Fórum
Jornal
Pessoal:
A luta pela liberdade
de imprensa na Amazônia
Por
Célia Regina Trindade Chagas Amorim*
RESUMO:
Este
trabalho faz uma reflexão sobre a história
do Jornal Pessoal, um alternativo que existe há
17 anos na cultura Amazônica. Uma de suas características
é a ausência total de publicidade em suas
páginas. Sua
linguagem tem por base a investigação,
a análise e a crítica de grandes temáticas
da região como a biodiversidade, mega projetos
econômicos e grilagem de terras.
|
Reprodução

Lúcio Flávio Pinto
|
É
lançado pelo sociólogo e jornalista Lúcio
Flávio Pinto na primeira quinzena de setembro de 1987,
portanto, pós-ditadura militar, e sua existência
proporciona várias indagações: o que leva
um jornalista a criar um veículo alternativo em plena
liberdade política? Poderão ser consideradas as
décadas de 80 e 90 como uma era de amplo acesso à
informação no Brasil? Até hoje o alternativo
vive e sobrevive contando com o apoio de seus leitores.
Palavras-chave:
imprensa alternativa, ditadura militar, censura,
Amazônia.
1.
Contextualização da Imprensa Alternativa (1964-1985)
A
Ditadura Militar implantada no Brasil entre 1964 e 1985 com
seus instrumentos de exceção, tais como a Lei
de Segurança Nacional, a famosa Lei de Imprensa, a censura
prévia e outros, acabou impulsionando um dos fenômenos
que marcou a história do jornalismo brasileiro e, por
que não afirmar, a própria história do
País: a chamada imprensa alternativa ou imprensa nanica.
Como
tudo no País estava amordaçado pelo regime militar,
que o digam os versos de Camões e as famosas receitas
de bolos utilizados para escamotear algum fato importante que
a grande imprensa não ousava divulgar, a única
forma de a sociedade tomar conhecimento do que estava acontecendo
era pela imprensa alternativa, que noticiava, em seus periódicos,
quando furava o cerco da ditadura, os graves crimes praticados
no Brasil, como as mortes de presos políticos, as formas
de torturas implementadas pelo DOI-CODI, da rua Tutóia,
em São Paulo, a ostensiva conivência do Estado
com grupos nacionais e multinacionais que controlavam a economia,
a violação dos direitos humanos, a dívida
externa e outros temas de interesse geral da população.
Nesses
anos negros da história brasileira, o direito à
informação passa a ser uma das grandes lutas que
esses pequenos jornais, a grande maioria de caráter político-cultural,
travam ardentemente contra o Estado autoritário que,
para evitar qualquer dúvida de sua existência,
instala o Ato Institucional nº 5 (AI) no dia 13 de dezembro
de 1968, outro instrumento de exceção, representando
o grau máximo das infrações impostas ao
País e das restrições às liberdades
dos indivíduos.
É
importante lembrar que o movimento militar de 64 "se propõe
ao milagre de salvar a nação" (Bahia, 1990:
320), restaurando-a nas áreas social, econômica
e política. Mas, na verdade, "restringe a liberdade
de informação e anula direitos essenciais do cidadão"
(Bahia, 1990: 320), pois, com o AI-5, o Congresso Nacional é
fechado e a censura coloca a sua marca em toda e qualquer manifestação
de pensamento. Até a fiel colaboradora do regime militar,
a grande imprensa, [1] é atingida com poderosos
ferrolhos colocados nas portas das suas redações.
Jornais, revistas, emissoras de rádio e de televisão,
livros, cinema, teatro, música, disco, enfim, tudo estava
sujeito à censura.
Bahia,
estudioso da história da imprensa brasileira (1990),
chama a atenção para o fato de que a censura que
se instala com o golpe de 1964 é muito mais perversa
que a de 1937, de Getúlio Vargas. Uma ditadura denominada
por ele de antropófaga. "O silêncio que se
abate sobre a imprensa devora testemunhos, como no caso dos
desaparecidos em que não há processos, registros,
mandatos de prisão ou atestado de óbitos"
(Bahia, 1990: 315).
