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Ensaios

 

Conversas
com o ermitão
da Praia Vermelha

Fragmento Biográfico [1]

Por José Amaral Argolo*

Eu vejo a natureza como parte de mim. Quando tenho um problema eu mentalizo Deus. Me apóio numa árvore, seja à luz do Sol, no crepúsculo ou sob o reflexo da Lua e mentalizo... como se estivesse conversando com Deus, com meus espíritos guardiães, com as entidades abrigadas nas rochas, nas árvores... e peço permissão ao Criador e às entidades invisíveis para que me ajudem a obter uma resposta. Então, com a maior segurança e naturalidade, coloco em prática os sinais divinos, de modo a resolver as dúvidas e ajudar as pessoas que me procuram. Severino Gomes

Reprodução

O Ermitão da Montanha (1863), gravura
de Doré para Atala, de Chateaubriand.

O que importa de fato é que ele está vivo e cada vez mais teimoso.

Severino Gomes da Silva é o seu nome. Como tantos outros amigos, freqüenta a minha casa e eu a dele. Onde moro? Com a minha família num apartamento alugado e modesto em Botafogo. Ele? Sozinho e no vão de uma rocha na floresta, a aproximadamente cento e cinqüenta metros de altitude em relação ao nível do mar, partindo da Pista Cláudio Coutinho, melhor dizendo, do Caminho do Bem-Te-Vi - no canto esquerdo da Praia Vermelha.

É o seu castelo há 25 anos. Ali, com os parcos recursos de que dispõe e em plena sintonia com a natureza, cuida daquele trecho belíssimo e encantado do Rio de Janeiro. É o único cidadão autorizado pela Escola de Comando e Estado-Maior do Exército a nele residir e designado guardião das matas do Morro da Urca e do Pão de Açúcar.

O apelido - Sem Futuro - quem lhe deu foi Renato Papagaio, ex-guarda-vidas do Corpo Marítimo de Salvamento (já falecido) que, durante muitos anos, trabalhou na Praia Vermelha. Gomes, como eu o chamo no dia-a-dia, é um herói. Nem mesmo ele, consultando os seus registros pessoais anotados em um caderno com as páginas amareladas pelo tempo, sabe dizer o número de vezes em que, tarde da noite e/ou na alta madrugada, sob vento frio, chuva forte, trovões e relâmpagos, deixou o abrigo que lhe foi concedido pela natureza e, sozinho, entrou na mata para resgatar alpinistas acidentados nas encostas dos morros da Urca e do Pão de Açúcar, pessoas perdidas ou picadas por jararacas, localizar cadáveres ou ajudar os bombeiros no resgate dos corpos dos afogados.

Sim, localizar cadáveres. Infelizmente, mesmo naquele Cartão Postal da Cidade, naquele trecho protegido e constantemente patrulhado pela Polícia do Exército, a violência se faz presente. Certa vez uma mulher foi morta a golpes de baioneta pelo próprio marido, funcionário, soube-se depois, de uma loja situada no Edifício Praia Vermelha - onde residem oficiais-alunos dos cursos de Estado-Maior; de outra, um suicídio; aliás, vários, inclusive no mar, nas imediações das pedras Lisa, da Sereia e do Urubu, onde o impacto das ondas contra os rochedos forma rodamoinhos mortíferos.

Quem conhece - e são poucos aqueles que de fato podem dizê-lo - as matas que orlam as encostas dos morros da Urca e do Pão de Açúcar e os perigos do mar nem sempre calmo (há centenas de cavernas subaquáticas nas duas extremidades da Praia Vermelha: do lado esquerdo, estendendo-se para muito além do chamado Costão até a Fortaleza de São João construída pelos portugueses; do lado direito, projetando-se ao Leme), pode mensurar as dificuldades quando se trata de resgatar alguém. Mesmo os experientes soldados e oficiais do Exército e do Corpo de Bombeiros, quando solicitados, recorrem a Severino Gomes para auxiliá-los.

Conto uma história que não teve final feliz. Aconteceu em 1997, durante uma das piores ressacas que vi acontecer. Barcos foram lançados à distância e espatifados contra as muretas de granito da Urca, as ondas batiam furiosamente contra os rochedos e "lavaram", por assim dizer, alguns trechos da Pista Cláudio Coutinho mais próximos da linha d'água. Não havia, como hoje, uma extensa grade de proteção margeando o caminho e os praticantes de jogging, prudentemente, reduziam a velocidade colando-se quase aos paredões para não escorregar no asfalto molhado e cair no mar.

Cinco adolescentes que aproveitaram a maré baixa e desafiaram a ressaca subindo ao topo da Pedra Lisa, tinham sido advertidos por Severino Gomes para que deixassem rapidamente aquele local, mas não se convenceram do perigo e menosprezaram o conselho daquele homem simples e mal vestido.

Sei de tudo isso porque, casualmente, também estava lá. Afinal, o Morro da Urca e a casa do ermitão da Praia Vermelha são refúgios habituais para este já não tão jovem jornalista.

Devo ressaltar, relativamente aos fatos em pauta, o menosprezo e a resistência que certos adolescentes das metrópoles têm com relação aos conselhos dos mais velhos, principalmente em se tratando de uma pessoa humilde e desconhecida.

Na tarde seguinte aconteceu a tragédia. Novamente a imprudência dos adolescentes e a resposta imediata das forças da natureza. Uma onda violentíssima lambeu a Pedra Lisa e dois deles caíram no mar. Um teve a sorte de ser resgatado meia hora depois - todo machucado e a bem mais de quinhentos metros da orla da Praia Vermelha - por mergulhadores da Coordenadoria Geral de Operações Aéreas. O outro, caiu no sumidouro provocado pelo repuxo da onda e, em seguida, foi projetado de cabeça contra o rochedo, afundando imediatamente e desaparecendo nas profundezas do mar. Quanto aos demais, fora o susto e alguns arranhões proporcionados pelo atrito inesperado contra a rocha, conseguiram safar-se ajudados por pescadores.

A mãe do menino morto e desaparecido, casada com um oficial do Exército, tomou conhecimento do acidente com o filho único duas ou três horas depois, quando voltava das compras. Algumas senhoras inutilmente tentaram confortá-la e militares solicitaram, por intermédio do telefone, a ajuda das autoridades do Primeiro Distrito Naval e dos mergulhadores do Batalhão de Forças Especiais. A Marinha argumentou que não poderia arriscar uma embarcação e seus tripulantes face às péssimas condições de navegabilidade; quanto ao Exército, enviou um grupo de especialistas...

Impasse na Praia Vermelha

Angustiado pelo sofrimento daquela jovem mãe, perguntei a Severino Gomes se, com o auxílio de cordas, eu conseguiria descer até a Pedra Lisa e, com um pouco de sorte, localizar o corpo do menino - supondo que ainda estivesse preso às rochas. Respondeu-me que não. Muito dificilmente eu chegaria ao ponto desejado e, segundo ele, mesmo que tal proeza fosse possível, dela não retornaria com vida.

E acrescentou:

- Irmão Argolo, meu professor! (tratamento que sempre usa quando conversamos) se você quiser descer para a morte eu o acompanharei nessa viagem sem volta. Não há mais nada que possamos fazer. Os desígnios de Deus são mais fortes do que nós.

O bom senso prevaleceu e, quando os Comandos (alpinistas e mergulhadores) do Exército chegaram, houve tão-somente uma tentativa frustrada de resgate. Aqueles homens acostumados a provas duríssimas, a situações-limite, desprezaram as observações que lhes fizemos oralmente e voltaram pouco depois, de cabeças baixas, encharcados e arranhados. Nem chegaram à pedra de onde o menino despencou e morreu tragado pelo mar.

