...................................................................... pjbr@eca.usp.br








...
...

Dossiê

Como Te Vê?
Por Ana Helena Brasil, Bruna Carvalho, Charlise Morais e Mariana Maciel*

O projeto pesquisou sobre a influência da televisão na vida das pessoas, produzindo um documentário televisivo baseado em depoimentos reais de gente comum e em cenas do cotidiano.

O produto final, intitulado "Como Te Vê?" - como você vê a televisão e como é visto por ela -, foi ambientado na cidade de São Paulo no tempo presente.

Reprodução

A televisão foi escolhida como tema deste trabalho por ser um meio de comunicação social que dita regras, modas e estilos. E, para avaliar o seu grau de influência na sociedade, partimos das seguintes questões exploratórias:

· Pode a comunicação massiva captar as fantasias das pessoas, seus sonhos e seus desejos? Ou a TV dá apenas indícios de realização desses sonhos?

· Esse meio pode introduzir novas idéias e comportamentos? Ou limitar nossa potencialidade inovadora e imaginativa?

· Pode a TV, por meio de sua linguagem verbal e visual, inibir a reflexão do telespectador?

· A TV pode ser um meio de fuga, uma forma de companhia? Ou é apenas um eletrodoméstico com conteúdo dispensável?

Na tentativa de responder a essas questões, a pesquisa que realizamos, da qual resulta o documentário aqui proposto, apresenta:

1. dados sobre a evolução e expansão da televisão no Brasil, bem como suas estatísticas;

2. análises e reflexões sobre teorias que estudam o papel da mídia, em especial da TV, na construção social da realidade;

3. depoimentos de pessoas que tomaram e deixaram de tomar decisões pela influência da TV; que sonham em se tornar estrelas a qualquer custo; que abominam ou mesmo que não têm contato com o meio;

4. declarações de especialistas e críticos de TV, com opiniões conflitantes.

Consideramos este trabalho relevante pela abrangência da TV em todo o território nacional, por sua capacidade de penetração entre todas as camadas sociais e pela amplitude de utilizações a que se presta. A televisão também serve tanto para entreter como para (des)informar e (des)educar.

De acordo com dados de 2003 divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) [1], 11,6% da população brasileira com 15 anos ou mais é analfabeta, ou seja, tem a televisão como uma das únicas fontes de informações. Aquilo que é apresentado na "telinha" torna-se verdade absoluta para aqueles que não possuem outros referenciais informativos ou repertório que lhes permita fazer uma leitura crítica do meio. O professor e pesquisador Luiz Santoro [2] afirma:

"Para as pessoas das classes mais baixas, sim, a verdade é quase que absoluta, porque você não tem outras fontes de informação. Agora, pra quem pode escolher e pode pagar e sabe entender, consegue entender o que está dentro de outras fontes, evidentemente que a televisão é apenas um dos fatores de formação, por exemplo, da opinião dessa pessoa."

Da mesma forma, muitas crianças nasceram e se criaram assistindo à televisão e, mesmo freqüentando as escolas, encaram-na como sua principal fonte de diversão e conhecimento.

Muitas escolas e universidades utilizam a televisão e seu conteúdo como pauta para aulas e atividades. Ela é usada tanto como suporte para exibição de programas educativos, minisséries históricas e documentários quanto como objeto de estudo. Além disso, o meio está presente nas rodas de discussão de pessoas de diversas classes sociais e faixas etárias.

Por todos esses fatores, consideramos pertinente e oportuno desenvolver este documentário. Ele analisa e revela as facetas do meio e as mudanças que provoca no dia-a-dia das pessoas com base em uma investigação acurada, em ambientes diversos.

O documentário

A idéia de gravar o documentário surgiu há dois anos. Inicialmente, tínhamos a intenção de fazer um trabalho que retratasse o mundo, conflitos, famílias, personalidades, por meio das janelas de suas próprias casas. Percebemos que a televisão é uma janela que está presente na vida da maioria das pessoas e pode exercer grande influência em todas elas. A partir de então, decidimos fazer um documentário relatando experiências e depoimentos sobre essa influência comportamental e emocional.

Fizemos um documentário reflexivo, em que apresentamos provas convincentes sobre o tema e revelamos dados e pontos de vista que não eram conhecidos do grande público. As gravações mostram o processo humano, metafórico, de olhar o mundo, que revela a subjetividade e os valores de quem produz e de quem participa.

O nome "Como Te Vê?" foi escolhido para mostrar que o assunto tratado é sobre como as pessoas vêem a TV e como elas são vistas por ela. Faz analogia também ao verbo comer, dando o sentido de ingerir o que é imposto pelo meio televisivo.

