Conversas
com o ermitão
da Praia Vermelha
Fragmento
Biográfico [1]
Por
José
Amaral Argolo*
Eu
vejo a natureza como parte de mim. Quando tenho um problema
eu mentalizo Deus. Me apóio numa árvore,
seja à luz do Sol, no crepúsculo ou sob
o reflexo da Lua e mentalizo... como se estivesse conversando
com Deus, com meus espíritos guardiães,
com as entidades abrigadas nas rochas, nas árvores...
e peço permissão ao Criador e às
entidades invisíveis para que me ajudem a obter
uma resposta. Então, com a maior segurança
e naturalidade, coloco em prática os sinais divinos,
de modo a resolver as dúvidas e ajudar as pessoas
que me procuram. Severino Gomes
|
Reprodução
O Ermitão da Montanha (1863), gravura
de Doré para Atala, de Chateaubriand.
|
O
que importa de fato é que ele está vivo e cada
vez mais teimoso.
Severino
Gomes da Silva é o seu nome. Como tantos outros amigos,
freqüenta a minha casa e eu a dele. Onde moro? Com a minha
família num apartamento alugado e modesto em Botafogo.
Ele? Sozinho e no vão de uma rocha na floresta, a aproximadamente
cento e cinqüenta metros de altitude em relação
ao nível do mar, partindo da Pista Cláudio
Coutinho, melhor dizendo, do Caminho do Bem-Te-Vi
- no canto esquerdo da Praia Vermelha.
É
o seu castelo há 25 anos. Ali, com os parcos recursos
de que dispõe e em plena sintonia com a natureza, cuida
daquele trecho belíssimo e encantado do Rio de Janeiro.
É o único cidadão autorizado pela Escola
de Comando e Estado-Maior do Exército a nele residir
e designado guardião das matas do Morro da Urca
e do Pão de Açúcar.
O
apelido - Sem Futuro - quem lhe deu foi Renato Papagaio,
ex-guarda-vidas do Corpo Marítimo de Salvamento (já
falecido) que, durante muitos anos, trabalhou na Praia Vermelha.
Gomes, como eu o chamo no dia-a-dia, é um herói.
Nem mesmo ele, consultando os seus registros pessoais anotados
em um caderno com as páginas amareladas pelo tempo, sabe
dizer o número de vezes em que, tarde da noite e/ou na
alta madrugada, sob vento frio, chuva forte, trovões
e relâmpagos, deixou o abrigo que lhe foi concedido pela
natureza e, sozinho, entrou na mata para resgatar alpinistas
acidentados nas encostas dos morros da Urca e do Pão
de Açúcar, pessoas perdidas ou picadas por jararacas,
localizar cadáveres ou ajudar os bombeiros no resgate
dos corpos dos afogados.
Sim,
localizar cadáveres. Infelizmente, mesmo naquele Cartão
Postal da Cidade, naquele trecho protegido e constantemente
patrulhado pela Polícia do Exército, a violência
se faz presente. Certa vez uma mulher foi morta a golpes de
baioneta pelo próprio marido, funcionário, soube-se
depois, de uma loja situada no Edifício Praia Vermelha
- onde residem oficiais-alunos dos cursos de Estado-Maior; de
outra, um suicídio; aliás, vários, inclusive
no mar, nas imediações das pedras Lisa,
da Sereia e do Urubu, onde o impacto das ondas
contra os rochedos forma rodamoinhos mortíferos.
Quem
conhece - e são poucos aqueles que de fato podem dizê-lo
- as matas que orlam as encostas dos morros da Urca e do Pão
de Açúcar e os perigos do mar nem sempre calmo
(há centenas de cavernas subaquáticas nas duas
extremidades da Praia Vermelha: do lado esquerdo, estendendo-se
para muito além do chamado Costão até
a Fortaleza de São João construída pelos
portugueses; do lado direito, projetando-se ao Leme), pode mensurar
as dificuldades quando se trata de resgatar alguém. Mesmo
os experientes soldados e oficiais do Exército e do Corpo
de Bombeiros, quando solicitados, recorrem a Severino Gomes
para auxiliá-los.
Conto
uma história que não teve final feliz. Aconteceu
em 1997, durante uma das piores ressacas que vi acontecer. Barcos
foram lançados à distância e espatifados
contra as muretas de granito da Urca, as ondas batiam furiosamente
contra os rochedos e "lavaram", por assim dizer, alguns
trechos da Pista Cláudio Coutinho mais próximos
da linha d'água. Não havia, como hoje, uma extensa
grade de proteção margeando o caminho e os praticantes
de jogging, prudentemente, reduziam a velocidade colando-se
quase aos paredões para não escorregar no asfalto
molhado e cair no mar.
Cinco
adolescentes que aproveitaram a maré baixa e desafiaram
a ressaca subindo ao topo da Pedra Lisa, tinham sido
advertidos por Severino Gomes para que deixassem rapidamente
aquele local, mas não se convenceram do perigo e menosprezaram
o conselho daquele homem simples e mal vestido.
Sei
de tudo isso porque, casualmente, também estava lá.
Afinal, o Morro da Urca e a casa do ermitão da
Praia Vermelha são refúgios habituais para este
já não tão jovem jornalista.
Devo
ressaltar, relativamente aos fatos em pauta, o menosprezo e
a resistência que certos adolescentes das metrópoles
têm com relação aos conselhos dos mais velhos,
principalmente em se tratando de uma pessoa humilde e desconhecida.
Na
tarde seguinte aconteceu a tragédia. Novamente a imprudência
dos adolescentes e a resposta imediata das forças da
natureza. Uma onda violentíssima lambeu a Pedra Lisa
e dois deles caíram no mar. Um teve a sorte de ser resgatado
meia hora depois - todo machucado e a bem mais de quinhentos
metros da orla da Praia Vermelha - por mergulhadores da Coordenadoria
Geral de Operações Aéreas. O outro,
caiu no sumidouro provocado pelo repuxo da onda e, em
seguida, foi projetado de cabeça contra o rochedo, afundando
imediatamente e desaparecendo nas profundezas do mar. Quanto
aos demais, fora o susto e alguns arranhões proporcionados
pelo atrito inesperado contra a rocha, conseguiram safar-se
ajudados por pescadores.
A
mãe do menino morto e desaparecido, casada com um oficial
do Exército, tomou conhecimento do acidente com o filho
único duas ou três horas depois, quando voltava
das compras. Algumas senhoras inutilmente tentaram confortá-la
e militares solicitaram, por intermédio do telefone,
a ajuda das autoridades do Primeiro Distrito Naval e dos mergulhadores
do Batalhão de Forças Especiais. A Marinha argumentou
que não poderia arriscar uma embarcação
e seus tripulantes face às péssimas condições
de navegabilidade; quanto ao Exército, enviou um grupo
de especialistas...
Impasse
na Praia Vermelha
Angustiado pelo sofrimento daquela jovem mãe, perguntei
a Severino Gomes se, com o auxílio de cordas, eu conseguiria
descer até a Pedra Lisa e, com um pouco de sorte,
localizar o corpo do menino - supondo que ainda estivesse preso
às rochas. Respondeu-me que não. Muito dificilmente
eu chegaria ao ponto desejado e, segundo ele, mesmo que tal
proeza fosse possível, dela não retornaria com
vida.
E
acrescentou:
-
Irmão Argolo, meu professor! (tratamento que sempre usa
quando conversamos) se você quiser descer para a morte
eu o acompanharei nessa viagem sem volta. Não há
mais nada que possamos fazer. Os desígnios de Deus são
mais fortes do que nós.
O
bom senso prevaleceu e, quando os Comandos (alpinistas
e mergulhadores) do Exército chegaram, houve tão-somente
uma tentativa frustrada de resgate. Aqueles homens acostumados
a provas duríssimas, a situações-limite,
desprezaram as observações que lhes fizemos oralmente
e voltaram pouco depois, de cabeças baixas, encharcados
e arranhados. Nem chegaram à pedra de onde o menino despencou
e morreu tragado pelo mar.