Um deles, capitão pelo que me recordo, não gostou das palavras que ouviu daquele homem de baixa estatura, magro e com um facão de mato preso à cintura por um cinturão de lona do próprio Exército:

- Capitão, veja bem, se eu que vivo aqui e conheço cada trilha e cada caverna submarina; se o meu irmão-professor que também sabe muito disso aqui não desceu até lá atendendo aos conselhos que lhe dei, o que vocês fizeram foi loucura. Ainda bem que desistiram.

Como outras vítimas de tantas e tantas ressacas, o corpo daquele menino desapareceu. Naquela noite choramos por ele e compartilhamos, solidários, a dor da sua família.

Visão ao longe

Chovia. Contornando de passagem a Praça General Tibúrcio no velho Volkswagen Gol 1993,eu regressava da Universidade para casa. Já estava tarde: oito, nove horas da noite. Tempo de tomar banho, comer alguma coisa e preparar a aula da manhã seguinte. Dirigia devagar, despreocupadamente. Dali mesmo, quando passava diante da estátua de Chopin, obra lindíssima doada ao povo carioca pelo governo Polonês, pude ver à meia-distância Severino Gomes. Ele caminhava com alguma dificuldade, a capa de náilon esvoaçante, na direção dos portões de acesso à Pista Cláudio Coutinho. Junto com ele seguia Rocha, o vira-lata mais manso que conheci e que foi morto anos depois com uma facada por um bandido dublê de barraqueiro e vendedor de mate da Praia Vermelha. Gomes caminhava sem pressa. A chuva caía sem parar, iluminada pelas grandes lâmpadas de mercúrio. Adiante, no canto esquerdo da Praia, apenas as luzes tremeluzentes das lanternas dos pescadores e a escuridão do mar.

Severino Gomes da Silva nasceu em Camocim de São Félix - interior de Pernambuco - no dia 18 de março de 1951. Nos documentos, porém, por um desses equívocos do escrivão no cartório, consta o ano de 1952. Filho de Absalão Gomes da Silva e de Lucinda Rosa do Nascimento, foi entregue à guarda dos avós paternos após a morte da mãe, vítima de tuberculose, quando ele tinha três anos. Apolônio Gomes da Silva e D. Maria Julia da Conceição cuidaram do garoto até os oito anos, quando viajou para Recife com o pai e as três irmãs - Salete, a mais velha, Julia e Ione, a caçula - onde a família fixou residência.

O catolicismo, forte em todo o Nordeste Brasileiro e muito bem representado - basta observar o número de igrejas existentes em Olinda e Recife - levou-o à Basílica de Nossa Senhora do Carmo (Santa Padroeira da Capital Pernambucana), onde foi coroinha durante algum tempo. Essa mesma religiosidade ele mantém até hoje, embora o fervor em relação às palavras de Jesus Cristo transcritas pelos apóstolos nos Evangelhos, tenha sido flexibilizado para outras crenças que considera igualmente aplicáveis: a Igreja Messiânica, o Kardecismo e certos ritos afro-brasileiros com os quais compartilha no cotidiano na floresta.

Um exemplo que confirma essa aproximação:

Severino Gomes:

Certa ocasião, e não fui somente eu que vi, pois estava acompanhado, bem perto de onde eu caminhava, à noite, na mata do Morro da Urca, havia um monge parado com o hábito franciscano, o rosto encoberto pelo capuz... O que ele fazia naquele local ermo e àquela hora? Passados uns poucos segundos, quando voltei a firmar os olhos na sua direção, ele desaparecera. Rezei, então, a todos os santos e pedi proteção aos guias e orixás da floresta.

...
No domingo passado, lá pelas dez da noite, Gomes esteve comigo na minha casa. Chovia e ventava muito. Ele chegara há pouco de Copacabana e, em seguida, caminharia até a Urca (distante dois quilômetros) onde ministraria palavras de conforto a uma pessoa adoentada. Como por acaso eu conhecia aquele indivíduo e não tinha uma única sombra de dúvida sobre o seu péssimo caráter, indaguei: Mas...você pretende mesmo ir até lá? Esse sujeito não vale o chão que pisa!

Respondeu, sereno:

- Eu sei, irmão Argolo, sei de tudo isso e até bem mais. No entanto ele solicitou que me chamassem. Vou atendê-lo porque se trata de um compromisso de fé.

Bebeu uma caneca de chá quente, comeu um sanduíche de carne assada fria e temperada com molho de mostarda levemente apimentada, fumou mais um cigarro e, apesar do frio e do temporal, foi embora para cumprir a missão. Essa lição de vida e solidariedade compartilho agora com você, leitor (a).

...
De volta à estrada da vida.

O ex-sacristão cresceu e, aos dez anos, concluiu o curso primário na Escola Municipal da Ordem Terceira do Carmo. Não chegou ao ginasial. Parou no primeiro ano quando ingressou na Escola de Aprendizes-Marinheiros de Pernambuco, em Olinda, instituição que, ainda hoje, mantém o brilho da tradição naval. Cursou quatro quadrimestres e se formou na turma de 1970-1971 (Turma Juliete).

A escolha decorreu da argumentação paterna:

- Preferes a Marinha ou a Polícia Militar? (tanto na época como ainda hoje, ressaltou, havia poucas possibilidades para um menino órfão e de família pobre aprender um ofício).

Mas...como ele próprio (Gomes) reconhece agora, não foi uma opção das mais fáceis. Após superar as dificuldades iniciais no quesito adaptação às normas da Escola de Aprendizes-Marinheiros de Pernambuco, aconteceu um fato pitoresco:

- Eu integrava a equipe de natação e, não sei explicar o motivo, repetia uma falha durante os exercícios. Entrava na raia um e saía na raia seis. Somente como recordação, o melhor atleta entre nós era um lourinho a quem chamávamos de Alemão, talvez um descendente longínquo dos holandeses.

A propósito dos seus dotes como nadador: já vi guarda-vidas comentar na Praia Vermelha: "eu sou bom, mas aquele magrelo é melhor do que eu".

Gomes brinca com o mar. Aproveita a força da correnteza e desliza nas ondas. Mesmo agora, aos 55 anos, fumando como uma chaminé, comendo pouco e bebendo além da conta, quando cisma de entrar na água - não importa o tempo ou a maré - vê-lo nadar é um espetáculo à parte.

Morou no Recife até os vinte e cinco anos. Antes, durante algum tempo, ajudou o pai - hoje com 76 anos (nasceu no dia 30 de março de 1930) e ainda forte - arrendatário de uma pequena pastelaria localizada atrás da Basílica de Nossa Senhora do Carmo. "Seu" Absalão repetia sempre ao filho já graduado aprendiz-marinheiro: "quando eu pendurar as chuteiras volto correndo para Camocim de São Félix". Ainda não conseguiu fazê-lo. Ele mora sozinho na Travessa do Cação, 86 (Bairro Santo Antonio). Quanto às três irmãs, vivem numa casa à Rua Delfim, 32, numa comunidade de pessoas humildes denominada Brasília Teimosa, também na Capital pernambucana.

Gomes, porém, pensava diferente:

- Eu queria mais. Um dia falei com o meu pai: dê-me sua benção que eu vou embora para o Rio de Janeiro.