Em
um importante levantamento referente à imprensa alternativa,
nos anos da Ditadura Militar no Brasil, especificamente no período
(1964-1980), Kucinski (1998: 178) cita que, nessa época,
nasceram aproximadamente 160 periódicos das mais várias
tendências: "satíricos, políticos,
feministas, ecológicos, culturais". Um verdadeiro
surto que teve início no eixo Rio-São Paulo, mas
logo atingiu outras capitais.
Esses
pequenos jornais, em geral semanários, quinzenários
e mensários, foram duramente perseguidos pelo aparelhamento
militar. Entre eles destacam-se O Pasquim e Opinião,
do Rio de Janeiro; Movimento, de São Paulo; e Resistência,
originário de Belém do Pará. "Hoje
pertencem à história. Todos desapareceram"
(Kucinski, 1998: 178).
Mas,
a imprensa alternativa não é um fenômeno
exclusivo dos 21 anos da Ditadura Militar. Ela aparece, em outros
tempos da história, como as publicações
"dos pasquins irreverentes e panfletários do período
da Regência, que atingiram o seu apogeu em 1830 com cerca
de cinqüenta títulos" (Sodré, 1968 apud
Kucinski, 1991: xxi), "e dos jornais anarquistas de operários,
meio século depois (1880-1920), com quase quatrocentos
títulos" (Ferreira, 1978 apud Kucinski, 1991: xxi).
Kucinski,
que viveu como jornalista a aventura alternativa na ditadura
de 64, afirma que esta imprensa originou-se
da
articulação de duas forças igualmente
compulsivas: o desejo das esquerdas de protagonizar as transformações
institucionais que propunham e a busca, por jornalistas e
intelectuais, de espaços alternativos à grande
imprensa e à universidade. É na dupla oposição
ao sistema representado pelo regime militar e às limitações
à produção intelectual-jornalística,
sob o autoritarismo, que se encontra o nexo dessa articulação
entre jornalistas, intelectuais e ativistas políticos
(1991: xvi).
É
o próprio Kucinski que informa o porquê de os jornais
alternativos começarem a fechar as suas portas com a
abertura política que se inicia no governo do presidente
da República João Batista de Figueiredo em 1979,
escolhido no ano anterior pelo Congresso, com mandato de seis
anos:
[...]
a grande imprensa não foi só recriando uma esfera
pública, como o fez apropriando-se de temas até
então exclusivos da imprensa alternativa, e recontratando
muitos dos seus jornalistas. Opor-se ao governo deixou de
ser monopólio da imprensa alternativa. Além
disso, a retomada da atividade política clássica,
no âmbito dos partidos e de seus jornais, que após
a decretação da anistia saíram da clandestinidade,
esvaziou a imprensa alternativa de sua função
de espaço e realização sócio-política
(Kucinski, 1991: xxv).
Paralelamente
a este fator, outros contribuíram para fazer da imprensa
alternativa uma rede frágil não só à
Ditadura Militar, mas à sua própria luta, desaparecendo
rapidamente: repudiavam o lucro, negligenciando questões
administrativas, insistiam numa distribuição nacional
antieconômica e não conseguiram formar um conjunto
de leitores-assinantes, dando "certo triunfalismo em relação
aos efeitos da censura" (Kucinski, 1991: xxvi). Kucinski
declara que houve também:
A
morte de propostas éticas de transformação
social, da crença na realização pessoal
por meio da ação coletiva ou comunitária.
Muitos jornais alternativos do último período
desapareceram em meio a um processo político no interior
das esquerdas mais complexo que a mera passagem do espaço
clandestino e semiclandestino para uma esfera pública
(1991: xxviii).
2.
Jornal Pessoal: a luta pela liberdade de imprensa na Amazônia
(1987- 2005)
O contexto histórico da imprensa alternativa em pleno
regime militar apresentado há pouco, com o surgimento
de vários periódicos que tinham em comum a luta
sistemática contra o Estado autoritário implantado
em 1964, proporciona indagações quanto à
ação jornalística que ocorre nos tempos
de democracia na região amazônica, especificamente
em Belém do Pará: o que leva um jornalista a lançar
um veículo alternativo em plena liberdade política?
Poderão ser consideradas as décadas de 80 e 90
como uma era de amplo acesso à informação
no Brasil?