Um
deles, capitão pelo que me recordo, não gostou
das palavras que ouviu daquele homem de baixa estatura, magro
e com um facão de mato preso à cintura por um
cinturão de lona do próprio Exército:
-
Capitão, veja bem, se eu que vivo aqui e conheço
cada trilha e cada caverna submarina; se o meu irmão-professor
que também sabe muito disso aqui não desceu até
lá atendendo aos conselhos que lhe dei, o que vocês
fizeram foi loucura. Ainda bem que desistiram.
Como
outras vítimas de tantas e tantas ressacas, o corpo daquele
menino desapareceu. Naquela noite choramos por ele e compartilhamos,
solidários, a dor da sua família.
Visão
ao longe
Chovia. Contornando de passagem a Praça General Tibúrcio
no velho Volkswagen Gol 1993,eu regressava da Universidade
para casa. Já estava tarde: oito, nove horas da noite.
Tempo de tomar banho, comer alguma coisa e preparar a aula
da manhã seguinte. Dirigia devagar, despreocupadamente.
Dali mesmo, quando passava diante da estátua de Chopin,
obra lindíssima doada ao povo carioca pelo governo
Polonês, pude ver à meia-distância Severino
Gomes. Ele caminhava com alguma dificuldade, a capa de náilon
esvoaçante, na direção dos portões
de acesso à Pista Cláudio Coutinho. Junto com
ele seguia Rocha, o vira-lata mais manso que conheci e que
foi morto anos depois com uma facada por um bandido dublê
de barraqueiro e vendedor de mate da Praia Vermelha. Gomes
caminhava sem pressa. A chuva caía sem parar, iluminada
pelas grandes lâmpadas de mercúrio. Adiante,
no canto esquerdo da Praia, apenas as luzes tremeluzentes
das lanternas dos pescadores e a escuridão do mar.
Severino
Gomes da Silva nasceu em Camocim de São Félix
- interior de Pernambuco - no dia 18 de março de 1951.
Nos documentos, porém, por um desses equívocos
do escrivão no cartório, consta o ano de 1952.
Filho de Absalão Gomes da Silva e de Lucinda Rosa do
Nascimento, foi entregue à guarda dos avós paternos
após a morte da mãe, vítima de tuberculose,
quando ele tinha três anos. Apolônio Gomes da Silva
e D. Maria Julia da Conceição cuidaram do garoto
até os oito anos, quando viajou para Recife com o pai
e as três irmãs - Salete, a mais velha, Julia e
Ione, a caçula - onde a família fixou residência.
O
catolicismo, forte em todo o Nordeste Brasileiro e muito bem
representado - basta observar o número de igrejas existentes
em Olinda e Recife - levou-o à Basílica de Nossa
Senhora do Carmo (Santa Padroeira da Capital Pernambucana),
onde foi coroinha durante algum tempo. Essa mesma religiosidade
ele mantém até hoje, embora o fervor em relação
às palavras de Jesus Cristo transcritas pelos apóstolos
nos Evangelhos, tenha sido flexibilizado para outras crenças
que considera igualmente aplicáveis: a Igreja Messiânica,
o Kardecismo e certos ritos afro-brasileiros com os quais compartilha
no cotidiano na floresta.
Um exemplo que confirma essa aproximação:
Severino Gomes:
Certa
ocasião, e não fui somente eu que vi, pois estava
acompanhado, bem perto de onde eu caminhava, à noite,
na mata do Morro da Urca, havia um monge parado com o hábito
franciscano, o rosto encoberto pelo capuz... O que ele fazia
naquele local ermo e àquela hora? Passados uns poucos
segundos, quando voltei a firmar os olhos na sua direção,
ele desaparecera. Rezei, então, a todos os santos e
pedi proteção aos guias e orixás da floresta.
...
No domingo passado, lá pelas dez da noite, Gomes esteve
comigo na minha casa. Chovia e ventava muito. Ele chegara há
pouco de Copacabana e, em seguida, caminharia até a Urca
(distante dois quilômetros) onde ministraria palavras de
conforto a uma pessoa adoentada. Como por acaso eu conhecia aquele
indivíduo e não tinha uma única sombra de
dúvida sobre o seu péssimo caráter, indaguei:
Mas...você pretende mesmo ir até lá? Esse
sujeito não vale o chão que pisa!
Respondeu,
sereno:
-
Eu sei, irmão Argolo, sei de tudo isso e até bem
mais. No entanto ele solicitou que me chamassem. Vou atendê-lo
porque se trata de um compromisso de fé.
Bebeu
uma caneca de chá quente, comeu um sanduíche de
carne assada fria e temperada com molho de mostarda levemente
apimentada, fumou mais um cigarro e, apesar do frio e do temporal,
foi embora para cumprir a missão. Essa lição
de vida e solidariedade compartilho agora com você, leitor
(a).
...
De volta à estrada da vida.
O ex-sacristão cresceu e, aos dez anos, concluiu
o curso primário na Escola Municipal da Ordem Terceira
do Carmo. Não chegou ao ginasial. Parou no primeiro ano
quando ingressou na Escola de Aprendizes-Marinheiros
de Pernambuco, em Olinda, instituição que, ainda
hoje, mantém o brilho da tradição naval.
Cursou quatro quadrimestres e se formou na turma de 1970-1971
(Turma Juliete).
A escolha decorreu da argumentação paterna:
-
Preferes a Marinha ou a Polícia Militar? (tanto na época
como ainda hoje, ressaltou, havia poucas possibilidades para
um menino órfão e de família pobre aprender
um ofício).
Mas...como
ele próprio (Gomes) reconhece agora, não foi uma
opção das mais fáceis. Após superar
as dificuldades iniciais no quesito adaptação
às normas da Escola de Aprendizes-Marinheiros de Pernambuco,
aconteceu um fato pitoresco:
-
Eu integrava a equipe de natação e, não
sei explicar o motivo, repetia uma falha durante os exercícios.
Entrava na raia um e saía na raia seis. Somente como
recordação, o melhor atleta entre nós era
um lourinho a quem chamávamos de Alemão,
talvez um descendente longínquo dos holandeses.
A
propósito dos seus dotes como nadador: já vi guarda-vidas
comentar na Praia Vermelha: "eu sou bom, mas aquele magrelo
é melhor do que eu".
Gomes
brinca com o mar. Aproveita a força da correnteza e desliza
nas ondas. Mesmo agora, aos 55 anos, fumando como uma chaminé,
comendo pouco e bebendo além da conta, quando cisma de
entrar na água - não importa o tempo ou a maré
- vê-lo nadar é um espetáculo à parte.
Morou
no Recife até os vinte e cinco anos. Antes, durante algum
tempo, ajudou o pai - hoje com 76 anos (nasceu no dia 30 de
março de 1930) e ainda forte - arrendatário de
uma pequena pastelaria localizada atrás da Basílica
de Nossa Senhora do Carmo. "Seu" Absalão repetia
sempre ao filho já graduado aprendiz-marinheiro: "quando
eu pendurar as chuteiras volto correndo para Camocim de São
Félix". Ainda não conseguiu fazê-lo.
Ele mora sozinho na Travessa do Cação, 86 (Bairro
Santo Antonio). Quanto às três irmãs, vivem
numa casa à Rua Delfim, 32, numa comunidade de pessoas
humildes denominada Brasília Teimosa, também
na Capital pernambucana.
Gomes,
porém, pensava diferente:
-
Eu queria mais. Um dia falei com o meu pai: dê-me sua
benção que eu vou embora para o Rio de Janeiro.
