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Monografias
Primeira
geração do curso de jornalismo da ECA:
as contribuições de Gileno Marcelino
Por
Maria do Socorro F. Veloso*
Resumo
A
presente monografia objetiva recuperar as idéias produzidas
e difundidas pelo professor Gileno Fernandes Marcelino no âmbito
do Departamento de Jornalismo da Escola de Comunicações
e Artes da USP. O trabalho faz parte de projeto desenvolvido
na disciplina Pensamento Jornalístico Brasileiro, ministrada
pelo professor doutor José Marques de Melo e cujo objetivo
é resgatar a produção intelectual da primeira
geração de pensadores uspianos vinculados ao curso
de Jornalismo (1967 a 1971).
Palavras
chave:
Pensamento jornalístico, pensadores uspianos, Gileno
Marcelino
Introdução
Esta
monografia tem por objetivo sistematizar as contribuições
do professor doutor Gileno Fernandes Marcelino ao pensamento
jornalístico uspiano, destacando o trabalho que realizou
como professor do Departamento de Jornalismo da Escola de Comunicações
e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP) entre
1970 e 1985.
O
presente estudo atende a proposta formulada pelo professor doutor
José Marques de Melo para os alunos da disciplina Pensamento
Jornalístico Brasileiro no segundo semestre de 2003,
cuja intenção foi enfocar a gênese deste
pensamento, bem como sua projeção na produção
intelectual uspiana. Nossa tarefa, como alunos, foi levantar
a biografia e o trabalho acadêmico desenvolvido pelos
12 professores pertencentes à primeira geração
do curso de Jornalismo na ECA (1967 a 1971).
São
eles: José Marques de Melo, Flávio Galvão,
José Freitas Nobre, Francisco Morel, Gaudêncio
Torquato, Thomas Farkas, Juarez Bahia, Antonio Costella, Gileno
Marcelino, Hélcio Deslandes, Cremilda Medina e Alfredo
Weissflog.
A
esta autora coube pesquisar a história de vida e o pensamento
do professor, administrador e advogado Gileno Marcelino, livre
docente pela USP. Gileno hoje reside na capital federal, onde
atua como assessor especial do reitor da Universidade de Brasília
(UnB).
Ao
longo do presente estudo pretendemos mostrar como a experiência
adquirida em empresas editoriais e jornalísticas possibilitou
a Gileno contribuir com a graduação em Jornalismo
e a pós-graduação em Comunicação
na ECA, onde ministrou por mais de uma década a disciplina
Administração de Empresas Jornalísticas
e outras correlacionadas. Seu trabalho permitiu entender as
engrenagens administrativas de jornais e revistas, que dependem
de planejamento para sobreviver em um mercado freqüentemente
atingido por períodos de instabilidade, como é
o caso do Brasil.
A
metodologia usada na produção desta monografia
incluiu revisão bibliográfica, pesquisa documental
e entrevistas com o próprio Gileno, com o professor José
Marques de Melo e com os ex-alunos e hoje professores Elizabeth
Saad e Kardec Pinto Valada.
Esperamos
que este trabalho possa servir como fonte de pesquisa para os
interessados em conhecer as idéias difundidas pela primeira
geração de professores da ECA, especialmente aquelas
produzidas por Gileno Marcelino.
1.
Perfil biográfico e trajetória
Filho
de José Marcelino de Oliveira Filho e Francisca Ida Fernandes
de Oliveira, Gileno Fernandes Marcelino nasceu em Mossoró
(RN), em 5 de novembro de 1938. Fez os cursos primário
e ginasial em sua cidade natal, entre os anos de 1944 e 1954.
Em 1955 mudou-se para o Sudeste do país, cumprindo o
ginasial em escolas de São Paulo e no Rio de Janeiro.
Gileno
Marcelino concluiu dois cursos de graduação no
Rio: Administração Pública, na Fundação
Getúlio Vargas, em 1961, e Direito, na Universidade do
Brasil, em 1962. Sua aproximação com o jornalismo
começou neste período, quando ingressou no Jornal
do Brasil como repórter a fim de poder pagar os estudos:
Comecei
no JB em 1959 como 'foca' e acabei como editorialista. Cobri
geral, política e fui setorista do Itamaraty quando a
capital federal ainda era o Rio de Janeiro. Depois voltei para
Natal [RN], a convite do governador Aloísio Alves, mas
continuei trabalhando como correspondente do Jornal do Brasil
entre 1962 e 1964. Também em Natal fui professor do primeiro
curso de Jornalismo do Estado, implantado pelo governo. (1)
Apesar
da atuação como jornalista, Gileno decidiu investir
na carreira de administrador, dedicando especial atenção
a temas ligados ao planejamento. O mestrado foi realizado na
Faculdade de Economia e Administração (FEA) da
Universidade de São Paulo, entre 1976 e 1979. O doutorado
em Administração veio em seguida - 1980 -, com
créditos cumpridos na FEA e Northwestern University (Illinois,
EUA). Desenvolveu pesquisas voltadas para a modernização
administrativa da educação e para os sistemas
estaduais de ciência e tecnologia.
Em
1988 o professor defendeu tese de livre docência na Escola
de Comunicações e Artes, cujo tema foi a reforma
administrativa do governo Sarney e sua divulgação
na imprensa.
Gileno
trabalhou entre 1970 e 1985 como professor adjunto da Escola
de Comunicações e Artes (ECA) e FEA. Nesse período
também exerceu funções administrativas.