Deixou Recife e desembarcou quarenta e oito horas depois na Rodoviária Novo Rio, às 9h30min do dia 16 de outubro de 1972. A Capital Fluminense era a metrópole do sonho, não das coisas fáceis. E a vida comprovou isso.

- Assim que cheguei fui morar na casa de uma família em Coelho da Rocha (bairro da Zona Norte relativamente afastado do centro comercial, econômico e financeiro da cidade). Arranjar ocupação era difícil e eu comecei como peão-de-obra. Inicialmente fui trabalhar em Teresópolis (Região Serrana, distante 130 km da Capital), onde ajudei a instalar os dutos para a colocação de cabos telefônicos. Serviço de curta duração que me levou depois aos municípios de Petrópolis, São João de Meriti e Angra dos Reis. Nesta última cidade trabalhei na empresa Odebrecht C.N.O., ajudando na construção da Usina Nuclear Angra 1. Foi ali que observei com um pouco mais de atenção o trabalho daqueles guarda-vidas que usavam camisetas tipo regata com uma cruz vermelha no peito.

- Pedi autorização à chefia para treinar junto com os guarda-vidas. Me exercitava diariamente na Praia Brava e acreditava que, em pouco tempo, passaria à categoria de Auxiliar Técnico de Salvamento. Um dia mandaram que eu participasse de uma prova de 1500 metros. Nadei 4500 metros, apesar da recomendação no sentido de parar imediatamente quando estivesse cansado. Fui bem sucedido no teste e, como a empresa não oferecia curso de guardião de piscina, voltei para o Rio de Janeiro, para a Praia Vermelha. Aqui cheguei no dia 11 de janeiro de 1977 e nunca mais saí.

Impressões sob a figueira

Na clareira onde vive o guardião das matas do Morro da Urca e do Pão de Açúcar há uma imensa figueira. Fica em frente ao vão da rocha. O caule gigantesco lhe assegura alguma proteção contra o vento, a chuva e é a maior árvore do gênero que eu já vi. É numa espécie de banco natural que costumamos sentar e conversar muitas horas, o que tem acontecido freqüentemente ao longo desses 27 anos. Reproduzo de memória - e com os lapsos inevitáveis - uma dessas jornadas que se prolongaram até tarde da noite.

- Da velhice ninguém passa!- dizia Gomes.

- Da velhice ninguém passa!- dizia Gomes.
O assunto girava em torno da saúde do meu pai,bastante fragilizado pela doença, em sua primeira noite em casa após dezoito dias de internação numa enfermaria do Setor de Cardiologia do Hospital Miguel Couto. Angustiava-me o sofrimento daquele homem bom e sem inimigos, seu estoicismo diante da dor.
Falávamos, também, dessa representação chamada vida, durante a qual as pessoas, em sua quase totalidade, buscam alcançar o inatingível, superar o tempo, comprar o passaporte para a eterna juventude.
Gomes contou uma parábola:
- Um executivo, desses que andam apressadamente pelas ruas carregando uma pasta de couro tipo 007, deparou-se casualmente com um ermitão quieto no seu cantinho. Este último perguntou ao executivo a razão pela qual carregava com tanta pressa levando consigo aquela maleta. Ao que o outro respondeu:" estou aqui de passagem". Daí o executivo resolveu indagar:" e o senhor, o que faz aí sentado tão calmamente? - notando que o ermitão nada mais dispunha do que um banco rústico e um estrado para lhe servir de cama. Justificou-se este: "eu também estou aqui de passagem!".

O passado, sempre o passado. Severino Gomes lembra-se do dia em que foi reprovado no teste denominado reboque, essencial para todo e qualquer guarda-vidas.

A explicação:

- Em toda operação de resgate a pegada deve ser feita com a mão esquerda e a puxada com a direita. Eu estava acostumado a nadar e respirar quando virava a cabeça para o lado esquerdo. Nadando na direção da "vítima do afogamento", fiquei atrapalhado com as ondas batendo de frente e perdi muitos pontos.

No ano seguinte (1978) passou no teste para guardião de piscina e conseguiu emprego no Clube Internacional (também conhecido como Boqueirão, nas proximidades do Aeroporto Santos Dumont - Centro do RJ).

Quatro meses depois foi convidado a trabalhar no Othon Palace (Posto 4, Copacabana) onde exerceu a função até se indispor com o chefe da segurança:

- Eu dava atenção especial a uma turma de crianças e, certa manhã, percebi que outro funcionário do hotel despejara na água uma quantidade de cloro além do recomendável. Interditei a piscina, pois não permitiria que aqueles meninos e meninas sofressem queimaduras nos olhos. Daí, o tal chefe discutiu comigo alegando que a proibição, num dia de muito calor como aquele, prejudicaria os demais hóspedes. Decidi procurar outro emprego e saí com a consciência limpa. Consegui uma vaga no Flamengo Futebol Clube e trabalhei durante sete meses até ser despedido por culpa minha, melhor dizendo, da cachaça...

A empresa Régia Hidráulica e Esportiva (especializada na construção e manutenção de piscinas) foi sua última empregadora. Nela trabalhou sete meses no escritório central, mais oito meses como guardião de piscinas no Montanha Clube, outros cinco em um condomínio residencial no bairro da Freguesia (Jacarepaguá), pouco menos de um ano no Jóquei Clube Brasileiro, além de - por duas vezes, ambas em curtos períodos - no Condomínio Casa Alta (um prédio residencial de classe média, em Botafogo - Zona Sul).

Durante todo esse tempo Severino Gomes esteve abrigado precariamente na Praia Vermelha. Aquele local conquistara de vez o migrante pernambucano pobre e de bom coração. Inicialmente ele dormia em um pequeno vão entre as rochas, pouco acima da linha d' água na maré cheia.

Ali guardava as suas poucas roupas e agasalhos. Muitas vezes, quando chegava para descansar após o trabalho, encontrava o interior do abrigo revirado por mãos desconhecidas e/ou as peças encharcadas devido a uma onda mais forte. Quando isso acontecia o único jeito era torcer o cobertor, resgatar os pares de sapatos/chinelos (que deixava amarrados aos pares) boiando e rezar para que o vento sudoeste não lhe castigasse o corpo cansado durante a noite.

Severino Gomes é um sujeito correto com os amigos e de notável honestidade pessoal. Como assinalado, há vinte e sete anos sou seu amigo e durante todo esse tempo foram inúmeras as vezes em que lhe confiei a guarda de objetos, chaves da minha casa e dinheiro. Jamais se apropriou de um centavo sequer. Se desejava um cigarro, pedia.

O sonho de integrar o quadro de salva-vidas se dissipou, porém, no início dos anos oitenta, quando da implantação do Grupamento Marítimo de Salvamento, órgão do Corpo de Bombeiros Militares do Estado do Rio de Janeiro. Durante a mudança para a nova sede muitos arquivos foram extraviados e ele não conseguiu obter a segunda via da carteira de guardião de piscinas.

Dos raros papéis que preservou, ainda que amarrotado, o diploma obtido na Marinha pouco lhe serviu. "O certificado que recebi tem validade somente barra a fora, isto é, em alto mar; não atende à navegação de curta-distância. Daí, eu precisaria fazer outro curso, mas o tempo foi passando e nunca tive dinheiro para custear as despesas" [2], disse.

