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Monografias
A
bela página de Hélcio Deslandes
Por
Paulo Sergio Pires
1.
INTRODUÇÃO
A
Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade
de São Paulo (USP), estabelecida em 1966 sob o nome de
Escola de Comunicações Culturais, se destaca por
ser uma instituição de ensino de alta qualidade
e possuir um corpo docente de altíssimo reconhecimento
acadêmico. Uma considerável parte dos paradigmas
hoje adotados nas escolas de comunicação social
do Brasil e América Latina foi desenvolvida por professores
e pesquisadores científicos desta entidade de ensino
superior. Por sinal, seus bancos acadêmicos recebem alunos
não só da América Latina, mas também
da África e da Europa. Os docentes, por seu lado, freqüentam
cursos de Pós-Graduação nos mais importantes
centros do saber comunicacional do planeta.
Até
a presente data, a ECA dispõe de 22 habilitações
profissionais em cursos de graduação. Na área
de Comunicação social constam os programas de
Jornalismo, Publicidade e Propaganda, Editoração,
Relações Públicas e Audiovisual. São
15 as habilitações destinadas às áreas
de artes. Há ainda cursos de Biblioteconomia e Turismo.
Ela mantém um curso técnico de formação
de ator, na tradicional Escola de Arte Dramática -EAD-,
incorporada a sua administração há algumas
décadas. A escola tem se notabilizado pelo forte investimento
pedagógico e cultural na reciclagem e atualização
dos métodos e o uso de novas tecnologias de ensino (Caldas,
s/d, p. 1-4).
Entre
os segmentos expressivos da organização estão
os núcleos de pesquisa. Afora o trabalho de investigação
científica, eles possuem estreito relacionamento com
a comunidade, efetuando significativas ações de
utilidade pública, freqüentemente em conjunto com
órgãos do governo. A área de Pós-Graduação
fomenta o intercâmbio cultural e investigativo, por intermédio
de instituições ou universidades conveniadas dos
Estados Unidos, França, Itália, Espanha, Alemanha
etc.
O
grupo inicial de docentes dessa instituição de
acordo com relato da primeira secretária-geral e ex-coordenadora
do Núcleo Nacional e Internacional da ECA, Marina Rector
(2003), era integrado essencialmente por professores da faculdade
de Filosofia, História e Letras da USP. Outros contribuíram
por sua vasta experiência profissional de mercado. Da
primeira geração constavam nomes que se tornaram
figuras de relevo da academia e da comunicação
social, nomes de destaque como por exemplo: José Marques
de Melo (primeiro Doutor em Jornalismo no Brasil), Flávio
Galvão, José Freitas Nobre (ex-presidente da Federação
Nacional dos Jornalistas e do Sindicato dos Jornalistas do Estado
de São Paulo, e Deputado Federal), Francisco Morel, Gaudêncio
Torquato Rego, Thomas Farkas, Juarez Bahia, Antonio Costella,
Gileno Marcelino, Alfredo Weissflog, Cremilda Medina e Hélcio
Deslandes.
Este
último, Hélcio Deslandes, foi o precursor do ensino
da diagramação e das artes gráficas aos
primeiros estudantes de jornalismo da ECA. Deslandes é
engenheiro arquiteto formado pela Universidade Federal de Minas
Gerais e tem grande conhecimento em design, ilustração
e produção gráfica, vivenciado principalmente
na prática diária do mercado tanto no Brasil quanto
nos Estados Unidos. Na época, era uma pessoa um tanto
introspectiva, tímida, mas muito disciplinada e cortês
com alunos e colegas. Boa parte do tempo passava na gráfica
da ECA, onde verificava minuciosamente os trabalhos dos alunos
de então. Deslandes não foi um produtor de obras
acadêmicas no sentido estrito, mas seguramente foi um
grande contribuinte na formação de novos profissionais
e dos conceitos mais modernos da época em comunicação
visual aplicada ao jornalismo, publicidade e à editoração.
2.
OBJETIVOS
A
monografia tem como finalidade básica apresentar a contribuição
à ECA , ao jornalismo e à comunicação
social, do trabalho desenvolvido pelo professor Hélcio
Deslandes. Este teve uma papel muito relevante numa época
em que a diagramação ainda era uma especialidade
jornalística pouco difundida e vista com certo preconceito
por diversos profissionais do texto. O propósito deste
texto é narrar sua vida profissional e o quanto ele somou
na cultura visual-gráfica dos jornalistas, além
de publicitários e editores de livros. Vamos apresentar
ainda como o design gráfico é vital para o bom
jornalismo e como a Escola de Comunicações e Artes
se desenvolveu com o suporte de profissionais como Hélcio
Deslandes. Apresentaremos, por fim, conceitos elementares do
design gráfico e diagramação para melhor
compreensão do conjunto deste trabalho.
3.
JUSTIFICATIVA
A
disciplina Pensamento Jornalístico Brasileiro do curso
de Pós-Graduação stricto sensu da ECA está
resgatando, contextualizando e analisando o desenvolvimento
das idéias que marcaram o exercício profissional
e o ensino do jornalismo no Brasil. Está identificando
as contribuições críticas dos seus pensadores
emblemáticos. Na primeira fase dessa pesquisa foram analisados
os pensadores clássicos do jornalismo brasileiro, entre
eles, Barbosa Lima Sobrinho, Rui Barbosa, Carlos Lacerda, Danton
Jobim, Carlos Lacerda, Luiz Beltrão e Alceu de Amoroso
Lima. Nesta outra etapa, estão sendo pesquisados os pensadores
jornalísticos uspianos. E na área do jornalismo
gráfico o primeiro docente da USP foi o professor Hélcio
Deslandes. O resgate de perfis dos pioneiros da ECA se faz necessário
para que a memória do jornalismo brasileiro fique mais
amplificada e solidificada. Se há afirmações
de que o Brasil é um país não muito atento
a suas reminiscências, este opúsculo, ainda que
sintético e limitado, pretende ser uma resposta em contrário
oferecendo uma breve contribuição.
4.
METODOLOGIA
Este
trabalho é uma monografia de caráter descritivo.
Para efetuá-lo fizemos um amplo levantamento bibliográfico,
mas não logramos êxito em alguns aspectos biográficos
como por exemplo produção acadêmica do pesquisado.
Também não conseguimos contato pessoal com nossa
fonte central, visto que reside fora do país. A revisão
da literatura observou quatro aspectos epstemológicos:
a história de vida do pesquisado, a comunicação
visual, o ensino do jornalismo e a historicidade da Escola de
Comunicações de Artes. Para dar cabo do estudo
utilizamos o acervo da própria ECA e a biblioteca particular
deste pesquisador.
Foram
feitas ainda entrevistas com os professores-doutores José
Marques de Melo e José Coelho Sobrinho e com a ex-secretária-geral
e ex-coordenadora Marina Rector. A primeira foi realizada via
correio eletrônico enquanto as últimas foram gravadas.
As perguntas basicamente versaram sobre o início da atual
Escola de Comunicações e Artes, o período
profissional do pesquisado na escola, estilo de vida e sua personalidade
como colega e professor. Contatamos por correio eletrônico
e via telefônica, o professor-doutor Gil da Costa Marques,
diretor do Instituto de Física da USP, que congregou
com nosso pesquisado na mesma crença religiosa por muitos
anos, mas este não soube explicar o paradeiro do nosso
pesquisado, nem teve condições de agendar uma
entrevista para relato da convivência com o colega.
Para concluir fizemos uma minuciosa análise do Processo
de Contrato de Trabalho da ECA. Também desenvolvemos
uma varredura nos portais e sítios da Rede Mundial de
Computadores a fim de garimpar informações atuais
sobre o pesquisado. Todavia, nada de relevante foi encontrado.
5.
REVISÃO LITERÁRIA
Um
dos mais eminentes diretores da ECC/ECA, José Marques
de Melo, citando Luna Cortés relata em seu livro Jornalismo
Brasileiro (2003a, p.170-173), que há muitos anos, a
América Latina tem desenvolvido um trabalho para capacitar
jornalistas na universidade. E segundo este pesquisador, a melhoria
dos veículos de comunicação foi sustentada
pelos esforços dessas instituições acadêmicas.
A criação de faculdades de comunicação,
a partir dos anos 60, também, aumentou o universo dos
estudos do setor envolvendo atividades culturais emergentes
que abrangiam a persuasão, lazer e educação
à distância.
As
universidades têm buscado preservar sua autonomia, funcionando
também como vigilantes da indústria cultural (media
watching), observando criticamente seu comportamento sócio-político
e municiando as lideranças das cidadania para coibir
os eventuais abusos.
Os cursos universitários tiveram o papel de ampliar o
universo de conhecimento dos profissionais de comunicação
jornalística, indo além do que obteriam na labuta
diária mais especializada e com foco bem dirigido. Eles
contribuíram por exemplo com os futuros jornalistas revelando
conceitos essenciais do design gráfico, diagramação
e comunicação visual.
O
designer gráfico italiano Bruno Munari (1968, p. 78-79)
ressalta que a comunicação visual é em
certos casos, um meio insubstituível que permite a um
emissor passar as informações a um receptor, sendo
condições fundamentais do seu funcionamento a
exatidão das informações, a objetividade
dos sinais, a codificação unitária e ausência
da falsas interpretações. Só é possível
atingir estas condições se ambas as partes, entre
as quais a comunicação, conhecerem estruturalmente
o fenômeno.
