inicial foi pelo jornalismo interpretativo, as grandes reportagens - área de sua contribuição nos primeiros anos da ECA -, passando para a comunicação empresarial/institucional - domínio em que ele se torna um pioneiro na escola e uma referência para os estudiosos desse ramo da comunicação.

Bibliografia

Atas das Atividades do Departamento de Jornalismo da Escola de Comunicação e Artes - 1968-1972.

A Evolução de uma Ferramenta Estratégica, Estudos Aberje I.

O Estado de S.Paulo - artigos publicados por Gaudêncio Torquato.

Entrevista com Gaudêncio Torquato - um balanço de sua carreira.

Marketing Político e Governamental - um roteiro para campanhas políticas e estratégias de comunicação (São Paulo, Summus, 1985).

O Marketing do Vitupério, artigo na página da Internet do Observatório de Imprensa, 20/09/2000.

Tratado de Comunicação e Organização Política, Thomson, 2002.

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