Entrevistas
Thomaz
Farkas, civilizador
Depoimento a Marcelo Januário*
Thomaz
Jorge Farkas nasceu em Budapeste, capital da Hungria, em
1924. Com 5 anos chegou ao Brasil, onde mais tarde introduziria
a fotografia modernista e constituiria-se em um marco na produção
artística nacional. Seu trabalho em fotografia entre
as décadas de 40 e 60, ao lado de nomes como José
Oiticica Filho, Eduardo Salvatore, José Yalenti e Geraldo
de Barros, ficou marcado pela renovação da linguagem,
com acentuada preocupação com pesquisas formais,
pelo distanciamento da pintura, pela exploração
de planos e texturas, além da escolha de ângulos
inusitados.
Sua
primeira individual de 1948, no Museu de Arte de São
Paulo, é também a primeira exposição
de fotografia realizada num museu de arte no Brasil. Contemporâneo
e amigo de figuras como Glauber Rocha, Gregori Warchavchik,
Ciccillo Matarazzo e Mário Pedrosa, no fotojornalismo
Farkas registrou eventos como as comemorações
em São Paulo do final da II Grande Guerra em 1945, a
Bienal de 1954 e a construção e inauguração
de Brasília em 1960. Atualmente seus trabalhos integram
a Coleção Pirelli e o acervo permanente do Museu
de Arte Moderna de Nova York (MoMA).
Também
foi o primeiro produtor de filme cultural no Brasil. A partir
de 1965, a hoje lendária Caravana Farkas promoveu a valorização
do povo, a mestiçagem e a brasilidade com uma série
de 33 filmes de curta e média-metragem e 8 longas, vistos
como modelo de cinema documentário, que dirigiu, fotografou
e/ou produziu até 1981.
A
proposta deste grande painel documental (sem precedentes ou
sucessores) foi abordar todas as regiões do país
e realizar um panorama didático completo das atividades
do brasileiro, de sua visão de mundo, de seu modo de
ser e de sobreviver. Os filmes, como Viramundo e Memória
do Cangaço, ambos de 1965, não obtiveram êxito
comercial, mas revelaram uma geração de cineastas
e foram premiados em todo o mundo, sendo considerados marcos
definitivos do Cinema Novo.
Membro
fundador do Museu de Arte Moderna de São Paulo, ex-diretor
da Fundação Bienal, da qual atualmente é
conselheiro, e presidente do Conselho da Cinemateca Brasileira
desde 1996, Thomaz Farkas, o grande artista brasileiro, resume
toda uma época da cultura nacional em depoimento inédito
e exclusivo no ano de seu 80o
aniversário.
Fotos:
Marcus Vinicius Costa
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Docência
"Meu lema para os alunos, não sei se você
falou com algum aluno meu, hoje são gente mais
crescida, mais importante, e eu sempre falei para eles:
'tudo que eu falar, tudo que eu disser pra vocês,
o contrário também vale'. Então nada
de você achar que eu sou uma pessoa entendida."
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"Quer
dizer, eu sou um curioso, um cara interessado, mas eu sou muito
marginal nessas coisas de fotografia, de cinema, não
sou profissional nem amador, é uma coisa assim meio complicada".
"Daí,
tudo o que eu falava o contrário também vale.
Se eu estou dizendo pra vocês que o corte da fotografia
tem de ser assim, pode ser assado, pode ser redondo, poder ser,
no cinema, se a montagem..., se eu disser pra você que
tem de ser assim, também o contrário vale; então
essas coisas são muito importantes porque nada daquilo
que a gente fala é uma verdade, porque a verdade é
tudo o que aparece com o tempo, não é aquilo que
você diz, nem aquilo que você pensa, mas é
aquilo que aparece, a verdade é uma mistura das coisas
que você pensa e fala e faz e enfim".
ECA
"A melhor parte da ECA [Escola de Comunicações
e Artes da USP] pra mim foram os alunos, não os professores
colegas. Professores colegas houve um ou outro muito bom, que
eu não quero citar porque teve gente muito humana, muito
boa, mas a melhor parte eram os alunos, porque eram muito interessados,
ou muito bem interessados, quer dizer, ou a favor ou contra,
entende?"
