Documentos
As
Folhas de
Nabantino Ramos
(1945-1962)
Por
Andréa de Araujo Nogueira*
As
Folhas, e não a Folha. Adotamos a denominação
popular da empresa jornalística, pois os jornais
Folha da Noite, Folha da Tarde e Folha da Manhã
englobam desde sua formação até 1960,
aspectos editoriais e gráficos diferenciados, seguindo
uma mesma orientação política.
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Reprodução

Jornalistas das "Folhas", no antigo prédio
na rua do Carmo, São Paulo, anos 40
|
Para
cada uma das três edições da empresa Folha
da Manhã S.A., Nabantino Ramos, advogado do interior
paulista, empreendeu uma linha própria, consolidando
a base empresarial do grupo, segundo os autores Mota e Capelato
(1981) e Taschner (1992).
Não
é nossa intenção neste trabalho discorrer
sobre a trajetória da publicação, tão
bem dimensionada nas análises dos referidos pesquisadores,
mas pontuar questões que envolveram a publicação,
com um recorte sob o período da direção
de Nabantino Ramos. O advogado implantou na estrutura jornalística,
elementos considerados de interesse popular, num período
de redemocratização política, marcado pelas
atitudes populistas de personagens como Adhemar de Barros, Jânio
Quadros e Getúlio Vargas.
1.
Prólogo sobre As Folhas
Em
São Paulo, a recém-criada empresa Folha da Manhã
Ltda. inicia a publicação em fevereiro de 1921
do jornal Folha da Noite, nas oficinas do O Estado de S. Paulo.
O jornal concentrava-se em temas populares e urbanos, sob a
direção de Olival Costa (1921 a 1931), movida
também pelo interesse na modernização da
linguagem cotidiana.
Em
1925 Olival Costa cria um novo jornal, a Folha da Manhã,
que retratava os grandes acontecimentos com ênfase no
comentário pessoal -, como o jornal local, urbano onde
imperava campanhas contra a carestia e o analfabetismo. Os dois
jornais (1) apresentavam estruturas semelhantes, mas
a Folha da Noite, desse período, possuía a clara
intenção de atingir o público de imigrantes,
em sua maioria formada por grupos de operários, um contingente
que começava a se destacar no cenário urbano,
contando com o noticiário de articulação
política dos jornais operários.
Após
o empastelamento em 1930, resultado do apoio de Olival ao governo
e a candidatura de Júlio Prestes, prevalece uma atitude
legalista atrelada aos interesses da oligarquia paulista. Olival
Costa, sem condições físicas de sustentar
o jornal, vende suas ações para Octaviano Alves
de Lima, representante da economia agrária, que permanece
seu proprietário durante os quinze anos do primeiro governo
de Getúlio Vargas.
O
movimento contrário ao Estado Novo se acirra em 1945.
A primeira manifestação coletiva tem no 1°Congresso
de Escritores aberto no Teatro Municipal em 22 de janeiro de
1945, um núcleo de contestação, que segundo
Mario de Andrade, "resolverá os problemas instantes
da inteligência brasileira e esta saberá defender
sua dignidade." (2)
O
Congresso seria encerrado com a convicção de seus
integrantes pela necessidade urgente de ajustar-se aos princípios
então enunciados. O cerco da censura seria rompido com
as declarações para a imprensa de José
Américo de Almeida em 22 de fevereiro. Nelas o escritor
exigia eleições livres, além de promover
a candidatura do Brigadeiro Eduardo Gomes.
A
preservação de uma atitude eqüidistante das
Folhas ainda sob a direção de Octaviano Alves
de Lima sobre o governo de Getúlio, se alterou com a
promulgação da Lei Constitucional n°9, em
28 de fevereiro de 1945, que definiu a data das eleições
para presidente da República e governadores dos Estados,
assim como para o Parlamento e as Assembléias Legislativas
por sufrágio direto, fixada ao prazo de 90 dias.