Esses
questionamentos decorreram da leitura dos primeiros números
do Jornal Pessoal, criado pós-ditadura militar - primeira
quinzena de setembro de 1987 - pelo sociólogo e jornalista
Lúcio Flávio Pinto. [2]
Com
a queda do regime, a nova era anunciava pleno acesso à
informação, a tão sonhada liberdade de
imprensa parecia ressurgir dos escombros da ditadura. Afinal,
os piores momentos do "assalto à mão armada",
instaurado pelos militares em 31 de março de 1964, se
esgotam em 1985 "com a restauração da democracia,
submetida, porém, a um processo de transição
para devolver à sociedade as liberdades públicas,
o respeito às leis e aos direitos do cidadão;
eleger a Constituinte em 1986 e elaborar a Constituição
de 1988" (Bahia, 1990: 318).
Entretanto,
não é bem isso que vem se confirmando ao longo
do tempo pelos veículos de comunicação,
principalmente no que diz respeito à liberdade de imprensa,
[3] daí a declaração de Pinto
(1997a) quanto à sua motivação em lançar
o Jornal Pessoal em uma época em que não há
mais "os terríveis censores nas redações
brasileiras":
este
jornal se tornou necessário porque O Liberal, [maior
veículo de comunicação do Norte e Nordeste
do Brasil] onde eu então trabalhava, se recusou a publicar
informações reunidas em três meses de
investigação sobre o assassinato do ex-deputado
estadual Paulo Fonteles de Lima. Todos haviam dado prioridade
à elucidação do crime, inclusive o então
governador Hélio Gueiros. Mas percebi que tanto o trabalho
da polícia quanto o acompanhamento da imprensa já
estavam omitindo informações vitais para revelar
toda a cadeia envolvida na morte de encomenda de Fonteles.
O caso começava a ter o perfil dos crimes insolúveis.
Era preciso mobilizar de novo a opinião pública
para que, em resposta à pressão social, a engrenagem
oficial não se limitasse a apresentar um enredo falso
ou a encontrar um bode expiatório (Pinto, 1997a: 1).
Pinto (1997a) afirma que a matéria não foi aprovada
pela direção de O Liberal porque havia citado
os dois homens considerados na época os mais ricos do
Pará, Jair Bernardino de Souza e Joaquim Fonseca. Eles
não tiveram participação no crime, porém
se negaram a fornecer à Polícia informações
importantes para a identificação dos criminosos,
que conheciam. Como os fatos foram trabalhados em três
meses de investigação, resultando numa reportagem
densa, com reconstituição do atentado até
os seus mandantes, a direção de O Liberal "aceitou
imprimir de graça o Jornal Pessoal que eu decidira criar
para veicular a matéria.
Com
uma condição: de não citar o nome da gráfica"
(Pinto, 1997a: 2). A gráfica, à época,
que se propôs a realizar a impressão era a Delta
Publicidade, pertencente ao grupo Liberal.
Assim,
o Jornal Pessoal circulou com seu primeiro número. Uma
matéria de impacto jornalístico, com investigação,
análise e crítica dos fatos, como tem sido a marca
de Lúcio Flávio Pinto. Ninguém desmentiu
e muito menos processou o profissional.
No
livro A Arte da Reportagem, organizado pelo veterano jornalista
Igor Fuser, o leitor encontra histórias dos últimos
cento e cinqüenta anos contadas por meio da melhor investigação
jornalística, como é o caso de Euclides da Cunha,
com o texto sobre A guerra de Canudos. Ele atuou como repórter
do jornal O Estado de S. Paulo na cobertura desta guerra, e
da sua produção surgiu Os sertões em 1902,
uma das obras mais importantes da literatura brasileira. Além
do terremoto de San Francisco, em 1906, reportado por Jack London,
e dos dez dias da Revolução Russa de 1917, por
John Reed, constata-se, também, na antologia sobre grandes
reportagens, o texto de Lúcio Flávio Pinto em
que aborda o caso Fonteles.
Fuser,
ao introduzir a reportagem de Lúcio Flávio Pinto,
dando ênfase ao período pós-ditadura militar,
escreveu:
Um
dos maiores crimes políticos do Brasil pós-ditadura
militar - o assassinato de Paulo Fonteles, advogado de posseiros
do Sul do Pará - passou quase em branco pela imprensa
brasileira. Os grandes jornais do país trataram a notícia
em pequenas notas, como um assunto de província. Na
província, o caso envolvia interesses grandes demais
para permitir uma cobertura isenta. Daí o silêncio.
