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Jornalismo
e apreciação de arte
A
Nova Crítica de Afrânio Coutinho
Por Marcelo Januário*
A
transformação crucial na recepção
e apreciação da arte já gerou muitas
polêmicas no país, sendo que o principal
protagonista de uma das mais barulhentas delas foi o professor,
crítico literário e jornalista baiano Afrânio
Coutinho (1911-2000). A controvérsia se inicia
em 1948 quando, após retornar de uma viagem aos
EUA durante a qual exerceu o cargo de redator-secretário
da revista Seleções do Reader's Digest em
Nova York, Afrânio Coutinho empreendeu na seção
"Correntes Cruzadas" (do Suplemento Literário
do Diário de Notícias do Rio de Janeiro)
uma campanha pela renovação da crítica.
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Reprodução

Afrânio Coutinho (1911-2000)
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Este
movimento ficou conhecida como "Nova Crítica",
ligado ao formalismo norte-americano do New Criticism, uma análise
estético-literária que floresceu entre os anos
40 e 60 e que privilegiava a ênfase apreciativa da obra.
Assim, em meados do século XX, esta era a definição
nada satisfeita de Coutinho para a crítica brasileira:
"(...)
crítica é aquela atividade que se exerce de
maneira sistemática e militante nos folhetins e rodapés
de jornais semanalmente, na maioria dos casos. Não
interessa o conteúdo. (...) No comum, ela consiste
em um longo artigo, em que um livro ou um autor servem de
pretexto para divagações mais ou menos pessoais
do 'crítico', a propósito ou à margem
do assunto tratado. Será possível, analisando-se
os exemplos mais típicos, reduzir a técnica
a uma fórmula ou nariz-de-cera que se ajusta, mais
ou menos, com algumas variantes, à maioria dos casos."
(Coutinho, 1975:59-60)
No
Brasil, onde supostamente a crítica correspondeu à
terceira fase do modernismo, Tristão de Athayde antecipou
a tendência da Nova Crítica ao defender em seu
livro "Afonso Arinos" (1922) o expressionismo crítico,
que consistia em privilegiar o objeto, a obra, e não
o sujeito, o crítico e suas impressões da obras.
Por esta ótica, a teorização da crítica
como disciplina científica batia de frente com a prática
de apreciação habitualmente realizada nos jornais.
A
nova crítica científica, assim como a crítica
erudita, não tinha mais espaço no jornalismo moderno
que emergia do pós-guerra, um modelo em transformação
que era impulsionado pelo rápido crescimento da indústria
de bens culturais e do público consumidor a abandonar
o caráter majoritariamente opinativo pelo informativo.
Era
nestes parâmetros que, já naquela época,
a crise da crítica se anunciava:
"Periodicamente,
surgem na imprensa lamentações pelo desaparecimento
da crítica, que não mais preenche sua função.
Os folhetins críticos escassearam, quase não
mais existem. A crítica legítima desertará
do jornal, refugiando-se nos órgãos especiais,
acompanhando a evolução dos estudos literários.
Não há mais clima para estes nos jornais, como
não há para a crítica erudita."
(Coutinho, 1975:14)
Tal
campanha pregava a renovação dos métodos
e processos da crítica, provocando reações
e controvérsias no ambiente letrado e jornalístico
nacional. O propositor Afrânio Coutinho foi acusado pelos
desafetos de ser inimigo das chamadas críticas de rodapé,
feitas principalmente em jornais e por jornalistas, ao aventar
a sua "extinção".
Na
verdade, se defendia Coutinho, a proposta era a reavaliação
da crítica de rodapé, que ele identificara com
o modelo do review anglo-saxão.
Os
ingleses e norte-americanos, conforme comprovou, tinham bem
clara a distinção entre "criticism"
e "review", ou seja, entre crítica e resenha:
"praticada na imprensa diária, a crítica
não podia deixar de sofrer a influência do espírito
ligeiro e superficial do jornalismo, o que lhe comunicou um
caráter circunstancial, aproximando-a do tipo do 'review'
dos ingleses e norte-americanos" (Cf. Coutinho, 1968).