A
aparente concessão de Vargas diante da ampliação
da oposição ao regime instaurado, revelava a nítida
intenção de sua permanência e dos interventores
no poder, até a posse dos novos governadores. A Folha
da Noite de Octaviano em 1° de março de 1945, anunciava
a manchete: "Lutaremos contra o Catete", numa série
de protestos contra o Ato Adicional, que, segundo o editorial
do dia, não preservava o sistema federativo.
A
passagem do regime autoritário do Estado Novo para um
regime democrático associou a dinamização
da economia que deixa de ter características agroexportadora,
em parte devido a crise de 29 e o conseqüente favorecimento
à industrialização, por meio de uma ação
interventora e reguladora do Estado. No período de Octaviano
Alves de Lima, acentuam-se as diferenças nas propostas
e na apresentação gráfica da Folha da Noite
e da Folha da Manhã, com as seções voltadas
para a programação do rádio e cinema, especialmente
na Folha da Noite.
Aparecem
as primeiras tira de comics internacionais na década
de 40 e as manchetes ganham espaço com letras garrafais.
A notícia começa a preocupar-se com seu ritmo,
que se relaciona ao da vivência urbana:
O
jornalismo de hoje não comporta mais a tendência
digressiva dos velhos doutrinadores. Tudo rápido, direto,
por vezes brutal. E no entanto pode-se ser prolixo escrevendo
pouco e conciso escrevendo muito. Ora a melhor forma de gravar
alguma coisa no espírito da massa ledora, é
a brevidade incisiva daquilo que se escreve. (3)
No
período final de oposição ao Estado Novo,
Octaviano Alves de Lima decide vender o jornal retirando-se
definitivamente da "laboriosa" vida de jornalista,
e passar a comandar seu empreendimento imobiliário Chapadão,
em Campinas:
que
fazer agora, repitamos, senão aguardar estoicamente
os acontecimentos, em toda a brutalidade que eles sabem ter
onde os homens são cegos e as multidões indiferentes.
As multidões podem sofrer por largos anos as agruras
da opressão em todos os aspectos. Mas elas são
como os grandes e indomáveis fenômenos da natureza.
Da calma mais profunda podem passar às agitações
mais inconcebíveis, realizando num dia os sonhos de
um milênio. (4)
Assume
a direção do jornal, um "aglomerado político-industrial",
sendo Alcides Ribeiro Meirelles seu diretor-presidente. Conhecido
médico e lavrador em Santa Rita do Passa Quatro, Alcides
ocupou a presidência da Associação Agro-Pecuária
do Vale do Mogi-Guaçu, entidade que congrega os lavradores
e criadores do Estado. Seria o representante do interventor
Fernando Costa, diretamente ligado a Getúlio Vargas.
Clóvis
Queiroga representava Francisco Matarazzo, que, embora naturalizado
brasileiro, não poderia legalmente dirigir o jornal.
O Conde resolveu investir nas Folhas para enfrentar as chantagens
de Chateaubriand e seus Diários, adquirindo o jornal
de uma forma inesperada, sob pressão de Vargas. Coordenando
efetivamente o grupo estava José Nabantino Ramos, advogado
atuante em Bauru, ligado a Costa Neto, ministro da Justiça
do governo de Dutra. Com o correr do tempo, os jornalistas,
Meirelles, Queiroga e Nabantino acabam se desvencilhando do
papel secundário, definindo suas orientações
políticas e com isso, dinamizando a atuação
jornalística.
O valor da empresa passa de 17 mil cruzeiros, pagos pelo antigo
proprietário, Octaviano Alves de Lima a Olival Costa,
para 15 milhões e 2.500 em máquinas adquiridas
por Nabantino. O período foi de grande crescimento de
capital da empresa. De Limitada transforma-se em Sociedade Anônima
em 1951, com a clara intenção de incorporar patrimônio.
Mas
a política de Nabantino, alicerçando o espaço
da empresa jornalística e defendendo o Estado liberal
calcado nos valores do mundo burguês, teria ainda que
se abalar com uma separação na equipe.
2.