Coube a um repórter de Belém, num trabalho por
conta própria, a melhor reportagem sobre o caso: Lúcio
Flávio Pinto, reconhecido dentro e fora do país
como um grande conhecedor dos assuntos da Amazônia.
[...]
Lúcio Flávio, em dois meses de investigações,
destrinchou a história do 'capitão Jaimes',
principal suspeito de ter organizado o crime, e suas ligações
com os prováveis mandantes, grandes proprietários
de terras ligados à UDR (União Democrática
Ruralista). Rigorosamente baseado em informações
comprováveis, o repórter introduz o leitor num
universo, violento e sem lei, de pistoleiros, latifundiários,
policiais militares, agentes do Departamento Estadual de Ordem
Política e Social (Dops), do Serviço Nacional
de Informação (SNI) e da Polícia Federal
(1996: 403).
Por
continuar na linha de denúncia, o jornalista perdeu,
na segunda edição do alternativo, o acesso à
gráfica de O Liberal. Nesses 17 anos de jornalismo investigativo
na Amazônia, o Jornal Pessoal já foi rodado em
11 gráficas, tudo porque toca em assuntos antes obscuros
ou perigosos demais para permitir uma cobertura isenta por parte
dos veículos de comunicação do Estado.
Um
assunto presente nas capas do alternativo e que atinge diretamente
a Amazônia é Carajás, considerada pelos
estudiosos como a maior província mineral do planeta
em solo paraense. Quem atua na exploração de Carajás
é a Companhia Vale do Rio Doce (CVRD). O Jornal Pessoal
nº 167, com a manchete As lições de 30 anos
informa, em um texto crítico, que a história de
Carajás "revela a incapacidade de um Estado como
o Pará de encontrar um caminho melhor para a utilização
de suas riquezas naturais" (Pinto, 1997b: 1).
É
que o modelo econômico adotado, como se o Pará
ainda estivesse na época quinhentista, é de
concentração de renda, exclusão social
e política, ou seja, o Estado continua a ser uma colônia
de produtos básicos. Os seus recursos naturais são
beneficiados industrialmente em outras paragens nacional e
internacional, menos no Estado, que continua cada vez mais
pobre.
Assim,
com a manchete Um cavalo de Tróia?, o Jornal Pessoal
nº 210 dispara:
nenhum
Estado brasileiro depende tanto de uma única empresa
quanto o Pará da Companhia Vale do Rio Doce. Da mesma
maneira, o Pará tornou-se o mais importante dos nove
estados nos quais a empresa atua. É responsável
por ela ser, hoje, a maior exportadora do Brasil. O Pará,
no entanto, é a maior fonte de problemas da CVRD. E
a empresa é a principal causa do subdesenvolvimento
paraense. Esse resultado, aparentemente paradoxal, é
inevitável? (Pinto, 1999: 1).
As
grandes reportagens com função de denúncia
e crítica, independentemente da temática, em que
vem à tona a notícia limpa e do interesse público,
como a que provocou o surgimento do periódico paraense,
estão um pouco afastadas das redações brasileiras
em favor de um jornalismo de press-release (informações
prontas).
Esta
situação é esclarecida por Rossi:
A
coleta de informações precisas, acuradas e,
dentro do possível, aprofundadas, é - ou, ao
menos, deveria ser - o foco central do jornalismo. No caso
brasileiro, em função dos longos anos de arbítrio,
de uma larga época de censura prévia a algumas
das mais importantes publicações brasileiras,
e da autocensura, seqüela quase inevitável da
censura direta, está ocorrendo uma distorção
grave do trabalho do jornalista: prefere-se a declaração
à informação. E é fácil
de entender por que: a declaração compromete
quem a faz, não quem a veicula, ao passo que a informação
é de responsabilidade do jornalista (1980:48).
É
necessário explicar que, apesar de o País ter
convivido com a censura prévia, com o Ato Institucional
nº 5 e outras formas de intimidação à
liberdade dos indivíduos no período do regime
militar, estas não são hoje a principal causa
da não publicação, nas páginas dos
jornais brasileiros, de notícias profundas e bem investigadas.
