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Dossiê

Vera Cruz: Novos Ideais

Por
Débora Arruda Falcão, Flávia de Francisco,
Raquel de Sena Rapuano e Sabrina Daniele Gonçalez
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A cidade de São Paulo buscava uma extensão tanto na área cultural como no campo financeiro e industrial, além de sua vocação cultural. Foi nesse contexto que surgiu a Vera Cruz. Por meio de um estúdio de cinema, a companhia buscava a vocação industrial e a importância cultural do cinema de São Paulo.

Reprodução

Sua pretensão era organizar sua produção para fazer um cinema de arte.

Na época, os industriais italianos Franco Zampari e Francisco Matarazzo Sobrinho já estavam bastante envolvidos com a cultura e a arte de São Paulo. Haviam acabado de criar instituições culturais como o Museu de Arte Moderna (MAM) e o Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), quando fundaram a Cia. Cinematográfica Vera Cruz, em 4 de novembro de 1949, em São Bernardo do Campo, numa área de 100 mil metros quadrados.

Os equipamentos para os estúdios eram todos importados, justamente porque no ano da inauguração da Vera Cruz, o governo federal baixou uma lei que isentava totalmente de impostos a importação de equipamentos para produções e pós-produções cinematográficas.

O sistema de som tinha oito toneladas de aparelhos e veio de Nova York - a maior carga aérea enviada da América do Norte para a América do Sul até então. As câmeras, apesar de serem de segunda mão, eram as mais modernas do mundo e estavam em ótimo estado.

A Vera Cruz foi uma tentativa de produção de cinema em série, assim como foram anteriormente a Cinédia e Atlântida, no Rio de Janeiro. Um grande nome da Companhia foi Adalberto Cavalcanti, o brasileiro que começou a trabalhar com cinema na França, na chamada avant-garde, colaborou em produções dos estúdios franceses de Joinville, estimulou e inspirou a renovação do documentário britânico. Cavalcanti estava em São Paulo para uma série de conferências e foi convidado pelo próprio Zampari para dirigir a Vera Cruz.

O cinema brasileiro ainda engatinhava, e a Vera Cruz, com seus europeus trazidos por Cavalcanti, formou brasileiros em áreas tão diversas como a fotografia, a montagem, o som, a produção, a cenografia, os trabalhos de laboratório e a maquiagem.

Com uma estrutura grandiosa - estúdios, atores e técnicos com contratos permanentes ou exclusivos -, a Vera Cruz queria criar um conceito europeu no Brasil. Mas foi, sem dúvida, a mais importante tentativa de se estabelecer uma indústria cinematográfica brasileira, mesmo que de maneira equivocada.

Apesar de só ter durado alguns anos, a Vera Cruz formou uma geração de cineastas e profissionais de cinema. A qualidade técnica e artística de seus filmes marcaram uma época e mostrou a viabilidade do cinema brasileiro.

O primeiro filme produzido pela Vera Cruz foi "Caiçara", de Adolfo Celi, com um enredo pífio, mas uma ótima montagem e fotografia.

Renegando a chanchada feita no Rio e ambicionando realizar filmes de classe e em muito maior número, a Vera Cruz contratou técnicos da Itália e Inglaterra. Porém, os diretores desses filmes, quase todos estrangeiros, não deixaram marcas duradouras na sua passagem pelo cinema brasileiro. Os únicos filmes que fizeram sucesso no exterior foram os que tinham algum "ingrediente brasileiro", como "O Cangaceiro"; "Sinhá Moça", "Floradas na Serra" e "Tico-tico no Fubá", de Adolfo Celi.

"O Cangaceiro", de Lima Barreto, foi a mais bem-sucedida produção da companhia. Com recorde de bilheteria, altíssimo custo de produção para a época e exibição em 23 países, conquistou o prêmio de Melhor Filme de Aventura no Festival de Cannes, em 1953. A música do filme, Muié Rendera, tornou-se canção internacional do Brasil.

Apesar de seu roteiro primário e desajeitado, "Sinhá Moça" mistura ação, romance e humor. Teve importância por seus aspectos históricos, pois mostra os escravos agindo e lutando, contrariando assim a lenda de uma abolição caída do céu, graças à Princesa Isabel. Já "Tico-Tico no Fubá", foi o melodrama histórico que mais se destacou na produção da Vera Cruz.

Também caracterizado por um roteiro primário, que não trabalha bem os personagens, e pela artificialidade dos ambientes, o filme "Apassionata" destaca-se por fazer um contraponto social a tais personagens com os garotos do reformatório, cuja presença e vivacidade não responderam a nenhuma necessidade dramatúrgica (a não ser inconsciente). "Floradas da Serra" marca uma das duas únicas aparições de Cacilda Becker no cinema. Trata-se de um melodrama mais contemporâneo, considerado uma das 'pérolas' da Vera Cruz.

