A
questão da ética na cobertura dos jornais
de Arcos (MG) na implantação da PUC-Minas
Por Clícia Alves Ribeiro Roque*
Alberto
Dines [1] (1986, p. 27) diz que o "jornal
é o fragmento da história e da memória
de um país". Dentro desta visão, este
artigo mostrará algo do passado recente de Arcos.
Optou-se por resgatar o processo de implantação
da Pontifícia Universidade Católica de Minas
Gerais na cidade vista pelos jornais, ao mesmo tempo em
que foram analisadas as questões éticas
da cobertura.
A
implantação da PUC Minas Arcos, foi registrada
por jornais de Belo Horizonte e da região centro-oeste
de Minas Gerais, mas só será estudada a
cobertura feita pelos jornais da cidade de Arcos.
|
Stanza
della Segnatura (Vaticano)

Escola de Atenas, de Rafael Sanzio.
Afresco, pintado de 1509 a 1510.
|
O
presente artigo justifica-se por tratar de estudo de caso relativo
ao jornalismo regional, tema estudado no curso de jornalismo
da PUC Minas Arcos e que ainda possui poucos registros. Além
disso, o jornalismo local tem uma empatia maior com o leitor
da sua cidade e é interesse que se esclareça as
relações estabelecidas entre o jornal e seu público.
O
jornalismo regional retrata a realidade da localidade onde está
inserido, registra os fatos que falam da realidade da população
local, por isso há uma maior identificação
dos leitores com os jornais de sua região ou cidade.
O
leitor procura uma visão mais localizada dos fatos que
têm a ver com sua realidade, daí o interesse deste
artigo em mostrar se os jornais refletiram realmente a realidade
dos fatos ou distorceram os fatos segundo seus interesses ou
ideologias político-partidárias.
Em
Arcos, não há um registro sistematizado sobre
a história da imprensa. Entende-se que esta análise
poderá preencher uma lacuna, pelo menos no que diz respeito
a fatos mais recentes, como é o caso da implantação
da universidade no município.
É
também do interesse da comunidade de Arcos ter sua história
registrada e analisada. Segundo dados da Biblioteca Municipal
Jarbas Ferreira Pires, a maior dificuldade de pesquisa histórica
que têm os usuários, é em relação
à história de Arcos, que apresenta uma deficiência
muito grande de registros.
Mas
não é somente em Arcos que não há
registros históricos da imprensa. A realidade não
é diferente em outras localidades.
"Recentemente
as acadêmicas estiveram na cidade de Corumbá
fazendo uma pesquisa do material sobre a imprensa da região.
Infelizmente os dados são parcos e muitos se perderam
no tempo. A falta de memória é um fato que atinge
todo o estado." [2]
A
deficiência na publicação de obras de referência
que possam vir a contribuir na fundamentação teórica
sobre o assunto, jornalismo regional, pede um pouco mais de
esclarecimentos sobre a questão.
Em
1983 o jornalista Gastão Tomás Almeida, percebeu
esta lacuna:
"Praticamente
tudo está para ser estudado sobre o assunto. Trabalhos
esparsos, locais e regionais, existem alguns, mas poucos,
o que impede uma visão e uma análise gerais
do que foi, do que é e do que se espera do jornalismo
voltado para suas cidades e regiões". (ALMEIDA,
1983, p. 15)
Hoje,
já há mais informações a respeito
de jornalismo regional, mas não quanto seria de se esperar.
Estão sendo tomadas boas iniciativas para minimizar esta
deficiência de informações, como é
o caso do curso de jornalismo da PUC Minas Arcos que adotou
em sua grade curricular, a disciplina de jornalismo comparado,
onde se tem dado ênfase ao estudo do jornalismo regional.
As
virtudes e deficiências dos jornais interioranos, representados
aqui pelos jornais de Arcos, serão analisadas à
medida que se apresentarem dentro da metodologia de trabalho
adotada, que é analisar todos os números de jornais
que se referiram à implantação da universidade
nesta cidade, no período já citado.
O
objeto central deste estudo é a análise da ética
dos jornais que cobriram a implantação da PUC.
Houve ética ou somente interesses pessoais ou de grupos
foram contemplados? É o que se responderá ao final
das análises.
As
seguintes hipóteses serão analisadas e poderão
ser confirmadas ou descartadas:
*O
jornalismo regional é muito influenciado pela política
local.
