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Monografias
Flávio
Galvão: um democrata
defensor da liberdade de imprensa
Por
Lourdes Maria Alvarez Rivera
Introdução
O
presente trabalho pretende relatar o que é possível
sobre a contribuição do jornalista Flávio
de Almeida Galvão, enquanto professor-colaborador da
Escola de Comunicações e Artes da Universidade
de São Paulo, no início de sua criação,
no período compreendido entre os anos de 1968 a 1972.
O jornalista Flávio Galvão, quando convidado para
ministrar aulas no departamento de Jornalismo da ECA, já
atuava no jornal O Estado de S.Paulo há mais de 20 anos,
sendo, portanto, notoriamente, um profissional experiente.
A
pesquisa teve por fontes relatórios de atividades do
Departamento de Jornalismo até o ano de 1970; algumas
edições da Revista da Escola de Comunicações
e Artes; uma apostila de autoria do professor Flávio
Galvão; textos de sua autoria publicados pelo jornal
O Estado de S.Paulo durante o ano de 1968; textos do Estadão
sobre o jornalista após sua morte; entrevistas com o
professor-doutor José Marques de Mello, que foi seu contemporâneo
na ECA e do jornalista Eduardo Martins, do Estadão, que
também trabalhou ao lado de Flávio Galvão,
durante o período pesquisado.
À medida em que íamos nos aprofundando nas pesquisas
e leituras dos textos encontrados de autoria do jornalista Flávio
Galvão, percebíamos que existe material ainda
a ser explorado.
Outros
depoimentos poderiam compor este trabalho, leituras de mais
alguns textos. O trabalho do jornalista é amplo e, muitas
vezes, entendemos serem contraditórios os depoimentos
colhidos confrontadas com informações obtidas
nas entrelinhas dos textos escritos pelo jornalista Flávio
Galvão. Entendemos ainda, que Flávio Galvão
é apenas uma peça do mosaico que compõe
a primeira geração do pensamento uspiano que se
pretende montar. Este trabalho não está completo.
Várias lacunas podem e devem ser preenchidas. É
uma pesquisa que valerá a pena ser retomada, dar continuidade,
como entendemos que deva ser toda pesquisa: dinâmica e
atualizada. Ou então, vira letra morta e empoeirada
nas prateleiras das bibliotecas.
1.
Relato histórico biográfico
Flávio
de Almeida Prado Galvão, nascido na capital paulista
em 16 de janeiro de 1926, não era jornalista formado
por nenhuma academia. Era formado em jornalismo pela prática,
pela experiência. Quando foi convidado a dar aulas na
Escola de Comunicações e Artes em 1968 era jornalista
há mais de 20 anos do jornal O Estado de S. Paulo. Sua
formação acadêmica era a de advogado formado
em 1948 pela Faculdade de Direito da USP. Ele foi advogado do
jornal O Estado de S.Paulo e da Rádio Eldorado durante
a maior parte de sua vida profissional. No Estadão foi
repórter, redator auxiliar, chefe do noticiário
local, subsecretário, secretário interino (substituiu
Cláudio Abramo em várias ocasiões) e, em
1970 era redator político. Ocupou essa posição
no jornal até os anos 80 aproximadamente. Assinava uma
coluna política no jornal.
Flávio Galvão nasceu dia 16 de janeiro de 1926.
Era paulistano de família tradicional. Filho do sr. Geraldo
Galvão e da sra. Albertina de Almeida Prado Galvão.
Foi casado com a sra. Maria Aparecida Campos de Almeida Prado
Galvão. Não teve filhos.
Flávio
Galvão exercia múltiplas atividades além
das de advogado e jornalista e depois, professor de jornalismo.
Se observarmos sua biografia publicada pelo jornal O Estado
de S.Paulo veremos que sempre foi muito dinâmica
sua atuação por onde passou.
Quando
aluno de Direito, por exemplo, no período do Estado
Novo, foi processado, com outros estudantes, pelo Tribunal
de Segurança Nacional e depois, em 1945, beneficiado
com a anistia. Nesse mesmo ano integrou a diretoria
do Centro Acadêmico
XI de Agosto, como membro da Comissão de Sindicância
e, em 1949, foi delegado do centro estudantil do congresso
em
que se fundou a União Estadual dos Estudantes - UEE.
Era
membro titular, por exemplo, do Instituto Histórico
e Geográfico de S.Paulo. Preservação
das culturas locais era uma das suas preocupações.
Encabeçou campanha pró-criação
do Museu Histórico do Embu utilizando sua coluna
no Estadão.
Fora
dos muros da academia, Galvão teve uma atuação
política que, na época, suscitava algum desconforto
entre seus colegas de redação. Provavelmente por
sua origem familiar e, depois, por sua atuação
enquanto pessoa de confiança da direção
do jornal O Estado, visto que exercia a função
de advogado da empresa, Flávio Galvão possuía
trânsito livre nas esferas político-militares.
Era amigo íntimo de várias personalidades que
fizeram a história política de São Paulo
e, mesmo do Brasil e, mais adiante, teceremos comentários
a respeito.
Por
ora, vale registrar alguns fatos que constam da sua biografia
oficial. Exemplo: em 1965 "recebeu prêmio,
na casa do ex-governador Roberto da Costa de Abreu Sodré,
da União Democrática Nacional paulista, pela cobertura
jornalística da convenção do partido que
lançou a candidatura do ex-governador Carlos Lacerda
à Presidência da República" . Aliás,
Galvão deixa clara sua admiração pelo jornalista
Carlos Lacerda, não apenas em seus artigos publicados
pelo estadão, como também em sua apostila "Captação
da Notícia e Acesso às Fontes de Informação",
onde, na página 9 ao referir- se à missão
da imprensa, cita que "a este respeito, merecem menção
palavras de outro grande jornalista brasileiro - quiçá
o maior de nossos dias - Carlos Lacerda." .
Galvão
sempre foi transparente quanto às suas convicções
e idéias políticas. É também num
dos textos publicados pelo jornal O Estado de São Paulo
sobre seu falecimento que vamos encontrar a seguinte referência:
Democrata convicto, levando às vezes suas convicções
ao extremo, nunca deixou de denunciar as manobras do nacionalismo
e do Partido Comunista, especialmente de 1955 a 1964. Suas convicções
o levaram a participar ativamente da conspiração
contra o governo Goulart, tendo se integrado ao grupo civil-militar
que se constituiu em São Paulo.
Essa
estreita relação com as forças político-militares
lhe renderam dezenas de condecorações: o Exército
o condecorou com a Medalha do Pacificador, a aeronáutica
com a Ordem do Mérito Aeronáutico, no grau de
cavaleiro; a Polícia Militar paulista também ofereceu
a Medalha do Sesquicentenário daquela instituição.
No
entanto, esse lado biográfico do jornalista Flávio
Galvão, aparentemente, em nada influenciou sua atuação
enquanto professor da ECA.
2.
O professor
Flávio
Galvão integrou a primeira equipe de professores
da então
chamada Escola de Comunicações Culturais, denominação
original da Escola de Comunicações e Artes atualmente.
Segundo relato do professor Marques de Melo colhido por meio
de entrevista via e-mail a seleção dessa primeira
equipe de professores foi feita "mediante concurso público
de títulos, realizado em 1966.
A
seleção
preliminar dos currículos foi feita pelo primeiro
Diretor da escola, prof. Dr. Júlio Garcia Morejón,
e a decisão final foi tomada pelo CTA - Conselho
Técnico
Administrativo - então integrado por Catedráticos
da USP, dentre eles Alfredo Buzaid, Moacir do Amaral Santos,
Eurípedes Simões de Paula, além do próprio
Moréjon", conta o professor. Segundo ele, apenas
dois candidatos foram selecionados: ele e o jornalista Flávio
Galvão. Ele possuía formação
acadêmica
em Jornalismo, era pós-graduado em Ciências da
Informação Coletiva pelo CIESPAL. Flávio
Galvão, tudo indica, fora aceito pela extensa experiência
prática já que até aquela data exercera
praticamente todas as funções dentro de uma
redação.
São nos Relatórios de Atividades do Departamento
de Jornalismo da ECA, nos Boletins do mesmo Departamento e nas
Revistas da Escola de Comunicações e Artes daquele
período que vamos encontrar os seguintes registros da
passagem de Flávio Galvão pelo curso de Jornalismo.
2.1
- 1968 - O Departamento de Jornalismo da então Escola
de Comunicações Culturais foi criado em 5 de fevereiro
de 1968, tendo iniciado suas atividades em março com
as aulas da cadeira Técnica e Prática de Jornal
periódico. O departamento teve como diretor designado
o professor José Marques de melo e Flávio Galvão
integrou o corpo docente como professor colaborador (por não
ser formado em Jornalismo) ao lado de Freitas Nobre, Alfredo
Weisflog, Hélcio Deslandes e Francisco Morel.
A
cadeira Técnica e Prática de Jornal e Periódico
integrou o currículo do segundo ano do Curso de Jornalismo
e Marques de melo a dividia com Flávio Galvão.
Nesse ano, foi a única ministrada - uma vez que as demais
- Técnica e Prática de Rádio e telejornalismo,
Jornalismo especializado, Jornalismo Comparado e Administração
de Empresas Jornalísticas só foram ministradas
no ano seguinte, de acordo com o relatório que diz textualmente:
"Considerando que os ensinamentos de TPJ envolvem aspectos
os mais diversos, e procurando dar um caráter dinâmico
e flexível à sua apresentação aos
alunos, no sentido de evitar uma orientação de
curso tradicionalista, monolítico, o Departamento resolver
programar uma série de cursos monográficos",
em que o jornalista Flávio Galvão contribui com
a disciplina Jornalismo Informativo, ao lado de Marques de Melo.
