Entrevistas
"A
Internet já ocupa seu espaço"
Entrevista
concedida por Elias
Machado
(presidente da SBPJor) a
Denis
Porto Renó*
Dez
anos atrás, um dos jornais mais nacionalistas colocava
na rede internacional de computadores sua versão
on-line: o JB online.
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Reprodução
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A
Internet chegava ao Brasil, e, com ela, muitas mudanças
passaram a acontecer dentro do Jornalismo, com uma maior cobrança
na velocidade, a necessidade de um volume maior de informações
e um estudo constante para tentar descobrir o formato ideal
para aquela nova plataforma que surgia, com promessas e vislumbres
característicos de um pioneiro.
Logo
no princípio, muita coisa aconteceu no mundo da comunicação.
A
Internet assustou os jornais, que temiam o seu fim. Ao mesmo
tempo, investidores de todo o planeta criaram incubadoras para
projetos inovadores que tinham a possibilidade de se transformarem
nas "galinhas dos ovos de ouro".
Milhões
de dólares movimentavam a publicidade nacional no final
do século passado e alimentavam expectativas de enriquecimento
rápido com o e-commerce, apesar das empresas desconhecerem
as reais possibilidades desta nova plataforma tecnológica.
Mas
não demorou muito, e o mundo sofreu com a "ciberdesilusão".
A queda das ações de diversos portais na bolsa
eletrônica Nasdaq e o dinamismo das redações
fizeram com que diversas empresas eletrônicas fechassem
as portas antes mesmo de irem ao ar, e diversas redações
reduzissem o numero de jornalistas, gerando um caos profissional.
Agora,
com dez anos de existência no Brasil, a Internet sinaliza
ter ocupado o seu lugar, com equilíbrio e estilo. Pesquisas
portuguesas revelam que jovens estão lendo jornais impressos
cada vez mais, e grupos de comunicação tentam
mudar a linguagem do jornal impresso a cada dia para manter
a sua força, deixando de pensar somente no furo e contemplando
o aprofundamento das matérias, resgatando um jornalismo
de qualidade ao invés da superficialidade que imperava
antes da chegada da agilidade da web.
Para
falar a respeito, entrevistamos o pesquisador Elias Machado,
doutor em Jornalismo na Universidade de Barcelona, docente e
pesquisador da Universidade Federal da Bahia em Jornalismo on-line
e presidente da SBPJor - Sociedade Brasileira de Pesquisadores
em Jornalismo.
PJBr:
Em 1995, a Internet chegava ao Brasil, com diversas promessas.
Na época, qual foi o temor e as expectativas com relação
a esta nova linguagem?
EM:
Havia muitas expectativas sobre as potencialidades do novo
meio ao mesmo tempo em que o desconhecimento era grande entre
os pesquisadores do jornalismo. Como um dos pioneiros da pesquisa
neste campo sempre estive preocupado em ver quais as diferenças
estruturais provocadas pela digitalização das
informações no jornalismo. Desde o começo
me aproximei do fenômeno como um fenômeno que deveria
ser compreendido dentro de uma perspectiva histórica.
Particularmente,
em minhas pesquisas nunca houve deslumbramento nem temores.
A preocupação era outra: definir o jornalismo
digital, identificar suas características e mapear as
particularidades da nova prática a partir do estudo de
casos concretos.
PJBr:
E como foi, naquele momento, a reação dos jornalistas
que já estavam no mercado? Eles se preocuparam em atualizar-se?
EM:
Por incrível que possa parecer, na maioria das vezes,
a prática vem muito antes que a reflexão conceitual,
embora nada impeça que exista concomitância do
desenvolvimento conceitual com a prática profissional.
As
reações nestes casos são variadas, dependendo
muito do contexto do meio ou lugar. Nos centros mais complexos
era de se esperar que houvesse como, de fato, ocorreu uma reação
muito menos reativa, com uma probabilidade maior de incorporação
criativa deste novo meio.
Não
creio que possamos generalizar a busca pela atualização,
mas me parece inegável que existiu sim um interesse por
se atualizar entre os profissionais mais jovens. Como se trata
de um espaço a mais no mercado de trabalho, paulatinamente,
ainda que em maior grau no caso dos jovens profissionais, de
imediato passou a existir uma demanda por atualização.