Sobre cães, répteis e homens

Tamba, Rocha, Malhado, Judy e, mais recentemente, Boto, Papillon, Conchita e Anu, todos vira-latas (os dois últimos "netos" de Rocha, mistura com Terrier), foram e são os companheiros do ermitão da Praia Vermelha. O primeiro morreu de velhice e foi enterrado junto a um mamoeiro. Era um animal muito inteligente e seguia o dono como uma espécie de sombra. No final, praticamente cego e muito fraco, deitava-se na entrada da trilha esperando que Severino Gomes o levasse até a clareira no coração da mata.

Outros cães, o número é impreciso, Gomes viu morrer picados por jararacas.

As matas nos morros da Urca e Pão de Açúcar ainda preservam muitos exemplares da flora e da fauna; relativamente a este última, são aproximadamente setenta espécies de pássaros catalogados pelos especialistas, quatro ou cinco de ofídios (incluindo corais verdadeiras), sagüis, gambás, teiús e pequenos roedores.

Quanto aos ofídios não peçonhentos existem: jibóias, limpa-campos e cipós.

As venenosas, além das já citadas - eu pessoalmente nunca vi -, são urutus-cruzeiro e cascavéis. Gomes afirma ter se deparado com uma urutu certa vez próxima ao marco dos oitocentos metros da Pista Cláudio Coutinho. Tentou capturá-la mas o réptil escapou, embrenhando-se nos espinheiros. Relativamente às cascavéis, tenho conhecimento de dois registros: o primeiro, narrado por um sargento do Exército que teria morto uma a pauladas junto aos arbustos que existem ao longo daquele caminho.

O outro, de um alpinista apavorado que ficou suspenso à distância de três, quatro metros da base do Pão-de-Açúcar, com a serpente enrolada no chão exatamente no ponto onde ele deveria pisar. Como não teve forças para subir novamente a montanha, gritou por socorro e foi salvo por outros rapazes que, por mera coincidência, pretendiam iniciar a escalada naquele trecho.

Os acidentes ofídicos causados por jararacas no Morro da Urca são freqüentes. O próprio Gomes quase morreu em conseqüência da desatenção. Conto como foi. Ele viu um espécime bem taludo próximo à entrada da trilha principal (marco dos 350 metros), conseguiu pegá-lo com as mãos desprotegidas, arranjou uma garrafa de plástico e, como de costume desde que foi morar naquele quase-escondido vão da rocha, tentou colocá-lo no recipiente para, em seguida - por intermédio do próprio Exército - enviar ao Instituto Vital Brasil, em Niterói. Não teve tempo de fazê-lo de maneira adequada e foi picado no dedo indicador da mão direita.

Os efeitos foram quase imediatos. Primeiro o dedo inchou bastante, depois a mão e o braço. Gomes estava meio bêbado naquela tarde e acreditou que a peçonha instilada pela serpente fora pouca e não lhe acarretaria maiores problemas. Quarenta minutos depois teve que recolhido no final da Pista - cambaleante e pronunciando frases desconexas - por uma dupla de soldados e levado ao Hospital Central do Exército, onde tomou dezessete frascos de soro antibotrópico. O oficial-médico que o atendeu ficou impressionado com a violência do choque provocado pelo veneno e comentou que se até à meia-noite o soro não surtisse efeito, seria mais conveniente chamar o rabecão.

Salvou-se o ermitão da Praia Vermelha graças à extraordinária resistência acumulada durante os anos vividos na floresta. Permaneceu inconsciente durante algumas horas e, quando acordou, pensou que estava no céu, olhando todas aquelas pessoas vestidas de branco: médicos, enfermeiras e enfermeiros. Passou duas semanas com a mão deformada pelo inchaço e, por sorte, não teve seqüelas permanentes (fato este bastante comum nos acidentes ofídicos).

Este, na verdade, foi o segundo problema que enfrentou relacionado a cobras. O primeiro foi com uma jibóia que encontrou ainda filhote no mato e resolveu criar. Passado algum tempo, no meio de uma noite de verão, levantou-se para beber água e levou uma mordida no lábio superior. Não precisou levar pontos, mas ficou a cicatriz. Quando ao animal, já adulto, a prudência postergada recomendou que levasse para o Zoológico.

Esqueçamos as serpentes e voltemos aos cães.

Sempre se fala da lealdade aos homens. Severino Gomes tem certeza disso:

- São a minha alegria. Mansos como crianças. Nunca tive um cão que atacasse alguém, salvo para se defender da maldade dos homens.
Dou um depoimento:

Rocha (ou Rochedo) recebeu este nome porque foi encontrado numa das encostas do Morro da Urca. Estava com sede, fome e apresentava alguns machucados na cabeça derivados, talvez, da luta com um cão mais forte. Gomes levou-o para a clareira, alimentou-o e cuidou das feridas; não demorou a se acostumar com Tamba e June e participou de inúmeras operações de resgate na mata. Um herói canino! Uma tarde ele foi atropelado (a motorista fugiu!) e a pata traseira direita precisou ser amputada. Um mês depois, apesar da falta de uma prótese, lá estava ele outra vez acompanhando o dono em suas caminhadas pelas trilhas na montanha. Já estava velho, mais de dez anos, quando foi esfaqueado na Praia Vermelha por um dublê de bandido e barraqueiro. Com dificuldade e sangrando muito, foi morrer exatamente aos pés de Severino Gomes. Este, por excesso de generosidade, penso, não quis tomar satisfações com o pilantra. Chorou muito e argumentou que a "justiça divina, por ser mais forte do que a nossa, viria a seu tempo".

É comum vê-lo carregando sacolas plásticas contendo restos de carne fresca e pedaços de ossos que consegue do açougue próximo, base da alimentação dos cães. Leva para a clareira e ferve a carne já limpa da gordura e os ossos em um panelão. Mistura com ração e um pouco de fubá cozido. É preciso ver a alegria dos bichinhos.

Mesmo quase-recluso em sua clareira na mata, Severino Gomes é conhecido por muita gente. E não somente no Brasil. Na Alemanha ele teve o seu nome citado em revistas de grande circulação. No Rio de Janeiro, quase todos os diários publicaram notícias e/ou pequenas entrevistas com o ermitão da Praia Vermelha. Esta, porém, é a primeira vez que sua vida é devassada de maneira um pouco mais aprofundada.

- O livro da minha vida eu só abri para você, Irmão Argolo. Muitas coisas nós conversamos neste pedacinho de verde que também é a sua casa.

Algumas pessoas zombam dele, acham-no "exótico demais", "irresponsável e preguiçoso", porque não se preocupa com os confortos proporcionados pela energia elétrica, gás de cozinha, telefone; porque não assiste televisão, não tem emprego fixo segundo os parâmetros convencionais; porque abdicou da família e anda pobremente vestido, quando poderia estar vivendo em condições mais adequadas à sua formação.

Muitas vezes, quando conversamos, penso no filme Equus (adaptação da peça elaborada por Peter Weiss), mais precisamente da personagem interpretada por Richard Burton: um psiquiatra contratado para analisar um adolescente que nutre profunda afeição por cavalos; que cavalga nu pelos campos, e gradualmente envolvido pela paixão de uma jovem, cega com a lâmina de uma foice os animais da cocheira para que estes não vejam a consumação do amor entre ambos.

Burton (representando um psiquiatra) reflete em certo trecho sobre o conceito de normalidade psicológica. Quem está correto? Ele próprio, casado há trinta anos com uma mulher a quem não mais deseja e está unido tão-somente por força dos compromissos sociais e familiares - obrigado pelas mesmas circunstâncias a custear férias e cruzeiros marítimos caros e insuportáveis -, ou o rapaz em sua aparente complexidade psicológica?