Da
mesma forma, "atendendo a decisão da Comissão
de Ensino, e no sentido de estabelecer coordenação
com os outros órgãos desta Escola, o Depto. ministrou
cursos monográficos aos alunos de outros departamentos"
e coube ao Flávio Galvão o curso "Jornalismo
e Técnica de Redação" para o Depto.
De Relações Públicas, e "Jornalismo
no Período Entre Guerras" para o Depto. de Estudos
Históricos e Filosóficos em conjunto com o professor
Freitas Nobre.
Nesse mesmo ano o Depto publicou o seu Boletim, em março,
trazendo em junho, no número 2, um texto de autoria
do professor Flávio Galvão intitulado "Captação
da Notícia e acesso às fontes de Informação"-
que se transformaria em apostila, editada pelo Departamento
de Apostilas , única referência escrita avulsa
de produção de texto do jornalista, disponível
na Biblioteca da ECA/USP.
Em
seu número 3, do mês de setembro, o Boletim
do Depto de Jornalismo informa a publicação
do texto "Como as notícias chegam aos jornais",
também de autoria do professor Galvão.
2.2
- 1969 - Nesse ano, conta o Relatório de Atividades,
o Depto de Jornalismo realizou alguns trabalhos de campo e de
laboratório, como complemento das atividades curriculares
nas disciplinas de Técnica de Jornal e Periódico
II e de História da Imprensa.
Sob
a orientação do professor Flávio Galvão
foi realizada a pesquisa de campo denominada "Funções
de Direção e Secretaria na Grande Imprensa Paulistana",
pelos alunos do terceiro ano e, "Opinião do Jornalismo
Brasileiro - análise de conteúdo", enfocando
preferencialmente o Jornalismo Opinativo; outro estudo realizado
nos jornais diários das principais capitais brasileiras,
também, pelos alunos do terceiro ano, também sob
orientação de Galvão.
A
produção de artigos e trabalhos de cunho científico
por parte dos professores que integravam o Depto. Também
está relatada nos Relatórios. Sobre Flávio
Galvão vamos encontrar menção aos artigos
publicados no jornal O Estado de S. Paulo e dois deles publicados
na Revista Comunicações e Problemas n º 11
e Revista da Escola de Comunicações Culturais
n.º 2, as quais, infelizmente, não tivemos acesso.
São
eles: "O Jornalismo antes da tipografia "- Suplemento
Literário de O Estado de S.Paulo de 1º
de fevereiro de 1969; "Fandango tem diversos nomes"-
O Estado de São Paulo - 2 de fevereiro de 1969; "A
imprensa informativa"- Suplemento Literário de
O Estado de S.Paulo de 22 de março de 1969; "Da
contingência do Jornalismo" - Suplemento Literário
de O Estado de S.Paulo, de 10 de maio de 1969; "Abram
alas para os guardas da rainha"- Suplemento de O
Estado de S.Paulo de 27 de junho de 1969; "Justiça
comum para processo de jornalista"- O Estado de
S.Paulo, de 16 de novembro de 1969; "Idéias
de um paladino da imprensa nacional" (sobre Júlio
de Mesquita Filho) - Revista Comunicações
e Problemas n.º
11; "Segredo Profissional de Jornalista"- Revista
da escola de Comunicações Culturais - n.º
2.
2.3
- 1970 - Nesse ano Flávio Galvão, segundo
o respectivo Relatório do Depto. De Jornalismo,
participou como debatedor do painel "O Jornalismo
Sensacionalista e a incidência
na criminalidade", durante o Seminário "O
Jornalismo Sensacionalista" promovido pelo Depto de Jornalismo
do a coordenação do professor José Marques
de Melo.
Nesse
painel contou com a participação,
também
como debatedores, dos jornalistas Freitas Nobre e do acadêmico
João Batista Natali - os expositores foram Darcy de
Arruda Miranda da Universidade Mackenzie e Zuleika Sucupira,
curadora
de menores.
No
segundo semestre de 1970 o Depto promoveu o Curso de Jornalismo
Especializado, destinado a profissionais liberais (médicos,
engenheiros, advogados, agrônomos, economistas etc)
patrocinado pela Divisão de Difusão Cultural
da Reitoria da USP. Flávio Galvão falou sobre
Técnica
da Opinião no Jornalismo e Técnica de Copy-Desk.
Integrou
a Comissão encarregada de elaborar o currículo
do Curso de Editoração da ECC juntamente com
os professores José Marques de Melo e Hélcio
Deslandes.
Nesse
ano Galvão ministrava a disciplina
Jornalismo Opinativo e Funções de Direção
e Secretaria.
No
que diz respeito à produção
de artigos coube a Flávio Galvão a inserção
dos artigos "Segredo Jornalístico" e "Da
contingência no Jornalismo", na publicação
"Quando a Imprensa é Notícia", da Editora
Temário, do Rio de Janeiro, além de vários
artigos assinados e publicados pelo jornal O Estado de
S.Paulo.
Ainda
em 1970 Flávio Galvão passa
a compor a Comissão
de Redação da Revista da Escola de Comunicações
e Artes, assumindo o cargo de editor da revista.
3.
Flávio, editor da RCA
Flávio
Galvão foi o primeiro editor da Revista da Escola de
Comunicações Artes da USP. Em seu primeiro número,
cuja data informa apenas o ano - 1970 - Flávio Galvão
relata o por quê da nova publicação e que
ela vinha substituir uma tentativa anterior - a Revista da Escola
de Comunicações Culturais - que viveu apenas por
duas edições, uma em 1967 e outra em 1968. Ele
justifica a alteração do nome da Revista em função
da mudança do próprio nome da Escola, elogia a
direção e deixa entrever que 1970 fora um ano
de muitas novidades para a ECA que, por exemplo, ganhara sede
própria (ele publica uma foto do novo prédio).
Escreve assim:
(...)
1970 foi ano de profundas transformações na ECA
que, entre coisas, ganhou sede própria na Cidade Universitária
Armando de Salles Oliveira, o que a colocou entre as melhores
instaladas de todo o País, se é que não
a melhor. Além disso, sob dinâmica, eficiente e
enérgica direção, consolidou-se a mais
nova escola da Universidade de São Paulo, em especial
do ponto-de-vista material, com a aquisição do
equipamento básico indispensável para todos os
seus cursos.
O
texto revela ainda que a publicação ganhara novo
formato e que a partir daquela data passava a Ter periodicidade
quadrimestral, ao invés de anual como sua antecessora.
Além disso, passava a ser impressa mediante convênio,
pela Editora Revista dos Tribunais que se encarregaria igualmente
da distribuição e circulação por
todo o território nacional. Porém, em nenhum local
encontramos referências à tiragem da Revista. Neste
texto introdutório Flávio Galvão também
informa que a Revista estaria aberta, a partir daquela data,
a contribuições não só dos professores
e alunos da ECA, mas de "professores, pesquisadores e profissionais
vinculados a quaisquer outras entidades, nacionais e estrangeiros".
No
primeiro número desta nova fase da Revista da ECA o expediente
estava assim composto: reitor e vice-reitor da USP, respectivamente
Professores Doutores Miguel Reale e Orlando Marques de Paiva;
diretor e vice da ECA, respectivamente os Professores Doutores
Antonio Guimarães Ferri e Erwin Theodor Rosenthal e,
Flávio Galvão como editor. Comissão de
redação: Fávio galvão, Francisco
Gaudêncio Torquato do Rego e Antonio Costella; Comissão
de Assessoramento Técnico: Rolando Morel, Helcio Deslandes
e Neusa Dias de Macedo, Conselho Editorial: Freitas Nobre, Ianchelli
Ghinzberg, Rudá de Andrade, Modesto Farina, Nelly de
Camargo, Walter Zanini, Neyde Pedroso Póvoa, Alavro Moya,
José da Veiga Oliveira.
Entre
os colaboradores desta histórica edição
que escreveram artigos, registramos a presença dos seguintes
professores contratados pela ECA: José de Jesus Seixas
Patriani, Nelly de Camargo, Cândido Teobaldo de Souza
Andrade, José Marques de Melo, Francesca Cavalli, além
do próprio Galvão que assina duas resenhas ao
final da edição. Outros colaboradores externos:
Manuel Calvo Bernardo, professor da Universidade de Madrid e
subdiretor do jornal espanhol "YA" e Roberto Emerson
Câmara Benjamin, professor da Universidade Católica
de Pernambuco.
O número 2 da RECA apresenta um artigo do jornalista
"O segredo profissional do Jornalista", sobre o qual
comentaremos adiante no capítulo dedicado às nossas
considerações sobre o conteúdo dos textos
de sua autoria a que tivemos acesso.
A
edição número 3 trazia o artigo de sua
autoria "Assalto à Imprensa no Estado Novo (2)"
e apenas na edição nº 4 o expediente traria
o nome do professor Helcio Deslandes como responsável
pela capa e diagramação, embora ele fosse o responsável
desde a primeira edição. Também sofrera
alteração a composição do Conselho
Editorial da Revista com a saída dos professores Freitas
Nobre, Neyde Pedroso Póvoa e José da Veiga Oliveira.