"De
modo que eu tive uma recepção muito difícil
porque eu não consegui, eu não sou professor,
nem fui, então eu falo as minhas idéias, mas não
quero ensinar nada, eu não sou um professor, até
hoje me pedem, mas eu não sou nada disso".
"Daí
eu apresentava os meus filmes e minhas fotografias, projetava
fotografia, projetava filmes, e comentava aquilo que eu projetava.
Então era essa a minha função, e respondia
a todas as perguntas, e era muito mais interessante do que você
falar sobre uma certa coisa que não tem nada do que falar.
A ECA neste tempo era uma ECA interessante, porque nós
tivemos um diretor que era do contra, e o reitor da universidade...
Eu não consegui fazer doutorado".
"A
minha banca era constituída de pessoas muito [destacadas],
o Paulo Emílio Salles Gomes era uma, Maria Isaura Pereira
era outra, e foram eliminados da banca por serem doutores novos,
que não poderiam [avaliar]. Mas isso era uma coisa
política, isso é uma coisa política da
época e todo mundo passou por isso. Levei um tempão
[para defender a tese]. No fim deu certo e pronto".
"Eu
saí da ECA por uma única razão: eu trabalhava
muito, eu trabalhava na loja do meu pai, a loja do meu pai era
a Fotoptica, e eu trabalhava de dia, não podia dar aula
à noite; eles queriam que eu desse aula à noite,
eu disse não posso dar aula à noite, então
veio uma aposentadoria milionária, são 400 milhões
de tostões, tá bom!... [irônico]"
"Então
aí acabou a ECA, mas eu sigo a ECA de longe e tem 2 ou
3 professores, Cremilda Medina [a professora e jornalista
nascida em Portugal Cremilda Celeste de Araújo Medina]
é uma pessoa maravilhosa, José Marques [o professor,
jornalista e consultor alagoano José Marques de Melo],
que até hoje me prestigia, um pessoal muito bom. Então
é isso aí, é a minha ECA, a ECA é
isso aí".
Acusações
"Binóculo militar é um binóculo especial
que tem uma retícula na imagem e você calcula a
distância em que a pessoa está através desta
retícula; porém esses binóculos só
são vendidos pra militares, como nós tínhamos
uma loja de ótica me perguntaram se eu podia fornecer.
Eu disse 'não, isso não existe, não existe
à venda', então isso não pode ser, mas
saiu no jornal, não deu nada. Sabe como são essas
coisas, o sujeito acusa de tudo, no fim não é
nada".
"Eu
não fui cassado. A banca da minha tese foi anulada e
tive de fazer outra banca, então tive de conseguir outra
banca e eu defendi minha tese".
Ditadura
"Eu sei que todos nós fomos detidos. Eu fiquei uma
semana, dez dias; o meu filho, que era menor de idade, ficou
um mês ou dois, detido. Ele sofreu mais."
Reprodução
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"E
a minha filha também ficou presa, acho que um
dia ou dois. Mas nada... No fim, é como essas
coisas, não tem prova, então nada acontece."
"E
eu também saí, graças a Deus; eu
vi!, vi muitas coisas, mas não houve mais, conseqüência
para a escola [ECA] não houve nada."
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Farkas
(esq.) na ECA. Anos 80
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Herzog
"O Vlado [jornalista Vladimir Herzog, morto sob tortura
aos 38 anos no dia 25 de outubro de 1975] era um amigo e
trabalhou com a gente quase todos os dias e conversava muito
sobre cinema e política. A mulher dele [Clarice Herzog,
que colaborou com a Caravana Farkas em diversas produções]
é uma pessoa maravilhosa; ainda hoje tenho contato com
ela, mas ele era um cara muito legal, entende, era um cara normal,
como você ou como eu, nada de... - não sei das
atividades dele, eu não tenho a menor idéia, agora
aconteceram coisas horrendas nessa época que todo mundo
está sabendo - então isso é um choque que
fica até hoje, quer dizer, se você lembra dele
sentado ao meu lado no boteco comendo... Sabe, é muito
chato, mas..."
