A
história do jornal Correio Centro-Oeste:
O registro da memória sob a ótica
da violência
Por Marilane Peixoto Nogueira*
Resumo
Este
artigo reflete sobre a participação do jornalismo
impresso na construção da história
da mídia regional.
|
Reprodução

|
O
jornal impresso apresenta, por meio de publicações,
a visão recortada da realidade presente, tornando-se
documento de valor histórico para a sociedade.
A
idéia central é mostrar a relação
existente entre memória e história no jornalismo
regional. O texto questiona as possibilidades de uma sociedade
se identificar ou não com os fatos mostrados no jornal
impresso da região onde vive. O importante é discutir
até que ponto a história construída pelo
impresso local é o reflexo verdadeiro de um povo. O questionamento
histórico se restringe, então, às publicações
sobre o tema violência feitas pelo jornal "Correio
Centro-Oeste", da cidade de Arcos, localizada no centro-oeste
mineiro. Sob a ótica da violência, discute-se a
construção da história da imprensa local
e os obstáculos enfrentados pelo "Correio Centro-Oeste"
em sua busca por valorizar o jornalismo interiorano desenvolvido
em Arcos.
Palavras-chaves
Jornalismo
Regional / História / Memória / Violência
O
desejo de manter viva a lembrança de fatos cotidianos
ou acontecimentos marcantes é algo comum ao homem, desde
os tempos primitivos. Ao longo dos anos, técnicas comunicativas
foram desenvolvidas com o intuito de contribuir para a perpetuação
do tempo.
Juntamente
com técnicas capazes de desenvolver a memória
- inscrições em pedra, ferramentas, papiros, pergaminhos,
entre outras - a linguagem atuou como instrumento de propagação
das representações, proporcionando ao homem o
papel de ator principal na construção da própria
história.
As
formas de rememorar fatos e de armazenar informações
sofreram mudanças com o surgimento da escrita. Diferente
do homem primitivo, que se sociabilizava e armazenava informações
por meio de repetições, mitos e representações,
o homem letrado foi capaz de reconstruir, de forma retrospectiva,
o tempo da história. A memória apresenta-se disponível,
catalogada e comparável: "o saber deixa de ser apenas
aquilo que me é útil no dia-a-dia, o que me nutre
e me constitui enquanto ser humano membro desta comunidade.
Torna-se um objeto suscetível de análise e exame"
(LÉVY, 1993).
A
escrita foi encarada pelo homem como maneira única de
se conservar lembranças, visto que "as palavras
e os pensamentos morrem, mas os escritos permanecem" (HALBWACHS,
1990, p. 80). Desse modo, tendo em vista a importância
da narrativa escrita na construção da história
de uma sociedade, não há como descartar o valor
do jornalismo impresso como documento histórico, desde
o surgimento da imprensa, no século XVIII.
O
jornalismo transforma a realidade apreensível em relato.
Apresenta-se como peça fundamental no registro de acontecimentos,
o que lhe confere função histórica na sociedade.
Para Tranquina (1999), o jornalismo é entendido como
uma prática social, que estabelece relações
com o mundo simbólico e com o mundo material dos indivíduos.
Essa constituição de relações simbólicas
e materiais acontece enquanto história e linguagem.
História
porque são relações que se constituem a
partir das exterioridades do jornalismo, e este se encontra
inserido dentro do processo de produção, transformação
e manutenção da sociedade tecnológica para
a qual a informação virou mercadoria sofisticada
e o jornalismo transformou-se em atividade industrial. Linguagem
porque são relações que se constituem também
a partir do modo de quem faz.
Portanto,
o século XVIII é marcado pela necessidade de as
pessoas registrarem a vida cotidiana, como forma de manter a
memória viva. Assim, a memória jornalística
e diplomática surge como "a entrada em cena da opinião
pública, nacional e internacional, que constrói
também a sua própria história" (Le
Goff, 1994, p. 461).
A
história construída pelas publicações
nos impressos é feita através de uma visão
recortada da realidade. Dentro da diversidade de fatos ocorridos
diariamente, o jornalista é obrigado a fazer um recorte
das informações que chegam à redação.