Pode-se considerar resquícios do autoritarismo, como
foi muito bem lembrado por Rossi (1980), mas a questão
não se esgota aí.
A
censura que se apresenta agora nas redações brasileiras
não é a oficial, regimental, militar, mas a sutilmente
declarada pelos próprios empresários de comunicação
de massa. "Hoje o controle de informação
efetiva-se a partir de uma pauta hegemônica" (Lage,
1987:35). "A imprensa abdicou de sua capacidade de investigar.
Seja por preguiça, seja por incapacidade. Ou seja até
por conluio com os interesses comerciais que ela às vezes
apresenta" (Dines, 1987: 41).
É
notório que a censura nunca deixou de existir, pois mesmo
nos períodos de democracia do sistema esta incumbência
volta às mãos da classe dominante, só que
de uma forma mais disfarçada. "Mas é a mesma
censura, o objetivo é o mesmo: a preservação
do sistema político-ideológico e a ampliação
dos privilégios, da concentração de renda,
etc, nas mãos de poucos que dominam o País"
(Nunes, 1987: 25).
Antes
de criar o Jornal Pessoal como imprensa alternativa, Lúcio
Flávio Pinto assinava, em 1972, no jornal A Província
do Pará, uma página dominical intitulada de Jornal
Pessoal. Em 1973 essa página passou a ser publicada no
O Liberal, tornando-se depois coluna com o mesmo nome.
"Criei
este título porque queria escrever sobre todos os assuntos,
com uma cobertura completa. Mas enfrentei a censura nesses
dois grandes veículos de comunicação
do Estado do Pará. Quando lancei esta imprensa alternativa,
em setembro de 1987, chamei-a de Jornal Pessoal, com toda
a singularidade de ser um periódico autônomo
e, além disso, por recusar publicidade" (Pinto,
20004).
No
balanço que realizou de 10 anos de sua existência,
no período de 1987 a 1997, o Jornal Pessoal nº 170
discutiu a tão propagada liberdade de imprensa, dando
ênfase à autolimitação "a que
se impôs a maioria dos veículos de comunicação,
tanto maior quanto mais estreita é a sua dependência
- e proximidade - das instâncias do poder" (Pinto,
1997a).
2).
A autocensura por parte dos jornalistas, o outro lado da moeda,
também não foi esquecida nas páginas do
alternativo e ocorre, segundo Lúcio Flávio Pinto,
"ou porque os donos das publicações a impuseram,
ou porque os jornalistas, por pressão de terceiros ou
interesse próprio, omitem deliberadamente informações"
Pinto (1997a: 3).
O
escritor Carpentier narra uma interessante passagem da prática
do jornalismo imbricada ao aspecto mercantil da notícia:
Houve um grande poeta na América, Porfírio
Barba-Jacob (com indubitável americanização
verbal e poética), que andou por Havana, cujo ofício
consistia em oferecer o seu 'jornalismo combatente' - e era
brilhante, e era eficiente - onde quer que o remunerassem
com largueza, sem se preocupar com aprofundar a legitimidade
ou a honorabilidade da causa defendida. E não esqueçamos
Santos Chocano, que pôde do mesmo modo se fazer de ministro
de Pancho Villa como de conselheiro do ditador Estradas Cabrera
- O Senhor Presidente, de Miguel Angel Asturias. Outros aceitavam
cargos diplomáticos, postos oficiais, dirigiam revistas
e jornais, sem se deterem a refletir se vendiam a sua alma
ao diabo - e já sabemos por Thomas Mann que para vender
a alma ao diabo nem sempre é preciso rubricar um grimório
molhando a pluma no próprio sangue. Basta prestar-lhes
alegremente a certas contaminações (1969: 49-50).
Abominando a prática mercantil da notícia, Lúcio
Flávio Pinto, que já atuou em grandes redações
brasileiras, enfatiza que,
mesmo
quando a diretriz editorial da empresa é uma barreira
à divulgação do material obtido, o dever
do repórter é escrever sua matéria na
redação. Se a autocensura é inevitável,
que a faça um preposto do dono, que detém cargo
de confiança. [...] Costuma-se reduzir a badalada investigação
jornalística à transcrição de
fitas que chegam à redação por vias oblíquas.