*O
jornal "institucional" reflete somente o interesse
pessoal do governante.
A
observação dos dados que levarão às
conclusões será feita através de todas
as matérias publicadas relacionadas ao evento em questão,
desde a assinatura do convênio PUC/Prefeitura em 1997
até 2003. Será importante analisar a forma como
estas matérias foram conduzidas. Até o pouco espaço
dedicado à PUC em alguns jornais é importante
para este estudo, porque até isso é sintomático.
Para
se ter uma idéia de como eram os jornais da cidade de
Arcos à época da implantação da
PUC no município, será traçado o perfil
dos mesmos.
O
jornal "Cidade de Arcos", era o órgão
informativo da Prefeitura Municipal de Arcos durante a gestão
1997/2000 da prefeita Hilda Borges de Andrade. Fez uma cobertura
detalhada da implantação, desde a cerimônia
de assinatura do convênio até a instalação
de novos cursos, inauguração do auditório,
agenda cultural da PUC Arcos e tudo que se referia à
universidade. Isto até a saída da prefeita Hilda
Borges de Andrade, pois o prefeito eleito na sequência,
Lécio Rodrigues de Souza, extinguiu o jornal.
Segundo
o assessor de comunicação do ex-prefeito Lécio,
Aurélio Tadeu Nunes, o "Cidade de Arcos", foi
desativado porque publicar os informativos da prefeitura por
outros veículos de imprensa, é mais econômico,
além de que o jornal era usado para promoção
pessoal da prefeita Hilda Borges, o que é inconstitucional.
O
artigo 37 da Constituição Federal, inciso 1o proíbe
este tipo de prática. O texto constitucional diz o seguinte:
"A
publicidade dos atos, programas, obras, serviços e
campanhas de órgãos públicos deverá
ter caráter educativo, informativo ou de orientação
social, dela não podendo constar nomes, símbolos
ou imagens que caracterizem promoção pessoal
de autoridades ou servidores públicos".
Já
a jornalista responsável pelo jornal "Cidade de
Arcos", Marisa Freitas (de acordo com entrevista dada à
pesquisadora), refuta esta explicação. Ela diz
ser o mais barato que a prefeitura possua o seu próprio
jornal, como acontecia na gestão de Hilda Borges de Andrade.
No
jornal "Correio do Centro Oeste" do dia 06 de outubro
de 1997, o articulista José Sabiá, escreve que
"o jornal da prefeitura - Cidade de Arcos - virou instrumento
de promoção da prefeita, com abundância
de fotografias e ausência de biografia".
O
"Cidade de Arcos" tinha como jornalista responsável,
Marisa Freitas Campos. A presença de uma jornalista formada
num jornal em Arcos àquela época, era incomum.
O
jornal era um semanário, tablóide de 8 páginas,
com fotos, que registrava os feitos da prefeita, os decretos
municipais e acontecimentos diversos ocorridos na cidade, inclusive
esportivos.
O
"Tribuna Arcoense" era um tablóide de 8 páginas,
quinzenal, com distribuição gratuita e tiragem
de 3000 exemplares. Circulou somente de outubro de 1999 a março
de 2000. No expediente consta que o jornal era de propriedade
da Empresa Santos e Gontijo S.C. Ltda. O nome do editor não
é mencionado, somente o dos colaboradores.
Tinha
anunciantes e apoiava a prefeita Hilda Borges de Andrade. No
primeiro número do jornal, na primeira página,
e também no editorial, colocou-se abertamente a tendência
que predominaria no periódico: combater a "imprensa
de oposição" que denegria a imagem da prefeita
e ressaltar os "grandes" feitos da administração.
Essa imprensa a que o Tribuna se referia, era o jornal Correio
do Centro Oeste.
O
"Jornal de Arcos" é o mais antigo jornal de
Arcos ainda em circulação, hoje com 28 anos de
fundação. O fundador do "Jornal de Arcos",
Hermenegildo Castro, já é falecido, mas quando
da implantação da universidade, era o responsável
pelo jornal.
Segundo
seu filho Belarmino Castro, editor do jornal hoje, seu pai divergia
politicamente da prefeita Hilda Borges de Andrade. Além
desta divergência, pelo fato da prefeitura ter o seu próprio
órgão informativo, o "Cidade de Arcos",
nenhuma publicação institucional era feita em
outros jornais. Este foi um dos motivos que levou o "Jornal
de Arcos" a passar por sérias dificuldades financeiras.