Apesar de existir o interesse da empresa jornalística
em publicar certas notícias, percebe-se que a escolha
das matérias do dia é feita de acordo com o grau
de importância para o público alvo.
Neste
caso, a região onde o jornal se localiza é levada
em conta no momento em que as notícias são selecionadas.
O leitor tem o interesse de se manter informado sobre os fatos
ocorridos na região ou cidade onde mora. Desse modo,
a questão da memória presente nos impressos está
diretamente relacionada com o meio social onde o indivíduo
se encontra.
Para
Halbwachs (1990), pertencer a um determinado grupo é
condição primordial para o registro da memória,
que é tratada pelo autor como um fenômeno de natureza
social. A coletividade vai influir na formação
da memória individual, que sofre mudanças conforme
o lugar que o indivíduo ocupa, por ser um ponto de vista
sobre a memória coletiva. Assim, cada sociedade recorta
o espaço a seu modo, de forma a constituir um quadro
fixo onde encerra e localiza suas lembranças.
O
registro de acontecimentos em jornais impressos está
diretamente relacionado com a necessidade do homem de se relacionar
com o espaço onde vive. Por meio das notícias
publicadas, o homem se reconhece como membro da sociedade referida.
Somente a partir dessa identificação que o leitor
será capaz de refletir e criticar sobre os problemas
sociais que o rodeiam e, posteriormente, poderá contribuir
para a construção de uma nova realidade. É
através dessa participação pública
que o homem se apresenta como ator principal da própria
história.
Num
estudo notável, Eliseu Verón analisou o modo como
os media "constroem hoje o acontecimento". Muitas
vezes, é preciso transcrever informações
dadas pela mídia, mas "o discurso da informação
para os novos media contém perigos cada vez maiores pela
constituição de memória que é uma
das bases da história" (LE GOFF, 1994, p. 142).
O "acontecimento" em história - da história
vivida e memorizada e da história científica fundamentada
em documentos - é produto de uma construção
que compromete o sentido histórico das sociedades e a
validade de uma verdade histórica - base do trabalho
histórico:
"Na
medida em que as nossas decisões e as nossas lutas
diárias são, no que é fundamental, determinadas
pelo discurso da informação, torna-se claro
que o que está em jogo é, nada menos, que o
futuro da nossa sociedade. (...) E as solicitações
dos media fizeram entrar a produção histórica
no movimento da sociedade de consumo" (LE GOFF, 1994,
P.143).
Esta
discussão nos leva a refletir: afinal, o homem de hoje
consegue se identificar com a realidade mostrada nos jornais
impressos da região onde vive? Esse questionamento nos
permite analisar, primeiramente, qual a relação
estabelecida entre memória e história na construção
do jornalismo regional.
A
relação direta entre Memória e História
Podemos
nos perguntar, num primeiro instante, se a memória seria
realmente um elemento imprescindível para a construção
da história do homem. Mas, logo chegaríamos a
uma conclusão óbvia - o homem, desde sua origem,
sente a necessidade de demarcar "territórios"
que o caracterizam e que são importantes para o seu próprio
reconhecimento como ser participante do meio onde se encontra.
A
capacidade de rememorar fatos ocorridos se restringe, principalmente,
ao registro da própria vida cotidiana. Porém,
antes de se chegar a esse registro factual, como se poderia
definir a memória? Para Le Goff (1994), a palavra memória
apresenta diferentes conceitos no campo científico global.
Segundo ele, em primeiro momento, a memória leva-nos
a associá-la a um conjunto de funções psíquicas,
que permitem ao homem atualizar informações passadas.
Mas este conceito se torna mais abrangente se remetido à
memória tal como ela surge nas ciências humanas.
Atenta-se, assim, para a relação de interdependência
existente entre os termos memória e história.