Jornal de S. Paulo (1945 - 1948)
O
jornalista trotskista Hermínio Sacchetta, (5)
secretário-geral das Folhas não concordou com
a comercialização de toda a estrutura das Folhas,
de "porteira fechada", isto é, incluindo, além
do maquinário, os empregados da empresa como jornalistas
e fotógrafos, apreensivo diante das relações
entre Nabantino Ramos, o novo diretor do jornal, e o governo
de Getúlio Vargas:
Certo
dia o Octaviano Alves de Lima apareceu na redação
para me comunicar um fato importante: havia vendido o jornal.
Vendera para um grupo liderado por Costa Neto. O dr. Nabantino
Ramos, iria assumir a direção da empresa. Respondi
ao Octaviano que as Folhas, também naquele momento,
acabava de perder seu secretário-geral. E eu repetiria
esse gesto hoje, se o jornal em que trabalhasse fosse vendido,
na minha opinião, para um governo ditatorial. O fato
é que eu saí e comigo saíram mais de
50 companheiros. (6)
A
reação do grupo oposicionista foi imediata, ao
publicar nos jornais um manifesto motivado pela demissão
de seu diretor, o escritor Guilherme de Almeida, em 7 de março
de 1945. Os jornalistas consideravam a Folha da Manhã
e a Folha da Noite títulos de honra, defendidos sem transigência
durante anos a democracia, apesar das dificuldades impostas
pelo Estado Novo, "nós fizemos das Folhas dois jornais
que São Paulo inteiro se orgulhava." (7)
A venda significava aos jornalistas, o assassinato das Folhas.
O
protesto tornava pública a revolta contra os procedimentos
de transferência do jornal. Em resposta, a nova direção
das Folhas proclama a manutenção dos jornais seguindo
o programa estabelecido na entrada dos novos diretores, preservando
uma linha voltada aos interesses dos pecuaristas e grandes agricultores.
Ao
desligarem das Folhas, os jornalistas dissidentes iniciaram
de imediato a publicação de um novo periódico:
o Jornal de S. Paulo, sob a direção de Guilherme
de Almeida. Segundo o prontuário de Sacchetta, "o
referido jornal estava congregando em seu corpo redatorial,
todos os jornalistas comunistas que haviam sido dispensados
das Folhas, tais como Abguar Bastos, José Stachini e
outros". (8)
O
Jornal de S. Paulo, de abril de 1946 a fevereiro de 1948 sob
a direção de Morel Marcondes e Francisco Souza
Netto, estabeleceu uma oposição ao governo de
Dutra. Contava com escritores como Orígenes Lessa, Afonso
Schmidt, Rubens do Amaral e o então jovem sociólogo
Florestan Fernandes para a coluna Homem e Sociedade Era a primeira
vez que um jornal no Brasil organizava um plano sistemático
de colaboração, oferecendo um lugar definido às
ciências sociais.
Em
fevereiro de 1948, pressionados pelo alto preço da importação
do papel, fruto do controle cambial empreendido pela política
econômica de Gaspar Dutra, o Jornal de S. Paulo fecha
suas portas. Muitos de seus jornalistas voltam para as Folhas,
como foi o caso de Morel Marcondes, que iria chefiar a redação
da Folha da Noite.
3. A redemocratização
nas Folhas
A
pressão contra o Estado Novo aumentava, levando Getúlio
Vargas estrategicamente a renunciar e retirar-se para São
Borja. De sua estância articulou a criação
do Partido Social Democrático - PSD e o Partido Trabalhista
Brasileiro - PTB em 1945.
Dutra
foi o primeiro presidente após o fim do Estado Novo em
outubro de 1945. Seu governo, situado dentro de um quadro internacional
do pós-guerra, sempre foi considerado pela historiografia
como um interregno permeado de equívocos na administração
pública bem como na gestão da vida política
e econômica, em relação aos dois momentos
do governo de Vargas, conforme Saretta (2000). A marca do liberalismo
econômico presente na Constituição de 1946,
que favoreceu empreendimentos como das Folhas, rapidamente esgotaram
as reservas brasileiras de divisas, em razão dos repetidos
déficits orçamentários.