Outros filmes de relativo sucesso da companhia foram: "Na Senda do Crime", produzido na última fase da Vera Cruz e baseado no policial clássico de Hollywood da década de 40; "Uma Pulga na Balança", uma diversificação da comédia, fazendo um contraponto às chanchadas cariocas, modelo que predominava na época e que explorava a carnavalização, a farsa e o grotesco; "Sai da Frente", outra comédia urbana, aborda a burocracia emperrada e a demagogia do populismo.

Segundo Sérgio Martinelli, a Vera Cruz viveu várias fases. Uma delas encerrou-se em 1954, quando Franco Zampari teve que passar todas as ações que possuía e o patrimônio da companhia para o Banco do Estado de São Paulo, devido a uma prestação de contas com seu credor. As dívidas da Vera Cruz somavam, na ocasião, 164 milhões de cruzeiros.

Infelizmente, a Vera Cruz, cuja falência poderia ser evitada só com a renda de "O Cangaceiro", não pôde ganhar nada com isso, pois vendera à Columbia os direitos de exibição do filme. Assim, mesmo conseguindo fazer filmes de nível industrial, o sonho brasileiro de uma indústria de cinema durou poucos anos.

Em 1954, a Companhia Cinematográfica Vera Cruz entrou em declínio. Entre os motivos de sua decadência, estão a ausência de um sistema próprio de distribuição (os distribuidores e exibidores ficavam com mais de 60% da arrecadação) e as dificuldades de colocar o filme brasileiro no competitivo mercado internacional.

A Vera Cruz também foi prejudicada pela concorrência desigual com os filmes estrangeiros no Brasil. O preço dos ingressos das salas de cinema era tabelado. A inflação diminuía o valor real do ingresso e fazia cair a arrecadação dos filmes. Para os filmes estrangeiros norte-americanos, o governo brasileiro pagava a diferença entre o câmbio do dólar oficial e do paralelo.

Era tudo muito mal organizado, havendo até desvio de verbas. Alguns dos filmes, mesmo conseguindo uma boa bilheteria, não tinham um retorno financeiro que cobrisse os custos da produção.

Com a saída de Franco Zampari, Abílio Pereira de Almeida, que já trabalhava na Vera Cruz, assumiu a Companhia, fundando a Brasil Filmes, que continuou produzindo com equipamentos Vera Cruz e utilizando seus estúdios. Foram sete os filmes realizados com o patrocínio da Brasil Filmes.

Ainda assim, o Banco do Estado de São Paulo resolve fazer a liquidação da empresa, marcando o começo do "fim" da Vera Cruz. Surgiu, então, Walter Hugo Khouri, cineasta que havia trabalhado na companhia e que, com seu irmão, Willian Khouri, recusava-se a encerrar aquele projeto. Ambos procuraram os acionistas minoritários da companhia, compraram algumas ações e conseguiram reunir a porcentagem suficiente para impedir a liquidação.

O Banco, que já tinha a posse do terreno, queria que a Vera Cruz fosse liquidada, pressionando os irmãos Khouri, que graças à obtenção de um empréstimo haviam conseguido reformar os estúdios, a abandonar a Companhia. Foi o que aconteceu, embora Walter Khouri tenha mantido a posse do estúdio menor.

Nos anos 70, quase tudo foi destruído e o terreno vendido para a Incorporadora Mackenzie Hill, que pretendia transformar o local em um supermercado. Ao contrário do que muitos pensam, a Vera Cruz nunca fechou ou faliu, tanto que funciona até hoje, mesmo atuando apenas como distribuidora de filmes para exibição em cinemas, televisão e festivais.

Depois de ter feito nome e de toda sua importância para o cinema nacional, a Companhia Cinematográfica Vera Cruz foi aos poucos sendo esquecida e sua memória deixada de lado.

Segundo Ivan Isola, muitos elementos e materiais usados na filmagem, como figurinos, fotos, cartazes, etc, que com o fim da Vera Cruz haviam sido levados para um museu da Companhia em São Bernardo do Campo, acabaram muitas vezes se perdendo, ou destruídos entre mudanças e o mau armazenamento.

Quando o museu, que havia sido criado para preservar a memória da Companhia, teve de ser fechado, esses materiais foram levados e guardados nos antigos galpões da Vera Cruz.

Hoje, o Museu da Imagem e Som (MIS) está trabalhando na restauração desses materiais. Segundo o restaurado José Maria Pereira Lopes: "O material está guardado na própria Vera Cruz, em uma sala ao lado dos estúdios". Lá podem ser encontradas cerca de duas mil latas de rolos de filme, todas enferrujadas e em péssimo estado de preservação. Desses dois mil rolos de filmes, cerca de quatrocentos já foram restaurados por José Maria, e podem ser encontram no acervo do MIS.

Além disso, o MIS também conseguiu reaver em seu acervo, que está sob responsabilidade de Renato Consorte, alguns cartazes dos filmes produzidos pela Companhia, além de cerca de dez mil fotos. Todos os filmes da Companhia foram digitalizados, e todo o material identificado, catalogado e arquivado.