Entraram Willy Correa de Oliveira, Gileno Fernandes Marcelino,
José Augusto de Mattos Berlinck e Jara Correia. Foram
colaboradores naquela edição com artigos: Antonio
Fernando Costella, José Marques de Melo, Juarez bahia,
Maria Duschesnes, Mauel Calvo Hernando, Neusa Dias Macedo e
o próprio Galvão com suas resenhas. Interessante
observar nesta edição a participação
de personagens ilustres do jornalismo e da história política
de São Paulo, tais como o jornalista Alberto Dines e
de Dom Paulo Evaristo Arns.
Ambos,
rechearam a aquela edição da RECA com os trabalhos
apresentados durante o Seminário Jornalismo Sensacionalista,
ao lado de Ramão Gomes Portão que falou sobre
os bastidores do jornal "Notícias Populares",
Darcy Arruda Miranda (Sensacionalismo e Criminalidade), Zuleica
Sucupira Kenworthy (Sensacionalismo e Delinquëncia Juvenil),
Virginia Bicudo (Educação e Sensacionalismo),
Cícero Christiano de Souza (Aspectos Sócio-Psicológicos
do Jornalismo sensacionalista) e Benedito Ferri de Barros (Moral
e Sensacionalismo). Alberto dines discorreu sobre Sensacionalismo
na Imprensa e D. Paulo sobre Ética e Sensacionalismo.
É
nesta edição que Flávio Galvão apresenta
o Manual do jornal O Estado de S.Paulo, na seção
Documentação, em que num texto bastante didático
relata um histórico sobre os manuais e/ou tentativas
de no Brasil e no exterior. Adiante também teceremos
comentários acerca do artigo.
A edição de número 5 da "Comunicações
e Artes" traz um artigo de Flávio Galvão
intitulado "Sesquicentenário da liberdade de imprensa",
na verdade um estudo anteriormente publicado em 29 de agosto
de 1971 pelo jornal O Estado de S.Paulo e lido em 31 do mesmo
mês em sessão do Senado Federal pelo senador Nélson
Carneiro, líder do PMDB. O artigo mereceu comentários
do poeta Carlos Drumond de Andrade, em crônica publicada
pelo Jornal do Brasil do dia 2 de setembro do mesmo ano, posteriormente
transcrita pelo jornal O Pasquim nº 115 de 14 a 20 de setembro,
sob o título "Palmas, que ele merece". Igualmente
faremos comentários no capítulo pertinente.
A
edição de número 6 da RECA traz na seção
Documentação um estudo de Flávio Galvão
intitulado "Conceito de Pornografia e Obscenidade"
em que ele comenta a censura sofrida pela Revista "Realidade",
edição nº 10 que trouxera uma ampla reportagem
sobre a sexualidade da mulher brasileira e fora considerada
pornográfica por esse motivo. Galvão apresenta
as íntegras dos recursos impetrados pela Editora Abril
ao Supremo Tribunal Federal e toda a documentação
jurídica pertinente ao assunto. Na sequência, Galvão
publica outro documento importantíssimo acerca da questão
da censura na impresna. Desta vez, trata-se do estudo "Censura
prévia: Decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos".
Vale a pena a leitura porque o texto, embora longo, traz uma
decisão da justiça do país mais democrático
do mundo a favor da liberdade de imprensa, um verdadeiro paradoxo
se imaginarmos como seria possível, num país que
defende a liberdade de expressão a qualquer preço,
ter havido uma demanda jurídica contra os maiores jornais
americanos, o New York Times e Washington Post por terem publicado
documentos relativos à guerra do Vietnã, considerados
pelo Governo, secretos. Adiante, teceremos os comentários
também acerca deste estudo de Flávio Galvão.
Infelizmente
termina aí, na edição de número
6 da Revista Comunicações e Artes, o material
encontrado de autoria do professor Galvão. Vamos encontrar
mais alguma referência sobre a atuação de
Galvão como professor da ECA, no Boletim nº 2 do
Departamento de Jornalismo da então, Escola de Comunicações
Culturais que, em 1968 informa que ele havia acumulado o cargo
de professor das disciplinas de Jornalismo Informativo e Fotojornalismo.
É
neste mesmo número que o professor Galvão publica
uma resenha sobre o livro "Fotografia Y Periodismo",
de autoria de Roberto D. De Piante, chefe de informação
gráfica do jornal The Miami Herald. Ao que tudo indica,
Galvão, substituíra o professor contratado para
ministrar tal disciplina, Alfredo Weisflog - que não
assumiu suas funções por motivos particulares
- , embora no relatório de Atividades do Depto, não
conste essa informação. Porém, como no
Boletim, ela aparece, deduzimos (embora um pesquisador não
deva apenas supor) que foi o que aconteceu.
O relatório de atividades do ano de 1970 informa ainda
que Flávio Galvão integrou a Comissão encarregada
de Elaborar o Currículo do Curso de Editoração
da ECA, juntamente com os professores José Marques de
Melo e Helcio Deslandes.
O
Relatório aponta também que Flávio teve
os artigos "Segredo Jornalístico" e "Da
contingência no Jornalismo", publicados na revista
Quando a Imprensa é Notícia, da Editora Temário,
Rio de Janeiro.
4.
Normas acadêmicas
4.1
- 1971 - Nesse ano Flávio Galvão lecionou "Ética
e Legislação da Imprensa" dentro do Ciclo
Diversificado de Jornalismo.
Como extensão Cultural o DJE promoveu uma série
de cursos entre eles Jornalismo e Comunicação,
destinado a jornalistas profissionais e estudantes de jornalismo,
em convênio como Sindicato dos Jornalistas Profissionais
do Estado de São Paulo, em agosto. Flavio Galvão,
ao lado do professor Antonio F. Costela, ministrou o curso Direito,
Comunicação e Jornalismo dentro da programação.
Em
junho de 1971 Flávio Galvão participou da Semana
de Estudos "Imprensa e Desenvolvimento" (III Semana
de Estudo de Jornalismo), da qual participaram 200 pessoas,
coordenada e presidida pelo professor Marques de melo. Galvão
foi debatedor no painel "Função do Estado
no Desenvolvimento da Imprensa", ao lado de Edson Franco
e Antonio F. Costella, tendo como expositor Freitas Nobre, já
deputado federal por São Paulo, na ocasião.
Neste ano, no quesito produção de artigos Flávio
galvão contribuiu, segundo o Relatório de Atividades
do ano mencionado, com a publicação de trabalhos
doutrinários diversos, entre os quais "Sesquicentenário
da liberdade de imprensa", "Monteiro Lobato, secretário
de redação", no jornal "O Estado de
S. Paulo.
Galvão
participou nesse mesmo ano do I Congresso Nacional de Comunicação,
promovido pela ABI - Associação Brasileira de
Imprensa, no Rio de Janeiro, que teve os trabalhos da Comissão
II - Integração dos Meios de Comunicação,
coordenados e presididos pelo professor Marques Melo.
O Relatório menciona ainda sem maiores detalhes, que
Flávio Galvão teria participado da organização
do Museu de Imprensa Julio de Mesquita Filho, iniciativa organizada
pelo professor Marques de melo e que contou com a participação
de outros professores além de Galvão, entre eles
Helda Bulotta Barraco, Alice Mitika Koshyama e Sonia Maria bibe
Luyten.
4.2
- 1972 - Os registros que conseguimos sobre o ano de 1972, apontam
como sendo o último em que Flávio Galvão
tenbha atuado como professor da ECA. É mencionado no
Relatório de atividades que ele lecionara duas disciplinas:
"Funções de Direção e Secretaria
no Jornalismo" e "Legislação do Jornalismo
II".
No
que diz respeito à produção de pesquisas
o Relatório informa que Galvão teria concluído
sua pesquisa sobre "Legislação referente
ao exercício profissional do jornalismo no Brasil",
"Legislação de Imprensa no Brasil de 1930
a 1939" e "Cronologia da Imprensa Paulistana",
porém, não fica explicitado se tais pesquisas
foram publicadas e onde estariam disponíveis para leitura,
o que é uma pena, pois não encontramos tais textos
na biblioteca da ECA. Não há outra informação
sobre a conclusão ou não de sua dissertação
iniciada em 1970 nem se as pesquisas citadas como concluídas
seriam a dissertação de mestrado. Exigência
feita a todos os professores da ECA que não possuíam
titulação, segundo as novas normas acadêmicas,
ou a Reforma iniciada em 1969.
Em
relação à sua produção de
artigos, o Relatório informa que Galvão teria
publicado na atividade de jornalista profissional, entre outros,
"O primeiro processo de júri na Imprensa sob D.
Pedro I", "Uma sentença a favor de O Estado
de S.Paulo"; série de cinco artigos sobre a fundação
da Ação Integralista: "Há 40 anos
criava-se em São Paulo a Ação Integralista",
"Precursores da AIB", "SEP foi antecâmara
da Ação Integralista", "Composição
dos Quadros dirigentes da AIB", e "A aclamação
na noite de sete de setembro", todos publicados no "Estadão".