Na grande massa de informações visuais que nos
assediam de toda parte, de modo desordenado e contínuo,
a comunicação visual procura definir, com base
em dados objetivos, qual a relação mais exata
possível entre informação e suporte. Para
cada informação corresponde um suporte óptico,
apesar de ela poder ser transmitida com vários suportes.
As duas componentes da comunicação visual, informação
e suporte, são componentes destacáveis e passíveis
de serem estudadas separadamente. Dizer-se que um suporte é
exato significa que foi controlado, tanto como código
visual, quanto meio material. O suporte para a comunicação
visual pode existir isolado, sem informação ou
pode conter uma informação quando é utilizado.
Suportes da comunicação visual são, por
exemplo, o sinal, a cor, a luz, o movimento...que são
usados de acordo com quem recebe a mensagem.
A
diagramação gráfica é uma importante
forma de comunicação visual. O diagramador, conforme
expõe o designar gráfico Antonio Collaro (1987,
p.13-15), para executar seu trabalho com certa dose de senso
estético, tem necessidade de conhecer noções
de arte e as influências que movimentos artísticos
exerceram sobre as artes gráficas. Desenhar uma página
significa muito mais do que dispor textos e fotos no papel,
significa construir, estruturar os elementos que irão
compor uma mensagem que deve ser trabalhada conscientemente.
Para
o jornalista e diagramador Rafael Souza Silva (1985, p. 13)
é na diagramação onde se vai concentrar
todo o segredo do discurso gráfico, em que a tipologia
mínima contida harmoniosamente e padronizada, alia-se
ao ritmo dado às mensagens. Segundo ele, foi a partir
de 1950, com o advento da televisão no Brasil, que o
jornalismo impresso precisou se reestruturar para acompanhar
a forte concorrência imposta pelos poderosos meios de
comunicação de massa, o rádio e televisão.
Em 1951, com o surgimento do jornal Última Hora, seu
fundador Samuel Wainer lhe deu uma linha inovadora, com paginação
ousada.
Outros
jornais brasileiros também criaram seus modelos de planejamento
gráfico por meio da diagramação, que além
de oferecer uma nova roupagem visual, controlava de maneira
mais eficiente a produção industrial gráfica
de suas edições, proporcionando acima de tudo
economia e racionalidade na produção de originais
nas redações e na composição gráfica
desses textos nas oficinas. O Jornal do Brasil, no final dos
Anos 50, também reestruturou toda sua paginação,
obedecendo os mais modernos conceitos de lay-out em suas páginas.
A mudança surpreendeu tanto os profissionais de imprensa
quanto os leitores.
6.
TEMA
6.1.
Fase Inicial da Escola de Comunicações Culturais
Os
programas universitários de formação de
comunicadores sociais desenvolveram-se na América Latina
paralelamente ao processo de industrialização.
O crescimento do consumo se ligava ao fornecimento de informações
pelas empresas geradoras de produtos jornalísticos, diversionais
ou persuasivos. No entanto, não havia recursos humanos
suficientemente capazes para operar esse bem simbólico.
Para atender essa demanda surgem escolas especializadas dentro
de universidades latino-americanas (Marques de Melo, 2003a,
p.162).
A
Escola de Comunicações Culturais -ECC- no princípio,
como relata Rector (2003), ficava no 2º andar da antiga
reitoria e ocupava apenas metade do pavimento. Parte era para
a administração e sala de aulas e parte era ocupado
pelo estúdio da TV Educativa da USP. O início
das atividades da escola foi muito precário. Havia muita
atividade político-estudantil e seu prédio até
sofreu uma invasão. Com o crescimento da Escola passou
a fazer parte de sua estrutura um barracão de madeira,
onde o Departamento de Música e a Escola de Arte Dramática
se instalaram. Em 1973, após a cidade de São Paulo
desistir da organização dos Jogos Panamericanos,
o que seriam os dormitórios dos atletas nos blocos A,
B, e C foram incorporados à ECC. Assim ficou até
1987, quando começou o movimento para novas obras de
expansão e construção de novos prédios
e do teatro.
O
Departamento de Jornalismo da ECC foi criado em 5 de fevereiro
de 1968, por meio de Resolução do Conselho Universitário.
As aulas da cadeira "Técnica e Prática de
Jornal e Periódico" começaram em março,
marcando o início do curso (ECC, 1968, p. 4.). O programa
de atividades foi desenvolvido por seu primeiro diretor, o professor-regente
José Marques de Melo, submetendo-o primeiramente à
análise dos professores de jornalismo e da própria
direção da escola. As atividades do Departamento
conforme as diretrizes apresentadas pela diretoria envolviam
os aspectos de ensino, pesquisa e experimentação
e extensão cultural.
No
âmbito do ensino, o Departamento coordenava a cadeira
de "Técnica e Prática de Jornal e Periódico"(
integrada ao currículo do segundo ano de Jornalismo)
e programou as diretrizes básicas para o estabelecimento
de outras disciplinas para os anos seguintes. Na área
de pesquisa, os primeiros trabalhos se voltaram para a instalação
de um arquivo de documentação jornalística,
de um museu da imprensa, de um centro de pesquisa de Jornalismo
Comparado e de uma hemeroteca. No que se refere ao setor experimental,
foram iniciados a Agência Universitária de Notícias
-AUN- e o jornal-laboratório. No setor de extensão
cultural, o Departamento promoveu o intercâmbio entre
várias instituições acadêmicas brasileiras
e internacionais, além de editar publicações,
organizar conferências e realizar assessoramento técnico.
Depois
de um início com dificuldades características
da fase de estabelecimento, o ano de 1969 significou o começo
da consolidação do Departamento de Jornalismo
da Escola de Comunicações Culturais da USP. Foi
marcado pela formulação de diretrizes no campo
pedagógico e também pela instalação
da infra-estrutura de serviços específicos para
formação profissional de jornalistas. Na estrutura
didática da ECC ficou estabelecido um currículo
com disciplinas instrumentais para os segundo e terceiros anos
do curso de jornalismo.
Além
do prof. José Marques de Melo, regente da disciplina
de "Técnica de Jornal e Periódico",
o departamento contou com a colaboração dos docentes:
Gaudêncio Torquato Rego (professor instrutor da cadeira
Técnica de Jornal e Periódico I), Flávio
Galvão (professor colaborador de Técnica de Jornal
e Periódico II), Hélcio Deslandes (professor instrutor
de Artes Gráficas e Diagramação), José
Freitas Nobre (professor de disciplina de História da
Imprensa) e Thomas Farkas (professor instrutor de Fotografia
e Fotojornalismo).
As
disciplinas eram ministradas com atividades teóricas
(exposições em salas de aulas, grupos de estudos
ou seminários) e prático (realização
de trabalhos nos laboratórios da USP). No final do segundo
semestre, implementava-se o jornal laboratório com edições
quinzenais. A disciplina de Fotografia e Fotojornalismo desenvolvia
suas aulas práticas no laboratório fotográfico
do Serviço de Documentação da Reitoria
da USP. Já a disciplina de Jornalismo Audiovisual utilizava
o equipamento da TV Educativa USP. Em 1969, freqüentaram
o curso de Jornalismo, 53 alunos dos quais 21 no terceiro ano
e 32 no segundo ano.
Ficou
constatado que o índice de profissionalização
observado entre os alunos matriculados era o início da
valorização dos profissionais de nível
universitário entre as empresas jornalísticas
de São Paulo. Em regime normal de trabalho, estavam atuando
aproximadamente 65% dos alunos do terceiro ano e cerca de 44%
dos alunos do segundo ano. O aluno Ethevaldo Mello Siqueira
(terceiro ano), por sinal, recebeu menção honrosa
do Prêmio Esso de Jornalismo, em 1969.
Mesmo
com a gráfica equipada (constituída de tipografia,
linotipo, máquina de tirar provas, guilhotina, máquina
de grampear, mesa de paginação, mesa de retoques
etc.), sua instalação não foi efetivada
por falta de espaço físico. A inauguração
do novo prédio da Escola de Comunicações
Culturais havia atrasado e adiou a instalação
do equipamento para o ano seguinte. Ainda que por ora não
havia espaço disponível estavam sendo incorporados
outras máquinas: impressora offset, dobradeira em cruz
e fotolito.
O Departamento de Jornalismo programou a publicação
de cinco edições piloto de um periódico
quinzenal (jornal) tratando de assuntos relacionados com diversos
setores da Comunicação de Massas. A publicação
circularia entre alunos e professores da faculdade, além
de ser enviada para outras escolas de jornalismo e comunicação.
Outro
projeto parecido foi o Jornal da ASUSP. O veículo era
destinado aos funcionários da USP. Editado desde 1968
sob a supervisão técnica do Departamento de Jornalismo,
foi produto de um convênio com a Associação
dos Servidores da USP. Coordenada pelos professores de Artes
Gráficas e Diagramação e de Técnica
de Jornal e Periódico I, a equipe de alunos do segundo
ano preparou três edições em 1969.