Deixou
Recife e desembarcou quarenta e oito horas depois na Rodoviária
Novo Rio, às 9h30min do dia 16 de outubro de 1972. A
Capital Fluminense era a metrópole do sonho, não
das coisas fáceis. E a vida comprovou isso.
-
Assim que cheguei fui morar na casa de uma família em
Coelho da Rocha (bairro da Zona Norte relativamente afastado
do centro comercial, econômico e financeiro da cidade).
Arranjar ocupação era difícil e eu comecei
como peão-de-obra. Inicialmente fui trabalhar em Teresópolis
(Região Serrana, distante 130 km da Capital), onde ajudei
a instalar os dutos para a colocação de cabos
telefônicos. Serviço de curta duração
que me levou depois aos municípios de Petrópolis,
São João de Meriti e Angra dos Reis. Nesta última
cidade trabalhei na empresa Odebrecht C.N.O., ajudando na construção
da Usina Nuclear Angra 1. Foi ali que observei com um
pouco mais de atenção o trabalho daqueles guarda-vidas
que usavam camisetas tipo regata com uma cruz vermelha no peito.
-
Pedi autorização à chefia para treinar
junto com os guarda-vidas. Me exercitava diariamente na Praia
Brava e acreditava que, em pouco tempo, passaria à categoria
de Auxiliar Técnico de Salvamento. Um dia mandaram que
eu participasse de uma prova de 1500 metros. Nadei 4500 metros,
apesar da recomendação no sentido de parar imediatamente
quando estivesse cansado. Fui bem sucedido no teste e, como
a empresa não oferecia curso de guardião de
piscina, voltei para o Rio de Janeiro, para a Praia Vermelha.
Aqui cheguei no dia 11 de janeiro de 1977 e nunca mais saí.
Impressões
sob a figueira
Na clareira onde vive o guardião das matas do Morro da
Urca e do Pão de Açúcar há uma imensa
figueira. Fica em frente ao vão da rocha. O caule gigantesco
lhe assegura alguma proteção contra o vento, a
chuva e é a maior árvore do gênero que eu
já vi. É numa espécie de banco natural
que costumamos sentar e conversar muitas horas, o que tem acontecido
freqüentemente ao longo desses 27 anos. Reproduzo de memória
- e com os lapsos inevitáveis - uma dessas jornadas que
se prolongaram até tarde da noite.
- Da velhice ninguém passa!- dizia Gomes.
-
Da velhice ninguém passa!- dizia Gomes.
O
assunto girava em torno da saúde do meu pai,bastante
fragilizado pela doença, em sua primeira noite em casa
após dezoito dias de internação numa
enfermaria do Setor de Cardiologia do Hospital Miguel Couto.
Angustiava-me o sofrimento daquele homem bom e sem inimigos,
seu estoicismo diante da dor.
Falávamos, também, dessa representação
chamada vida, durante a qual as pessoas, em sua quase totalidade,
buscam alcançar o inatingível, superar o tempo,
comprar o passaporte para a eterna juventude.
Gomes contou uma parábola:
- Um executivo, desses que andam apressadamente pelas ruas
carregando uma pasta de couro tipo 007, deparou-se casualmente
com um ermitão quieto no seu cantinho. Este último
perguntou ao executivo a razão pela qual carregava
com tanta pressa levando consigo aquela maleta. Ao que o outro
respondeu:" estou aqui de passagem". Daí
o executivo resolveu indagar:" e o senhor, o que faz
aí sentado tão calmamente? - notando que o ermitão
nada mais dispunha do que um banco rústico e um estrado
para lhe servir de cama. Justificou-se este: "eu também
estou aqui de passagem!".
O
passado, sempre o passado. Severino Gomes lembra-se do dia em
que foi reprovado no teste denominado reboque, essencial
para todo e qualquer guarda-vidas.
A
explicação:
-
Em toda operação de resgate a pegada deve
ser feita com a mão esquerda e a puxada com a
direita. Eu estava acostumado a nadar e respirar quando virava
a cabeça para o lado esquerdo. Nadando na direção
da "vítima do afogamento", fiquei atrapalhado
com as ondas batendo de frente e perdi muitos pontos.
No
ano seguinte (1978) passou no teste para guardião
de piscina e conseguiu emprego no Clube Internacional (também
conhecido como Boqueirão, nas proximidades do
Aeroporto Santos Dumont - Centro do RJ).
Quatro
meses depois foi convidado a trabalhar no Othon Palace (Posto
4, Copacabana) onde exerceu a função até
se indispor com o chefe da segurança:
-
Eu dava atenção especial a uma turma de crianças
e, certa manhã, percebi que outro funcionário
do hotel despejara na água uma quantidade de cloro além
do recomendável. Interditei a piscina, pois não
permitiria que aqueles meninos e meninas sofressem queimaduras
nos olhos. Daí, o tal chefe discutiu comigo alegando
que a proibição, num dia de muito calor como aquele,
prejudicaria os demais hóspedes. Decidi procurar outro
emprego e saí com a consciência limpa. Consegui
uma vaga no Flamengo Futebol Clube e trabalhei durante sete
meses até ser despedido por culpa minha, melhor dizendo,
da cachaça...
A
empresa Régia Hidráulica e Esportiva (especializada
na construção e manutenção de piscinas)
foi sua última empregadora. Nela trabalhou sete meses
no escritório central, mais oito meses como guardião
de piscinas no Montanha Clube, outros cinco em um condomínio
residencial no bairro da Freguesia (Jacarepaguá), pouco
menos de um ano no Jóquei Clube Brasileiro, além
de - por duas vezes, ambas em curtos períodos - no Condomínio
Casa Alta (um prédio residencial de classe média,
em Botafogo - Zona Sul).
Durante
todo esse tempo Severino Gomes esteve abrigado precariamente
na Praia Vermelha. Aquele local conquistara de vez o migrante
pernambucano pobre e de bom coração. Inicialmente
ele dormia em um pequeno vão entre as rochas, pouco acima
da linha d' água na maré cheia.
Ali
guardava as suas poucas roupas e agasalhos. Muitas vezes, quando
chegava para descansar após o trabalho, encontrava o
interior do abrigo revirado por mãos desconhecidas e/ou
as peças encharcadas devido a uma onda mais forte. Quando
isso acontecia o único jeito era torcer o cobertor, resgatar
os pares de sapatos/chinelos (que deixava amarrados aos pares)
boiando e rezar para que o vento sudoeste não lhe castigasse
o corpo cansado durante a noite.
Severino
Gomes é um sujeito correto com os amigos e de notável
honestidade pessoal. Como assinalado, há vinte e sete
anos sou seu amigo e durante todo esse tempo foram inúmeras
as vezes em que lhe confiei a guarda de objetos, chaves da minha
casa e dinheiro. Jamais se apropriou de um centavo sequer. Se
desejava um cigarro, pedia.
O
sonho de integrar o quadro de salva-vidas se dissipou, porém,
no início dos anos oitenta, quando da implantação
do Grupamento Marítimo de Salvamento, órgão
do Corpo de Bombeiros Militares do Estado do Rio de Janeiro.
Durante a mudança para a nova sede muitos arquivos foram
extraviados e ele não conseguiu obter a segunda via da
carteira de guardião de piscinas.
Dos
raros papéis que preservou, ainda que amarrotado, o diploma
obtido na Marinha pouco lhe serviu. "O certificado que
recebi tem validade somente barra a fora, isto é,
em alto mar; não atende à navegação
de curta-distância. Daí, eu precisaria fazer outro
curso, mas o tempo foi passando e nunca tive dinheiro para custear
as despesas" [2], disse.
Sobre
cães, répteis e homens
Tamba, Rocha, Malhado, Judy e, mais recentemente,
Boto, Papillon, Conchita e Anu, todos vira-latas (os dois
últimos "netos" de Rocha, mistura com
Terrier), foram e são os companheiros do ermitão
da Praia Vermelha. O primeiro morreu de velhice e foi enterrado
junto a um mamoeiro. Era um animal muito inteligente e seguia
o dono como uma espécie de sombra. No final, praticamente
cego e muito fraco, deitava-se na entrada da trilha esperando
que Severino Gomes o levasse até a clareira no coração
da mata.
