Celebração
no
telejornalismo local:
A festa de N. Sra. Aparecida
na TV em Juiz de Fora
Por
Iluska Coutinho*
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Reprodução

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Resumo:
Análise
sobre as características que a informação
assume nos telejornais produzidos e veiculados localmente,
em Juiz de Fora. Esse trabalho se insere em uma pesquisa
macro que tem como objetivo verificar se em termos regionais
há a reprodução do modelo hegemônico
nos programas jornalísticos exibidos em rede nacional
de televisão, a dramaturgia do telejornalismo,
ou se haveria uma regionalização também
no tratamento da notícia, neste caso com características
culturais da Zona da Mata mineira. O produto audiovisual
analisado neste artigo é a cobertura televisiva
do dia de Nossa Senhora Aparecida em dois telejornais
locais:
MGTV
1ª Edição (TV Panorama) e Jornal da
Alterosa - Edição Regional (TV Alterosa
- JF). A história contada, os recursos mobilizados
na cobertura e a posição editorial das duas
emissoras são o foco da reflexão realizada,
que teve como suporte teórico a produção
de autores que investigam o Telejornalismo, além
do referencial sobre narrativa.
Palavras-chave:
Telejornalismo
local / Narrativa / Dramaturgia / Notícia / Perfil
editorial
A
estruturação das notícias e reportagens
veiculadas na televisão como uma narrativa, dramática,
é uma realidade no produto veiculado em nível
nacional pelas emissoras de TV brasileiras. A existência
do que denominamos como Dramaturgia do telejornalismo
brasileiro, em uma tentativa de estabelecer um paralelo
entre notícia e drama como forma de analisar a
informação na TV poderia, foi evidenciada
durante pesquisa de doutorado realizada entre 2001 e 2003.
Ainda
que essa aproximação entre jornalismo e
drama em geral seja considerada e/ou vista com restrições
pelos profissionais do Jornalismo brasileiro, herdeiro
da tradição da chamada objetividade, como
se representasse uma perigosa aproximação
do campo do entretenimento, esse modelo de organização
da informação na televisão permanece
hegemônico atualmente.
Na
pesquisa realizada anteriormente, por meio da análise
de edições de dois telejornais exibidos
em rede nacional, Jornal Nacional (Rede Globo) e Jornal
da Cultura (TV Cultura), foi possível compreender
que nos dois programas a notícia é estruturada
como um drama cotidiano, formato comum tanto aos noticiários
de redes de televisão públicas quando nos
daquelas de caráter privado.
A
dramaturgia do telejornalismo veiculado em rede foi evidenciada
pela existência de conflito narrativo como característica
central em todas as matérias analisadas. Seria
através desses conflitos, quase sempre ressaltados
no texto dos apresentadores de cada programa, na chamada
cabeça de locutor, que a(s) narrativa(s) do telejornal
se organizaria(m). A estruturação do noticiário
televisivo em torno de problemas, ações
e disputas guardaria semelhanças com o que classificamos
como um drama cotidiano.
A
forma de contar uma história em nossos telejornais,
especialmente o padrão ou roteiro para construção
de uma matéria com texto, som e imagem, seria o
segundo aspecto dessa dramaturgia. A identificação
da existência de personagens no texto noticioso,
de maneira latente ou manifesta, e ainda o papel representado
por cada um deles na representação dos fatos
foram investigados durante a pesquisa de doutorado, tomando
sempre como matriz os modelos e estereótipos comumente
presentes em obras dramáticas, ficcionais.
Assim,
foi possível concluir que os telespectadores acompanham
nos telejornais exibidos em rede uma soma de pequenas
tentativas de repetição de alguns fatos,
amarrados pelos textos de repórteres e apresentadores,
uma "imitação da ação"
ou das ações humanas, tal como a definição
de Aristóteles para a palavra drama. O sentido
de "imitação" tal como proposto
pelo filósofo abrange o de representação,
no caso, de um conflito que se desenvolveria, sempre com
a busca de sua resolução, através
das ações dos personagens da estória,
da narrativa.