O jornal ficou sem ser publicado de fevereiro a julho de 1999,
porque o editor não tinha condições financeiras
para bancar a impressão.
É
um tablóide, de 8 páginas e de periodicidade incerta.
Hoje é distribuído gratuitamente e sobrevive através
de anúncios, inclusive da Prefeitura Municipal de Arcos.
O
"Correio do Centro-Oeste" é um tablóide,
bissemanal, saindo todas as quintas e domingos. Tem 16 anos
de fundação. É distribuído por assinaturas
e também vendido em bancas. Circula hoje com cerca de
40 páginas, com várias sessões e cadernos.
O
jornal criticava sistematicamente a prefeita Hilda Borges de
Andrade na gestão 1997/2000, mas não foi sempre
assim. Na edição do "Correio" de 27
de dezembro de 1992, durante a primeira gestão da prefeita,
a manchete de primeira página era: "D. Hilda: maior
administradora da história de Arcos".
Inquirido
sobre o porquê da mudança de posição
do jornal, seu editor, Gumercindo Cruz, disse que durante o
primeiro mandato da prefeita Hilda Borges de Andrade, o editor
do "Correio do Centro-Oeste" era Leocádio Teixeira,
seu sócio, e o jornal à época, expressava
a ideologia dele. Cruz também era um dos donos do jornal,
mas não tinha participação editorial.
Cuidava
nessa época de jornais de outras cidades. Só mais
tarde, ele compraria as partes dos sócios no jornal.
Ele elogia a atuação da prefeitano
seu primeiro mandato.
O
que ocorreu, segundo o editor, é que depois da eleição
de Hilda Borges para o segundo mandato, José Maurício
de Andrade, marido da prefeita e chefe de governo, fez uma reunião
com correligionários e disse que ia acabar com o "Correio".
"Se me declararam guerra, eu também declarei a eles",
afirmou Cruz.
O
"Jornal da Cidade", ainda circula, mas é de
periodicidade duvidosa. É um tablóide, de 12 páginas.
Seu editor é o professor de matemática Sigismundo
Silva. Possui anunciantes e é distribuído gratuitamente.
Tem
um perfil mais social, cobrindo eventos e festas em Arcos, e
nas cidades vizinhas de Japaraíba e Lagoa da Prata. A
política também é tratada, mais de forma
superficial.
O
editor disse que à época da administração
de Hilda Borges de Andrade, o Jornal da Cidade não dava
muita cobertura às realizações da prefeitura,
pois a prefeita por sua vez não "prestigiava"
a imprensa local. Por prestigiar, leia-se financiar. A prefeitura
não publicava nada nos jornais da cidade, visto que ela
tinha o seu jornal, o Cidade de Arcos.
É
importante no contexto deste estudo a análise dos discursos.
Orlandi
(2000, p. 58, 60) trabalha algo muito importante para o marco
teórico deste estudo:
"De
acordo com a análise do discurso, o sentido não
existe em si, mas é determinado pelas posições
ideológicas colocadas em jogo no processo sócio-histórico
em que as palavras são produzidas. A formação
discursiva é o lugar da constituição
do sentido e da identificação do sujeito.(...)
Um discurso jornalístico é constituído
de uma pluralidade de textos efetivos que, por sua vez são
marcados por formações discursivas diferentes.
Pela vocação totalizante do sujeito (autor)
estabelece-se uma relação de dominância
de uma formação discursiva sobre as outras,
na constituição do texto." (ORLANDI, 2000,
p. 58-60)
Orlandi (2001, p. 54) diz que o que interessa à análise
do discurso é que são as formas de assujeitamento
ideológicas que governam os mecanismos enunciativos.
A autora observa que:
"Na
perspectiva da análise do discurso não há
liberdade e as marcas que atestam a relação
entre o sujeito e a linguagem, no texto, não são
detectáveis mecânica e empiricamente. Os mecanismos
enunciativos não são unívocos nem auto-evidentes.
São construções discursivas com seus
efeitos de caráter ideológico." (ORLANDI,
1988, p. 54)
Segundo
Baccega (1998, p. 90), "o discurso é o lugar do
encontro entre o lingüístico e as condições
sócio-históricas constitutivas das significações,
e a análise do discurso se constrói nesse encontro".