"Enfim,
fazer o quê? Então é uma coisa odiosa, odienta,
foi um cara sacrificado. Eu não acredito que ele seja
culpado de coisíssima nenhuma, porque nunca me falou
nada de atividade. Também não perguntava muito
porque não queria entrar nas coisas que não me
competiam. Eu era favorável ao movimento bom, e era contra
qualquer arbitrariedade como até hoje eu sou".
Despolitização
da juventude
"Eu só posso dizer o seguinte: a mocidade, os moços,
eu já era mais velho, mas a mocidade da época
[décadas de 60 e 70] era muito mais interessada
em política do que hoje. Hoje a mocidade está
interessada em ganhar a sua vida, em ter o seu futuro garantido
e a mocidade hoje, ao meu ver, não é politizada,
me parece que não é".
"E
naquele tempo todo mundo andava com máquina fotográfica,
filmadora Super 8, seja o que for o 8, fazendo reportagens,
todo mundo se interessava pelas coisas, todo mundo era participante,
politicamente participante. Hoje, a mocidade vai em boates,
vai nos shows, vai nas coisas, mas não tem uma participação
política como tinha naquele tempo. Essa é a grande
diferença".
"Não
é só dinheiro: e carreira, é futuro, é
muito material, porque as dificuldades talvez sejam maiores
do que naquele tempo. Mas é que a participação
política do jovem é muito menor. Acho eu, mas
é uma opinião minha."
"Do
ponto de vista artístico, os artistas tinham várias
tendências, tinha gente de esquerda, gente de direita,
tinha gente de tudo quanto era lado, mas a gente respeitava
todo mundo, inclusive o pessoal de direita, a gente ficava um
pouco do lado mas... tinha gente muito boa".
"Não
sei [se isso é uma tendência mundial]. Eu
não vivo nos Estados Unidos. Os Estados Unidos tiveram
até o... eles não mataram gente, eles não
vão fazer demonstrações políticas,
de raça, de política, o tempo inteiro. Aqui não
há, acho que houve aqui, mas não está havendo
mais... Eu tenho impressão que no resto do mundo há,
pode ser na Itália, pode ser na França, existe,
no mundo inteiro você vê demonstrações
políticas, a favor ou contra. Aqui eu não vejo
isso".
Ainda
o cordial
"[O país] Não é paciente. Vê
o negócio da Zélia, a Zélia pegou dinheiro
de todo mundo. Se fosse na Espanha teriam quebrado os bancos.
Nós aqui somos muito mais tolerantes, a gente é
muito mais tolerante. Eu li uma coisa dele [historiador Sérgio
Buarque de Holanda] ontem no jornal: [brasileiro]
não é cordial - era um cara, alguém queria
dizer que ele não era só cordial - era mais simpático
do que cordial".
Brasilidade
"Esse é o melhor país do mundo, não
têm país igual. Não tem um país de
tanta mistura, de tanta convivência, de tanta liberdade
como aqui, não existe. Quer dizer, se você perguntar
para um cara como eu: 'Você quer viver aonde?', [respondo]
eu quero viver aqui! Eu não nasci aqui, mas eu não
quero viver na Suíça, não quero viver nos
Estados Unidos, nem na Itália, quero viver aqui, aqui
estão meus amigos, é a minha vivência, então
eu acho que esse é o melhor país do mundo, mas
não espalha."
Gerações
"Eu vou fazer 80 anos. Eu perdi o contato. Naquele tempo
eu era moço e fazia muitas coisas, e agora, como a época
é outra, eu estou já convivendo em um outro mundo,
estou com outra idade, estou com outro senso da cultura. Eu
não sou da patota, eu não sou da patota cultural,
porque as pessoas são muito mais jovens e trabalham talvez
muito mais do que eu trabalhava. Cinema documentário,
eu mal conheço os filmes que estão passando aí,
mal conheço as pessoas, eu sinto muito, mas não
dá para ver tudo".