O
principal indicativo deste interesse se pode verificar no aumento
da demanda dos profissionais por cursos de pós-graduação.
PJBr:
Você acredita que a Internet tenha sido responsável
por alguma modificação na maneira de se fazer
Jornalismo?
EM:
Todas as pesquisas desenvolvidas entre nós e no exterior
têm demonstrado que o jornalismo nas redes funda uma nova
modalidade de produção jornalística, que
exige capacidades diferenciadas de ensino, produção
e interação com os participantes destes sistemas
de informações.
Com
mais ou menos profundidade, dependendo do lugar em que se encontra
a organização jornalística, não
se pode negar que o jornalismo nas redes representa mudanças
essenciais no jornalismo como prática profissional especializada.
Em
cada período histórico a prática do jornalismo
exige o desenvolvimento de sistemas próprios de apuração,
produção, circulação e de financiamento
das organizações jornalísticas. Nesta primeira
década de jornalismo digital pode-se dizer que estamos
em pleno desenvolvimento destes novos sistemas.
Quase
tudo permanece por ser feito, principalmente o desenvolvimento
de sistemas próprios de apuração, circulação
e de financiamento, mas as bases de uma modalidade distinta
de jornalismo estão sendo consolidadas.
PJBr:
O boom vivido pela Internet no final dos anos 90 e início
do ano 2000 foi seguido de uma grande crise no início
de 2001, o que abalou o mercado publicitário e, conseqüentemente,
o Jornalismo. Você acha que este mercado se recuperou,
ou ainda vivemos vestígios daquela crise?
EM:
Na verdade, não podemos confundir a chamada bolha
especulativa, com o desenvolvimento do jornalismo digital como
prática profissional específica. Qualquer pesquisador
sério sabia que a consolidação do jornalismo
digital era uma questão de anos, que não aconteceria
de uma hora para a outra. Um dos equívocos, que ainda
se mantém, era se pensar que o jornalismo digital deveria
ser alavancado pela publicidade.
Como
um sistema baseado na interação contínua
deveria ficar claro que o jornalismo participativo casa muito
mal com a noção de consumo de informações.
Em vez simplesmente replicar os modelos utilizados pelos meios
convencionais, o que deveria ocorrer era criação
de modelos próprios de financiamento.
É
um primeiro passo para atuar com sucesso seria reconhecer que
a lógica de funcionamento das redes digitais nada tem
a ver com o modelo alavancado na lógica da publicidade
massiva, um modelo de financiamento inventado pelas organizações
jornalísticas no século XIX.
PJBr: No início, muito se fez e pouco se conseguiu com
relação à linguagem e à estética
do Jornalismo on-line. E hoje em dia, como está sendo
desenvolvido o Jornalismo na Internet? Você acredita que
este veículo já possui uma linguagem própria?
E o lead tradicional trazido do jornalismo norte-americano,
ele é eficaz na Internet, ou isso tende a mudar?
EM:
Não concordo que se tenha feito pouco no início.
Necessitamos ver as práticas sociais como um processo
histórico. Poderíamos sim dizer que no começo
a prática era mais simples e com o tempo foi se complexificando.
A
prática jornalística em qualquer que seja o meio
depende de uma série de fatores como aprendizagem de
técnicas específicas, condições
tecnológicas de infra-estrutura e de recursos humanos
e financeiros para que se possam aproveitar todas as potencialidades
de um determinado meio. Quando se dão os primeiros passos,
nenhuma destas pré-condições é a
ideal.
Uma
orientanda minha, Beatriz Ribas, acaba de concluir uma dissertação
muito interessante sobre a narrativa no webjornalismo em que
discute as particularidades das formas narrativas no ciberespaço
e busca identificar os modelos de composição existentes,
discutindo as particularidades da estética no meio.
Uma
dos aspectos mais importantes deste trabalho é que percebe
que na web existem vários modelos de composição,
desde os mais simples até os mais complexos, dependendo
do tipo de gênero utilizado. O modelo da pirâmide
invertida continua a ter validade, mas somente em alguns casos,
como nas notícias de última hora. Nos demais,
incluindo a reportagem, novas formas narrativas estão
sendo gestadas.