Tomando
como matriz/modelo metodológico as definições
de narrativa e de drama, é a partir de um conflito
e/ou de uma intriga que se desenrolam as ações,
na medida em que nos são dados a conhecer os personagens
e ainda os outros elementos daquela estória, tais
como cenário, contextos, referências temporais.
Nos telejornais esse "marco inicial", de apresentação
inicial do conflito, ocorre no texto de abertura das matérias,
interpretado pelos locutores-apresentadores como uma espécie
de "convite" ao acompanhamento de cada VT ou
matéria.
Talvez
por isso, no jargão profissional, esse elemento
de composição do telejornal receba o nome
de "chamada" ou "cabeça de apresentação".
As ações, os personagens e ainda a oferta
de uma mensagem moral são também componentes
essenciais de uma narrativa dramática.
A
partir dessas conclusões surgem outras questões,
inclusive em função do modelo de organização
da TV brasileira. Organizadas em redes nacionais, as emissoras
de televisão no Brasil se reúnem por meio
de contratos de afiliação. Nessa estrutura
a significativa maioria dos conteúdos veiculados
ao longo da programação é produzida
pela chamada "cabeça de rede" e reproduzido
pelas emissoras afiliadas, que estendem o sinal da rede
por diversos estados e municípios, garantindo o
alcance nacional.
De
acordo com esse modelo as emissoras de TV que tem contrato
com determinada "Rede de TV" reproduzem simultaneamente
a programação gerada, ocupando com sua produção
(local ou regional), espaços que são determinados
de acordo com o contrato de afiliação.
A
exigência de produção de material
audiovisual local é prevista em lei, embora sua
fiscalização em geral também fique
apenas no papel. Geralmente a produção realizada
pelas emissoras afiliadas tem caráter jornalístico
ou integraria a categoria informação, na
classificação estabelecida por Souza (2004).
É
a partir dessa estrutura de organização,
com destaque para a do jornalismo televisivo, que surge
a questão central que orienta a pesquisa macro
desenvolvida atualmente na Universidade Federal de Juiz
de Fora, na qual se inserem as reflexões deste
artigo.
Consolidadas
nos telejornais nacionais como um drama cotidiano, teriam
as notícias em TV a mesma estrutura narrativa também
nos noticiários produzidos e apresentados localmente?
A proposta é avaliar em que medida as emissoras
de televisão consideradas locais reproduzem, ou
não o modelo que consideramos hegemônico
no noticiário veiculado em rede nacional.
Realizada
em uma cidade de porte médio, com aproximadamente
500 mil habitantes a pesquisa tem como objetos empíricos
os telejornais produzidos e veiculados nas duas emissoras
de TV que têm sede, departamento de jornalismo em
funcionamento, em Juiz de Fora: TV Alterosa (afiliada
SBT) e TV Panorama (afiliada Globo Minas). A análise
da produção de duas emissoras locais, e
portanto de duas relações afiliada-rede
diferenciadas, se justifica na medida em que cada Rede
de TV tem um modelo particular de relacionamento com suas
"parceiras".
No
caso das afiliadas da Rede Globo esse controle sobre o
material produzido em geral é mais rigoroso, com
estabelecimento de modelos, inclusive, de cenário
para os telejornais locais. [1] Essa rigidez
na relação entre Rede e Afiliada é
explicitada pelo empresário Omar Peres, presidente
das Organizações Panorama que em 2003 comprou
da Globo Minas a TV Panorama, afiliada da Rede em Juiz
de Fora:
Na
verdade eu comprei uma franquia do qual você se
comporta com regras muito bem pré-estabelecidas.
Você tem que atender essa franquia, isto é,
uma grade de programação que é
rígida, mas você também tem a possibilidade
de fazer programas locais como nós já
fizemos aqui na Panorama. (Peres, 2004).