Falar
de história é algo complicado, principalmente
quando se procura achar um conceito que a defina. Algumas problemáticas
surgem quando se indaga qual o sentido do termo. A história
começou como um relato, a narração daquele
que pode dizer "Eu vi, senti. Este aspecto da história-relato,
da história-testemunho, jamais deixou de estar presente
no desenvolvimento da ciência histórica. Paradoxalmente,
hoje se assiste à crítica deste tipo de história
pela vontade de colocar a explicação no lugar
da narração, mas também, ao mesmo tempo,
presencia-se o renascimento da história-testemunho através
do "retorno do evento" ligado aos novos media, ao
surgimento de jornalistas entre os historiadores e ao desenvolvimento
da "história imediata". (LE GOFF, 1994, p.
9).
Devido
à sua natureza social, a história apresenta relação
direta com os termos tempo, espaço e passado. Para Le
Goff, o tempo histórico encontra hoje, num nível
muito sofisticado, o velho tempo da memória, que atravessa
a história e a alimenta. Diz ele:
"Penso
que a história é bem a ciência do passado,
com a condição de saber que este passado se
torna objeto da história por uma reconstrução
incessantemente reposta em causa. (...) A história
recolhe sistematicamente, classificando e agrupando os fatos
passados, em função das suas necessidades atuais.
É em função da vida que ela interroga
a morte. Organizar o passado em função do presente:
assim se poderia definir a função social da
história" (LE GOFF, 1994, p. 26).
A duração da memória coletiva depende e
limita-se à duração do grupo.
Desse
modo, todas as lembranças nascidas no interior da classe
se apóiam uma sobre a outra, e não em recordações
exteriores. Por isso, a memória individual mantém-se
intrínseca à coletividade. Pode-se dizer que,
as pessoas nunca estão sozinhas, pois há realidade
social ao redor delas.
Desse
modo, as lembranças permanecem coletivas, e elas nos
são lembradas pelos outros, mesmo que se trate de acontecimentos
nos quais só nós estivemos envolvidos, e com objetos
que só nós vimos" (HALBWACHS, 1994).
É
preciso, porém, que haja uma distinção
entre memória individual e coletiva na construção
da história. Apesar de ambos se inter-relacionarem, é
necessário que se estabeleçam suas diferenças
nesse processo construtivo. Para isso, Halbwachs estabelece
a distinção entre duas memórias - a autobiográfica
e a histórica. Segundo ele, a primeira se apoiaria na
segunda, pois toda história de nossa vida faz parte da
história em geral.
Para
ele, a memória de nossa vida nos apresentaria um quadro
bem mais contínuo e mais denso, enquanto que a histórica
não nos representaria o passado senão sob uma
forma resumida e esquemática. Mas, a memória coletiva
não se confunde com a histórica. Esta, sem dúvida,
é a compilação dos fatos que ocuparam o
maior espaço na memória dos homens.
Os
acontecimentos passados são escolhidos, aproximados e
classificados conforme as necessidades ou regras do grupo social.
A
história, quando deseja tratar dos detalhes dos fatos,
torna-se erudita e a erudição é condição
de apenas uma minoria. Para Halbwachs, se a história
se limita, ao contrário, a conservar a imagem do passado,
ela apenas retém da memória coletiva aquilo que
ainda interessa às sociedades, isto é, em resumo,
bem pouca coisa. A memória coletiva se distingue da história
pelo menos sob dois aspectos. É uma corrente de pensamento
contínuo, de uma continuidade que nada tem de artificial,
já que retém do passado somente, aquilo que ainda
está vivo ou capaz de viver na consciência do grupo
que a mantém. Por definição, ela não
ultrapassa os limites deste grupo.
Contudo,
a memória sofreu metamorfoses no decorrer da história
da humanidade. Mas é com o surgimento da imprensa que
ocorre uma revolução, embora lenta, na memória
do Ocidente.
Essa
transformação pode ser observada na passagem de
Leroi-Gourhan:
"Até
o aparecimento da imprensa... dificilmente se distingue entre
a transmissão oral e a transmissão escrita.
A massa do conhecido está mergulhada nas práticas
orais e nas técnicas; a área culminante do saber,
com um quadro imutável desde a Antigüidade, é
fixada no manuscrito para ser aprendida de cor... Com o impresso...
não só o leitor é colocado em presença
de uma memória coletiva enorme, cuja matéria
não é mais capaz de fixar integralmente, mas
é freqüentemente colocado em situação
de explorar textos novos. Assiste-se então à
exteriorização progressiva da memória
individual; é do exterior que se faz o trabalho de
orientação que está escrito no escrito"
(1964-65. pp. 69-70).
