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Monografias


José Marques de Melo:
um manager da comunicação no Brasil

Por Carsten Bruder

01 - Introdução

Jornalista, pesquisador, professor acadêmico, administrador - as facetas da personalidade que é a personagem do seguinte trabalho são variadas. José Marques de Melo conseguiu unificá-las ao longo de sua carreira.

Uma carreira cheia de desafios e de lutas para melhorar as estruturas das áreas de comunicação e de jornalismo.

O presente trabalho mostra algumas estações da vida profissional deste protagonista e fala sobre as influências e as fases da vida de Marques de Melo.

Neste trabalho as fases da vida profissional dele estão divididas em cinco.

Os principais focos serão a segunda e a quarta fase quando ele realiza o seu trabalho na Universidade de São Paulo, iniciando com a própria fundação das Escolas de Comunicações e Artes.

Um dos membros do comitê fundador foi o responsável pela estruturação do curso de jornalismo, que seria, em seguida, um tipo de modelo para os demais cursos no país inteiro. Para alcançar este objetivo teria de superar os obstáculos burocráticos, políticos e ideológicos que dificultaram a sua missão.

Gostaríamos de destacar umas das fontes principais para esta monografia. Trata-se da obra da Maria Cristina Gobbi "Grandes Nomes da Comunicação: José Marques de Melo". Uma das obras mais completas sobre este personagem publicada em 2001.

02 - Raízes intelectuais

O futuro jornalista, professor e pesquisador José Marques de Melo foi cedo influenciado pelos grandes nomes da cultura e da comunicação brasileira. A influência deles no pensamento de Marques de Melo vai até hoje. Este capítulo mostra os mais significantes.

02.01 - Raízes Nacionais

Observamos, em um primeiro momento, que algumas raízes brasileiras de Marques de Melo foram, na sua maioria, conterrâneos dele. Rui Barbosa e Luiz Beltrão são talvez os dois exemplos mais expressivos.

02.01.01 - Rui Barbosa

O primeiro grande escritor a influenciar Marques de Melo foi o jornalista e político baiano Rui Barbosa com a sua obra "A Imprensa e o Dever da Verdade". Foi uma visível "fonte de inspiração" do autor. (01) Marques de Melo guardou o momento exato quando ele encontrou esta inspiração.

"(...) Nunca esqueço um episódio que marcou meu ingresso no jornalismo. Isto ocorreu em 1959 quando comecei a publicar artigos semanais na Gazeta de Alagoas e no Jornal de Alagoas, em Maceió. (...) Enfrentei atitudes hostis de alguns conterrâneos inclusive de alguns jornalistas consagrados na comunidade (...)"

Foi, então que recebi (...) um exemplar de um livro de Rui Barbosa.(...) A leitura das reflexões de Rui Barbosa constitui um lenitivo para as minhas primeiras frustrações jornalísticas e ao mesmo tempo um antídoto para neutralizar as resistências que atenuam à revelação de fatos em opiniões inconvenientes aos que se julgam detentores da verdade e pretendem controlar os destinos da sociedade em que vivem (...)" (02)

De uma certa maneira o autor reconhece na obra de Rui Barbosa a liberdade de expressão acima de qualquer valor, e que a pluralidade das informações é que levariam a análise real dos fatos sem nenhum tipo de imposição ou censura, ratificados anos mais tarde pela UNESCO que cita o direito predominante da expressão acima de todos os direitos humanos.

02.01.02 - Luiz Beltrão

Uma outra grande referência na sua trajetória profissional foi o seu professor Luiz Beltrão que Marques de Melo conhece durante seu curso de jornalismo na Universidade Católica de Pernambuco. Beltrão que foi responsável pela implantação do curso de jornalismo no Recife.

"(...) No dia da sua formatura em jornalismo (...) e convidado pelo mestre Luiz Beltrão para assumir a coordenação do departamento de investigação cientifica ICINFORM - Instituto de Ciências da Informação - contava com 21 anos e o departamento de pesquisa para o qual fora convidado não existia. Diante de sua surpresa, Luiz Beltrão responde: "Trata de criá-lo (...)" (03)

O papel de Luis Beltrão em relação à evolução profissional de José Marques de Melo se refere basicamente ao desenvolvimento de métodos e técnicas da disciplina de jornalismo e comunicação. Beltrão se torna um consultor permanente em sua vida, buscando o aperfeiçoamento do trabalho acadêmico. Desde a época de aluno Marques de Melo era incentivado ao desenvolvimento de seu potencial acadêmico, sendo que Beltrão já mostrava destaque didático em relação a outros professores da época.

