Identificação
de narrativas criativas
no jornalismo impresso diário brasileiro
Por Celso Luiz Falaschi*
Resumo
Nesta
pesquisa, investigamos a presença de narrativas
criativas nos jornais impressos de circulação
diária do país, assim como procuramos identificar
se os autores das matérias classificadas como tal
também podem ser considerados criativos. Num primeiro
momento, foram analisados 16 exemplares de 11 diferentes
jornais brasileiros, totalizando 176 edições,
colhidas no período de 25 de junho de 2004 a 10
de julho de 2004. Buscamos caracterizar as reportagens
identificadas como criativas nos parâmetros do Jornalismo
Literário. A identificação dos autores
de 61 reportagens consideradas criativas foi o passo adotado
para tentar identificar os níveis de criatividade
desses sujeitos.
|
Ilustração:
Jerry Nelson

|
Participaram
dessa amostra 79 jornalistas, 57% do sexo masculino e 43% do
sexo feminino, na faixa de 20 anos a mais de 60 anos de idade,
com experiência profissional oscilando entre 1 ano e mais
de 30 anos.
Os
sujeitos foram divididos em dois segmentos, o Grupo 1 com 41
sujeitos e o Grupo 2 com 38 integrantes, todos eles profissionais
de imprensa atuantes nos jornais "Correio Braziliense",
"O Estado de S. Paulo" e "Zero Hora". Foi
aplicado um instrumento com 14 questões, abertas e fechadas.
A análise dos resultados permitiu concluir que há
níveis de criatividade no jornalismo impresso diário
brasileiro, principalmente pela prática das técnicas
do Jornalismo Literário, assim como os sujeitos apresentam
indicativos de que possuem características ligadas à
Criatividade Verbal, como Curiosidade, Motivação,
Fluência Verbal, Flexibilidade de Idéias, Idéias
Originais e Inovadoras e Idéias Enriquecidas e Elaboradas.
Palavras-Chave
Criatividade
Verbal / Jornalismo / Jornalismo Literário / Jornalistas
1.
Introdução
Esta
pesquisa foi desenvolvida em duas etapas. Inicialmente, buscou
identificar narrativas criativas, dentro da vertente do jornalismo
literário, na grande imprensa brasileira, mediante a
leitura e classificação de 11 dos 15 jornais diários
com maiores médias de circulação no país,
o que totalizou 176 exemplares dos jornais "Folha de S.
Paulo" (São Paulo), "O Globo" (Rio de
Janeiro), "O Estado de S. Paulo" (São Paulo),
"O Dia" (Rio de Janeiro), "Correio do Povo"
(Porto Alegre), "Zero Hora" (Porto Alegre), "Lance!"
(São Paulo), "Estado de Minas" (Belo Horizonte),
"Jornal do Brasil" (Rio de Janeiro), "Correio
Braziliense" (Brasília) e "Gazeta do Povo"
(Curitiba). Foram excluídos quatro periódicos
de grande circulação - "Extra" (Rio
de Janeiro), "Diário de S. Paulo" (São
Paulo), "Agora" (São Paulo) e "Jornal
da Tarde" (São Paulo) por pertencerem a outras empresas
jornalísticas já representadas na amostra, delimitada
no período de 25 de junho de 2004 a 10 de julho do mesmo
ano.
Num
segundo momento, aplicou-se um questionário com perguntas
abertas e fechadas a dois grupos de jornalistas, com a finalidade
de identificar suas características criativas. Os resultados
apontam, em primeiro lugar, que a prática do jornalismo
literário é uma resposta viável para a
melhoria de qualidade da imprensa brasileira e, em segundo,
que as escolas de jornalismo precisam mudar seus conceitos para
colocar no mercado profissionais capazes de atuar nessa vertente
de produção de textos.
2.
Narrativas da Vida Real
Para
realizar o estudo sobre a presença de narrativas da vida
real no jornalismo impresso diário brasileiro, optou-se
por focalizar a pesquisa nos veículos de comunicação
que atendem ao conceito de "grande imprensa".
Para
tanto, buscou-se referencial nas estatísticas de tiragem
dos periódicos de circulação diária
vinculados à Associação Nacional de Jornais,
evitando, assim, uma escolha aleatória. Os jornais escolhidos
tinham as seguintes médias diárias de tiragens,
conforme ranking disponibilizado pela ANJ - Associação
Nacional de Jornais -, com base em dados auditados pelo IVC
- Instituto de Verificação de Circulação
- em 2003:
Tiragens
dos Jornais Analisados
Posição
|
Veículo
|
Média
Diária
|
Cidade
|
1º
|
Folha
de S.Paulo
|
314.908
|
São
Paulo
|
2º
|
O
Globo
|
253.410
|
Rio
de Janeiro
|
3º
|
O
Estado de S.Paulo
|
242.755
|
São
Paulo
|
4º
|
O
Dia
|
196.846
|
Rio
de Janeiro
|
5º
|
Correio
do Povo
|
181.560
|
Porto
Alegre
|
6º
|
Zero
Hora
|
176.696
|
Porto
Alegre
|
7º
|
Lance
|
78.140
|
São
Paulo
|
8º
|
Estado
de Minas
|
74.017
|
Belo
Horizonte
|
9º
|
Jornal
do Brasil
|
72.469
|
Rio
de Janeiro
|
10º
|
Correio
Braziliense
|
52.441
|
Brasília
|
11º
|
Gazeta
do Povo
|
47.808
|
Curitiba
|
Para
identificação das narrativas da vida real (ou
narrativas da realidade ou narrativas criativas de não
ficção), tomou-se por base os conceitos definidos
por Norman Sims (1999) como características fundamentais
do Jornalismo Literário, a saber:
Imersão
do repórter na realidade
O
jornalista deve gastar o tempo que for necessário para
conhecer efetivamente o objeto de seu trabalho em Jornalismo
Literário. Isso pode ser coisa de dias ou de anos, dependendo
do assunto, de sua importância e de onde será veiculado
(jornal, revista ou livro-reportagem). Norman Sims considera
a imersão a chave da compreensão e diz que, se
ela não pode ser alcançada, deve ser pelo menos
tentada. A imersão pode ser vista como experiência
vivida, muito diferente de algo percebido à primeira
vista, numa rápida olhada, como acontece nas coberturas
cotidianas do jornalismo convencional.