Ela explica que:
"O
significado de uma palavra não está mais no
sistema da língua, entendida enquanto estrutura, mas
na sociedade que a criou, que reelaborou seu significado,
que a utilizou num determinado contexto, numa determinada
formação ideológica, formação
discursiva. No lugar dos referenciais do sistema da língua
- paralelismos, oposições, inversões,
proposições, caminhos abertos e fechados, etc
- entram as condições de produção
e o sujeito, nelas imerso." (BACCEGA, 1998, p. 90)
Para
entender os discursos explícitos e os não explícitos
nos jornais de Arcos, a análise do contexto político
é necessária.
A
análise do discurso facilita este processo de entendimento,
porque não somente tira do texto o seu sentido, mas também
apreende a sua historicidade, o que significa entender toda
relação de confronto de sentidos.
Nilson
Lage (2001, p.38) coloca que a primeira coisa que é informada
num jornal é sua ideologia. E isto não é
feito somente através dos editoriais, onde normalmente
é expresso o pensamento do jornal, mas também
através de relatos imperfeitos, de artigos opinativos,
de deficiência de espaço dado à questão
ou simplesmente pela não publicação de
certos fatos.
De
acordo com Koch (2000, p. 24) todo enunciado diz algo, mas diz
de certo modo, e o modo como é dito que representa o
sentido. E no jornalismo isto é altamente significativo,
pois o que está impresso tem por trás um sentido
que se quer que o leitor assimile.
Para
esta autora, quando interagimos através da linguagem,
temos um objetivo, um fim a ser atingido, relações
que desejamos estabelecer, efeitos que queremos causar ou comportamentos
que queremos provocar.
Pretendemos
atuar sobre o outro, obter dele determinadas reações.
"É por isso que se pode afirmar que o uso da linguagem
é essencialmente argumentativo".
Koch
(2000, p. 25) estabelece as seguintes diferenças no discurso:
"A
distinção entre dizer e mostrar permite penetrar
nas relações entre linguagem, homem e mundo:
é sob esse aspecto que se torna possível falar
de ideologia na linguagem. A enunciação faz-se
presente no enunciado através de uma série de
marcas. É por meio delas - marcas lingüísticas
que são - que se poderá chegar à macrossintaxe
do discurso..." (KOCH, 2000, p. 25)
A
análise da ideologia inseridas nos enunciados, é
importante para este estudo e até a falta destes enunciados
em determinados momentos.
Quando
se percebe a pouca cobertura dada à chegada da PUC em
Arcos por parte de alguns jornais analisados, percebe-se uma
mensagem subliminar: o fato não teve muita importância
ou ignorando o fato, se ignorava os responsáveis pelo
fato. É o não-discurso a que se refere Eni Orlandi.
Orlandi
(1992, p. 70) ressalta que:
"A
hipótese de que partimos é que o silêncio
é a própria condição da produção
de sentido. Assim, ele aparece como o espaço "diferencial"
da significação: "lugar" que permite
à linguagem significar. O silêncio não
é o vazio, o sem-sentido; ao contrário, ele
é o indício de uma totalidade significativa.
Isso nos leva à compreensão do "vazio"
da linguagem como um horizonte, e não como falta."
(ORLANDI, 1992, p. 70)
Pode-se perceber o "vazio" de espaço dado à
cobertura da implantação da PUC em Arcos por alguns
jornais, como uma posição política. Por
isso, para este estudo, os "silêncios" são
considerados, pois se entende que estes se configuram como discursos
persuasivos.
De
acordo com Baccega (1998, p. 21) "a persuasão, que
é da natureza do ato da fala, poderá ocorrer em
graus diferenciados: do nível mais próximo a referencialidade
- o chamado discurso científico - ao mais próximo
ao convencimento propriamente dito - o discurso político,
o discurso religioso". Para esta análise, interessa
o discurso mais próximo ao convencimento, neste caso,
o discurso político.
A
intencionalidade refere-se ao modo como os emissores (na análise
em questão, os jornais) usam textos para perseguir e
realizar suas intenções.
A
aceitabilidade constitui a contraparte da intencionalidade;
isto será determinado pelo leitor, que incorporará
ou não os enunciados contidos intencionalmente no texto.
As
ideologias passadas pela mídia muitas vezes se fixam
de forma significativa nas pessoas. Acontece a incorporação
destas ideologias pelo receptor. Baccega (1998, p. 116) mostra
como os discursos podem se incorporar aos modos de ser e de
pensar dos leitores. As ideologias, intencionalmente passadas,
se tornam idiossincrasias.