Enfim,
é nesse momento que se insere a importância do
jornalismo como documento histórico. Porém, este
estudo vai fazer um recorte da prática jornalística,
restringindo-se ao valor do jornalismo regional para a construção
da história midiática.
Jornalismo
Regional e sua ativa participação na história
da imprensa
A
vontade de estar próximo aos acontecimentos e de ter
acesso às informações referentes ao espaço
onde vivem é uma constante entre as pessoas. Não
importa, neste caso, a posição geográfica
em que elas se encontram em relação à cidade
ou região de origem. O importante é ser capaz
de participar de forma direta ou indireta do desenrolar dos
fatos cotidianos desse local. E foi com esse intuito que empresas
jornalísticas se instalaram nos interiores do país,
principalmente as de jornais impressos.
Mais
do que aproximar os leitores à realidade cotidiana, os
jornais de interior assumem a responsabilidade de propagar informações
para além-fronteiras, contribuindo também para
maior aproximação entre a população
e os órgãos governamentais. Porém, o jornalismo
regional luta intensamente para mostrar o seu valor social e
histórico, diante do poder monopolista exercido pelas
empresas jornalísticas dos grandes centros.
Muito
se discute a questão do jornalismo regional e a necessidade
de jornalistas e editores reconhecerem as multiplicidades culturais
existentes no Brasil. Mas, valorizar culturas alheias é
prática comum dentro das redações. Estas
culturas alheias, neste caso, não dizem respeito a costumes
trazidos de outros países. A imposição
de diferentes culturas ocorre entre cidades e regiões
brasileiras.
Esse
problema nos leva ao seguinte questionamento: se o jornalismo
regional é considerado uma atividade de importância
social e histórica o que o difere do jornalismo exercido
no eixo Rio-São Paulo? Para o jornalista Wilson Marini
[1] (1997), o que diferencia as duas atividades é
o prestígio. Uns são conhecidos nacionalmente
e o que publicam repercute até no exterior.
Outros
têm o espectro limitado à sua área de circulação.
Além disso, o fácil acesso aos grandes jornais
fora da sua área principal de circulação
é outro ponto que supervaloriza o jornalismo dos grandes
centros. Em relação aos jornais interioranos,
é difícil encontrá-los fora do seu eixo
de influência. Porém, a existência dessa
concentração da mídia não tira o
mérito dos jornais de interior como importantes prestadores
de serviço à população local.
A
atividade jornalística regional abre debate para diferentes
questões relacionadas à sua atuação.
Uma delas diz respeito à sua própria definição.
Não há como convencionar um conceito para o termo
jornalismo regional, frente à complexidade da atividade
e às diferentes visões que podem ser atribuídas
a ela. Hoje, o jornalismo regional não pode ser definido
somente como uma atividade comunicacional direcionada a um público
específico de uma determinada localidade.
Jornais
de repercussão nacional e mundial podem ser enquadrados
no perfil regional. O fato de ser encontrado em diversas localidades
fora de sua área específica não o caracteriza
como nacional, pois esse fato se deve exclusivamente à
sua maior circulação pelo país. Desse modo,
jornais como Globo, Folha, Estado e Zero Hora apresentam-se
como meros veículos regionais. Para o jornalista Wilson
Marini (2003), [1] o jornalismo é necessariamente
regional.
"No
sentido informativo e de circulação, é
impensável nos paradigmas atuais a existência
de um jornal rigorosamente nacional, quanto mais, utopicamente,
continental ou mundial. O fator diferencial entre todos os
jornais é o tamanho do mercado em que atuam, associado
ao investimento da empresa jornalística" (MARINI,
2003).
Cria-se, a partir dessa discussão, uma dúvida
sobre o que pode ser considerado regional ou nacional na mídia.
Porém, não há como chegar a uma resposta
definitiva para essa questão.