Gomes ama a natureza, vive junto dela, sente-se feliz com sua liberdade. A dívida externa brasileira não lhe tira o sono, os resultados das loterias sequer o incomodam, nem lhe causam inveja os títulos acadêmicos e a imponência das vestes dos magistrados; ignora os lançamentos imobiliários, a cotação das ações e as novas tecnologias.

Em minha casa, certa vez, pediu para assistir um vídeo. Perguntei qual o gênero e me respondeu: "qualquer um, basta que seja bom". Em outra ocasião, loucura minha e de outros amigos, quisemos lhe dar de presente um telefone celular. Desses de cartão, pré-pago. Afinal, ultrapassado o marco dos cinqüenta anos e vivendo sozinho no meio da floresta os imprevistos são admissíveis quanto ao quesito saúde. Sua argumentação foi simples: recusou.

- Irmão Argolo, meu professor! Você e os outros amigos sempre souberam onde me encontrar. Se um dia perceberem urubus voando baixo perto da figueira e os meus cachorros latindo muito, terão certeza de que eu parti.

Então, por favor, respeitem esse meu pedido. Deixem-me lá, perto de onde vivo agora, junto à grande figueira que velará pelo meu sono; permitam que eu fique por lá, na companhia dos espíritos da floresta, onde você também, querido Irmão, estará um dia - porque eu sei que esse é também o seu desejo - e então conversaremos pela eternidade, e simbolicamente pescaremos e assaremos peixes, comeremos batata-doce e milho verde assados nesta grelha feita de vergalhões sobre latas enferrujadas, e beberemos sem ressaca água-que-passarinho-não-bebe e o que mais conseguirmos das imagens e representações da natureza, pois estaremos acima dos galhos das árvores mais altas da nossa floresta-mãe.

Lembrei-me de uma tarde, no dia seguinte àquele tipo de rusga que tira o humor de qualquer casal. Minha mulher e eu tínhamos tido uma levíssima discussão sobre questões triviais e, na contramão das horas, visitei o ermitão em seu refúgio. Estava ocupado, varrendo com um ancinho as folhas que a ventania derrubara sobre a clareira. Recostei-me numa cadeira velha, quase desmontando, e ali permaneci, estático, com cara de funeral.

Gomes manteve-se quieto. Encostou a ferramenta de trabalho num anteparo qualquer e colocou um pouco de lenha sob a grelha. Ferveu água num bule e colocou algumas colheres de achocolatado (comprado com o dinheiro proveniente da venda de alguns peixes). Era tudo o que tinha para compartilhar. Bebemos.

Em seguida ouvi seus conselhos, refleti a respeito, concordei com os argumentos e voltei atrás na decisão de chutar o balde. Desci novamente a trilha. Já estava tarde e, como não enxergo direito à noite, fui escoltado pelo velho mateiro até a Pista Cláudio Coutinho. De volta à casa, reconstruir a ponte com a minha companheira foi questão de horas. Melhor assim.

O pernambucano solitário, amigo-irmão, traz consigo a retórica do bom senso, conhece como poucos a magia da reconciliação e procura estendê-la aos que o procuram. Aprendeu com o tempo, na escuridão e no silêncio da floresta.

Em se tratando, porém, de matéria relacionada ao seu próprio coração, Severino Gomes é um colegial. Viveu um curioso caso de amor com uma balzaquiana bem situada economicamente, que pretendia ajuda-lo financeiramente a reconstruir sua ligação com o mundo além da Praia Vermelha. Testemunhei esta relação e torci para que fosse adiante. Não deu. Ele misturou tudo, andou bebendo além da conta e fez com que a atração se dissipasse. O arrependimento veio, é claro, mas um pouco tarde.

De nada adiantaram as tentativas de reconciliação, até porque, adaptadas ao seu estilo rude, assustaram-na ainda mais.

Após uma dessas malsucedidas iniciativas, vi Severino Gomes cambaleante, sem camisa e sob um vento frio de rachar, caminhando pela Pista Cláudio Coutinho. Parei junto dele e vi que segurava com ambas as mãos uma pomba branca, machucada. O porre não lhe tirou a percepção: "me falaram sobre um passarinho ferido e vim buscá-lo. Vai ficar bom" (uma das asas estava quebrada, provavelmente devido ao impacto nos rochedos decorrente da ventania). E continuou andando com os passos trôpegos até a clareira.
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"Caniços de pesca têm propriedades mágicas. Falo dos que eu mesmo faço. Aliás, não posso compará-los àqueles produzidos em escala industrial, perfeitos na forma e vendidos nas lojas especializadas". Essa conversa estendeu-se para muito além de uma tarde-noite ao pé do fogo na clareira. "Quarto Minguante. Com a Lua assim dá certo, mas é preciso deixar secar os bambus verdes, cortados a, no máximo, três palmos do chão. Depois, quando amarelos, tratá-los com sebo de boi aquecido no fogo, como estou fazendo agora. A gordura forma uma espécie de película protetora enquanto, com todo o cuidado, as hastes são passadas várias vezes pela fogueira ativada com banha animal". É um trabalho lento, demorado mesmo. Coisa de até três meses, estendendo-se desde a retirada dos bambus verdes e a etapa de quarentena encostados na rocha, até os últimos arremates (colocação dos anéis de aço destinados à passagem da linha etc). Severino Gomes não disfarça o orgulho ao exibir um caniço novinho destinado à pesca de anchovas. "Veja a resistência, ele não quebra", diz, enquanto pressiona a ponta do bambu no chão arenoso. Ele não vende os caniços de pesca; presenteia aos amigos que com ele partilham das pescarias noite a dentro junto ao Costão do Pão de Açúcar, ou então nas proximidades da Ilha de Cotunduba (na entrada da Baía da Guanabara, a uns quinhentos metros da orla da Praia Vermelha) onde ainda é possível matar peixes de médio porte, inclusive caçonetes.
Há uma história pitoresca a respeito desses caniços com propriedades mágicas, isto é, traduzindo: com eles toda e qualquer pescaria dá certo. Foi assim: certa ocasião ele havia separado uns quatro ou cinco bambus e deixou-os encostados no rochedo para secar. Alguém, muito provavelmente um pescador gaiato, aproveitou-se da ausência do ermitão, foi até a clareira e pegou dois daqueles caniços parcialmente amarelados. Tentou utilizá-los dias depois e (pelo que se comentou) ficou furioso. Perdeu um dos caniços com molinete importado, isca luminosa etc arrastado, ao que se presume, por um peixe de grande porte. A outra vara simplesmente quebrou quando ele tentava puxar a linha que ficara presa nas rochas.

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Há outras histórias que ajudam a encorpar a breve biografia do ermitão da Praia Vermelha. Começo destacando que é mesmo difícil acreditar que existam pessoas capazes de furtar e/ou destruir o pouco do que dispõe uma pessoa pobre. Mas tem acontecido. E ele vem procurando manter a calma mesmo quando vê o seu espaço invadido, os papéis e as roupas rasgadas ou jogadas a esmo no chão, a carne dos cachorros misturada com terra...

Poucas vezes eu o vi sair do sério. Certa ocasião - e muita gente na Praia Vermelha tem conhecimento disso - um dos empregados de um cantor e compositor famoso andou dando comida para os sagüis e dez ou doze deles animaizinhos morreram por causa disso. Gomes ficou furioso: "esses bichinhos demoraram quase dez anos até se aproximarem da orla da Pista Cláudio Coutinho. Eu pedi, implorei àquele sujeito para não dar comida. Ele repetiu, repetiu, repetiu e agora? Depois, não satisfeito, foi até o espaço que ocupo na clareira, quebrou coisas e jogou as minhas roupas no chão. O que eu faço com uma pessoa assim?" Disse-lhe para manter a calma e esperar a oportunidade de um flagrante. Eu mesmo me prontifiquei a passar alguns dias por lá, dormindo enrolado num cobertor sobre o platô da rocha.