Na
cadeira de Jornalismo Audiovisual, os alunos produziram dentro
da TV Educativa da USP programas noticiosos para rádio
e televisão. Foram gravados, em 1969, quatro programas
de radiojornalismo, no primeiro semestre e 5 telejornais no
segundo semestre. Para sua realização, o Departamento
contou com a assessoria e coordenação do monitor
Walter Sampaio, que mais tarde viria a ser professor.
As
atividades experimentais de fotojornalismo também passaram
a se desenvolver com maior intensidade. O laboratório
fotográfico do Serviço de Documentação
foi disponibilizado integralmente aos sábados e os alunos
puderam manejar os equipamentos de revelação,
ampliação, montagem, retoque de fotos etc. Houve
também projetos de documentação fotográfica
e a proposta da I Exposição de Fotografia Jornalística
da ECC, cujos melhores trabalhos seriam apresentados no início
de 1970. A orientação seria do professor Thomaz
Farkaz.
No
ano de 1969, o professor Hélcio Deslandes supervisionou
várias publicações editadas pelo Departamento
de Jornalismo entre as quais estavam os Boletins do Departamento
de Jornalismo, Introdução a McLuham (Benedito
Ferri de Barros), Hipólito da Costa - Ação
Social e Política do Correio Braziliense (Carlos Rizzini),
A Reforma do Ensino de Jornalismo (José Marques de Melo),
e o Bibliografia Brasileira da Pesquisa em Comunicação
(José Marques de Melo). Individualmente, professores
do Departamento publicaram várias artigos e ensaios.
Entre 9 e 13 de junho, o Departamento promoveu a I Semana de
Estudos de Jornalismo, tendo como tema central o jornalismo
sensacionalista. No aspecto de extensão cultural, o setor
promoveu uma série de palestras e conferências,
convidando inicialmente professores da própria escola
e depois profissionais e especialistas de diversas áreas
da comunicação jornalística.
Em
1970, com a reforma universitária estabelecida pelo Decreto
52.326, de 16 de dezembro de 1969, a Escola de Comunicações
Culturais passou a ser denominada Escola de Comunicações
e Artes e seu Departamento de Jornalismo foi ampliado para Departamento
de Jornalismo e Editoração. Até abril de
1970, o professor e diretor da escola, José Marques de
Melo, foi também seu coordenador. Neste ano, o departamento
oferecia as seguintes disciplinas para o curso de Jornalismo:
Jornalismo Comparado, Artes Gráficas e Diagramação,
História da Imprensa, Jornalismo Informativo e Interpretativo,
Jornalismo Opinativo e Funções de Direção
e Secretaria, Fotografia e Fotojornalismo, Jornalismo Audiovisual,
Ética e Legislação de Imprensa, Administração
de Empresas Jornalísticas e Jornalismo Especializado.
Frente
aos atrasos da instalação dos laboratórios,
as atividades experimentais do departamento sofreram algumas
limitações em 1970. Mas o departamento se concentrou
durante o primeiro semestre na implementação da
gráfica e do laboratório fotográfico, cujo
equipamento havia sido adquirido, nos anos anteriores e também
naquele ano. A gráfica passou precariamente a funcionar
em meados do primeiro semestre, mas no final do ano letivo já
se encontrava em condições de executar os projetos
dos diversos cursos na área impressa. A partir de 1971,
a gráfica estaria em condições de trabalhar
não apenas para o departamento, mas também para
terceiros. Assim, o equipamento não ficaria ocioso em
certos períodos e a renda obtida seria revertida para
a manutenção do equipamento. O jornal laboratório
se tornou o projeto básico dos cursos de jornalismo opinativo
e funções de direção e secretaria
no jornalismo. Mas também foram desenvolvidos outros
veículos como a revista K , o Boletim de Notícias
e o jornal Mural da USP.
Em
1970, foi diplomada a primeira turma de bacharéis em
jornalismo, com índice satisfatório de profissionalização
dos alunos. Se encontravam em atividade 16 ex-alunos dos 21
que se formaram. O engajamento foi notado também no terceiro
ano. Da turma de 21 alunos, 15 já estavam exercendo a
profissão. Já os discentes do segundo ano, dos
45 que o concluíram, 18 deles estavam atuando em empresas
jornalísticas. Em 1970, foram profissionalizados 80%
dos alunos do quarto ano, 76% dos alunos do terceiro ano e 40%
dos alunos do segundo ano.
Com
vistas a atender as novas determinações do Conselho
Universitário da USP para desenvolver a carreira universitária,
o departamento incentivou seus professores a defender teses
de doutoramento. O professor Freitas Nobre, por exemplo, se
doutorou pela Universidade de Paris com a tese: "O Direito
e Economia da Informação". Também
se doutoraram os professores José Marques de Melo, Flávio
Galvão, Gaudêncio Torquato Rego, e Thomas Farkas.
Deslandes teve como orientador o professor Walter Zanini, Livre-Docente
da ECA, e pretendia fazer um trabalho sobre as artes gráficas,
mas não conseguiu concluir seu doutorado por problemas
de agenda.
Em
1971, a ECA diplomou sua segunda turma de bacharéis em
Jornalismo. Dos 22 diplomados, 16 estavam profissionalizados,
exercendo funções jornalísticas. Outros
três já haviam desempenhado essas funções
e estavam ocupando cargos públicos de melhor remuneração.
Um grupo de três formados recebeu ofertas de trabalho
mas não as aceitou por seus integrantes estarem cursando
outras faculdades. As estatísticas davam conta que 72%
dos formados eram jornalistas profissionais e 14% exerceram
essas atividades. Um total de 86% dos formados tiveram experiência
na carreira. Com respeito aos concluintes dos sexto semestre,
verificou-se que 45% estavam profissionalizados, com alguns
trabalhando em mais de um a empresa. Um grupo constituído
por 55% dos alunos declarou a uma pesquisa da época que
nunca havia trabalhado, mas garantia que não era por
razões que comprometiam o curso. Várias empresas
contataram o Departamento oferecendo trabalho e estágio
remunerado aos alunos. De outra parte, diverso egressos da turma
de 1970 haviam ocupado chefias em empresas jornalísticas
e outros foram contratados por assessorias de imprensa de empresas
públicas.
Em
1972, dos 33 alunos do oitavo semestre, dois estavam atuando
como jornalistas profissionais, regularmente registrados. Uma
dezena também trabalhava em empresas jornalísticas,
já contratados. Como free-lances havia cinco estudantes
e sete eram estagiários. Apenas três nunca tinham
trabalhado em jornalismo. Seis fizeram alguns trabalhos esporádicos
na área, mas não ficaram ligados a nenhuma empresa.
Portanto, 24 tiveram efetiva profissionalização.
Percentualmente, esses números significavam que 72% obtiveram
profissionalização efetiva e apenas pouco menos
que 10% nunca haviam trabalhado na área. Do sétimo
semestre, cerca de metade já tinha feito estágios
em empresas jornalísticas. No curso de Editoração,
dos sete alunos dois estavam contratados por editora, um fazia
estágio e outros dois eram monitores.
Em
1972, sob a coordenação da professora Cremilda
Medina, a Agência Universitária de Notícias
-AUN- passou por uma transformação decisiva. Seus
boletins entraram em periodicidade rigorosa, com 33 edições
semanais, além de seis edições extras,
durante a IV Semana de Estudos de Jornalismo e um boletim especial
para a I Semana de Estudos de Editoração. O órgão
laboratório deixou de estar preso à disciplina
de Jornalismo Informativo (semestral) para funcionar o ano inteiro
Por meio de convênio com o CIMPEC (Centro Interamericano
de Produção de Materiais Educativos) e órgão
da OEA foram admitidos um repórter e uma redatora. A
partir da edição de número 25, os boletins
passaram a incluir o serviço especial do CIMPEC, distribuindo
materiais sobre educação, ciências e tecnologia,
além de continuar a cobertura na USP. O serviço
era enviado a jornais da capital e interior e principais jornais
de outros estados.
Os
alunos do sexto semestre de jornalismo e rádio e TV,
em 1972, sob orientação do professor Walter Sampaio,
produziram 33 programas para rádio, num total de oito
horas e dezoito minutos. Cada equipe realizou noticiosos de
uma hora e vinte três minutos. Enquanto isso, os alunos
do sétimo semestre de jornalismo também sob orientação
de Sampaio produziram 25 programas, com vinte e dois minutos
cada, além de três de vinte e cinco minutos. O
total gerado nos programas, tais como documentários e
noticiosos, foi de seis horas e quarenta e cinco minutos.
Nesse
início da década de 70, ou seja, na fase introdutória
da escola, juntamente com a intensa atividade das aulas foi
expressivo o volume de pesquisas produzidas, cursos de Pós-Graduação,
aperfeiçoamento, extensão cultural, eventos, intercâmbios
e viagens de estudos, levantamentos de acervo de imprensa, pesquisas
exploratórias, debates, seminários, conferências
e palestras, edição de livros acadêmicos,
publicações entre outras atividades.