O vídeo é sobre a influência da TV na vida das pessoas. É formado por depoimentos reais e cenas do cotidiano, mostrando a televisão como meio de comunicação e como ditador de regras, modas e estilos. Um aparelho que está presente, direta ou indiretamente, na vida de todos e que exerce um papel determinante na formação e nas atitudes de toda a sociedade.

Os personagens foram selecionados por meio da sua relação com a televisão. Pesquisamos no Orkut, realizamos entrevistas nas ruas, em lugares públicos e contatamos profissionais de comunicação, críticos, entre outros, sem cenários determinados. Nos depoimentos as perguntas estarão em off, ou seja, não existe um entrevistador, um locutor ou um narrador.

O documentário conta com um apresentador em estúdio e é dividida em blocos compostos pelas entrevistas, depoimentos e imagens captadas em locais que possuem televisores. Ele se passa na cidade de São Paulo, no Estado de São Paulo, no ano de 2005 e tem 26 minutos

Para realizar o trabalho, fizemos uma ampla pesquisa. Nós assistimos a 7 documentários, entre eles: Janela da Alma, que trata de pessoas portadoras de deficiência visual e por isso serviu como uma referência para a gente analisar a forma como algumas pessoas conhecem o mundo pelo que vêem ou escutam da televisão; também assistimos ao Programa Roda Viva - Tema Televisão; o documentário TV Ano 50, da Globo Vídeo e o filme Mulheres Diabólicas, que mostra a relação da televisão como único meio de informação para analfabetos.

Nós também lemos 13 livros, entre os quais Televisão Levada a Sério e Máquina e Imaginário, de Arlindo Machado, o primeiro analisa criticamente a história da TV e sua influência na formação dos costumes e da opinião pública; e o segundo mostra como as mudanças tecnológicas podem transformar nossa percepção e nossos modelos de conhecimento.

A gente tb leu Televisão: a vida pelo vídeo; Mídia e Educação e Os Teledependentes. Um livro de bastante relevância foi e O Poder da TV, de José Arbex Júnior, que mostra o impacto da TV na sociedade e a possível relação entre ficção e realidade.

Fizemos entrevistas com pessoas de classes sociais e repertórios diferentes que apresentaram suas perspectivas e análises sobre a televisão, entre estas estão críticos e professores, como Laurindo Leal Filho, Luiz Santoro e José Arbex., que foi a entrevista central, de grande importância para o desenvolvimento do trabalho.

Também entrevistamos pessoas que não assistem TV por ideologia ou religião, pessoas que adoram, trabalham ou sonham em trabalhar na Tv e pessoas que se sentem influenciadas por este veículo. Além destes, falamos com uma psicanalista e uma psicopedagoga que analisaram a influência da televisão no comportamento dos personagens apresentados no documentário.

Nós também buscamos dados estatísticos no IBGE, IBOPE, no livro Mídia Dados 2005 e em telejornais e jornais diários.

Com a finalização deste trabalho, concluímos que a televisão é um meio que está presente na vida da maioria das pessoas, exercendo fascínio em uns e repulsa em outros. Seja qual for a utilização a que se presta, a TV não passa despercebida e já foi elogiada ou criticada por todos. Por meio das entrevistas e dos depoimentos de críticos da área, verificamos que a televisão pode exercer diversas funções, tudo depende do repertório de cada um e da utilização que dela se faz.

No início do trabalho nos deparamos com questões exploratórias, às quais, ao término da pesquisa, acreditamos poder responder:

· Pode a comunicação massiva captar as fantasias das pessoas, seus sonhos e seus desejos? Ou a TV dá apenas indícios de realização desses sonhos?

Podemos perceber nos depoimentos dos entrevistados e constatar nas afirmações de José Arbex Jr. que a televisão é utilizada pela maioria das pessoas como uma fuga para as dificuldades do cotidiano.

Os problemas do dia-a-dia são maquiados pela diversão televisiva. A TV preenche o espaço que falta para a realização dos sonhos de muitas pessoas.

· Esse meio pode introduzir novas idéias e comportamentos? Ou limitar nossa potencialidade inovadora e imaginativa?

Para muitas pessoas, a televisão realmente introduz novas idéias e apresenta oportunidades para desvendar fatos que seriam desconhecidos, caso não fossem transmitidos pela TV. Por exemplo, lugares que muitos não conseguiriam visitar, guerras, personalidades internacionais, entre tantas outras coisas que não estão ao alcance de grande parte da população, tornam-se conhecidos por estarem sempre na televisão.