Muitos jornalistas saíram das ruas para captar suas
informações em viciados bastidores. Chega dessa
prática que jamais enobrece o jornalismo (1997a: 3).
Quando divulgou no Jornal Pessoal a reportagem referente à
entrada do narcotráfico no Pará, tendo como foco
o assassinato, em dezembro de 1991, do jovem empresário
Bruno Meira Matos, membro de uma das mais tradicionais famílias
da sociedade paraense, o jornalista comenta que se encontrou
em uma situação absolutamente inacreditável:
a
grande imprensa se recusava a saber dos fatos para não
ter que enfrentar uma eventual crise de consciência,
ainda que rudimentar.[...] No máximo da investida que
fiz para forçar o aprofundamento das investigações
sobre o caso, publicando sozinho fatos impressionantes, os
jornais interromperam o silêncio sobre o assunto para
publicar uma mesma matéria, que lhes fora levada pela
família da viúva, sob a intermediação
de um consagrado jurista penal (1997a: 2).
A notícia publicada na grande imprensa de Belém
do Pará era: Bruno não foi assassinado, mas se
matara. Ele teria deixado uma carta onde relatava a sua intenção
porque não tinha condições de resolver
seus problemas financeiros. Quem achou a carta foi a viúva
Milene, quase quatro meses depois do ocorrido.
Os
jornais diários (...) nem se importaram com as circunstâncias
de um suicídio único na história da humanidade.
Se fosse verdade a dedução do bilhete, Bruno
se matara enquanto estava dirigindo a 90 quilômetros
por hora, na movimentada estrada de acesso a Belém,
com um único tiro, disparado de uma distância
mínima de três metros, de cima para baixo, a
partir da esquerda (embora fosse destro). Logo depois da notícia
do bilhete, o silêncio da imprensa foi total. (Pinto,
1997a : 2).
Na verdade, o jovem empresário usava sua empresa de câmbio
e turismo como disfarce para o seu principal negócio:
a cobertura do narcotráfico internacional. Lúcio
Flávio Pinto (2000) informa ainda que, em 1991, Bruno
pode ter intermediado a passagem de 100 milhões de dólares
em cocaína para a Europa e para os Estados Unidos.
O
assassinato de Bruno Meira Matos até hoje não
está elucidado.
Uma
caminhonete emparelhou com o automóvel dele, a 90 quilômetros
por hora em uma estrada de acesso a Belém. Uma pessoa
fez um único disparo, atingindo Bruno na cabeça.
Ele morreu na hora. Ninguém viu os ocupantes do veículo
que serviu ao crime, nem viu matérias a respeito na
grande imprensa (Pinto, 2000: 8).
O
escândalo Watergate, importante episódio político
dos Estados Unidos nos últimos anos, é a prova
concreta de um dos mais nobres princípios que rege um
bom jornalismo: a investigação. A investigação
profunda da imprensa, comandada pelo jornal Washington Post,
por meio dos repórteres Bob Woodward e Carl Bernstein,
levou à renúncia do presidente Richard Nixon em
agosto de 1974. O presidente comandava a mais nefasta das equipes
governamentais instalada na Casa Branca.
Este
caso é apontado pelos especialistas do jornalismo brasileiro
de que uma imprensa de fato livre é condição
para uma democracia livre.
Segundo
Bahia, "o sistema pluralista se beneficia todas as vezes
em que o jornalismo pode atuar sem qualquer embaraço
para denunciar irregularidades e preservar a ética das
instituições. Ao agir nesse sentido se reaproxima
do público, readquirindo confiança" (1990:301).
Por
várias denúncias não serem levadas às
últimas conseqüências é que até
hoje o caso Fonteles continua sem elucidação,
uma vez que todos os mandantes da morte do deputado estão
impunes, o que também ocorre com o assassinato de Bruno
Meira Matos. Matérias destes casos passaram a ser monopólio
das páginas do alternativo. Segundo Lúcio Flávio
Pinto, nesses anos todos de jornalismo independente é
possível que tenha noticiado alguma informação
sujeita a questionamentos, contrariando pessoas amigas, mas
"o que não pode haver é esse silêncio
conivente e oportunista da imprensa" (Pinto, 2001).