Não
fica claro, por falta de dados que não foram ainda por
nós pesquisados, confirmar os motivos que levaram o jornalista
a sair da ECA. Tudo indica, porém, e o depoimento do
professor Marques de melo de certa forma confirma, que após
a Reforma de 1969 os docentes sem formação acadêmica
em Jornalismo foram convidados a elaborar a defesa de suas dissertações
para obtenção de titulação de mestres
ou doutores, exigência sem a qual não poderiam
continuar a exercer a profissão como jornalistas. Consta
do relatório do depto que o jornalista Flávio
Galvão estaria desenvolvendo um trabalho sobre Legislação
de Imprensa, tendo como professora-orientadora a professora
Ester de Figueiredo Ferraz, livre docente da faculdade de Direito
da USP a partir de 1969 e essa informação vai
aparecer ainda uma vez no relatório de 1971. Porém,
segundo o professor José Marques de Melo, em se depoimento
por e-mail, da equipe inicial, ...alguns decidiram ingressar
na carreira acadêmica, defendendo teses de doutorado (como
foram os casos de Freitas Nobre, Gaudêncio Torquato, Thomas
Farkas e o meu). Mas Galvão preferiu não submeter-se
a esse ritual, da mesma forma que o fizeram Alfredo Mesquita,
Rudá de Andrade, Maria Luiza Monteiro da Cunha, Helcio
deslandes. Ao término de seu contrato como professor-colaborador
ele preferiu encerrar sua atuação na Escola, relata
o professor-doutor.
5. Flávio Galvão, o articulador
Ser
professor da ECA foi apenas uma das atividades profissionais
do jornalista Flávio Galvão. Interessante notar
que nas notícias sobre o seu falecimento publicadas pelo
jornal O Estado de S.Paulo, nunca foi citado que ele dera aula
de jornalismo na ECA. Mais estranho ainda porque, segundo o
professor Marques de Melo, em sua entrevista por e-mail, Galvão,
antigo jornalista do Estadão, advogado da empresa e homem
de confiança da direção do jornal, teria
sido convidado pela direção da ECA para neutralizar
a postura negativa que o estadão teria tomado diante
da criação da ECA, criticando a decisão
da Reitoria da USP. Ë uma informação que
precisaria ser checada, com certeza.
O
fato é que nos obituários de Galvão, cita-se
sua atuação como professor da Universidade Mackenzie
em 1982, mas não na ECA/USP. Marques de Melo informa
ainda que ele teria ministrado aulas na Faculdade de Direito
da USP e abandonado também pela obrigatoriedade de fazer
o mestrado. Porém, tal informação não
consta igualmente de seus obtuários publicados pelo jornal
em que atuou por quase 30 anos. Que fora professor da ECA é
informação apenas de uma notícia dada pelo
mesmo Estadão por ocasião de uma homenagem que
recebera da Aeronáutica, a medalha da Ordem do Mérito
Aeronáutico.
Como
não entrevistamos ex-alunos de Flávio Galvão,
nossa maior fonte de informações sobre como era
sua performance em sala de aula ou como colega de profissão,
vem ainda do professor Marques de melo que conviveu com ele
durante todo o período em que esteve na ECA.
Segundo o primeiro Diretor do Depto. De Jornalismo da ECA, Galvão
"tinha uma personalidade singular." Fisicamente era
"alto, gordo, falante, tinha uma identidade profissional
situada na fronteira entre a advocacia e o jornalismo",
conta Melo.
Seus
temos preferidos eram os processos que respaldava como advogado
do Estadão e as reportagens e entrevistas que publicava
nas páginas daquele matutino."Segundo Marques de
melo "ele gostava de contar aos colegas e aos alunos seus
contatos com essas figuras da cena política da época.
Como docente, sua característica principal era a leitura
dos textos que escrevia previamente. Isso não impedia,
contudo, que fizesse paradas na leitura, revelando aos alunos
detalhes off the record.... , relata.
Em 1968 o panorama político era um pouco diferente do
de 1964. Será que Galvão revelaria aos seus alunos
da USP que participara ativamente do golpe militar ao qual chamava
de Revolução e cujos princípios defendia
com convicção?
Quem
conta essa parte da história de Galvão, a do Galvão
jornalista, dentro da redação do Estadão
e a do Galvão homem de confiança da diretoria
do Estadão é o jornalista Eduardo Martins, hoje
responsável pelo Arquivo do Estadão, autor do
Manual de Estilo e Redação do mesmo.
Martins não soube precisar como ou quando teve início
o relacionamento de Galvão com os militares. Mas relata
que não era segredo para ninguém - e se era deixou
de ser quando no seu obtuário fora publicado com todas
as letras - que o Estadão apoiara o golpe de 1964, que
o estadão conspirara junto com os militares e que Flávio
Galvão teria sido uma espécie de intermediário
entre a direção do jornal e a chamada jovem oficialidade
que existia em São Paulo liderada pelo então Coronel
Rubens Restel.
Apesar
dessa declarada posição em defesa da chamada "democracia"
e contra o comunismo, de Flávio Galvão, Eduardo
Martins conta que na redação ele nunca atuou como
delator: "apesar do clima de confronto entre as pessoas
que se diziam de direita, entre ela o Galvão, e as que
se declaravam de esquerda", garante.
Marques de Melo reforça essa imagem quando afirma em
sua entrevista que o traço mais marcante da personalidade
de Galvão teria sido a da fidelidade aos amigos: Não
hesitava em defendê-los publicamente (...)e apesar de
politicamente identificado com a ideologia da segurança
nacional, mostrou-se solidário com os colegas e alunos
perseguidos pelo governo militar.
6.
Flávio, o jornalista
6.1
- Captação da notícia
Uma
das características que pudemos observar que compõem
o perfil do professor Flavio Galvão é a de ser
um defensor do jornalismo interpretativo. Em sua apostila "Captação
da Notícia e acesso às fontes de informação"
Galvão expõe que o jornal diário deveria
tomar para si essa função para poder sair-se bem
na disputa pelos mercados com o rádio e com a TV. Assim
ele se expressa:
Se o jornal diário se limitar à notícia,
pura e seca, não poderá concorrer com o rádio,
muito menos com a televisão. Daí a necessidade
do aprofundamento da notícia, da sua interpretação,
o que nem o rádio, nem a televisão fazem, nem
poderiam fazer me face das limitações de tempo.
Assim, na sua luta competitiva com outros meios de comunicação
coletiva, os periódicos não mais ficam no campo
exclusivo do jornalismo informativo e entram cada vez mais no
do jornalismo interpretativo.
O
que diria nosso pesquisado se tivesse acesso aos jornais diários
atuais que se limitam a fazer o que rádio e tv fazem,
igualando, quando não, sua linguagem à da própria
Internet? Uma linguagem empobrecida, textos curtos que muitas
vezes sequer respondem às perguntas básicas de
um lead.
E se hoje me dia, os jornais diários não mais
interpretam as notícias alegando falta de tempo para
isso, porque as revistas semanais se comportam da mesma forma?
Mas isso é matéria para outra pesquisa...
É
no texto desta apostila que vamos encontrar um professor que
é um jornalista experiente, defendendo a necessidade
da formação acadêmica não apenas
para o repórter de texto, mas principalmente para o repórter
fotográfico. Galvão observa que no Brasil apesar
de haver boas revistas ilustradas, carecíamos de bons
repórteres fotográficos. Discorre sobre a sensibilidade
que deve ter o verdadeiro repórter-fotográfico.
Reclama do baixo nível cultural dos que atuavam como
fotógrafos de jornal ou revistas - que sequer bons fotógrafos
profissionais seriam - "via de regra, o mesmo fotógrafo
de jornal ou revista é homem de instrução
elementar, que não foi além do curso primário",
afirma, e aponta outra série de deficiências que
a seu ver poderiam ser minimizadas, senão resolvidas,
com a formação profissional em nível superior
desse cidadão.
O
repórter-fotográfico é o jornalista que
trabalha com a câmara, que colhe a notícia pela
imagem, que é devidamente preparado e treinado em escolas
de formação profissional, de nível superior.
Entre nós é a exceção. Mas isso
não ocorre nos países onde o jornalismo se encontra
em estágio muito mais desenvolvido e adiantado.
E mais: Galvão explica que não se trata de preconceito,
mas apenas o registro de uma situação que observa
há vinte anos como profissional. Portanto, ele devia
saber o que estava dizendo:
...e as evidências dessa deficiente formação
cultural e profissional dos fotógrafos podem ser vistas,
diariamente, nas páginas de nossos periódicos.
E a esperança:
...somente poderemos esperar repórteres-fotográficos,
isto é, jornalistas que trabalham com a câmara
fotográfica em vez da máquina de escrever, das
escolas de jornalismo que hoje começam, por todo o País,
a preparar pessoal, técnica, profissional e culturalmente,
para a imprensa.
Como se vê, parece que Flavio Galvão era um defensor
das escolas de jornalismo, embora não tivesse ele mesmo
formação acadêmica nessa área e fosse
funcionário de confiança de uma empresa jornalística
que, segundo nossas fintes, teria tomado posição
contrária à criação da ECA dentro
da USP.
Interessante
pesquisa se apresenta a ser realizada - um raio-x, um levantamento,
um diagnóstico - sobre os repórteres fotográficos
no Brasil, onde a maioria dos jornais diários costuma
contemplar suas primeiras páginas com fotos pasteurizadas
oriundas de agências noticiosas internacionais, parece
que aos jornalistas fotógrafos restam poucas editorias
a que se dedicar, além disso, com certeza esbarram na
questão dos custos, enfim, valeria a pena aprofundar
a questão. Quem são, onde estão, quantos
são qual a formação de nossos repórteres-fotográficos?
O mesmo valeria para os cinegrafistas de televisão que
poucos méritos recebem pelas reportagens apresentadas,
o que não deixa de ser curioso, senão um paradoxo,
já que televisão é 90% imagem.
Ainda
nessa mesma Apostila Galvão aborda a questão da
notícia falsa, aquele tipo de notícia que, apesar
de todo o cuidado e precaução com a sua captação,
são inexatas e acabam sendo publicadas.