O
importante é que os veículos de comunicação,
em especial os impressos, saibam aproveitar o espaço
onde se encontram, oferecendo à população
um produto jornalístico ético e de qualidade,
que atue como um "espelho" refletor da realidade com
a qual o leitor se identifica.
O
jornalismo regional vive um momento de expansão e aperfeiçoamento
das técnicas em diversas áreas do Brasil. Algumas
já mostram um progresso mais expressivo, outras ainda
caminham em busca deste crescimento. Valorizar a produção
regional é visto como uma maneira de propagar a própria
cultura nacional, possibilitando uma democracia viva e participativa.
Porém, sabe-se que estas transformações
significativas ocorrem lentamente.
Ainda
é comum aos impressos do interior espelharem-se nos grandes
jornais. Estes são tidos como referência de qualidade
e de exemplo a ser seguido. Esse desejo de "tentar igualar-se
à cara dos bem-sucedidos foi identificada por Alberto
Dines como um fenômeno de 'mimetismo'" (Marini, 2003).
Entretanto,
os jornais de interior, cada vez mais, sentem a necessidade
de mostrar seu diferencial em coberturas jornalísticas.
O excessivo fluxo informacional existente na mídia faz
com que os grandes jornais publiquem exclusivamente notícias
de repercussão nacional. O interior ganha espaço
nestes jornais somente quando são "palco" de
catástrofes e fatos inusitados. Então, é
neste ponto que o impresso regional se distingue na atividade
jornalística.
A
ele é dada a possibilidade de publicar notícias
diferenciadas das presentes em outros veículos. E é
esse diferencial que caracteriza esse jornalismo interiorano.
Como os grandes jornais não voltam o olhar para os acontecimentos
cotidianos do interior, resta então aos veículos
locais publicá-los. Desse modo, não é necessário
que se faça jornalismo regional com base nos jornais
de capital. Ao contrário do que se pensa, é no
interior que surgem, muitas vezes, grandes pautas jornalísticas
que, posteriormente, ganham repercussão nacional. O jornalismo
regional tem vida própria e é ela que possibilita
a construção da identidade e da história
de um povo.
Mesmo
dando prioridade a assuntos locais, o jornalismo regional também
precisa ter uma visão global dos acontecimentos. Destinar-se
a um público de uma área específica não
impossibilita esses jornais de aprofundar os assuntos pautados.
"Notícia
local, para esses jornais, deveria ser não apenas aquela
que tem origem nos limites do município onde é
produzido, mas também aquela que chega e desperta interesse
no público, não importando onde e quando tenha
sido gerada. E se não chega, deveria chegar, pois esse
é justamente o papel dos jornais: dar acesso ao que
está oculto e ao que é relevante tornar conhecido"
(MARINI, 2003).
A
escolha do que publicar nos impressos regionais sofre interferências
políticas por parte dos donos. Esse empecilho compromete
a construção da história local, pois há
um recorte significativo da realidade. Também a instabilidade
dos veículos de comunicação no interior,
seja na periodicidade ou no tempo de exercício, dificulta
o trabalho de resgate da memória da sociedade. Almeida
(1983) retrata esse problema ao afirmar que:
"(...)
a imprensa interiorana se apresenta com uma história
dinâmica, um abre-fecha constante de jornais. Sempre,
porém, prestando às comunidades um serviço
inestimável, de tal modo que não se pode menosprezá-la,
ainda quando ela não dá sinais de ter evoluído
técnica e profissionalmente" (ALMEIDA, 1983, p.
15).
Portanto, o recorte dos fatos pelos veículos impressos
regionais provoca a construção de uma realidade
falseada. As pessoas que vivem naquela área de circulação
passam, então, a não se identificar com aquilo
que é publicado pelos jornais. A própria mídia
passa a se tornar cúmplice do silêncio. Em troca,
há interesses políticos, econômicos e culturais
em jogo.
Assim,
o direito à informação é violado
pela própria imprensa. Neste caso, essa violação
pode ser encarada como uma violência contra a sociedade.
Partindo
desse pressuposto, este estudo se dirige ao enfoque da história
da imprensa regional limitando-se à cidade de Arcos,
localizada no centro-oeste mineiro. Tendo como base a importância
da memória jornalística na construção
de história local, este artigo apresenta uma análise
desse assunto, a partir das publicações relacionadas
à violência no jornal "Correio Centro-Oeste".