"(...) Cria um curso com um novo tipo nós já tínhamos protótipos de São Paulo e Rio de Janeiro que eram cópias dos modelos importados dos Estados Unidos e Europa. Luis Beltrão na verdade percorre o mundo inteiro fazendo uma pesquisa na área da União Soviética e países socialistas ele percorre a América Latina e tenta criar para o Recife um curso de um novo tipo adaptado as condições locais (...)" (04)

O pioneirismo de Beltrão é renovador e reformador na área de jornalismo e comunicação. Dentro de um cenário pós-guerra a pesquisa da então chamada comunicação de massa no mundo era relativamente nova e ele começa a estruturar o seu desenvolvimento para o continente latino americano trazendo novas linhas de pesquisas, métodos e paradigmas para o Brasil.

Em 1963 fundou o ICINFORM primeiro centro de estudos acadêmicos. Dois anos depois cria a revista "Comunicação & Problemas", primeiro periódico nacional dedicado a estudos das mídias e foi autor da primeira tese de doutoramento no campo das ciências de comunicação no Brasil. (05)

"(...) Nasceu sob o estímulo e orientação de Beltrão a minha carreira de pesquisador da comunicação de massa. (...) Ele formou no Nordeste uma geração de pesquisadores da comunicação que se projetariam nacionalmente (...)" (06)

Existem analogias entre Marques de Melo e Beltrão: a principal delas é que os dois possuem formação prática e acadêmica. Os dois têm a sua origem no Nordeste do país e mudaram-se para outros centros acadêmicos: Beltrão para Brasília e Marques de Melo para São Paulo. Os dois tornaram-se pioneiros na reformulação de cursos de comunicação: Beltrão na Universidade Católica de Pernambuco e Marques de Melo, mais tarde, na ECA-USP. Os estudos de Marques de Melo a respeito da cultura popular "Folkcomunicação" foram muito influenciados pela convivência com Beltrão.

Marques de Melo orientou-se em algumas personalidades da comunicação no início da sua carreira, mas: "(...) Na verdade meu principal conselheiro foi Luiz Beltrão. A ele recorri, inúmeras vezes, para buscar esclarecimentos, apoio bibliográfico, leitura crítica da primeira versão dos textos (...)". (07)

02.01.03 - Paulo Freire e Darcy Ribeiro

Ainda em Recife, Marques de Melo fez os primeiros contatos com Paulo Freire, talvez, o educador mais conhecido do Terceiro Mundo. Seu princípio de educação como ação cultural, seu método de conscientização e suas técnicas para alfabetização têm sido adotados e adaptados para ajustar milhares de projetos onde a situação de aprendizagem é parte da situação de conflito social.

Desde a publicação de Educação e atualidade brasileira em Recife, Brasil, em 1959 - mais tarde revisada e publicada com modificações como Educação como prática da liberdade - o trabalho de Paulo Freire tem influenciado não só a prática pedagógica da América Latina. Marques de Melo encontra em Freire uma referência para formular sua análise crítica a respeito do ensino de comunicação no Brasil, na Didática da Comunicação Social. Em Pernambuco, Marques de Melo definiu linhas de pesquisa em educação e coordena a implantação do Método de Ensino de Paulo Freire.

Fatores sócio-culturais dos conceitos do antropólogo, educador e escritor Darcy Ribeiro foram adotados pelo Marques de Melo na sua tese de doutorado. Ribeiro é um outro autor brasileiro que exerce expressiva influência sobre o pensamento científico dele.