Para
descrever a produção local em Juiz de Fora
é preciso mais elementos sobre a organização
da TV no município, tema que será abordado
a seguir.
A
TV em Juiz de Fora
Desde
1962 já se planeja a criação de uma
emissora de televisão em Juiz de Fora, cidadão
pólo da região da Zona da Mata Mineira.
Resultado
de iniciativa de empresários locais, dois anos
depois entra no ar a TV Industrial, com uma proposta de
oferecer aos moradores do município, então
conhecido como a Manchester Mineira, uma TV estritamente
local/regional.
O
empresário Sérgio Vieira Mendes e seus filhos
Gudesteu e Geraldo, que já eram proprietários
das rádios Industrial e Difusora, foram os idealizadores
da primeira emissora de TV do município. A proposta
de concessão foi objeto de análise do Contel
(Conselho Nacional de Telecomunicações)
e aprovada pelo então presidente João Goulart
em 22 de Janeiro de 1963. Assim, em 29 de Julho de 1964,
entrava no ar a primeira estação geradora
de sinais de TV localizada no interior do Brasil. A sede
da emissora ficava no Morro do Imperador, num terreno
doado pela prefeitura de Juiz de Fora.
Funcionários
do Rio de Janeiro foram contratados para ensinar as técnicas
de utilização dos equipamentos. Para focalizar
o local, naquela época, 80% da programação
era produzida dentro dos estúdios da TV Industrial,
enquanto o restante do tempo era reservado para a projeção
de filmes. Em sua programação havia programas
educativos, jornalísticos e de auditório,
em sua maioria com transmissão ao vivo. O resultado
da narrativa em transmissão direta era a identificação
do público com a TV, especialmente os telespectadores
de classes menos favorecidas.
A
tentativa de imprimir um caráter eminentemente
local à programação porém
implica em custos de produção elevados,
o que ocasiona crises na emissora. No desdobramento a
TV Industrial é vendida para o grupo Roberto Marinho
em 1980, quando a geradora passa a retransmitir o sinal
da Rede Globo. Nessa época a programação
local é reduzida a alguns minutos diários,
com inserções nos telejornais que tem como
sede a Globo Minas, localizada em Belo Horizonte.
Com
busca de valorização do local, até
como contraponto ao processo de globalização,
e especialmente na tentativa de atrair/ criar novos mercados
publicitários, a TV Globo de Juiz de Fora passa
a se chamar TV Panorama em 1988. Para convencer o público
de que a Globo não estava "abandonando"
a cidade a emissora adota o slogan "TV Panorama:
o espelho da comunidade". Com a chamada regionalização
foi criada uma gerência de Marketing na emissora,
além de haver projetos com ações
locais, como Esporte XXI, Amigos da Escola, etc. O tempo
de transmissão do telejornalismo produzido localmente
aumentou de 15 para 50 minutos diários.
Os
telejornais MGTV 1ª e 2ª edição
passaram a ser apresentados também no estúdio
de Juiz de Fora, gerando no caso do primeiro uma interação
entre apresentadores da TV Panorama e da Globo Minas,
que dividem o papel de mestre de cerimônias do informativo.
Além disso, surgem nessa época os programas
Panorama Revista (veiculado aos sábados) e Panorama
Esporte (que antecede o MGTV 1ª Edição
de segunda a sexta-feira). [2]
Em
2003, como estratégia comercial, a Rede Globo opta
pela venda de emissoras localizadas fora dos grandes centros.
Assim, a TV Panorama é vendida para o empresário
Omar Peres, secretário de Indústria e Comércio
de Minas Gerais no governo Itamar Franco. A emissora se
torna então o ponto central das chamadas Organizações
Panorama que, atualmente, incluem a Rádio Panorama
FM, o Jornal Panorama, o portal Ipanorama.com e a PanShow,
empresa de eventos.
