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Monografias
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José
Marques de Melo:
um manager da comunicação no Brasil
Por
Carsten Bruder
01
- Introdução
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Jornalista,
pesquisador, professor acadêmico, administrador - as facetas
da personalidade que é a personagem do seguinte trabalho
são variadas. José Marques de Melo conseguiu unificá-las
ao longo de sua carreira.
Uma
carreira cheia de desafios e de lutas para melhorar as estruturas
das áreas de comunicação e de jornalismo.
O
presente trabalho mostra algumas estações da vida
profissional deste protagonista e fala sobre as influências
e as fases da vida de Marques de Melo.
Neste
trabalho as fases da vida profissional dele estão divididas
em cinco.
Os
principais focos serão a segunda e a quarta fase quando
ele realiza o seu trabalho na Universidade de São Paulo,
iniciando com a própria fundação das Escolas
de Comunicações e Artes.
Um
dos membros do comitê fundador foi o responsável
pela estruturação do curso de jornalismo, que
seria, em seguida, um tipo de modelo para os demais cursos no
país inteiro. Para alcançar este objetivo teria
de superar os obstáculos burocráticos, políticos
e ideológicos que dificultaram a sua missão.
Gostaríamos
de destacar umas das fontes principais para esta monografia.
Trata-se da obra da Maria Cristina Gobbi "Grandes Nomes
da Comunicação: José Marques de Melo".
Uma das obras mais completas sobre este personagem publicada
em 2001.
02
- Raízes intelectuais
O
futuro jornalista, professor e pesquisador José Marques
de Melo foi cedo influenciado pelos grandes nomes da cultura
e da comunicação brasileira. A influência
deles no pensamento de Marques de Melo vai até hoje.
Este capítulo mostra os mais significantes.
02.01
- Raízes Nacionais
Observamos,
em um primeiro momento, que algumas raízes brasileiras
de Marques de Melo foram, na sua maioria, conterrâneos
dele. Rui Barbosa e Luiz Beltrão são talvez os
dois exemplos mais expressivos.
02.01.01
- Rui Barbosa
O
primeiro grande escritor a influenciar Marques de Melo foi o
jornalista e político baiano Rui Barbosa com a sua obra
"A Imprensa e o Dever da Verdade". Foi uma visível
"fonte de inspiração" do autor. (01)
Marques de Melo guardou o momento exato quando ele encontrou
esta inspiração.
"(...)
Nunca esqueço um episódio que marcou meu ingresso
no jornalismo. Isto ocorreu em 1959 quando comecei a publicar
artigos semanais na Gazeta de Alagoas e no Jornal de Alagoas,
em Maceió. (...) Enfrentei atitudes hostis de alguns
conterrâneos inclusive de alguns jornalistas consagrados
na comunidade (...)"
Foi,
então que recebi (...) um exemplar de um livro de Rui
Barbosa.(...) A leitura das reflexões de Rui Barbosa
constitui um lenitivo para as minhas primeiras frustrações
jornalísticas e ao mesmo tempo um antídoto para
neutralizar as resistências que atenuam à revelação
de fatos em opiniões inconvenientes aos que se julgam
detentores da verdade e pretendem controlar os destinos da sociedade
em que vivem (...)" (02)
De
uma certa maneira o autor reconhece na obra de Rui Barbosa a
liberdade de expressão acima de qualquer valor, e que
a pluralidade das informações é que levariam
a análise real dos fatos sem nenhum tipo de imposição
ou censura, ratificados anos mais tarde pela UNESCO que cita
o direito predominante da expressão acima de todos os
direitos humanos.
02.01.02
- Luiz Beltrão
Uma
outra grande referência na sua trajetória profissional
foi o seu professor Luiz Beltrão que Marques de Melo
conhece durante seu curso de jornalismo na Universidade Católica
de Pernambuco. Beltrão que foi responsável pela
implantação do curso de jornalismo no Recife.
"(...)
No dia da sua formatura em jornalismo (...) e convidado pelo
mestre Luiz Beltrão para assumir a coordenação
do departamento de investigação cientifica ICINFORM
- Instituto de Ciências da Informação -
contava com 21 anos e o departamento de pesquisa para o qual
fora convidado não existia. Diante de sua surpresa, Luiz
Beltrão responde: "Trata de criá-lo (...)"