Jornal
Correio Centro-Oeste e os registros sobre violência
O
Jornal "Correio Centro-Oeste" circula em Arcos e cidades
vizinhas do centro-oeste mineiro há 15 anos. Fundado
em julho de 1989, o jornal surgiu do sonho de seus idealizadores
de criar um veículo semanal. Inicialmente, ele circulou
apenas como informativo comercial, trazendo anúncios
e classificados. Após algum tempo, começou a publicar
matérias de cunho informativo.
O
"Correio" se destaca na história da imprensa
local por ser o primeiro órgão a alcançar
500 edições. Com o objetivo de aprimorar a prática
jornalística, o jornal sofreu algumas mudanças
editoriais e estéticas no decorrer dos anos. Desde sua
criação, o "Correio" teve periodicidade
semanal. Apresentava 40 páginas, que incluíam
o caderno Geral, destinado a notícias não factuais.
As edições eram publicadas todos os domingos.
Mas, a partir do primeiro semestre de 2004, o jornal passou
a ser bissemanal. O número de páginas pode variar
de 18 a 24 páginas e as edições saem todas
as quintas-feiras e aos domingos. Atualmente, o "Correio"
traz as editorias de política, esporte, cidade, saúde,
economia, polícia, informática, opinião
e entretenimento, além do suplemento infantil.
Apesar
de ser o primeiro jornal com uma tiragem mais expressiva, o
"Correio" faz parte da história de uma cidade
que tem 89 anos de jornalismo impresso. A cidade de Arcos, localizada
a 206 Km de Belo Horizonte, teve como primeiro veículo
de comunicação o jornal o "Implicante",
criado em 1915 pelo professor Francisco Fernandes. A partir
de então, diversos jornais surgiram e desapareceram ao
longo dos anos.
Porém,
independentemente do tempo de circulação e da
linha editorial, estes veículos contribuíram de
forma significativa para o registro da memória de Arcos
e região.
O
trabalho de importância social e histórica realizado
pelo "Correio Centro-Oeste" não impede que
façamos questionamentos sobre o conteúdo dos registros
publicados. Neste caso específico, o estudo de restringe
às matérias sobre violência publicadas no
período de 4 de novembro a 1º de dezembro de 2004.
O
tema violência se torna pertinente ao estudo por fazer
parte da vida cotidiana das pessoas, atualmente. A violência
deixa de estar presente somente nos grandes centros e passa
a se tornar comum também nas cidades interioranas. Esse
fato se deve a várias questões políticas,
sociais e econômicas de nosso país. Mas, o termo
violência não pode relacionado somente a ações
ligadas à força física.
Assim,
é possível afirmar que a compreensão da
violência é complexa, porque sendo um produto de
sociedades ela muda de fisionomia e de escala de acordo com
as mudanças dos aspectos da vida social. Nesses termos,
coloca-se como impossível conceber e aprender a violência
independentemente de critérios e pontos de vista (DIAS,
1996, p. 99).
Porém,
estes critérios não devem se restringir à
visão subjetiva de um ou dois indivíduos, principalmente
em se tratando de uma matéria jornalística. Por
ser um problema social, as reflexões sobre violência
devem abranger a diferentes pontos de vistas.
Definir
o termo violência, portanto, passa a ser uma tarefa difícil.
Segundo Dias (1996), o direito liga a palavra violência
à idéia de uma força, de uma potência
cujo exercício contra uma coisa ou contra alguém
torna o caráter violento. Na tentativa de precisar um
dado caracterizador da violência, também é
proposto considerar o termo como uma forma de privação.
Com efeito, toda vez que o indivíduo sentir-se despojado,
destituído, ou seja, privado de algo a que tem direito,
um ato de violência estará sendo consumado (DIAS,
1996, p. 101)
A
apreciação da violência deve acontecer nos
limites do seu contexto social. Por isso, ela pode ser observada
sob a ótica do poder. Nesse ponto, o termo violência
nunca é avaliado de forma neutra, porque se prende a
valores políticos, econômicos, sociais e culturais
aos quais as pessoas se distinguem e se opõem.