A
segunda opção de TV local em Juiz de Fora
seria a TV Educativa, que entra no ar em 31 de maio de
1981, com a concessão recebida pela Fundação
Educacional Pio XII. Apesar disso, desde essa época
a emissora transmite quase integralmente a programação
gerada no Rio de Janeiro, pela TVE. Atualmente o único
programa local produzido regularmente é uma mesa
de debates apresentada por seu proprietário, Josino
Aragão. Personagem de destaque nas áreas
de Comunicação e Educação
em Juiz de Fora, ele também é proprietário
de uma emissora de rádio educativa (Rádio
Globo AM, 910 Khz) e de um jornal impresso (Diário
Regional) além de ter sido o fundador da TV Tiradentes,
hoje TV Alterosa-JF.
A
terceira emissora de Juiz de Fora entra no ar em 1990,
com a previsão inicial de atuar como simples repetidora
da extinta TV Manchete. Com a crise vivida por essa rede
de televisão a TV Tiradentes assume as mesmas pretensões
de regionalização que caracterizaram a TV
Industrial no início de seu funcionamento. A emissora
passa a ser administrada por Josino Aragão e Domingos
Frias, também proprietário de uma emissora
de TV em Campos (RJ), e passa a oferecer ao público
diversos programas de auditório e dois telejornais.
As
divergências e crises internas não demoram
a acontecer, o que ocasiona a extinção de
muitos programas, e a assinatura de contrato afiliação
com a Rede Record. No final de 1999, a emissora passa
a integrar o grupo Diários Associadas, sendo comprada
pela TV Alterosa, criada por Chatô. Com sede em
Belo Horizonte a emissora constitui uma espécie
de rede regional [3] e integra o Sistema Estaminas
de Comunicação é afiliada do Sistema
Brasileiro de Televisão (SBT).
Em
Juiz de Fora a programação local se restringe
a um telejornal produzido e apresentado no município
o Jornal da Alterosa-Edição Regional, veiculado
de segunda a Sábado, ao meio-dia.
Devoção
na telinha: os telejornais veiculados em 12 de outubro
de 2004
Feriado
nacional no Brasil, o dia 12 de outubro teve uma cobertura
com enfoque editorial diferenciado nas duas emissoras
de TV localizadas em Juiz de Fora, em que pesem as características
distintas dos telejornais Jornal da Alterosa-Edição
Regional e MGTV 1ª Edição. Enquanto
o primeiro programa tem um caráter eminentemente
local, com cerca de 10 minutos de produção
exclusiva da emissora localizada em Juiz de Fora, o telejornal
exibido pela afiliada da Rede Globo conta com quatro blocos,
sendo três deles montados com material produzido
pela TV Panorama. [4]
O
primeiro bloco do programa tem a maior duração,
é apresentado a partir de Belo Horizonte e possui
um enfoque estadual, com matérias produzidas por
diferentes afiliadas da Rede Globo no Estado e pela própria
Globo Minas.
Na
emissora afiliada do Sistema Brasileiro de Televisão
(SBT) o aspecto central da cobertura da data é
salientado no texto de abertura do telejornal analisado:
"(...) Hoje é terça-feira, doze de
outubro, dia da criança e você está
assistindo o Jornal da Alterosa, Edição
Regional". Nossa Senhora Aparecida surge na escalada
de abertura [5] do programa, ainda que sem grande
destaque:
"Motoqueiros
fazem procissão para homenagear Nossa Senhora Aparecida".
Aliás, essa é a única matéria
com enfoque "religioso" veiculada pelo jornal.
As aspas se justificam porque o aspecto central da pauta
realizada, mais que a questão religiosa é
dado à celebração dos motoqueiros,
uma tradição na cidade, de acordo com o
texto de abertura da matéria.