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"Eu
fiz meus filmes, estou fazendo fotografia, enfim, são
coisas que a gente está fazendo, mas não dá
para você acompanhar tudo, porque infelizmente não...
Eu tenho tanta coisa para pensar, estou na Cinemateca, tenho
fotografia, quero divulgar, estou fazendo um livro novo". |
"Então
são coisas que me ocupam muito e não dá
para... não estou em todas as exposições,
não estou em todas as projeções, eu sinto
muito, mas não dá!"
Eterno
aprendiz
"Eu leio, eu leio revistas, eu leio livros, eu fui a um
congresso literário agora em Parati (refere-se à
2a Flip, "Festa Literária Internacional de Parati",
realizada entre 7 e 11 de julho de 2004) - eu quando era
moço eu lia livros sobre fotografia e cinema, eu não
lia material sobre romance, não tinha literatura que
me interessasse, a não ser aquilo que eu estava querendo
fazer, cinema e fotografia; eu perdi esse tempo e estou repensando
agora - então eu fui neste festival onde assisti duas
conferências que me deixaram com os olhos molhados".
"Uma
do Arrigucci [o professor, crítico e escritor Davi
Arrigucci Jr., nascido em São João da Boa Vista
em 1943], sobre o Guimarães Rosa, e outra do Wisnik
[o músico, compositor e professor José Miguel
Wisnik, nascido em São Vicente em 1948], também
um espetáculo sobre Guimarães Rosa, interpretando
um conto. São coisas que a gente não acompanha
mais agora... Mas agora vou repegar algumas coisas enquanto
tiver tempo, eu vou voltar a ler Guimarães Rosa, vou
voltar a ler romance, vou voltar a ler literatura, são
coisas que eu perdi, mas eu quero repensar, repescar, se puder,
porque também não dá muito tempo".
Arte
e jornalismo engajados
"Não. Cada um faz o que pensa. O Glauber é
que dizia "Câmera na mão, idéia na
cabeça". Houve uma época em que realmente...
o Cacá [o cineasta Carlos Diegues, nascido em Maceió
em 1940] se revelou contra, em um artigo maravilhoso, contra
a... como é que chamava... a interferência na criação
artística".
"A
criação artística é uma, agora você
orientar uma criação artística através
de decretos, leis, idéias ou repressões, eu acho
que não está certo, não está com
nada. Não está com nada dizer que tem de fazer
leis que controlem o cinema, que controlem o jornalismo, eu
acho que tem de haver uma liberdade porque cada um é
responsável por aquilo que faz."
Conselho
Federal de Jornalismo
"Eu não sei o que eles querem fazer, não
sei se é possível controlar alguma coisa desse
tipo. Porque tem muita idiotice, muita besteira e muita coisa
horrenda, mas se você fechar isso, piora. Porque aí
só vai ser uma coisa estacanovista, uma coisa eslanovista,
um negócio soviético, e não precisa mais,
aquilo teve sua época. Você é regulado pela
sua consciência e pela sua palavra. Você faz uma
coisa e o pessoal mete o pau em você, você tem de
responder, mas não é que você tenha de incorrer
numa lei que te restringe; eu acho muito complicado isso. É
complicado! Como é que você vai fazer isso?".
A
patrulha
"O Nelson Leirner [o artista plástico Nelson
Leirner, nascido em São Paulo em 1932] botou um porco
dentro de um quadrado, num caixote. Bom, foi um horror, fizeram
um horror com isso, sendo que não tem nada; ele quer
fazer, se alguém achar ruim que ache ruim, que escreva
contra, que fale mal... mas não pode proibir. Quase que
eu vou dizendo que é proibido proibir, mas já
passou, é 68! Então, não é mais...
A liberdade é a responsabilidade de cada um".
Impunidade
"Eu acho que não tem país mais promissor
do que o nosso. Não tem um país mais livre do
que o nosso, não tem! O que tem é que tem muito
malandro, tem muita ladroeira, mas isso é muito da impunidade,
porque se rouba no mundo inteiro, mas o cara, quando pegam,
ele sofre as conseqüências e vai preso. Agora, aqui
não! Você vê as besteiras que aparecem, de
dinheiro pra cá, dinheiro pra lá, então
é muita impunidade".