Os comportamentos também são alterados pelo que é veiculado nesse meio. Desde o uso de uma simples roupa até uma mudança na escolha política, a televisão é apontada por muitas pessoas como o indicador dos caminhos a serem seguidos.

· Pode a TV, por meio de sua linguagem verbal e visual, inibir a reflexão do telespectador?

Muitos dos estudiosos e especialistas entrevistados para a elaboração do documentário afirmaram que a televisão é um meio que não possibilita a interatividade do telespectador. As pessoas tornam-se passivas perante suas transmissões.

Mas isso pode ser modificado a partir do momento em que a sociedade se tornar consciente de seus direitos, interferindo ativamente na programação ou no que é veiculado. Muitos não têm conhecimento de que toda a população pode e deve interferir, já que a televisão é uma concessão pública.

· A TV pode ser um meio de fuga, uma forma de companhia? Ou é apenas um eletrodoméstico com conteúdo dispensável?

Atualmente, as pessoas utilizam os meios de comunicação como companhia na sociedade individualista em que vivem. A televisão preenche o vazio social. Mas seu conteúdo não pode ser considerado algo dispensável, já que apresenta possibilidades concretas de entendimento do mundo.

A maioria da população brasileira tem na TV sua principal fonte de informação e a coloca no lugar dos formadores da cultura tradicional, como a escola, a igreja e a família. Isso faz com que a TV influencie muitas atitudes e opiniões, como pudemos constatar nas entrevistas que nos foram concedidas.

Tal influência confere enorme responsabilidade aos que atuam no meio.

Responsabilidade que também deve ser cobrada pela população, que, além de desconhecer seus direitos para exigir qualidade do meio, não possuem canais para exercê-los. Verificamos que a falta de um órgão regulamentador do meio dificulta o controle social dos conteúdos que veicula. A partir daí, constatamos a importância das Organizações Não-Governamentais, que exigem responsabilidade das emissoras.

A TV Comunitária é um grande passo para que a sociedade possa expor suas idéias e ser ouvida. É uma forma de união das camadas sociais. Uma oportunidade para que as classes mais baixas entrem nas casas das classes mais altas (ou vice-versa) e provoquem discussões e possíveis mudanças.

Os profissionais entrevistados para o documentário comprovaram que nosso país carece de estudos sobre o meio e que ainda há muito para ser desvendado sobre a relação e o impacto da TV na vida do brasileiro.

Constatamos também que a TV acaba sendo tomada como única fonte de informação, não por ser um meio manipulador de idéias, mas porque vivemos em um país em que as pessoas não possuem acesso a outras fontes, devido às suas condições financeiras e à falta de educação e politização.

Qualquer um de nós está sujeito a ser influenciado pela televisão, assim como por qualquer outra mídia, dependendo do repertório de cada um e do meio em que vivemos.

A televisão tem um papel importante na formação das pessoas e pode levá-las a refletir sobre a vida e sobre a sociedade em que vivem, mas é apenas uma das janelas abertas para a realidade lá fora.

Referências Bibliográficas

ALMEIDA, José Mendes de; FALCÃO, Ângela; MACEDO, Cláudia. TV ao Vivo - Depoimentos. São Paulo: Brasiliense, 1988.

EURASQUIM, M. Alfonso; MATILLA, Luís; VÁSQUEZ, Miguel. Os Teledependentes. São Paulo: Summus, 1983.

HERZ, Daniel. A História Secreta da Rede Globo. São Paulo: Tchê, 1987.

LIPOVETSKY, Gilles. O Império do Efêmero - a moda e seu destino nas sociedades modernas. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

MACHADO, Arlindo. A Televisão Levada a Sério. São Paulo: Senac, 2001.

MATTOS, Sérgio Augusto Soares. História da Televisão Brasileira. 2 ed. Petrópolis: Vozes, 2002.

MÍDIA - DADOS 2005. São Paulo. Produzido para o Grupo de Mídia. São Paulo / Porto: Palavra, 2005.

Notas

[1] Informações extraídas do site do IBGE. Disponível em http://www.ibge.gov.br/brasil_em_sintese/default. html. Acesso em 28 out 2005.

[2] SANTORO, Luiz. Entrevista concedida ao grupo em 05 set 2005.

Sites

Folha de S. Paulo: www.folhaonline.com.br

IBGE: www.ibge.gov.br

Microfone: www.microfone.jor.br

Observatório da Imprensa: www.observatoriodaimprensa.com.br


*Ana Helena Brasil, Bruna Carvalho, Charlise Morais e Mariana Maciel são graduadas em jornalismo pela UAM - Universidade Anhembi Morumbi. Trabalho de Conclusão de Curso apresentado em 2005.

Voltar

 

www.eca.usp.br/pjbr