Um
fato importante a destacar foi que a ECA se tornou a pioneira
no país no ensino de Pós-Graduação
em Comunicação, iniciando em 1972 um curso de
mestrado. Outra atividade de relevo da escola foi a edição
de publicações em todos os setores da Comunicação
e das Artes, que ofereciam aos seus alunos, aos profissionais,
bem como profissionais, professores e estudantes de outras instituições
do ensino da Comunicação, textos atualizados,
nacionais e estrangeiros, que serviam de apoio ao desenvolvimento
de estudo teórico e prático nas áreas nas
quais a bibliografia em circulação era restrita
ou até inacessível (Marques de Melo, 1974, p.
61).
Para
se ter uma idéia, no momento, existem no Brasil mais
de duzentos programas universitários de graduação
no segmento da comunicação, entre, faculdades,
institutos, escolas e departamentos. A demanda para esses cursos
é muito grande. Na USP, no caso do jornalismo a relação
é de 50 candidatos por vaga. Na publicidade a relação
é de 70 por vaga. (Marques de Melo, 2003a, p. 167-179).
Desde o fim da década de 60, a profissão de Jornalista
é exclusiva de portadores de diploma universitário,
obtidos em cursos superiores de Comunicação Social,
com habilitação em Jornalismo. Os jornalistas
que atuavam há mais de cinco anos antes da regulamentação
garantiram seus direitos legais para o exercício profissional.
Em regiões onde não haviam cursos de jornalismo,
até a década de 70, houve tolerância aos
profissionais de imprensa sem formação específica.
A
reserva de mercado estimulou o crescimento de uma ampla rede
de faculdades por todo o país. Atualmente, são
poucas as grandes cidades que não disponham de cursos
de jornalismo. A maior parte deles está no eixo sul-sudeste,
justamente a região onde ocorre maior densidade demográfica
e concentração de grandes empresas jornalísticas.
Boa parte deles, porém, não oferece boa capacitação
profissional. Diante disso, algumas empresas criaram seu próprios
programas de aperfeiçoamento profissional para suprir
as deficiências desses jovens.
A
deficiência fundamental dos novos profissionais é
a falta de embasamento humanístico e científico
que habilite o profissional a entender a sociedade e transmitir
pelos Meios de Comunicação de Massa os seus movimentos
do quotidiano. Algumas universidades porém buscam superar
as dificuldades de formação de docentes com viés
mais dirigidos aos interesses pragmáticos da profissão
do que aos seus aspectos de interesses puramente sociológicos
ou filológicos.
Há vários anos, os países latino-americanos
desenvolvem esforços para capacitar jornalistas nas escolas
superiores. Se houve aperfeiçoamento dos produtos jornalísticos
foi produto em parte das instituições acadêmicas.
Contudo, as universidades não têm sido suficientemente
rápidas para se emparelhar com a sociedade. A velocidade
do desenvolvimento da mídia se confronta com o menor
ritmo da produção acadêmica. O fato tem
gerado tensões e conflitos.
Além
disso, a tentativa de transformar a Comunicação
Social em campo homogêneo, por meio de currículos
unificados, tem distanciado as habilitações das
tendências atuais do mercado, que exigem cada vez mais
a especialização profissional. A eliminação
de programas de formação específica, tais
como o do Jornalismo, acabou comprometendo a identidade dos
campos profissionais. Nos últimos 20 anos, há
críticas das empresas e dos órgãos de classe
nesse sentido. Mas algumas universidades estão se mobilizando
a fim de demarcar novamente a identidade do jornalismo e construir
uma nova especificidade universitária.
6.2.
Comunicação visual, design e produção
gráfica e diagramação
Numa
época em que havia pouquíssima bibliografia em
português sobre o assunto, o professor Hélcio Deslandes
foi um dos introdutores do ensino da diagramação
e das artes gráficas nos cursos de jornalismo. A então
Escola de Comunicações Culturais levou algum tempo
até montar sua própria biblioteca. A estrutura
nos primeiros anos era rudimentar, mas não reduziu o
entusiasmo dos professores em ensinar. Por todas essas dificuldades,
Deslandes teve de empreender um esforço muito grande,
apesar de desde poder contar com uma gráfica doada com
bons equipamentos logo no início(Rector, 2003).
Para entender o trabalho de Deslandes é preciso ter uma
visão conceitual de sua atividade. A comunicação
visual está praticamente em tudo que o que os olhos vêem,
como por exemplo, numa nuvem, numa flor, num desenho técnico,
num sapato, num panfleto, ou numa bandeira. Porém essas
imagens têm valores diferentes conforme a situação
em que estão inseridas dando informações
diferentes. Suas mensagens podem ser uma comunicação
casual ou intencional (Munari, 1968, p.87). A casual é
a nuvem que passa no céu, não com a intenção
de advertir que um temporal está para chegar. Por sua
vez, a intencional é aquela em que uma série de
nuvenzinhas de fumo é feita deliberadamente pelos índios,
por intermédio de um código preciso, para comunicar
uma informação precisa.
De
sua parte, a comunicação casual pode ser entendida
livremente pelo receptor, podendo ser uma mensagem científica,
estética ou de outra natureza. A comunicação
intencional deve ser recebida na totalidade do significado pretendido
pela intenção do emissor. A comunicação
visual intencional poderia ser analisada pelo lado da informação
estética ou da informação prática.
Entende-se por informação prática, sem
componente estético, por exemplo, um desenho técnico,
a fotografia do repórter, as notícias visuais
da TV ou um sinal de trânsito. Por seu turno, a informação
estética significa que uma mensagem tem de informar,
por exemplo, as linhas que compõem, numa forma, as relações
volumétricas de uma construção tridimensional,
as relações temporais visíveis de transformação
de uma forma em outra (a nuvem que se desfaz e muda de forma).
Como
descreve Munari (1968, p. 90) a comunicação visual
acontece por meio de mensagens visuais. Elas fazem parte de
uma grande família das mensagens que atingem os sentidos
(sonoras, térmicas, dinâmicas etc.). Portanto,
um emissor emite mensagens que um receptor recebe, no entanto,
este último está imerso num ambiente perturbado,
que pode alterar ou anular certas mensagens. Um exemplo disso
seria um sinal vermelho vermelho num ambiente no qual haja predominância
da luz vermelha. A luz ficaria quase anulada. Outro caso típico:
um índio que transmite sua mensagem com nuvens de fumo
pode ser perturbado por um temporal.
Caso
a mensagem seja bem projetada, evitando qualquer deformação
no decorrer da emissão, chegará ao receptor, mas
encontrará outros obstáculos. Todo receptor possui
a seu modo algo que se poderia definir como filtros, através
dos quais a mensagem terá de passar e ser recebida. Um
deles é de natureza sensorial. Um daltônico não
observa certas cores, portanto, as mensagens específicas
na linguagem cromática são modificadas ou até
anuladas. Outro exemplo de filtro é o do tipo operativo.
Este depende das características que constituem o receptor.
Um exemplo: uma criança de três anos analisa uma
mensagem de maneira muito diferente de um indivíduo maduro.
O terceiro filtro é o cultural. Muitos ocidentais não
entendem a música oriental como música, porque
não corresponde as suas normas culturais. A música,
para eles, "deve ser" a que sempre ouviram desde criança
e não outra coisa.
Os
três filtros descritos não são a rigor diferentes
e subsequentes na ordem apresentada. Eles podem ser inversos
ou interativos. No caso de a mensagem atravessar a zona de perturbações
e dos filtros e chegar a zona interior do receptor, denominada
emissor do receptor, esta área pode emitir dois tipos
de resposta à mensagem recebida, uma interior ou exterior.
Se a mensagem visual dizer: "aqui é um bar",
a resposta exterior manda o indivíduo beber enquanto
resposta interior diz: "não tenho sede".
A
diagramação/paginação é a
técnica da comunicação visual dos veículos
impressos. No início o trabalho de diagramação
era feito pelo próprio paginador, que utilizava sua experiência
para fazê-la. No entanto, com o desenvolvimento das empresas
jornalísticas passou do campo artesanal para o campo
da especialização, e de todo jornal, qualquer
que fosse o processo gráfico deveria ter seu próprio
departamento de arte como observa Collaro (1987, p.87-90).
Ele explica o papel da diagramação na indústria
jornalística moderna e como pode contribuir para tornar
os produtos impressos mais atraentes:
"A diagramação desenvolve o seu trabalho
com vistas à disposição da matéria
levando em conta o aproveitamento do texto, o destaque, a atração,
a forma, a estética, conjugando o conteúdo com
a apresentação gráfica. Atualmente os jornais
modernos, ao dedicarem atenção especial à
diagramação, agem atendendo um impulso de duplo
sentido: o primeiro, identificando o leitor com o progresso
das artes gráficas; o segundo, valorizando o texto com
o bom-gosto da distribuição, ordenação
que atende a sensibilidade plástica e o espírito
jornalístico que acompanha o dinamismo do trabalho jornalístico."
A
diferença entre diagramação e paginação
está na cronologia basicamente. A diagramação
é uma etapa anterior à da paginação.
Num impresso, a estética não é o mais importante,
mas é a causa do primeiro impacto ao leitor. Assim sendo,
o jornalista que atua como diagramador precisa se valer de todas
as noções teórico-práticos para
definir o objeto de comunicação visual. É
necessário que o designar gráfico junte o estilo
das ilustrações à tipologia a ser utilizada
para obra alcançar a valorização desejada.