Entre
o tempo da manchete, o texto da apresentadora e a matéria
realizada, na verdade um stand up [6], o tempo
dedicado à festa de Nossa Senhora é de pouco
menos de um minuto (59 segundos), o que representa 11,15%
do tempo de produção jornalística
veiculado nesse dia. Em seu texto, gravado no momento
em que a procissão chega à Catedral Metropolitana
de Juiz de Fora, a repórter nos informa o trajeto
percorrido, e acrescenta que a imagem de Nossa Senhora
é sempre trazida por um motoboy. Além disso,
a matéria anuncia as etapas seguintes do acontecimento:
a entrada dos motoqueiros na igreja para receberem uma
benção e a participação deles
em uma missa.
"Essa
celebração é tradicional em Juiz
de Fora, sempre no dia de Nossa Senhora Aparecida, lembrando
que a santa é padroeira e protetora dos motoqueiros",
esclarece a repórter que tem a seu fundo diversos
motoqueiros, localizados em frente à Catedral.
Tendo
a questão da igreja mais como um cenário,
de chegada, para o evento dos motoqueiros, a matéria
não evidencia o caráter religioso da celebração,
que passa ao largo da cobertura da TV Alterosa. No final
do stand up os telespectadores ainda ficam sabendo que
há outras celebrações na cidade,
embora não sejam informados de seu horário,
local ou natureza.
O
dia das crianças, destaque da data de acordo com
o telejornal, é objeto de uma matéria mais
completa, com direito a utilização de recursos
como off, sobe som, povo fala, entrevista e passagem da
repórter. Neste caso o tempo total de edição
é o dobro da matéria sobre a procissão
em homenagem à Nossa Senhora Aparecida, um minuto
e 59 segundos. Somadas, as celebrações dos
motoqueiros e das crianças correspondem a 23,7%
do tempo do telejornal exibido no dia 12 de outubro.
Veiculada
em emissora afiliada do SBT, a rede de TV que é
parceira e/ou dependente financeiramente do Baú
da Felicidade, a devoção maior na data é
alheia à Igreja, com destaque para o aspecto comercial
da data, estimulado com a compra e troca de presentes.
Na
outra emissora o enfoque é radicalmente diferente
e a referência ao dia das crianças surge
na escalada de abertura mais como forma de destacar uma
matéria sobre um museu de brinquedos, apresentada
no encerramento do programa. O critério editorial
diferenciado pode ser percebido logo no texto de abertura:
"Um dia especial para os católicos. As homenagens
a Nossa Senhora Aparecida. Terça-feira, doze de
outubro, dia da padroeira do Brasil e também dia
das crianças. O MGTV está começando".
O
enfoque religioso da cobertura representa 24,10% do tempo
do telejornal, seis minutos e cinco segundos ocupados
por três matérias editadas e uma entrada
ao vivo (stand up). O aspecto de devoção
à padroeira do Brasil é ressaltado por meio
de imagens e depoimentos de moradores de quatro municípios
mineiros: Contagem, Divinópolis, Santana do Jacaré
e Juiz de Fora.
A
narrativa apresentada no MGTV 1ª Edição
ainda tem como personagens, além da santa e dos
populares (seus devotos), duas autoridades da igreja católica,
Dom Valmor Azevedo (Arcebispo Metrolitano BH) e Dom Eurico
dos Santos Veloso (Arcebispo de Juiz de Fora).
O
tom da narrativa em todas as matérias é
bastante emocional, com a inserção de depoimentos
de fiéis, textos que salientam a devoção
à santa e parecem buscar uma identificação
com os telespectadores. A primeira matéria veiculada
salienta a participação dos fiéis,
e sua emoção, em uma missa campal realizada
em Contagem:
-
Com o carinho de uma filha, Maria Aparecida prepara
a imagem de Nossa Senhora para a missa. (Off do repórter).
-
Eu já perdi minha mãe aqui na Terra, então
Nossa Senhora.
Aparecida
ficou no lugar dela cuidando de mim e aumentando cada
vez mais a minha fé. (entrevista de Maria Aparecida
Teixeira/ Dona de casa, segundo identificação
do gerador de caracteres).