"A
comunicação só se estabelece quando é
incorporada pelo enunciatário. Consideramos apropriação
os modismos que os meios de comunicação, em
qualquer de seus gêneros, influenciam. São comportamentos
passageiros que, no mais das vezes, desaparecem sem deixar
vestígios. Já a incorporação se
constitui das permanências, das mudanças efetivas
de comportamento, que se traduzem no cotidiano dos indivíduos/sujeitos."
(BACCEGA, 1998, p. 116)
Uma
questão interessante na análise dos jornais que
cobriram a implantação da PUC em Arcos, foi o
uso da ironia por parte de alguns jornais.
Quando
a ironia é utilizada num discurso é que se quer
mostrar a falsidade de uma tese, utilizando em seu favor argumentos
absurdos atribuídos aos defensores desta tese.
De
acordo com Koch (2000, p. 154) normalmente as ironias têm
um alvo determinado; quando se trata de um alvo distante e vago,
elas não visam a um alvo determinado; quando, porém,
o eco é próximo e precisável, o alvo são
as pessoas às quais elas fazem eco. "Se o locutor
faz eco a si mesmo, tem-se a auto-ironia; se faz eco ao destinatário,
tem-se o sarcasmo", afirma Koch.
Nos
jornais analisados, percebe-se então, de acordo com a
definição acima, que o sarcasmo foi utilizado
em alguns artigos e em coluna fixa. O articulista em questão
era José Sabiá e a coluna referida, era a de Anísio
dos Reis, ambos do Correio do Centro Oeste. Estes discursos
irônicos do "Correio", eram rebatido com outros
também irônicos pelo jornal "Tribuna Arcoense".
Fairclough
(2001, p. 158) diz que os estudos tradicionais da ironia a descrevem
em termos de "dizer uma coisa e significar outra",
mas o autor acha que esta explicação é
de utilidade limitada. Na verdade o que interessa na ironia
é que o enunciado irônico "ecoar" o enunciado
de um outro.
Ë
interessante notar que a ironia depende que o significado de
um texto ecoado não é o significado aparente do
produtor do texto, e os intérpretes precisam ser capazes
de compreender isto.
No
caso da análise dos discursos dos jornais de Arcos, é
necessário promover um entendimento da história
política e social do município.
A relação do poder, da política com a imprensa,
sempre foi algo evidente.
Nos
grandes centros ou no interior, percebe-se a influência
destes dois fatores no jornalismo. Umberto Eco (1997, p. 58)
diz que:
"...os
jornais são instrumentos de poder, administrados por
partidos ou grupos econômicos que usam uma linguagem
voluntariamente crítica, pois sua verdadeira função
não é dar notícias aos cidadãos,
mas enviar mensagens cifradas a um outro grupo passando por
cima da cabeça dos leitores".
Baccega (1998, p. 81) diz que a semiótica trabalha prioritariamente
os mecanismos intradiscursivos dos quais resulta a constituição
de sentidos.
Na
verificação dos sentidos, várias questões
precisam ser levadas em conta, tais como as condições
sócio-históricas, e com a análise do discurso
pode se conseguir explicações interessantes.
A
história recente de Arcos foi marcada por divergências
político-partidárias entre duas famílias
influentes e poderosas, que se revezaram no poder durante muito
tempo, como é o caso dos Andrade e Ribeiro.
Hilda
Borges de Andrade, a prefeita que trouxe a PUC para Arcos e
seu marido, José Maurício de Andrade, são
inimigos (ou talvez seja melhor dizer adversários) do
ex-prefeito Plácido Ribeiro Vaz.
Tanto
Hilda Borges como Plácido, haviam governado a cidade
por duas vezes (Plácido, nas últimas eleições
de 3 de outubro de 2004, consegue novamente ser eleito prefeito
de Arcos, agora pela terceira vez). José Maurício
de Andrade, marido da prefeita, ex-deputado federal já
era "cacique" na área política há
muitos anos na cidade, como também o pai de Plácido
Ribeiro Vaz, o ex-deputado estadual e prefeito de Arcos por
quatro vezes, João Vaz Sobrinho. Estes foram aliados
em algumas ocasiões.
Em
1982 os partidos políticos podiam lançar mais
de um candidato à prefeitura, e o PMDB colocou três
nomes à apreciação dos eleitores: Francisco
Roque, Hilda Borges de Andrade e Plácido Ribeiro Vaz.