Naturalmente, o designar gráfico sofre restrições
técnicas de realização e apresentação.
O
termo diagramação como define Silva (1985, p.15,
41) é resultante da palavra diagrama, do latim diagramma,
que significa desenho geométrico usado para demonstrar
algum problema, resolver alguma questão ou representar
graficamente a lei de variação de um fenômeno.
Ele cita Rabaça e Barbosa para os quais "diagramar
é fazer o projeto da distribuição gráfica
das matérias a serem impressas (textos, títulos,
fotos, ilustrações etc.), de acordo com determinados
critérios jornalísticos e visuais. Distribuir
técnica e esteticamente, em um desenho prévio,
as matérias destinadas à impressão".
As noções elementares sobre artes gráficas
são indispensáveis, devendo o planejador gráfico
saber dominá-las de forma racional e eficiente. A diagramação
é um setor específico do jornalismo que apesar
de se constituir numa função técnica é
antes de tudo uma atividade criativa, em que o planejador gráfico,
no momento de realização de seus projetos gráficos,
percorre do lúdico ao onírico, buscando a forma
ideal "arquitetônica" para cada modelo. Ela
deve traduzir de maneira eficiente no papel a materialização
de seus impulsos emocionais e estéticos.
Um
diagramador deve ser um especialista que além de conhecer
as técnicas de paginação, associa essas
páginas aos conhecimentos artísticos de contrastes,
equilíbrio, harmonia, ritmo e unidade, em que entram
tipos de letras, formatos, ornamentos, linhas dominantes, cortes
de fotos, retículas, negativos etc. (Collaro, 1987).
A diagramação de um veículo técnica
e artisticamente é uma proposição gráfica,
qualquer que seja o recurso de impressão utilizado, tradicional
ou moderno. Mais do que nos jornais, na revista, a diagramação
dispõe de mais opções: papéis de
qualidade, versatilidade de tipos e jogo dinâmico de cores.
Mas no jornal, revista ou livro, a diagramação
se realiza por uma concepção técnica e
artística. Como proposição, a paginação
ou diagramação busca o estilo. No caso, esse estilo
de paginação ou diagramação é
o seu lay-out. É o modo, a forma ou a maneira de arranjar
os textos e as ilustrações na página. É
o design -o objeto da comunicação visual obtido
pela disposição das fotos, desenhos, textos e
títulos na página- em termos de importância
e sensibilidade (Bahia, 1972, p. 203).
Já
Ribeiro (s/d, p.301) salienta que cada diagramador tem seu estilo
próprio e deve encontrar a justa medida entre seu traço
e a natureza da publicação. Uma composição
pode ser clássica ou moderna. Na clássica a distribuição
dos elementos deve ser centralizada e simétrica, obedecendo
aos princípios do contraste e oposição
entre os grandes e pequenos valores. A composição
moderna não obedece rigidamente a regras estipuladas.
É um jogo de imaginação, equilíbrio,
contraste, pontos de referência, justaposição
ou outros artifícios oportunos ao trabalho.
Ao se projetar uma revista, por exemplo, Ribeiro defende que
é preciso ter em mente que o valor de uma obra gráfica,
tal como em qualquer obra artística, está em sua
originalidade. Ou seja, tanto no trabalho clássico, quanto
no moderno, há normas constantes e universais que servem
de base. À margem da fidelidade há todo um campo
livre para a originalidade e criação.
No curso de artes gráficas e diagramação,
o professor Hélcio Deslandes utilizava o livro texto:
A diagramação e a confecção de um
periódico, de Luka Brajnovic (1970, p.5). Em suas páginas
o autor alerta para o fato de que a posição ou
colocação de um texto pode ser estudada tanto
para averiguar as razões quanto os efeitos produzidos
pelo fato de um texto figurar em uma determinada página
e não em outra, e em determinado lugar dentro da página
(acima, abaixo, à direita e à esquerda). Nesse
aspecto, a titulagem é interessante para analisar sua
importância real (dimensão, caracteres usados etc.),
sua importância relativa (em comparação
com outros títulos) e seu conteúdo ou redação.
Braijonivic
escreve que a criação de uma fisionomia de um
jornal ou revista não é um trabalho fácil.
Mas não deve ser extensa, nem constantemente modificada.
Portanto, uma vez criada a fisionomia do jornal é aconselhável
cuidá-la e mantê-la, naturalmente não de
uma maneira rígida e cega, sem flexibilidade e aberta
a renovações parciais e progressivas. Para Braijonivic:
"É necessário manter a personalidade externa
do jornal ou revista, mas ao mesmo tempo seguir adotando modificações
e melhoras aconselhadas por novas circunstâncias, aperfeiçoamento
técnico ou por razões justificadas em geral. É
uma boa medida, por exemplo, que o comentário político
esteja sempre publicado no mesmo lugar e que ocupe o mesmo espaço,
pois não há perigo algum de provocar por isso
a monotonia."
A
década de 70 época da solidificação
da ECA foi também o período de um novo interesse
no design de jornais, um interesse que se estendeu às
salas de redação dos jornais de todos os tamanhos.
Um interesse que se manifestava de várias formas, mas
que se refletia principalmente no número cada vez maior
de diários e semanários que haviam mudado seu
visual, e também na participação de redatores
em seminários e cursos que haviam aumentado seu interesse
nos aspectos gráficos (Garcia,1981, p.12).
Nos últimos 20 anos, o computador, como em outros setores,
teve uma grande influência no setor visual-gráfico.
Com o advento da editoração eletrônica,
resultado da proliferação e crescente aperfeiçoamento
dos microcomputadores com capacidade gráfica, a produção
gráfica convencional adaptou-se gradativamente aos novos
meios (Baer, 1999, p.134). Os instrumentos tradicionais de diagramação
como, por exemplo, folha de diagrama, régua de paicas,
tabela de índice e tipômetro foram aposentados
com o surgimento de programas de desktop publishing, ou de editoração
eletrônica. Os modernos softwares como o Page Maker, Quark
Express, Corel Draw e In Design são as ferramentas mais
recentes que agilizam o processo de design da página.
Mas eles não dispensam o conhecimento estético,
tecnológico e harmônico do profissional diagramador.
A
nova tecnologia que casa a informática com artes gráficas
estabelece relações nem sempre fáceis entre
os clientes e os fornecedores gráficos. Isso se deve,
em sua maioria, à pouca familiaridade dos primeiros com
a produção gráfica e às vezes com
o próprio computador, expõe Baer (1999). Como
maior parte das publicações não tem sua
própria gráfica, muitos editores devem encomendar
esses serviços a terceiros, portanto, os jornalistas
precisam estar preparados para as exigências de mercado
que ultrapassam o saber estritamente redacional e de edição.
Hoje, há interfaces entre a edição e a
produção gráfica que o profissional de
imprensa precisa dominar para o bom desempenho de seu trabalho
final.
Contemporaneamente, a diagramação dos jornais
e revistas enfrenta um dilema semelhante àquela dimensionada
pela Geração Deslandes (naquela conjuntura o desafio
dos planejadores era a de experimentar formas capazes de permitir
aos jornais e revistas conviver com a imagem televisiva). A
geração que se inicia no jornalismo neste limiar
do século XXI defronta-se com a tarefa de buscar formas
gráficas impressas capazes de competir com o apelo imagético
e policromático da mídia digital. Para o professor
Marques de Melo (2003b), há falta de criatividade nas
soluções engendradas pelos atuais produtores gráficos.
A Geração Deslandes era mais ousada, inovadora,
atrativa, fazendo uma conexão adequada entre a estética
erudita e gosto popular.
6.3.
História de vida de Hélcio Deslandes
Natural
de Belo Horizonte, Deslandes nasceu em 21 de julho de 1929.
Fez o antigo curso primário e ginasial no Ginásio
Municipal de Itajubá em Minas Gerais. Concluiu o curso
colegial no Instituto Gammon em Lavras. Era formado pela Escola
de Arquitetura da Universidade de Minas Gerais, turma de 1960.
Sua carreira profissional antes da ECC já era muito rica.
Trabalhou em publicidade como diretor de arte da Starlight Propaganda
em Belo Horizonte (1951-1960). Foi layoutman da agência
Standard Propaganda e da Mccann Erickson (1962-1963) naquela
cidade. E atuou como diagramador para offset e diretor de arte
no Serviço de Imprensa e Propaganda da capital mineira.
Em outubro de 1961, passou a fazer parte da equipe de diagramação
do Jornal do Brasil, no Rio de Janeiro. O profissional foi estagiário
da Editora Bloch e depois diagramador de revistas dessa empresa.
Entre 1964 e 1965, já em São Paulo, esteve na
função de diretor de arte na Head Line Propaganda,
empresa dirigida pelo professor da ECC, Francisco Morel. No
Instituto Adventista de Ensino de São Paulo, ocupou o
cargo de assessor de artes gráficas (1965-1968).
Deslandes
desenvolveu trabalhos como capista, diagramador e ilustrador
para a Editora Brasiliense e Editora Martins, em São
Paulo, e nas Editoras Itatiaia em Belo Horizonte. Como arquiteto
projetou residências em Belo Horizonte, São Paulo
e Campinas e até elaborou projetos de igrejas nestas
mesmas cidades. Era um membro destacado da Igreja Adventista
do Sétimo Dia.