"Talvez
seja uma herança portuguesa, eu não sei de onde
vem, mas é uma coisa que está aí. Mas não
é por isso que devemos desconsiderar este país,
que é um país maravilhoso. Já te falei:
o melhor país do mundo é esse. Agora, não
espalha, senão todo mundo cai pra cá!"
Crítica
e Jornalismo
"O jornalismo [no Brasil] é bom. Talvez a
crítica - a crítica musical, a crítica
fotográfica, a crítica cinematográfica
- ela evoluiu agora, ela está evoluindo agora revelando
bons críticos, mas isso está vindo agora, nós
estamos tendo críticas boas, tem jornalismo bom; agora
você tem de escolher: você tem de escolher o jornal
que lê, os artigos que você vai ler, mas é
a sua escolha. Acho que tem um jornalismo bom, um jornalismo
multipartidário - tem jornal de tudo quanto é
canto - não tem proibição, não tem
censura e não pode ter."
Arte
no Brasil
"Arte, aqui no nosso país, até agora tem
sido coisa de elite. E a coisa de elite, é como diz o
Hermeto [o músico alagoano Hermeto Pascoal, nascido
em 1936] no meu filme [Hermeto, Campeão,
média-metragem de 1981 criado, produzido e dirigido por
Farkas]: coisa de elite é uma coisa que é
melhor que a Coca-Cola, é melhor do que... sabe... então
uma coisa de elite é uma coisa, [risos] é uma
coisa que sei lá..."
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Cena
de "Hermeto, Campeão!" (1981). [Reprodução]
|
"E
agora esta elite está se confundindo, quer dizer, está
havendo uma emergência de um público novo, interessante,
interessado, de gente jovem, tem muita juventude ativa nesse
negócio, fazendo, procurando e vendo as coisas e vamos
ter então um futuro bom. Eu acho que é bom".
Joris
Ivens
"Ele [o documentarista holandês Joris Ivens 1898-1989]
ensinou muita coisa. Quando eu me separei da minha primeira
família e fui morar, fiz a segunda família, isso
faz 20, 30 anos, sei lá quanto, ele falou: 'Mas vocês
vão viver na mesma cidade?', 'Sim!', 'Ah, isso não
vai dar certo...'. Quer dizer, ele era muito, ele era uma pessoa
muito verdadeira. Ele brigava com todo mundo, todo lugar que
ele foi ele brigou".
"Brigou
na China, brigou em Cuba, brigou na Espanha, mas ele fez os
filmes dele, os filmes dele são maravilhosos, não
tem essa não, ele brigou mas ele fez as coisas; então
é um ídolo meu porque ele sobreviveu às
brigas e lutou por uma honestidade dele, era ele, 'eu acho isso,
eu acho aquilo, briguei com Cuba, briguei na China, briguei
na Espanha', por vários motivos, ele tinha a opinião
dele. Ele era um sujeito maravilhoso".
"Você
precisa falar com o Sérgio Muniz [diretor de Rastejador,
s. m. e outros], que é um rapaz que trabalhou
comigo pra ver a idéia dele do Ivens, qual é a
idéia - ele foi muito amigo também do Ivens nessa
época - e o Joris era uma pessoa fantástica, muito,
muito legal, ele é meu ídolo porque ele sempre
trabalhou na verdade dele, não na verdade que existia
mas na verdade dele, quer dizer, 'eu acho isso, eu acho aquilo'
e pronto".
"Tem
um episódio muito interessante, depois de 68 tudo era
coletivo. Então, ele disse: 'Eu tenho esse filme de 68,
dos estudantes, vamos montar o filme juntos, vamos sentar juntos
na moviola' (moviola é um aparelho pra montar o filme);
Então sentaram 10, o pessoal pra montar o filme. Depois
de duas ou três sessões ele disse: 'Acabou a democracia!
Quem manda aqui sou eu, eu é que vou montar, porque não
dá certo'. Não dá pra fazer. Certas coisas
coletivas não dá, a democracia é um negócio
complicado".