Antes de sua passagem pela USP foi funcionário do governo
do Rio Grande do Norte, assessor da presidência do jornal
Folha de S. Paulo (1969) e vice-diretor da Editora Abril, onde
permaneceu de 1969 e 1972.
Nas
décadas de 60, 70 e 80 recebeu três bolsas de estudo
para o exterior - duas para os Estados Unidos e uma para França,
países onde realizou cursos de aperfeiçoamento.
Em
1985 o professor mudou-se para Brasília, onde trabalhou
como secretário geral dos ministérios da Administração,
Previdência e Cultura.
2.
1970 a 1985: contribuições ao pensamento jornalístico
uspiano
Gileno
Marcelino ingressou na Escola de Comunicações
e Artes da USP em 1970, para atuar como docente do curso de
Jornalismo - que formava, naquela ocasião, sua primeira
turma. O convite foi feito pelo professor José Marques
de Melo, então diretor do Departamento de Jornalismo
e Editoração, que quis trazer para a instituição
a experiência acumulada por Gileno como repórter
e administrador de empresas editoriais:
Gileno
Marcelino foi recrutado para integrar o corpo docente do Curso
de Jornalismo da USP quando a disciplina Administração
de Empresas Jornalísticas começou a figurou na
grade curricular. Naquela ocasião ele trabalhava na Editora
Abril, compondo equipe liderada pelo professor Edson Franco,
que o recomendou para essa atividade. Gileno possuía
um perfil híbrido entre o jornalista e o administrador.
Registrava experiência jornalística, como repórter
e redator de jornais. (...)
Possuía
também formação acadêmica em Administração
(...). Foi contudo seu desempenho funcional na Editora Abril,
empresa proprietária de revistas informativas, técnicas
e segmentadas, além de publicadora de livros e fascículos
em série, que determinou sua escolha para conduzir a
implantação da disciplina. (...) (2)
O
professor Marques de Melo explica que quando foi implantado
o curso de Jornalismo da USP, no final dos anos 60, "havia
uma enorme escassez de profissionais qualificados para o magistério".
Deste modo, optou por dois caminhos complementares: conceder
bolsas de monitoria para alunos do curso, com a finalidade de
atrair jovens
promissores para a carreira docente, e trazer do mercado profissionais
qualificados que demonstrassem competência funcional,
seja como repórteres, editores, administradores ou produtores
gráficos, mas que revelassem capacidade de sistematização
dos conhecimentos.
Nesse
sentido, Gileno Fernandes Marcelino demonstrou propensão
para a carreira acadêmica, associando-se, imediatamente
depois, à FEA, onde matriculou-se na pós-graduação,
vindo a conquistar os títulos de Mestre e Doutor em Administração.
Enquanto isso, produziu textos de apoio para uso dos seus estudantes
de jornalismo e editoração. (3)
Na
graduação em Jornalismo, Gileno Marcelino ministrou
as disciplinas Administração de Empresas Jornalísticas
(1970 a 1972), Política e Administração
de Empresas Jornalísticas (1973 a 1980) e Técnicas
de Administração para Jornalismo (1981 a 1983).
Também ministrou dois cursos para turmas de Editoração:
Políticas e Administração de Empresas Editoriais
(1974 a 1979) e Técnicas de Administração
e Planejamento e Editoração (1981 a 1983).
O
professor atuou ainda na pós-graduação,
ministrando a disciplina Planejamento e Organização
de Empresas de Comunicação em 1984 e 1985. Também
foi membro do Colegiado do Departamento de Jornalismo e Editoração
no período de 1983 a 1985.
2.1.
Pesquisa na graduação
Com
a colaboração dos 21 alunos do 4o ano de Jornalismo,
Gileno Marcelino realizou já no primeiro ano de sua carreira
docente na ECA, em 1970, uma pesquisa sobre a estrutura das
empresas jornalísticas de São Paulo. Orientados
pelo professor, os estudantes coletaram informações
sobre estrutura organizacional, produto, mercado, distribuição,
concorrência, vendas e publicidade nas empresas.
Intitulada
"Diagnóstico da Empresa Jornalística em São
Paulo", a pesquisa foi ampliada em 1971, com a nova turma
concluinte de Jornalismo. Na ocasião, com a colaboração
dos alunos, Gileno Marcelino elaborou questionários destinados
e levantar as seguintes informações: ficha da
empresa, administradores, organização geral, administração
de vendas, de pessoal, de material, da produção
e financeira. Os dados levantados ao longo dos dois anos foram
tabulados, visando posterior publicação.
Essas
pesquisas tinham por objetivo traçar um diagnóstico
- tanto quanto possível, real - do universo da indústria
de comunicação de massa em São Paulo. Contudo,
"o receio das empresas em revelar supostos segredos industriais
prejudicou sensivelmente os questionários aplicados e
a tabulação das respostas". (4) Ainda assim,
em 1972 foram realizadas mais duas pesquisas semestrais pelos
alunos do 7o e 8o semestres de Jornalismo, visando complementar
os trabalhos feitos nos dois anos anteriores.
Tão
logo ingressou na ECA, Gileno Marcelino participou das ações
de intercâmbio da Escola com outros cursos de Jornalismo
e Comunicação do País, bem como com entidades
científicas e empresariais da área. Em agosto
de 1970, por exemplo, representou a ECA no II Encontro Nacional
de Editores, promovido pela Câmara Brasileira do Livro
em Serra Negra (SP). Em junho do ano seguinte participou de
novo encontro de editores e livreiros, desta vez em São
Lourenço (MG).