Outros
cães, o número é impreciso, Gomes viu morrer
picados por jararacas.
As
matas nos morros da Urca e Pão de Açúcar
ainda preservam muitos exemplares da flora e da fauna; relativamente
a este última, são aproximadamente setenta espécies
de pássaros catalogados pelos especialistas, quatro ou
cinco de ofídios (incluindo corais verdadeiras), sagüis,
gambás, teiús e pequenos roedores.
Quanto
aos ofídios não peçonhentos existem: jibóias,
limpa-campos e cipós.
As
venenosas, além das já citadas - eu pessoalmente
nunca vi -, são urutus-cruzeiro e cascavéis. Gomes
afirma ter se deparado com uma urutu certa vez próxima
ao marco dos oitocentos metros da Pista Cláudio Coutinho.
Tentou capturá-la mas o réptil escapou, embrenhando-se
nos espinheiros. Relativamente às cascavéis, tenho
conhecimento de dois registros: o primeiro, narrado por um sargento
do Exército que teria morto uma a pauladas junto aos
arbustos que existem ao longo daquele caminho.
O
outro, de um alpinista apavorado que ficou suspenso à
distância de três, quatro metros da base do Pão-de-Açúcar,
com a serpente enrolada no chão exatamente no ponto onde
ele deveria pisar. Como não teve forças para subir
novamente a montanha, gritou por socorro e foi salvo por outros
rapazes que, por mera coincidência, pretendiam iniciar
a escalada naquele trecho.
Os
acidentes ofídicos causados por jararacas no Morro da
Urca são freqüentes. O próprio Gomes quase
morreu em conseqüência da desatenção.
Conto como foi. Ele viu um espécime bem taludo próximo
à entrada da trilha principal (marco dos 350 metros),
conseguiu pegá-lo com as mãos desprotegidas, arranjou
uma garrafa de plástico e, como de costume desde que
foi morar naquele quase-escondido vão da rocha, tentou
colocá-lo no recipiente para, em seguida - por intermédio
do próprio Exército - enviar ao Instituto Vital
Brasil, em Niterói. Não teve tempo de fazê-lo
de maneira adequada e foi picado no dedo indicador da mão
direita.
Os
efeitos foram quase imediatos. Primeiro o dedo inchou bastante,
depois a mão e o braço. Gomes estava meio bêbado
naquela tarde e acreditou que a peçonha instilada pela
serpente fora pouca e não lhe acarretaria maiores problemas.
Quarenta minutos depois teve que recolhido no final da Pista
- cambaleante e pronunciando frases desconexas - por uma dupla
de soldados e levado ao Hospital Central do Exército,
onde tomou dezessete frascos de soro antibotrópico. O
oficial-médico que o atendeu ficou impressionado com
a violência do choque provocado pelo veneno e comentou
que se até à meia-noite o soro não surtisse
efeito, seria mais conveniente chamar o rabecão.
Salvou-se
o ermitão da Praia Vermelha graças à extraordinária
resistência acumulada durante os anos vividos na floresta.
Permaneceu inconsciente durante algumas horas e, quando acordou,
pensou que estava no céu, olhando todas aquelas pessoas
vestidas de branco: médicos, enfermeiras e enfermeiros.
Passou duas semanas com a mão deformada pelo inchaço
e, por sorte, não teve seqüelas permanentes (fato
este bastante comum nos acidentes ofídicos).
Este,
na verdade, foi o segundo problema que enfrentou relacionado
a cobras. O primeiro foi com uma jibóia que encontrou
ainda filhote no mato e resolveu criar. Passado algum tempo,
no meio de uma noite de verão, levantou-se para beber
água e levou uma mordida no lábio superior. Não
precisou levar pontos, mas ficou a cicatriz. Quando ao animal,
já adulto, a prudência postergada recomendou que
levasse para o Zoológico.
Esqueçamos
as serpentes e voltemos aos cães.
Sempre
se fala da lealdade aos homens. Severino Gomes tem certeza disso:
-
São a minha alegria. Mansos como crianças. Nunca
tive um cão que atacasse alguém, salvo para se
defender da maldade dos homens.
Dou um depoimento:
Rocha
(ou Rochedo) recebeu este nome porque foi encontrado numa
das encostas do Morro da Urca. Estava com sede, fome e apresentava
alguns machucados na cabeça derivados, talvez, da luta
com um cão mais forte. Gomes levou-o para a clareira,
alimentou-o e cuidou das feridas; não demorou a se
acostumar com Tamba e June e participou de inúmeras
operações de resgate na mata. Um herói
canino! Uma tarde ele foi atropelado (a motorista fugiu!)
e a pata traseira direita precisou ser amputada. Um mês
depois, apesar da falta de uma prótese, lá estava
ele outra vez acompanhando o dono em suas caminhadas pelas
trilhas na montanha. Já estava velho, mais de dez anos,
quando foi esfaqueado na Praia Vermelha por um dublê
de bandido e barraqueiro. Com dificuldade e sangrando muito,
foi morrer exatamente aos pés de Severino Gomes. Este,
por excesso de generosidade, penso, não quis tomar
satisfações com o pilantra. Chorou muito e argumentou
que a "justiça divina, por ser mais forte do que
a nossa, viria a seu tempo".
É
comum vê-lo carregando sacolas plásticas contendo
restos de carne fresca e pedaços de ossos que consegue
do açougue próximo, base da alimentação
dos cães. Leva para a clareira e ferve a carne já
limpa da gordura e os ossos em um panelão. Mistura com
ração e um pouco de fubá cozido. É
preciso ver a alegria dos bichinhos.
Mesmo
quase-recluso em sua clareira na mata, Severino Gomes é
conhecido por muita gente. E não somente no Brasil. Na
Alemanha ele teve o seu nome citado em revistas de grande circulação.
No Rio de Janeiro, quase todos os diários publicaram
notícias e/ou pequenas entrevistas com o ermitão
da Praia Vermelha. Esta, porém, é a primeira vez
que sua vida é devassada de maneira um pouco mais aprofundada.
-
O livro da minha vida eu só abri para você, Irmão
Argolo. Muitas coisas nós conversamos neste pedacinho
de verde que também é a sua casa.
Algumas
pessoas zombam dele, acham-no "exótico demais",
"irresponsável e preguiçoso", porque
não se preocupa com os confortos proporcionados pela
energia elétrica, gás de cozinha, telefone; porque
não assiste televisão, não tem emprego
fixo segundo os parâmetros convencionais; porque abdicou
da família e anda pobremente vestido, quando poderia
estar vivendo em condições mais adequadas à
sua formação.
Muitas
vezes, quando conversamos, penso no filme Equus (adaptação
da peça elaborada por Peter Weiss), mais precisamente
da personagem interpretada por Richard Burton: um psiquiatra
contratado para analisar um adolescente que nutre profunda afeição
por cavalos; que cavalga nu pelos campos, e gradualmente envolvido
pela paixão de uma jovem, cega com a lâmina de
uma foice os animais da cocheira para que estes não vejam
a consumação do amor entre ambos.
Burton
(representando um psiquiatra) reflete em certo trecho sobre
o conceito de normalidade psicológica. Quem está
correto? Ele próprio, casado há trinta anos com
uma mulher a quem não mais deseja e está unido
tão-somente por força dos compromissos sociais
e familiares - obrigado pelas mesmas circunstâncias a
custear férias e cruzeiros marítimos caros e insuportáveis
-, ou o rapaz em sua aparente complexidade psicológica?
Gomes
ama a natureza, vive junto dela, sente-se feliz com sua liberdade.