(03)
O
papel de Luis Beltrão em relação à
evolução profissional de José Marques de
Melo se refere basicamente ao desenvolvimento de métodos
e técnicas da disciplina de jornalismo e comunicação.
Beltrão se torna um consultor permanente em sua vida,
buscando o aperfeiçoamento do trabalho acadêmico.
Desde a época de aluno Marques de Melo era incentivado
ao desenvolvimento de seu potencial acadêmico, sendo que
Beltrão já mostrava destaque didático em
relação a outros professores da época.
"(...)
Cria um curso com um novo tipo nós já tínhamos
protótipos de São Paulo e Rio de Janeiro que eram
cópias dos modelos importados dos Estados Unidos e Europa.
Luis Beltrão na verdade percorre o mundo inteiro fazendo
uma pesquisa na área da União Soviética
e países socialistas ele percorre a América Latina
e tenta criar para o Recife um curso de um novo tipo adaptado
as condições locais (...)" (04)
O
pioneirismo de Beltrão é renovador e reformador
na área de jornalismo e comunicação. Dentro
de um cenário pós-guerra a pesquisa da então
chamada comunicação de massa no mundo era relativamente
nova e ele começa a estruturar o seu desenvolvimento
para o continente latino americano trazendo novas linhas de
pesquisas, métodos e paradigmas para o Brasil.
Em
1963 fundou o ICINFORM primeiro centro de estudos acadêmicos.
Dois anos depois cria a revista "Comunicação
& Problemas", primeiro periódico nacional dedicado
a estudos das mídias e foi autor da primeira tese de
doutoramento no campo das ciências de comunicação
no Brasil. (05)
"(...)
Nasceu sob o estímulo e orientação de Beltrão
a minha carreira de pesquisador da comunicação
de massa. (...) Ele formou no Nordeste uma geração
de pesquisadores da comunicação que se projetariam
nacionalmente (...)" (06)
Existem
analogias entre Marques de Melo e Beltrão: a principal
delas é que os dois possuem formação prática
e acadêmica. Os dois têm a sua origem no Nordeste
do país e mudaram-se para outros centros acadêmicos:
Beltrão para Brasília e Marques de Melo para São
Paulo. Os dois tornaram-se pioneiros na reformulação
de cursos de comunicação: Beltrão na Universidade
Católica de Pernambuco e Marques de Melo, mais tarde,
na ECA-USP. Os estudos de Marques de Melo a respeito da cultura
popular "Folkcomunicação" foram muito
influenciados pela convivência com Beltrão.
Marques
de Melo orientou-se em algumas personalidades da comunicação
no início da sua carreira, mas: "(...) Na verdade
meu principal conselheiro foi Luiz Beltrão. A ele recorri,
inúmeras vezes, para buscar esclarecimentos, apoio bibliográfico,
leitura crítica da primeira versão dos textos
(...)". (07)
02.01.03
- Paulo Freire e Darcy Ribeiro
Ainda
em Recife, Marques de Melo fez os primeiros contatos com Paulo
Freire, talvez, o educador mais conhecido do Terceiro Mundo.
Seu princípio de educação como ação
cultural, seu método de conscientização
e suas técnicas para alfabetização têm
sido adotados e adaptados para ajustar milhares de projetos
onde a situação de aprendizagem é parte
da situação de conflito social.
Desde
a publicação de Educação e atualidade
brasileira em Recife, Brasil, em 1959 - mais tarde revisada
e publicada com modificações como Educação
como prática da liberdade - o trabalho de Paulo Freire
tem influenciado não só a prática pedagógica
da América Latina. Marques de Melo encontra em Freire
uma referência para formular sua análise crítica
a respeito do ensino de comunicação no Brasil,
na Didática da Comunicação Social. Em Pernambuco,
Marques de Melo definiu linhas de pesquisa em educação
e coordena a implantação do Método de Ensino
de Paulo Freire.
Fatores
sócio-culturais dos conceitos do antropólogo,
educador e escritor Darcy Ribeiro foram adotados pelo Marques
de Melo na sua tese de doutorado. Ribeiro é um outro
autor brasileiro que exerce expressiva influência sobre
o pensamento científico dele.
02.01.04
- Gilberto Freire
"A
minha relação com ele é uma relação
intelectual. Jovem, o conheci no Recife e assisti uma palestra.