O
documentário
"O documentário é uma ala, é uma tendência
de manifestação. É uma manifestação
sobre as coisas que as pessoas sabem e vivem. Eu não
vou dizer que o documentário é a realidade, mas
o documentário procura uma verdade que sempre é
a verdade do autor, nunca é uma verdade absoluta, não
há uma verdade absoluta no documentário, é
sempre um filme de autor. O documentário é sempre
a visão que o documentarista faz. E essa visão
é muito variada!"
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"Subterrâneos
do Futebol" (1970). [Reprodução]
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"Tem
coisas fantásticas, tem coisas muito boas e tem bobagens,
mas faz parte da vida. A vida não tem só coisas
excelentes, na realidade tem de tudo. Então tem documentários
ótimos, tem documentários péssimos, tem
documentários indiferentes".
"Sempre
fui partidário de contar tudo em 15, 20 minutos, 'se
for mais do que isso aqui, não presta!'. Mas é
bobagem, porque têm coisas que necessitam de uma hora.
Então nada disso funciona. Tem que dar uma liberdade
para fazer, o público é que vai dizer, se interessou,
não interessou, sei lá... Acho que não
[há regras]".
"É
a mais fácil. Porque você faz com mais facilidade
e você tem uma enxurrada muito grande; agora você
tem de ver o seguinte: você tem de escolher o interessante,
dessa enxurrada que você faz tem de cortar tudo aquilo
que não interessa. E é muito difícil cortar
um braço da gente. Por isso é que tem muita coisa
a mais do que deveria ter. É assim."
"Acho a coisa muito interessante porque tem muita
variedade, e o longa-metragem nem sempre pode fazer tudo,
porque é muito caro! O documentário é
um pouco mais econômico e dá para fazer coisas
interessantes. Agora, nem tudo é interessante,
nem tudo é maravilhoso, tem muita besteira, muita
bobagem".
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Cinema
atual
"Tudo é válido. Agora, por exemplo, depois
de assistir meia dúzia de filmes desses, eu não
quero mais, porque eu acho que já vi tudo, já
vi todas as misérias, todas as matanças, todas
as injustiças, depois de você assistir uma série
deles... não dá pra fazer muito mais do que isso.
Quer dizer, continuam fazendo, devem fazer, sempre aparece coisa
mais interessante, mais nova, mas não dá pra ver,
pra mim não dá pra ver tudo. Porque eu vou ver
de vez em quando. Tem de fazer, tem de mostrar, enquanto tiver
público, muito bem".
"Até
o Hector. Por mais que possam acusar, ele também trabalhou
isso [o aspecto social do cinema]. Trabalhou isso naquele
outro filme, o primeiro... ai meu Deus... o menino... do Pixote!
[Pixote: A Lei do Mais Fraco, 1981, longa-metragem
de Hector Babenco]. O Coutinho [o cinesta paulistano
Eduardo Coutinho, nascido em 1933], o Coutinho é
um cara maravilhoso; o Wladimir Carvalho [diretor de Companheiros
Velhos de Guerra e Barra 68], tem dez
nomes aí que são absolutamente fantásticos.
O Geraldo Sarno [diretor de Viramundo e outros],
que pouca gente conhece, que trabalhou comigo, é uma
pessoa absolutamente maravilhosa. Ele foi influenciado muito
pela Lina Bardi [Achillina Bo, a Lina Bo Bardi (1914-1992),
arquiteta italiana radicada no Brasil], que levou ele a
ver as coisas que ele viu, que está fazendo".
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Cena
de "Viramundo" (1965). [Reprodução]
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"Essas
coisas influenciaram o Geraldo, o Geraldo me levou para lá
- foi ele que me abriu a cabeça pra essas coisas. Fomos
nós, o Geraldo, foi o Paulo Rufino, depois com a turma
toda, que nós fomos e repetimos. E aí mais uma
vez aquela coisa comercial. Não deu certo comercialmente.
Nunca consegui vender, nem para televisão".