A dívida externa brasileira não lhe tira o sono,
os resultados das loterias sequer o incomodam, nem lhe causam
inveja os títulos acadêmicos e a imponência
das vestes dos magistrados; ignora os lançamentos imobiliários,
a cotação das ações e as novas tecnologias.
Em
minha casa, certa vez, pediu para assistir um vídeo.
Perguntei qual o gênero e me respondeu: "qualquer
um, basta que seja bom". Em outra ocasião, loucura
minha e de outros amigos, quisemos lhe dar de presente um telefone
celular. Desses de cartão, pré-pago. Afinal, ultrapassado
o marco dos cinqüenta anos e vivendo sozinho no meio da
floresta os imprevistos são admissíveis quanto
ao quesito saúde. Sua argumentação foi
simples: recusou.
-
Irmão Argolo, meu professor! Você e os outros amigos
sempre souberam onde me encontrar. Se um dia perceberem urubus
voando baixo perto da figueira e os meus cachorros latindo muito,
terão certeza de que eu parti.
Então,
por favor, respeitem esse meu pedido. Deixem-me lá, perto
de onde vivo agora, junto à grande figueira que velará
pelo meu sono; permitam que eu fique por lá, na companhia
dos espíritos da floresta, onde você também,
querido Irmão, estará um dia - porque eu sei que
esse é também o seu desejo - e então conversaremos
pela eternidade, e simbolicamente pescaremos e assaremos peixes,
comeremos batata-doce e milho verde assados nesta grelha feita
de vergalhões sobre latas enferrujadas, e beberemos sem
ressaca água-que-passarinho-não-bebe e
o que mais conseguirmos das imagens e representações
da natureza, pois estaremos acima dos galhos das árvores
mais altas da nossa floresta-mãe.
Lembrei-me
de uma tarde, no dia seguinte àquele tipo de rusga que
tira o humor de qualquer casal. Minha mulher e eu tínhamos
tido uma levíssima discussão sobre questões
triviais e, na contramão das horas, visitei o ermitão
em seu refúgio. Estava ocupado, varrendo com um ancinho
as folhas que a ventania derrubara sobre a clareira. Recostei-me
numa cadeira velha, quase desmontando, e ali permaneci, estático,
com cara de funeral.
Gomes
manteve-se quieto. Encostou a ferramenta de trabalho num anteparo
qualquer e colocou um pouco de lenha sob a grelha. Ferveu água
num bule e colocou algumas colheres de achocolatado (comprado
com o dinheiro proveniente da venda de alguns peixes). Era tudo
o que tinha para compartilhar. Bebemos.
Em
seguida ouvi seus conselhos, refleti a respeito, concordei com
os argumentos e voltei atrás na decisão de chutar
o balde. Desci novamente a trilha. Já estava tarde
e, como não enxergo direito à noite, fui escoltado
pelo velho mateiro até a Pista Cláudio Coutinho.
De volta à casa, reconstruir a ponte com a minha companheira
foi questão de horas. Melhor assim.
O
pernambucano solitário, amigo-irmão, traz consigo
a retórica do bom senso, conhece como poucos a magia
da reconciliação e procura estendê-la aos
que o procuram. Aprendeu com o tempo, na escuridão e
no silêncio da floresta.
Em
se tratando, porém, de matéria relacionada ao
seu próprio coração, Severino Gomes é
um colegial. Viveu um curioso caso de amor com uma balzaquiana
bem situada economicamente, que pretendia ajuda-lo financeiramente
a reconstruir sua ligação com o mundo além
da Praia Vermelha. Testemunhei esta relação e
torci para que fosse adiante. Não deu. Ele misturou tudo,
andou bebendo além da conta e fez com que a atração
se dissipasse. O arrependimento veio, é claro, mas um
pouco tarde.
De
nada adiantaram as tentativas de reconciliação,
até porque, adaptadas ao seu estilo rude, assustaram-na
ainda mais.
Após
uma dessas malsucedidas iniciativas, vi Severino Gomes cambaleante,
sem camisa e sob um vento frio de rachar, caminhando pela Pista
Cláudio Coutinho. Parei junto dele e vi que segurava
com ambas as mãos uma pomba branca, machucada. O porre
não lhe tirou a percepção: "me falaram
sobre um passarinho ferido e vim buscá-lo. Vai ficar
bom" (uma das asas estava quebrada, provavelmente devido
ao impacto nos rochedos decorrente da ventania). E continuou
andando com os passos trôpegos até a clareira.
...
"Caniços
de pesca têm propriedades mágicas. Falo dos que
eu mesmo faço. Aliás, não posso compará-los
àqueles produzidos em escala industrial, perfeitos
na forma e vendidos nas lojas especializadas". Essa conversa
estendeu-se para muito além de uma tarde-noite ao pé
do fogo na clareira. "Quarto Minguante. Com a Lua assim
dá certo, mas é preciso deixar secar os bambus
verdes, cortados a, no máximo, três palmos do
chão. Depois, quando amarelos, tratá-los com
sebo de boi aquecido no fogo, como estou fazendo agora. A
gordura forma uma espécie de película protetora
enquanto, com todo o cuidado, as hastes são passadas
várias vezes pela fogueira ativada com banha animal".
É um trabalho lento, demorado mesmo. Coisa de até
três meses, estendendo-se desde a retirada dos bambus
verdes e a etapa de quarentena encostados na rocha, até
os últimos arremates (colocação dos anéis
de aço destinados à passagem da linha etc).
Severino Gomes não disfarça o orgulho ao exibir
um caniço novinho destinado à pesca de anchovas.
"Veja a resistência, ele não quebra",
diz, enquanto pressiona a ponta do bambu no chão arenoso.
Ele não vende os caniços de pesca; presenteia
aos amigos que com ele partilham das pescarias noite a dentro
junto ao Costão do Pão de Açúcar,
ou então nas proximidades da Ilha de Cotunduba (na
entrada da Baía da Guanabara, a uns quinhentos metros
da orla da Praia Vermelha) onde ainda é possível
matar peixes de médio porte, inclusive caçonetes.
Há uma história pitoresca a respeito desses
caniços com propriedades mágicas, isto é,
traduzindo: com eles toda e qualquer pescaria dá certo.
Foi assim: certa ocasião ele havia separado uns quatro
ou cinco bambus e deixou-os encostados no rochedo para secar.
Alguém, muito provavelmente um pescador gaiato, aproveitou-se
da ausência do ermitão, foi até a clareira
e pegou dois daqueles caniços parcialmente amarelados.
Tentou utilizá-los dias depois e (pelo que se comentou)
ficou furioso. Perdeu um dos caniços com molinete importado,
isca luminosa etc arrastado, ao que se presume, por um peixe
de grande porte. A outra vara simplesmente quebrou quando
ele tentava puxar a linha que ficara presa nas rochas.
...
Há outras histórias que ajudam a encorpar a breve
biografia do ermitão da Praia Vermelha. Começo
destacando que é mesmo difícil acreditar que existam
pessoas capazes de furtar e/ou destruir o pouco do que dispõe
uma pessoa pobre. Mas tem acontecido. E ele vem procurando manter
a calma mesmo quando vê o seu espaço invadido,
os papéis e as roupas rasgadas ou jogadas a esmo no chão,
a carne dos cachorros misturada com terra...
Poucas
vezes eu o vi sair do sério. Certa ocasião - e
muita gente na Praia Vermelha tem conhecimento disso - um dos
empregados de um cantor e compositor famoso andou dando comida
para os sagüis e dez ou doze deles animaizinhos morreram
por causa disso. Gomes ficou furioso: "esses bichinhos
demoraram quase dez anos até se aproximarem da orla da
Pista Cláudio Coutinho. Eu pedi, implorei àquele
sujeito para não dar comida. Ele repetiu, repetiu, repetiu
e agora? Depois, não satisfeito, foi até o espaço
que ocupo na clareira, quebrou coisas e jogou as minhas roupas
no chão. O que eu faço com uma pessoa assim?"