02.01.04 - Gilberto Freire

"A minha relação com ele é uma relação intelectual. Jovem, o conheci no Recife e assisti uma palestra. Dialoguei com ele, mas fui leitor voraz das suas as obras como Casa Grande e Senzala. (...) Todas obras influenciaram muito a minha própria formação intelectual e foi lá que eu vi pela primeira vez o jornalismo ser fonte de inspiração cientifica." (08)

José Marques de Melo sobre Gilberto Freyre

02.02 - Raízes Internacionais: Raymond Nixon, Joffre Dumnazedier e Otto Groth

Entre as personagens que influenciaram Marques de Melo intelectualmente estão alguns autores estrangeiros: o francês Joffre Dumazedier, fundador do movimento Povo e Cultura, na França. Ele influencia iniciativas desta natureza no Brasil. Ele era professor de Marques de Melo na época em que ele trabalhava com o governo Miguel Arraes em Pernambuco.

De Otto Groth membro da Escola Alemã o Marques de Melo retira os conceitos básicos de jornalismo com os quais trabalha. Raymond Nixon oferece referências teóricas a partir de produções para o CIESPAL. (09)

03 - Cinco fases da carreira

03.01 - Primeira Fase - Alagoas, Pernambuco, Equador

José Marques de Melo nasceu no dia 15/06/1943 na cidade de Palmeira dos Índios, Estado de Alagoas, localizada a pouco mais de 100 km da capital Maceió. Ele ingressou na vida profissional aos 15 anos.

Trabalha posteriormente como assessor cultural da prefeitura do município de Santana do Ipanema, exerce esta função até o ano de 1962.

Em janeiro de 1961, Marques de Melo iniciou os seus estudos pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letra na Universidade Católica de Pernambuco, Recife, onde se forma em jornalismo no ano de 1964. Um ano depois terminou também a Faculdade de Direito na Universidade Federal de Pernambuco. Nos dois cursos alcançou o título de Bacharel. (10)

Durante os seus estudos trabalha em várias áreas de comunicação. Como chefe do gabinete da Secretaria de Educação do Governo Miguel Arraes, como diretor-administrativo do movimento da Cultura Popular, como coordenador-executivo do programa da implantação do método Paulo Freire para a alfabetização de adultos no Estado de Pernambuco. E, logo após a sua formação como jornalista, assume a chefia do Serviço de editoração e divulgação na SUDENE.

Atividades que, de um lado, ajudaram na sua formação administrativa e foram importantes para os seus trabalhos futuros. De outro lado traziam outros problemas: primeiro a percepção de que um cargo político e o trabalho jornalístico são in compatíveis.

Segundo que as suas atividades não agradavam os protagonistas que assumiram o poder a partir de 1964 no Brasil. Ele confessa que as portas na área de comunicação fecharam-se para ele naquela época.

"(...) Eu me sentia oprimido pelo ambiente ameaçador instaurado no Nordeste pela ditadura militar. Como jornalista, aspirava preservar minha independência."

Isso era difícil, senão impossível, no Recife, naquela conjuntura. (11)

Um cenário que foi fundamental para a sua decisão de mudar-se para uma outra região no país. O destino inicial era Brasília, a nova capital brasileira, onde Darcy Ribeiro tinha implantado um novo modelo de estudos. Mas antes que estes planos se realizassem, Marques de Melo mudou-se para São Paulo com a sua esposa.

Antes de mudar para a capital paulista participou de um curso de aperfeiçoamento no Equador, na cidade de Quito, entre agosto e outubro de 1965. Este curso, promovido pela CIESPAL (Centro Internacional de Estudos Superiores de Jornalismo para América Latina) era sobre ciências da informação coletiva. Entre os instrutores deste curso estavam os professores norte-americanos Bruce Westley e Malcolm MacLean e o francês Joffre Dumazedier. Antes de fazer este curso de especialização, já tinha iniciado o seu trabalho no ICINFORM.

Na sua volta para Recife, conclui seu curso de direito. Depois conclui também a sua pós-graduação em ciências da informação coletiva pela CIESPAL em 1966.

Depois de cinco anos de estudos e trabalho no Recife o currículo de José Marques de Melo inclui:

Dois bacharelatos em jornalismo e direito. Uma pós-graduação em ciências da informação coletiva. Quatro anos de atividades administrativas em órgãos públicos. Um ano de experiência como professor assistente na disciplina "Técnica de Jornal e Periódico" pela Universidade Católica de Pernambuco.