Dialoguei com ele, mas fui leitor voraz das suas as obras como
Casa Grande e Senzala. (...) Todas obras influenciaram muito
a minha própria formação intelectual e
foi lá que eu vi pela primeira vez o jornalismo ser fonte
de inspiração cientifica." (08)
José
Marques de Melo sobre Gilberto Freyre
02.02
- Raízes Internacionais: Raymond Nixon, Joffre Dumnazedier
e Otto Groth
Entre
as personagens que influenciaram Marques de Melo intelectualmente
estão alguns autores estrangeiros: o francês Joffre
Dumazedier, fundador do movimento Povo e Cultura, na França.
Ele influencia iniciativas desta natureza no Brasil. Ele era
professor de Marques de Melo na época em que ele trabalhava
com o governo Miguel Arraes em Pernambuco.
De
Otto Groth membro da Escola Alemã o Marques de Melo retira
os conceitos básicos de jornalismo com os quais trabalha.
Raymond Nixon oferece referências teóricas a partir
de produções para o CIESPAL. (09)
03
- Cinco fases da carreira
03.01
- Primeira Fase - Alagoas, Pernambuco, Equador
José
Marques de Melo nasceu no dia 15/06/1943 na cidade de Palmeira
dos Índios, Estado de Alagoas, localizada a pouco mais
de 100 km da capital Maceió. Ele ingressou na vida profissional
aos 15 anos.
Trabalha
posteriormente como assessor cultural da prefeitura do município
de Santana do Ipanema, exerce esta função até
o ano de 1962.
Em
janeiro de 1961, Marques de Melo iniciou os seus estudos pela
Faculdade de Filosofia Ciências e Letra na Universidade
Católica de Pernambuco, Recife, onde se forma em jornalismo
no ano de 1964. Um ano depois terminou também a Faculdade
de Direito na Universidade Federal de Pernambuco. Nos dois cursos
alcançou o título de Bacharel. (10)
Durante
os seus estudos trabalha em várias áreas de comunicação.
Como chefe do gabinete da Secretaria de Educação
do Governo Miguel Arraes, como diretor-administrativo do movimento
da Cultura Popular, como coordenador-executivo do programa da
implantação do método Paulo Freire para
a alfabetização de adultos no Estado de Pernambuco.
E, logo após a sua formação como jornalista,
assume a chefia do Serviço de editoração
e divulgação na SUDENE.
Atividades
que, de um lado, ajudaram na sua formação administrativa
e foram importantes para os seus trabalhos futuros. De outro
lado traziam outros problemas: primeiro a percepção
de que um cargo político e o trabalho jornalístico
são in compatíveis.
Segundo
que as suas atividades não agradavam os protagonistas
que assumiram o poder a partir de 1964 no Brasil. Ele confessa
que as portas na área de comunicação fecharam-se
para ele naquela época.
"(...)
Eu me sentia oprimido pelo ambiente ameaçador instaurado
no Nordeste pela ditadura militar. Como jornalista, aspirava
preservar minha independência."
Isso
era difícil, senão impossível, no Recife,
naquela conjuntura. (11)
Um
cenário que foi fundamental para a sua decisão
de mudar-se para uma outra região no país. O destino
inicial era Brasília, a nova capital brasileira, onde
Darcy Ribeiro tinha implantado um novo modelo de estudos. Mas
antes que estes planos se realizassem, Marques de Melo mudou-se
para São Paulo com a sua esposa.
Antes
de mudar para a capital paulista participou de um curso de aperfeiçoamento
no Equador, na cidade de Quito, entre agosto e outubro de 1965.
Este curso, promovido pela CIESPAL (Centro Internacional de
Estudos Superiores de Jornalismo para América Latina)
era sobre ciências da informação coletiva.
Entre os instrutores deste curso estavam os professores norte-americanos
Bruce Westley e Malcolm MacLean e o francês Joffre Dumazedier.
Antes de fazer este curso de especialização, já
tinha iniciado o seu trabalho no ICINFORM.
Na
sua volta para Recife, conclui seu curso de direito. Depois
conclui também a sua pós-graduação
em ciências da informação coletiva pela
CIESPAL em 1966.