Em
1971 o professor foi chamado a compor o Conselho Editorial da
Revista da ECA. No mesmo ano coordenou seminário sobre
política de distribuição nas empresas jornalísticas.
Em
1972, juntamente com alunos do 7o e 8o semestre, Gileno Marcelino
coordenou seminários sobre problemas de planejamento
em geral e planejamento empresarial, problemas de produção
gráfica e problemas de distribuição de
jornais e revistas.
2.2.
Administração de jornal e editora
Em
1981, o professor Gileno Marcelino publicou pela ECA um caderno
de textos básicos, "Administração
de Jornal e Editora". O trabalho de 74 páginas começa
com uma abordagem sobre a teoria da administração,
para em seguida discutir as características e o planejamento
das empresas jornalísticas e editoriais, bem como a organização
das empresas de comunicação. Como caso para estudo,
traz a análise da reforma administrativa do Jornal do
Brasil.
"Administração
de Jornal e Editora" foi lançado num período
em que os jornais brasileiros davam seus primeiros passos rumo
à informatização. No trabalho, Gileno observa
que "uma empresa jornalística é uma empresa
como qualquer outra. A grande diferença (...) está
na mercadoria produzida (informações redacionais
ou publicitárias, comentários, interpretações)
e no papel exercido pelo jornal na formação da
opinião pública" (1981: 17).
Já
no início na década de 1980, Gileno chamava atenção
para o baixo índice de leitores de jornal no Brasil em
relação aos países desenvolvidos: "Num
país de cerca de 120 milhões de habitantes, apenas
3 milhões de pessoas compram jornal diariamente, o que
dá uma média de 40 leitores em cada mil habitantes"
(1981:17). A título de comparação, observa
o professor, Suécia e Inglaterra tinham 550 leitores
de jornal em cada mil habitantes, naquele período.
Gileno
via na deterioração do mercado e do produto as
razões para o insucesso das vendas de jornal no Brasil:
Além
da má qualidade do produto e da embalagem (conteúdo
e apresentação do jornal), 20% da população
brasileira é analfabeta e o restante tem pouco dinheiro
para comprar esse tipo de mercadoria. É preciso adaptar
o mercado e sua embalagem aos padrões e ideais do leitor
moderno, nas diversas classes de leitores. (1981: 17) (5)
Outro
problema apontado por Gileno era a forma como as empresas jornalísticas
sempre foram vistas por seus dirigentes. A exemplo do que aconteceu
em países como os Estados Unidos, a maioria dos jornais
brasileiros foi fundada por "homens que se lançaram
à empresa jornalística supondo que, para ganhar
dinheiro, bastava apenas comprar 'o papel branco e vendê-lo
preto', no dizer de Peterson, Jansen e Rivers" (1981: 18).
Ao
discutir a força da imprensa na sociedade moderna, Gileno
recorre à teoria liberal para justificar a obtenção
do lucro por parte das empresas jornalísticas: "(...)
somente uma imprensa economicamente livre, atuando de acordo
com um sistema de empresa privada, pode ser imparcial na informação,
livre na interpretação e comentários, enfim
pode (...) salvaguardar as liberdades civis" (1981: 19).
Essa linha de pensamento, lembra o professor, também
é usada para justificar as grandes cadeias de comunicação.
"O argumento é o de que uma organização
grande e próspera tem mais possibilidade de enfrentar
as pressões de diversas fontes do que uma organização
pequena e fraca". (1981: 20)
Gileno
constatou, em seu estudo, que os jornais perderam boa parte
das verbas de publicidade para o rádio e a televisão.
No entanto, o meio impresso se recompôs e aprendeu a valorizar
suas vantagens como veículo publicitário. "Uma
grande vantagem do jornal (...) é a maior duração
e maior possibilidade de fixação, em detalhes,
de sua mensagem. Um anúncio de jornal pode ser lido com
vagar, pode ser relido e comparado com outros, pode ser até
recortado e guardado". (1981: 21)
Outra
vantagem apontada pelo pesquisador é a rapidez da preparação
do anúncio e os curtos prazos para inserção.
"Em suas edições normais, um jornal aceita
anúncios a serem publicados algumas horas depois. Entre
a produção do anúncio e sua publicação
é comum o prazo de 48 horas, apenas. (...) Essa vantagem
é muito importante para as vendas de varejo". (1981:
21) Gileno conta que durante uma greve de jornais em Nova Iorque,
ocorrida em 1964, as vendas a varejo caíram mais de 20%
na cidade.
Ao
abordar a célebre separação entre departamento
comercial e redação (comparada pelo fundador da
revista Time, Henry Luce, à oposição Igreja
x Estado), Gileno Marcelino faz uma afirmação
que para alguns pode soar polêmica:
O
Departamento Comercial de um jornal tem, pois o direito de pedir
à redação que faça um bom jornalismo,
moderno, atualizado, objetivo e adaptado ao público ao
qual se dirige especialmente. E a redação tem
o direito de pedir ao DC que só faça e receba
anúncios dentro de um padrão ético e estético
aceitável, para não comprometer a imagem do jornal.
(1981: 22)
Como
observa o professor, a publicidade é elemento indispensável
para ativar a circulação de riquezas dentro da
sociedade. "Como negócio intermediário entre
produção e consumo, a publicidade ajuda o comércio
e a indústria a venderem seus produtos e contribui para
manter os veículos de comunicação social".