Disse-lhe para manter a calma e esperar a oportunidade de um
flagrante. Eu mesmo me prontifiquei a passar alguns dias por
lá, dormindo enrolado num cobertor sobre o platô
da rocha.
Queria
ajudá-lo a pegar o indivíduo (se possível,
não escondo o jogo, aplicar-lhe uma surra de cipó)
e entregá-lo à Polícia para as providências
cabíveis.
De
outra feita o próprio ermitão agiu como devia
e na hora certa. Foi assim:
Gomes
tem um cortador de unhas que mede doze polegadas e é
afiado como navalha. Falo de um facão de mato que lhe
dei de presente e que utiliza como ferramenta para abrir trilhas
e cortar bambus, improvisar talas destinadas a imobilizar pernas
e braços quebrados; que o ajuda a superar os obstáculos
proporcionados pelas touceiras de espinheiros etc. A lâmina
de aço rebrilha de tão limpa e, volta e meia,
vejo-o passando sebo derretido para reduzir os pontos de oxidação
decorrentes da maresia.
Ele
voltava para a clareira após um dia difícil, quando,
de repente, percebeu um casal junto da figueira, semidespido
e à vontade demais, em "plena saliência".
"Vocês não têm vergonha? Não
estão vendo que é um lugar habitado? É
a minha casa, procurem outro canto agora!". O rapaz não
pensou duas vezes: deixou a mulher deitada no chão e
partiu para a briga, dizendo que era sargento pára-quedista
do Exército e ia arrebentá-lo.
Gomes
recuou, esquivou-se do soco que quase lhe acerta o rosto (magro
e franzino como é, seria facilmente derrubado) e puxou
o facão.
-
Gritei para ele: sai pra lá, caboclo! E mantive a ponta
do facão apontada na direção do tal sujeito.
Era um camarada muito forte, sei lá quantas vezes o meu
tamanho. Daí, confiando na própria força,
ele segurou a lâmina, para tomá-lo de mim. Olha,
foi que nem manteiga. Bastou segurar o cabo com mais força
e puxar um pouquinho. Abri uma lapa na mão dele.
Daí, dei-lhe uma surra de chapa de aço igual àquelas
de que se fala nos tempos de Lampião: e tome pranchada!
Na cara, nos ombros, na bunda, nas pernas e nas costas. E o
cara pulando e gritando. A mulher, coitada, fugiu apavorada
tentando se compor".
Segundo
Severino Gomes o tal sargento pára-quedista desceu a
trilha como gato assustado, se arranhando todo e ouvindo, dele
próprio (Gomes), frases do tipo: "Se voltar aqui
eu vou cortar é pra valer!" "Cabra safado!",
"Valentão de merda!", "Cocô de avião!"...
Não
houve revanche. Aliás, o próprio ermitão
desceu a trilha imediatamente e comunicou o fato ao oficial-de-dia
na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. Este
levou o assunto ao comandante da EsCEME que não somente
lhe deu razão como mandou prender o militar ferido (que
fora procurar socorro na Policlínica da Praia Vermelha).
Outro
episódio interessante, desta vez comigo. Estávamos
conversando ao pé da figueira quando, de repente, vi
que o facão estava escorado numa raiz, meio de lado.
Pensei na hipótese de um dos cães se cortar na
lâmina afiada e o alertei. Nem tive tempo de me desviar.
Gomes pegou a ferramenta e a arremessou numa raiz alta, a menos
de um palmo do meu rosto.
-
Ficou maluco! - gritei.
-
Fique tranqüilo, irmão Argolo, meu Professor! Bêbado
como estou eu atiro melhor. Jamais o acertaria, tenha certeza.
E
justificou-se: durante anos, nos momentos de tédio e
sem ter o que fazer, em Pernambuco, treinava pontaria utilizando
pedaços de vergalhão com as pontas aguçadas.
Depois passou a fazê-lo com peixeiras, facões,
facas próprias para churrasco, o que lhe dava na telha.
Ainda hoje, volta e meia, repete as lições e,
posso assegurar - mesmo com a vista já um pouco cansada
- em vinte ou trinta arremessos à distância de
dez, doze metros, acerta praticamente todos dentro de um círculo
de giz da largura de um palmo.
Além
da esplêndida pontaria Severino Gomes é um mestre
na confecção de armadilhas. Faz com cipó
trançado e bambu, arame fino, corda comum, linha de pesca;
prepara mundéus (fossos) de todos os tamanhos
e larguras; sei de gente (não cito nomes) que aprendeu
com ele e, depois, destacou-se nos cursos de guerra na selva
ministrados pelo Exército a oficiais e sargentos. Sua
técnica é primitiva. Primeiro ele olha à
volta e escolhe um pequeno galho, uma raiz, alguma folha de
palma cheia de espinhos; em seguida cria uma espécie
de funil utilizando a própria vegetação,
de modo que a caça não possa escapar e fica à
espera. Faz isso para capturar pequenos roedores, principalmente
ratazanas que tentam comer os seus parcos estoques de fubá,
arroz, feijão e farinha de mandioca.
Em
toda a floresta que enfeita os morros da Urca e a base do Pão
de Açúcar existe apenas uma nascente. Uma única
fonte de água potável para todos os seres que
ali vivem. Fica à meia distancia da clareira onde mora
o ermitão, tomando como ponto de referência um
caminho parcialmente escondido à direita da grande figueira.
É um lugar misterioso, no coração da mata.
Nada aconselhável para turistas ocasionais ou alpinistas
curiosos tentando desbravar uma nova trilha.
A
primeira vez em que lá estive, na companhia do ermitão,
fazia um calor de rachar. Era verão, assim por volta
de uma hora da tarde. Por um desses desatinos, havíamos
preparado e almoçado ótimos peixes assados na
grelha, temperados apenas com sal grosso. Comida simples, saborosa
mas danada para dar sede. A água da moringa acabara e
somente havia um jeito: buscar mais. Descer a trilha que dá
acesso à clareira e caminhar até a Praia Vermelha
seria a melhor solução - embora mais demorada
e calorenta.
Severino
Gomes pegou duas garrafas vazias de refrigerante e resolveu
andar até a nascente. Fui com ele e, nesta ocasião,
testemunhei um dos estranhos destinadas a superar os obstáculos
impostos pela natureza:
A
teia era mesmo grande e espessa. Vista à meia distância
na semiclaridade da floresta parecia uma pintura viva. Maior
do que um homem de estatura mediana. E ficava no meio da trilha
que corta perpendicularmente a mata na encosta do Morro da
Urca. O caminho é estreito e disfarçado pela
vegetação espessa. Há touceiras e árvores
cujos caules são cobertos de espinhos do tamanho de
pregos médios. Uma espetada e, além da dor,
febre certa. Um tronco apodrecido propositalmente ali deixado
inclinado e cipós trançados bloqueiam parcialmente
o acesso. Basta remover o tronco, baixar a cabeça e
seguir em frente. Uma pessoa não muito gorda passa
sem problemas. Mais cem metros, no máximo, e chega-se
ao poço de água potável.
Havia chovido naquela madrugada. Preservadas na umidade da
floresta, algumas gotículas davam a impressão
de brilhantes colados à teia. Bonito de ver, mas não
de chegar perto. As aranhas eram dezenas, todas do mesmo padrão
preto-amareladas. Uma colônia das maiores que tive a
oportunidade de ver. Tínhamos duas opções:
destruir aquela armação finíssima e matar
o maior número de aranhas ou tentar a abertura de uma
nova trilha paralela entre os espinheiros. Gomes optou por
uma terceira via. A melhor de todas, suponho. Primeiro "rezou"
a teia pronunciando algumas frases que não compreendi;
depois, com um gesto rapidíssimo, enfiou a mão
direita naquela massa de fios entremeados de insetos mortos
e girou-a rapidamente em arco, no sentido dos ponteiros do
relógio. O resultado disso foi uma espécie de
cacho de aranhas que deixou sobre o núcleo de um tinhorão
daqueles bem grandes. Passamos em paz. Na volta, meia hora
depois, as aranhas haviam recomeçado o trabalho de
recomposição da teia. Cada uma no seu pedacinho
de árvore.