E aí, ele percorre com maestria sua seara preferida,
a da ética, a dos aspectos jurídico-legais, a
da técnica e a da prática do jornal. Discorre
sobre o projeto do Código de Ética jornalístico
de João Camilo de Oliveira Torres, citando vários
artigos, inclui parte do discurso proferido pelo diretor e redator-chefe
do jornal La Prensa, de Buenos Aires, adotado por ocasião
do 1º Congresso Pan-Americano de Jornalistas realizado
como uma espécie de Códifgo de ética, cita
Ruy Barbosa, Carlos Lacerda, Walter Lippmann, Danton Jobim,
Luiz Amaral e Ciro Vieira da Cunha.
Galvão dá sua opinião: "Se a principal
razão da existência do jornal é a divulgação
de notícias, isto deve ser entendido como divulgação
de notícias verdadeiras".
Ele
também apresenta os recursos para se livrar de notícias
falsa: "Chamar a fonte imediata delas para perguntar onde
as obtiveram, de quem e como. Depois, proceder a sondagens junto
a outros jornais, para saber se também a eles chegaram
tais informações. Quase sempre - registre-se -
a sondagem é positiva", afirma no texto.
Sobre essa questão da notícia falsa, Galvão
deixa clara a responsabilidade do jornalista, e que ele será
sempre o que sofrerá as consequências pela publicação
de uma notícia falsa e o que deve fazer para se prevenir.
O repórter encarregado da captação da notícia
deve outrossim ter sempre em vista o ditado popular que diz
que a corda arrebenta sempre do lado mais fraco, é ele
quem responderá, de diversas formas, pelo que resultar
da publicação de uma notícia falsa, de
um boato. Há pois ele de tomar todo o cuidado, agir com
toda a cautela, na captação noticiosa, identificando,
avaliando, selecionando as notícias com critério,
de acordo com a melhor técnica jornalística, dentro
dos preceitos éticos.
6.2
- Direito ao silêncio
Em
"O segredo profissional do jornalista", publicado
pela Revista Comunicações Culturais, nº 2,
o jornalista Flávio Galvão faz um ensaio sobre
a Lei de Imprensa - ou Lei da Informação - promulgada
pelo governo Castelo Branco (Lei 5.250 de 9/02/1967) que sofrera
severas críticas e ataques, mas mereceu, por parte dele,
ampla defesa, notadamente no que se refere ao art. 71, como
podemos observar lendo o artigo em questão. Galvão
chama a atenção para o fato de a nova lei não
ser perfeita e já ter merecido suas críticas pessoais
em artigos publicados pelo próprio estadão. Pondera,
entretanto, a necessidade de haver, sim, legislação
que regule a conduta da imprensa sem que isso necessariamente
signifique um cerceamento da liberdade.
O
professor e jornalista defende a indissolubilidade da liberdade
e da responsabilidade e entende que os ataques à legislação
do governo ditatorial, nada mais representa do que preconceito
de ordem política contra qualquer tipo de lei de imprensa,
notadamente, dos setores que representavam a oposição
ao governo instalado. Escreve Galvão:
Há um arraigado preconceito contra toda e qualquer lei
de imprensa, em especial em certas áreas representativas,
entre nós, do liberalismo político, nas quais
não se atenta, devidamente, para que a responsabilidade
é indissociável da liberdade. A obcecante preocupação
com a garantia da liberdade de imprensa, espezinhada em passado
não remoto, no País, determina nessas áreas
liberais um como que obscurecimento desse outro aspecto do problema,
que é o da responsabilidade. Liberdade sem responsabilidade
faz da imprensa instrumento de crime.
A
partir daí, o jornalista-advogado, brinda o leitor com
uma didática explanação sobre o histórico
das leis de imprensa anteriores àquela em questão,
começando pelo período republicano e sua primeira
lei de imprensa, a de nº 4.743, de 31 de outubro de 1923.
Na verdade, a indignação de Galvão é
até justificada porque, afinal, a tal da oposição
liberal pedia a revogação da lei 5250, sob a alegação
de Ter sido promulgada por um governo de ditadura, para que
a anterior - lei 2.083 - voltasse a vigorar, sem levar em conta
o que ela trazia de positivo para o exercício da profissão.
Ora, a lei. 2083, defendida pela ala esquerda, havia sido promulgada
pelo governo Getúlio Vargas, em seu período de
ditadura. Getúlio Vargas foi um presidente de "regime
ditatorial e fascista (...) eufemísticamente denominado
'Estado Novo' e no qual se suprimiu a liberdade de imprensa
e se estabeleceu a mais férrea das censuras" , relata
Flávio Galvão.
Vale
aqui comentar rapidamente que, embora não tenha vivido
pessoalmente esse período, Flávio Galvão
trabalhava no jornal que, provavelmente, mais sofreu com a censura
do governo Vargas. Como se sabe, os proprietários do
Estadão, Julio de Mesquita Filho e o irmão Francisco
Mesquita, foram contra Getúlio na Revolução
Constitucionalista de 32, o que provocou a prisão e o
exílio de ambos. Além disso, o Estadão
foi ocupado por soldados da Força Pública em 25
de março de 1940 e sofreu intervenção estatal
até 1945, sendo devolvido à família Mesquita
apenas após a queda de Getúlio. O jornal não
conta esses quatro anos que esteve sob intervenção
política em seu histórico. Por isso, diz-se que
o Estadão tem hoje, 129 anos de existência e 124
de vida independente.
Aliás,
toda essa história foi magistralmente abordada e dissecada
em detalhes em outro artigo de Flávio Galvão,
publicado sob o título "Assalto à imprensa
no Estado Novo". Trata-se de um estudo histórico
dos fatos que todo pesquisador da Imprensa brasileira deveria
tomar ciência para complementar seus conhecimentos, pois
o artigo é resultado de profunda pesquisa realizada pelo
jornalista nos próprios arquivos do Estadão e,
principalmente, nos autos dos processos judiciais decorrentes
da intervenção, material a que a maioria das pessoas
não tem acesso e a ele era possível pelo exercício
de sua profissão como advogado da empresa jornalística
a que prestava serviços.
Para reforçar sua tese de a lei de Imprensa do presidente
militar Castelo Branco é no mínimo melhor do que
a de Vargas, Galvão se vale dos comentários e
críticas à lei 2083 feitos por conceituados tributaristas
e estudiosos como Nelson Hungria, Darcy Arruda Miranda, Afonso
Arinos de Melo Franco e outros "luminares da cultura jurídica
nacional".
Talvez o maior aliado de sua tese em defesa da lei em vigor
em 1967 tenha sido o colega de profissão, jornalista
Freitas Nobre - "autoridade insuspeita"- refere-se
"pois forma nas fileiras da agremiação que
se opõe aos que subiram ao poder em 31 de março
de 1964, os quais foram so responsáveis pela vigente
Lei da Informação".
Segundo
"Galvão, Freitas Nobre escreveu:
Se a atual lei apresenta alguns aspectos negativos e contraditórios,
tecnicamente ela é mais ajustada ao estágio contemporâneo
da informação, conforme observaremos no exame
de cada um de seus artigos.
Galvão ressalta a imparcialidade de Freitas Nobre apesar
de seu posicionamento pessoal:
Apontando a superioridade desta sobre a anterior, Freitas Nobre,
jurista e jornalista, não se deixou influenciar por aspectos
políticos, preocupando-se corretamente só com
o aspecto técnico- jurídico.
Na verdade, o assunto principal de que trata o artigo de Flavio
Galvão refere-se à questão do segredo jornalístico,
ou seja, à obrigatoriedade ou não de o jornalista,
no exercício de sua profissão, revelar suas fontes
e o direito de se negar a depor em juízo, e o que a nova
legislação definia sobre isso.
Flavio Galvão não foi direto ao assunto e, de
certa forma, usou o artigo para expressar subliminarmente sua
opinião acerca dos ataques que a legislação
sofria, mostrando seu posicionamento e buscando apoio na própria
oposição para neutralizar os ataques.
Ao
que tudo indica, Flavio Galvão via com bons olhos o que
a nova legislação dispunha sobre a questão
do segredo jornalístico. E não era sem razão
pois o artigo 71 da referida lei dizia textualmente o seguinte:
"Nenhum jornalista ou radialista, ou, em geral, as pessoas
referidas no art. 25, poderão ser compelidas ou coagidas
a indicar o nome de seu informante ou a fonte de suas informações,
não podendo seu silêncio a respeito, sofrer qualquer
sanção, direta ou indireta, nem qualquer espécie
de penalidade."
Galvão comemora: "Aí está, plena e
legalmente, consagrado e assegurado o direito de o jornalista
proteger as suas fontes, isto é, o seu segredo profissional'.
E mais: "...queremos salientar que o art. 71 da lei da
Informação é dispositivo que merece os
maiores aplausos e que representa notável avanço
técnico em relação às leis anteriores,
assegurando a proteção das fontes pelo direito
ao segredo profissional, a Lei nº 5.250 consolidou a liberdade
de imprensa, entre nós, em um de seus aspectos básicos".
Interessante observar no texto que Flavio Galvão reclama
o fato de a maioria dos jornalistas desconhecer a importância
desse dispositivo legal e mais interessante ainda é que
ele imputa a ignorância "à falta de formação
universitária, cultural e profissional, deficiência
que se procura sanar com os cursos e escolas de jornalismo em
nível superior". Por mais de uma vez vemos o experiente
jornalista profissional sair em defesa da formação
acadêmica do jornalista.