(1981: 22)
Ao
tratar do planejamento em uma empresa jornalística, Gileno
assinala que a problemática dos grupos que controlam
os meios impressos no Brasil passa por três aspectos principais:
-
A redação e a operação comercial
(venda de publicidade);
-
A indústria (gráficas);
-
A distribuição.
Gileno
Marcelino observa que esse modelo difere dos Estados Unidos,
onde os três aspectos são, na maior parte dos casos,
independentes entre si. No Brasil, A e B são interligados;
e num caso mais complexo (como a Editora Abril), C também
se interliga aos outros.
Ao
indicar perspectivas "explosivas" do mercado em expansão
- "quer pela alfabetização, quer pelo aumento
do nível de necessidades culturais (...), quer pelas
taxas de urbanização rápida" (1981:
31), Gileno chamou atenção para a revolução
tecnológica dos meios eletrônicos, que (...) tende
a tornar obsoletos - dentro de uma ou no máximo duas
décadas - o conceito de distribuição e
de industrialização [dos produtos jornalísticos]:
uma revolução está em andamento nos países
ricos [e] chegará mais cedo ou mais tarde ao Brasil.
(1981: 31)
2.2.1.
Caso para análise: A reforma administrativa do Jornal
do Brasil
Em
"Administração de Jornal e Editora",
Gileno Marcelino usa a reforma sofrida pelo Jornal do Brasil,
um dos mais importantes jornais do País, como estudo
de caso. Ele conta que a idéia de reorganizar o JB surgiu
em 1958, quando a direção contratou o jornalista
Odylo Costa Filho para dar nova feição gráfica
e editorial ao veículo:
Com
bom assessoramento, Odylo conseguiu transformar, em pouco tempo,
o antigo 'jornal das lavadeiras' num dos mais prestigiosos órgãos
da imprensa nacional. Não houve solução
de continuidade com a sua saída. Com uma redação
renovada e estilo característico, o Jornal do Brasil
prosseguiu em sua marcha ascensional sob várias direções
de redação. (1981: 57)
Havia,
contudo, um problema a ser resolvido: a velha estrutura do jornal,
altamente burocratizada, não acompanhava o novo ritmo.
O JB era presidido pela condessa Pereira Carneiro; o vice-presidente
era M.F. do Nascimento Brito. De acordo com Gileno, "havia
apenas um gerente geral, em cujos ombros recaía toda
a carga administrativa da empresa. Caracterizava-se, assim,
um descompasso entre o novo produto bem elaborado (o jornal)
e os meios para sua elaboração" (1981: 57)
O
golpe militar de 1964 impôs o argumento decisivo para
a reforma administrativa do jornal. O corte dos subsídios
à importação de papel de imprensa colocou
o jornal diante de um dilema: ou racionalizava sua administração
a ponto de conhecer quanto lhe custava uma linha impressa ou
perecia. Em novembro de 64 a direção do JB contratou
uma assessoria e a incumbiu de fazer um completo diagnóstico
industrial e administrativo do jornal.
O
processo durou cerca de dois anos e atingiu também a
organização da redação, que ficou
assim estruturada: Editor Geral (responsável pela coordenação
e execução da política editorial do jornal);
Chefe da Redação (supervisor direto junto aos
responsáveis pelas novas editorias nas quais foi dividida
a redação); Editor de Notícias (auxiliar
imediato do Chefe de Redação e responsável
pela coordenação e compatibilização
das notícias em todos os seus aspectos) e Editor de Pauta
(equivalente ao Chefe de Reportagem em outros jornais).
Sob
esse comando foram criadas oito editorias (Internacional, Esportes,
Caderno B, Cidade, Fotografia, Pesquisa, Economia, Nacional)
e três seções (Departamento Feminino, Automobilismo
e Turismo). (1981: 59-60)
2.3.
Empresas de comunicação: estudos de caso
2.3.1.
O Estado de S.Paulo
Em
1985, o professor Gileno Marcelino publicou uma coletânea
intitulada "Empresas de Comunicação: Organização
e Planejamento". O trabalho foi editado pelo Departamento
de Jornalismo da Escola de Comunicações e Artes,
com apoio da Codac (Pro-Reitoria de Atividades Científicas
e Culturais da USP). Resultou da disciplina "Planejamento
e Organização das Empresas de Comunicação",
ministrada no segundo semestre de 1984 para estudantes de pós-graduação
da Escola de Comunicações e Artes. O objetivo
da disciplina era o de "familiarizar o aluno com o ambiente
organizacional e com os recursos e as técnicas de gestão
empresarial das empresas de comunicação em nosso
País" (1985: 1).
Supervisionados
por Gileno, os alunos realizaram pesquisa de campo junto a duas
empresas jornalísticas de expressão - Editora
Abril e O Estado de S. Paulo. A intenção foi analisar
estruturas, métodos e processos administrativos e operacionais
dessas empresas, enfatizando o seu funcionamento geral. Para
dar mais abrangência ao estudo, e aproveitando a viagem
de um dos alunos à Europa, incluiu-se também como
tarefa a elaboração de um estudo sobre a radiodifusão
na Alemanha, França e Inglaterra.
O
roteiro do levantamento de campo, orientado pelo professor,
incluiu ficha da empresa, dados da administração
geral, recursos humanos (que trouxe pergunta sobre a presença
de jornalistas recém-formados na empresa), vendas, propaganda
e distribuição.
Na
empresa O Estado de S.Paulo S/A (OESP Gráfica), proprietária
dos jornais Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde, os alunos Laszlo
Andras Urmenyi e Maria do Perpétuo Socorro Pereira entrevistaram
o engenheiro Orlando Murad, gerente de produção.