Depois
de cinco anos de estudos e trabalho no Recife o currículo
de José Marques de Melo inclui:
Dois
bacharelatos em jornalismo e direito. Uma pós-graduação
em ciências da informação coletiva. Quatro
anos de atividades administrativas em órgãos públicos.
Um ano de experiência como professor assistente na disciplina
"Técnica de Jornal e Periódico" pela
Universidade Católica de Pernambuco.
Todo
esse conhecimento junto com a sua bagagem como jornalista tinha
formado a sua base profissional e intelectual.
Marques
de Melo vê a sua hora chegar para optar de vez pela carreira
acadêmica um ano depois quando realiza uma pesquisa para
o Jornal do Comércio em Recife.
"(...)
Talvez tinha sido a primeira pesquisa científica que
o jornal financiou com a intenção de conhecer
as demandas do seu público leitor. (...) Para a empresa
representou o fim da era em que as mudanças editorias
se faziam apenas em função da inventividade dos
seus jornalistas. (...) Foi decisiva para a minha carreira profissional.
Eu sentia que tinha uma vocação jornalística
mais direcionada para a pesquisa científica do que para
a reportagem (...)" (12)
03.02
- Segunda Fase São Paulo / Primeiro ciclo na ECA-USP
(1966-1973)
Logo
depois de sua chegada na capital paulista, consegue seu primeiro
emprego no INESE (Instituto de Estudos Sociais e Econômicos).
O Instituto realiza pesquisas para empresas jornalísticas.
Entre outras a Editora Abril e Folha de São Paulo etc.
Neste
momento ele já tinha decidido a sua dedicação
para a pesquisa de mídias, deixando a atuação
na área de jornalismo prático em segundo plano.
Recusou, então, na sua chegada a São Paulo, uma
proposta da Editora Abril.
Apesar
de considerar a sua mudança para São Paulo um
"exílio econômico" - destino de muitos
conterrâneos naquela época - Marques de Melo e
sua esposa adaptam-se rapidamente ao novo ambiente.
"(...)
Um tipo de migração forçada, porque eu
havia participado dos movimentos estudantis em Pernambuco e
ao mesmo tempo um engajamento político. Eu tive que buscar
refúgio na cidade de São Paulo (...)" (13)
Os
tempos eram favoráveis para trabalhar na área
acadêmica, porque a necessidade de profissionais formados
crescia extensivamente, principalmente em São Paulo.
"(...)
Eu diria que na historia da ECA ela passa a existir com uma
conjuntura que era favorável ao ensino de comunicação
porque? Porque a indústria cultural demandava, rádios,
televisão e jornais, teatro, gravadoras, editoras - tudo
e isso demandava um novo tipo de profissional que o mercado
não formava (...)" (14)
Antes
de começar o primeiro ciclo de José Marques de
Melo na ECA-USP, ele trabalha na Fundação Cásper
Líbero, que na época estava vinculada a Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo. Na Cásper
Líbero leciona "técnica de jornal e periódico"
e, na PUC, "metodologia da pesquisa em comunicação".
Ao
mesmo tempo entra através do primeiro concurso público
da ECA-USP na então ECC (Escola de Comunicações
Culturais) como professor instrutor. No início ele ensina
a disciplina "introdução ao jornalismo".
"(...)
Me candidato ao primeiro concurso para professores da escola.
Eu vim trabalhar num curso de jornalismo. Eu sou juntamente
com o professor Flávio Galvão e José Freitas
Nobre nós talvez os três primeiros professores
da escola (...)" (15)
Marques
de Melo participa desde o início da reforma do curso
de jornalismo na ECA-USP. Em fevereiro de 1968 é criado
o departamento de jornalismo da USP.
Marques
de Melo é o diretor do corpo docente como o professor
mais novo entre os seus colegas. No mesmo ano, assume, com apenas
25 anos, a cátedra "técnica e prática
de jornalismo" na ECA-USP. A partir desse momento ele está
optando pela dedicação integral da sua atividade,
exigência principal da USP. Marques de Melo não
se despede, mesmo assim, das suas atividades jornalísticas.
Até hoje publica matérias opinativas em jornais
de grande circulação.