A
partir da análise feita nas edições do
jornal "Correio Centro-Oeste", pode-se observar a
presença de matérias sobre o tema violência
em seis edições das sete analisadas, durante o
período determinado. Todas as matérias estavam
relacionadas à violência social, como assaltos,
homicídios e roubos. Porém, o estudo preocupou-se
em analisar a forma como se faz o registro desses fatos no veículo
local. Isso permite uma visão mais ampla sobre a forma
como a história da cidade está sendo construída
pela imprensa escrita.
Num
primeiro instante, podemos nos perguntar o porquê da escolha
dessas matérias pelo jornal. O fato de Arcos ser uma
cidade de aproximadamente 35 mil habitantes nos permite deduzir
que diferentes fatos relacionados à violência ocorrem
durante a semana. Então, que critérios são
usados para se definir o grau de importância dos acontecimentos?
Nas edições analisadas contam-se seis publicações
envolvendo o tema escolhido. Há, portanto, um recorte
da realidade social presenciada pelos moradores da cidade. Esse
fato coloca em dúvida o reconhecimento dessas pessoas
como membros desta sociedade.
O
papel da imprensa em informar o leitor sobre a realidade que
o cerca, muitas vezes, é colocado em discussão.
Para Marini (1997), a imprensa regional prende-se às
suas limitações técnicas e de produção
na cobertura das matérias.
"(...)
a imprensa regional, mais do que os jornalões, é
limitada por seus parcos recursos de produção,
se atrela muito mais facilmente aos poderosos de plantão
e o resultado é que, na maioria dos casos, temos boletins
e não, como seria fundamental, jornais de militância
investigativa. (Há as exceções, é
claro, há as exceções!)" (Marini,
1997).
Essa limitação técnica pode ser notada
nas edições analisadas, pois não há
um aprofundamento do tema. Os fatos são contados a partir
de uma visão também limitada.
Embora
o jornal consiga informar os acontecimentos à população,
os registros não vão além dos boletins
de ocorrência feitos pela Polícia Militar da cidade.
Nota-se, então, a negligência do veículo
em exercer a pratica jornalística investigativa.
A
concentração de relatos limitados também
pode ser colocada como um fator prejudicial na construção
da memória local. Assim, esse recorte restrito da realidade
impede que o leitor enxergue o seu mundo conforme ele se apresenta
realmente. Esse poder da mídia em conduzir o leitor a
uma interpretação desejada é tratada por
Dias (1996) como uma conseqüência do discurso da
notícia.
O
fato real tem seu valor em função de uma atenção
e compreensão especial e de uma representação
ideologicamente determinada, primeiro nas mentes dos agentes
de notícias ou das fontes de notícias e, então,
realmente formulado em possíveis histórias, depois
de uma interpretação similarmente ideológica
e da representação pelo jornalista (DIAS, 1996,
p. 105).
Partindo do estudo de Dias (1996) sobre o discurso da violência,
pode-se afirmar que verdadeiras retóricas agem na produção
e na recepção de notícias. Esse discurso
se insere dentro de um contexto histórico urbano e se
destina a um leitor acostumado a esses "modelos noticiosos"
e à forma como lhe são apresentados. Também
o leitor vai construir na memória o "modelo"
de situação que vai lhe conduzir a uma compreensão
dos fatos lidos. Por isso, pode-se dizer que os processos de
construção e leitura das notícias não
podem ser considerados "inocentes".
Na
construção do processo histórico de uma
cidade ou região também podemos fazer uma "leitura"
da ausência de registros. A edição nº
795, dos dias 28 de novembro a 1º de dezembro, não
traz nenhuma matéria policial. Neste caso, o leitor pode
pensar que não aconteceu nenhum crime na cidade, durante
este período. Porém, sabe-se que isso é
praticamente impossível, principalmente se levado em
conta o número de habitantes do local. Assim, o silêncio
também é um elemento passível de ser encontrado
no processo de construção histórica de
uma cidade ou região. A realidade passa a fazer parte
do não-lugar, sendo preciso aguçar a visão
crítica para encontrá-la ou percebê-la.