Existem hoje, dois projetos paralelos, com a finalidade de promover novamente o nome Vera Cruz e preservar sua memória.

O primeiro é o Projeto Nova Vera Cruz, uma parceria da Secretária de Estado da Cultura, a Fundação Padre Anchieta e a Prefeitura de São Bernardo do Campo.

O objetivo do projeto era reativar os antigos estúdios da Vera Cruz, hoje propriedade da Prefeitura de São Bernardo, e voltar a utilizá-los para fins cinematográficos.

O Projeto também visava a aquisição e recuperação de todo o acervo fílmico e iconográfico, a realização de estudos de pesquisa, a edição de livros e CD-ROMs e a produção de documentários para sobre a Companhia.

No lugar dos velhos estúdios, seria instalado o maior e mais moderno complexo cinematográfico do Brasil. Ao lado dos estúdios, em um galpão menor, seria criado o Memorial Vera Cruz, com todo o acervo da Companhia, além de uma grande sala de cinema. O Projeto levaria o nome da Vera Cruz a recuperar sua principal essência: produzir filmes em escala industrial.

Porém, por motivos que não foram divulgados, a Prefeitura de São Bernardo interrompeu as obras, por tempo indeterminado, o que fez com que a Secretária de Estado da Cultura abandonasse o projeto.
Até a finalização deste trabalho não haviam previsões de quando o projeto seria retomado.

Ao contrário do que muitos pensam, a Companhia Cinematográfica Vera Cruz, como já foi dito anteriormente, não faliu e nunca fechou.

Depois que os estúdios de São Bernardo passaram a ser propriedade da Prefeitura, a empresa foi transferida para São Paulo, onde funciona até hoje, mas apenas como distribuidora.

Mas a eterna Vera Cruz, também tem alguns projetos para retomar a sua produção cinematográfica, todos já aprovados pela ANCINE e em fase de captação.

A Companhia Cinematográfica Vera Cruz pretende produzir um documentário sobre Lima Barreto, diretor que dirigiu um dos maiores sucessos da Companhia, "O Cangaceiro". Também deverá filmar um roteiro escrito por Walter Hugo Khouri pouco antes de falecer. E até um longa-metragem em desenho animado será produzido pela Vera Cruz.

A Companhia também pretende restaurar todos os seus filmes e lançá-los em DVDs, a idéia é fazer com que o público nunca esqueça da Vera Cruz.
Hoje a Vera Cruz é administrada por Wilfred Khouri, filho de Walter Hugo Khouri, e Sérgio Martinelli é responsável pela parte de restauro e da busca por novas produções.

O vídeo que foi produzido é um documentário com formato sociológico, relacionado à voz do narrador. Tem teor explicativo e interpretativo que cumpre o papel de informar com seriedade o tema abordado.

O documentário destina-se aos canais de televisão fechados, relacionados à cultura brasileira.

Tem duração de trinta e cinco minutos e está dividido em seis temas principais. Cada tema abordado é introduzido com um GC.

GC 1: Cinema

Introdução ao cinema

História do Cinema Paulista - um breve relato sobre a história do cinema no estado de São Paulo. Servirá de gancho para se tornar mais fácil de se compreender a importância das produções da Vera Cruz para o país, e principalmente para São Paulo.

GC 2: Companhia Cinematográfica Vera Cruz

A Vera Cruz da década de 50 - um apanhado sobre a história da Companhia para que se possa entender a sua importância.

GC 3: As Principais Produções

Principais produções da Vera Cruz - destacar alguns dos filmes produzidos pela Companhia, que mais marcaram a história do cinema.

GC 4: O "Fim"

Explicar os reais motivos que levaram a Vera Cruz a encerrar suas produções.

CG 5: O Cinema Pós-Vera Cruz

Situação do cinema hoje, especialmente depois da Vera Cruz.

GC 6: Vera Cruz: Novos Ideais

A Vera Cruz hoje - O documentário será concluído com um relato sobre os dois projetos existentes que visam uma possível retomada da Companhia e o que está sendo feito para isso.

Referências Bibliográficas

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GOMES, Paulo Emílio Salles. Cinema: Trajetória no subdesenvolvimento. 2 ed. Rio de janeiro: Paz e Terra, 1980.

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XAVIER, Ismail; PEREIRA, Miguel; BERNADET, Jean-Claude. O desafio do cinema: a política do Estado e a política dos autores. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985.

Sites

COMPANHIA Cinematográfica Vera Cruz. Disponível em: http://veracruz.itgo.com/historia.htm. Acesso em: agosto, 2005.


*Débora Arruda Falcão, Flávia de Francisco, Raquel de Sena Rapuano e Sabrina Daniele Gonçalez são graduadas em jornalismo pela UAM - Universidade Anhembi Morumbi. Trabalho de Conclusão de Curso apresentado em 2005.

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