Nos
EUA, comparava, não existe o rodapé nos jornais.
Existe o Review, que são seções de registro
de livros, e seus autores não são tidos como críticos.
Ainda mais que "nenhum grande crítico americano
assina uma seção permanente, diária, semanal
ou mesmo mensal de crítica".
Deixam
esta tarefa para os repórteres de livros, que enchem
as páginas dos jornais com as notícias de livros,
"mais ou menos encomendadas e controladas pelas casas editoras"
(Coutinho, 1969:22).
Entretanto,
por encarar a literatura com "um espírito de facilidade
e mercantilismo", o reviewer não é levado
a sério (muito menos reverenciado) por ninguém
no país-sede do capitalismo moderno, os Estados Unidos.
"Assim
o 'review' é um gênero jornalístico, é
um tipo de crítica aplicada à informação
jornalística. Parte da crítica, no sentido de
que o 'reviewer' deve ter experiência literária,
conhecer os problemas literários e críticos,
inspirar-se em cânones críticos, na avaliação
do livro. Mas o que ele faz no jornal, periodicamente, não
é crítica, embora isso não queira dizer
que ele não possa ser um crítico e fazer crítica
em outra ocasião. A crítica exige diferentes
métodos e critérios que tornam o seu resultado
incompatível com o exercício periódico
e regular em jornal, e mais incompatível com o próprio
espírito do jornalismo, que é informação,
ocasional e leve. A crítica é para 'scholars',
intelectuais; o 'review' é para consumo popular e por
isso deve ser legível e informativo." (Coutinho,
1975:79-80)
Pois
no Brasil, onde o universo intelectual girava em torno da literatura,
havia naquela época (talvez ainda hoje) a noção
de que crítica era o que os jornais traziam nos ditos
rodapés, impedindo o desenvolvimento da verdadeira crítica
literária científica.
O
sucesso público da resenha impressionista a tornava desde
o século XIX uma tradição arraigada na
imprensa brasileira, que não via com bons olhos a introdução
de novas exigências para a tarefa crítica.
Entretanto,
para Afrânio Coutinho o espírito do jornalismo
moderno já não comportava o antigo diletantismo
nem as necessidades da nova disciplina crítica especializada.
"Entre
nós, só se compreende como crítica a
que se exerce nos jornais, sob forma de rodapé, a respeito
dos livros publicados. É a fórmula francesa
do século XIX, (...) uma fórmula esgotada e
superada. No Brasil, apesar das queixas, só pouquíssimos
resistem ainda agora. O simples noticiário dos livros
das seções de colunismo a substituiu com mais
propriedade jornalística. Pois o moderno jornalismo,
trepi-dante e superficial, já não comporta os
longos rodapés nos quais os críticos se derramavam
sobre ou a propósito dos livros." (Coutinho, 1960:13)
Para
o crítico da crítica, no Brasil ela se reduzia
justamente ao subjetivismo dos rodapés, onde imperavam
os "crítico-jornalistas", diletantes da crítica
vindos de outras áreas que não as letras, em um
momento em que as faculdades de jornalismo, lembremos, ainda
estavam em estágio de implantação.
O
rodapé, um jogo arbitrário e de espírito
superficial, era por aqui a última palavra em crítica:
"a atividade jornalística de registro de livros,
em alguns casos exercida com inteligência e saber, que
se costuma batizar de crítica entre nós",
argumentava com pesar Afrânio Coutinho.
O
princípio norteador da renovação supunha
que a crítica e a resenha fossem formas de apreciação
ligadas e assemelhadas, mas não idênticas:
"Criticismo
é a crítica elevada, séria, técnica.
Review é a nota ligeira, jornalística, efêmera.
(...) Contudo não é jamais a crítica".
Assim, é necessária a separação
da grande crítica (feita em boas revistas literárias
e em estudos sérios) do rodapé, que invariavelmente
resulta em uma crítica "aleatória, inconsistente,
sem padrões nem guias, condicionada à impressão
pessoal, às flutuações dos motivos e
objetivos pessoais do autor, ao seu caráter, às
circunstâncias do ambiente em que ele se move, às
imposições de natureza extraliterária,
política ou social" (Coutinho, 1969:23).