Gomes: "Não poderia matá-las. Elas são
como eu: guardiãs da floresta. Feias, talvez, para
aqueles que não conhecem a função que
exercem na natureza, mas... veja só a beleza da obra
que estão reconstruindo", observou quando voltávamos
à clareira.
Um detalhe: a lâmina d'água da fonte natural
estava coberta por uma fina camada de poeira. Próximo,
bem próximo sobre algumas pedras chatas e lisas, velhas
peles de serpentes. Sinal de alerta que repasso aos curiosos
e desavisados.
Amigos...
amigos
"Cadê o meu pinguço?". "Como
é que ele vai?". A pergunta, tão simples,
reveste-se de certa cerimônia porquanto formulada após
uma solenidade na Praia Vermelha pelo então ministro
do Exército, General Zenildo Zoroastro de Lucena. Pernambucano
como o ermitão e seu conhecido desde o tempo em que comandou
a EsCEME, o general Zenildo - há alguns anos morador
em um prédio discreto na Urca - é um homem afável
e bem humorado, além de muito respeitado pelo profissionalismo
e firmeza com que agiu no âmbito institucional. Graças
às suas recomendações Severino Gomes continuou
como guardião da floresta. Houve quem pretendesse tirá-lo
de lá, sob a falsa justificativa de que estaria poluindo
as matas. Essa iniciativa, porém, foi abortada quase
imediatamente após o militar ter sido informado sobre
a amizade do velho mateiro com o ministro do Exército.
Mas
existem outros nomes que devem ser lembrados. Em outras conversas
Gomes citou os nomes de oficiais-generais com quem manteve boas
relações no tempo em que comandaram a EsCEME:
Paim Sampaio, Luciano Faliante Casalles. O ex-subprefeito militar
da Zona Sul, coronel Jorge Mathuy, hoje trabalhando em um dos
setores do Clube Militar (Centro da Cidade), também apreciava
a prosa do ermitão.
Uma
digressão:
Há
coisas inexplicáveis na Praia Vermelha, uma delas é
a informalidade em um ambiente formal. Trata-se, penso, do único
local destinado ao lazer no Rio de Janeiro patrulhado dia e
noite pela Polícia do Exército. Isso, todavia,
não impede que, nos últimos anos, as críticas
de moradores e freqüentadores da Praia venham se avolumando
no que tange aos quesitos limpeza, segurança (pasmem!)
e poluição sonora.
A
areia está suja, os vendedores ambulantes em nada contribuem
para assegurar produtos de qualidade à clientela, as
vagas no estacionamento junto à orla vêm sendo
ocupadas em escala crescente por automóveis caindo aos
pedaços utilizados como depósitos de bebidas alcoólicas
e refrigerantes, além de outros produtos, e denúncias
sobre a venda de drogas (e até mesmo contrabando de armas)
na região chegaram e continuam chegando ao conhecimento
do Comando Militar do Leste.
Para
culminar, "festas" improvisadas vêm sendo realizadas
semanalmente ao ar livre com a utilização de parafernálias
eletrônicas que tiram o sono daqueles que, no cumprimento
das suas obrigações, têm que estar cedo
no trabalho. E mais: denúncias em cascata apontam danos
à floresta causados pela retirada (sem autorização
do Ibama e/ou das autoridades militares) de bambus ainda verdes,
posteriormente enterrados na areia servindo como cercas improvisadas
isolando trechos da areia e beneficiando este ou aquele barraqueiro
preocupado em expandir ilegalmente os seus "negócios".
Nos
últimos anos tenho conversado muito com Severino Gomes
a respeito do desgaste proporcionado pela agressão à
natureza e privatização do espaço público.
Mais de uma vez ele foi ameaçado de morte por um desses
indivíduos, quando o recriminou sobre a retirada dos
bambus. Outro indivíduo, metido a esperto, utiliza parte
da construção destinada aos guarda-vidas - no
canto esquerdo da Praia Vermelha -, como depósito para
cadeiras e outros objetos. São fatos que incomodam não
somente o ermitão e seus amigos, mas todos aqueles que
moram na região e exigem das autoridades providências
imediatas.
O
que se percebe é a disseminação, acima
de tudo, de uma conduta desrespeitosa para com as pessoas, que
vem transformando a orla da Praia Vermelha numa quase-favela
e fazendo com que os antigos freqüentadores procurem outros
locais para conversar, longe da poluição sonora,
da falta de limpeza etc.
...
Retomando à tentativa de trazer aos olhos do público-leitor
detalhes pitorescos sobre o ermitão da Praia Vermelha:
Ano
após ano, centenas de oficiais-alunos dos cursos ministrados
pela Marinha (Escola de Guerra Naval) e Exército (Instituto
Militar de Engenharia, Escola de Comando e Estado-Maior e cursos
de Administração e de Altos Estudos Estratégicos)
deixam as salas de aula daqueles prédios históricos
e são remanejados para regiões distantes do País.
Com
os suboficiais e praças que montam guarda àquelas
instalações militares acontece a mesma coisa.
Todos acabam conhecendo o guardião das matas do Morro
da Urca e do Pão de Açúcar e, passado algum
tempo (um, dois meses, no máximo), já não
estranham mais aquele pernambucano humilde e de fala mansa.
Um
pouco mais do meu testemunho.
Durante
as viagens que faço pelo Brasil, quase sempre no exercício
do magistério especializado no campo da Comunicação,
é comum encontrar alguém que residiu algum tempo
no Rio de Janeiro e daí começar uma conversa.
Em Imperatriz (Maranhão), por exemplo, um dos oficiais
classificados no Batalhão de Infantaria de Selva ali
instalado - unidade que pude visitar durante algumas horas -
lembrou-se do Sem Futuro Gomes e lhe mandou um abraço.
Em
Juiz de Fora (Minas Gerais) uma colega excelente professora
de cinema assim definiu o ermitão: "trata-se de
uma personalidade quase anônima e fascinante". À
sua maneira simples e rude, Severino Gomes da Silva transformou-se,
com o tempo, num filósofo diletante. O isolamento no
coração da mata fez com que perdesse a inibição
de conversar em voz alta consigo mesmo. Algo que muitas pessoas
costumam fazer tão-somente quando estão dirigindo
ou sozinhas em casa.
Ao
longo de todos esses anos muitas vezes eu o surpreendi na clareira
falando alto como se estivesse discutindo (e estava!) enquanto
caminhava gesticulando muito de um lado para o outro. Numa dessas
ocasiões o assunto, imediatamente interrompido quando
me viu aproximando, era a importância do uso do chá
de cipó-cravo para fins medicinais. De outra, buscava
uma explicação sobre a temeridade dos jovens alpinistas
que desafiavam as encostas do Pão de Açúcar
durante um temporal.
A
mais pitoresca, talvez, foi quando encontrei casualmente com
ele no início de uma noite de outono, junto ao marco
(350m) que assinala o início da trilha mais conhecida
do Morro da Urca. Estava sem camisa, munido de uma lanterna
e empunhando o facão de doze polegadas. Retornava de
uma incursão na floresta, na tentativa frustrada até
aquele momento de localizar um casal de adolescentes que se
perdera. Reclamava ele da maluquice dos jovens.