"Eu
pretendia fazer para escola que nem livro, mas o professor achava
que 'o filme vai me desempregar', 'não vai precisar mais
de professor'; eu disse 'não, é que nem um livro,
o filme é um livro, que tem de ser debatido, projetado,
discutido'. Também a televisão naquela época
era muito fechada, não queria saber... Era muita miséria...
mas, isso já passou!"
Novas
tecnologias
"A linguagem vai ser a mesma, o que vai ter é um
material muito grande para ser editado, para ser montado. Não
quer dizer que seja melhor, pior, maior ou menor, é que
é mais fácil você fazer hoje, mais barato
você fazer, do que fazer antigamente, que era muito caro
e muito difícil."
"Isso
não quer dizer que o material seja muito melhor, a qualidade
não depende da quantidade. Nem a fotografia, nem o cinema,
nem o digital, [tudo apenas] é um meio de chegar
lá, não é um fim, é um meio de chegar
lá; então tudo bem, que seja, eu ainda não
peguei porque não tenho mais cabeça."
A
língua húngara
"A língua húngara é totalmente inútil
[jocoso]. Mas ela é inútil porque funciona para
os fotógrafos e para os músicos. Também
funciona para a cozinha húngara - eu adoro cozinha húngara
-, mas é uma falação minha meio besta,
mas é uma língua que ninguém entende, só
nós, nós húngaros, mas eu vou fazer o quê?!"
Fotografia
brasileira
"O Brasil foi minha escola. O cerne do meu trabalho é
o Brasil, é a pessoa brasileira". Existe fotografia
brasileira? Eu acho que sim. Tem um certo olhar que é
brasileiro. É muito boa, subindo. Tem gente muito boa
trabalhando, tem gente se especializando, se depurando, a linguagem
é uma linguagem muito interessante. Eu acho que tem fotografia
brasileira! Não [é top mundial] porque
não tem divulgação mundial".
"Tem
qualidade para ser e ela não é porque nós
não somos americanos nem europeus. Um brasileiro que
vai para fora e consegue se projetar, Sebastião Salgado
[o fotógrafo mineiro nascido em 1944], ele se
projeta! Porque está lá fora. Ele, só aqui
dentro, é limitado, qualquer fotógrafo bom aqui
dentro é muito limitado, porque nós não
temos divulgação internacional, não temos".
"Não
temos revista que publica Pedro Martinelli [1950], Cristiano
Mascaro [1944], lá fora, entende, é por
isso que nós não temos top mundial, porque
não temos divulgação mundial, se tivesse,
aí a gente poderia competir em igualdade de condições.
Não tendo, nós ficamos na nossa e seja o que Deus
quiser".
O
olhar nativo
"Eu adorava o Weston [o fotógrafo norte-americano
Edward Weston (1886-1958)]. O Weston é um cara muito
interessante que fotografava tudo, a Califórnia, o México
- tem certas pessoas que se prendem a países, a locais,
eu me prendo ao Brasil - e ele se prendeu muito no México,
o Álvares Bravo [o fotógrafo mexicano Manuel
Álvarez Bravo (1902-2002)] se prendeu no México,
o Weston se prendeu na Califórnia, enfim, cada um se
prende a um local. Eu acho que o meu olhar é daqui. É
o olhar brasileiro".
Realismo
"Eu não retrato os despossuídos, os sem-teto.
Eu retrato a vida como ele é. Eu não tenho nenhuma
afinidade com a miséria; o que a gente retrata não
é a miséria, é a realidade. Se alguém
olha como miserável, é porque está em outra
classe, mas a grande maioria nossa não é rica,
não é isso. Existe uma incompreensão. Por
exemplo, os meus primeiros filmes a televisão, a TV Cultura
disse que não passava porque era miserável. Paciência,
eu não vou... O Brasil é um país complicado".
Televisão
"A televisão faz conhecer [o país].
Embora a televisão tente impressionar e ficar por cima
de tudo. Mas tem coisas que ela mostra, quer dizer, desde o
Globo Repórter, por mais diversificado que seja... A
televisão é importante,, porque mostra as coisas
que tem de ser mostradas e mostra as outras que são fantasias".