Com
a evolução da área, eram necessários
novos métodos, critérios e códigos éticos,
longe "da improvisação irresponsável,
do enciclopedismo superficial, do comentarismo metido a crítica,
da ignorância feita padrão" que por aqui imperavam.
Para Coutinho, tradicionalmente nos jornais brasileiros escreviam-se
artigos paralelos e marginais, que não implicavam nem
a necessidade de se ler o livro.
Eram
opiniões feitas sem uma maior preparação,
à base do improviso, em suma, uma "crítica
opiniática do gostei-não-gostei ou do achismo,
ou do personalismo ou grupalismo das panelinhas ou dos partidos
políticos", que o autor identificava na maioria
dos críticos de jornal, na sua "atividade apressada"
(Cf. Coutinho, 1969).
Ademais,
não há meios de o comentarismo crítico
praticado pelos jornalistas ser embasado, pela natureza ágil
dos veículos, onde a pressa impede a fruição
completa das obras.
De
tal forma que, com a evolução técnica e
de conceitos pela qual passou a crítica, a antiga crítica
jornalística foi deslocada para a posição
de resenha, cujo traço distintivo seria a divulgação
editorial, tarefa onde o profissional tem que ser mais subjetivo,
mais expositivo, mais repórter.
O
jornalismo, por sua essência informativa, procura dar
conta de todas as manifestações que vêm
à tona e não deve, por isso, reivindicar a análise
crítica aprofundada. O artífice da campanha escreveu
em 1956:
"O
'reviewer' é um jornalista, trabalhando sobre um tipo
específico de notícia, o livro do momento. Enquanto
o crítico é um profissional especializado na
análise, interpre-tação e julgamento
da obra de arte literária, não pertencente a
nenhum tempo determinado porque é sempre sua contem-porânea.
O livro objeto do 'reviewing' pode morrer e jamais tornar-se
matéria para a crítica." (Coutinho, 1975:73)
Logo,
Coutinho não pregava, como o acusavam os opositores,
a destruição da crítica de jornal, que
considerava útil e necessária como notícia
jornalística. Era para atender a essa natureza noticiosa
do jornalismo moderno que os comentaristas deveriam se adaptar
às novas necessidades de um público leitor cada
vez mais volumoso.
Atacava
sim a autoridade com que os críticos-jornalistas revestiam
sua atividade na nova conjunção, os rodapés
que "não merecem o respeito e a veneração
de que são cercados, o prestígio que se lhes empresta",
já que o que fazem são meros registros de livros,
"sem nenhum valor de julgamento, nem para o bem nem para
o mal" (Coutinho, 1975:21).
Valor
de julgamento, eis uma chave para o problema da suposta crise
do jornalismo cultural. Para Coutinho, a crítica é
o exercício da capacidade julgadora, valorativa, uma
forma de arte, segundo os ensinamentos de Tristão de
Athayde e dos teóricos anglo-americanos.
Além
disso, a crítica de contemporâneos implica uma
série de condições de ordem moral, como
"equilíbrio interior, pureza de intenções,
fidelidade a certos princípios, honestidade de meios,
-sem as quais o crítico não passa de um fraseador
vulgar".
No
Brasil, entretanto, a crítica de rodapé estraga
a melhor vocação crítica, pois são
raros os que "resistam à tentação
do pedantismo, do dogmatismo, da compenetração,
raros os que não se deixam dominar pela noção
de auto-suficiência e de exagerada consciência de
si próprios que provém do prestígio do
rodapé" (Coutinho, 1975:20).
Para
corroborar sua tese de prestígio imerecido dos rodapés,
Coutinho recorre a Nelson Werneck Sodré que anteriormente
já havia desqualificado o noticiário adjetivado
como provincianismo fora da realidade, empenhado em "distribuir
adjetivos, classificando tais obras em boas, más, regulares"
(Coutinho, 1975:65).
Argumenta
que os rodapés não correspondem mais às
necessidades e sensibilidade do público atual, uma vez
que análises acuradas da natureza e finalidade do jornalismo
moderno mostraram que "o público não exige
os rodapés de crítica, nem sente falta deles,
com o seu desaparecimento dos grandes jornais".