Todo esse conhecimento junto com a sua bagagem como jornalista tinha formado a sua base profissional e intelectual.

Marques de Melo vê a sua hora chegar para optar de vez pela carreira acadêmica um ano depois quando realiza uma pesquisa para o Jornal do Comércio em Recife.

"(...) Talvez tinha sido a primeira pesquisa científica que o jornal financiou com a intenção de conhecer as demandas do seu público leitor. (...) Para a empresa representou o fim da era em que as mudanças editorias se faziam apenas em função da inventividade dos seus jornalistas. (...) Foi decisiva para a minha carreira profissional. Eu sentia que tinha uma vocação jornalística mais direcionada para a pesquisa científica do que para a reportagem (...)" (12)

03.02 - Segunda Fase São Paulo / Primeiro ciclo na ECA-USP (1966-1973)

Logo depois de sua chegada na capital paulista, consegue seu primeiro emprego no INESE (Instituto de Estudos Sociais e Econômicos). O Instituto realiza pesquisas para empresas jornalísticas. Entre outras a Editora Abril e Folha de São Paulo etc.

Neste momento ele já tinha decidido a sua dedicação para a pesquisa de mídias, deixando a atuação na área de jornalismo prático em segundo plano. Recusou, então, na sua chegada a São Paulo, uma proposta da Editora Abril.

Apesar de considerar a sua mudança para São Paulo um "exílio econômico" - destino de muitos conterrâneos naquela época - Marques de Melo e sua esposa adaptam-se rapidamente ao novo ambiente.

"(...) Um tipo de migração forçada, porque eu havia participado dos movimentos estudantis em Pernambuco e ao mesmo tempo um engajamento político. Eu tive que buscar refúgio na cidade de São Paulo (...)" (13)

Os tempos eram favoráveis para trabalhar na área acadêmica, porque a necessidade de profissionais formados crescia extensivamente, principalmente em São Paulo.

"(...) Eu diria que na historia da ECA ela passa a existir com uma conjuntura que era favorável ao ensino de comunicação porque? Porque a indústria cultural demandava, rádios, televisão e jornais, teatro, gravadoras, editoras - tudo e isso demandava um novo tipo de profissional que o mercado não formava (...)" (14)

Antes de começar o primeiro ciclo de José Marques de Melo na ECA-USP, ele trabalha na Fundação Cásper Líbero, que na época estava vinculada a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Na Cásper Líbero leciona "técnica de jornal e periódico" e, na PUC, "metodologia da pesquisa em comunicação".

Ao mesmo tempo entra através do primeiro concurso público da ECA-USP na então ECC (Escola de Comunicações Culturais) como professor instrutor. No início ele ensina a disciplina "introdução ao jornalismo".

"(...) Me candidato ao primeiro concurso para professores da escola. Eu vim trabalhar num curso de jornalismo. Eu sou juntamente com o professor Flávio Galvão e José Freitas Nobre nós talvez os três primeiros professores da escola (...)" (15)

Marques de Melo participa desde o início da reforma do curso de jornalismo na ECA-USP. Em fevereiro de 1968 é criado o departamento de jornalismo da USP.

Marques de Melo é o diretor do corpo docente como o professor mais novo entre os seus colegas. No mesmo ano, assume, com apenas 25 anos, a cátedra "técnica e prática de jornalismo" na ECA-USP. A partir desse momento ele está optando pela dedicação integral da sua atividade, exigência principal da USP. Marques de Melo não se despede, mesmo assim, das suas atividades jornalísticas. Até hoje publica matérias opinativas em jornais de grande circulação.

"(…) Hoje, quando faço um retrospecto das conquistas e derrotas, vejo que o saldo é bastante positivo. E sinto que valeu a pena lutar (…)" (16)

"(…) Eu passara a capitalizar a experiência acumulada na prática, transformando-a em teoria. Tornava-me produtor de matéria-prima para formar novas gerações de jornalistas (…)" (17)

José Salvador Faro, presidente do INTERCOM entre 1997 e 1999, lembra-se dos primeiros anos no departamento de jornalismo a do trabalho duro de Marques de Melo para estruturar o curso:

"(…) O jovem nordestino que chefia o Departamento de Jornalismo conduzia sua estrutura em processo com uma peculiaridade que o caracteriza ainda hoje: uma iniciativa atrás da outra, sem tréguas, a revelia das adversidades; uma ansiedade permanente, criadora de fatos, comprometedora dos outros (…)"

"(…) Se fosse possível, por tanto indicar uma primeira qualidade (…) apontaria a do dirigente universitário, do administrador dotado de uma ousadia incomodadora, até porque suas iniciativas o colocavam em destaque num ambiente de timidez e silêncio, gerando as inevitáveis manifestações de contrariedade vindas das vaidades atingidas. (…) Trouxe consigo uma oposição permanente, ainda que silenciosa, que o acompanharia durante toda a sua relação com a USP (…)" (18)

Dois dos seus principais frutos deste primeiro ciclo na ECA-USP são o lançamento da primeira obra em 1970. "Comunicação Social: Teoria e pesquisa" e a conclusão do seu doutorado em 1973. "Fatores sócio-culturais que retardaram a implantação da imprensa no Brasil".

Enquanto Marques de Melo consegue com muita insistência a conclusão da reforma do curso de jornalismo, enfrenta um problema grave que ia mudar o rumo da sua carreira na ECA por alguns anos, no auge da sua produtividade.

Na IV Semana de Estudos em Jornalismo" em 1972 participaram mais de 1500 estudantes. Depois do evento, Marques de Melo é processado pelo decreto-lei 477. O tema do congresso parece pouco polêmico: "Ensino do Jornalismo". Mas, na época dos "Anos de Chumbo" pouco interessavam os motivos para punir as pessoas ou certas instituições. Para evitar que o seu caso tomasse rumos maiores, Marques de Melo consegue uma bolsa de estudos nos Estados Unidos, patrocinada pela FAPESP.

Na Universidade de Wisconsin realiza uma pesquisa sobre os cursos de pós-graduação naquele país. Desta maneira faz também o seu pós-doutorado.

Um ano depois volta para o Brasil, com o objetivo de implantar o curso de pós-graduação no jornalismo. A sua expectativa, dessa vez, foi frustrada. O processo que foi iniciado contra ele volta a cena. Os responsáveis decidem que todos os seus méritos acadêmicos serão cassados. Tudo isso em 1974. Perguntando pelos motivos dessa decisão não obteve resposta. Fica a impressão de que ele foi cassado como um tipo de "bode expiatório", um exemplo de punição.

A cassação dele e de outros professores significa um retardamento na produtividade da ECA-USP até os anos 80. Além da perda de vários professores ou idealizadores da entidade, as linhas de pesquisa - desenvolvidas até então - foram praticamente cortadas. De certa maneira um reflexo desta época negra do país.

03.03 - Terceira Fase: Instituto Metodista

A cassação dos seus direitos acadêmicos e do seu cargo na ECA-USP colocam Marques de Melo numa situação complicada. Desempregado e ameaçado pela ditadura ele tem que escolher entre a permanência no Brasil e o exílio. Um emprego novo significa então para ele um novo início da carreira.

Após um convite do Instituto Metodista de São Bernardo do Campo, começa a trabalhar como professor titular na disciplina "Fundamentos Científicos da Comunicação Social". Desta maneira dá continuidade na sua carreira acadêmica, apesar da sua cassação na USP. E, ao contrário do ambiente na ECA-USP, encontra em São Bernardo do Campo novas motivações, junto com a sua nova equipe.

Nos anos seguintes consegue desenvolver novos projetos, principalmente na área de pedagogia de comunicação. Uma disciplina que ele leciona como professor no Instituto entre 1979 e 1984. Uma outra marca importante foi participação na fundação da INTERCOM em 1978.

03.04 - Quarta Fase (2º ciclo na ECA-USP 1979 - 1993)

A volta de Marques de Melo para a ECA-USP começa em 1979 com a anistia política. O Brasil vive uma era de mudanças de rumo na política. E, mesmo que algumas pessoas que iam voltar para os seus cargos tivessem perdido alguns anos da sua maior produtividade acadêmica, eles tinham um retorno muito dificultado.