O levantamento apontou a existência, naquele ano (1984),
de 4.000 empregados no grupo.
Responsável
pela administração e controle da produção,
Murad afirmou que o principal problema em sua área de
trabalho consiste na precariedade da oferta de equipamentos
gráficos no mercado nacional e na dificuldade de importar-se
máquinas do exterior. Os entraves colocados hoje às
importações impedem que a indústria gráfica
se expanda satisfatoriamente e, pouco a pouco, os equipamentos
existentes no mercado vão se tornando obsoletos. (1985:
13)
Com
mais de um século de existência, somente em meados
da década de 1980 a empresa O Estado de S. Paulo deu
início a uma tentativa de modificar o modelo de administração
familiar até então adotado. No entanto, de acordo
com Gileno, o novo organograma não conseguiu ser assimilado
e cumprido de imediato:
(...)
pela primeira vez pessoas não pertencentes à Família
Mesquita participariam do Conselho Consultivo, autoridade administrativa
máxima. (...) A alta direção do grupo decidiu
por essa modificação significativa na estrutura,
visando à melhoria do padrão administrativo. (...)
O Conselho Consultivo atual do Grupo é composto [pela]
Família Mesquita e por quatro empresários de alto
prestígio no cenário da iniciativa privada nacional,
à frente de grandes grupos empresariais: Senhores José
Mindlin, Antonio Ermírio de Moraes, Roberto Teixeira
da Costa, José Carlos Moraes de Abreu. (1985: 14)
A
pesquisa realizada pelos estudantes trouxe dados interessantes
a respeito da OESP. Um deles foi o trabalho do departamento
de pesquisa da empresa, "que avalia em caráter contínuo
e permanente a qualidade gráfica dos jornais que produz.
Graças ao trabalho desse departamento os jornais sofrem
modificações e adaptações ao gosto
dos consumidores" (1985: 29).
Mesmo
o produto mais conservador do grupo, o Estadão, sofreu
modificações em função das pesquisas.
Uma delas foi na colunagem: o jornal passou a ter seis colunas,
em lugar das oito originais. Outra mudança aconteceu
nos classificados, com a organização das ofertas
de imóveis por zonas. (1985: 30).
No
que se refere aos recursos humanos, o levantamento indicou,
na área gráfica, "especial interesse em substituir
a mão-de-obra oriunda de empresas de 'fundo de quintal'
por jovens totalmente treinados na empresa, com perfeita adaptação
às exigências [internas]" (1985: 30). O trabalho
traz um perfil bastante curioso dos jornalistas recém-formados,
que naquele período eram contratados inicialmente como
revisores.
À
medida que surgem vagas de jornalista propriamente dito, é
feito o aperfeiçoamento do pessoal mais qualificado da
seção de revisão. Por contraditório
que possa parecer, a principal deficiência do recém-formado
é Língua Portuguesa. Alguns entendem que o nível
dos jornais caiu, porque existe a lei impondo o jornalista credenciado.
No passado, colaborar na revisão de um grande jornal
era tarefa de privilegiados e feita por advogados famosos ou
pessoas de elevado grau de cultura.
Atualmente,
por força da lei, esse mesmo trabalho é executado
por recém-formados inexperientes, com sérias deficiências
em Língua Portuguesa - apesar dos testes e exames de
admissão a que são submetidos. Essa deficiência
estende-se por toda a empresa, resultando na queda qualitativa
do produto (1985: 31-32).
A
crise econômica vivida pelo País naquela ocasião
também teve reflexos sobre as empresas de comunicação,
resultando, no caso dos jornais da OESP, em fatores quantitativos
como a redução do número de páginas.
O Estadão, que chegou a circular com 300 páginas
em suas edições dominicais, em 1984 viu-se reduzido
à metade - principalmente em decorrência da perda
de anúncios.
2.3.2.
Editora Abril
Outro
grupo midiático abordado no caderno "Empresas de
Comunicação: Comunicação e Planejamento"
foi a Editora Abril. O levantamento foi realizado por duas duplas
de alunos. As estudantes Cléa Lúcia Lira e Solange
Mota trataram das questões organizacionais, a partir
de entrevista concedida por Raymond Cohen, diretor de planejamento
estratégico e de operações internacionais
da empresa, enquanto os estudantes Plínio Martins Filho
e Luís Tápias trataram da divisão gráfica
da editora, a partir de entrevista com o engenheiro Plácido
Loriggio, vice-presidente.
Fundada
em 1951, a Abril contava, em 1984, com cerca de 4.850 funcionários.
Cohen apontou como problemas principais da empresa a queda nas
vendas, em função da recessão econômica,
e a retração no mercado publicitário (queda
de 20% em relação a 1983) e de circulação.
Criada
em 1968, a revista Veja era o principal produto da editora naquela
ocasião (condição que mantém até
hoje), com 500 mil exemplares semanais para 440 mil assinaturas
e responsabilidade por 40% da receita global da empresa.
2.4.
Comunicação governamental e imprensa
Outro
importante trabalho realizado pelo professor na ECA foi o caderno
"A reforma administrativa e sua divulgação
na imprensa", uma versão resumida da tese de livre
docência do professor, sobre comunicação
governamental.
A
precariedade das estratégias de comunicação
é uma característica da administração
pública no Brasil, desde o período colonial. Como
lembra TORQUATO (2002: 111), a comunicação é
um sistema-meio, que necessita ajustar-se aos parâmetros
do sistema-fim:
"Portanto,
quando se coloca o planejamento da comunicação
para o sistema público, deve-se considerar a grave realidade
de um Estado que deixou de ser capaz de planejar (...) e executar
consistentemente qualquer política".