A
direção do advogado José Nabantino Ramos
nas Folhas, já afinada com a nova estrutura e com as
demandas comerciais, redimensionou aspectos do jornal, tanto
no aspecto político, quanto gráfico. Importou
novos maquinários, como a poderosa rotativa Goss Headliner,
montada para ser impressa no Vale do Anhangabaú, à
frente de um muro que delimitava os fundos do Colégio
São Bento em 1946. Só em 1953 seriam centralizadas
a redação, administração, publicidade
e composição na atual R. Barão de Limeira.
O tempo entra como importante aliado, já que as rotativas
conseguem imprimir 100 jornais por segundo, permitindo fechar
cada edição com a velocidade de uma hora e meia:
Desse
modo, seus jornais serão os únicos na América
Latina aparelhados para apresentar notícias de última
hora, recebidas do mundo inteiro durante 90' que precedem
cada edição. Este o objetivo - o de melhor informar
os leitores. (9)
A
alteração do projeto gráfico do jornal
seguia a tendência de transformação
da linguagem da imprensa, após o término
da Segunda Guerra, do modelo europeu de jornalismo para
o norte-americano: emprego de fotos, ilustrações
e char-ges, manchetes e matérias "cortadas
pelo pé", com um espaço predeter-minado,
em formato standart. (10)
A
relação organizacional proposta por Nabantino
também se formou na rigidez de critérios
e na defesa à isenção, ao apresentar
o "Programa de Ação das Folhas,"
(11) que pautava a sua atuação
em quatro tópicos: informação, opinião,
colaboração e fontes de receita.
Nabantino
Ramos organizou, com o apoio dos jornalistas as "Ordens
de Serviço", decorrência das reuniões
diárias com os jornalistas.
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Reprodução

Fig. 1. Folha da Noite.
SP, 6 out. 1948, p. 10.
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Estas
se transformaram nas "Normas de Trabalho da Divisão
de Redação, para a elaboração da
Folha da Manhã, da Folha da Tarde e da Folha da Noite"
organizadas em 1959, que permaneceram durante muito tempo como
manual na redação.
O
terceiro período de existência do jornal Folhas
traduz o clima da época, ao voltar-se para a apropriação
de um conjunto de idéias pertencentes ao universo da
cultura liberal burguesa e para a diversificação
máxima de seu conteúdo. A esta tendência
relacionamos a teoria de Martín-Barbero (2003) ao apontar
o movimento da imprensa, embora massificada, em refletir as
diferenças culturais e políticas, e isto não
somente graças à necessidade de "distinção"
(dos outros meios, como a TV e o rádio), mas também
por corresponder ao modelo liberal em sua busca de expressão
para a pluralidade que compõe a sociedade civil.
(12)
A
mudança da função social da cultura, compreendendo
o significado da presença das massas na cidade, era pressentida
pelo jornal no sentido de sua integração, antes
da subversão. A intenção das Folhas ao
valorizar o aspecto imaginário era ampliar o seu alcance
no mercado, de uma forma a ressemantizar as demandas e expressões
sociais, garantindo sua hegemonia no mercado.
A
publicação, em especial, da Folha da Noite, era
moldada com elementos considerados populares, compreendidos
por sua heterogeneidade, diversidade de colunismo, aproximação
dos problemas que perpassavam o ambiente público, uso
da linguagem coloquial, amplamente adotada nas charges, volume
maior das coberturas esportivas e de imagens registrando o evento,
seja desenhos, seja fotografias, especialmente sobre o turfe,
futebol e as grandes competições que iniciam nesta
época, como a Mil Milhas de Interlagos e a 1a.Volta Ciclística
do Atlântico.
Embora
as manchetes pretendessem criar impacto sobre a opinião
pública, sobre assassinatos, grandes campanhas e desastres,
preparava-se um espaço no qual iria se desenvolver o
Notícias Populares, sem espreitar os clichês e
radicalismos adotados por este jornal que estaria ligado em
março de 1990 às Folhas.