Como
todo jornal da grande imprensa ou alternativo, o Jornal Pessoal
cometeu erros ao longo da sua existência, mas nenhum deles
foi grave o bastante para impedir de se buscar a informação
por todos os ângulos possíveis. Ao constatar alguma
notícia errada, o jornalista imediatamente corrige a
imprecisão, divulgando-a nas páginas do alternativo,
sem cercear ou proibir qualquer manifestação que
chegue a título de publicação.
3.
Jornalismo pessoal e a ausência d epublicidade
Muito embora se faça jornalismo em equipe, começando
do pauteiro e passando pelos repórteres, editores, chefes
de reportagens e outros profissionais, no caso específico
do Jornal Pessoal, de formato quatro (menor que tablóide
e maior que ofício), 12 páginas e circulação
quinzenal, toda a produção jornalística
é feita por Lúcio Flávio Pinto. A única
exceção é com relação às
charges, assinadas pelo humorista gráfico Luiz Pinto.
Segundo
Lúcio Flávio Pinto, "não se reduziu
a jornal-de-um-sozinho por vontade, mas por necessidade. É
o tamanho viável para seus recursos" (Pinto, 2001).
A fim de compensar a falta de equipe, há em vários
números do periódico um certo apelo para os leitores
comprá-lo e propagá-lo. Esta é a única
ajuda que solicita de quem considera positiva a existência
do alternativo (Pinto, 2001).
Diferentemente
dos jornais-empresa e de vários alternativos, como O
Pasquim, do Rio de Janeiro, e o Varadouro, no Acre, dos anos
70, o nanico paraense não possui nenhuma publicidade
que o sustente, dependendo exclusivamente do seu leitor, que
adquire o jornal por meio de assinatura ou comprando em bancas
espalhadas em Belém pelo preço de R$ 3,00. Para
outros municípios do Pará, outros estados e para
o exterior são enviadas 180 cortesias. Similarmente ao
Bandeira 3, uma criação também de Lúcio
Flávio Pinto, o Jornal Pessoal circula com dois mil exemplares
até hoje.
4.
Processos judiciais
O jornalismo investigativo praticado nas páginas do periódico
já trouxe sérias dores de cabeça para Lúcio
Flávio Pinto, que responde, desde outubro de 1992, a
processos judiciais em Belém do Pará. Uma via
crucis forense que já dura 13 anos. Entre as pessoas
que estão processando o jornalista destaca-se Rosângela
Maiorana Kzan, diretora das Organizações Romulo
Maiorana (ORM), da qual fazem parte o jornal O Liberal, uma
televisão afiliada à rede Globo e emissoras de
rádio. Neste caso, foi porque o jornalista publicou matérias
sobre supostas cisões internas no grupo O Liberal.
A Prefeitura de Belém, gestão Edmilson Rodrigues,
também entrou na justiça porque o Jornal Pessoal
criticou a administração petista em duas edições
extras de julho de 2000. E por textos com temáticas envolvendo
o que seria a maior grilagem de terras no vale do Rio Xingu,
no Pará, uma área que abriga uma grande concentração
de mogno da Amazônia, considerada esta espécie
como ouro verde no mercado, estão: o empresário
Cecílio do Rego Almeida, o desembargador (hoje aposentado)
João Alberto Paiva, a desembargadora Maria do Céu
Cabral Duarte e Wandeir dos Reis, todos alegando ofensa à
honra pelas publicações do alternativo.
5.
Agressão e ameaça de morte
No
último dia 21 de janeiro de 2005, Lúcio Flávio
Pinto foi espancando e ameaçado de morte pelo empresário
Ronaldo Maiorana, diretor-editor-corporativo do jornal O Liberal,
no Restô do Parque, restaurante administrado pelo Estado,
em Belém do Pará. Ignorando os caminhos legais
da Justiça, Maiorana, que é advogado e integrante
da Comissão de Defesa do Direito à Liberdade de
Imprensa da OAB/PA, contou com a ajuda de dois policiais militares,
que não se intimidaram com cerca de 170 pessoas no local.
O
motivo da agressão foi a edição do Jornal
Pessoal, nº 337, intitulada "O rei da quitanda".
Nela, o jornalista afirma que os irmãos Maiorana transformaram
os seus veículos de comunicação no Pará
em um balcão de negócios. Um texto crítico,
denunciativo, em que alerta o público do Estado para
a manipulação das notícias.