Tal
necessidade reside doravante no comentário informativo
sobre os livros aparecidos, sobre o que acontece no mundo dos
livros, sobre a natureza deles, o assunto de que tratam, e notas
leves, informativas, deixando ao leitor o trabalho de ler e
de julgar o valor da obra (Coutinho, 1975:56-57).
No
limite, a crítica de rodapé seria uma comédia,
que não dialoga com os artistas e desinteressa os leitores,
confundindo a ambos. Além disso, muitas vezes resvalava
para o compadrismo, especialmente quando assinada por desconhecidos,
o que gerou a necessidade, depois adotada como padrão,
de indicação sobre a qualificação
do autor do texto.
Assim,
decretava o autor em sua coluna de 3 de julho de 1955:
"a
nossa superficialidade jornalística e a irresponsabilidade
gerada por nossa falta de consciência universitária,
fazem do julgamento crítico entre nós uma verdadeira
comédia, pelas contradições e o desencontrado
de seus pronunciamentos, desde o elogio rasgado à condenação
mais deslavada. O autor, desarvorado por juízos tão
opostos, fica sem saber quem é o idiota: se ele ou
os seus críticos. Mas uma certeza ele forma: a da inutilidade
da crítica." (Coutinho, 1975:42)
Portanto,
se o rodapé já não tinha qualquer utilidade
sequer para o leitor, a não ser como informação,
se o jornalismo moderno só admitia a resenha breve e
simples, superficial e efêmera, era para Coutinho um dever
público a sua inadiável abolição.
O
jornal, onde não mais havia espaço para a crítica
científica, não poderia pretender a avaliação
embasada das obras, desnecessária para o artista e indesejada
pelo público.
Deveria
assumir definitivamente a forma de lista de lançamentos,
sem pretensões críticas valorativas. Como conclusão
da campanha, o autor propunha a desmoralização
do rodapé: "Não se abandonem os folhetins,
mas atribua-se-lhes apenas a devida e modesta posição
de registro de livros. Não pensar neles em termos de
crítica, nem exigir deles a função que
a ela compete" (Cf. Coutinho, 1975).
Não
imaginava ele como este formato se prolongaria pelo século
afora em novas mutações da indústria e
do jornalismo. A tarefa histórica da Nova Crítica
se obliterou, mas a diferenciação que emergiu
há mais de meio século deste debate é clara,
e se os reclamadores do jornalismo cultural insistem hoje em
requerer consistência crítica da resenha, é
porque a distinção não é muito clara
nos trópicos, não a enfatizam suficientemente
ou a ignoram absolutamente.
Tal
fato, independentemente da veracidade dos motivos, não
justifica a hübris, a egolatria inercial, o personalismo
exacerbado, a falta de pesquisa, o texto medíocre, a
desídia e o despreparo intelectual, os interesses espúrios
e a promiscuidade com o mercado; Acusações recorrentes
dirigidas ao jornalismo cultural na passagem para o século
XXI.
Também
o compromisso público do jornalismo corre riscos, uma
vez que, ao tangenciar as idéias optando pelo comportamento,
os resenhistas fazem um resumo acrescido de senões e
impressionismos cujo resultado invariável acaba por ser
a desinformação do leitor sobre o que é
realmente bom, original e maduro.
Referências
bibliográficas
COUTINHO,
Afrânio. Crítica e Críticos. Rio
de Janeiro: Editora Organização Simões.
1960.
__________________.
Crítica e Poética. Rio de Janeiro: Livraria
Acadêmica, 1968.
__________________.
Da Crítica e da Nova Crítica. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 1975.
JANUÁRIO,
Marcelo. O Olhar Superficial: as transformações
no jornalismo cultural em São Paulo na passagem para
o século XXI. ECA/USP, São Paulo, 2005. Dissertação
de mestrado.
*Marcelo
Januário é mestre em jornalismo pela ECA/USP e professor
da UNIP/SP.
E-mail: <marceloj@eca.usp.br>.
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