Plácido venceu as eleições municipais.
A partir daí, a animosidade se instalou entre as duas
famílias, originando duas facções políticas
diferentes.
E
os jornais locais sempre mostraram estas facções,
alguns criticando tudo ou elogiando tudo que fizessem Plácido
ou Hilda. O "Correio" sempre foi ligado a Vaz, chamando-o
de "campeão de obras". O "Tribuna"
e o "Cidade de Arcos" era ligado a Hilda Borges. O
"Jornal da Cidade" e o "Jornal de Arcos",
também eram contrários à ex-prefeita.
A
análise dos jornais de Arcos, à época da
implantação da PUC na cidade, leva a crer que
a ética não foi observada pela imprensa local.
A imparcialidade, premissa básica do bom jornalismo,
não foi contemplada.
O
que se percebe, é que a cobertura da instalação
da PUC em Arcos, foi feita observando-se os interesses pessoais,
financeiros e as ideologias político-partidárias.
Confundiu-se jornalismo com propaganda política.
Animou
os jornais, não a objetividade, veracidade dos fatos,
mas interesses diversos que estavam em jogo.
O
pragmatismo foi o que se observou na conduta dos jornalistas
e donos de jornais locais. Uma forma utilitarista de ver o jornalismo,
foi o que se mostrou na cobertura do evento em questão.
Também
o jornal institucional da prefeitura municipal, serviu a interesses
pessoais, de promoção de pessoas, mais que da
promoção do fato em si.
Tudo
isto, leva à confirmação das duas hipóteses
formuladas na introdução deste artigo:
*O
jornalismo regional é muito influenciado pela política
local.
*O
jornal institucional reflete somente o interesse pessoal do
governante.
O
que se percebe é que os interesses pessoais e de grupos
foram colocados à frente das legítimas propostas
do jornalismo sério, quais sejam a informação
correta, a consulta a várias fontes, a objetividade,
a postura ética, a imparcialidade. Todas estas questões
foram menosprezadas neste episódio em Arcos.
É
significativo que o modo com que alguns jornais já estabelecidos
no mercado acolheram a PUC em Arcos, transformou-se em "incorporação"
de comportamentos. A forma negativa como a universidade foi
recebida por alguns jornais, fixou-se na mente de uma parcela
dos arcoenses.
Ainda
hoje é visível que há uma rejeição
por parte da população para com a universidade.
Isso se depreende de artigos recentes publicados no jornal Correio
do Centro Oeste, onde se associa o aumento da violência
na cidade com a chegada da PUC ou o que cobra da universidade
uma postura mais "católica".
Apesar
da pouca receptividade dada pela imprensa à PUC, o ganho
com a vinda da universidade é inquestionável.
Ganha o comércio, ganha o setor imobiliário, ganha
o setor de serviços, mas principalmente ganham a educação
e a cultura do município.
Com
a implantação do curso de jornalismo na PUC Arcos,
espera-se que o nível do jornalismo local melhore, pois
a universidade é o lugar onde se constrói os saberes
e as competências.
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Hilda: Quero fazer grandes coisas para Arcos. Cidade de Arcos.
Arcos. 18 set 1997. p. 3.
Padre
Geraldo: Queremos ser uma universidade regional em Arcos. Cidade
de Arcos. Arcos. 18 set 1997. p. 3.
PUC
em Arcos: um sonho que já se tornou realidade. Cidade
de Arcos. Arcos. 18 set 1997. p. 4.
Um
marco extraordinário na história do município.
Cidade de Arcos. Arcos. 18 set 1997. p. 5.
Alunos
de escolas arcoenses falam do valor da faculdade. Cidade de
Arcos. Arcos. 18 set 1997. p. 6.
Ficou
mais fácil estudar. Cidade de Arcos. Arcos. 18 set 1997.
p. 7.
"Divulgando
a cidade". Cidade de Arcos. Arcos. 18 set 1997. p. 7.
Padre
Geraldo: Haverá prova de vestibular no próximo
ano. Cidade de Arcos. Arcos. 18 set 1997. p. 8.
Professores
da PUC elogiam escola profissionalizante e distrito industrial
de Arcos. Cidade de Arcos. Arcos. 30 jul 1997. p. 1.
Editorial.
Cidade de Arcos. Arcos. 30 jul 1997. p. 2.