"(
)
Hoje, quando faço um retrospecto das conquistas e derrotas,
vejo que o saldo é bastante positivo. E sinto que valeu
a pena lutar (
)" (16)
"(
)
Eu passara a capitalizar a experiência acumulada na prática,
transformando-a em teoria. Tornava-me produtor de matéria-prima
para formar novas gerações de jornalistas (
)"
(17)
José
Salvador Faro, presidente do INTERCOM entre 1997 e 1999, lembra-se
dos primeiros anos no departamento de jornalismo a do trabalho
duro de Marques de Melo para estruturar o curso:
"(
)
O jovem nordestino que chefia o Departamento de Jornalismo conduzia
sua estrutura em processo com uma peculiaridade que o caracteriza
ainda hoje: uma iniciativa atrás da outra, sem tréguas,
a revelia das adversidades; uma ansiedade permanente, criadora
de fatos, comprometedora dos outros (
)"
"(
)
Se fosse possível, por tanto indicar uma primeira qualidade
(
) apontaria a do dirigente universitário, do administrador
dotado de uma ousadia incomodadora, até porque suas iniciativas
o colocavam em destaque num ambiente de timidez e silêncio,
gerando as inevitáveis manifestações de
contrariedade vindas das vaidades atingidas. (
) Trouxe
consigo uma oposição permanente, ainda que silenciosa,
que o acompanharia durante toda a sua relação
com a USP (
)" (18)
Dois
dos seus principais frutos deste primeiro ciclo na ECA-USP são
o lançamento da primeira obra em 1970. "Comunicação
Social: Teoria e pesquisa" e a conclusão do seu
doutorado em 1973. "Fatores sócio-culturais que
retardaram a implantação da imprensa no Brasil".
Enquanto
Marques de Melo consegue com muita insistência a conclusão
da reforma do curso de jornalismo, enfrenta um problema grave
que ia mudar o rumo da sua carreira na ECA por alguns anos,
no auge da sua produtividade.
Na
IV Semana de Estudos em Jornalismo" em 1972 participaram
mais de 1500 estudantes. Depois do evento, Marques de Melo é
processado pelo decreto-lei 477. O tema do congresso parece
pouco polêmico: "Ensino do Jornalismo". Mas,
na época dos "Anos de Chumbo" pouco interessavam
os motivos para punir as pessoas ou certas instituições.
Para evitar que o seu caso tomasse rumos maiores, Marques de
Melo consegue uma bolsa de estudos nos Estados Unidos, patrocinada
pela FAPESP.
Na
Universidade de Wisconsin realiza uma pesquisa sobre os cursos
de pós-graduação naquele país. Desta
maneira faz também o seu pós-doutorado.
Um
ano depois volta para o Brasil, com o objetivo de implantar
o curso de pós-graduação no jornalismo.
A sua expectativa, dessa vez, foi frustrada. O processo que
foi iniciado contra ele volta a cena. Os responsáveis
decidem que todos os seus méritos acadêmicos serão
cassados. Tudo isso em 1974. Perguntando pelos motivos dessa
decisão não obteve resposta. Fica a impressão
de que ele foi cassado como um tipo de "bode expiatório",
um exemplo de punição.
A
cassação dele e de outros professores significa
um retardamento na produtividade da ECA-USP até os anos
80. Além da perda de vários professores ou idealizadores
da entidade, as linhas de pesquisa - desenvolvidas até
então - foram praticamente cortadas. De certa maneira
um reflexo desta época negra do país.
03.03
- Terceira Fase: Instituto Metodista
A
cassação dos seus direitos acadêmicos e
do seu cargo na ECA-USP colocam Marques de Melo numa situação
complicada. Desempregado e ameaçado pela ditadura ele
tem que escolher entre a permanência no Brasil e o exílio.
Um emprego novo significa então para ele um novo início
da carreira.
Após
um convite do Instituto Metodista de São Bernardo do
Campo, começa a trabalhar como professor titular na disciplina
"Fundamentos Científicos da Comunicação
Social". Desta maneira dá continuidade na sua carreira
acadêmica, apesar da sua cassação na USP.
E, ao contrário do ambiente na ECA-USP, encontra em São
Bernardo do Campo novas motivações, junto com
a sua nova equipe.
Nos
anos seguintes consegue desenvolver novos projetos, principalmente
na área de pedagogia de comunicação. Uma
disciplina que ele leciona como professor no Instituto entre
1979 e 1984. Uma outra marca importante foi participação
na fundação da INTERCOM em 1978.
