...................................................................... pjbr@eca.usp.br







...
...

Dossiê

Leves Traumas de Infância

Por
Cíntia Silva, Débora Bueno, Joaquim Andrade,
Letícia Petreche, Raphael Carrozo e Renata Gomes
*

Trauma é a conseqüência de um fato acompanhado de uma emoção violenta, que vai modificar de uma maneira permanente a personalidade de um indivíduo, sensibilizando-o de uma forma especial para emoções análogas posteriores, isto é, um acontecimento violen-tamente emotivo que se desenvolve em determinada época do indivíduo.

Reprodução

A Infância já traz traumas logo no momento primordial da vida: o nascimento. A partir desta marca, deste contato brusco com o mundo externo, extra-uterino, o individuo já se expõe a um choque.

Durante esta fase a criança se depara com o projeto obrigatório de adaptação com o ambiente de sua sociedade.

Ao longo do desenvolvimento da criança, levando em consideração uma infância normal para os parâmetros da sociedade, a exposição a brincadeiras em grupos, familiares ou educativas pode gerar algum acidente traumático.

Sendo assim, a Infância é um período fundamental para a formação do caráter do indivíduo. Durante este período, as características marcantes se despontam, os defeitos ficam fáceis de identificar e o tipo de personalidade torna-se evidente. E é principalmente nessa fase, a infância, quando o real e o lúdico se esbarram constantemente, as informações, com o decorrer do tempo lentamente passam do consciente ao inconsciente sendo armazenado na memória.

Quando algo fora do que era esperado, ou algo que assusta acontece, dependendo da recepção do fato, torna-se uma experiência traumática para a criança. Segundo especialistas, não existem apenas traumas fortes resultantes de perda de algum ente querido, acidentes, maus tratos, etc.

Traumas também podem ser resultados de acontecimentos do dia-a-dia, e dependendo do estado emocional do indivíduo, de sua maturidade e do ambiente onde ocorre o fato, esse episódio pode se tornar um trauma que pode durar anos e causar bloqueios ou momentos constrangedores, de certa forma, em alguns momentos de sua vida.

Estes traumas aos quais estamos nos referindo, são abordados de forma clara com uma linguagem informal (jornalística) no formato de vídeo-documentário.

Escolhemos o formato de vídeo-documentário por acreditar que ele é o que se encaixa melhor a nossa proposta por ter áudio e imagens, formas que facilitam um melhor entendimento sobre o assunto por parte do telespectador.

Nosso objetivo com esse documentário é mostrar, através de um documentário, os mais diversos traumas vividos na infância, de forma clara e objetiva e para isso procuramos explicar a relação entre o real/ lúdico que a criança vivência durante a infância, o quanto o ambiente familiar pode contribuir para o cultivo e para o fim de um trauma, relatamos a natural ocorrência de fatos que podem se tornar traumas infantis e aflorar na fase adulta do indivíduo, informamos como o desenvolvimento infantil pode ser afetado por um trauma e para analisar os traumas convidamos profissionais das áreas de pedagogia, filosofia e psicanálise.

Ao definir nosso trabalho, percebemos que a proposta é altamente interessante e contém uma abordagem diferenciada sobre o tema trauma.
Traumas, geralmente, são abordados de maneira dramática, dolorosa e intensa.

Nossa proposta é abordar este tema de maneira clara, objetiva e interessante, tendo como foco principal, leves traumas que ocorreram durante a infância e que, de alguma forma, afeta o indivíduo em alguns momentos de sua fase adulta, causando bloqueios e, até mesmo, situações de pânico e constrangimento.

Trauma de acordo com a psicanalise: trauma, que vem do grego, é igual a ferida que deriva de furar, ou seja, trauma é igual uma ferida com efração.

Acontecimento da vida do sujeito que se define pela sua intensidade, pela incapacidade em que se encontra o sujeito de reagir a ele de forma adequada, pelo transtorno e pelos efeitos patogênicos duradouros que provoca na organização psíquica. (Fontes, 1998, p 522-3).

Quem não tem uma história traumática proveniente de algum fato ocorrido na infância? Um caso que, na infância, parecia não ser tão forte.

Porém, com o passar dos anos, percebe-se que assuntos ligados a esse fato causam bloqueios ou reações emocionais que, muitas vezes, fogem de nosso controle. Segundo a psicanalista, Mirian Abduch, trauma é uma carga emocional forte que a criança não consegue suportar, é a falta de condição de compreender a fantasia.