Dentre suas atividades artísticas constam participações
em salões de artes plásticas da UEE e nos salões
de Arte da Prefeitura de Belo Horizonte. No II Salão
Paulista de Arte Contemporânea foi premiado com Menção
Honrosa. Esteve presente no XVI Salão Paulista de Arte
Moderna -1967-, IX Bienal de São Paulo (1967) e da I
Pré-Bienal. Também participou do III Salão
de Arte Contemporânea de Campinas naquele mesmo ano. Esteve
no IV Salão de Arte Contemporânea de Campinas (onde
conquistou o prêmio de Aquisição) e no Salão
de Arte Contemporânea de São Caetano. Ambos ocorridos
no ano de 1968.
Os
anos 60 foram marcados por uma revolução na diagramação
dos jornais e revistas brasileiros, capitaneados pela reforma
gráfica do Jornal do Brasil e depois continuados pela
diagramação ousada do Jornal da Tarde, tendência
confirmada pelas novas revistas lançadas pela Editora
Abril (Realidade e Veja). As empresas demandavam profissionais
do jornalismo gráfico que tivessem sensibilidade estética,
superando a fase dos técnicos da paginação
tradicional. Em razão dessa conjuntura Marques de Melo
(2003b) decidiu procurar no mercado um professor para as disciplinas
dessa área que não fosse um mero diagramador.
Ele procurou alguém que viesse do universo publicitário,
tendo em vista que a nova estética dos jornais e revistas
se inspirava em parte na ousadia estética dos anúncios
que suas páginas algumas vezes produziam.
Assim,
o diretor da Escola de Comunicações Culturais,
Júlio Garcia Morejon, em janeiro de 1968, solicitou a
autorização à reitoria da USP para contratação
em regime de serviços especiais, sem vínculo jurídico
de caráter empregatício por quatro meses até
abertura de concurso, o engenheiro arquiteto Hélcio Deslandes.
Era para prestar serviços à Escola de Comunicações
Culturais na qualidade de diagramador do jornal-laboratório
e como assessor de artes gráficas do Departamento de
Jornalismo. A jornada somava 44 horas semanais. A secretaria
da escola estava ainda estudando normas para o concurso. Havia
previsão para o jornal-laboratório circular nos
meses de março e abril de 1968.
"Trata-se
de um profissional experiente com 15 anos de atividades em arte
publicitária e jornalística, conhecendo detalhadamente
processos de impressão tipográfica e 'off-set'",
escrevia o professor Julio Garcia Morejón ao então
reitor Alfredo Buzaid, diretor da Faculdade de Direito, que
estava respondendo pela reitoria.
Como documenta o Processo de Contrato de Trabalho da USP nº
68.1.996.1.6., em 23 de janeiro de 1968, o professor Deslandes
era contratado até que fosse feita abertura de concurso.
Este contrato viria a ser prorrogado em caráter excepcional
em abril e em setembro daquele ano. No ano seguinte mais uma
prorrogação em janeiro. Em 1969, o diretor Antonio
Guimarães Ferri solicitou a contratação
de Hélcio para exercer a função de instrutor,
junto à disciplina de artes gráficas e diagramação
por uma ano. Também exerceria a função
de diagramador do jornal laboratório e assessor de artes
gráficas do Departamento de Jornalismo.
O
curso de artes gráficas do professor tinha 14 horas-aula
por turma com duração de agosto a outubro. O trabalho
envolvia o planejamento gráfico e a coordenação
de paginação e impressão do "Jornal
da Asusp", órgão laboratório dos alunos
do curso de jornalismo. As atividades através do jornal-laboratório
lhe permitiram experimentar novas formas de diagramação
e apresentação gráfica.
Em seus estudos de comunicação visual, preparou
"bonecos" para jornais tablóides e micro-jornais,
criou logotipos, cartazes e material publicitário para
uma campanha de lançamento do jornal-laboratório,
além da escolha de tipos e material gráfico complementar.
Em 1968, o professor fez diversos estudos no campo da ilustração
e da preparação da capas. Trabalhou na criação
de 12 capas para publicações editadas pelo Departamento
de Jornalismo, em mais quatro capas para o Boletim do Departamento
de Jornalismo, além do logotipo e da folha de rosto da
Agência Universitária de Notícias -AUN-.
Um dos seus primeiros textos de divulgação foi
a tradução de artigo sobre o desenvolvimento histórico
das artes gráficas, que seria publicado no Boletim do
Departamento de Jornalismo nº 4.
Realizou
ainda serviços de planejamento gráfico, "lay-out"
e arte-final para criação de vários produtos,
entre os quais: a marca símbolo da Asusp, três
capas para a revista da ECC, 13 ilustrações para
um estudo da professora Francesca Cavalli, e a lauda-padrão
do Departamento. Fez diversos desenhos e gráficos para
a aula inaugural da ECC, atendendo solicitação
do Departamento de Rádio e TV. Elaborou gráficos
para trabalho do professor José Marques de Melo que viria
a ser publicado na revista da ECC. Desenhou etiquetas para salas
de aulas da ECC e seus departamentos, letreiros para o Departamento
de Cinema (filme sobre o ginásio vocacional) e o cartão
de Natal da direção da escola.
O
professor foi o responsável pela escolha de tipos para
o linotipo, tipografia e indicação de equipamentos
por meio de contatos com firmas especializadas. Fez a coordenação
gráfica da revista K, órgão especializado,
com o intuito de integrar alunos e ex-alunos da ECA, bem como
profissionais de comunicação. E complementando,
prestou assessoria gráfica à Revista Comunicações
e Artes, periódico trimestral oficial da ECA, editado
em convênio com a Empresa Revista dos Tribunais.
Em dezembro de 1969, Deslandes se inscreveu para o doutoramento.
Seu orientador era o professor Walter Zanini. Em 1972, se afastou
por dois anos a fim de realizar estudos de Pós-Graduação
nos Estados Unidos. Naquele país, com sua experiência
em artes plásticas, arquitetura, design e ilustração,
trabalhou como free-lance na região da grande Washington,
onde morava. Atuou nessa condição até 1973,
quando foi admitido no Departamento de Arte da Review and Herald
Publishing Association como designar. Depois ocupou a função
de coordenador de arte.
No
campo da ilustração fez várias pesquisas
com diversos materiais: lápis, guache, pastel, aquarela,
tissue paper e pincéis de pontas de feltro com tinta
à base de óleo ("makers"). Teve acesso
a diversas técnicas, processos e problemas das etapas
da produção editorial que de outra forma se apresentariam
como objetos de contemplação apenas teórica.
Em sua atividade profissional esteve envolvido em trabalhos
de equipe com editores e representantes do Departamento de Produção
(Book Department). Isso lhe garantiu grande experiência
no setor de editoração.
Além das responsabilidades designadas pelo Departamento
de Arte da Review and Herald de coordenar e assistir o departamento,
sua grande preocupação era com sua atualização
e atenção nas novidades do campo da tipografia
(desenho de tipos, empregos, processo e problemas concernentes
à composição, especialmente à frio).
Nos Estados Unidos participou ainda de diversos workshops, seminários
e encontros de arte. Em 1973, Deslandes fez palestra sobre lay-out
e design no Departamento de Arte da Columbia Union College,
em Maryland. Acabou concluindo um curso com duração
de dois anos na Corcoran School of Art em comunicação
visual.
Na
sua estada nos Estados Unidos houve projetos paralelos de trabalho
ao da Editora Review and Herald. Como free-lance, no primeiro
ano na América, teve oportunidade de produzir uma coleção
de cinco livros ricamente ilustrada para Editora Melhoramentos,
com a finalidade de incentivar e motivar a criatividade no campo
da redação e ilustração nas crianças
do curso primário. O trabalho era em "full color",
altamente moderno e funcional.
Criou e produziu o símbolo que seria usado nacionalmente
durante o bicentenário dos EUA para a organização
dos Pathfinders. Em 1975, foi convidado pela conceituada revista
suíça Graphis para apresentar a seleção
e publicação dos melhores trabalhos produzidos
naquele ano. Lamentavelmente, por várias razões,
não pôde atender a solicitação daquele
anuário. Em julho de 1975 esteve reunido em Viena na
Áustria, no Congresso Mundial da Igreja Adventista do
Sétimo Dia. Para o conclave desenvolveu o back-drop do
salão de reuniões, material de promoção
(folheto full-color), ricamente ilustrado e ainda dois tipos
de relatórios. Além disso, projetou o estande
para a representação norte-americana. Em agosto
de 1975, ele e sua equipe foram os autores do projeto de diagramação
da revista mensal "Ministry", que sofrera reformulação.
E por fim, na 16ª Exposição Nacional (Editorial
e Livro) da Society of Illustrators, o profissional foi um dos
três representantes de seu departamento.