Em
um sistema identificado como parasitário, freqüentemente
corrupto e incompetente, e cuja governabilidade está
sempre a depender do bom relacionamento entre os poderes, a
comunicação pública é diretamente
afetada pela instabilidade dessa estrutura.
Foi
com o desafio de apresentar alternativas concretas a este cenário
que o professor Gileno Marcelino produziu sua tese de livre
docência sobre os aspectos comunicacionais da reforma
administrativa no governo, no período de 1985 a 1987,
quando o país era presidido por José Sarney. (6)
O
projeto de pesquisa de Gileno Marcelino buscou, inicialmente,
identificar e avaliar os principais aspectos que poderiam facilitar
ou dificultar a concretização da Reforma Administrativa
Federal. Para isso, tomou por base sua projeção
e divulgação na imprensa, a partir de veículos
formadores de opinião pública e situados no centro
de decisão (Brasília) e nos dois maiores centros
de repercussão nacional (São Paulo e Rio de Janeiro).
O pesquisador trabalhou com o Correio Braziliense, Jornal de
Brasília, Folha de S. Paulo, Estado de S. Paulo, Jornal
do Brasil e O Globo, acompanhando a divulgação
da reforma nesses jornais em dois períodos: setembro
a novembro de 1986 e outubro de 1987. Utilizou-se, nessa tarefa,
de métodos quantitativos e qualitativos.
Como
processo e técnica, observa Marcelino, a comunicação
permite ao Estado cumprir suas finalidades com mais eficiência:
"Tal função se consolida pela aproximação
entre governantes e governados, num processo de mutualidade.
Em um sistema democrático, a comunicação
abrange todas as possibilidades de intercâmbio entre Governo
e a sociedade, num fluxo livre, aberto e constante de idéias".
(1988: 94)
Para
Gileno, um plano de comunicação governamental
deve ter por objetivo inicial a tarefa de atribuir identidade
ao Governo, conferindo-lhe uma marca capaz de exprimir contornos
das ações públicas.
Para
entender a divulgação na imprensa da reforma administrativa
feita pelo governo Sarney, Marcelino analisou, inicialmente,
os acontecimentos anteriores e posteriores ao Plano Cruzado,
lançado em fevereiro de 1986 e considerado marco decisivo
no processo de comunicação governamental. Um aspecto
a destacar é que o professor Gileno vivenciou de perto
aquele período histórico na condição
de integrante do governo federal. Entre 1985 e 1989 ele foi
secretário geral do DASP - Departamento Administrativo
do Serviço Público, que depois foi substituído
pelo Ministério da Administração.
O
período que antecedeu o Plano Cruzado foi marcado por
desajustes ocorridos em função de contingências
históricas na passagem entre dois pólos de poder,
agravadas pelas circunstâncias trágicas da morte
de Tancredo Neves. Não havia espaço para um planejamento
integrado da ação governamental. O momento atravessado
pela Nação aconselhava a procura de um equilíbrio.
Atendendo
a solicitação da Secretaria de Imprensa e Divulgação
da Presidência da República, Gileno Marcelino coordenou
em setembro de 1985 um seminário de planejamento e integração
para toda a área de comunicação social
do governo. O seminário reuniu coordenadores de área
dos ministérios e seus assessores, que discutiram os
problemas e a gestão do processo de comunicação
governamental. O debate resultou na definição
de objetivos e estratégias para um plano de comunicação
do governo a partir de documento elaborado pelo professor Gaudêncio
Torquato, então secretário executivo da Comissão
de Comunicação Social criada para assessorar o
governo nesta área.
O
Plano de Comunicação Governamental reuniu um conjunto
de objetivos a curto, médio e longo prazo, entre eles:
dar ao governo uma identidade que personificasse, perante a
sociedade, seu estilo e comportamento; assegurar ao governo
as condições para o bom desempenho de suas atividades,
por meio de instrumentos capazes de estabelecer um bom fluxo
de relações entre governantes e governados; projetar
o conceito do País no cenário internacional, estabelecendo
um sólido suporte para o êxito na área das
negociações econômicas, em condições
que satisfizessem plenamente o governo e a sociedade; auscultar,
de maneira sistemática, os anseios sociais, procurando
transferir os resultados de tais sondagens aos setores e programas
que se identificassem com os interesses do bem estar geral.
A
implementação deste plano pressupunha a adoção
de um conjunto de medidas estratégicas e táticas,
envolvendo ações de quatro tipos: na comunicação
social - com o uso das mídias; na preparação
e aperfeiçoamento do discurso; no ajuste da equipe governamental;
nas ações de natureza administrativa para a comunicação.
Em
28 de fevereiro de 1986 o governo Sarney decretou o Plano de
Estabilização Econômica. Reordenada, a classe
média experimentava "a satisfação
psicológica de recuperação do poder de
compra". (MARCELINO, 1988: 110). Depois de um período
de ambientação, o então presidente abandonou
a postura low profile dos primeiros momentos e adotou uma presença
mais efetiva junto à opinião pública.