"(…) Apesar de erguida em lei, aplicação da anistia não se fez de modo tranqüilo. Interesses pessoais ou grupais incrustados em várias entidades dificultaram sua extensão a todos os beneficiários (…)" (19)

Uma das principais protagonistas na realização da volta de Marques de Melo e de outros professores cassados foi a Profa. Maria do Socorro de Nóbrega.

"(…) Não fosse sua luta interna, respaldada por instancias da ADUSP, Conselho Universitário ou da própria Reitoria, e alguns proscritos pela ditadura de 64 ainda estariam excluídos da carreira universitária (…)" (20)

O balanço do trabalho de José Marques de Melo na ECA-USP entre 1989 e 1992 pode ser dividido em três categorias:

- aumento da produtividade acadêmica;
- intensificação do diálogo com alunos e professores para acelerar as reformas internas;
- abertura internacional.

O número dos profissionais cresceu 42 por cento entre 1989 e 1992. Por ano foram produzidas cerca de 900 publicações na ECA-USP. Com esta média a escola tornou-se uma das mais produtivas unidades da USP. Foram defendidas cerca de 200 dissertações de mestrado e 100 teses de doutorado. Fatos que contribuíram para o aumento do orçamento anual da ECA: de 395 mil US$ em 1989 para 1.285 milhão de US$ em 1992. A modernização do equipamento, principalmente na área de laboratórios, contribuiu para a necessária reforma da entidade. (21)

Mesmo assim, Marques de Melo só acabaria por chegar ao seu objetivo de mudança radical na estrutura pedagógica e científica da instituição através de um intenso diálogo com os protagonistas da ECA, os alunos e professores.

"(...) Assim sendo, procurei desencadear, desde o primeiro dia da minha gestão, um amplo debate sobre as mudanças. (...) Desestimulei as iniciativas dos participantes, porque havia observado que seus resultados eram ineficientes e conduziram muitas vezes a retrocesso. (...)" (22)

Considerando elementar no início da era de globalização, Marques de Melo estimulou o intercâmbio internacional. Desde a sua formação no Recife e a seguinte especialização pela CIESPAL, já tinha conhecido por experiência própria a importância do conhecimento passado pelos especialistas de outros países. Frutos do pioneirismo de Luiz Beltrão, um dos pioneiros do pós-guerra, incentivado pelo UNESCO.

No primeiro ano da sua gestão como diretor da ECA-USP, patrocinou o IV Encontro Ibero-Americano de Comunicação. Participam 100 estudiosos de 13 países. Três anos depois se reuniram em São Paulo as principais lideranças da comunidade continental e mundial de ciências da comunicação no I Congreso Latinoamericano de Ciências de La Comunicación. (23) Passos importantes no avanço de um diálogo internacional, dois anos depois da queda de muro de Berlin.

03.05 - Quinta Fase: Metodista e ECA-USP

A aposentadoria na ECA-USP significa um início da quinta fase da carreira de Marques de Melo. Um início de nova fase apesar de que ele continue em ambientes bastante conhecidos. De certa maneira, esta quinta fase significa uma mudança do rumo para ele: após quase três décadas de dedicação para estruturar e administrar departamentos de jornalismo, editoração e comunicação ele se dedica mais as suas paixões que tinham ficado em segundo plano nos anos anteriores: na vida particular, a sua família, na vida profissional o jornalismo e, principalmente, a pesquisa.

"(...) Eu tive a sensação de que restava menos tempo para realizar os projetos que me apaixonavam pessoalmente. (...) Era urgente encerrar o ciclo do meu voluntarismo missionário, até mesmo por sentir que fizera o essencial no plano coletivo (...)" (24)

Ele volta para o Instituo Metodista, ao lado da ECA-USP a sua segunda casa. Em 1994 inicia a criação da Cátedra UNESCO de Comunicação Regional que conclui dois anos depois e cujo diretor científico seria ele mesmo.

Já entre 1991 e 1992 tinha colecionado experiência nesta área quando trabalhava na Cátedra pioneira da Universidade Autônoma. E, também, pesou o bom desempenho do Instituto Metodista no campo da Comunicação Social.

A instalação da Cátedra ocorre no dia 21 de maio de 1998 no Instituto Metodista. Igual ao caso da INTERCOM, Marques de Melo tem novamente participação decisiva no cenário internacional de comunicação.