Na
relação estabelecida por Martín-Barbero
(2003) sobre o populismo, considerado pelo autor como uma forma
de organização do poder que se relaciona a um
novo modo de existência popular. (13) Sua ambigüidade
se apresenta pelos limites do discurso personalista, que diz
fundar sua legitimidade na ascensão das aspirações
populares e que, mais do que uma estratégia a partir
do poder resulta em uma organização do poder que
dá forma ao compromisso entre massas e Estado.
A
busca pelo significado dos meios da comunicação
nos processos políticos, especialmente sobre o populismo,
definido como uma tentativa de "manipulação
das massas populares principalmente do setor urbano, com a intenção
de dissimular os insucessos sociais de quase duas décadas
de governos militares", (14) desencadeou a análise
de seu resgate, no início dos anos 80, desenvolvida por
José Marques de Melo. A atuação dos meios
de comunicação, nesse relacionamento é
considerada definitiva pelo professor na tentativa dos meios
de popularizar líderes políticos, buscando estabelecer
entre eles e seu público uma relação mais
direta e pessoal. (15)
O
fluxo humano resultante do processo migratório aliado
ao crescimento das comunicações e especialmente
da propaganda, incorpora valores de uma sociedade de consumo,
criando desejos e expectativas que exigiam pronta satisfação.
A vivência urbana foi se reestruturando com a presença
da massa, em um novo modo de morar na cidade, andar pelas ruas
e comportar-se.
Entretanto,
o crescimento da participação eleitoral, intensificada
pelo processo de urbanização foi também
acompanhada por uma notável expansão das comunicações:
se em 1920 possuíamos 35,1 % alfabetizados sobre a população
com 15 anos ou mais, com o número de eleitores no patamar
de 3,7% sobre a população total, em 1950 teremos
49,3% alfabetizados, com 22,0 % eleitores (51.944). (16)
Em
3 de outubro de 1950 aconteceram as primeiras eleições
gerais realizadas no Brasil, para os cargos de presidente, vice-presidente,
governador, vice-governador, senador e deputados estaduais.
Com o decisivo apoio do populismo de Adhemar de Barros, Getúlio
foi eleito. A oposição novamente de Eduardo Gomes,
com todo recurso da propaganda e das rádios, perdeu para
os caminhões equipados com alto-falantes e folhetos impressos
utilizados por Getúlio Vargas que obteve 48,7% da votação
total.
Definido
o quadro político Nabantino Ramos, consciente do poder
econômico e de influência na opinião pública,
inicia o processo de atualização do jornal na
própria estrutura interna do empreendimento.
Considera
necessário evitar "os abusos que tão freqüentemente
nela se cometem (...). Autodisciplina intelectual moral e formal,
dada previamente ao conhecimento público, para sanar
a inevitável ausência de disciplina legal".
(17) Centralizando o trabalho ao seu ver num "sincero
esforço, enfim, para abrir as cortinas que vedam o funcionamento
da Redação". (18)
A
marca de Nabantino Ramos ficaria na formação da
empresa industrial-burocrática possuindo uma relação
de trabalho voltado para o mercado, dessa forma o jornalista
era tratado como trabalhador com graus de produtividade conforme
sua produção e êxito evidenciada na repercussão
da matéria. Os descontentamentos gerados pelo sistema
de trabalho abalaram a relação entre Nabantino
e os jornalistas cresceram desencadeando a greve de 1961. Era
o limite para Nabantino que não conseguiu controlar os
protestos no próprio jornal. Em agosto de 1962 venderia
o jornal.
O trato com a Folha da Noite nos revelou um jornal dinâmico,
com algumas diferenças da Folha da Manhã, especialmente
quanto às primeiras páginas de ambos. A ênfase
permanecia nas seções de política e economia.
Imagens fotográficas se avolumam, publicadas nas duas
edições. Os jornais recebem subtítulos
e cores diferenciadas em seus logos a partir de 1951, como uma
estratégia de orientação do público
a que se destinam. A Folha da Manhã, "o matutino
de maior circulação" era identificado pela
cor preta, a Folha da Noite, "o vespertino dos lares",
era na cor azul e posteriormente a Folha da Tarde, "o vespertino
das multidões" recebeu a cor vermelha.