Queria ajudá-lo a pegar o indivíduo (se possível, não escondo o jogo, aplicar-lhe uma surra de cipó) e entregá-lo à Polícia para as providências cabíveis.

De outra feita o próprio ermitão agiu como devia e na hora certa. Foi assim:

Gomes tem um cortador de unhas que mede doze polegadas e é afiado como navalha. Falo de um facão de mato que lhe dei de presente e que utiliza como ferramenta para abrir trilhas e cortar bambus, improvisar talas destinadas a imobilizar pernas e braços quebrados; que o ajuda a superar os obstáculos proporcionados pelas touceiras de espinheiros etc. A lâmina de aço rebrilha de tão limpa e, volta e meia, vejo-o passando sebo derretido para reduzir os pontos de oxidação decorrentes da maresia.

Ele voltava para a clareira após um dia difícil, quando, de repente, percebeu um casal junto da figueira, semidespido e à vontade demais, em "plena saliência". "Vocês não têm vergonha? Não estão vendo que é um lugar habitado? É a minha casa, procurem outro canto agora!". O rapaz não pensou duas vezes: deixou a mulher deitada no chão e partiu para a briga, dizendo que era sargento pára-quedista do Exército e ia arrebentá-lo.

Gomes recuou, esquivou-se do soco que quase lhe acerta o rosto (magro e franzino como é, seria facilmente derrubado) e puxou o facão.

- Gritei para ele: sai pra lá, caboclo! E mantive a ponta do facão apontada na direção do tal sujeito. Era um camarada muito forte, sei lá quantas vezes o meu tamanho. Daí, confiando na própria força, ele segurou a lâmina, para tomá-lo de mim. Olha, foi que nem manteiga. Bastou segurar o cabo com mais força e puxar um pouquinho. Abri uma lapa na mão dele. Daí, dei-lhe uma surra de chapa de aço igual àquelas de que se fala nos tempos de Lampião: e tome pranchada! Na cara, nos ombros, na bunda, nas pernas e nas costas. E o cara pulando e gritando. A mulher, coitada, fugiu apavorada tentando se compor".

Segundo Severino Gomes o tal sargento pára-quedista desceu a trilha como gato assustado, se arranhando todo e ouvindo, dele próprio (Gomes), frases do tipo: "Se voltar aqui eu vou cortar é pra valer!" "Cabra safado!", "Valentão de merda!", "Cocô de avião!"...

Não houve revanche. Aliás, o próprio ermitão desceu a trilha imediatamente e comunicou o fato ao oficial-de-dia na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. Este levou o assunto ao comandante da EsCEME que não somente lhe deu razão como mandou prender o militar ferido (que fora procurar socorro na Policlínica da Praia Vermelha).

Outro episódio interessante, desta vez comigo. Estávamos conversando ao pé da figueira quando, de repente, vi que o facão estava escorado numa raiz, meio de lado. Pensei na hipótese de um dos cães se cortar na lâmina afiada e o alertei. Nem tive tempo de me desviar. Gomes pegou a ferramenta e a arremessou numa raiz alta, a menos de um palmo do meu rosto.

- Ficou maluco! - gritei.

- Fique tranqüilo, irmão Argolo, meu Professor! Bêbado como estou eu atiro melhor. Jamais o acertaria, tenha certeza.

E justificou-se: durante anos, nos momentos de tédio e sem ter o que fazer, em Pernambuco, treinava pontaria utilizando pedaços de vergalhão com as pontas aguçadas. Depois passou a fazê-lo com peixeiras, facões, facas próprias para churrasco, o que lhe dava na telha. Ainda hoje, volta e meia, repete as lições e, posso assegurar - mesmo com a vista já um pouco cansada - em vinte ou trinta arremessos à distância de dez, doze metros, acerta praticamente todos dentro de um círculo de giz da largura de um palmo.

Além da esplêndida pontaria Severino Gomes é um mestre na confecção de armadilhas. Faz com cipó trançado e bambu, arame fino, corda comum, linha de pesca; prepara mundéus (fossos) de todos os tamanhos e larguras; sei de gente (não cito nomes) que aprendeu com ele e, depois, destacou-se nos cursos de guerra na selva ministrados pelo Exército a oficiais e sargentos. Sua técnica é primitiva. Primeiro ele olha à volta e escolhe um pequeno galho, uma raiz, alguma folha de palma cheia de espinhos; em seguida cria uma espécie de funil utilizando a própria vegetação, de modo que a caça não possa escapar e fica à espera. Faz isso para capturar pequenos roedores, principalmente ratazanas que tentam comer os seus parcos estoques de fubá, arroz, feijão e farinha de mandioca.

Em toda a floresta que enfeita os morros da Urca e a base do Pão de Açúcar existe apenas uma nascente. Uma única fonte de água potável para todos os seres que ali vivem. Fica à meia distancia da clareira onde mora o ermitão, tomando como ponto de referência um caminho parcialmente escondido à direita da grande figueira. É um lugar misterioso, no coração da mata. Nada aconselhável para turistas ocasionais ou alpinistas curiosos tentando desbravar uma nova trilha.

A primeira vez em que lá estive, na companhia do ermitão, fazia um calor de rachar. Era verão, assim por volta de uma hora da tarde. Por um desses desatinos, havíamos preparado e almoçado ótimos peixes assados na grelha, temperados apenas com sal grosso. Comida simples, saborosa mas danada para dar sede. A água da moringa acabara e somente havia um jeito: buscar mais. Descer a trilha que dá acesso à clareira e caminhar até a Praia Vermelha seria a melhor solução - embora mais demorada e calorenta.

Severino Gomes pegou duas garrafas vazias de refrigerante e resolveu andar até a nascente. Fui com ele e, nesta ocasião, testemunhei um dos estranhos destinadas a superar os obstáculos impostos pela natureza:

A teia era mesmo grande e espessa. Vista à meia distância na semiclaridade da floresta parecia uma pintura viva. Maior do que um homem de estatura mediana. E ficava no meio da trilha que corta perpendicularmente a mata na encosta do Morro da Urca. O caminho é estreito e disfarçado pela vegetação espessa. Há touceiras e árvores cujos caules são cobertos de espinhos do tamanho de pregos médios. Uma espetada e, além da dor, febre certa. Um tronco apodrecido propositalmente ali deixado inclinado e cipós trançados bloqueiam parcialmente o acesso. Basta remover o tronco, baixar a cabeça e seguir em frente. Uma pessoa não muito gorda passa sem problemas. Mais cem metros, no máximo, e chega-se ao poço de água potável.
Havia chovido naquela madrugada. Preservadas na umidade da floresta, algumas gotículas davam a impressão de brilhantes colados à teia. Bonito de ver, mas não de chegar perto. As aranhas eram dezenas, todas do mesmo padrão preto-amareladas. Uma colônia das maiores que tive a oportunidade de ver. Tínhamos duas opções: destruir aquela armação finíssima e matar o maior número de aranhas ou tentar a abertura de uma nova trilha paralela entre os espinheiros. Gomes optou por uma terceira via. A melhor de todas, suponho. Primeiro "rezou" a teia pronunciando algumas frases que não compreendi; depois, com um gesto rapidíssimo, enfiou a mão direita naquela massa de fios entremeados de insetos mortos e girou-a rapidamente em arco, no sentido dos ponteiros do relógio. O resultado disso foi uma espécie de cacho de aranhas que deixou sobre o núcleo de um tinhorão daqueles bem grandes. Passamos em paz. Na volta, meia hora depois, as aranhas haviam recomeçado o trabalho de recomposição da teia. Cada uma no seu pedacinho de árvore.
Gomes: "Não poderia matá-las. Elas são como eu: guardiãs da floresta. Feias, talvez, para aqueles que não conhecem a função que exercem na natureza, mas... veja só a beleza da obra que estão reconstruindo", observou quando voltávamos à clareira.
Um detalhe: a lâmina d'água da fonte natural estava coberta por uma fina camada de poeira. Próximo, bem próximo sobre algumas pedras chatas e lisas, velhas peles de serpentes. Sinal de alerta que repasso aos curiosos e desavisados.