04 - Linhas de pesquisa

A autora Juçara Gorski Brittes detecta na sua obra "José Marques de Melo e a construção de espaços para a pesquisa em comunicação no Brasil" cinco linhas de pesquisa que Marques de Melo desenvolveu ao longo da sua carreira acadêmica. (25)

Ele começa a desenvolver a maioria delas nos anos sessenta, ainda sob a orientação do mestre Luiz Beltrão.

A primeira linha de pesquisa é chamada "Avaliação e Tendências da Pesquisa em Comunicação no Brasil". Nesta linha coleciona dados e resultados de pesquisas de comunicação com o foco no Brasil. A primeira obra é completada e publicada em 1984 no livro "Inventário da Pesquisa em Comunicação no Brasil", atualizado em 1995. Com este trabalho produzido ao longo das décadas contribui com um fornecimento de dados fundamentais para a pesquisa. (26)

A segunda linha de pesquisa importante é, segundo Brittes, de sistemas de comunicações no Brasil (Comunicação Comparada). Orientado no método do francês Jaques Kayser, Melo concentra sua análise inicialmente na estrutura morfológica dos jornais brasileiros. (27)

Mais tarde compara revistas nacionais com veículos estrangeiros do mesmo padrão, usando o mesmo método. Observa também mutações nos processos de comunicação da época, principalmente na indústria editorial e nos veículos audiovisuais. No final dos anos oitenta amplia essa linha de pesquisa para a área internacional quando inicia um estudo comparado entre Espanha e Brasil. Ele escreve a trajetória dos meios de comunicação nos processos de transição democrática dos dois países.

Comparar, atualizar, analisar novas tendências na comunicação e através disso valorizar a parte dinâmica da pesquisa, um dos aspectos mais importantes da atualidade.

Uma terceira linha de pesquisa que chama atenção é a de "Leitura: livro, jornal, escola". (28) Uma linha que ganhou uma certa importância nos últimos anos. A falta do hábito de leitura que têm como conseqüência um retrocesso no número de leitores dos jornais e dos livros.

O assunto faz parte do trabalho de Marques de Melo na pedagogia do jornalismo e da comunicação. Na ECA-USP intensifica esta atividade a partir de 1986.

As duas outras linhas de pesquisa são "Comunicação das Classes Subalternas" e a "História das Indústrias Culturais". (29)

05 - Conclusão

Avaliar a vida profissional de José Marques de Melo significa uma tarefa muito complexa. Trata-se de uma personalidade do jornalismo brasileiro com atuação em várias áreas da comunicação. Por isso fica praticamente impossível concluir em qual função ele conseguiu o melhor desempenho profissional. Isso porque ele fez a sua opção pela carreira acadêmica e, em primeiro lugar, como organizador.

A estruturação da ECA-USP, a partir dos anos sessenta, pode ser considerada como um dos maiores méritos dele para o ensino da comunicação e do jornalismo no Brasil. Méritos por causa das inúmeras dificuldades estruturais e políticas enfrentadas na época. Méritos também pela sua visão de integrar o aspecto cultural brasileiro junto ao aspecto de uma comunicação global.

Notas

(01) - Depoimento de José Marques de Melo dados no Encontro de Jornalismo Metodista 1999, promovido pelo curso de jornalismo da Universidade Metodista de São Paulo, em São Bernardo do Campo (SP). José Marques de Melo / Maria Cristina Gobbi (Org.): Grandes nomes da comunicação - José Marques de Melo, Recife: UNICAP: Centro de Estudos da Imprensa e da Cidadania, 2001, pág. 11.

(02) - José Marques de Melo: Jornalismo Brasileiro, Porto Alegre: Sulina, 2003, pág. 65 - 66.

(03) - Juçara Gorski Brittes: Jose Marques de Melo e construção de espaços para a pesquisa em comunicação no Brasil, em: Comunicação & Sociedade, n. 25, São Paulo: IMS, 1998, p. 231 a 255, em José Marques de Melo / Maria Cristina Gobbi (Org.): id., pág. 16.

(04) - Entrevista com José Marques de Melo na ECA /USP dia 08/10/2003.