Os
ajustes no Plano de Estabilização Econômica
(Cruzado II), (7) contudo, diminuíram a confiança
da população no governo, gerando desânimo
e contrariedade. Os danos sobre a imagem do governo exigiam
revisão das relações com a sociedade. "A
premissa em que deveria se apoiar a nova comunicação
do governo era a gravidade da situação econômica
do País que precisava chegar (...) de maneira transparente
e honesta (...), de acordo com os parâmetros do marketing
institucional". (1988: 122)
O
realinhamento da política de comunicação
deveria contemplar o plano político, com o fortalecimento
de canais que reforçassem a sustentação
política do governo; o plano social, com a adoção
de estratégias que visassem aproximar o governo da sociedade;
e o plano econômico, com a criação de um
sistema que permitisse adequar a política econômica
à realidade social. (1988: 122-123)
De
acordo com Gileno Marcelino, na era pós-Plano Cruzado
a comunicação governamental enfrentou uma série
de problemas, incluindo o desentrosamento entre os coordenadores
da área, falta de padrões, linguagem divergente,
desarticulação na organização dos
programas e pouca transparência.
Em
relação à reforma administrativa, Marcelino
analisou sua divulgação nos períodos anterior
e posterior ao Plano Cruzado. O programa de comunicação
para a Reforma Administrativa foi elaborado pelo professor Gaudêncio
Torquato e tinha como estratégias utilizar os meios de
massa públicos e privados, bem como o instrumental de
comunicação da máquina governamental, para
atingir todos os universos de interesse.
Indagado
sobre como vê as estratégias comunicacionais do
governo federal nos dias de hoje, o professor Gileno respondeu:
[A
comunicação governamental] vai muito mal. Tudo
está centralizado na figura do Luis Gushiken [secretário
de Comunicação]. O governo não consegue
se relacionar bem com a sociedade. Basta ver o episódio
dos velhinhos da Previdência [recadastramento de aposentados
e pensionistas com mais de 90 anos]. Não fosse a figura
carismática do presidente da República, as coisas
estariam bem piores. Mas não sei se esse carisma consegue
durar quatro anos. O governo se comporta como dono da verdade;
é arrogante, e esse comportamento está refletido
na comunicação. Votei no Lula porque queria ver
se as coisas mudavam. Mas continuam na mesma. (8)
3.
Empreendedorismo: marca registrada
Gileno
Fernandes Marcelino deixou o quadro funcional da USP em 1985,
quando ocupava o cargo de pró-reitor de Atividades Científicas
e Culturais (Codac). Atendendo a convite de João Sayad,
ministro do Planejamento do governo Sarney, assumiu a Secretaria
Geral do DASP - Departamento Administrativo do Serviço
Público, que antecedeu o Ministério da Administração.
Depois foi secretário executivo do Ministério
da Previdência Social e do Ministério da Cultura.
O
professor retornou à Universidade de São Paulo
em 1988, para defender sua tese de livre docência. Sobre
a passagem de Gileno pela ECA, o professor José Marques
de Melo tece os seguintes comentários:
Além
do conhecimento disponível sobre o mercado de trabalho
jornalístico e editorial, o professor Gileno demonstrou
propensão para inventariar e analisar os processos administrativos
em desenvolvimento nas empresas do ramo. Quando passou a atuar
concomitantemente na ECA e na FEA, ele se afastou das rotinas
profissionais, enquanto executivo, passando a trilhar outro
caminho, o de consultar empresarial.
Para
realizar a contento essa nova variável ocupacional, ele
precisou desenvolver metodologias de diagnóstico empresarial,
aplicando-as aos campos jornalístico e editorial.
Em função disso, fez aplicações
ao universo com que lidava nos cursos da ECA, especialmente
quando começou a atuar na pós-graduação.
(...) Além disso, ele sempre teve um perfil caracterizado
pela cordialidade e pelo empreendedorismo.
Cultivou
boas relações tanto aqui na ECA quanto na FEA,
ampliando-as também para a Reitoria da USP, onde ocupou
o cargo de Coordenador de Atividades Culturais, antes de ser
convidado a exercer funções públicas em
Brasília. Ao aposentar-se na USP ele praticamente interrompeu
seus estudos e reflexões sobre as empresas comunicacionais,
retornando ao filão que o seduziu na mocidade intelectual,
ou seja, dedicando-se ao exercício da docência
e da pesquisa no âmbito da administração
pública. (9)
A
professora Elizabeth Saad Corrêa, chefe do Departamento
de Jornalismo e Editoração da ECA, lembra do período
em que foi orientanda de Gileno no doutorado:
"O
conheci ainda na FEA-USP quando fazia o mestrado em Administração
e ele era meu colega de turma fazendo o doutorado (na FEA).
Foi o Gileno quem me convidou para dar aulas na ECA quando ele
recebeu convite para trabalhar em Brasília. Já
naquela época (...) eu me interessava pela junção
dos temas gestão, comunicação e tecnologia
e o Gileno era [praticamente] o único na ECA que tinha
essa formação e visão. Foi por aí
que construímos uma afinidade, resultando na orientação
para meu doutorado."
Nosso
relacionamento acadêmico foi muito pequeno na medida em
que nossos contatos eram telefônicos e por carta, tentando
juntar Brasília a SP ainda numa época sem internet.
(...)
Acho que não fossem as circunstâncias de vida dele
e minhas não teria feito carreira acadêmica na
USP. Devo isso a ele. (10)
Responsável
pela ida de Gileno Marcelino para o Departamento de Jornalismo,
o professor José Marques de Melo diz lamentar que "sua
competência profissional não tenha sido muito valorizada,
pois vivíamos então uma época de fascínio
pelas alternativas jornalísticas, nas quais infelizmente
não havia muito espaço para a gestão empresarial".