A importância de se abordar esse assunto é de abrir uma discussão para o melhor entendimento das pessoas sobre fatos que acontecem durante a infância, e que, por algum motivo, algumas pessoas não superam e carregam a marca até a fase adulta. Isso será abordado por meio dos depoimentos de algumas pessoas que passam por isso e que podem levar uma reflexão interna sobre o assunto, uma vez que eles (os traumas) são tratados de uma forma mais leve, natural e menos dolorosa.

Constatamos que este assunto não é muito abordado pela mídia, que sempre se limita a discutir o trauma em si, geralmente traumas trágicos que envolvem perdas e acidentes, sem se aprofundar nas diversas vertentes apresentas pelo tema.

Podemos afirmar que justamente por esse motivo nosso documentário se diferencia dos demais, pois em nosso caso o tema será o leve trauma infantil, que é tão sério e importante quanto os demais, já que envolve tanto o estado emocional, psicológico e físico do individuo e, muitas vezes, resulta em conseqüências gravíssimas para o mesmo.

Todas as pessoas, na infância, passam por diversas situações e episódios que as ajudam em seu crescimento físico e psicológico. Episódios estes, que de acordo com a receptividade da criança, podem se tornar um trauma, sendo esses leves ou mais profundos.

Segundo o pedagogo Paulo Vasconcellos, "... na história da humanidade, ela esta toda bordada pelas questões traumáticas que nos temos", e completa dizendo, "que como a brincadeira é profundamente presente na infância, logo é possível que nessas brincadeiras se estabeleçam algum acidente traumático".

A população de nosso trabalho consiste basicamente em pessoas que hoje na fase adulta, possuem traumas que adquiriram na infância e que até hoje causam situações emocionais muito fortes e muitas vezes constrangedoras. Traumas esses considerados bobos e sem importância alguma pelas outras pessoas, mas que afetam suas vidas.

Sendo assim, a classe social da população escolhida foi a classe média e a classe média alta, pois seus problemas não são de ordem socioeconômica e sim de relacionamento pessoais. De acordo com o filosofo Jose Vicente de Andrade, "Acontece que esses traumas são a prova disso. Esses que foram apresentados aconteceram exatamente com pessoas de boa família, com pessoas de possibilidade de superação e famílias em condição cultural de não deixar que aconteçam traumas e os traumas aconteceram".

Não focamos o trabalho na população de classe baixa, pois, o foco do nosso trabalho não é de traumas de origem na condição social (fome, miséria, má estrutura familiar, de saúde e educacional), nem ligados a episódios trágicos (morte, acidentes, violência).

Segundo o filosofo, "As crianças de família marginalizadas, de famílias excluídas não são marginais. São crianças que sofrem traumas permanentes e o normal delas necessitam de afetividade com a ausência total de ruptura, de revolta com a própria sociedade".

Escolhemos a população feminina, por se mostrar mais receptivas ao tema, ou seja, pela facilidade em expor suas experiências inclusive as traumáticas.

Nossa pesquisa foi em livros de psicologia, que abordassem a infância e o assunto traumas, porém, nem todos falam especificamente de traumas leves. Portanto, foi feita uma abordagem dos traumas, de uma maneira geral e no período da infância. Também utilizamos o recurso da pesquisa sobre histórias de vida, ou seja, com pesquisas sobre a vida dos indivíduos, conseguimos obter informações e dados para o nosso documentário.

"Atualmente, a história oral de vida tem sido uma das formas mais cultivadas do gênero. Como o próprio nome indica, trata-se da narrativa do conjunto da experiência de vida de uma pessoa." ( Meihy, 2005, p 147)

Fomos a campo a fim de mensurar o número de pessoas que tiveram episódios na infância e hoje (na fase adulta) possui algum trauma resultado desse episódio, que interfere, de alguma forma em seu dia-a-dia. A cada dez pessoas, sete contou casos que se enquadravam na proposta de nosso trabalho.

Com relação as entrevistas foram selecionadas três pessoas do sexo feminino de classe média e classe média alta, que tiveram leves traumas de infância, e que hoje tem de 21 a 26 anos.

As entrevistadas são: Carolina Silva, que depois de um susto quando pequena ficou com medo de palhaço. Maria Puebla, após uma brincadeira de seu pai com um comercial de facas na televisão, não suporta que toquem em seu pescoço. E Marina Paes, depois de ser lambida no rosto pelo pai, tem aversão à saliva.