Finalizando
o artigo, Flávio Galvão lança mão
dos artigos 146, 154 e 350 do Código penal Brasileiro
para sustentar a garantia da não-obrigatoriedade de o
jornalista revelar suas fontes de informação especificamente
o 146 que define como crime contra a liberdade pessoal "constranger
alguém mediante viol6encia ou grave ameaça",
e o 350 relativo ao abuso de poder, "crime que pratica
quem ordena ou executa medida privativa de liberdade individual,
sem as formalidades legais ou com abuso de poder", explica.
E complementa a informação lembrando episódios
em que jornalistas foram, em 1968, "convidados' e mesmo
conduzidos forçosamente a ir em quartéis generais
das forças armadas ou mesmo repartições
policiais para 'prestarem esclarecimentos" sobre suas fontes
de informações, sem o devido respaldo legal.
Flavio
Galvão mostra-se totalmente contrário a essa arbitrariedade
uma vez que se coloca claramente um defensor da lei e do seu
cumprimento, principalmente, de uma lei que garante o pleno
exercício de sua profissão.
6.3
- Da "caixinha" ao Manual
O
texto "O Manual d'O Estado de S. Paulo" traz a transcrição,
como o título sugere, do manual de normas de redação
do jornal que Flavio Galvão trabalhava, adotado, segundo
suas informações, em julho de 1971.
No texto, Galvão comenta sobre a necessidade de os jornais
adotarem regras internas de conduta e estilo e apresenta conceitos
e casos de jornais do exterior e também algumas tentativas
brasileiras, como é o caso do Diário Carioca,
em 1928, citado como "jornal que se caracterizou pela coragem
e pela independência, enquanto circulou" .
Galvão conta o milagre, mas não revela o milagreiro.
Ele não diz se o manual a que se refere possuía
um organizador, ou autor responsável.
Também deixa claro que não concorda necessariamente
com o conteúdo do manual - "sua divulgação
não significa nossa concordância, obviamente, com
tudo quanto nele se contém", sem, porém,
explicitar quais seriam as discordâncias.
Vamos
aqui reproduzir o trecho em que Flávio Galvão
relata o breve histórico das tentativas de padronização
de redação do Estadão, por entendermos
ser bem interessante, pois o jornalista trata o tema de forma
bem clara e didática, aliás, uma das características
marcantes do seu texto.
Até a adoção de seu novo manual de redação,
o Estado vinha seguindo determinadas regras, transmitidas pela
tradição oral. Tais regras, até cerca de
20 anos atrás, constavam de um fichário e tinham
sido fixadas, ao que se diz, com a aprovação de
Julio de Mesquita Filho, pelo escritor e jornalista Leo Vaz,
que foi redator-chefe do jornal e ainda hoje integra sua diretoria.
Nas mesas de todos os secretários e subsecretários
de redação do estado havia uma pequena caixa de
madeira em que se colecionavam tais fichas, devendo aqueles
velar estritamente pela observância das regras. Daí
que o manual de redação do Estado era praticamente,
a "caixinha", como nós a chamávamos;
qualquer dúvida que surgisse entre repórteres,
noticiaristas, redatores, a primeira consulta, deveria ser feita
à famosa "caixinha'.
"Todavia,
a 'caixinha' acabou sendo recolhida, para revisão e expurgo
das fichas e elaboração de novas, mais de acordo
com o progresso e as transformações da técnica
e da linguagem jornalísticas. Não se elaboraram,
porém, as novas regras e as antigas continuaram sendo
parcialmente observadas, até a adoção do
novo manual, em uso e vigor.
O manual apresentado por Flávio Galvão na revista
Comunicações e Artes nem de longe se assemelha
ao atual Manual de Redação e Estilo, adotado pelo
jornal Estadão, organizado e editado pelo jornalista
Eduardo Martins - profundo conhecedor do nosso idioma e do próprio
jornal já que lá está há quase 50
anos - publicado pela primeira vez em 1990, mas resultado de
estudos e pesquisas que se iniciaram em 1987. Anualmente é
revisado e uma nova edição publicada.
Vale a pena a leitura do artigo de Flávio Galvão
para podermos comparar, no mínimo a título de
curiosidade, por exemplo, as especificações dadas
ao Lead, num e noutro manual.
6.4
- Primeiro a Lei
Reforçando
sua imagem de paladino da liberdade de imprensa, Flávio
Galvão publica o artigo intitulado "Sesquicentenário
da liberdade de imprensa" em que relata sobre a instituição
da mesma pelo então regente imperador do Brasil, D. Pedro,
que, por decreto, proibia a revisão prévia de
provas impressas, herança legal deixada por seu pai,
D. João VI, antes de deixar o Brasil e voltar para Portugal.
Com isso, D. Pedro "liberou totalmente a imprensa"
, afirma Flavio Galvão.
Embora
já tenhamos comentado anteriormente "em passant',
reforçamos que tal estudo fora publicado originalmente
na edição de 29 de agosto de 1971 no jornal O
Estado de S.Paulo e lido na sessão de 31 do mesmo mês
do senado federal, pelo senador Nelson Carneiro, líder
do MDB (Movimento democrático Brasileiro) - partido de
oposição - , para que constasse dos anais da casa.
O texto igualmente fora publicado no Diário do Congresso
Nacional (seção II, edição de 1º
de setembro de 1971, p. 4.342/4.345). E foi comentado por Carlos
Drummond de Andrade, em crônica intitulada "Palmas,
que ele merece", publicada pelo Jornal do Brasil, edição
de 2 de setembro de 1971 e transcrita pelo jornal O Pasquim,
número 115, 14 a 20 de setembro de 1971.
"Conceito
de pornografia e obscenidade" é o título
do artigo que Flávio Galvão escreveu e encontramos
publicado na edição número 6 da Revista
Comunicações e Artes, da ECA, de 1971. Trata-se
de um ensaio sobre o caso da edição nº 10
da revista Realidade que teve seus quase 475 mil exemplares
apreendidos em São Paulo e, depois, no Rio de Janeiro,
por ordem de juizes de menores que a consideraram "obscena"
e "ofensiva à dignidade da mulher".
A revista trazia como tema principal "A mulher Brasileira"
e continha belíssimas e bem cuidadas reportagens sobre
a fisiologia do corpo feminino, a maternidade e diversas outras
histórias e perfis femininos com mulheres de diferentes
idades, profissões, condições sociais e
localidades do Brasil.
Flavio
Galvão transcreve o que o diretor da Realidade, Roberto
Civita, escreveu apresentando a edição e o que
Civita escrevera, posteriormente, na edição de
nº 11, ao relatar aos seus leitores o episódio da
apreensão.
Em seguida, Flavio Galvão conta que a Editora Abril recorreu
à justiça contra a decisão dos juízes
e transcreve (e descreve), a partir de uma seleção
de ementas de acórdãos e transcrição
literal de votos dos ministros do Supremo, que, sinceramente,
tornam a leitura um tanto quanto maçante por ser excessivamente
técnica do ponto de vista jurídico. Muito interessante
por seu valor histórico, sem dúvida, muito interessante
para outros advogados que militam na área da imprensa,
mas não tenho muita certeza se aos alunos de jornalismo,
na época, tanta informação de ordem jurídica
despertavam o prazer e a curiosidade da leitura e do estudo.
Indiscutível
a importância de trazer a público material documental
cujo acesso seria vedado à maioria dos mortais por tratar-se
de matéria do Direito. Porém, entendemos que,
justamente por dominar o assunto, o experiente jornalista do
Estadão poderia ter levado o leitor a saborear o assunto
escrevendo daquela forma que sabia com maestria: clara, objetiva
e didaticamente.
Talvez
nessa época, Flávio Galvão já sentisse
algum desencanto pela academia (ou seria pela política
do país?) e sua preocupação em explicar
com detalhes o que era desconhecido para a maioria, talvez não
o atraísse mais. Enfim, são apenas divagações,
sem nenhum embasamento científico.
É nesta mesma edição da revista Comunicações
e Artes e, pertinente ao assunto, que Galvão publica
outra extensa documentação de ordem jurídica,
só que, curiosamente, desta vez, ele inicia a explicação
com um entusiasmado texto. O caso havia ocorrido nos Estados
Unidos e era, de fato de suma importância.
Sob
o título "Censura prévia; decisão
da Suprema Corte dos Estados Unidos" Galvão relata
- e neste caso faz uma interessante preleção antecedendo
os documentos que instiga e incentiva o leitor a percorrer os
olhos pelos próximos textos, apesar de técnicos
- que o ano de 1971 ficaria na história do jornalismo
em razão de uma decisão da Suprema Corte dos estados
Unidos, no caso da publicação, pelos jornais "The
New York Times" e "Washington Post", de documentos
secretos do Pentágono sobre o envolvimento daquele país
no Vietnã.
Percebe-se um entusiasmado Flavio Galvão com a vitória
da "liberdade da imprensa" no país descrito
por ele como uma efetiva democracia "em que se respeitam
as liberdades fundamentais".
Talvez
o entusiasmo com o sucesso da Imprensa norte-americana seja
proposital e uma forma sutil, quem sabe, que o jornalista do
Estadão encontrara para fazer seu protesto contra as
arbitrariedades que aconteciam simultaneamente aqui no Brasil
contra os jornais, inclusive contra o Estadão que também
não escapara da censura do governo militar em 1969, quando
houve o endurecimento com a instituição do Ato
Institucional nº 5, baixado em 13 de dezembro de 1968.