O
texto da reportagem ainda registra a participação
de 35 padres na celebração, realizada há
23 anos, e a admiração dos fiéis,
"descalços em sinal de humildade". Junto
aos populares, a repórter conta em sua passagem
a história da devoção, já
com 300 anos, por Nossa Senhora Aparecida, tornada padroeira
do Brasil em 1929. A matéria relembra a localização
de uma imagem da Santa por pescadores do Rio Paraíba,
[7] o que seria o marco inicial de sua celebração,
e ainda abre espaços para os agradecimentos dos
fiéis.
A
primeira reportagem é encerrada com a entrevista
do arcebispo metropolitano, Dom Valmor Azevedo. Em seguida
o apresentador chama ao vivo um repórter que está
em Divinópolis, "maior santuário em
homenagem à Nossa Senhora Aparecida na região
centro-oeste do Estado".
O
repórter explica a apresentador e telespectadores
a dinâmica de celebração das missas,
realizadas a cada duas horas, informa que cinqüenta
mil pessoas já passaram pelo local e que outras
80 mil são esperadas até o final do dia,
quando ocorre uma procissão com a imagem da Santa.
Ao final de seu stand up ele chama a matéria seguinte,
uma reportagem sobre uma encenação realizada
no sul de Minas Gerais.
A
emoção é presença constante,
nas imagens, depoimentos e ainda explicitada no próprio
texto da repórter: "Três moradores da
cidade recriam o episódio em que pescadores retiram
a imagem de Nossa Senhora do Rio Paraíba, em 1717.
É o momento mais emocionante".
Na
narrativa os fiéis são os personagens centrais,
em imagens que salientam o caráter de celebração
religiosa e em cânticos e depoimentos, como o do
aposentado Sílvio Ramos que conta, "Sou muito
devoto; a minha vida inteira". A matéria é
encerrada com um sobe som que registra a saudação
da padroeira do Brasil.
Em
seguida o bloco estadual é encerrado com a previsão
do tempo.
A reportagem produzida em Juiz de Fora é apresentada
no terceiro bloco, e anunciada ao final do segundo, com
direito a inserção de imagens (teaser).
Ao todo um minuto e cinco segundos de edição,
iniciados por depoimentos de fiéis, que destacam
as bênçãos recebidas.
Além
das falas de populares, marcadas sempre por um tom emocional,
há uma entrevista com o arcebispo de Juiz de Fora.
Para além da igreja, a matéria acrescenta
que há celebração e devoção
também em outros espaços do município:
"A protetora dos motoqueiros recebe homenagens nas
ruas. Eles saem em procissão para pedir proteção
no trânsito".
Na
TV Panorama, a cobertura local da celebração
do dia de Nossa Senhora Aparecida é encerrada pelo
apresentador no estúdio que, com o auxílio
da Arte/ gerador de caracteres, informa os locais e horários
das missas e celebrações nas igrejas da
cidade. Desta forma, sempre na perspectiva de reforçar
a identificação com a comunidade, a emissora
afiliada da Rede Globo ressalta o aspecto religioso da
data, sendo as histórias de devoção
a marca de sua cobertura, estruturada como narrativa dramática,
e de fé.
Dirigidas
a uma população de maioria católica,
as reportagens veiculadas pela afiliada da Rede Globo
na região da Zona da Mata mineira parecem buscar
a adesão do telespectador que, tocado pelos tons
emocionais da narrativa audiovisual, tomaria parte do
drama representado. Afinal, como salientou Francisco Rui
Cádima, "O paradoxo da escrita em televisão,
está no fato de as imagens, além dessa relação
unívoca, serem também cúmplices de
quem as olha.
O
telespectador, nesse caso, outorga-se o <<direito
de observação>> (...)" (Cádima,
1995, p. 123). Mais do que isso, de acordo com a estrutura
da narrativa analisada, é possível ao receptor
também fruir das emoções narradas,
celebrar a devoção à Nossa Senhora
por meio mensagem consumida via telinha.