Para
os iniciantes
"Tem de começar trinta anos, quarenta anos atrás.
Ver os artistas de 40 anos atrás, pegar livros, anuários,
de 40 anos atrás e ver como é que aquilo vem se
desenvolvendo, até chegar os dias de hoje. Quem é
que o Kertész [o fotógrafo húngaro André
Kertész (1894-1985)] influiu, quem é que o
Salgado [o fotógrafo Sebastião Salgado]
vai influir".
"Essas
pessoas existem, tem a história da fotografia que a pessoa
tem de estudar um pouco, pegar uns livros mais antigos, uns
livros de 30, 40 anos atrás, para ver de onde veio isso
que nós chegamos hoje. Quer dizer, de onde é que
a gente veio? A gente tem de conhecer um pouco da história
da fotografia. No SENAC tem várias pessoas que ensinam
isso. O SENAC é um negócio importante do ponto
de vista fotográfico, provavelmente cinematográfico,
mas eu não conheço tanto".
Escolas
de cinema
"Lá [em Cuba] o governo deu um puta dinheiro.
Cuba foi feito com o dinheiro do García Márquez
e junto com o governo. O governador ia lá, o presidente
ia lá encher o saco de todo mundo, pra ganhar dinheiro,
pra dar prestígio à escola. Na Argentina, naquela
época também, agora eu não sei como é
que está, mas eles estão lá. As escolas
são muito boas. Agora, a escola não forma artistas,
a escola forma a base. Quem é artista é o cara
que é o que tem na cabeça".
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Cena
de "Nossa Escola de Samba" (1970). [Reprodução]
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Projetos
"Eu sou um cara que tira fotografias, eu tenho umas 40,
50 fotografias boas. Agora estou fazendo um livro, uma expedição
que nós fizemos com o Vanzolini [o professor e compositor
paulista Paulo Vanzolini, nascido em 1924] quarenta anos
atrás, no Rio Negro. Ele está escrevendo um pequeno
texto. São fotografias daquela época".
"Eu
não sei se hoje está diferente daquela época,
mas é muito interessante, são coisas muito boas.
É tudo colorido, são 500 fotos coloridas que eu
vou publicar. Estavam aí no depósito... Deus é
que sabe [quando sai]. Estamos trabalhando".
Um
otimista delirante
"Mais triste foi ver a miséria na qual o mundo [está].
O mundo tem muita miséria, miséria moral, é
uma pena. O que me deixa mais alegre é que a gente consegue
sair e vai conseguir sair disso. Você vai ver! Eu sou
um otimista delirante, é verdade!"
Religião
"Nós somos de uma família judaica, mas a
religião para mim é uma coisa tão de dentro,
que não é uma coisa que chama as pessoas nem fala
com as pessoas sobre isso. É uma coisa tão íntima,
tão de dentro. A religião é uma coisa interior,
é interior de cada um. Meu pai era religioso, acendia
velas e fazia reza. Eu não sou... Eu não demonstro,
mas eu sou. Mas eu sou por dentro, não faço propaganda,
nem sou contra, acho que todas as religiões se unem,
isso é uma coisa importante".
Viver
é muito importante
"A mortalidade é uma conseqüência da
vida. Quem vive, morre. Isso é uma coisa tão natural,
ela pode vir hoje, pode vir amanhã, daqui a dez anos...
Eu gostaria de viver mais se eu conseguisse manter a minha cabeça
boa, porque depende muito da tua cabeça a sobrevivência.
A vida é uma coisa muito interessante, muito positiva
e muito necessária. E a morte é uma conseqüência
da vida".
"São
as coisas da vida da gente. A vida da gente é uma sucessão
de idéias e os atos da gente. Tudo o que a gente faz
é nossa vida, viver é muito importante".
São
Paulo, 10.08.2004.
Acesse
aqui o Especial PJ:Br de Fotojornalismo
e vídeos
com Thomaz Farkas.
*Marcelo
Januário é mestrando em jornalismo na ECA-USP.
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