Nessa época, toda a imprensa passou a ser censurada pelo
governo e com o Estadão não foi diferente. Como
não podiam deixar espaços em branco por ordem
dos censores, o Estadão publicava no lugar dos textos
censurados, versos de Os Lusíadas, de Luís de
Camões, enquanto o outro jornal da casa, o Jornal da
Tarde, criado em janeiro de 1966, publicava receitas culinárias.
Antes,
porém, o Estadão vinha desempenhando bem o papel
a que se prestara de "porta-voz" do governo "revolucionário",
tendo o articulista Flávio Galvão como peça
importante nesse sentido como poderemos observar mais adiante
por meio de alguns textos publicados ao longo do ano de 1968
por nós pesquisados.
6.5
- O ovo da serpente?
Lendo
alguns textos do professor Flavio Galvão publicados pelo
Estadão, têm-se a impressão de estarmos
acompanhando uma novela ou filme, cujo desfecho já nos
é conhecido. Por isso, no subtítulo me reportei
ao grandioso filme do diretor sueco Ingmar Bergman, produzido
em 1979, "O ovo da serpente", em que ele relata experiências
"científicas" realizadas pelos oficiais alemães
utilizando cobaias humanas em pequenos vilarejos na década
de 20, antecipando os horrores que os judeus viveram anos mais
tarde.
Lendo
os textos de Galvão do ano de 1968 tem-se igualmente
essa sensação: de que o terreno estava sendo preparado
para um endurecimento muito maior. De que o pior estava ainda
por vir. O general Costa e Silva deixara bem claro em seus discursos
e o Estadão publicou, na íntegra, que coisa pior
estava por vir. Se Costa e Silva era, na ocasião, considerado
linha dura, nada se comparou a seu sucessor, o general gaúcho
Garrastazu Médici. Mas isso é matéria para
outras linhas de pesquisa.
O que gostaríamos de passar é que é possível
antever, com a ajuda dos textos de Galvão, o que ainda
estava por acontecer.... ele parecia seguro e alinhado com o
posicionamento oficial do jornal que era o mesmo do governo
federal.
Um
bom exemplo de como as ligações entre ele e o
poder instalado eram estreitas e íntimas é o que
foi publicado no jornal O Estado de S. Paulo na página
4 da edição de 3 de outubro de 1968, portanto
há apenas dois meses da instalação do estado
de exceção.
Galvão
assina matéria intitulada "Discurso de hoje vai
ser mais duro" em que antecipa a fala do então presidente
Costa e Silva durante jantar em São Paulo, oferecido
por políticos da ARENA (Aliança Renovadora Nacional),
partido que apoiava a situação. Ele também
antecipa o discurso do governador do Estado, Abreu Sodré,
proferido durante o mesmo evento. Quando vamos verificar o texto
do dia seguinte, 4 de outubro, temos a nítida impressão
de que Flavio Galvão tivera acesso a ambos os discursos
no dia anterior, pois as informações antecipadas
batiam com as publicadas posteriormente.
Um
fato curioso é a maneira, como Galvão dá
forma ao seu texto. Ele se coloca no papel de observador, mas
do lado de dentro, e relata os fatos sob o ponto de vista de
quem está como que avisando, alertando. Em certas ocasiões,
tem-se a impressão inclusive de que ele está mandando
recados a pessoas específicas. Essa impressão
fica forte, por exemplo, num texto publicado no dia 27 de janeiro
de 1968, sob o título "Situação no
Sul é de perfeita calma". Galvão fora enviado
como correspondente especial a Porto Alegre, para checar possível
estado de alerta em que se encontraria o III Exército
do Estado gaúcho, por conta de uma possível revolta
daqueles militares contra o governo revolucionário instalado.
O
texto, longo, de quase meia página, trazia vários
intertítulos e o último deles era "Lacerda".
Dizia o parágrafo:
Registre-se, finalmente, neste apanhado geral, que, se no quadro
político nacional o sr. Carlos Lacerda está pretendendo
irritar os militares e perder os amigos que ainda por ventura
tenha nessa área, está conseguindo plenamente
o seu intento, em lograr estabelecer qualquer fissura nas Forças
armadas.
Seria do mesmo Carlos Lacerda a que Flavio Galvão se
referiu em sua apostila "Captação...."
escrita no mesmo ano, como sendo o "maior jornalista de
nossos dias"?
6.6
- Em defesa da FAB
Na
edição do dia 5 de outubro de 1968 Flavio Galvão
assina coluna escrevendo como enviado especial, desta vez a
Brasília, "Cassados tentam criar uma crise".
Vai direto ao assunto e já no primeiro parágrafo
desmente qualquer crise que pudesse estar havendo dentro da
Força Aérea Brasileira.
Não há crise na Força Aérea Brasileira,
ao contrário do que foi divulgado e, sim, uma manobra
manipulada e orientada de fora, por elementos cassados pela
Revolução, e que vira, imediatamente, a criação
de um caso que provoque o afastamento do brigadeiro João
Paulo Burnier, do posto vital que ora ocupa, e a queda, num
segundo estágio, do próprio ministro Márcio
de Souza e Melo, chefe da corrente revolucionária da
Aeronáutica e homem entrosado no esquema do presidente
da República.
O
texto explica na verdade em detalhes, todo o famosos caso PARASAR
- unidade da FAB criada para ações humanitárias,
de salvamento e que teria sido usada como tropa de choque em
missào miliatr contra o movimento estudantil no Rio de
janeiro, contrariando, dessa forma, seus princípios humanísticos
originais, o que teria sido denunciado pela oposição
- . Galvão relata como teria se iniciado a tal campanha
de difamação do brigadeiro, os desdobramentos
etc. mas no último parágrafo, novamente o recado
foi dado:
Os militares identificados com o 31 de março fazem questão
de proclamar que não se deixam dividir pelos inimigos
da revolução e que se mantém alertas contra
a ação destes. E ao mesmo tempo recordam as incisivas
advertências que o chefe da nação fez, nesta
Capital, quarta e quinta feira últimas, a respeito de
corruptos e subversivos.
6.7
- Toque de recolher
Ler
os artigos de Flavio Galvão publicados pelo estadão
é mergulhar na história recente do Brasil. É
também mergulhar na história do jornalismo porque
sua forma de dar redação ao texto, sua linguagem,
os termos que utiliza, seu jeito, enfim, de escrever denotam
uma linhagem de jornalistas que já não mais existem.
Ele
é claro, transparente; temos certeza quando está
ou não de bom-humor ou indignado; suas idéias
não deixam dúvida em relação às
suas convicções políticas. Não fica
em cima do muro; não é dúbio. Deixa claro
de que lado está. O leitor pode até não
estar do mesmo lado. Mas não pode acusá-lo de
dizer meias verdades, de tentar manipular ou enganar, de deixar
subentendidos. Flavio Galvão assume seu posicionamento,
diz a que veio e assina em baixo.
Na
edição do dia 27 de outubro de 1968 encontramos
o seguinte artigo: "Estado de Sítio". Nele,
de certa forma, Galvão antecipa rumores de desejos do
Governo Federal em lançar mão do expediente que
dá nome à sua matéria, com o objetivo de
conter a situação de desordem social em que se
encontrava o país. Por desordem social entendia-se desde
as manifestações estudantis contra o governo estabelecido
à força e de forma pouco democrática -
embora auto-proclamado a favor da democracia - até assaltos
a bancos e atos de vandalismo atribuídos a "terroristas"
integrantes de grupos extremistas de esquerda.
Galvão
dava praticamente como certo, que alguma medida restritiva o
governo tomaria mais cedo ou mais tarde.
Como que para amenizar os efeitos de antecipar notícia
tão desagradável - afinal, tal medida não
distinguiria gregos e troianos e, portanto, toda a população,
inclusive aquela parcela que apoiava o governo militar, seria
afetada pelas desagradáveis medidas extremas de manutenção
da ordem - Galvão explica didaticamente, até o
final do texto, do que se trata, afinal, um estado de sítio
sob o ponto e vista legal e do Direito. Explica, por exemplo,
que é um recurso para manter a ordem, previsto na Constituição;
explica como ele deveria ser decretado, quais as medidas coercitivas
possíveis e previstas, enfim, detalha todas as nuances
jurídicas e legais, até mesmo apontando os limites
de tal recurso, ou seja, ele informa de maneira clara e objetiva
que o estado de sítio só é legal se forem
observadas as "prescrições egais"relativas
a ele e que isso não ocorrendo, o cidadão que
houver sofrido algum tipo de prejuízo em função
disso poderia recorrer à justiça para ver ressarcidos
seus direitos.
Flávio
Galvão acreditava sinceramente no Direito e na Justiça.
Mas a história provou que, infelizmente, após
a decretação do AI-5, e até depois da anistia
em 1978, as coisas não foram resolvidas assim, de forma
tão simples. Estão aí, os exemplos das
esposas do jornalista Wladimir Herzog e do deputado Rubens Paiva,
e de outras centenas de parentes de pessoas "desaparecidas"
durante esse período negro e vergonhoso da nossa história,
para provar que recorrer à Justiça é bem
mais complicado e frustrante do que talvez imaginasse e acreditasse
nosso jornalista e professor pesquisado.
6.8
- Desfecho anunciado
"Não
mereceram fé os avisos de Marighella" é outro
interessante e extenso artigo que ocupou meia página
da edição de Domingo, dia 24 de novembro de 1968
assinado por Flávio Galvão, sempre à página
4.