Sem
uma política definida para o aspecto da diagramação
gráfica, as mudanças ficavam atreladas ao ritmo
tecnológico e econômico. m 1958, a impressão
volta a ser feita nas cores originais de 1951, branco, preto
e azul. Surge o suplemento Folha Ilustrada, uma agenda que reunia
as discussões sobre a produção cultural,
com textos de especialistas e aliada à vocação
ao colunismo social presente nas páginas do jornal. O
jornal transforma-se numa empresa, ampliando seus negócios
com a formação da gráfica Impres e por
pouco tempo com a Rádio Excelsior, de 1948 a 1952. (19)
Não
possuímos dados precisos quanto o volume de suas vendas.
(20) Taschner aponta as referências que podemos
recorrer percebendo suas diferenciações. (21)
Na análise da média da venda dos jornais por banca
encontrados pela pesquisadora, aferimos que a Folha da Noite
supera o número da Folha da Manhã de 1958 a 1961,
com a média de 8,45 de vendas diária por banca,
embora o sucesso de vendas no mesmo período tenha permanecido
com o jornal Folha da Tarde, que vendia em média 68,25
a mais que a terceira edição do jornal. Nabantino
conseguiu dar uma dimensão empresarial ao jornal, mas
o consumo dos jornais pelo público ocorreu de maneira
diferenciada.
Os
temas voltam-se aos interesses das camadas médias, público-alvo
da publicação, priorizando seu discurso fiscalista.
As críticas a política de Vargas eram cada vez
mais contundentes no jornal, especialmente em "Imprensa
em Revista", coluna de Gondin da Fonseca, a primeira na
história das Folhas a tratar a abordagem dos acontecimentos
em diversos jornais e revistas. O suicídio do presidente
ecoou nas Folhas em sua dimensão social, embora após
o acontecimento, a coluna de Gondin deixou de circular.
Jânio
Quadros - a partir de sua eleição em 1953 como
prefeito de São Paulo - tornou-se centro de ataque do
periódico, evidenciando a opção do jornal
que via com certa desconfiança e receio o crescimento
eleitoral do político. As eloqüentes atitudes nas
campanhas e aura de intratável de Jânio, desestabilizando
qualquer sinal de equilíbrio do oponente e desafiando
a estrutura partidária, rompeu com a preconizada "ordem
social" defendida pelo jornal. Para as Folhas a utilização
das táticas próprias do discurso populista nas
campanhas era um artifício para a exclusão das
efetivas propostas sociais dos políticos.
Na
transição do governo para Juscelino Kubitschek,
as Folhas defenderam a legalidade, incentiva por sua campanha
pela utilização da cédula única.
Embora
tivesse simpatia com o discurso da UDN, ao assumir posições
políticas claras de apoio aos políticos que garantiriam
a "ordem" pelo continuísmo no poder, como Prestes
Maia, as Folhas divergiam do partido no reconhecimento do potencial
da massa urbana, consideradas pela UDN como uma ameaça
à estabilidade política.
Em
janeiro de 1960 a maior modificação ficou com
a união nominativa das edições - Manhã,
Tarde e Noite - que permaneceriam sob a denominação
Folha de S. Paulo, garantindo, segundo Nabantino, uma agilidade
e identificação maior por parte do público.
O
jornal torna-se mais sóbrio, seguindo o antigo padrão
da Folha da Manhã. Em abril de 1962 alcançava
a circulação média, diária de 177.061
exemplares, segundo o próprio Nabantino, modelo da moderna
empresa jornalística. (22) Em janeiro do mesmo
ano Nabantino redefine as edições, unindo-as à
antiga Folha da Manhã, mas manteve até o final
de sua direção, um conservadorismo sem grandes
arrojos financeiros, num mercado cada vez mais competitivo aberto
aos empreendimentos.
Bibliografia
MARTÍN-BARBERO,
J. Dos meios às mediações: comunicação,
cultura e hegemonia. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, 2003.