Portanto,
a participação da imprensa na construção
da história do jornalismo regional encontra obstáculos
políticos, econômicos, sociais e culturais no processo
de documentação dos fatos. Essa conclusão
também é direcionada ao papel do jornal "Correio
Centro-Oeste" como participante ativo na imprensa de Arcos.
A mídia regional se encontra num processo de transformação
e aperfeiçoamento da atividade jornalística.
Atualmente,
já existe uma luta por parte das empresas para se destacarem
no exercício do jornalismo regional, mostrando o seu
diferencial na cobertura de pautas que fogem da mesmice publicada
pelos grandes jornais. Com o surgimento de novas tecnologias,
principalmente a Internet, o jornalismo regional ganha "nova
cara", pois tem a capacidade de ir além de acontecimentos
locais, mas atentando-se sempre à importância das
notícias para o público alvo. Assim hoje, o local
tem possibilidade de se projetar em uma perspectiva global.
Em
meio a tantas transformações, o registro da memória
histórica também sofre mudanças.
No
caso específico da cidade de Arcos, o jornal "Correio
Centro-Oeste" passa a ser agente construtor da memória
local ao publicar fatos com periodicidade constante. Apesar
de falhas encontradas no registro dos acontecimentos, em especial
os relacionados com o tema violência, não há
como estimar o valor do serviço prestado pelo jornal
"Correio Centro-Oeste" à população
de Arcos e região.
O
que se pode afirmar é que o processo de registro histórico
realizado pelo jornalismo regional se mantém constante,
procurando a cada dia aperfeiçoar suas técnicas.
Com relação às pessoas, nota-se, muitas
vezes, a falta de participação ativa na construção
de sua própria história. É preciso que
se crie a consciência de que valorizar a cultura e a história
regional é uma ação de importância
nacional, pois fazemos parte de um país de múltiplas
identidades. E é nesse ponto que o jornalismo regional
vai interferir de forma significativa, contribuindo para a perpetuação
da história de sociedades tão distintas.
Referência
Bibliográfica
ALMEIDA,
Gastão Tomás de. Imprensa do interior: um estudo
preliminar. SP: Imprensa Oficial do Estado. 1983, 59 p.
DIAS,
Ana Rosa F. O discurso da violência: as marcas da oralidade
no jornalismo popular. São Paulo: EDUC/Cortez, 1996,
177 p.
HALBWACHS,
Maurice. A memória coletiva. 2ª ed, São Paulo:
Vértice, 1990, 189 p.
LE
GOFF. Jacques. História e memória. 3ª ed.
Campinas: Editora da UNICAMP, 1994, 553 p.
PIERRE,
Lévy. As tecnologias da inteligência: o futuro
do pensamento na era da informática. 1ª ed., Rio
de Janeiro: Editora 34, 1993, 208 p.
TRANQUINA,
Nelson. Jornalismo: questões, teorias e estória.
Lisboa: Vega, 1993.
Endereços
eletrônicos
BARRETO,
Gustavo. Jornalismo Regional. Disponível em (http://www.consciencia.net/2004/mes/03/barreto-regional.html).
Acesso em 4 out 2004.
CORREIA,
João Carlos. Jornalismo regional e cidadania. Disponível
em (http://bocc.ubi.pt).
Acesso em 04 out 2004.
MARINI,
Wilson. Agilidade no interior. 1997. Disponível em (http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos/mat2009e.htm).
Acesso em 03 set 2004.
_______________.
Somos todos regionais. 2003. Disponível em (http://www.anj.org.br/webc/webs/anj/jornal_anj/detalhes.cfm?id_web=53&id_noticia=323).
Acesso em 15 dez 2004.
Notas
[1]
Wilson Marini, jornalista, ex-editor-chefe do Correio Popular
e do Diário do Povo, de Campinas, é consultor
para redações de jornais e editor do Fax Regional,
boletim com notícias dos jornais de prestígio
regional.
*Marilane
Peixoto Nogueira é aluna
de graduação em jornalismo da PUC/Minas, em Arcos/MG.
Voltar
|