Desta vez ele mostra-se especialmente indignado com a atuação
dita subversiva de Carlos Marighella, ex-deputado federal baiano
pelo PCB (Partido Comunista Brasileiro) e dirigente do partido,
na época clandestino, que estaria à frente de
um grupo terrorista que assaltava bancos e matava com o objetivo
de recolher fundos para a instalação do comunismo
no poder.
Galvão compara Marighella a Hitler que também
proclamou aos quatro ventos todos os seus planos de domínio
e extermínio, sem que ninguém o levasse a sério
e acabou dando no que deu.
Escreve
Galvão:
...há mais de ano que as autoridades tinham elementos
para prever o que faria Marighella, já que este anunciou,
pratica e publicamente, o que tencionava fazer. Mas ninguém
acreditou nele. Ninguém cuidou de vigiá-lo, de
segui-lo, de descobrir suas ligações. Ninguém
levou em conta as suas atividades passadas, que indicavam que
se trata de elemento perigoso e experimentado na subversão.
Em seguida ele dedica boa parte da extensa chamada de atenção
a apresentar toda a trajetória política de Marighella
- um rico material - e sua história até aquela
data, em detalhes.
Depois,
clama, indignado, que as autoridades tome alguma providência.
Questiona, irado, o motivo de nata Ter sido feito até
aquela data. Vale a pena conferir o trecho em questão:
...há mais de ano, vem Carlos Marighella anunciando publicamente
que os comunistas se preparam para derrocar pela violência
o regime democrático, que se estão armando para
desencadear as guerrilhas, que tencionam liquidar as Forças
Armadas Brasileiras.
"No entanto, nada lhe acontece. Sai e entra ele do País
com a maior facilidade. Vai a Cuba, volta de Cuba, retorna a
Cuba, regressa ao Brasil.
Nada
lhe acontece, ninguém o fiscaliza, ninguém o detém
(...) ninguém parece acreditar - ou não quer acreditar,
por motivos diversos, inclusive os inconfessáveis - que
os comunistas preparam a subversão no País, pela
violência, pelo terror. E quem tem a coragem de dizer
isso é logo acoimado de 'fascista' pela tremenda máquina
de propaganda de que dispõe a esquerda totalitária.
Estaria ele "passando um pito" nas autoridades? Mandando
um recado a Marighella? Esclarecendo a opinião pública?
A indignação era sua, pessoal, ou a indignação
era da diretoria do jornal que representava e de tudo o que
o jornal representava em termos de oligarquia? Ou tudo, ao mesmo
tempo? Ou Galvão era apenas um ótimo profissional
que cumpria ordens e ponto final?
6.9
- A lei? Ora, a lei
Finalmente,
encerrando a coletânea de textos que conseguimos pesquisar
nesse estágio, verificamos que no dia 3 de dezembro,
portanto a 10 dias da decretação do histórico
AI -5, o jornal O Estado de S. Paulo publica o artigo "Segredo
jornalístico" que já tivemos oportunidade
de comentar, publicado na Revista Comunicações
Culturais (nº 2), da ECA sob o título "O segredo
profissional do jornalista".
Na
Revista, tratava-de se artigo acadêmico. No diário
paulistano Galvão deu forma jornalística àquele
conteúdo e acrescentou um final em que passa a impressão
de estar seriamente preocupado com alguns abusos que estariam
sendo cometidos, por parte das autoridades policiais e militares,
que não estariam respeitando os ditames da lei de Imprensa
- ou Lei da Informação - objeto do artigo:
No
entanto, em que pese a clareza do art. 71 da Lei de Imprensa,
que não admite sofismas, nem interpretações,
há autoridades no Brasil que ostensivamente ignoram o
dispositivo legal. E, assim, vivem a coagir jornalistas profissionais,
procurando intimidá-los para que revelem como, onde e
de quem obtêm as informações que divulgam.
(...) Este ano, verificaram-se, repetidamente, casos em que
autoridades militares e policiais tentara, entimidar (sic) jornalistas,
para descobrir suas fontes de informação, o que,
repetimos - além de constituir violação
de lei e de configurar crime - acarreta desmoralização
para o governo de que tais autoridades fazem parte ou representam.
Flavio
Galvão demonstra, com esse texto, mais uma vez, uma crença
quase cega nos recursos legais disponíveis. Acredita
piamente que basta que a lei seja cumprida para eu toda a sociedade
viva em paz e que, em ela não sendo cumprida, basta que
a sociedade utilize os recursos judiciais à sua disposição
para que a ordem se restabeleça.
Tão simples assim? Flavio Galvão parece pensar
que sim já que recomenda, no último parágrafo
do texto, que o Governo obrigue seus representantes policiais
e militares a se inteirarem do conteúdo do artigo 71
da lei de Imprensa e passem, assim, a respeitá-lo e recomenda
aos sindicatos de jornalistas que não hesitem em tomar
as medidas judiciais cabíveis nos casos em que o citado
dispositivo legal for violado.
7.
Considerações finais
O
que podemos depreender de nossas pesquisas é que o material
deixado pelo jornalista Flávio Galvão é
extenso e rico. Muitas lacunas ainda podem ser preenchidas com
complementação desta pesquisa, por exemplo, entrevistando
ex-alunos, colegas de profissão contemporâneos
que conviveram com ele e que ainda se encontram na ativa, tanto
no jornalismo quanto na academia, mesmo em outras faculdades,
como a Mackenzie que se tem notícia de que ele ministrou
aulas naquela instituição. Talvez encontremos
material de pesquisa interessante que nos revele mais alguns
dados sobre o perfil do jornalista enquanto professor, porque
de Flávio Galvão enquanto jornalista me parece
razoavelmente delineado.
Está
clara a contribuição do jornalista para a ECA.
Lamentável, porém, que a própria academia
o tenha afastado ao fazer exigências burocráticas
as quais ele, ao que tudo indica, preferiu não ceder.
8.
Referências Bibliográficas
1
- Relatório de Atividades do Departamento de Jornalismo
da Escola de Comunicações e Artes/USP - 1968
a 1972.
2
- Boletim do Departamento de Jornalismo da Escola de Comunicações
e Artes - 1968.
3
- GALVÃO, Flávio. Captação
da Notícia e acesso às fontes de informação.
São Paulo, 1968.
4
- GALVÃO, Flávio.
O Segredo profissional do jornalista. Revista da Escola de
Comunicações
Culturais, São Paulo, s/d, s/p.
5
- GALVÃO,
Flávio. Explicação.
Comunicações e Artes. São Paulo, nº
1, 1970, s/p.
6
- GALVÃO, Flávio. Assalto à Imprensa
no Estado Novo (2). Comunicações e Artes, São
Paulo, nº 3, s/d, p.83.
7
- GALVÃO, Flávio.
O Manual d'O Estado de S. Paulo. Comunicações
e Artes, São Paulo,
nº 4, 1971, p.147.
8
- GALVÃO, Flávio.
Sesquicentenário da
liberdade de imprensa. Comunicações e Artes,
São
Paulo, nº 5, s/d, p.13
9
- GALVÃO, Flavio. Conceito
de pornografia e obscenidade. Comunicações e
Artes, São Paulo, nº
6, 1971, p. 153.
10
- GALVÃO, Flavio. Censura prévia:
decisão
da Suprema Corte dos Estados Unidos. Comunicações
e Artes, São Paulo, nº 6, 1971, p.175.
11
- GALVÃO,
Flávio. Situação no
Sul é de perfeita calma. O Estado de S. Paulo, São
Paulo, 27/01/1968, p.4
12
- GALVÃO, Flávio.
A Comunicação
no Brasil. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 1º/06/1968,
Suplemento Literário.
13
- GALVÃO, Flávio.
A fotografia como informação.
O Estado de S. Paulo, São Paulo, 28/09/1968, Suplemento
Literário.
14
- GALVÃO, Flávio. Discurso
de hoje vai ser mais duro. O Estado de s. Paulo, São
Paulo, 3/10/1968, p. 4.
15
- GALVÃO, Flávio. No fim de tudo, nada
de positivo. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 4/10/1968,
p. 4.
16
- GALVÃO, Flávio. Cassados tentam criar
uma crise. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 5/10/1968,
p.4.
17
- GALVÃO, Flávio. Estado de Sítio.
O Estado de S. Paulo, 27/10/1968, p.4.
18
- GALVÃO,
Flávio. Não mereceram fé
os avisos de Marighella. O Estado de S.Paulo, São Paulo,
24/11/1968, p.4.
19
- GALVÃO, Flávio. Segredo
jornalístico.
O Estado de S. Paulo, São Paulo, 3/12/1968, p.4.
20
- GALVÃO, Flávio. General e paulista. O Estado
de S. Paulo, São Paulo, 8/12/1968, p.4.
21
- Dr. Flavio de Almeida Prado. O Estado de S. Paulo, São
Paulo, 20/02/1994, Pasta 7161. Arquivo. Agência Estado.
22
- Jornalista vai receber OMA. O Estado de S. Paulo, São
Paulo,15/10/1968, pasta 7161.Arquivo. Agência Estado.
23
- Jornal perde Galvão, colaborador por 40 anos. O
Estado de S. Paulo, São Paulo, 20/02/1994, Pasta 7161,
Arquivo. Agência Estado.
24
- Criação
do Museu Histórico do Embu.
Folha de Embu, Embu, 20/03/1965. Pasta 7161. Arquivo. Agência
Estado.
25
- Flavio Galvão, o lutador da liberdade.
Jornal da Tarde, São Paulo, 22/02/1994, Pasta 7161.
Arquivo. Agência
Estado.
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