Trad. Ronald Polito e Sérgio Alcides. 2a e.
MARQUES
DE MELO, José. (Org.) Populismo e comunicação.
São Paulo: Cortez, 1981.
MOTA,
C. G.; CAPELATO, M. H. História da Folha de S.Paulo (1921-1981).
São Paulo:
IMPRES, 1981.
NOGUEIRA,
A. A. Um Juca na cidade: representatividade do personagem de
Belmonte, na imprensa paulistana (Folha da Manhã, 1925-1927).
Dissertação (Mestrado), São Paulo, I.A.,
UNESP, 1999.
Prontuário
Deops.
RAMOS,
J. N. Jornalismo: Dicionário Enciclopédico. São
Paulo: Ibrasa, 1970.
SARETTA,
F. Política econômica brasileira: 1946-1951. Araraquara:
FCL/Laboratório Editorial/UNESP. São Paulo: Cultura
Acadêmica, 2000.
TASCHNER.
G. Folhas ao vento: análise de um conglomerado jornalístico
no Brasil. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.
WEFFORT,
F. O populismo na política brasileira. In: FURTADO, Celso.
Brasil: tempos modernos. Rio de Janeiro: Paz e terra, 1979.
Acervos:
Folha de S. Paulo, Diário da Noite, Diário Popular
e Jornal de S. Paulo.
Notas
[1]
Por um curto período durante a Revolução
de 1924, na tentativa de burlar a repressão ao movimento
tenentista, a Folha da Noite passou a ser chamada Folha da Tarde.
[2]
DIÁRIO POPULAR. São Paulo, 22 jan. 1945, p. 16.
[3]
FOLHA DA NOITE. Seja breve. São Paulo, 16 jun. 1944,
p. 3.
[4]
LIMA, Octaviano Alves. Folha da Noite. São Paulo, 10
mar. 1945, p. 1.
[5]
Considerado um mestre do jornalismo, Sacchetta (1909-1982) colaborou
na formação de inúmeros profissionais e
na associação da imprensa diária e a divulgação
política. Foi preso político durante o Estado
Novo e depois detido em 1968. Cf. DEOPS. Prontuário n°
3196 de Hermínio Sacchetta.
[6]
GERTEL, Noé. Depoimento de Hermínio Sacchetta.
Folha de S. Paulo. São Paulo, 10 jan. 1979, p. 2. Série
Jornalistas Contam a História, v. 6.
[7]
A mensagem dos jornalistas das Folhas foi publicada no Diário
de São Paulo, 13 mar. 1945, p. 1. Lembramos que este
jornal era de propriedade do inimigo de Matarazzo, Assis Chateaubriand.
[8]
Cf. DEOPS. Prontuário n° 3196 de Hermínio
Sacchetta.
[9]
FOLHA DA NOITE. São Paulo, 6 out. 1948, p. 10.
[10]
TASCHNER, G. p. 93.
[11]
Aprovado pela Assembléia Geral Extraordinária,
em 3 de maio de 1948, e publicada na Folha da Noite. São
Paulo, 14 jun. 1948, p. 7
[12]
MARTÍN-BARBERO, J. p. 232.
[13]
MARTÍN-BARBERO, J. p. 232.
[14]
MELO, J. M., p.13 -14.
[15]
Idem, ibidem.
[16]
WEFFORT, F. p. 72.
[17]
RAMOS, J. N. p. 15.
[18]
Idem, ibidem.
[19]
TASCHNER, G. p. 66.
[20]
Não existem dados anteriores sobre a tiragem dos jornais,
só uma pequena amostragem das vendas na década
de 20, especificamente sobre os anos de 1926 e 1927, quando
constatamos o grande impulso financeiro originado das vendas
avulsas das Folhas. Cf. NOGUEIRA, A. A., p. 15.
[21]
TASCHNER. G. p. 77.
[22]
RAMOS, J. N. p. 14.
*Andréa
de Araujo Nogueira é Doutoranda na ECA/USP.
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