Sims diz que a imersão denota audácia, autoridade,
credibilidade e emoção.
Voz
autoral
Em
Jornalismo Literário, diz Sims, o jornalista pode ser
um narrador que conta uma história em detalhes, sem interferir
no conteúdo, como também alguém que usa
seus próprios filtros para contá-la, porém
sempre com a preocupação de evitar distorções.
A voz autoral é considerada tão importante nesse
tipo de produção jornalística quanto a
ambientação de um acontecimento na estrutura textual.
Estilo
Reportagens
jornalísticas em estilo literário têm estrutura
ancorada na realidade, mas o jornalista pode diferenciar seu
texto emprestando recursos da narrativa ficcional, como o suspense,
o "foreshadowing" (antecipação) e os
"flash-backs" (a memória dos personagens e
a sua própria, eventualmente), assim como o ponto de
vista pode ser expresso na primeira ou terceira pessoa (narrador
onisciente). Como na ficção, o estilo deve ser
ajustado de modo a causar impacto no público-alvo.
Precisão
de dados e informações
O
Jornalismo Literário mantém fiel compromisso com
as premissas do jornalismo, tais como factualidade e veracidade.
Assim, não cabe ao repórter ficcionar, isto é,
inventar cenas, personagens e declarações. O repórter
escreve aquilo que viu e ouviu e, às vezes, sentiu (mesmo
de forma subjetiva, mas como emissão de um ponto de vista,
permitido nesse gênero jornalístico). É
preciso lembrar sempre que a precisão das informações
dá credibilidade ao jornalista. Sims diz que dados e
informações devem ser usados com cuidado, não
só pela responsabilidade e compromisso do repórter
com o leitor, mas consigo mesmo.
Uso
de símbolos (inclusive metáforas)
Sims
sugere que ao abordar determinado acontecimento no formato literário,
o jornalista coloca seu subconsciente em ação,
no que diz respeito aos simbolismos que ele usa e o que espera
alcançar quando busca entender personagens e acontecimentos
de acordo com seus conteúdos arquetípicos, osmotípicos
e lidertípicos.
Digressão
É
a busca de novas possibilidade de tratar um assunto, desviando,
fugindo, afastando-se do tema e personagens centrais, para criar
novas possibilidades de compreensão da realidade. É,
também, a busca de referenciais contextualizados que
tornam mais claros determinados acontecimentos e atitudes.
Humanização
Narrativas
jornalísticas procuram compreender o mundo e, portanto,
as pessoas, mas de maneira profunda, para que a compreensão
da realidade pelo público-alvo seja algo definitivo.
Não deve buscar apenas um relato frio e distante, mental,
mas levar a vida das pessoas - em todos os seus significados
- para as páginas dos jornais e revistas, ondas dos rádios
e telas de televisão e computadores, numa narrativa que
envolva, também, as emoções.
Essa
primeira etapa da pesquisa identificou 78 reportagens com essas
características, como mostra o gráfico a seguir:
Narrativas
Criativas na Grande Imprensa
Veículo
|
Narrativas
Criativas
|
|
F
|
%
|
Correio
Braziliense
|
29
|
37,1
|
O
Estado de S. Paulo
|
18
|
23,1
|
Zero
Hora
|
14
|
18,0
|
Jornal
do Brasil
|
05
|
6,5
|
O
Globo
|
04
|
5,1
|
Gazeta
do Povo
|
03
|
3,8
|
Estado
de Minas
|
02
|
2,6
|
O
Dia
|
02
|
2,6
|
Folha
de S. Paulo
|
01
|
1,2
|
Lance!
|
-
|
-
|
Correio
do Povo
|
-
|
-
|
Total
|
78
|
100,0
|
Os
números, no geral, são pouco significativos, se
comparados aos de outros países, nos quais as narrativas
da realidade ocupam destaque na imprensa diária, a exemplo
do que ocorre nos Estados Unidos e Dinamarca, por exemplo (Lima,
2004).