O
professor alerta para "essa miopia", que "precisa
ser ultrapassada, pois empresas mal administradas podem conduzir
a insucessos profissionais como temos presenciado neste início
conturbado do novo século". (11)
Considerações
finais
As
contribuições do professor Gileno Marcelino aos
estudos de jornalismo, algumas delas datadas de três décadas,
guardam atualidade. Neste momento em que as empresas jornalísticas
passam por uma crise profunda, cuja marca principal é
o endividamento elevado, as observações de Gileno
quanto à necessidade de planejamento estratégico
também no setor da comunicação devem ser
levadas em consideração.
Nenhuma
empresa pode pensar em sobreviver às oscilações
de mercado sem projetar cenários. Isso vale para os jornais,
que produzem mercadoria (notícias) cujo prazo de validade
dura 24 horas, em média.
Preocupado
com a lucratividade das empresas midiáticas, Gileno chamou
atenção para a necessidade de diálogo entre
setor comercial e redação. Também destacou
a necessidade de se oferecer produtos editoriais mais adequados
à realidade sócio-educacional do Brasil, que ainda
sofre com males como o analfabetismo.
Sobre
a comunicação governamental, Gileno também
trouxe importantes contribuições, à medida
que ainda é grande o desconhecimento e até mesmo
o preconceito em torno da questão, no Brasil. As ações
destinadas a dar voz às iniciativas governamentais são
por vezes associadas a partidarismo, corporativismo, ou até
mesmo a tentativas de ludibriar deliberadamente a opinião
pública.
Pesquisas
desenvolvidas por autores como Gileno Fernandes Marcelino são
importantes porque oferecem uma visão alternativa por
parte de quem vivenciou o dia a dia da comunicação
pública não só como servidor federal, mas
também como alguém que se propôs a entender
os meandros desse processo dentro da academia.
Sabe-se
que hoje as ações de marketing político
são determinantes na vida pública. Muitas vezes
essas ações, em nome de uma suposta transparência,
apenas promovem a "maquiagem" de determinadas iniciativas
governamentais. Por certo que não vamos oferecer aqui
a ingênua proposta de dar costas às postulações
do marketing. Contudo, e tomando por base as conclusões
de Gileno Marcelino, consideramos que as mais sofisticadas ferramentas
comunicacionais de pouco ajudarão se as ações
do poder público não se transformarem em benefícios
reais para a população.
Notas
(1)
Entrevista concedida pelo professor Gileno Marcelino, por telefone,
em 8 de dezembro de 2003.
(2)
Entrevista concedida por e-mail em 7 de dezembro de 2003.
(3)
Idem.
(4)
Relatório de Atividades do Departamento de Jornalismo
e Editoração da ECA/USP - 1971. p.152.
(5)
Estatística divulgada pelo IBGE em junho de 2003 indica
que o número de analfabetos caiu nos últimos anos,
mas mesmo assim continua bastante elevado: o Brasil tem hoje
cerca de 16 milhões de pessoas incapazes de ler e escrever.
(6)
MARCELINO, Gileno. "A reforma e administrativa e sua comunicação:
A prática do governo e a versão da imprensa".
Tese de livre docência. São Paulo: ECA/USP, 1988.
269 p.
(7)
O Cruzado foi o primeiro plano de impacto com base na inflação
zero. Sua duração foi breve (nove meses). Foi
substituído pelo Plano Cruzado II, lançado seis
dias depois de o governo ter obtido a maior vitória eleitoral
da história da República, no dia 15 de novembro
daquele ano: a totalidade dos governadores, e quase dois terços
da Câmara, do Senado e das Assembléias Legislativas
(a eleição presidencial não estava em jogo).
Com
os salários congelados há nove meses, a população
foi obrigada a arcar com os seguintes aumentos, num só
dia: 60% no preço da gasolina; 120% nos telefones e energia;
100% nas bebidas; 80% nos automóveis; 45% a 100% nos
cigarros; 100% nas bebidas.
(8)
Entrevista concedida por telefone em 17 de novembro de 2003.
(9)
Entrevista concedida por e-mail em 7 de dezembro de 2003.
(10)
Entrevista concedida por e-mail em 8 de dezembro de 2003.
(11)
Entrevista concedida por e-mail em 7 de dezembro de 2003.
Bibliografia
ALVES,
Magda. Como escrever teses e monografias: um roteiro passo a
passo. Rio de Janeiro: Campus, 2003.
MARCELINO,
Gileno F. A reforma administrativa e sua comunicação:
a prática do governo e a versão da imprensa. Tese
de livre docência. São Paulo: ECA/USP, 1988.
__________.
A reforma administrativa e sua divulgação na imprensa.
Comunicação Jornalística e Editorial, série
Pesquisa. São Paulo: Departamento de Jornalismo e Editoração
da ECA/USP, 1988.
__________.
Memorial. São Paulo, 1988.
__________.
Empresas de comunicação: organização
e planejamento. São Paulo: ECA/USP, 185.
__________.
Administração de jornal e editora. São
Paulo: ECA/USP, 1981.
TORQUATO,
Gaudêncio. Tratado de comunicação organizacional
e política. São Paulo: Pioneira Thomson, 2002.
Relatórios
de atividades do Departamento de Jornalismo e Editoração
da ECA/USP (1970, 1971, 1972, 1973).
*Maria
do Socorro Furtado Veloso é Jornalista profissional,
Doutoranda em Comunicação pela ECA/USP, Mestre
em Multimeios pela Unicamp e Docente de graduação
e pós-graduação em Jornalismo.
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