A
agressão ao jornalista ganhou destaque nacional e internacional.
Maiorana afirmou para o repórter do IG, Rodrigo Miotto,
dia 24 de janeiro, que praticou um "ato impensado"
e disse que já está arrependido. Mas nenhuma nota
foi divulgada em seus veículos de comunicação.
A exceção foi a coluna nacional de Elio Gaspari,
do dia 06 de fevereiro de 2005, publicada na página 14,
do caderno Painel, de O Liberal.
O
espancamento do jornalista, seguido de ameaça de morte,
só reforça a tese de que as formas de barbárie
e de opressão continuam latentes na sociedade. O pensamento
de Adorno, em Palavras e sinais, é crucial a esse respeito:
"(...) Fala-se da iminente recaída na barbárie.
Mas ela não é iminente, uma vez que Auschwitz
foi a recaída; a barbárie subsistirá enquanto
perdurarem, no essencial, as condições que produziram
aquela recaída; Esse é todo o horror" (1995:
104). Nesse sentido, o poder insano produz e continuará
reproduzindo a barbárie.
Diante
do exposto, resgata-se a seguinte pergunta que motivou este
trabalho: Poderão as décadas de 80 e 90, bem como
o início do século XXI, ser considerados como
uma era de amplo acesso à informação? Os
jornalistas têm liberdade de expressão quando criticam
os detentores do poder ou contrariam interesses econômicos,
principalmente em regiões mais afastadas dos centros
atualizados do Brasil?
É
possível até justificar que o País destas
décadas estava recém-saído do regime militar.
Mas, o que dizer do cerceamento diário da produção
jornalística nas redações em pleno século
XXI? Na Amazônia, recentemente, a forma de cerceamento
foi o espacamento público e ameaça de morte do
jornalista Lúcio Flávio Pinto, que com 40 anos
de profissão, lançou o Jornal Pessoal, pois não
encontrou espaço crítico na grande imprensa para
manifestar seu trabalho investigativo.
Bibliografia
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Theodor W. Palavras e sinais. Petrópolis: Vozes, 1995.
Trad. Maria Helena Ruschel.
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Um cavalo de Tróia. Jornal Pessoal, Belém, nº
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O rei da quitanda. Jornal Pessoal, nº 337, 1. quinz. de
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[Entrevista]. Belém, jan. 2001. Entrevista concedida
a Célia Regina Trindade Chagas Amorim.
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[Entrevista]. Belém, set. 2004. Entrevista concedida
a Célia Regina Trindade Chagas Amorim.
Site:
www.ig.com.br.
Disponível em Repórter IG, acessado em 24 de janeiro
de 2005.
Notas
[1]
No que diz respeito à grande imprensa como fiel colaboradora
do regime militar, destaca-se a atuação do jornal
O Estado de S. Paulo que, como outros veículos de comunicação,
participa da conspiração de militares e civis
para derrubar João Goulart da presidência da República,
e assim instalar o golpe de 1964. Cf. Bahia, (1990: 323). Também
sobre esse assunto, ver Braga (1991: 82) em que o autor enfatiza
que a obediência da grande imprensa aos militares foi
tamanha que muitas empresas de comunicação não
só sobreviveram ao período, mas também
cresceram como indústria.
[2]
O jornalista Lúcio Flávio Pinto trabalhou como
professor no Centro de Estudos Latino-Americanos da Universidade
da Flórida, em Gainesville (EUA), entre 1983/84, e no
Departamento de Comunicação Social da Universidade
Federal do Pará (1991/97). É um dos maiores conhecedores
da Amazônia, com publicação de dez obras
individuais, entre elas Amazônia: no rastro do saque,
publicada em 1980, pela HUCITEC, além de ter participação
em diversos livros coletivos.
[3]
Sobre liberdade de imprensa, que existe "como princípio
inegociável para beneficiar a sociedade democrática
em sua dimensão civil e pública, não como
prerrogativa de negócios sem limites na área da
mídia e das telecomunicações, em dimensões
nacionais e transnacionais" ver Bucci (2000:12).
*Célia
Regina Trindade Chagas Amorim é doutoranda do Programa
de Comunicação e Semiótica da Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo, jornalista
e bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico
e Tecnológico (CNPq). E-mail: silvamor@ig.com.br.
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