Mas
os números de 3 dos 11 jornais analisados foram surpreendentes,
pois mostraram a presença desse tipo de material jornalístico
com numa freqüência superior à esperada e
não apenas nas edições dominicais:
"Correio
Braziliense" (29 narrativas), "O Estado de S. Paulo"
(18) e "Zero Hora" (14), num total de 61 reportagens
preenchendo os requisitos do Jornalismo Literário, o
que equivale a 78,2% da amostra coletada. E não é
por acaso que esses três veículos de comunicação
têm investido em melhoria da qualidade de seus conteúdos,
uma vez que em termos gráficos já se comparam
aos melhores e mais importantes do mundo.
Conforme
Ana Dubeux, editora-chefe do "Correio Braziliense",
o projeto iniciado por Ricardo Noblat, em 1990, continua em
execução e aperfeiçoamento. Ela ressalta
que mesmo nas coberturas do cotidiano em Brasília, sede
dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, há
recomendação para que os repórteres encontrem
novas angulações e desenvolvam narrativas humanizadas,
de forma a atrair a atenção do leitor para acontecimentos
que aparentemente são de interesse apenas daqueles que
os discutem, mas interferem diretamente nas rotinas de todos
os brasileiros.
Para
a editora do "Correio Braziliense", a maior dificuldade
para manutenção desse patamar de qualidade informativa
é a falta de pessoal habilitado a produzir textos de
qualidade. Em sua prática diária, ela constata
que os jornalistas não saem das faculdades devidamente
preparados e que por isso é necessário garimpar
talentos, não só em Brasília, mas também
em outros estados. Aliás, dos três jornais analisados,
o "Correio" é o que apresenta, na amostra de
79 sujeitos, a maior diversidade nos estados de origem de seus
profissionais jornalistas: 13 estados diferentes, embora 10
dos 30 sujeitos considerados criativos nessa redação
tenham nascido no Distrito Federal.
Essa
diversidade é bem menor em "O Estado de S. Paulo",
onde os 19 sujeitos são originários de 6 estados,
14 deles de São Paulo. Dos 30 sujeitos de "Zero
Hora", 27 são oriundos do próprio Rio Grande
do Sul; os outros três são, cada um, do Distrito
Federal, Santa Catarina e São Paulo. A editora do caderno
Metropolitano/Cidades, Márcia Glogowski, em entrevista
na sede do "Estadão", também admitiu
a dificuldade em recrutar profissionais já habilitados
à produção das narrativas criativas.
Apesar
desse quadro, "O Estado", conforme seu diretor de
Redação, Sandro Vaia, quer uma presença
mais contínua de "matérias para ler",
isto é, reportagens com textos envolventes. Tanto é
que o novo projeto gráfico-editorial da empresa, implantado
em 17 de outubro de 2004, privilegia as narrativas criativas
da realidade, que, desde então, têm sido mais freqüentes
do que no período delimitado pela pesquisa.
Segundo
seus editores, "Zero Hora", com sede em Porto Alegre,
não tem dificuldade para contratar repórteres
que tenham bom texto. Eles revelam que o jornal é uma
vitrine para os jornalistas gaúchos, que procuram ali
trabalhar não só pelos bons salários e
benefícios trabalhistas oferecidos, mas também
pelas possibilidades de exposição profissional
decorrente da produção de textos de melhor qualidade,
projeto que vem sendo ampliado para os outros jornais do grupo,
no interior do Rio Grande do Sul e Florianópolis. O diretor
de Redação, Marcelo Rech, explicou que o gaúcho
lê com muita assiduidade, não apenas jornais, mas
também livros, e que por isso tem uma formação
intelectual diferenciada em relação aos brasileiros
de outros estados. Esse preparo intelectual, disse, leva a uma
melhor produção de textos.
É
evidente que esses projetos de produção contínua
e freqüente de narrativas criativas nesses três periódicos
não é diletantismo de seus proprietários
e diretores de redação. Os diretores entrevistados
admitem, sim, que buscam um posicionamento consistente para
seus produtos, que seja fortemente marcado pela qualidade gráficoeditorial.
Para
atrair novos leitores, assim como anunciantes, entendem que
é necessário diferenciar o jornalismo impresso
diário de outros veículos de comunicação
mais ágeis, como o rádio e a televisão
(aberta), que chegam gratuitamente em praticamente todas as
residências brasileiras, assim como a internet, nem sempre
de acesso gratuito, mas também levando informações
em tempo quase real aos ouvintes / telespectadores / leitores
interessados.
Pesquisa
realizada por Morelli (2002) mostra a significativa evolução
de tiragem do "Correio Braziliense", principalmente
após as mudanças introduzidas por Ricardo Noblat
que, além de investir em reportagens com narrativas humanizadas
e projeto gráfico ousado, adquiriu novo e moderno equipamento
de impressão, o que garantiu melhor acabamento às
suas páginas. Morelli revela que esse jornal saiu de
uma tiragem de 20 mil exemplares em sua inauguração,
em 1960, para 65.400 exemplares de segunda-feira a sábado
e 98.800 exemplares aos domingos, em 1998, com o projeto de
Noblat já consolidado. A pesquisadora mostra, ainda,
que o maior salto ocorreu de 1980 para 1990, quando a tiragem
subiu de 17 mil para 34 mil, chegando a 54.300 em 1995.