Além das entrevistadas que tiveram leves traumas, temos três profissionais, o filósofo José Vicente de Andrade, o pedagogo Paulo Vasconcelos e a psicanalista Mirian Abduch, separadamente analisaram os traumas. Suas analises foram utilizadas para o embasamento teórico do trabalho, assim como, suas opiniões como estudiosos sobre os casos selecionados.

Uma das intenções do documentário é o registro de fatos históricos utilizando imagens e personagens "reais", de acordo com sua importância histórica. No entanto, o simples fato de filmes utilizarem recursos históricos não os torna por si só um documentário.

O fator de extrema importância para essa diferenciação é a utilização da narrativa no documentário. É necessário identificar o quanto essa narrativa está de acordo com o discurso sobre o real, precisamente o que o diferencia de uma narrativa puramente ficcional. Isso significa assegurar até onde vai a interferência do autor na interpretação dos fatos.

O documentário jornalístico faz uso da narração de ações discursivas que, a partir da interpretação do autor, está apresentando a realidade diante de seu ponto de vista.

"A locução, a canção, os quadros apreendem e cercam a experiência dos migrantes pelo viés da ciência e da arte - ciência e arte (pelo menos no caso dos quadros) que não pertencem ao seu universo cultural, mais interpretam em termos cultos a sua vivência. Quanto a eles, nada mais se lhes pede, se não que a vivam."(Bernardet, 2003, p 17).

Para se ter uma análise mais aprofundada diante do episódio é preciso separar o que é fato, podendo ser transformado em texto jornalístico.

Mediante isso, se desperta no público o interesse em saber mais sobre algo que pode não fazer parte de seu universo cotidiano.

"O documentário não é um mero "espelho da realidade" não apresenta a "realidade tal qual", ao combinarem-se e interligarem-se as imagens obtidas in loco está-se a construir e a dar significado à realidade, está-se o mais das vezes não a impor significados mas a mostrar que o mundo é feito de muitos significados. Isto conduz-nos àquilo que se pretende que um documentário seja, que se exclua o voyeurismo ou mero sensacionalismo a favor do questionamento e da discussão através da construção de argumentos (em especial, e no meu entender, de modo visual - fazendo uso das imagens)." (Penafria, 1999, P 122)

A narração jornalística dos fatos não precisa, necessariamente, seguir a ordem cronológica. No documentário, a narrativa pode ser utilizada como uma forma de prender a atenção do espectador para o que está sendo mostrado. O essencial, no entanto, é dar seqüência aos fatos conforme sua importância, começando do fato mais relevante para o menos relevante.

A linguagem utilizada no documentário foi a dos próprios entrevistados.
Para os especialistas, pedimos que as análises feitas dos casos fossem claras e objetivas, exatamente com o intuito de ajudar os espectadores do trabalho a entenderem melhor os motivos, os fatos e os eventos que levam ao trauma e quais os melhores modos para que esses traumas possam ser tratados e superados.

"A imagem viva, em movimento, carrega uma dose muito maior de emoção. As palavras devem, então, servir de suporte, dar apoio, complementá-la. É com a imagem que a televisão compete com o rádio e o jornal. È com a imagem que a TV exerce o seu fascínio e prende a atenção das pessoas. É preciso respeitar a força da informação visual e descobrir como associa-la à palavra, porque a informação na TV funciona a partir da relação texto/imagem. Coloquial, claro e preciso. Objetivo, direto. Informativo, simples e pausado. São características de um texto jornalístico de televisão." (Paternostro, 1999, p. 61)

Os entrevistados foram orientados a agir de forma natural, como se estivessem conversando entre amigos ou narrando o fato para alguém. Através de tais entrevistas, foi possível obter depoimentos com linguagem coloquial e emoções verdadeiras e autênticas.

O coloquialismo das entrevistas foi obtido através da forma natural como se deram, no modelo "bate-papo".

Por se tratar de linguagem oral, as noções de passado e presente das entrevistas foram bem identificadas no trabalho.

O público-alvo de nosso documentário são pessoas com idade acima dos 20 anos. Especialistas da área (psicólogos, pedagogos e filósofos), pessoas que possuam traumas e se identificam com o tema, professores e estudantes.

O trabalho realizado servirá como um alerta para que todas as pessoas reflitam e vejam que qualquer pequena situação desconfortável pode ser um problema sério, e para as pessoas que se identificarem com o tema procurarem ajuda profissional.