03.04
- Quarta Fase (2º ciclo na ECA-USP 1979 - 1993)
A
volta de Marques de Melo para a ECA-USP começa em 1979
com a anistia política. O Brasil vive uma era de mudanças
de rumo na política. E, mesmo que algumas pessoas que
iam voltar para os seus cargos tivessem perdido alguns anos
da sua maior produtividade acadêmica, eles tinham um retorno
muito dificultado.
"(
)
Apesar de erguida em lei, aplicação da anistia
não se fez de modo tranqüilo. Interesses pessoais
ou grupais incrustados em várias entidades dificultaram
sua extensão a todos os beneficiários (
)"
(19)
Uma
das principais protagonistas na realização da
volta de Marques de Melo e de outros professores cassados foi
a Profa. Maria do Socorro de Nóbrega.
"(
)
Não fosse sua luta interna, respaldada por instancias
da ADUSP, Conselho Universitário ou da própria
Reitoria, e alguns proscritos pela ditadura de 64 ainda estariam
excluídos da carreira universitária (
)"
(20)
O
balanço do trabalho de José Marques de Melo na
ECA-USP entre 1989 e 1992 pode ser dividido em três categorias:
-
aumento da produtividade acadêmica;
- intensificação do diálogo com alunos
e professores para acelerar as reformas internas;
- abertura internacional.
O
número dos profissionais cresceu 42 por cento entre 1989
e 1992. Por ano foram produzidas cerca de 900 publicações
na ECA-USP. Com esta média a escola tornou-se uma das
mais produtivas unidades da USP. Foram defendidas cerca de 200
dissertações de mestrado e 100 teses de doutorado.
Fatos que contribuíram para o aumento do orçamento
anual da ECA: de 395 mil US$ em 1989 para 1.285 milhão
de US$ em 1992. A modernização do equipamento,
principalmente na área de laboratórios, contribuiu
para a necessária reforma da entidade. (21)
Mesmo
assim, Marques de Melo só acabaria por chegar ao seu
objetivo de mudança radical na estrutura pedagógica
e científica da instituição através
de um intenso diálogo com os protagonistas da ECA, os
alunos e professores.
"(...)
Assim sendo, procurei desencadear, desde o primeiro dia da minha
gestão, um amplo debate sobre as mudanças. (...)
Desestimulei as iniciativas dos participantes, porque havia
observado que seus resultados eram ineficientes e conduziram
muitas vezes a retrocesso. (...)" (22)
Considerando
elementar no início da era de globalização,
Marques de Melo estimulou o intercâmbio internacional.
Desde a sua formação no Recife e a seguinte especialização
pela CIESPAL, já tinha conhecido por experiência
própria a importância do conhecimento passado pelos
especialistas de outros países. Frutos do pioneirismo
de Luiz Beltrão, um dos pioneiros do pós-guerra,
incentivado pelo UNESCO.
No
primeiro ano da sua gestão como diretor da ECA-USP, patrocinou
o IV Encontro Ibero-Americano de Comunicação.
Participam 100 estudiosos de 13 países. Três anos
depois se reuniram em São Paulo as principais lideranças
da comunidade continental e mundial de ciências da comunicação
no I Congreso Latinoamericano de Ciências de La Comunicación.
(23) Passos importantes no avanço de um diálogo
internacional, dois anos depois da queda de muro de Berlin.
03.05
- Quinta Fase: Metodista e ECA-USP
A
aposentadoria na ECA-USP significa um início da quinta
fase da carreira de Marques de Melo. Um início de nova
fase apesar de que ele continue em ambientes bastante conhecidos.
De certa maneira, esta quinta fase significa uma mudança
do rumo para ele: após quase três décadas
de dedicação para estruturar e administrar departamentos
de jornalismo, editoração e comunicação
ele se dedica mais as suas paixões que tinham ficado
em segundo plano nos anos anteriores: na vida particular, a
sua família, na vida profissional o jornalismo e, principalmente,
a pesquisa.
"(...)
Eu tive a sensação de que restava menos tempo
para realizar os projetos que me apaixonavam pessoalmente. (...)
Era urgente encerrar o ciclo do meu voluntarismo missionário,
até mesmo por sentir que fizera o essencial no plano
coletivo (...)" (24)
Ele
volta para o Instituo Metodista, ao lado da ECA-USP a sua segunda
casa. Em 1994 inicia a criação da Cátedra
UNESCO de Comunicação Regional que conclui dois
anos depois e cujo diretor científico seria ele mesmo.