PJBr:
Com a chegada da Internet no Brasil, muito se falava no fim
do jornal impresso. Mas, com o tempo, pôde-se perceber
uma relativa solidez neste veículo, e uma preocupação
crescente da televisão e do rádio com relação
a esta convergência tecnológica. Você acha
que a mídia impressa ainda corre riscos, ou mesmo os
tradicionais rádio e televisão, ou cada um tem
seu espaço garantido com o crescimento do acesso digital?
EM:
A
pior forma de tentar compreender as práticas sociais
é tentar antecipar o futuro. Evidente que podemos, a
partir do estudo de uma determinada situação concreta,
fazermos algumas previsões sobre o futuro imediato. Mas,
este tipo de atitude nada tem a ver com os chamados exercícios
de futurologia sobre o que vai acontecer com um meio, se vai
desaparecer ou não.
Em
geral, o que a História nos mostra é que uma nova
tecnologia acaba fazer com que as práticas sociais estabelecidas
se adaptem as novas circunstâncias. Que antes mudam em
vez de desaparecerem.
Mas,
esta que é uma regra geral, tampouco pode ser vista como
um fator determinista. Algumas vezes, por razões externas
à prática e que podem ser de natureza econômica,
política, cultural ou institucional, uma prática
pode sim desaparecer com o advento de uma nova tecnologia. Foi
o que aconteceu com o cinejornalismo, por exemplo, que desapareceu
como prática profissional depois do pleno desenvolvimento
da televisão.
Quanto
mais próximos estivermos da chegada de uma nova tecnologia,
mais difícil é para termos o distanciamento necessário
para avaliarmos as atuais circunstâncias e, pior, nos
arriscarmos a identificar o alcance histórico das mudanças
em curso.
PJBr:
Trace um panorama atual da Internet no Brasil e, se possível,
tente prever um futuro para o Jornalismo on-line.
EM:
A Internet no Brasil como nos demais países trata-se
de um fenômeno que cada vez mais permeia a vida de todas
as pessoas. Às vezes não nos damos conta, mas
até para um membro do chamado Fome Zero receber sua ajuda
mensal necessita de um cartão magnético para sacar
o dinheiro em qualquer agência bancária. Evidente,
que a utilização de computadores pessoais, principalmente
os de última geração continua um luxo de
poucos, mas esta não é uma exclusividade local.
Tem
muita gente que se fascina com o que imagina ser a apropriação
das tecnologias nos Estados Unidos ou na Europa Ocidental. Estes
são os mesmos que não conseguem entender porque
durante um furacão como o Katrina somente morrem negros
em Nova Orleans e porque, no Centro e na periferia de Paris,
jovens desempregados, sem qualquer perspectiva se insurgem contra
a falta completa de perspectiva de vida.
Na
verdade, no estágio atual do capitalismo, as desigualdades
sociais são cada vez mais acentuadas. Mas, um aspecto
interessante é que por uma contradição
do sistema, também fica muito mais difícil de
impedir a circulação das informações,
mesmo quando o Governo, como ocorreu no caso de George W Bush,
aplica a censura que impede o livre exercício do jornalismo.
Qualquer
estudioso sério deveria saber que nos Estados Unidos
quando se fala de que um 90% da população tem
acesso à Internet este é um dado que necessita
ser matizado. Que tipo de acesso? Com que equipamento? Por quanto
tempo? Para que tipo de ação?
E
um primeiro ponto que ninguém poderia esquecer é
que, provavelmente, os 40 milhões de miseráveis
existentes naquele país, que vivem abaixo da chamada
linha da miséria, não tem nenhum acesso à
Internet, como não tem nenhum acesso aos demais bens
necessários a uma vida na plenitude de seus direitos.
E
tampouco pouca gente sabe que fora dos grandes centros, no interior
do país, existem zonas de difícil acesso a Internet
nos Estados Unidos como ocorre com outros países do mundo.
*Denis
Porto Renó é jornalista, mestrando do Programa de
Pós-graduação Strictu Sensu da Umesp - Universidade
Metodista de São Paulo e docente da UniCOC - Ribeirão
Preto.
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