FICHA TÉCNICA

- Direção: Cíntia Silva

- Direção de Fotografia: Raphael Carrozo

- Edição: Débora Bueno e Renata Gomes

- Editor Assistente: Joaquim Andrade e Letícia Petreche

- Roteiro:
· Cíntia Silva
· Débora Bueno
· Joaquim Andrade
· Letícia Petreche
· Raphael Carrozzo
· Renata Gomes

- Produção: Débora Bueno, Raphael Carrozo e Renata Gomes

- Pesquisa: Cíntia Silva e Letícia Petreche

- Coordenadora: Fabia Dejavite

- Orientadora: Valquíria Kneipp


- Entrevistadas:

· Carolina da Silva
· Marina Paes
· Maria Puebla

- Convidados:

· Maria Aparecida da Silva - Mãe de Carolina
· Jorge Reynaldo Puebla - Pai de Maria
· Michelline Gois - Amiga de Marina

- Especialistas Convidados

· Psicóloga: Miriam Abduch
· Pedagogo: Paulo Vascelos
· Filósofo: José Vicente Andrade

- Câmeras da Univ. Anhembi Morumbi - Campus Vila Olímpia:

· Vanderlei
· Edimilson

Referências bibliográficas

AJURIAGUERRA, . J. de. Manual de Psiquiatria Infantil. Ed. Masson do Brasil. França, 1989. Título original: Manuel de Psychiatre de I'Enfant, Masson Editeurs, Paris.

ALTMAN, Mirian. Artigos Publicados, s.d. Disponível em <http://www.mirianaltman.psc.br/limites.htm> Acesso em 02 maio 2005.


BARROS, Luisa. Artigos Publicados, s.d. Disponível em: <ttp//www.intercom.org.br/papers/xxiii-ci/gt09/gt09a3.pdf> Acesso em 06 de junho de 2005.

BERNADET, Jean-Claude. Cineastas e Imagens do Povo. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1985.

CANNITO, Newton. Sinopse: REVISTA DE Cinema: Michael Moore e os Potenciais do Documentário Sociológico. Nº 10, Ano VI. Dezembro de 2004 -p. 31-33.

COVILLE, J. Walter. Abnormal Psychology, Ed. Barnes & Noble, INC Estados Unidos: 1960.

FREUD, Sigmund. Edição Standard Brasileira das obras completas de Sigmund Freud, conferência XVII, Imago Editora, 1976 - p.325.

KAPLAN, Harold I. Compendio de Psiquiatria: Ciências do Comportamento e Psiquiatria Clínica. Porto Alegre: Ed. Artemed, 2002 (Outros distúrbios da infância, meninice ou adolescência).

LAKATOS, Eva Maria. Fundamentos de Metodologia Científica. 4 ed. Revista Ampliada - São Paulo: Atlas, 2001.

LANPLANCHE, Jean. Vocabulário da Psicanálise. 3 ed. - São Paulo: Martins Fontes, 1998.

LEBOVICI, Serge e SOULÉ, Michael. O conhecimento da criança pela psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1980.

MEDINA, Cremilda de Araújo. Entrevista: O diálogo Possível. Ed. Ática. São Paulo: 1986 p. 08-13.

MEIHY, José Carlos SEBE BOM. Manual de História Oral. 5 ed. São Paulo; Loyola, 2005.

MELO, Augusto L. N. Psiquiatria: Psiquiatria clínica, aplicações psiquiátrico-legais. Ed. Guanabara. Rio de Janeiro: 1986.

MUSSEN, Paul H. Desenvolvimento e Personalidade da Criança. Ed. Harbra. São Paulo: 1995.

PATERNOSTRO, Vera Íris, O texto na TV: Manual de Telejornalismo. Ed. Campus. Rio de Janeiro, 1999 p. 61-65.

PENAFRIA, Manuela. Perspectivas de desenvolvimento para o documentarismo, 1999. Disponível em <http//www.ubista.ubi.pt~comum/penafria-perpectivasdocumentarismo.html> Acesso em 06 de junho de 2005.

PIKUNAS, Justin. Desenvolvimento Humano: Uma Ciência Emergente. Ed. McGRaw-Hill do Brasil Ltda, 1979 p. 59.

STRATTON, Peter e HAYES, Nicky. Dicionário de Psicologia. São Paulo: Pioneira, 1994.

WINNICOTT, D. W. Consultas Terapêuticas em Psiquiatria Infantil. Ed. Imago. Rio de Janeiro, 1994.


*Cíntia Silva, Débora Bueno, Joaquim Andrade, Letícia Petreche, Raphael Carrozo e Renata Gomes são graduados em jornalismo pela UAM - Universidade Anhembi Morumbi. Trabalho de Conclusão de Curso apresentado em 2005.

Voltar

 

www.eca.usp.br/pjbr