Conforme
Marcelo Rech, diretor de Redação, "Zero Hora"
é o único entre os 15 maiores jornais brasileiros
a manter um ritmo de crescimento em suas tiragens médias
diárias, na ordem de 2% a 2,5%, o que é bastante
expressivo, uma vez que, como aponta a Associação
Nacional de Jornais, os periódicos brasileiros têm
registrado contínuas quedas de tiragens nos últimos
anos. Ele acredita que a mudança do padrão editorial,
com matérias mais elaboradas e envolventes, é
um dos fatores, senão o principal, desse movimento diferencial,
em comparação com seus co-irmãos.
Além
de mostrar que há espaço para o jornalismo literário
na imprensa brasileira, a pesquisa mostrou, também, que
não existem limites para a produção desse
tipo de texto, mais elaborado e mais envolvente. As chamadas
narrativas da vida real aparecem nas mais diferentes editorias,
como mostra a tabela seguinte:
Narrativas
criativas por editoria
|
Correio
Braziliense
|
O
Estado de S.Paulo
|
Zero
Hora
|
Editoria
|
Brasil
|
3
|
0
|
0
|
Caderno
2
|
0
|
3
|
0
|
Cidades
|
12
|
7
|
0
|
Cultura
|
9
|
0
|
0
|
Economia
|
1
|
5
|
0
|
Especial
|
1
|
0
|
3
|
Esportes
|
0
|
0
|
4
|
Geral
|
0
|
3
|
2
|
Lugares
|
1
|
0
|
0
|
Mundo
|
0
|
0
|
2
|
Política
|
2
|
0
|
0
|
Polícia
|
0
|
0
|
2
|
Segundo
Caderno
|
0
|
0
|
1
|
Total
|
29
|
18
|
14
|
O
resultado mostra que bons narradores podem contar suas históricas
verídicas não apenas em reportagens do cotidiano
ligadas a comportamento e cultura, mas em qualquer área
de abrangência jornalística, indo de Esportes e
Polícia, até Política e Economia, para
surpresa de muitos acadêmicos e profissionais, que, a
priori, só "percebem" o jornalismo literário
nas chamadas matérias frias, produzidas com antecedência.
A pesquisa mostrou, ao contrário, que esse tipo de produção
é viável em qualquer área e nos mais diversos
tipos de acontecimentos de interesse público.
A
presença de narrativas da realidade em outros jornais
diários brasileiros de grande circulação
teve também alguns resultados que merecem reflexão.
Além desse primeiro grupo, integrado por "Correio
Braziliense", "O Estado de S. Paulo" e "Zero
Hora", foram alocados, num segundo grupo, outros seis jornais:
"Folha de S. Paulo", "O Globo", "O
Dia", "Estado de Minas", "Jornal do Brasil"
e "Gazeta do Povo". O primeiro deles é o periódico
de maior circulação no país, com tiragem
diária média de 314.908 exemplares (dados de 2003),
ampla cobertura nacional e internacional, considerável
espaço para emissão de opiniões, mas caracterizado
por textos curtos com frases curtas, quase telegráficas,
modelo de seu projeto editorial, defendido categoricamente por
seu diretor de Redação, Otávio Frias Filho.
Dos
três jornais cariocas, o de maior evidência é
"O Globo", com tiragem diária média
de 253.410 exemplares, com projeto gráfico ousado, boas
pautas e pluralidade de vozes, mas suas reportagens não
se enquadram nos fundamentos do Jornalismo Literário.
Entre as 78 narrativas criativas identificadas no período
da pesquisa, apenas 4 delas (5,1%) estavam em "O Globo",
em que pese sua fama de jornal com textos de qualidade entre
os jornalistas brasileiros. O mesmo ocorre com "O Dia"
(196.846 exemplares - 2 narrativas criativas, equivalendo a
2,6% do total) e "Jornal do Brasil" (72.469 exemplares
- 5 narrativas criativas, correspondendo a 6,5% do total), o
primeiro com uma linguagem mais popular, o outro ainda tradicional.
Eventualmente publicam reportagens especiais, algumas delas
cumprindo as características básicas do Jornalismo
Literário.
Nesse
grupo aparecem dois jornais de capitais de porte médio
e grande importância econômica e cultural no país,
Belo Horizonte e Curitiba, cujos jornais considerados na amostra,
"Estado de Minas" (74.017 exemplares, com 2 narrativas
criativas, equivalendo a 2,6% do universo identificado) e "Gazeta
do Povo" (47.808 exemplares, 3 narrativas e 3,8% das narrativas),
passaram por recentes mudanças de ordem gráfico-editorial
e buscam um melhor posicionamento no mercado editorial brasileiro.
Os dois apresentam diagramação atraente, reportagens
especiais freqüentes com textos de boa qualidade, próximos
do Jornalismo Literário, mas ainda distante do primeiro
grupo.
Finalmente,
"Lance!" e "Correio do Povo" ficaram num
terceiro grupo, por não apresentarem nenhuma produção
que se enquadrasse nos parâmetros do jornalismo literário.
A análise das 16 edições do diário
esportivo "Lance!" revelou um produto ágil
e organizado, com boa sintonia de fotos e textos nas reportagens
em profundidade, ou explicativas, nos dias seguintes aos jogos
entre os chamados grandes times de futebol ou eventos esportivos
de relevância nacional e internacional.
Para
esses eventos, o tablóide dedica de duas a três
páginas, com fotos dos principais momentos da disputa,
avaliações de atletas e técnicos e gráficos.