(05) - José Marques de Melo (Org.): Fontes para o Estudo da Comunicação, São Paulo: INTERCOM , coleção INTERCOM de Comunicação, 1995. Em José Marques de Melo/ Maria Cristina Gobbi (Org.): id., pág. 21.

(06) - Ib. id.

(07) - Ib, pág. 22.

(08) - Entrevista com José Marques de Melo na ECA /USP, id.

(09) - Ib, pág. 66-67.

(10) - Juçara Gorski Brittes: id. Em: José Marques de Melo/ Maria Cristina Gobbi (Org.): id., pag. 11.

(11) - Artigo "40 anos de Jornalismo: da práxis á teoria de José Marques de Melo, publicado no Jornal da ABI, 1998, pág. 14, em José Marques de Melo / Maria Cristina Gobbi (Org.), id. pág. 24.

(12) - José Marques de Melo: Jornalismo Brasileiro, id., pág. 107/108.

(13) - Entrevista com José Marques de Melo na ECA/USP, id.

(14) - Ib., id.

(15) - Ib., id.

(16) - José Marques de Melo (Org.): Fontes para o Estudo da Comunicação, id., em Jose Marques de Melo/ Maria Cristina Gobbi (Org.): id. , pág. 32.

(17) - Artigo "40 anos de Jornalismo: da práxis á teoria de José Marques de Melo, id., em José Marques de Melo / Maria Cristina Gobbi (Org.), id. pág. 33.

(18) - José Marques de Melo / Maria Cristina Gobbi (Org.): id. pág. 168.

(19) - Ib., pág. 39.

(20) - Ib., id.

(21) - Ib., pág. 46.

(22) - Ib., pág. 47.

(23) - Ib., pág. 50.

(24) - José Marques de Melo (Org.): Fontes para o Estudo da Comunicação, id., em Jose Marques de Melo / Maria Cristina Gobbi (Org.): id. , pág. 71.

(25) - Juçara Gorski Brittes: Jose Marques de Melo e construção de espaços para a pesquisa em comunicação no Brasil , id., pág. 238.

(26) - Ib., pág. 239.

(27) - Ib., pág. 241.

(28) - Ib., pág. 247.

(29) - Ib., pág. 246 e 249.

Bibliografia

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Marques de Melo, José: Jornalismo Brasileiro, Porto Alegre: Sulina, 2003.

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Marques de Melo, José e Galvão, Waldimas: Jornalismo no Brasil Contemporâneo. São Paulo: ECA-USP, 1984.

Marques de Melo, José: Contribuições para uma Pedagogia da comunicação. São Paulo, Paulinas, 1974.

Marques de Melo, José: Laboratórios de jornalismo: conceitos e preconceitos, Cadernos de Jornalismo e Editoração, no 14, São Paulo: ECA-USP, 1984, p. 1-18.

Marques de Melo, José (Org.): Ensino de Comunicação no Brasil: Impasses e Desafios. Serie Ensino 2, ECA-USP, São Paulo: 1987.

Siglas

ABI - Associação Brasileira de Imprensa

CIESPAL - Centro Internacional de Estudios Superiores de Comunicación para mérica Latina

ECA - Escola de Comunicações e Artes

ECC - Escola de Comunicações Culturais

FAPESP - Fundação de Amparo á Pesquisa do Estado de São Paulo

Ib. - Ibidem

ICINFORM - Instituto de Ciências da Informação

Id. - idem

IMS - Instituto Metodista de Ensino Superior

INESE - Instituto de Estudos Sociais e Econômicos

INTERCOM - Sociedade Brasileira dos Estudos Interdisciplinares da Comunicação

n. - numero

pág. - página

PUC - Pontifícia Universidade Católica

SUDENE - Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste

UNESCO - Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura

UNICAP - Universidade Católica de Pernambuco

USP - Universidade de São Paulo

Nomes

Arraes, Miguel
Barbosa, Rui
Beltrão, Luiz
Dumnazediere, Joffre
Faro, José Salvador

Freire, Gilberto

Freire, Paulo
Gobbi, Maria Cristina
Gorski Brittes, Juçara
Groth, Otto
Kayser, Jaques
MacLean, Malcolm
Nixon, Raymond
Ribeiro, Darcy
Socorro de Nóbrega, Maria
Westley, Bruce

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