O
escritor português ainda chama a atenção
para um aspecto que pode ajudar a compreender as diferenças
editoriais na cobertura dos dois telejornais analisados:
"O
discurso dos media é assim claramente monumental,
o que quer dizer que reflete em si mesmo as estratégias
de comunicação, políticas, os dispositivos
de dominação e tecno-discursivos, produto
da sociedade do seu tempo (...) O discurso não
é por isso um conjunto de signos, mas antes um
conjunto de práticas que formam sistematicamente
os objetos de que falam". (1999, p. 128).
A
partir das nuances ou enfoques percebidos na cobertura
seria possível pressupor a busca por estabelecimentos
de diferentes contratos de leitura, conceito tomado de
Eliseo Verón, entre as emissoras e seus telespectadores.
Enquanto no telejornal da TV Alterosa a relação
estabelecida tem um caráter mais pragmático,
com destaque para as narrativas sobre serviços
e acontecimentos que modificariam a rotina da cidade/
região, o programa da TV Panorama parece buscar
em sua cobertura salientar a celebração
como acontecimento midiático.
Resguardadas
as diferenças, já que ao contrário
do tipo de evento estudado por Daniel Dayan e Elihu Katz
não há nesse caso um caráter monopolista
na transmissão e nem a permanência do "ao
vivo", a cobertura do dia de Nossa Senhora Aparecida
pela emissora afiliada à Rede Globo, como os grandes
acontecimentos, celebra a ordem e a restauração.
Para
além do conservadorismo dessa rede de TV, já
destacado em diversos estudos, vale ressaltar a celebração
da fé católica, talvez como contraponto
ao avanço da Rede Record, ligada à pentecostal
Igreja Universal do Reino de Deus.
Referências
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Rio de Janeiro: Sotese, 2002.
Notas
[1]
Com pequenas variações as emissoras locais
e regionais reproduzem o cenário das emissoras
que pertencem à Rede Globo, localizadas nas capitais
de Rio, São Paulo, Minas Gerais, Pernambuco e Distrito
Federal.
[2]
A existência de um programa de esportes local se
justifica na medida em que a edição do Globo
Esporte exibida, editada pela Globo Minas, valoriza os
times mineiros, enquanto os juizforanos em sua grande
maioria torcem para times do Rio de Janeiro.
[3]
Atualmente, há em Minas Gerais cinco estações
que pertencem à TV Alterosa: Belo Horizonte, Juiz
de Fora, Divinópolis, Interior e Sul.
[4]
Apesar desse bloco ser em tese de produção
local, da TV Panorama, nos últimos meses tem sido
freqüente a veiculação de matérias
produzidas por outras emissoras afiliadas da Globo no
Estado em função da redução
da produção de notícias em Juiz de
Fora.
[5]
Escalada é o conjunto de manchetes iniciais, "frases
de impacto sobre os assuntos do telejornal que abrem o
programa" (PATERNOSTRO, 1999, p. 142).
[6]
Formato de apresentação da notícia
em que o repórter aparece em primeiro plano, tendo
como fundo uma imagem significativa do tema, fato abordado
na matéria. O texto se assemelha ao de um boletim
ou flash ao vivo, sendo o deslocamento da equipe até
o local utilizado como forma de valorizar a importância
do tema para a emissora e seus telespectadores.
[7]
A localização da imagem é feita no
Rio Paraíba, na altura do hoje município
de Aparecida do Norte. O rio tem como um de seus afluentes
o Paraibuna, que corta a cidade de Juiz de Fora.
*Iluska
Coutinho é jornalista, mestre em comunicação
e cultura (UnB) e doutora em comunicação
social (Umesp), com estágio doutoral na Columbia
University (NY). E-mail: iluskac@uol.com.br.
**Trabalho
apresentado durante o IX Colóquio Internacional
sobre a Escola Latino-Americana de Comunicação
(CELACOM 2005), realizado de 9 a 11 de Maio de 2005 no
Campus Rudge Ramos da Universidade Metodista de São
Paulo (UMESP).
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