Em
julho de 1976, retornou ao Brasil. O regresso coincidiu com
a expiração da licença de afastamento,
sem vencimentos. Naquele ano voltou a lecionar artes gráficas,
diagramação, técnica de ilustração,
produção gráfica e editorial no curso de
Editoração da ECA. No mesmo período, atendendo
convite do professor Gaudêncio Torquato Rego, então
diretor do Departamento de Jornalismo da Faculdade Cásper
Líbero, passou a ministrar o curso de Jornalismo Gráfico
na instituição. No ano seguinte, também
lecionou artes-gráficas aos alunos de Publicidade e Propaganda
daquela faculdade.
De 1976 a 1979, o professor desenvolveu inúmeros projetos
de design e ilustração. Entre eles se destacam:
planificação gráfica, diagramação,
produção e ilustração das revistas
Rol do Berço, Jardim da Infância, Primárias,
Adventista, Ministério, Mocidade e do jornal Adventista.
Também elaborou cartazes promocionais, e as capas dos
livros: Fundadores da mensagem; Ciência do bom viver;
Mundo em que vivemos; Perguntas que eu faria a Irmã White,
Satisfação, Inspiração Juvenil e
Ensinar. Criou o símbolo para o Museu da Bíblia.
Além de outros diversos trabalhos.
Um
dos seus primeiros chefes na ECC e colega de docência,
o professor Marques de Melo (2003b) salienta que nos primeiros
momentos de vida do Departamento de Jornalismo, Hélcio
Deslandes era admirado por seus colegas e alunos, além
de ser tomado como referência por editores jovens, que
o procuravam para orientar o planejamento estético de
publicações em fase de lançamento. Contudo,
após seu desligamento da instituição e
o fato de não ter deixado uma obra escrita (sua obra
paradigmática está contida nas capas de livros
e revistas que criou e nos projetos de jornais e revistas que
inspirou) contribuiu para seu esquecimento na comunidade departamental.
Sua linha de trabalho teve continuidade através do professor
José Coelho Sobrinho, responsável pelas disciplinas
de artes gráficas, diagramação, planejamento
de veículos impressos.
O
professor José Coelho Sobrinho (2003), atual coordenador
do Departamento de Jornalismo e Editoração da
ECA, foi um dos seus mais destacados discípulos e sua
amizade com o antigo mestre era muito forte. Coelho Sobrinho
narra que a grande contribuição de Deslandes foi
ter passado para seus alunos uma visão de mundo, em que
todos tinham de respeitar a visão do próximo.
Já Marques de Melo (2003b) entende que Deslandes teve
uma papel decisivo na formação estética
da primeira geração de jornalistas diplomados
pela ECC/ECA, trazendo a contribuição das artes
plásticas para a melhoria da qualidade do jornalismo
gráfico. Da mesma forma, ele deu enorme contribuição
à ECC/ECA enquanto instituição, mudando
a fisionomia de suas publicações.
Segundo
Marques de Melo(2003b), se as primeiras publicações
da ECC/ECA reproduziam o estilo conservador hegemônico
na USP, a partir da contratação de Hélcio
Deslandes como docente da área de artes gráficas
elas acertaram o passo com a tendência modernizadora então
ascendente na indústria editorial brasileira, em grande
parte influenciada pelas inovações da Editora
Abril, Jornal do Brasil ou Jornal da Tarde.
Como descreve Coelho (2003), Deslandes era uma figura elegante,
esguia e vegetariana. Tinha um jeito humilde, calmo e tranqüilo
e sempre demonstrava confiar nas pessoas. Na dedução
de Coelho, isso inibia outros de qualquer atitude negativa contra
ele. "Essa transparência mais do que seu trabalho
passou para os alunos uma grande lição de vida".
Sua
formação religiosa conservadora o obrigava a guardar
todas as noites de sextas-feiras e todo o sábado. O ex-professor
da ECA tocava órgão nos cultos adventistas e certa
vez havia confidenciado a Coelho que seu desejo quando jovem
era ser artista de cinema. Se não tornou-se ator pelo
menos tinha algumas importantes características de artista.
Era uma pessoa extremamente criativa, talentosa e inovadora.
De postura extremamente ética, jamais Coelho testemunhou
seu mestre discutir com qualquer aluno ou colega de docência.
Um
fato curiosos é que sua casa além de ter sido
projetada por ele próprio, já que era arquiteto,
também foi construída por suas próprias
mãos. O projeto é muito interessante, funcional
e belo e está localizado na região do bairro de
Itaquera, em São Paulo, onde há uma comunidade
Adventista. A estética é muito própria,
e foi concebida de acordo com o estilo de vida de sua família.
Sua criatividade não era sistematizada. Seu espírito
criativo surgia a cada momento, porque seu ponto de partida
era com o que tinha disponível para trabalhar. Esse modo
de pensar ajudou Coelho (2003) a aprender muito, segundo ele.
Na época em que não havia computador e se trabalhava
com outros materiais disponíveis. Deslandes ia buscar
na natureza recursos como, por exemplo, uma folha seca para
estampar a criação de uma capa. Ele se perguntava
o que posso usar nesse instante para fazer uma capa? O que significa
o tema para fazer a capa do livro? A partir daí desenvolvia
sua criação.
As
capas de livros que produziu inicialmente eram sempre "recortes",
e em branco e preto, porque a ECA não tinha condição
de produzir fotolitos coloridos nem dispunha de muitos recursos.
Quando não tinha alternativa para até mesmo usar
fotolito, criava na própria chapa impressora.
No aspecto da diagramação sua criatividade também
era bem marcante e também informal. Na criação
de jornal, sempre buscava a integração texto,
foto e principalmente com o espaço em branco. Este último
aspecto, sabia usar com maestria. Quando ainda não se
falava em tê-lo como um elemento de diagramação
ele já o utilizava com freqüência. Deslandes
também desconstruía a receita geral da diagramação:
título, texto e foto. Nos trabalhos podia aliar texto,
com capitular, foto sangrada e título abaixo da imagem.
Gostava de autores entre os quais, Rolf Paul Nelson, que trabalhava
muito com o branco artístico e Ian White que não
gostava de ditar regras, mas apenas comentar em seus livros
determinadas peças.
Para
Deslandes, regras ditadas impediam que as pessoas criassem.
Se os profissionais conseguem conviver com normas que não
se podem fugir mas conseguem criar com elas, já é
uma grande atitude, pensava ele. Essa prática fazia com
que o estudante pensasse várias vezes antes de criar
e não se transformasse num mero repetidor de fórmulas
lembra Coelho (2003).
A filosofia era a de que o aluno não vinha assistir a
uma aula, mas chegava para uma espécie de encontro onde
aprenderia e discutiria algum tema. O curso tinha um programa
formal mas que, na prática, não era rígido.
A aula, a cada dia, era pautava por ele próprio e seus
alunos. Não existia um perfil teórico baseado
na semiótica ou estudiosos da percepção
como hoje se procura. Tentava-se trabalhar mais com o método
do caso, explicando os erros ou acertos dos trabalhos ou aconselhando
possíveis alternativas. Procurava exercitar o gosto entre
os alunos. Preferia estimular neles a busca dos seus valores
em seu interior e discuti-los se eram iguais ou não aos
seus (Coelho, 2003).
Naquela
altura, os estudantes já tinham noção da
importância do design gráfico porque o país
vivia numa conjuntura de transformação dos padrões
estéticos da mídia, motivados pela assimilação
das novas tecnologias, especialmente a técnica de impressão
offset. Isso significava abandonar a velha matriz gutemberguiana
(limitada pela impressão direta em placas de chumbo)
e substituí-la por chapas compostas por material "frio",
conjungando artes gráficas e fotografia, além
de incorporar a riqueza das cores. Evidentemente, nem todos
os alunos tinham propensão para esse universo estético,
mais atraídos pelas atividades jornalísticas consubstanciadas
no conteúdo textual das informações. Mas
eles se dispunham a participar das ousadias experimentais capitaneadas
pelo professor Deslandes, no laboratório de artes gráficas,
preparando-se para assumir funções de comando
editorial em pequenas publicações onde se exige
do jornalista não apenas competência redacional,
mas também conhecimentos de artes gráficas (Marques
de Melo, 2003b).
Quando
Hélcio Deslandes fora aos EUA fazer estágio em
editoras, logo ao chegar, seus superiores entenderam que não
deveria fazer um estágio, mas chefiar sua seção.
Foi para aquele país para permanecer por apenas um ano
e ficou seis. Nesse período acabou substituído
na ECC/ECA pelo professor Coelho. Quando voltou ao Brasil não
se interessou pelo regime de trabalho em tempo integral. Foi
convidado para trabalhar em editoras evangélicas e na
editora Nacional para ser capista e preferiu o tempo parcial
na docência da USP (Coelho, 2003).
Nesse
retorno, coincidindo com o período de abertura política
e liberalização sexual, Deslandes depois de anos
de trabalho em editora evangélicas, se sentia indignado
com essa nova mudança social que contrariava os preceitos
de sua religião. Como não foi criado dentro da
perspectiva de que o corpo desnudo de uma mulher poderia ser
uma ferramenta de marketing, estampar cadernos de jornais ou
capas de livro, sempre reclamava e se chocava com a abertura
cultural brasileira. Lamentava que tanto ele quanto suas filhas
não conseguiam adaptar-se mais ao Brasil apesar de terem
ficado alguns anos por aqui. Como recebia muito apelos de editoras
norte-americanas para que voltasse aquele país, a certa
altura entendeu que deveria voltar com sua família para
lá. Atualmente, o professor Hélcio Deslandes mora
em Maryland, nos Estados Unidos.