Amigos... amigos

"Cadê o meu pinguço?". "Como é que ele vai?". A pergunta, tão simples, reveste-se de certa cerimônia porquanto formulada após uma solenidade na Praia Vermelha pelo então ministro do Exército, General Zenildo Zoroastro de Lucena. Pernambucano como o ermitão e seu conhecido desde o tempo em que comandou a EsCEME, o general Zenildo - há alguns anos morador em um prédio discreto na Urca - é um homem afável e bem humorado, além de muito respeitado pelo profissionalismo e firmeza com que agiu no âmbito institucional. Graças às suas recomendações Severino Gomes continuou como guardião da floresta. Houve quem pretendesse tirá-lo de lá, sob a falsa justificativa de que estaria poluindo as matas. Essa iniciativa, porém, foi abortada quase imediatamente após o militar ter sido informado sobre a amizade do velho mateiro com o ministro do Exército.

Mas existem outros nomes que devem ser lembrados. Em outras conversas Gomes citou os nomes de oficiais-generais com quem manteve boas relações no tempo em que comandaram a EsCEME: Paim Sampaio, Luciano Faliante Casalles. O ex-subprefeito militar da Zona Sul, coronel Jorge Mathuy, hoje trabalhando em um dos setores do Clube Militar (Centro da Cidade), também apreciava a prosa do ermitão.

Uma digressão:

Há coisas inexplicáveis na Praia Vermelha, uma delas é a informalidade em um ambiente formal. Trata-se, penso, do único local destinado ao lazer no Rio de Janeiro patrulhado dia e noite pela Polícia do Exército. Isso, todavia, não impede que, nos últimos anos, as críticas de moradores e freqüentadores da Praia venham se avolumando no que tange aos quesitos limpeza, segurança (pasmem!) e poluição sonora.

A areia está suja, os vendedores ambulantes em nada contribuem para assegurar produtos de qualidade à clientela, as vagas no estacionamento junto à orla vêm sendo ocupadas em escala crescente por automóveis caindo aos pedaços utilizados como depósitos de bebidas alcoólicas e refrigerantes, além de outros produtos, e denúncias sobre a venda de drogas (e até mesmo contrabando de armas) na região chegaram e continuam chegando ao conhecimento do Comando Militar do Leste.

Para culminar, "festas" improvisadas vêm sendo realizadas semanalmente ao ar livre com a utilização de parafernálias eletrônicas que tiram o sono daqueles que, no cumprimento das suas obrigações, têm que estar cedo no trabalho. E mais: denúncias em cascata apontam danos à floresta causados pela retirada (sem autorização do Ibama e/ou das autoridades militares) de bambus ainda verdes, posteriormente enterrados na areia servindo como cercas improvisadas isolando trechos da areia e beneficiando este ou aquele barraqueiro preocupado em expandir ilegalmente os seus "negócios".

Nos últimos anos tenho conversado muito com Severino Gomes a respeito do desgaste proporcionado pela agressão à natureza e privatização do espaço público. Mais de uma vez ele foi ameaçado de morte por um desses indivíduos, quando o recriminou sobre a retirada dos bambus. Outro indivíduo, metido a esperto, utiliza parte da construção destinada aos guarda-vidas - no canto esquerdo da Praia Vermelha -, como depósito para cadeiras e outros objetos. São fatos que incomodam não somente o ermitão e seus amigos, mas todos aqueles que moram na região e exigem das autoridades providências imediatas.

O que se percebe é a disseminação, acima de tudo, de uma conduta desrespeitosa para com as pessoas, que vem transformando a orla da Praia Vermelha numa quase-favela e fazendo com que os antigos freqüentadores procurem outros locais para conversar, longe da poluição sonora, da falta de limpeza etc.

...
Retomando à tentativa de trazer aos olhos do público-leitor detalhes pitorescos sobre o ermitão da Praia Vermelha:

Ano após ano, centenas de oficiais-alunos dos cursos ministrados pela Marinha (Escola de Guerra Naval) e Exército (Instituto Militar de Engenharia, Escola de Comando e Estado-Maior e cursos de Administração e de Altos Estudos Estratégicos) deixam as salas de aula daqueles prédios históricos e são remanejados para regiões distantes do País.

Com os suboficiais e praças que montam guarda àquelas instalações militares acontece a mesma coisa. Todos acabam conhecendo o guardião das matas do Morro da Urca e do Pão de Açúcar e, passado algum tempo (um, dois meses, no máximo), já não estranham mais aquele pernambucano humilde e de fala mansa.

Um pouco mais do meu testemunho.

Durante as viagens que faço pelo Brasil, quase sempre no exercício do magistério especializado no campo da Comunicação, é comum encontrar alguém que residiu algum tempo no Rio de Janeiro e daí começar uma conversa. Em Imperatriz (Maranhão), por exemplo, um dos oficiais classificados no Batalhão de Infantaria de Selva ali instalado - unidade que pude visitar durante algumas horas - lembrou-se do Sem Futuro Gomes e lhe mandou um abraço.

Em Juiz de Fora (Minas Gerais) uma colega excelente professora de cinema assim definiu o ermitão: "trata-se de uma personalidade quase anônima e fascinante". À sua maneira simples e rude, Severino Gomes da Silva transformou-se, com o tempo, num filósofo diletante. O isolamento no coração da mata fez com que perdesse a inibição de conversar em voz alta consigo mesmo. Algo que muitas pessoas costumam fazer tão-somente quando estão dirigindo ou sozinhas em casa.

Ao longo de todos esses anos muitas vezes eu o surpreendi na clareira falando alto como se estivesse discutindo (e estava!) enquanto caminhava gesticulando muito de um lado para o outro. Numa dessas ocasiões o assunto, imediatamente interrompido quando me viu aproximando, era a importância do uso do chá de cipó-cravo para fins medicinais. De outra, buscava uma explicação sobre a temeridade dos jovens alpinistas que desafiavam as encostas do Pão de Açúcar durante um temporal.

A mais pitoresca, talvez, foi quando encontrei casualmente com ele no início de uma noite de outono, junto ao marco (350m) que assinala o início da trilha mais conhecida do Morro da Urca. Estava sem camisa, munido de uma lanterna e empunhando o facão de doze polegadas. Retornava de uma incursão na floresta, na tentativa frustrada até aquele momento de localizar um casal de adolescentes que se perdera. Reclamava ele da maluquice dos jovens.