Mas, de modo geral, os textos são frios, sem a agilidade
das atividades esportivas, sem traços de humor e com
pouca opinião. As charges e caricaturas, gêneros
ilustrativos que revelam opinião e humor, bem ao gosto
do brasileiro, torcedor apaixonado e bem-humorado, são
pouco exploradas por esse veículo. E, finalmente, seus
textos poderiam ser mais envolventes, mediante a utilização
das técnicas de narrativas da realidade.
O
outro jornal, também tablóide, é o gaúcho
"Correio do Povo", da tradicional Empresa Jornalística
Caldas Júnior, fundado em outubro de 1895 e atualmente
com impressão simultânea em mais duas cidades,
além de Porto Alegre, mediante transmissão digital
por satélite. Apesar desse avanço tecnológico,
é um produto de diagramação tradicional,
que explora fotografias coloridas apenas na capa e contra-capa
e, internamente, apenas em anúncios publicitários.
Internamente apresenta poucas fotografias e, quando o faz, são
de tamanho que não extrapolam duas colunas de largura
(13,5 cm). O pouco espaço destinado às ilustrações
causa a falsa impressão de que o maior espaço
para textos signifique reportagens extensas de qualidade. Não
é o que acontece.
"Correio
do Povo" tem por tradição apresentar matérias
curtas, ao estilo das notícias analíticas e sintéticas
(notas). Raramente há espaço para reportagens
e, assim sendo, muito menos para textos envolventes.
O estilo de notícias curtas do "Correio do Povo"
é, no entanto, muito apreciado no Rio Grande do Sul,
onde esse jornal tem a maior tiragem média diária
(181.560 exemplares), cinco mil a mais que "Zero Hora",
da Rede Brasil Sul de Comunicação (RBS). Tanto
que essa empresa lançou um segundo diário de circulação
restrita à Grande Porto Alegre, também com notícias
curtas, com foco principal em Esportes e Polícia, mas
com muitas páginas coloridas e mulher bonita (sem nudismo)
na capa. O "Diário Gaúcho" alcançou
o patamar de 120 mil exemplares/dia.
Esses
números revelam que a produção de reportagens
em profundidade, com estilo narrativo, em ocasiões especiais
ou não, em qualquer dia da semana, está se tornando
mais freqüente entre os jornais impressos brasileiros de
maior circulação diária, o que abre um
grande espaço para a tão debatida e esperada mudança
de patamar de qualidade da imprensa brasileira.
Num
universo de 2.993 jornais em circulação no país,
entre diários, semanais, quinzenais, mensais, bissemanais
e trissemanais, esse resultado ainda não é muito
significativo, mas representa um grande avanço, depois
de quase três décadas em que se dedicaram ao chamado
jornalismo declaratório ou convencional, caracterizado
por matérias curtas, objetivas e frias. Os dados disponibilizados
pela Associação Nacional de Jornais (ANJ) revelam
que de 2.993 títulos de jornais registrados no país
em 2003, 959 estão em São Paulo, o que significa
32% do total. Entre os 529 jornais de circulação
diária, São Paulo também está na
dianteira, com 165 diários, ou seja, 31% do total.
Considere-se
que implantar novas linguagens em novos produtos é muito
mais fácil do que em periódicos já estabelecidos
e/ou tradicionais. Esse é um campo fértil para
a inovação, uma vez que o número de jornais
passou de 1.980 em 2001 para 2.993 em 2003, um incremento de
66%. Só no Estado de São Paulo apareceram 38 novos
diários nesse mesmo período.
Diante
dessa mostra de produção de narrativas da vida
real em 9 dos 11jornais
analisados, e que estão entre aqueles de maior tiragem
no país, pode-se afirmar, então, que a prática
do Jornalismo Literário na imprensa escrita diária
vem se ampliando lenta, mas consistentemente.
O
sucesso de "Correio Braziliense", "O Estado de
S. Paulo" e "Zero Hora", em dois posicionamentos
distintos, pode se constituir em modelo para outros jornais,
assim como o "Diário Carioca" e o "Jornal
do Brasil" foram modelo para toda a imprensa brasileira
a partir de 1949, quando o primeiro trouxe, e o segundo consolidou,
o modelo norte-americano de produção jornalística
calcado na objetividade, concisão e isenção.
Leve-se em consideração, aqui, o fato de que esses
três jornais representam 27,9% da tiragem total dos 11
veículos analisados, isto é, num universo de
1.691.050 exemplares, os três são responsáveis
por 471.892 exemplares diários.
Os
dois posicionamentos distintos citados referem-se à abrangência
de cobertura do "Estadão", de caráter
nacional e referência internacional, e do "Correio"
e "ZH", mais regionais. Esses modelos podem se constituir,
portanto, em referências tanto para jornais regionais
de porte médio, como para os nacionais, de grande porte.
Não
se pretende concluir que esses dados devam indicar a adoção
exclusiva das narrativas da vida real na cobertura de todos
os assuntos, de todas as editorias, de todos os diários
brasileiros. Mas recomendar a incorporação dessa
modalidade de produção jornalística, em
meio aos demais gêneros informativos, como notícias
analíticas e sintéticas e as reportagens de fatos,
é, antes de mais nada, trabalhar pela melhoria da qualidade
do conteúdo editorial desses veículos de comunicação.