Marques
de Mello (2003b) considera que a grande contribuição
de Deslandes ao curso de jornalismo foi ter trazido a estética
hegemônica da atividade publicitária:
"Ele contaminou a diagramação e ilustração
dos nossos jornais e revistas com aquelas técnicas que
vinham sendo empregadas pelos produtores de anúncios.
Um estudo retrospectivo dos modelos de jornais e revistas publicados
pioneiramente pela ECA pode reconstruir a estética inovadora
de Hélcio Deslandes. Vale contudo recordar que Deslandes
sempre trabalhou em parceria com o professor Francisco Morel,
um criador excepcional no campo publicitário, que assumiu
a função de gestor do nosso laboratório
de artes gráficas. Tanto assim que a gráfica da
ECA passou a ser chamada de Gráfica Francisco Morel,
logo após o falecimento daquele professor. Se Francisco
Morel optou pela carreira acadêmica, chegando a defender
sua dissertação de mestrado (pouco antes da morte
prematura), Hélcio Deslandes considerava-se um artista
gráfico capaz de se expressar pelas formas e imagens,
mas não pelo texto. Tanto assim que decidiu abandonar
a vida acadêmica, imigrando para os EUA, onde conquistou
espaço em editoras especializadas."
Coelho
Sobrinho (2003) analisando algumas obras tais como o Mini-Anais
do II Seminário de Relações Públicas
lembra que Deslandes nesta peça trabalhou basicamente
com letraset de retículas. Ele as recortava e com alguns
pedaços aplicava e montava a arte-final. Em certas partes
com a fusão das retículas produzia moarê,
que podia ser tanto um erro de impressão como um criativo
recurso estético. Neste trabalho fez com que os círculos
fossem espremidos por algum tipo de peso, criando novos grafismos.
Um aspecto singular é que não havia elementos
que pudessem identificá-lo como seu autor.
Na
capa do livro Jornalismo Audiovisual: Técnica do Documentário,
Hélcio Deslandes com decalque vai criando lentes e faz
deslocamentos de imagem para criar letras. Essa fonte foi criada
exclusivamente para o trabalho, portanto não foi reproduzida
de outras peças ou catálogos de tipos.
Deslandes fez algumas séries que repete o mesmo estilo
como por exemplo, as capas das publicações Fotografia
e Jornalismo , e Comunicação de Atualidades: TV
e Cinema . Usa a mesma capa, só mudando a combinação
de cores para identificar a série. No Boletim do Departamento
de Jornalismo , o professor, superando as limitações
técnicas da gráfica, procurou fazer uma brincadeira
com as fotos criando um ambiente diferenciado.
Na capa da brochura Simpósios em Comunicações
e Artes , ele se volta ao traço e grafismos mais formais,
procurando quebrar a rigidez, criando movimentos, mesmo desenhando
quadrados que dão pouca leitura por colocar o centro
óptico, o centro matemático no mesmo ponto. Mas
mesmo assim conseguia criar soluções diferenciadas.
Na
publicação Espanhol Básico , o mestre novamente
opera com um grafismo geométrico aproveitando espaços
e cortando letras para dar uma composição impactante.
Num outro volume, Folkcomunicação , Deslandes
casa a geometria com letras recortadas e um recurso interessante:
retalhos de retícula. Coelho Sobrinho lembra, que o professor,
às vezes, utilizava catálogos inteiros de tipos
e não hesitava em recortá-los quando achava necessário.
Ele conta que os alunos sempre ficavam imaginando qual seria
a próxima capa de seu professor, que era feita com um
mesmo estilo de grafismo, geometria e retalhos.
Inspirado
na linha de trabalho de Deslandes, o então aluno Coelho
Sobrinho fez uma série de capas com listras diagonais
para a revista Comunicações e Artes. Deslandes
produziu a primeira da série que foi continuada por Coelho
Sobrinho com novas nunces e tons de cores. Deslandes recomendava
antes de tudo, a verificação do que a gráfica
dispunha para depois ser realizado o trabalho. Dentre os alunos
que nele se inspiraram, além de Coelho Sobrinho, se destaca
o jornalista Olney Kruse, que foi ilustrador do Jornal da Tarde
e depois se tornou consagrado artista plástico.
Marques
de Melo (2003b) relata como foi o desligamento do Brasil e da
USP:
"Quando foi contratado na ECC o professor Deslandes integrava
o quadro dos professores colaboradores, reservados para profissionais
de "notório saber" que tinham contribuições
relevantes ao ensino e à pesquisa. Deslandes foi classificado,
pelo seu currículo, na categoria MS-2, que correspondia
ao nível de mestre. Contudo, o quadro de colaboradores
era temporário. O contrato podia ser renovado pelo menos
duas vezes, a não ser que o docente fizesse pós-graduação
e passasse ao quadro permanente. Francisco Morel, companheiro
de Deslandes, que tinha vocação acadêmica,
optou por essa solução. Mas Deslandes não
se sentia confortável nessa situação, julgando-se
mais um profissional que um pesquisador. O curso de pós-graduação
da ECA não lhe oferecia nenhuma oportunidade de crescimento
intelectual, já que se reestrutura, a partir de 1972,
assumindo perfil mais sintonizado com as tendências da
pesquisa nas ciências humanas do que com a natureza pragmática
das disciplinas comunicacionais. Por isso, preferiu desligar-se
da ECA licenciando-se do cargo e aceitando convite para trabalhar
nos EUA como profissional. Ele cogitava fazer Pós-Graduação
em artes gráficas naquele país, mas parece que
desaviou-se dessa rota em face das chances que obteve no mercado
de trabalho. Findo o período de sua licença não
remunerada, ele retornou a ECA, mas aqui permaneceu por um tempo
muito curto, preferindo não pleitear a renovação
do seu contrato (o que, então, já era possível,
em caráter excepcional). Assim sendo, ele não
se aposentou na ECA. Simplesmente desligou-se da instituição
ao final do período do seu contrato como professor colaborador
MS-2."
7. CONCLUSÃO
A
Escola de Comunicações e Artes da USP teve um
papel preponderante no aperfeiçoamento dos profissionais
midiáticos brasileiros. A instituição desenvolveu
um projeto acadêmico que contemplava não apenas
o conhecimento stricto do jornalismo, mas seu sentido lato.
Por tal razão, desde os primórdios, a diagramação
e as artes gráficas figuravam em seu curriculum. Desta
maneira, os egressos quando entraram no mercado de trabalho
souberam entender a simbiose entre a palavra escrita, a imagem
e o espaço em branco. Compreenderam que não se
pode fazer jornalismo impresso sem seu suporte o papel, a escrita
e a principalmente a imagem.
O professor Hélcio Deslandes além de ser o introdutor
da disciplina da ECA, soube se aperfeiçoar profissionalmente
e academicamente, não deixando que seus alunos ficassem
defasados em relação às novidades do setor
gráfico. Deslandes também criou discípulos
que deram continuidade ao seu trabalho. Nos produtos por ele
elaborados demonstrou sua versatilidade, transitando sem preconceitos
entre os mais diversos segmentos da comunicação
visual: o design gráfico, a diagramação
de jornais, livros e revistas, e a criação publicitária.
Além disso, exerceu a arquitetura ampliando a dimensão
de seu trabalho.
Mesmo
encontrando condições adversas próprias
do início de uma escola, ele não esmoreceu frente
à falta de bibliografia especializada, e de instalações
adequadas. Pelo contrário, esta situação
ao que tudo indica lhe serviu como desafio e soube mostrar como
superá-lo.
Sem dúvida, como deduz Marques de Melo (2003b), o jornalismo
gráfico evoluiu imensamente no Brasil, beneficiado pela
revolução tecnológica que possibilitou
aos profissionais da área incorporar elementos estéticos
à produção de jornais, revistas e livros.
Não há dúvidas de que Deslandes significou
um divisor de águas na formação dos jovens
profissionais do jornalismo brasileiro, tendo sido o primeiro
arquiteto e artista plástico a se incorporar ao corpo
docente de um curso de jornalismo. A tradição
brasileira era a de confiar as disciplinas desse segmento didático
e técnicos da diagramação de jornais e
que por falta de sensibilidade estética reproduziam os
modelos tradicionais vigentes na grande imprensa. Hélcio
Deslandes rompeu esse círculo vicioso, conjugando a técnica
e a arte, aproximando a rotina das artes gráficas com
a ousadia das artes plásticas.
A diagramação hoje se consolidou como especialidade
jornalística. E muitos alunos dos cursos de comunicação
acabam descobrindo esta atividade apenas durante decorrer do
curso. Acreditamos que além de ter ajudado a solidificar
a cultura profissional genérica de todos os bacharéis
de comunicação, Deslandes tenha influenciado a
formação de especialistas em traçar belas
páginas de periódicos e publicações,
desenvolver projetos gráficos impactantes e elaborar
peças criativas. No entanto mais do que tudo isso ele
foi um mestre em dar vida e beleza às formas e de formar
cidadãos.
8.
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