Lembrei-me naquele instante, nem sei por qual motivo, da figura de Diógenes, também chamado o Cínico (413-323 a.C.), em sua busca incessante pela verdade. Nascido em Sinope (Grécia), Diógenes desprezava as riquezas e convenções sociais. Andava descalço, tinha tão-somente uma túnica, dormia eventualmente junto aos pórticos das casas e a sua casa era um tonel que fora abandonado. Consta que, certa ocasião (na cidade de Corinto), Alexandre da Macedônia foi visitá-lo acompanhado de alguns dos seus generais e lhe perguntou o que poderia fazer para ajudá-lo. Ao que Diógenes respondeu: "peço-te que saias da frente do tonel, pois estás impedindo a entrada do sol".

De outra feita, em Atenas, viram-no passear à luz do dia pelas ruas da cidade carregando uma lanterna acesa. Quando lhe indagaram a razão daquele estranho comportamento, ponderou: "ando à procura de um homem" (isto é: daquele indivíduo que seria capaz de espelhar a sabedoria humana no seu esplendor).

Desprovido do ódio contra a humanidade claramente evidenciado pelo filósofo grego durante as suas preleções, Gomes-Diógenes é, além disso, um estóico. As aventuras na mata e mesmo fora dela deixaram muitas cicatrizes no seu corpo cansado. Certa ocasião colhia mangas junto à Pista Cláudio Coutinho quando, de repente, um enorme galho parcialmente rachado pela força dos ventos quebrou de vez e despencou caiu sobre ele.

Resultado: fratura do fêmur direito e luxação na clavícula esquerda. Foi socorrido por praticantes de jogging e levado ao Hospital Público mais próximo, onde ficou internado com a perna imobilizada. Enfrentou as dores com dignidade e quando, após alguns meses, finalmente deixou o leito e ultrapassou os limites impostos pelas inúmeras e dolorosas sessões de fisioterapia, sua maior alegria foi rever a velha clareira e os cães (alimentados durante todo aquele tempo pelos amigos e alguns pescadores).

Conversar com o ermitão é sempre reconfortante. Sem revelar nomes, porquanto essas pessoas poderiam ficar sem graça, volta e meia eu o encontro batendo-papo com jovens casais de classe média que vão à clareira em busca de orientação. Outros o acompanham em suas rezas, buscando sintonia com a floresta. O povo da Praia Vermelha (na verdade poucas pessoas ali nascidas ou criadas) como nos referimos uns aos outros, sabe que, naquele espaço mágico, tudo é admissível, menos a covardia, o desrespeito e a falta de caráter.

Uma história... dentre as tantas:

Foi num final de tarde. Setembro, outubro...faz muito tempo. Gomes estava sem pressa. Possivelmente passaria a noite em claro, pescando: xereletes. Voltara há pouco do mercado onde, com os poucos trocados de que dispunha, comprara um pacote de biscoitos. Na época ele tinha três cachoros: Tamba, June e Rocha.. Tamba, o mais velho, era um bom rastreador, estava quase cego por causa da catarata. June era muito dócil e o último, como assinalado, veio somar-se à "família". Sentamos para conversar. No asfalto mesmo, bem próximo à entrada do estacionamento privativo dos oficiais-instrutores da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. Não havia perigo de atropelamento porque o local estava quase vazio; ali ficamos algumas horas. O assunto girava em torno da força do vento sudoeste, sua influência sobre o comportamento dos peixes no mar agitado. De repente deu fome. Muita fome. Naquela época, era proibida a venda de salgadinhos e/ou sanduíches e a Polícia do Exército retirava os vendedores que agiam na orla sem maiores explicações. Abrimos o pacote de biscoitos e começamos a comê-los, dividindo com os animais. Homens e cães compartilhando a mesma refeição. Era engraçado observar as pessoas passando e olhando com desdém aquela estranha cena: os bichinhos saltitantes comendo com voracidade enquanto conversávamos. De repente passaram algumas pessoas vindas da Pista Cláudio Coutinho. Observaram-nos e uma delas comentou: puxa, essa gente não tem a menor noção do que seja espaço. Comem aí, no chão...

Cometeram um erro. Um erro crasso de avaliação. Superestimaram, talvez, a própria condição social. As pessoas comem onde podem. Ali era o nosso espaço. O portão da floresta. A casa de Severino Gomes.

Notas

[1] Escrever sobre uma personalidade da vida pública, seja ela um político, educador ou artista popular é quase sempre fácil. Os registros são vastos, férteis as fontes de informação: jornais, revistas, fotografias, depoimentos videocinegravados etc. Dos homens simples, cidadãos comuns; dos bêbados, loucos e deserdados sem outro documento que não a cédula de identidade ou o título eleitoral, o que sobra são migalhas de informações. Algumas lembranças do dono do bar, do porteiro do prédio próximo, do jornaleiro...

Por pouco Severino Gomes da Silva não se enquadra na categoria dos impossíveis, tamanha a resistência demonstrada por ele próprio em falar a respeito das coisas que fez. Vive só, literalmente só, perdeu quase todos os documentos durante alguma das tantas bebedeiras em que se meteu, ou (quem sabe?) guardou em um cantinho da clareira que lhe serve como refúgio, esqueceu o local exato e, de alguns, teve que tirar segunda via... que também perdeu!

Felizmente a memória é boa; o raciocínio e as palavras fluem organizadas.

Seu maior problema, penso, é a displicência. A preguiça em arrumar as coisas que, vez por outra, ganha como presentes: roupas usadas, sapatos em bom estado, ferramentas...

Quanto aos livros, tem alguns que lhe foram doados. Todos protegidos da chuva e do vento em um pequeno vão da rocha. Prefere aqueles relacionados com a evolução do espírito e as coisas da natureza. Alan Kardec, Chico Xavier, a Bíblia, coletâneas sobre as propriedades curativas das ervas (muitas ele cultiva de modo precário junto à clareira: boldo, alecrim, quebra-pedra. capim cidreira etc; outros produtos ele recolhe aqui e acolá durante suas caminhadas na floresta: cipó- cravo, agrião, hortelã...).

[2] Certa ocasião ganhou de presente um pequeno barco de madeira. Serviria para ajudá-lo a conquistar uns trocados obtidos com o produto da pesca. Mas a ferramenta de trabalho não durou uma semana. Entre os pescadores da Praia Vermelha circulam duas versões sobre o que aconteceu.

De acordo com a primeira, Gomes teria deixado a embarcação mal apoitada (isto é, ligada a um bloco de concreto deixado no fundo do mar por intermédio de uma corda) e, como naquela madrugada o mar estava muito agitado, o cabo de amarração rompeu ou soltou-se e o barco foi lançado contra as pedras, afundando.

A segunda: a pequena embarcação teria sido furtada por gente de fora (estranhos à comunidade da Praia Vermelha) durante aquela madrugada, levada para outro local, lixada e repintada. Creio ser mais provável esta versão. Até porque, segundo mergulhadores, tanto a poita de concreto como a corda de amarração estavam intactas.


*José Amaral Argolo é jornalista e advogado, pós-graduado em jornalismo e em ciência política, mestre em filosofia, doutor em comunicação e cultura e, como bolsista do CNPq, pós-doutor em jornalismo pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. É Professor Adjunto Nível IV do Quadro Permanente da Escola de Comunicação da UFRJ e ex-diretor daquela unidade de ensino.

**Autorizada a reprodução parcial desde que identificado o autor do texto original por seu nome completo e a observação: "Exclusivo para a Revista PJ:Br - Jornalismo Brasileiro (ECA-USP)".

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