Acrescentem-se,
a esse esforço das três empresas jornalísticas,
os projetos pedagógicos de algumas faculdades de jornalismo,
que têm procurado introduzir disciplinas teóricas
e práticas voltadas aos textos de qualidade, a exemplo
de "Criatividade em Jornalismo" e "Jornalismo
Literário", na Puc-Campinas, e o estímulo
à produção de livros-reportagem como projetos
de conclusão de curso nessa mesma instituição,
assim como em outras como Universidade de Taubaté, Universidade
de São Paulo, Universidade de Uberaba, Universidade Católica
de Santos e Faculdade de Comunicação Social Cásper
Líbero (SP), conforme amostras no evento anual EXPOCOM
- Exposição da Pesquisa Experimental em Comunicação
-, realizado pela Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares
da Comunicação (Intercom).
É
preciso, porém, mudar estruturas curriculares nos cursos
de jornalismo por todo o país. É preciso investir
no potencial criativo dos estudantes, oferecendo disciplinas
que ultrapassem as barreiras das técnicas da objetividade
e se ampliem para as vastas possibilidades que a criatividade
e a literatura oferecem para ampliar o necessário arcabouço
intelectual de todo jornalista. Seria também interessante
desmontar a estrutura tradicional das salas de aula, com carteiras
perfiladas, para um estilo mais compreensivo e participativo,
como o dos círculos e dos estudos em grupo, além
de incorporar o espírito de redação, normalmente
circunscrito a laboratórios de produção
de poucos produtos impressos, televisivos e radiofônicos,
a todas as salas de aula.
É
claro que uma mudança especial, desse porte, deve ser
precedida da mudança de paradigma de professores e dirigentes
escolares, mas também dos alunos e de seus responsáveis.
E para que tudo isso funcione, é necessária uma
ampla reforma dos espaços de aula e seu conseqüente
aparelhamento com equipamentos de última geração.
3.
Características Criativas dos Jornalistas
Diante
da constatação de que há produção
de reportagens criativas no jornalismo impresso de circulação
diária do país, passou-se, na segunda etapa, para
a tentativa de identificação das características
criativas dos jornalistas que produziram essas matérias.
Nessa
etapa trabalhou-se com dois grupos de profissionais. O primeiro
foi integrado pelos autores das reportagens consideradas narrativas
da vida real e, o segundo, por aqueles que, no período
da pesquisa - 25/06/2004 a 10/07/2004 -, não tiveram
nenhuma reportagem publicada que atendesse as normas do Jornalismo
Literário.
Considerando-se
as características da pessoa criativa, conforme definidopor
Wechsler (2002), pôde-se concluir que os 79 sujeitos da
amostra podem ser considerados criativos. Os integrantes do
Grupo 1 (41 sujeitos), mais do que os Grupo 2 ( 38 sujeitos),
pois produziram e tiveram publicadas narrativas criativas (as
chamadas narrativas da vida real) no período de análise.
Em termos de autopercepção criativa, 80,5% do
Grupo 1 se colocam nessa situação, assim como
81,6% do Grupo 2.
A
conclusão também é afirmativa quando se
analisam, entre todas as características da pessoa criativa,
aquelas que dizem respeito à criatividade verbal, cujas
porcentagens de indicação estão em bom
patamar. Curiosidade (82,9% no G1 e 89,5% no G2), Fluência
Verbal (61,0% no G1 e 57,9% no G2), Flexibilidade de Idéias
(39,0% no G1 e 47,4% no G2), Idéias Enriquecidas e Elaboradas
(36,6% no G1 e 47,4% no G2), Idéias Originais e Inovadoras
(56,1% no G1 e 34,2% no G2), Motivação (63,4%
no G1 e 68,4% no G2) e Sensibilidade (90,2% no G1 e 86,8% no
G2).
Esses
resultados são muito importantes para caracterizar um
jornalista realmente envolvido com sua profissão que,
antes de mais nada, tem um compromisso com a sociedade (Caldas,
2002). Motivação e Curiosidade são indispensáveis
para que o profissional se sinta sempre estimulado a buscar
novos assuntos e novas fontes, investigando-os profundamente;
com Fluência Verbal e Flexibilidade de Idéias o
jornalista consegue realizar boas entrevistas, pois pode conversar
de igual para igual com pessoas de qualquer nível e profissão,
assim como, mediante seus recursos de vocabulário e estrutura
textual, redigir as narrativas humanizadas, de forma envolvente,
que prenda a atenção do leitor desde a primeira
e até última linha da reportagem. Ter Idéias
Originais e Inovadoras é imprescindível para que
a imprensa brasileira saia do quadro de engessamento ao modelo
norte-americano de jornalismo em que se encontra.
Também
é indispensável para descobrir novos temas de
reportagens. O mesmo se pode afirmar quanto a Idéias
Enriquecidas e Elaboradas, pois, um jornalista que não
tenha pudor em re-escrever sua reportagem tanto quanto necessário
para atingir um bom nível de qualidade, estará
melhorando a sua própria produção textual.