Lembrei-me
naquele instante, nem sei por qual motivo, da figura de Diógenes,
também chamado o Cínico (413-323 a.C.),
em sua busca incessante pela verdade. Nascido em Sinope (Grécia),
Diógenes desprezava as riquezas e convenções
sociais. Andava descalço, tinha tão-somente uma
túnica, dormia eventualmente junto aos pórticos
das casas e a sua casa era um tonel que fora abandonado. Consta
que, certa ocasião (na cidade de Corinto), Alexandre
da Macedônia foi visitá-lo acompanhado de alguns
dos seus generais e lhe perguntou o que poderia fazer para ajudá-lo.
Ao que Diógenes respondeu: "peço-te que saias
da frente do tonel, pois estás impedindo a entrada do
sol".
De
outra feita, em Atenas, viram-no passear à luz do dia
pelas ruas da cidade carregando uma lanterna acesa. Quando lhe
indagaram a razão daquele estranho comportamento, ponderou:
"ando à procura de um homem" (isto é:
daquele indivíduo que seria capaz de espelhar a sabedoria
humana no seu esplendor).
Desprovido
do ódio contra a humanidade claramente evidenciado pelo
filósofo grego durante as suas preleções,
Gomes-Diógenes é, além disso, um
estóico. As aventuras na mata e mesmo fora dela deixaram
muitas cicatrizes no seu corpo cansado. Certa ocasião
colhia mangas junto à Pista Cláudio Coutinho
quando, de repente, um enorme galho parcialmente rachado pela
força dos ventos quebrou de vez e despencou caiu sobre
ele.
Resultado:
fratura do fêmur direito e luxação na clavícula
esquerda. Foi socorrido por praticantes de jogging e
levado ao Hospital Público mais próximo, onde
ficou internado com a perna imobilizada. Enfrentou as dores
com dignidade e quando, após alguns meses, finalmente
deixou o leito e ultrapassou os limites impostos pelas inúmeras
e dolorosas sessões de fisioterapia, sua maior alegria
foi rever a velha clareira e os cães (alimentados durante
todo aquele tempo pelos amigos e alguns pescadores).
Conversar
com o ermitão é sempre reconfortante. Sem revelar
nomes, porquanto essas pessoas poderiam ficar sem graça,
volta e meia eu o encontro batendo-papo com jovens casais de
classe média que vão à clareira em busca
de orientação. Outros o acompanham em suas rezas,
buscando sintonia com a floresta. O povo da Praia Vermelha (na
verdade poucas pessoas ali nascidas ou criadas) como nos referimos
uns aos outros, sabe que, naquele espaço mágico,
tudo é admissível, menos a covardia, o desrespeito
e a falta de caráter.
Uma
história... dentre as tantas:
Foi
num final de tarde. Setembro, outubro...faz muito tempo. Gomes
estava sem pressa. Possivelmente passaria a noite em claro,
pescando: xereletes. Voltara há pouco do mercado onde,
com os poucos trocados de que dispunha, comprara um pacote
de biscoitos. Na época ele tinha três cachoros:
Tamba, June e Rocha.. Tamba, o mais velho, era um bom rastreador,
estava quase cego por causa da catarata. June era muito dócil
e o último, como assinalado, veio somar-se à
"família". Sentamos para conversar. No asfalto
mesmo, bem próximo à entrada do estacionamento
privativo dos oficiais-instrutores da Escola de Comando e
Estado-Maior do Exército. Não havia perigo de
atropelamento porque o local estava quase vazio; ali ficamos
algumas horas. O assunto girava em torno da força do
vento sudoeste, sua influência sobre o comportamento
dos peixes no mar agitado. De repente deu fome. Muita fome.
Naquela época, era proibida a venda de salgadinhos
e/ou sanduíches e a Polícia do Exército
retirava os vendedores que agiam na orla sem maiores explicações.
Abrimos o pacote de biscoitos e começamos a comê-los,
dividindo com os animais. Homens e cães compartilhando
a mesma refeição. Era engraçado observar
as pessoas passando e olhando com desdém aquela estranha
cena: os bichinhos saltitantes comendo com voracidade enquanto
conversávamos. De repente passaram algumas pessoas
vindas da Pista Cláudio Coutinho. Observaram-nos e
uma delas comentou: puxa, essa gente não tem a menor
noção do que seja espaço. Comem aí,
no chão...
Cometeram
um erro. Um erro crasso de avaliação. Superestimaram,
talvez, a própria condição social. As pessoas
comem onde podem. Ali era o nosso espaço. O portão
da floresta. A casa de Severino Gomes.
Notas
[1]
Escrever sobre uma personalidade da vida pública, seja
ela um político, educador ou artista popular é
quase sempre fácil. Os registros são vastos, férteis
as fontes de informação: jornais, revistas, fotografias,
depoimentos videocinegravados etc. Dos homens simples, cidadãos
comuns; dos bêbados, loucos e deserdados sem outro documento
que não a cédula de identidade ou o título
eleitoral, o que sobra são migalhas de informações.
Algumas lembranças do dono do bar, do porteiro do prédio
próximo, do jornaleiro...
Por
pouco Severino Gomes da Silva não se enquadra na categoria
dos impossíveis, tamanha a resistência demonstrada
por ele próprio em falar a respeito das coisas que fez.
Vive só, literalmente só, perdeu quase todos os
documentos durante alguma das tantas bebedeiras em que se meteu,
ou (quem sabe?) guardou em um cantinho da clareira que lhe serve
como refúgio, esqueceu o local exato e, de alguns, teve
que tirar segunda via... que também perdeu!
Felizmente
a memória é boa; o raciocínio e as palavras
fluem organizadas.
Seu
maior problema, penso, é a displicência. A preguiça
em arrumar as coisas que, vez por outra, ganha como presentes:
roupas usadas, sapatos em bom estado, ferramentas...
Quanto
aos livros, tem alguns que lhe foram doados. Todos protegidos
da chuva e do vento em um pequeno vão da rocha. Prefere
aqueles relacionados com a evolução do espírito
e as coisas da natureza. Alan Kardec, Chico Xavier, a Bíblia,
coletâneas sobre as propriedades curativas das ervas (muitas
ele cultiva de modo precário junto à clareira:
boldo, alecrim, quebra-pedra. capim cidreira etc; outros produtos
ele recolhe aqui e acolá durante suas caminhadas na floresta:
cipó- cravo, agrião, hortelã...).
[2]
Certa ocasião ganhou de presente um pequeno barco de
madeira. Serviria para ajudá-lo a conquistar uns trocados
obtidos com o produto da pesca. Mas a ferramenta de trabalho
não durou uma semana. Entre os pescadores da Praia Vermelha
circulam duas versões sobre o que aconteceu.
De
acordo com a primeira, Gomes teria deixado a embarcação
mal apoitada (isto é, ligada a um bloco de concreto
deixado no fundo do mar por intermédio de uma corda)
e, como naquela madrugada o mar estava muito agitado, o cabo
de amarração rompeu ou soltou-se e o barco foi
lançado contra as pedras, afundando.
A
segunda: a pequena embarcação teria sido furtada
por gente de fora (estranhos à comunidade da Praia
Vermelha) durante aquela madrugada, levada para outro local,
lixada e repintada. Creio ser mais provável esta versão.
Até porque, segundo mergulhadores, tanto a poita
de concreto como a corda de amarração estavam
intactas.
*José
Amaral Argolo é jornalista e advogado, pós-graduado
em jornalismo e em ciência política, mestre em
filosofia, doutor em comunicação e cultura e,
como bolsista do CNPq, pós-doutor em jornalismo pela
Escola de Comunicações e Artes da Universidade
de São Paulo. É Professor Adjunto Nível
IV do Quadro Permanente da Escola de Comunicação
da UFRJ e ex-diretor daquela unidade de ensino.
**Autorizada
a reprodução parcial desde que identificado o
autor do texto original por seu nome completo e a observação:
"Exclusivo para a Revista PJ:Br - Jornalismo Brasileiro
(ECA-USP)".
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