Já
entre 1991 e 1992 tinha colecionado experiência nesta
área quando trabalhava na Cátedra pioneira da
Universidade Autônoma. E, também, pesou o bom desempenho
do Instituto Metodista no campo da Comunicação
Social.
A
instalação da Cátedra ocorre no dia 21
de maio de 1998 no Instituto Metodista. Igual ao caso da INTERCOM,
Marques de Melo tem novamente participação decisiva
no cenário internacional de comunicação.
04
- Linhas de pesquisa
A
autora Juçara Gorski Brittes detecta na sua obra "José
Marques de Melo e a construção de espaços
para a pesquisa em comunicação no Brasil"
cinco linhas de pesquisa que Marques de Melo desenvolveu ao
longo da sua carreira acadêmica. (25)
Ele
começa a desenvolver a maioria delas nos anos sessenta,
ainda sob a orientação do mestre Luiz Beltrão.
A
primeira linha de pesquisa é chamada "Avaliação
e Tendências da Pesquisa em Comunicação
no Brasil". Nesta linha coleciona dados e resultados de
pesquisas de comunicação com o foco no Brasil.
A primeira obra é completada e publicada em 1984 no livro
"Inventário da Pesquisa em Comunicação
no Brasil", atualizado em 1995. Com este trabalho produzido
ao longo das décadas contribui com um fornecimento de
dados fundamentais para a pesquisa. (26)
A segunda linha de pesquisa importante é, segundo Brittes,
de sistemas de comunicações no Brasil (Comunicação
Comparada). Orientado no método do francês Jaques
Kayser, Melo concentra sua análise inicialmente na estrutura
morfológica dos jornais brasileiros. (27)
Mais
tarde compara revistas nacionais com veículos estrangeiros
do mesmo padrão, usando o mesmo método. Observa
também mutações nos processos de comunicação
da época, principalmente na indústria editorial
e nos veículos audiovisuais. No final dos anos oitenta
amplia essa linha de pesquisa para a área internacional
quando inicia um estudo comparado entre Espanha e Brasil. Ele
escreve a trajetória dos meios de comunicação
nos processos de transição democrática
dos dois países.
Comparar,
atualizar, analisar novas tendências na comunicação
e através disso valorizar a parte dinâmica da pesquisa,
um dos aspectos mais importantes da atualidade.
Uma
terceira linha de pesquisa que chama atenção é
a de "Leitura: livro, jornal, escola". (28) Uma linha
que ganhou uma certa importância nos últimos anos.
A falta do hábito de leitura que têm como conseqüência
um retrocesso no número de leitores dos jornais e dos
livros.
O
assunto faz parte do trabalho de Marques de Melo na pedagogia
do jornalismo e da comunicação. Na ECA-USP intensifica
esta atividade a partir de 1986.
As
duas outras linhas de pesquisa são "Comunicação
das Classes Subalternas" e a "História das
Indústrias Culturais". (29)
05
- Conclusão
Avaliar
a vida profissional de José Marques de Melo significa
uma tarefa muito complexa. Trata-se de uma personalidade do
jornalismo brasileiro com atuação em várias
áreas da comunicação. Por isso fica praticamente
impossível concluir em qual função ele
conseguiu o melhor desempenho profissional. Isso porque ele
fez a sua opção pela carreira acadêmica
e, em primeiro lugar, como organizador.
A
estruturação da ECA-USP, a partir dos anos sessenta,
pode ser considerada como um dos maiores méritos dele
para o ensino da comunicação e do jornalismo no
Brasil. Méritos por causa das inúmeras dificuldades
estruturais e políticas enfrentadas na época.
Méritos também pela sua visão de integrar
o aspecto cultural brasileiro junto ao aspecto de uma comunicação
global.
Notas
(01)
- Depoimento de José Marques de Melo dados no Encontro
de Jornalismo Metodista 1999, promovido pelo curso de jornalismo
da Universidade Metodista de São Paulo, em São
Bernardo do Campo (SP). José Marques de Melo / Maria
Cristina Gobbi (Org.): Grandes nomes da comunicação
- José Marques de Melo, Recife: UNICAP: Centro de Estudos
da Imprensa e da Cidadania, 2001, pág. 11.