Peixoto (2002) lembra que intelectualização "é
uma idéia que precisa ser retomada para superação
na crise do jornalismo". O autor se refere à crise
de qualidade e sugere investigação de temas e
acumulação individual de saberes na superação
desse quadro. Scliar (2002), a respeito da expressão
criativa, diz que "o jeito de caçar a inspiração
é escrevendo" (p. 13). Esse autor admite que a literatura
pode ensinar algo ao jornalismo, principalmente a cuidar da
forma, isto é, da maneira de se expressar a realidade,
a escrever e a re-escrever.
O
que se pode sugerir, portanto, é que esses sujeitos invistam
mais em suas características ligadas à Fluência
Verbal e à Flexibilidade de Idéias, principalmente
por meio de estratégias que os ajudem a exercitar a Fantasia
e a Imaginação e o Uso de Analogias e Combinações
Incomuns.
Isso
porque os resultados apontados para esses dois itens estão
abaixo dos 50% (Tabela 21). Dos sujeitos do Grupo 2, por exemplo,
apenas 28,9% dizem fazer Uso de Analogias e Metáforas
e 36,8% da Fantasia e Imaginação. Curioso que
os integrantes da amostra entendem que um jornalista criativo
deva Ler Livros com Freqüência - 92,7% (G1) e 92,1%
no G2 e Ir ao Cinema uma Vez por Semana - 61,0% no G1 e 52,6%
no G2 (Tabela 25).
Assim,
se eles são praticantes dessas afirmativas, podem desenvolver
com mais facilidade a fantasia e a imaginação,
não para a redação de seus textos jornalísticos,
que precisam ser factuais e verídicos, mas para exercitar
a mente e dessa forma encontrar respostas mais rápidas
na produção de suas pautas, levantamentos de dados
e redação das narrativas da vida real ou qualquer
outro gênero jornalístico, pois, como citado por
Scliar (2002), "palavra puxa palavra, frase puxa frase
e de repente lá está a idéia à nossa
espera" (p. 13).
Por
outro lado, embora 85,4% no Grupo 1 e 92,1% no Grupo 2 se considerem
possuidores de Abertura para Novas Experiências, eles
não são muito favoráveis a colocar essa
sugestão em prática. Conforme se observa na Tabela
25, esses sujeitos parecem não gostar ou não ter
tempo para outras atividades que não seja a profissional.
O
índice de indicações para as possibilidades
oferecidas no item 9 do questionário e que podem contemplar
novas experiências foi bastante baixo. Dedicar-se à
Produção de Textos de Ficção foi
apontado como importante para jornalistas criativos por apenas
19,5% (G1) e 18,4% (G2) dos sujeitos; desenvolver Atividades
Físicas com regularidade, por 36,6% (G1) e 31,6% (G2);
participar de Atividades Lúdicas e Cooperativas, por
29,3% (G1) e 36,8% (G2); e praticar Relaxamento e Meditação,
por 17,1% (G1) e 23,7% (G2).
Todavia,
quando se observam quais sugestões esses sujeitos apresentam
para que um jornalista produza textos criativos freqüentemente,
percebe-se que eles apontam situações bastante
pertinentes ao exercício do Jornalismo Literário:
Saber Contar uma História foi indicada por 95,1% do Grupo
1 e por 89,5% do Grupo 2; Usar Recursos Literários (58,5%
no G1 e 47,4% no G2); Apurar Matéria em Todos os Detalhes
Possíveis e Imagináveis (70,7% no G1 e 78,9% no
G2); Cultivar o Bom Humor (65,9% no G1 e 73,7% no G2) e Cultivar
o Convívio Social (68,3% no G1 e 71,7% no G2).
Cultivar
o Bom Humor é sempre importante para que o sujeito se
sinta mais feliz e mais leve e possa, assim, se dedicar aos
seus afazeres profissionais e pessoais, sem o peso do mau humor
e do estresse, pois, conforme observou Wechsler (2002), a situação
de humor alivia tensões, constrangimento e rigidez, "descarregando
um ambiente desagradável".
Por
outro lado, Cultivar o Convívio Social é indispensável
para o sujeito se sentir incluído na sociedade, integrante
de diferentes grupos, bem como para ter a possibilidade de conhecer
pessoas diferentes que possam estar sugerindo temas e personagens
para suas reportagens; Wechsler (2002) também relata
o papel da auto-estima no desenvolvimento global do indivíduo.
Além disso, saber Apurar a Matéria com Detalhes
é o primeiro passo do trabalho de reportagem, quando
o jornalista vai às ruas não apenas para ouvir
pessoas, mas para colocar todas as suas percepções
sensoriais - Visão, Audição, Tato, Olfato
e Paladar - a serviço do registro de um sem número
de detalhes que poderão ajudar a enriquecer o seu texto.
Finalmente,
os sujeitos apontam que um jornalista, para ser criativo, necessita
Saber Contar uma História e nesse fazer textual Usar
Recursos Literários. Essas duas sugestões corroboram
a expectativa de que, mais do que nunca, um jornalista precisa
saber redigir suas matérias no formato da pirâmide
invertida, com concisão, isenção e objetividade,
mas também de forma atraente, mantendo o conteúdo
factual, verídico e atual, numa roupagem, ao estilo do
Jornalismo Literário, que dê brilho e cor às
reportagens que estarão nas páginas dos jornais
no dia seguinte, na forma de narrativas criativas da vida real.