Professores
da PUC visitam Arcos. Cidade de Arcos. Arcos. 30 jul 1997. p.
5.
Arcos
impressiona comissão da PUC. Cidade de Arcos. Arcos.
02 out 1997. p. 1.
Editorial.
Cidade de Arcos. Arcos. 02 out 1997. p. 2.
Comissão
da PUC visita o prédio onde funcionará a universidade.
Cidade de Arcos. Arcos. 02 out 1997. p. 4.
Um
marco na história do município. Cidade de Arcos.
Arcos. 02 out 1997. p. 4.
Assinatura
de convênio com a PUC repercute em toda região.
Cidade de Arcos. Arcos. 02 out 1997. p. 7.
Escola
Maricota Pinto festeja 7 de setembro e universidade em Arcos.
Cidade de Arcos. Arcos. 02 out 1997. p. 8.
Reitor
da PUC encaminha projeto de implantação para o
ministro da educação. Cidade de Arcos. Arcos.
28 nov 1997. p. 2.
Vestibular
em Arcos será em julho. Cidade de Arcos. Arcos. 20 dez
1997. p. 1.
Editorial.
Cidade de Arcos. Arcos. 20 dez 1997. p. 2.
Professores
da Puc visitam Arcos e elogiam instalações da
universidade no município. Cidade de Arcos. Arcos. 11
dez 1998. p. 1.
Professores
visitam a sede da PUC em Arcos. Cidade de Arcos. Arcos. 11 dez
1998. p. 5.
Comissão
do MEC visita obras da PUC e apresenta relatório para
Conselho Nacional de Educação. Cidade de Arcos.
Arcos. 21 dez 1998. p. 3.
Puc
em Arcos já é realidade. Cidade de Arcos. Arcos.
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Vestibular
da PUC/Arcos será realizado em junho. Cidade de Arcos.
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Vestibular
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Professor
Janer Faria: um lutador pela implantação da PUC
em Arcos. Cidade de Arcos. Arcos. 12 mar 1999. p. 4.
Jornal
da PUC Minas informa que campus de Arcos oferecerá 5
cursos de graduação até 2000. Cidade de
Arcos. Arcos. 11 jun 1999. p. 6.
Professor
da PUC Arcos fala do prazer de trabalhar aqui e dos projetos
para a cidade. Cidade de Arcos. Arcos. 28 ago 1999. p. 3.
Empenho
da prefeita Hilda Andrade em instalar a PUC/Minas em Arcos continua
repercutindo bem na região. Cidade de Arcos. Arcos. 02
out 1999. p. 2.
PUC
Minas promove a primeira Semana Cultural e inaugura auditório
do campus de Arcos. Cidade de Arcos. Arcos. 20 nov 1999. p.
7.
Lei
aprovada pela câmara autoriza executivo a doar prédio
e terreno para PUC/Arcos. Cidade de Arcos. Arcos. 27 nov 1999.
p. 1.
PUC/Minas
prevê criação de mais três cursos
para o início do ano 2000. Cidade de Arcos. Arcos. 27
nov 1999. p. 4-5.
Região
reconhece Arcos como cidade universitária. Cidade de
Arcos. Arcos. 18 mar 2000. p. 1.
O
futuro já chegou em Arcos. Cidade de Arcos. Arcos. 18
mar 2000. p. 3.
PUC/Arcos
anuncia criação de cursos de direito e publicidade
no período da manhã para agosto. Cidade de Arcos.
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A. Saúde para todos! Correio do Centro Oeste. Arcos.
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A. "Pato Fu". Correio do Centro Oeste. Arcos. 7 jun
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Prefeitura
investe milhares de reais na PUC. Correio do Centro Oeste. Arcos.
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Diretora
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Assustando. Tribuna Arcoense. Arcos. fev 2000. p. 3.
Assustando.
Tribuna Arcoense. Arcos. mar 2000. p. 3.
Desperdício
de dinheiro público: nunca mais! Tribuna Arcoense. Arcos.
mar 2000. p. 8.
Notas
[1]
DINES, Alberto. O papel do jornal. São Paulo,
Summus: 1986.
[2]
Disponível em: <www2.ucdb.br/~gmartins/artigos/jornalismo_regional.htm>.
*Clícia
Alves Ribeiro Roque é
aluna de graduação em jornalismo na PUC/Minas,
em Arcos/MG.
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