(02)
- José Marques de Melo: Jornalismo Brasileiro, Porto
Alegre: Sulina, 2003, pág. 65 - 66.
(03)
- Juçara Gorski Brittes: Jose Marques de Melo e construção
de espaços para a pesquisa em comunicação
no Brasil, em: Comunicação & Sociedade, n.
25, São Paulo: IMS, 1998, p. 231 a 255, em José
Marques de Melo / Maria Cristina Gobbi (Org.): id., pág.
16.
(04)
- Entrevista com José Marques de Melo na ECA /USP dia
08/10/2003.
(05)
- José Marques de Melo (Org.): Fontes para o Estudo da
Comunicação, São Paulo: INTERCOM , coleção
INTERCOM de Comunicação, 1995. Em José
Marques de Melo/ Maria Cristina Gobbi (Org.): id., pág.
21.
(06)
- Ib. id.
(07)
- Ib, pág. 22.
(08)
- Entrevista com José Marques de Melo na ECA /USP, id.
(09)
- Ib, pág. 66-67.
(10)
- Juçara Gorski Brittes: id. Em: José Marques
de Melo/ Maria Cristina Gobbi (Org.): id., pag. 11.
(11)
- Artigo "40 anos de Jornalismo: da práxis á
teoria de José Marques de Melo, publicado no Jornal da
ABI, 1998, pág. 14, em José Marques de Melo /
Maria Cristina Gobbi (Org.), id. pág. 24.
(12)
- José Marques de Melo: Jornalismo Brasileiro, id., pág.
107/108.
(13)
- Entrevista com José Marques de Melo na ECA/USP, id.
(14)
- Ib., id.
(15)
- Ib., id.
(16)
- José Marques de Melo (Org.): Fontes para o Estudo da
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Cristina Gobbi (Org.): id. , pág. 32.
(17)
- Artigo "40 anos de Jornalismo: da práxis á
teoria de José Marques de Melo, id., em José Marques
de Melo / Maria Cristina Gobbi (Org.), id. pág. 33.
(18)
- José Marques de Melo / Maria Cristina Gobbi (Org.):
id. pág. 168.
(19)
- Ib., pág. 39.
(20)
- Ib., id.
(21)
- Ib., pág. 46.
(22)
- Ib., pág. 47.
(23)
- Ib., pág. 50.
(24)
- José Marques de Melo (Org.): Fontes para o Estudo da
Comunicação, id., em Jose Marques de Melo / Maria
Cristina Gobbi (Org.): id. , pág. 71.
(25)
- Juçara Gorski Brittes: Jose Marques de Melo e construção
de espaços para a pesquisa em comunicação
no Brasil , id., pág. 238.
(26)
- Ib., pág. 239.
(27)
- Ib., pág. 241.
(28)
- Ib., pág. 247.
(29)
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Siglas
ABI
- Associação Brasileira de Imprensa
CIESPAL
- Centro Internacional de Estudios Superiores de Comunicación
para mérica Latina
ECA
- Escola de Comunicações e Artes
ECC
- Escola de Comunicações Culturais
FAPESP
- Fundação de Amparo á Pesquisa do Estado
de São Paulo
Ib.
- Ibidem
ICINFORM
- Instituto de Ciências da Informação
Id.
- idem
IMS
- Instituto Metodista de Ensino Superior
INESE
- Instituto de Estudos Sociais e Econômicos
INTERCOM
- Sociedade Brasileira dos Estudos Interdisciplinares da Comunicação
n.
- numero
pág.
- página
PUC
- Pontifícia Universidade Católica
SUDENE
- Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste
UNESCO
- Organização das Nações Unidas
para a Educação, Ciência e Cultura
UNICAP
- Universidade Católica de Pernambuco
USP
- Universidade de São Paulo
Nomes
Arraes,
Miguel
Barbosa, Rui
Beltrão,
Luiz
Dumnazediere,
Joffre
Faro, José Salvador
Freire, Gilberto
Freire, Paulo
Gobbi, Maria Cristina
Gorski Brittes, Juçara
Groth, Otto
Kayser, Jaques
MacLean, Malcolm
Nixon, Raymond
Ribeiro, Darcy
Socorro de Nóbrega, Maria
Westley,
Bruce
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