Nesse
sentido, Peixoto (2002) observa que há necessidade de
reformular o fazer jornalístico, conferindo ao texto
a mesma atenção dada à narrativa literária,
"deixando para os meios de comunicação eletrônicos
a tarefa limitante da reprodução mecânica
da realidade", como ele define o que acontece devido à
"mecanização dos textos determinada pelas
camisas-de-força dos projetos gráficoeditoriais
adotados em série".
Entretanto,
há que se investigar mais a fundo o que acontece com
a Auto-Confiança desses sujeitos, principalmente os do
grupo 1, uma vez que apenas 43,9% disseram possuir essa característica,
que sobe para 60,5% no Grupo 2, mas ainda assim um resultado
baixo, uma vez que um jornalista precisa confiar em sim mesmo,
incondicionalmente, para realizar seu trabalho a contento. Isso
vale tanto para a fase de elaboração da pauta,
passando pelo levantamento de dados, através de pesquisas,
entrevistas e observações, como para a etapa de
redação. É curioso notar que a Motivação
dos sujeitos está em um nível um pouco acima nos
dois grupos, chegando a 63,4% (G1) e 68,4% (G2).
Uma
análise dos resultados da questão "Bloqueios
que julgam possuir na expressão da criatividade no exercício
profissional" aponta alguns indícios dessa baixa
confiança. Do universo de 79 sujeitos, 31,7% (G1) e 23,7%
(G2) se julgam tímidos e 7,3% (G1) e 5,3% (G2) reforçam
essa autopercepção, julgando possuir uma postura
fechada, o que revela, de certa forma, um receio à exposição
pessoal e demonstração de suas habilidades profissionais.
Isso pode ser observado, também, mediante verificação
do Receio que têm do Julgamento Externo, apontado por
31,7% (G1) e 31,6% (G2). Além disso, 39,0% (G1) e 26,3%
(G2) se revelam desmotivados, indicando, ainda, que suas Chefias
são Tradicionais - 26,8% (G1) e 26,3% (G2) ou que atuam
em Ambiente de Trabalho Não Criativo - 31,7% (G1) e 31,6%
(G2).
Em
que pesem esses resultados, os sujeitos ratificam o que se espera,
sempre, de um jornalista: Inconformismo. No Grupo 1, 73,2% mostram-se
insatisfeitos com a situação em que vivem (sem
definir se de ordem pessoal, profissional, social ou maneira
global), índice que sobe para 84,2% no Grupo 2. Esse
referencial também esteve presente com relativa freqüência
ao relacionarem os adjetivos que julgam possuir, pois o item
Questionador foi bastante citado.
Além
disso, mais da metade dos dois grupos considera possuir Sentido
de Destino Criativo - 53,7% (G1) e 52,6% (G2). Wechsler (2002)
define essa característica como "crença em
seus próprios valores e idéias; atitude de se
ver responsável em contribuir para a humanidade e a percepção
de que sua idéia tem valor; estar apaixonado por uma
idéia". Esse resultado revela que mais da metade
dos profissionais atuantes não perdeu a vontade de fazer
alguma coisa pela sociedade.
Dessa
forma, comparando-se os resultados revelados para Auto-Confiança
(43,9% no G1 e 60,5% no G2) com aqueles creditados para Inconformismo
(73,2% no G1 e 84,2% no G2) e Sentido de Destino Criativo (53,7%
no G1 e 52,6% no G2), pode-se, ainda assim, verificar bons índices
de criatividade verbal nesses sujeitos, embora ao concentrarem
suas percepções de criatividade em características
como Curiosidade, Fluência Verbal e Flexibilidade de Idéias
e Sensibilidade, mostram uma visão restrita do tema,
que, se ampliada, poderá, também, ampliar sua
produção criativa.
O
que se depreende desses resultados é que os jornalistas,
tanto os do Grupo 1, quanto os do Grupo 2, reconhecem que construir
narrativas a partir de um personagem (Humanização)
é um diferencial. Mas eles se esquecem, ou desconhecem
mesmo, que reportagens criativas, como as narrativas da vida
real, pedem o cumprimento de outros referenciais, como Imersão
do Repórter na Realidade, Voz autoral, Estilo, Precisão
de Dados e Informações, Uso de símbolos
e Digressão, se não todos eles, a maioria, pelo
menos.
De
uma maneira geral, pode-se dizer que os jornalistas brasileiros,
tomando-se como parâmetro a amostra de 79 sujeitos desta
pesquisa, precisam abrir novas possibilidades para o desenvolvimento
de seu potencial criativo, ampliando-o para muito além
de Curiosidade, Fluência, Flexibilidade e Sensibilidade,
o que poderia, a curto prazo, melhorar a produção
de seus textos e, por conseqüência, dos jornais em
que atuam.
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Diário.
*Celso
Luiz Falaschi é Graduado em Jornalismo, Mestre em Educação
e Doutor em Psicologia (Criatividade) pela Pontifícia
Universidade Católica (PUC) de Campinas, São Paulo.
**Trabalho
apresentado durante o IX Colóquio Internacional sobre
a Escola Latino-Americana de Comunicação (CELACOM
2005), realizado de 9 a 11 de Maio de 2005 no Campus Rudge Ramos
da Universidade Metodista de São Paulo (UMESP).
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